Parece que Clint Eastwood reafirmou o seu republicanismo façanhudo (à
americana), desta vez defendendo o voto em Trump e desvalorizando as suas declarações
racistas. Isto é típico em Eastwood. Coisa atípica, se tivermos em conta as
habituais posições políticas do actor e realizador, foi o Gran Torino. Ou talvez não, talvez tenhamos de ver o filme de
novo. Possivelmente na primeira ocasião comovemo-nos com a já respeitável idade
do homem ou iludimo-nos com a (nossa) muita humana vontade de redenção.
Julgávamos que o envelhecimento lhe amolecera o músculo cardíaco e temperara as
ideias, mas provavelmente Clint Eastwood não deixara de ser Dirty Harry e Gran Torino é bom mas hipócrita — ou nós vimo-lo
mal.
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Punk is dead
Cruzei-me esta noite sem saber com Pedro Passos Coelho, essa nefanda
personagem da política portuguesa. Apertei a mão de uma das pessoas que o
acompanhava, mas não reparei no resto do trio. Quando me alertaram, já
ele ia ao fundo da rua, era tarde para mudar de passeio ou lhe dizer qualquer
coisa sentida.
Foi melhor assim. A rua não tinha passeios — e talvez eu deva conceder-me uma réstia de respeitabilidade social.
Por outro lado, tendo em conta que a minha espontaneidade costuma ser
de tendência cortês, foi bom não termos estado ao alcance de um braço. Ele provavelmente
tê-lo-ia estendido imitando o nosso conhecido comum ou por defeito da única profissão
que exerceu. Eu, ao invés de envergonhar todos os outros deixando a mão junto
ao corpo, ter-me-ia porventura envergonhado a mim mesmo correspondendo ao gesto.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Sanções e Sansões
Ninguém verdadeiramente franco absolve Portugal e os
portugueses da soma de erros de gestão que nos expuseram ao pós crise de 2008.
Era voz comum do povo nas décadas de 80 e 90 do século XX que «ainda havemos de
amargar isto». «Isto», como todos o que não viveram em Marte nesse tempo se
lembram, eram os subsídios da CEE e as políticas com eles relacionadas.
Portugal não foi apenas desprevenido e crédulo — foi em parte mandrião e, fraco
elogio, bastamente chico-esperto.
Acontece que a União Europeia — e, por isso, os países que
determinaram, condicionaram ou avalizaram as políticas — , não ignorava o que
se passava e, pelo contrário, em muitos aspectos o estimulou ou mesmo concebeu.
Fazia parte do «acordo» europeu Portugal ser assim: pouco produtor e sobretudo
consumidor. Passivo.
Ora, as manigâncias que fizeram de 2008 uma data a reter nos
anais da História, e que na verdade tiveram pouco que ver com os tugas, levaram
a um rearranjo apressado da coisa europeia. De repente, o ecossistema já não
era estável e solidário ou subsidiário, cada parte dele tinha de se valer a si
mesma. Portugal fora portanto duplamente estúpido: pela maneira frequentemente estroina
como fez a vidinha e pela postura imprevidente que escolheu no seio do clube
europeu.
Dito isto, o actual jogo das sanções é tristemente
previsível. A União que deixou sair a Inglaterra por ser incapaz de se reformar
ou de se assumir, a mesma compungida União que no dia seguinte reuniu ressabiadamente
a seis, a União que desenhou programas de austeridade fracassados, anda agora a
ameaçar as suas partes fracas, como de resto tem feito desde 2008. Isso fá-la
sentir-se forte, rigorosa e eficaz. É um fetiche, claro. E qualquer um que tenha
visto «‘Allo, ‘Allo!» sabe como os teutónicos são fetichistas.
Também fetiche é, internamente, a prosa dos nossos jornais
de direita (quase todos, actualmente) e dos respectivos escribas. O Observador e João Miguel Tavares
precisam das ameaças de sanções para continuarem a parecer argutos e responsáveis.
Cada adiamento é uma bolsa de oxigénio. Porque para o Observador e JMT mais importante do que o país, a sobrevivência do
país na sequência deste rol de culpas internas e externas, é terem razão —
terem razão à direita, que quase sempre significa ter razão contra os mais
fracos. Todos sabem que a aplicação ou não aplicação de sanções tem mais que
ver com os apetites e os ânimos em Bruxelas ou em Berlim do que com qualquer
racionalidade intrínseca da coisa europeia, mas Tavares & Companhia
insistirão, teimosamente — porque, uma vez vestida a fardamenta da moralidade unívoca,
os tecidos agarram-se à pele.
Não há que os defenestrar, estes nossos Vasconcelos, tanto
porque a espaços é preciso ouvi-los (conceda-se-lhes isso) como porque não se
prevê que cair de costas no lajedo os ajude no desfardamento. Só caindo-lhes o
lajedo em cima.
sábado, 25 de junho de 2016
Escrita
O escritor Zoran Zivkovic diz, e eu concordo, que «o melhor curso de escrita criativa é a leitura criativa».
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.
Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.
Ler, ler, ler e só depois, se ainda tiver ficado intacta alguma veleidade, tentar escrever.
Acresce que geralmente os candidatos a escritor precisam é de um curso de escrita. Ponto.
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Brexit
A saída da Inglaterra da União Europeia poderia ser o abanão necessário para que a União Europeia voltasse a ser “grande” (para usar terminologia trumpiana, mas mais modestamente aplicada a uma Europa unida, solidária, corajosa, com memória dos seus valores fundamentais, política e economicamente inteligente). Seria porém estúpido esquecermo-nos dos motivos que levaram a maioria dos ingleses a votar a saída e do discurso e perfil dos líderes que os orientaram nesse voto. E aí temo que o que estamos a observar é, sim, mais uma sinistra evocação do pior da Europa, as primeiras décadas do século XX. Os populismos de vária índole, os regionalismos patetas e acríticos, os nacionalismos a descambarem em chauvinismo, a xenofobia… Agora, mais do que nunca nas últimas décadas, é adequado lembrar que também Hitler teve do seu lado a grande maioria da população e nem por isso seria correcto chamar ao 3.º Reich democracia. Infelizmente, para muitos, nos vários níveis e estâncias de poder, a adesão popular ao nazismo (que, como o Brexit, também roubou votos ao socialismo da altura) não é já uma vergonha histórica mas uma lição de táctica.
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.
Perdoar-me-ão o pessimismo, mas não, não será com as actuais gerações de políticos e eleitores que a Europa voltará às lições da Segunda Guerra Mundial para se tornar melhor. Há cem anos havia uma reserva de gente decente, com um sentido de ética e sobretudo com uma influência social que hoje, da província às grandes urbes, não se vê por onde ande.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Being a hooligan
Por falar em aparências, um mundo liderado por Donald Trump (nos EUA) e Boris Johnson
(em Inglaterra) teria uma certa coerência — ideológica, sim, mas sobretudo estética.
Quem sabe não se revitalizava uma profissão em decadência a partir de meados de
Setecentos, quando o Barroco foi deixando de estar na moda: a dos peruqueiros.
Já estou a imaginar slogans profilácticos nas montras da Baixa e do Observador: «Proteja as suas ideias das
correntes de ar fresco: cubra-as com a melhor palha do Kansas».
Estou de acordo, não se deve argumentar contra alguém com
base nas suas características físicas. Mas o penteado destes dois faz por opção
própria parte da sua facúndia. Por isso, não se chega ao âmago do pensamento deles
sem penetrar na selva do couro cabeludo e sem cravar a picareta nas zonas mais
profundas do rizoma.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
O ogre republicano
O republicano Paul Ryan, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, resistiu
mas lá acabou por declarar o seu apoio a Donald Trump. Disse: «Não é segredo
nenhum que ele e eu temos divergências (…) Mas a realidade é que, naquilo que
define a nossa agenda política, temos mais em comum do que desacordos.»
A realidade é que já sabíamos disso. O ogre republicano existe e medra independentemente
do penteado de quem lidera.
domingo, 5 de junho de 2016
Avaliar pelas aparências
Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os
concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando
que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes
lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de
ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a
resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo
parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não
há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando
o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar
de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o
próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.
Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser
concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse
de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências,
este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar
as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o
apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado.
domingo, 22 de maio de 2016
sábado, 7 de maio de 2016
“Não se vive impunemente, não se escreve impunemente"
O tema da segunda mesa do Encontradouro, ontem, era "Não se vive
impunemente, não se escreve impunemente". Aceitei o mote, mas não sei se
para falar dele, se para fugir dele.
Que não se vive impunemente percebemo-lo de
tempos a tempos quando nos olhamos ao espelho ou nos introspeccionamos e vemos
o que os anos nos fazem. «Viver mata», diz o aforismo jocoso (não sei se
apócrifo), e mata mais do que o tabaco, porque há mais gente a viver do que a
fumar. A prova de que viver mata descobrimo-la depois de termos vivido uma boa quantidade
de anos. Quando somos novos, como ainda vivemos pouco, temos a sensação não
ponderada de que vamos viver para sempre, e naquela altura isso é verdade. Só
depois de termos vivido, mal ou bem, é que descobrimos que não, que não vamos
viver para sempre, que vamos morrer, que estamos já a morrer, que não se vive
impunemente (lá está). Teríamos optado por não viver caso soubéssemos então que
iríamos começar a morrer? Eis uma pergunta que não faz sentido nenhum. Só se
descobre a morte, só se descobre intelectualmente a morte, depois de ter vivido
algum tempo com essa consciência de ter vivido, seja um ano sejam dez. Há quem
a descubra cedo, porque, em determinadas circunstâncias, perante determinados
factos cruéis, pode-se viver muito em pouco tempo. E, quem nos pune por viver,
não conta o tempo em anos, mas pelo tamanho do vivido.
Em certos locais, antigamente, as crianças
que morriam eram vestidas de anjos no seu funeral e isso estava certo, porque
não tinham estado por cá o suficiente para serem punidas, eram inocentes por
ausência de vivido. Viver é o que implica punição, não necessariamente os
pecados que cometemos. É como se nos dessem um dom e com ele a correspondente
maldição. Vives, mas morres, vais morrendo até ao fim. E, quanto mais
consciência tiveres de que vives, mais próximo estás do fim da impunidade. Quando,
mais do que a viver, começas a pensar que vives, tem início a punição.
Há quem pareça viver impunemente porque, por
estultícia ou por disciplina mental, se dedica a viver sem pensar na vida, no
seu sentido e nas suas implicações morais. Chamamos-lhes pejorativamente néscios
ou eternos adolescentes egoístas. Mas esta condescendência ou desprezo escondem
inveja, porque no fundo todos gostaríamos de passar pela vida com o mesmo grau
de inconsciência ou insensibilidade. Não, não com o mesmo grau, porque na
verdade prezamos o saber que viver-a-pensar-na-vida nos trouxe. Isto é também
uma forma de punição: estimarmos tanto a consciência que temos da pena como a
vontade de a ignorar. Mas não há retrocesso, não se vive impunemente, depois de conhecer não se apaga o
conhecimento senão por acidente neurológico, automedicação narcótica ou visitas
frequentes ao bar. Raramente nos tornamos estúpidos (logo, felizes) ou cínicos
(a forma racional de procurar a impunidade) se o não tivermos sido desde
sempre.
O que tem isto da vida a ver com a escrita?
Na maior parte das vezes, escrevemos depois de viver. (Por vezes fazemo-lo
antes, e isso dá uns livros patetas que, não raro, são editados. E lidos. E,
por patetice igual, apreciados.) Escrever depois de viver (ou pelo menos
enquanto se vive, nunca antes) é a
condição essencial do escritor que leva a sério o ofício — se me for permitida
esta arrogância prescritiva —, e é frequentemente a punição. Um tipo vive, tem consciência que vive — logo, tem
consciência que morre — e bota-se a escrever como um condenado, com o mesmo
grau de melancolia por ver as horas passar lentamente aos quadradinhos ou de
desespero, por as ver passar com velocidade estentórea, incontidamente.
Escrever pode ser a canga que nos faz vergar
a cerviz sobre a mesa ou sobre o laptop
e ruminar acerca da vida e do absurdo de uma existência decídua, caduca como belas
mas efémeras folhas de ácer ou de carvalho.
Não se escreve impunemente porque não se vive
impunemente.
Mesmo nos casos em que a punição da escrita é
de um teor mais literal (ou medieval), nos casos em que a escrita é punida por
delito de opinião, em ditadura ou em democracia (cada sistema tem a sua maneira
de punir a escrita, quebrando ossos ou ostracizando), dizia que mesmo nos casos
em que a escrita é punida à boa velha maneira da Inquisição, houve crime de viver antes de haver crime de escrever. Raramente os néscios
ou os cínicos são alvo de punição pelo que escrevem (nos casos em que
escrevem). Os néscios são por natureza felizes em ditadura como em democracia,
logo nunca escrevem nada que chegue aos coronéis da censura. Os cínicos têm
mais aptidão para chocar as pessoas de senso do que os poderes de serviço, pelo
que resultam em geral impunes. São os que se defrontam com os dilemas da vida,
os que não vivem impunemente, ou
seja, alheios à vida, que correm o risco da escrita punível. Escrever alguma
coisa incómoda pode ser apenas um corolário de escrever alguma coisa com vida.
Claro que escrever pode ser também acção de
um sobrevivente gene grego: uma catarse que fazemos em público, com máscaras
que nos amplificam a voz, para exorcizar mágoas ou raivas. Neste caso usamos a
escrita como escudo, como instrumento para tentar deter a passagem ou os
efeitos da passagem do tempo. É inútil — sabemo-lo logo que deixamos de ser
adolescentes que fazem sonetos —, e é quando sabemos que a catarse é inútil que
este género de escrita pode ter proveito: uma escrita ainda pungente, mas já
não ridícula; lírica, mas não sentimental; melancólica em vez de melodramática.
Não ganhamos impunidade com a catarse (não há impunidade fora da política ou do
dinheiro), mas talvez um breve alívio ou um breve contentamento estético. O
contentamento estético é a única forma que temos de acreditar por instantes que
detemos a passagem do tempo ou os danos da vida.
Se eu estivesse designado para a 5.ª mesa,
amanhã (a mesa que tem como tema “Se não há gozo a Literatura é uma actividade
insuportável”), a minha intervenção teria uma tónica
diferente. Em vez de estar para aqui a falar dos malefícios de escrever e estar
vivo (mesmo sem tabaco), estaria a ler-vos um texto sobre o gozo que a
literatura dá quando não se torna uma actividade insuportável. A forma de
evitar que a literatura seja insuportável (para os que têm a pretensão de a
escrever) começa por aceitarmos como coisa boa não a condição de escritor, mas
os temas que nos dão, ou os temas que nos inspiram. O tema é frequentemente uma
mera desculpa para encarrilar palavras, por isso não há que censurar nenhum
tema a priori. Nem o desta mesa.
Talvez eu preferisse escrever sobre o gozo
que a literatura dá (e nesse caso teria de falar também, ou sobretudo, como
leitor), mas o gozo não se retira de o mencionar. Não nos rimos por escrever a
palavra riso. Rimo-nos se juntarmos
algumas palavras de forma cómica, assim como temos gozo a juntar palavras por
vezes de forma inesperada ou até absurda. E esta é outra forma de lembrar que
não se escreve impunemente. A escrita, lamento se com isto desiludo alguém,
pode ser um irresistível exercício lúdico, mesmo se em tom dramático ou solene.
Por vezes, se não nos vigiamos, damos por nós apenas a procurar formas engenhosas de juntar palavras e não tentar
formas sublimes de dizer coisas elevadas. As palavras, tinham alguma razão os
formalistas e os estruturalistas, são magnéticas, atraem-se umas às outras,
estão ligadas como o Universo na Teoria das Cordas, levam-nos a dizer o que não
esperávamos dizer tão-só pelo gozo fonético, lexical ou semântico. O
vocabulário é uma armadilha, os campos lexical e semântico são campos minados.
Quando por vezes pensamos que progredimos num texto e numa ideia estamos apenas
às voltas com declinações. Uma metáfora é um atoleiro: caímos nele e, à força
de esbracejar, frequentemente afundamo-nos sem dele sair, passamos para o
atoleiro ao lado e depois para outro sucessivamente, como o nadador de John
Cheever, antes de concebermos o deus
ex-machina que dali nos tire (nem sempre conseguimos sair de forma natural
ou sem ajuda e por vezes saímos apenas para descobrir que nada do que fizemos
antes tinha qualquer sentido; como o nadador de John Cheever). Se escolhemos
uma imagem ou uma associação, uma comparação, podemos descobrir, páginas
depois, que falámos de muitas coisas por aquilo que as palavras nos sugeriram e
não necessariamente pelo que a ideia inicial nos incumbira.
Tomemos o exemplo deste texto: muito mais do
que um breve testemunho pessoal sobre o tema desta mesa transformou-se
visivelmente num exercício acrobático com palavras-malabares — e tantas delas caíram
ao chão desastradamente.
Talvez haja muitas razões porque não saímos
impunes da escrita, são várias as consequências possíveis — consequências emocionais ou psicológicas:
podemos ter saudades de um personagem que deixámos num livro, chorar outro que
matámos, ficar perturbados pelo que descobrimos de um terceiro e com a forma
como isso afectou a nossa vida e a ideia que temos de nós próprios ou de alguém
que amamos; consequências sociais ou físicas:
quando uma escrita mais incisiva nos recompensa com um ror de insultos,
infâmia, ou uma carga de porrada de alguém ofendido; consequências financeiras e biológicas: se resolvemos largar tudo
para viver da escrita, que neste caso é geralmente sinónimo de ar…
Mas os vícios também não deixam a escrita
ficar impune. O vício do jogo é muitas vezes uma tragédia, como se sabe. Leva
pessoas à falência e a serem ostracizadas. O jogo com as palavras não corre
menores riscos. Se eu, que já sinto suficientemente a punição, persistisse
neste caminho mais uma página ou duas, teria com certeza consequências
financeiras: o auditório sentir-se-ia compelido a punir-me não comprando nenhum
dos livros que tenho aqui à venda. Termino, por isso, esperando sem confiança ir
ainda a tempo de ser reconhecido um mérito a este texto: o de ser curto.
www.encontradouro.pt
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segunda-feira, 2 de maio de 2016
segunda-feira, 18 de abril de 2016
A luta de Churchill e a luta de Hitler
Nos tempos que correm, parece boa ideia revisitar as Memórias da II Guerra Mundial, de
Winston Churchill. A direita, porém, que costumava andar de boca cheia com citações
ou episódios churchillianos, parece não achar o mesmo. Veja-se que simpatias
tem a direita, que líderes e discursos aplaude, que condescendência selectiva
pratica, que cinismo cultiva — da Alemanha à Inglaterra, da América ao Brasil,
passando pelas colunas do Observador.
Se não houvesse hoje razões ideológicas para rejeitar a direita, haveria as
companhias que ela escolhe.
Em 2016 cessaram os direitos autorais sobre Mein Kampf — que a Baviera assumira depois do final da guerra e da
morte de Hitler — e o Instituto de História Contemporânea de Munique-Berlim editou uma versão crítica com 3.500 notas que é já um best-seller. Inúmeros países querem os direitos de tradução
(para já negados).
Segundo os editores, o perfil do comprador é de pesquisadores e pessoas
interessadas em História. Talvez seja assim, mas não custa imaginar a direita a
contribuir para o sucesso de vendas do calhamaço apenas para questionar o rigor das notas. É, desconfio, uma
ocupação intelectual que muitos preferirão a, por exemplo, reflexões sobre a mestria na descrição histórica e biográfica
e sobre a brilhante oratória na defesa de
elevados valores humanos que o comité do Nobel viu nos escritos de Churchill.segunda-feira, 11 de abril de 2016
Enologia da arte
A comédia ligeira autopromove-se em tempos de crise dizendo
que as pessoas precisam de se distrair das dificuldades da vida. Por outro
lado, se os dias vão soalheiros e fecundos, a comédia ligeira quer também ser
dominante, porque num tal mundo de felicidade seria funesto ter outra atitude
que não a do riso leve e fácil.
A comédia ligeira quer, enfim, ser como o vinho, que se bebe
para esquecer e para celebrar, por depressão e alegria.
Não interessa à comédia ligeira que, tirando certo tipo
irrecuperável de bêbados, as pessoas prefeririam um vinho bom e distinto — caso
o pudessem provar, diferenciar e adquirir — à zurrapa corriqueira que por força consomem. Só bebe mau vinho quem não pode beber outro. Ou, por tradicional teimosia
e orgulho besta, quem o produz. Unipessoal ou cooperativamente.
sexta-feira, 18 de março de 2016
terça-feira, 15 de março de 2016
Os marados eucaliptos alentejanos
Passada a histeria dos pirómanos, pode-se debater civilizadamente o livrito ridículo (por pretensioso) de Henrique Raposo.
«Apesar de não ser um retrato do Alentejo, de estar muito longe disso, Alentejo prometido é um livro bem escrito e desenvolto, pesem expressões como “o odor a haxixe dos eucaliptos” (ou o autor não cheirou haxixe ou não conhece o cheiro dos eucaliptos).»
«As generalizações, feitas a partir de umas quantas conversas familiares e de outras tantas observações recolhidas em viagens de automóvel (a propósito da ida a um casamento) numa área geográfica do Alentejo litoral — não muito afastada do triângulo entre Ermidas do Sado, Santiago do Cacém e Cercal —, chegam a ser risíveis.»Artigo de José Riço Direitinho: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alentejo-retrato-desfocado-1726095
quarta-feira, 2 de março de 2016
Considerações sobre a intifada
1. Há anos um jornalista espanhol em viagem que atravessou Portugal de
norte a sul escreveu um livro com as suas impressões e calhou de considerar
horrível a capela que, na sua de facto pouca lindeza, vigia do alto uma das
terras onde vivi. Não era ainda o tempo das redes sociais, mas já havia
indignação na paróquia contra o espanhol, e se ele tivesse a má ideia de voltar
ali, dificilmente passaria sem uma reprimenda.
Em Portugal as pessoas orgulham-se de tudo e sobretudo de nada, e a
circunstância, para a qual por definição nada contribuíram, de terem nascido em
determinada província ou país, que com frequência execram ou desonram, consegue
por vezes transformá-las em espantosos chauvinistas. Raramente ou nunca se unem
para salvar um monumento, reconstruir uma escola ou homenagear quem realmente sobressaia
da mediania, mas entrelaçam de imediato os braços numa frente tribal contra o
infeliz que se dê ao trabalho de achar menos perfeito o habitat delas.
2. O cronista Henrique Raposo escreveu um livro onde decidiu separar-se
da sua terra natal, o Alentejo. (Ninguém se devia admirar que Raposo mais cedo
ou mais tarde levantasse um idiossincrático e repreensor dedo ao velho Alentejo
vermelho. O complexo de Édipo que a todos nos pisca o olho não poderia deixar
de ter nele e na sua ideológica condição uma particular influência.)
Henrique falou do livro numa entrevista, onde expôs mágoas, desilusões
e ressentimentos que o livro desenvolve. Foi duro e teve reacções, como é
natural. Só que as reacções, neste país de facções e claques e raciocínio hooligan que o futebol moldou,
rapidamente se transformaram em urros, vontade de linchamento e desfalecimentos
pirómanos. O autor foi ameaçado e o livro alvo de petições incineradoras. O direito
e a civilização a ele associada, se tivessem de ser inventados agora e em Portugal,
jamais veriam a existência, mas Fahrenheit
451 ou qualquer distopia que envolva fascistóides massas acéfalas e
enfileiradas são ficção apenas por acaso e provisoriamente.
P.S.: Intifada à parte, parece-me compreensível mas noutro contexto
deslocada a generosidade de evocar Com Os
Holandeses, de Rentes de Carvalho, a propósito do livro de Henrique Raposo,
como fez Bruno Vieira Amaral: há um tom irritante de cátedra e ciência ou moral
certa em Raposo que não me lembro de ter notado em Rentes.
terça-feira, 1 de março de 2016
Um drama social
A loja de conveniência é o seu ponto de encontro e os seus
hábitos um drama social. Chegam e raspam com impaciente mestria, usando em
gestos rápidos a moeda como o cartão de crédito de quem emparelha linhas para
nasalar na superfície vidrada do balcão. A fúria com que rasgam o papelucho sem
prémio é a mesma de quem despedaça as contumazes protecções das rolhas quando
estas, pela sua resistência procrastinadora, obrigam a que a vital respiração
do vinho se faça logo boca a boca.
São uns viciados, sim. E, porque alardeariam um milhão como
alardeiam os 50 euros que às vezes lhes calham, não há esperança de que adiram voluntariamente
a um grupo de milionários anónimos.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
A Origem do Ódio
Começou como um projecto de novela de Verão e talvez não
tenha saído assim tanto dos eixos. Vende-se para já nas livrarias Pó dos
Livros, Letra Livre e Traga-Mundos. Também pode ser encomendada pelo e-mail edlinguamorta@gmail.com. A capa
é do Paulo Araújo. A mesa é do Bebedouro.
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