sábado, 7 de maio de 2016

“Não se vive impunemente, não se escreve impunemente"

O tema da segunda mesa do Encontradouro, ontem, era "Não se vive impunemente, não se escreve impunemente". Aceitei o mote, mas não sei se para falar dele, se para fugir dele.

Que não se vive impunemente percebemo-lo de tempos a tempos quando nos olhamos ao espelho ou nos introspeccionamos e vemos o que os anos nos fazem. «Viver mata», diz o aforismo jocoso (não sei se apócrifo), e mata mais do que o tabaco, porque há mais gente a viver do que a fumar. A prova de que viver mata descobrimo-la depois de termos vivido uma boa quantidade de anos. Quando somos novos, como ainda vivemos pouco, temos a sensação não ponderada de que vamos viver para sempre, e naquela altura isso é verdade. Só depois de termos vivido, mal ou bem, é que descobrimos que não, que não vamos viver para sempre, que vamos morrer, que estamos já a morrer, que não se vive impunemente (lá está). Teríamos optado por não viver caso soubéssemos então que iríamos começar a morrer? Eis uma pergunta que não faz sentido nenhum. Só se descobre a morte, só se descobre intelectualmente a morte, depois de ter vivido algum tempo com essa consciência de ter vivido, seja um ano sejam dez. Há quem a descubra cedo, porque, em determinadas circunstâncias, perante determinados factos cruéis, pode-se viver muito em pouco tempo. E, quem nos pune por viver, não conta o tempo em anos, mas pelo tamanho do vivido.
Em certos locais, antigamente, as crianças que morriam eram vestidas de anjos no seu funeral e isso estava certo, porque não tinham estado por cá o suficiente para serem punidas, eram inocentes por ausência de vivido. Viver é o que implica punição, não necessariamente os pecados que cometemos. É como se nos dessem um dom e com ele a correspondente maldição. Vives, mas morres, vais morrendo até ao fim. E, quanto mais consciência tiveres de que vives, mais próximo estás do fim da impunidade. Quando, mais do que a viver, começas a pensar que vives, tem início a punição.
Há quem pareça viver impunemente porque, por estultícia ou por disciplina mental, se dedica a viver sem pensar na vida, no seu sentido e nas suas implicações morais. Chamamos-lhes pejorativamente néscios ou eternos adolescentes egoístas. Mas esta condescendência ou desprezo escondem inveja, porque no fundo todos gostaríamos de passar pela vida com o mesmo grau de inconsciência ou insensibilidade. Não, não com o mesmo grau, porque na verdade prezamos o saber que viver-a-pensar-na-vida nos trouxe. Isto é também uma forma de punição: estimarmos tanto a consciência que temos da pena como a vontade de a ignorar. Mas não há retrocesso, não se vive impunemente, depois de conhecer não se apaga o conhecimento senão por acidente neurológico, automedicação narcótica ou visitas frequentes ao bar. Raramente nos tornamos estúpidos (logo, felizes) ou cínicos (a forma racional de procurar a impunidade) se o não tivermos sido desde sempre.

O que tem isto da vida a ver com a escrita? Na maior parte das vezes, escrevemos depois de viver. (Por vezes fazemo-lo antes, e isso dá uns livros patetas que, não raro, são editados. E lidos. E, por patetice igual, apreciados.) Escrever depois de viver (ou pelo menos enquanto se vive, nunca antes) é a condição essencial do escritor que leva a sério o ofício — se me for permitida esta arrogância prescritiva —, e é frequentemente a punição. Um tipo vive, tem consciência que vive — logo, tem consciência que morre — e bota-se a escrever como um condenado, com o mesmo grau de melancolia por ver as horas passar lentamente aos quadradinhos ou de desespero, por as ver passar com velocidade estentórea, incontidamente.
Escrever pode ser a canga que nos faz vergar a cerviz sobre a mesa ou sobre o laptop e ruminar acerca da vida e do absurdo de uma existência decídua, caduca como belas mas efémeras folhas de ácer ou de carvalho.
Não se escreve impunemente porque não se vive impunemente.
Mesmo nos casos em que a punição da escrita é de um teor mais literal (ou medieval), nos casos em que a escrita é punida por delito de opinião, em ditadura ou em democracia (cada sistema tem a sua maneira de punir a escrita, quebrando ossos ou ostracizando), dizia que mesmo nos casos em que a escrita é punida à boa velha maneira da Inquisição, houve crime de viver antes de haver crime de escrever. Raramente os néscios ou os cínicos são alvo de punição pelo que escrevem (nos casos em que escrevem). Os néscios são por natureza felizes em ditadura como em democracia, logo nunca escrevem nada que chegue aos coronéis da censura. Os cínicos têm mais aptidão para chocar as pessoas de senso do que os poderes de serviço, pelo que resultam em geral impunes. São os que se defrontam com os dilemas da vida, os que não vivem impunemente, ou seja, alheios à vida, que correm o risco da escrita punível. Escrever alguma coisa incómoda pode ser apenas um corolário de escrever alguma coisa com vida.

Claro que escrever pode ser também acção de um sobrevivente gene grego: uma catarse que fazemos em público, com máscaras que nos amplificam a voz, para exorcizar mágoas ou raivas. Neste caso usamos a escrita como escudo, como instrumento para tentar deter a passagem ou os efeitos da passagem do tempo. É inútil — sabemo-lo logo que deixamos de ser adolescentes que fazem sonetos —, e é quando sabemos que a catarse é inútil que este género de escrita pode ter proveito: uma escrita ainda pungente, mas já não ridícula; lírica, mas não sentimental; melancólica em vez de melodramática. Não ganhamos impunidade com a catarse (não há impunidade fora da política ou do dinheiro), mas talvez um breve alívio ou um breve contentamento estético. O contentamento estético é a única forma que temos de acreditar por instantes que detemos a passagem do tempo ou os danos da vida.

Se eu estivesse designado para a 5.ª mesa, amanhã (a mesa que tem como tema Se não há gozo a Literatura é uma actividade insuportável), a minha intervenção teria uma tónica diferente. Em vez de estar para aqui a falar dos malefícios de escrever e estar vivo (mesmo sem tabaco), estaria a ler-vos um texto sobre o gozo que a literatura dá quando não se torna uma actividade insuportável. A forma de evitar que a literatura seja insuportável (para os que têm a pretensão de a escrever) começa por aceitarmos como coisa boa não a condição de escritor, mas os temas que nos dão, ou os temas que nos inspiram. O tema é frequentemente uma mera desculpa para encarrilar palavras, por isso não há que censurar nenhum tema a priori. Nem o desta mesa.
Talvez eu preferisse escrever sobre o gozo que a literatura dá (e nesse caso teria de falar também, ou sobretudo, como leitor), mas o gozo não se retira de o mencionar. Não nos rimos por escrever a palavra riso. Rimo-nos se juntarmos algumas palavras de forma cómica, assim como temos gozo a juntar palavras por vezes de forma inesperada ou até absurda. E esta é outra forma de lembrar que não se escreve impunemente. A escrita, lamento se com isto desiludo alguém, pode ser um irresistível exercício lúdico, mesmo se em tom dramático ou solene. Por vezes, se não nos vigiamos, damos por nós apenas a procurar formas engenhosas de juntar palavras e não tentar formas sublimes de dizer coisas elevadas. As palavras, tinham alguma razão os formalistas e os estruturalistas, são magnéticas, atraem-se umas às outras, estão ligadas como o Universo na Teoria das Cordas, levam-nos a dizer o que não esperávamos dizer tão-só pelo gozo fonético, lexical ou semântico. O vocabulário é uma armadilha, os campos lexical e semântico são campos minados. Quando por vezes pensamos que progredimos num texto e numa ideia estamos apenas às voltas com declinações. Uma metáfora é um atoleiro: caímos nele e, à força de esbracejar, frequentemente afundamo-nos sem dele sair, passamos para o atoleiro ao lado e depois para outro sucessivamente, como o nadador de John Cheever, antes de concebermos o deus ex-machina que dali nos tire (nem sempre conseguimos sair de forma natural ou sem ajuda e por vezes saímos apenas para descobrir que nada do que fizemos antes tinha qualquer sentido; como o nadador de John Cheever). Se escolhemos uma imagem ou uma associação, uma comparação, podemos descobrir, páginas depois, que falámos de muitas coisas por aquilo que as palavras nos sugeriram e não necessariamente pelo que a ideia inicial nos incumbira.
Tomemos o exemplo deste texto: muito mais do que um breve testemunho pessoal sobre o tema desta mesa transformou-se visivelmente num exercício acrobático com palavras-malabares — e tantas delas caíram ao chão desastradamente.

Talvez haja muitas razões porque não saímos impunes da escrita, são várias as consequências possíveis — consequências emocionais ou psicológicas: podemos ter saudades de um personagem que deixámos num livro, chorar outro que matámos, ficar perturbados pelo que descobrimos de um terceiro e com a forma como isso afectou a nossa vida e a ideia que temos de nós próprios ou de alguém que amamos; consequências sociais ou físicas: quando uma escrita mais incisiva nos recompensa com um ror de insultos, infâmia, ou uma carga de porrada de alguém ofendido; consequências financeiras e biológicas: se resolvemos largar tudo para viver da escrita, que neste caso é geralmente sinónimo de ar…

Mas os vícios também não deixam a escrita ficar impune. O vício do jogo é muitas vezes uma tragédia, como se sabe. Leva pessoas à falência e a serem ostracizadas. O jogo com as palavras não corre menores riscos. Se eu, que já sinto suficientemente a punição, persistisse neste caminho mais uma página ou duas, teria com certeza consequências financeiras: o auditório sentir-se-ia compelido a punir-me não comprando nenhum dos livros que tenho aqui à venda. Termino, por isso, esperando sem confiança ir ainda a tempo de ser reconhecido um mérito a este texto: o de ser curto.

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segunda-feira, 18 de abril de 2016

A luta de Churchill e a luta de Hitler

Nos tempos que correm, parece boa ideia revisitar as Memórias da II Guerra Mundial, de Winston Churchill. A direita, porém, que costumava andar de boca cheia com citações ou episódios churchillianos, parece não achar o mesmo. Veja-se que simpatias tem a direita, que líderes e discursos aplaude, que condescendência selectiva pratica, que cinismo cultiva — da Alemanha à Inglaterra, da América ao Brasil, passando pelas colunas do Observador. Se não houvesse hoje razões ideológicas para rejeitar a direita, haveria as companhias que ela escolhe.

Em 2016 cessaram os direitos autorais sobre Mein Kampf — que a Baviera assumira depois do final da guerra e da morte de Hitler — e o Instituto de História Contemporânea de Munique-Berlim editou uma versão crítica com 3.500 notas que é já um best-seller. Inúmeros países querem os direitos de tradução (para já negados).
Segundo os editores, o perfil do comprador é de pesquisadores e pessoas interessadas em História. Talvez seja assim, mas não custa imaginar a direita a contribuir para o sucesso de vendas do calhamaço apenas para questionar o rigor das notas. É, desconfio, uma ocupação intelectual que muitos preferirão a, por exemplo, reflexões sobre a mestria na descrição histórica e biográfica e sobre a brilhante oratória na defesa de elevados valores humanos que o comité do Nobel viu nos escritos de Churchill.
Se aquilo é democracia, João Baião — quando dá o microfone aos beijinhos para a Suiça e saudades para a Lourinhã — é, com a bênção do Deus que legámos ao Brasil, um estadista de primeira água.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Enologia da arte

A comédia ligeira autopromove-se em tempos de crise dizendo que as pessoas precisam de se distrair das dificuldades da vida. Por outro lado, se os dias vão soalheiros e fecundos, a comédia ligeira quer também ser dominante, porque num tal mundo de felicidade seria funesto ter outra atitude que não a do riso leve e fácil.
A comédia ligeira quer, enfim, ser como o vinho, que se bebe para esquecer e para celebrar, por depressão e alegria.

Não interessa à comédia ligeira que, tirando certo tipo irrecuperável de bêbados, as pessoas prefeririam um vinho bom e distinto — caso o pudessem provar, diferenciar e adquirir — à zurrapa corriqueira que por força consomem. Só bebe mau vinho quem não pode beber outro. Ou, por tradicional teimosia e orgulho besta, quem o produz. Unipessoal ou cooperativamente.

sexta-feira, 18 de março de 2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Considerações sobre a intifada

1. Há anos um jornalista espanhol em viagem que atravessou Portugal de norte a sul escreveu um livro com as suas impressões e calhou de considerar horrível a capela que, na sua de facto pouca lindeza, vigia do alto uma das terras onde vivi. Não era ainda o tempo das redes sociais, mas já havia indignação na paróquia contra o espanhol, e se ele tivesse a má ideia de voltar ali, dificilmente passaria sem uma reprimenda.
Em Portugal as pessoas orgulham-se de tudo e sobretudo de nada, e a circunstância, para a qual por definição nada contribuíram, de terem nascido em determinada província ou país, que com frequência execram ou desonram, consegue por vezes transformá-las em espantosos chauvinistas. Raramente ou nunca se unem para salvar um monumento, reconstruir uma escola ou homenagear quem realmente sobressaia da mediania, mas entrelaçam de imediato os braços numa frente tribal contra o infeliz que se dê ao trabalho de achar menos perfeito o habitat delas.

2. O cronista Henrique Raposo escreveu um livro onde decidiu separar-se da sua terra natal, o Alentejo. (Ninguém se devia admirar que Raposo mais cedo ou mais tarde levantasse um idiossincrático e repreensor dedo ao velho Alentejo vermelho. O complexo de Édipo que a todos nos pisca o olho não poderia deixar de ter nele e na sua ideológica condição uma particular influência.)
Henrique falou do livro numa entrevista, onde expôs mágoas, desilusões e ressentimentos que o livro desenvolve. Foi duro e teve reacções, como é natural. Só que as reacções, neste país de facções e claques e raciocínio hooligan que o futebol moldou, rapidamente se transformaram em urros, vontade de linchamento e desfalecimentos pirómanos. O autor foi ameaçado e o livro alvo de petições incineradoras. O direito e a civilização a ele associada, se tivessem de ser inventados agora e em Portugal, jamais veriam a existência, mas Fahrenheit 451 ou qualquer distopia que envolva fascistóides massas acéfalas e enfileiradas são ficção apenas por acaso e provisoriamente.


P.S.: Intifada à parte, parece-me compreensível mas noutro contexto deslocada a generosidade de evocar Com Os Holandeses, de Rentes de Carvalho, a propósito do livro de Henrique Raposo, como fez Bruno Vieira Amaral: há um tom irritante de cátedra e ciência ou moral certa em Raposo que não me lembro de ter notado em Rentes. 

terça-feira, 1 de março de 2016

Um drama social

A loja de conveniência é o seu ponto de encontro e os seus hábitos um drama social. Chegam e raspam com impaciente mestria, usando em gestos rápidos a moeda como o cartão de crédito de quem emparelha linhas para nasalar na superfície vidrada do balcão. A fúria com que rasgam o papelucho sem prémio é a mesma de quem despedaça as contumazes protecções das rolhas quando estas, pela sua resistência procrastinadora, obrigam a que a vital respiração do vinho se faça logo boca a boca.

São uns viciados, sim. E, porque alardeariam um milhão como alardeiam os 50 euros que às vezes lhes calham, não há esperança de que adiram voluntariamente a um grupo de milionários anónimos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Origem do Ódio


Começou como um projecto de novela de Verão e talvez não tenha saído assim tanto dos eixos. Vende-se para já nas livrarias Pó dos Livros, Letra Livre e Traga-Mundos. Também pode ser encomendada pelo e-mail edlinguamorta@gmail.com. A capa é do Paulo Araújo. A mesa é do Bebedouro.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O regresso aos Jedis

Há duas maneiras de evitar que O Despertar da Força atraiçoe a boa memória que Guerra das Estrelas deixou. Não ver o novo filme é naturalmente uma delas. A outra é rever antes os três episódios dos anos 70 e 80: eles se encarregarão de destruir a sua própria aura.

Fiz isso, como bom geek (ou talvez como traidor geek, não sei bem qual é o protocolo para estas situações). Por isso saí hoje apaziguado do cinema: as expectativas já tinham sido devidamente postas no lugar, a decepção tinha ocorrido dias antes, ao rever Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Regresso de Jedi.
O que estimulava a imaginação há trinta anos e a fazia viajar sem limites é bastante diferente daquilo que hoje poderia fazer o mesmo com a pessoa que sou. E a culpa não é dos filmes*, temo bem.

Contudo, acredito que Star Wars permanecerá como um dado feliz na minha vida. Isso não depende dos filmes, e de mim depende pouco, do eu consciente. Deixada sozinha consigo mesma, a memória voltará ao seu trabalho de mitificação e a adolescência voltará a ser aquele lugar feliz que não depende de eu ter ou não sido feliz nele ou de serem bons os filmes que nele passavam ou as sequelas que deles se fazem. Que a Força, essa Força que nos permite ver com o passado como o paraíso (não totalmente) perdido, esteja com ela. 

*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Malefícios da idade?

Vasco Pulido Valente, vetusto comentador da imprensa, escreve isto:
«(…) neste tempo de euforia da esquerda, que a televisão e os jornais servilmente reflectem (…)».
E nesse ínterim nós lemos os jornais todos do país, que andam a levar nas palmas Marcelo Rebelo de Sousa, partilharem, por exemplo, esta “notícia”, por estas ou outras palavras:
«Centeno gastou "integralmente" a "almofada" financeira»
Como qualquer pessoa minimamente atenta sabe, nenhuma das afirmações acima é verdadeira.

Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Cortesãos de esquerda

A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez boicote mesmo as eleições.

Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado (entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice. Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à derrisão da pátria.

Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora às vezes pareça, é certo.)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cinismo à portuguesa

Duas afirmações colhidas na Internet sobre o candidato à presidência da República Paulo Morais:
«Tudo o que é demais enjoa, e ainda mais quando se faz vida disso. Se ninguém [o] refuta é precisamente porque o cromo se tornou inofensivo por ridículo.»
«Paulo Morais (…) exibe a sua mania da corrupção, de uma maneira insultuosa e quase alucinada.»
A primeira afirmação é de um cidadão qualquer, a segunda é de Vasco Pulido Valente. É destas duas espécies de cinismo que o país sofre, o cinismo do eleitorado comum e o cinismo dos fazedores de opinião. Ao longo de anos, Morais indicou números e nomes para a história da nossa desgraça. A imprensa e a justiça pouco exploraram as pistas, e o aproveitamento privado do erário público continuou — como de resto todos testemunhámos, de forma mais empírica ou mais esclarecida.
Contudo, não ter o denunciador sido amordaçado, torturado ou preso faz dele um cromo, um personagem ridículo. E a insistência na denúncia é, para o comentador emérito da direita portuguesa, uma forma de insulto (insulto decerto para os benfeitores da economia nacional).

Para ser tido como um candidato respeitável neste país, Paulo Morais tinha de ser morto ou fazer-se matar pelas suas acusações.
A alternativa era ser um betinho palavroso e igualmente inofensivo para o statu quo como Marcelo Rebelo de Sousa — e nesse caso não só o bom povo o elegeria como teria a enternecedora preocupação de VPV com a forma como uma eleição presidencial como esta pode ser aviltante para um cliente do Gambrinus.

Cromo por cromo, o povo português prefere os de pedigree. E para Valente toda a gente é estúpida, mas há os estúpidos comuns e os nossos (dele) estúpidos. 

Um só país, duas manifestações do mesmo cinismo. Não foi à toa que Cavaco existiu. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A timidez e o ‘piropo’

Numa conversa alheia a que assisto no Facebook como numa esplanada de café, com a mesma indiscrição semi-involuntária, alguém, uma mulher, diz de si mesma:
«Eu sou um típico caso de pessoa tímida, não gosto muito que olhem para mim, mas sei que isso é um defeito (…)»
Esta confissão e autocrítica associam-se a um conjunto de argumentos contra a penalização das propostas importunas de teor sexual (por preguiça designadas como ‘piropos’), um processo que a mesma mulher, jovem e com formação, considera promovido por «feminazis» (fêmeas ao que parece com vontade de controlar os homens).
É sintomático que alguém venha criticar este aditamento legislativo ao artigo 170.º do Código Penal considerando um defeito a sua própria timidez (ou seja, o seu mal-estar com a importunação). É sintomático porque, apesar do tom de bravata no resto do discurso, denuncia uma cultura de submissão, afinal o terreno fértil onde o comportamento intrusivo tradicional, sem respeito pela individualidade e pela sensibilidade do outro, se permite dominar, com direitos de cidade superiores, por supostamente a extroversão, incluindo este tipo de extroversão opressor, ser a condição ‘normal’, a condição das pessoas sem defeitos.

Não, cara facebookiana desconhecida, a sua timidez não é um defeito, é uma característica, aliás comum, que cabe a todas as outras pessoas respeitar. Defeito é a incontinência do ‘piropo’ importuno. Defeituoso é o caracter de todos aqueles que acham legítimo importunar outras pessoas com seja que tipo de pensamento ou desejo lhe vai na cabeça ou nas partes.

Teria sido necessário legislar sobre isto? Eventualmente não. Se os tímidos não achassem defeituosa a sua timidez e os importunadores tivessem suficiente educação e carácter para controlar a sua líbido excessiva. Mas se as vítimas nunca tivessem de recalcar a sua condição e os opressores jamais oprimissem, todo o Estado de Direito, com todos os seus códigos, toda a sua artilharia legislativa, seria pouco mais do que uma redundância, não?

Existem várias formas de uma sociedade prevenir comportamentos perturbadores da integridade alheia sem necessidade de recorrer ao braço pesado da Lei. A censura familiar e social pode ser uma delas. Quando esta falha, talvez devêssemos apreciar haver no país capacidade legislativa independente da vox populi. Se a vox populi prefere defender o direito de alguém a ser grunho (ou pior do que isso) contra a liberdade do outro, talvez aqueles que elegemos, numa democracia representativa, tenham o dever de se elevar acima da miséria moral e aprovar leis que defendam os tímidos do despotismo da ‘normalidade’.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crise da imprensa: os meus contributos

A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante). A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e transformasse em caderno diário o Ípsilon, o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional. 

Pirotecnia precoce

Às cinco da manhã houve fogo-de-artifício na rua ali atrás e não fui eu que o lancei. Podia ter sido: partilho da mesma insónia e do mesmo desejo de adiantar a pirotecnia e os ponteiros, da mesma pressa em sair deste ano velho e de maus-fígados.