sexta-feira, 18 de março de 2016
terça-feira, 15 de março de 2016
Os marados eucaliptos alentejanos
Passada a histeria dos pirómanos, pode-se debater civilizadamente o livrito ridículo (por pretensioso) de Henrique Raposo.
«Apesar de não ser um retrato do Alentejo, de estar muito longe disso, Alentejo prometido é um livro bem escrito e desenvolto, pesem expressões como “o odor a haxixe dos eucaliptos” (ou o autor não cheirou haxixe ou não conhece o cheiro dos eucaliptos).»
«As generalizações, feitas a partir de umas quantas conversas familiares e de outras tantas observações recolhidas em viagens de automóvel (a propósito da ida a um casamento) numa área geográfica do Alentejo litoral — não muito afastada do triângulo entre Ermidas do Sado, Santiago do Cacém e Cercal —, chegam a ser risíveis.»Artigo de José Riço Direitinho: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alentejo-retrato-desfocado-1726095
quarta-feira, 2 de março de 2016
Considerações sobre a intifada
1. Há anos um jornalista espanhol em viagem que atravessou Portugal de
norte a sul escreveu um livro com as suas impressões e calhou de considerar
horrível a capela que, na sua de facto pouca lindeza, vigia do alto uma das
terras onde vivi. Não era ainda o tempo das redes sociais, mas já havia
indignação na paróquia contra o espanhol, e se ele tivesse a má ideia de voltar
ali, dificilmente passaria sem uma reprimenda.
Em Portugal as pessoas orgulham-se de tudo e sobretudo de nada, e a
circunstância, para a qual por definição nada contribuíram, de terem nascido em
determinada província ou país, que com frequência execram ou desonram, consegue
por vezes transformá-las em espantosos chauvinistas. Raramente ou nunca se unem
para salvar um monumento, reconstruir uma escola ou homenagear quem realmente sobressaia
da mediania, mas entrelaçam de imediato os braços numa frente tribal contra o
infeliz que se dê ao trabalho de achar menos perfeito o habitat delas.
2. O cronista Henrique Raposo escreveu um livro onde decidiu separar-se
da sua terra natal, o Alentejo. (Ninguém se devia admirar que Raposo mais cedo
ou mais tarde levantasse um idiossincrático e repreensor dedo ao velho Alentejo
vermelho. O complexo de Édipo que a todos nos pisca o olho não poderia deixar
de ter nele e na sua ideológica condição uma particular influência.)
Henrique falou do livro numa entrevista, onde expôs mágoas, desilusões
e ressentimentos que o livro desenvolve. Foi duro e teve reacções, como é
natural. Só que as reacções, neste país de facções e claques e raciocínio hooligan que o futebol moldou,
rapidamente se transformaram em urros, vontade de linchamento e desfalecimentos
pirómanos. O autor foi ameaçado e o livro alvo de petições incineradoras. O direito
e a civilização a ele associada, se tivessem de ser inventados agora e em Portugal,
jamais veriam a existência, mas Fahrenheit
451 ou qualquer distopia que envolva fascistóides massas acéfalas e
enfileiradas são ficção apenas por acaso e provisoriamente.
P.S.: Intifada à parte, parece-me compreensível mas noutro contexto
deslocada a generosidade de evocar Com Os
Holandeses, de Rentes de Carvalho, a propósito do livro de Henrique Raposo,
como fez Bruno Vieira Amaral: há um tom irritante de cátedra e ciência ou moral
certa em Raposo que não me lembro de ter notado em Rentes.
terça-feira, 1 de março de 2016
Um drama social
A loja de conveniência é o seu ponto de encontro e os seus
hábitos um drama social. Chegam e raspam com impaciente mestria, usando em
gestos rápidos a moeda como o cartão de crédito de quem emparelha linhas para
nasalar na superfície vidrada do balcão. A fúria com que rasgam o papelucho sem
prémio é a mesma de quem despedaça as contumazes protecções das rolhas quando
estas, pela sua resistência procrastinadora, obrigam a que a vital respiração
do vinho se faça logo boca a boca.
São uns viciados, sim. E, porque alardeariam um milhão como
alardeiam os 50 euros que às vezes lhes calham, não há esperança de que adiram voluntariamente
a um grupo de milionários anónimos.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
A Origem do Ódio
Começou como um projecto de novela de Verão e talvez não
tenha saído assim tanto dos eixos. Vende-se para já nas livrarias Pó dos
Livros, Letra Livre e Traga-Mundos. Também pode ser encomendada pelo e-mail edlinguamorta@gmail.com. A capa
é do Paulo Araújo. A mesa é do Bebedouro.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
O regresso aos Jedis
Há duas maneiras de evitar que O
Despertar da Força atraiçoe a boa memória que Guerra das Estrelas deixou. Não ver o novo filme é naturalmente uma
delas. A outra é rever antes os três episódios dos anos 70 e 80: eles se
encarregarão de destruir a sua própria aura.
Fiz isso, como bom geek (ou
talvez como traidor geek, não sei bem
qual é o protocolo para estas situações). Por isso saí hoje apaziguado do
cinema: as expectativas já tinham sido devidamente postas no lugar, a decepção
tinha ocorrido dias antes, ao rever Uma
Nova Esperança, O Império Contra-Ataca
e O Regresso de Jedi.
O que estimulava a imaginação há trinta anos e a fazia viajar sem
limites é bastante diferente daquilo que hoje poderia fazer o mesmo com a
pessoa que sou. E a culpa não é dos filmes*, temo bem.
Contudo, acredito que Star Wars
permanecerá como um dado feliz na minha vida. Isso não depende dos filmes, e
de mim depende pouco, do eu
consciente. Deixada sozinha consigo mesma, a memória voltará ao seu trabalho de
mitificação e a adolescência voltará a ser aquele lugar feliz que não depende
de eu ter ou não sido feliz nele ou de serem bons os filmes que nele passavam ou as sequelas que deles se fazem. Que
a Força, essa Força que nos permite ver com o passado como o paraíso (não
totalmente) perdido, esteja com ela.
*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.
*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Malefícios da idade?
Vasco Pulido Valente, vetusto comentador da imprensa, escreve isto:
Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.
«(…) neste tempo de euforia da esquerda, que a televisão e os jornais servilmente reflectem (…)».E nesse ínterim nós lemos os jornais todos do país, que andam a levar nas palmas Marcelo Rebelo de Sousa, partilharem, por exemplo, esta “notícia”, por estas ou outras palavras:
«Centeno gastou "integralmente" a "almofada" financeira»Como qualquer pessoa minimamente atenta sabe, nenhuma das afirmações acima é verdadeira.
Pelo que me pergunto se os meus amigos que ainda acham Vasco Pulido Valente o máximo da perspicácia e da análise política em Portugal não estarão a envelhecer tão mal como ele. Sendo que alguns destes amigos têm menos trinta anos do que o ogre que lhes os excita os neurónios.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Cortesãos de esquerda
A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da
democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de
coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às
presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez
boicote mesmo as eleições.
Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses
que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado
(entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma
candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos
compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice.
Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se
importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à
derrisão da pátria.
Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro
que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros
candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e
a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os
debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica
ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples
contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde
já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua
tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus
apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não
são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora
às vezes pareça, é certo.)
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Cinismo à portuguesa
Duas afirmações colhidas na Internet sobre o candidato à presidência da República Paulo Morais:
«Tudo o que é demais enjoa, e ainda mais quando se faz vida disso. Se ninguém [o] refuta é precisamente porque o cromo se tornou inofensivo por ridículo.»
«Paulo Morais (…) exibe a sua mania da corrupção, de uma maneira insultuosa e quase alucinada.»
A primeira afirmação é de um cidadão qualquer, a segunda é de Vasco Pulido
Valente. É destas duas espécies de cinismo que o país sofre, o cinismo do
eleitorado comum e o cinismo dos fazedores de opinião. Ao longo de anos, Morais
indicou números e nomes para a história da nossa desgraça. A imprensa e a
justiça pouco exploraram as pistas, e o aproveitamento privado do erário
público continuou — como de resto todos testemunhámos, de forma mais empírica ou
mais esclarecida.
Contudo, não ter o denunciador sido amordaçado, torturado ou preso faz
dele um cromo, um personagem ridículo. E a insistência na denúncia é, para o comentador
emérito da direita portuguesa, uma forma de insulto (insulto decerto para os
benfeitores da economia nacional).
Para ser tido como um candidato respeitável neste país, Paulo Morais
tinha de ser morto ou fazer-se matar pelas suas acusações.
A alternativa era ser um betinho palavroso e igualmente inofensivo para
o statu quo como Marcelo Rebelo de
Sousa — e nesse caso não só o bom povo o elegeria como teria a enternecedora
preocupação de VPV com a forma como uma eleição presidencial como esta pode ser
aviltante para um cliente do Gambrinus.
Cromo por cromo, o povo português prefere os de pedigree. E para Valente toda a gente é estúpida, mas há os estúpidos comuns e os nossos (dele) estúpidos.
Um só país, duas manifestações do mesmo cinismo. Não foi à toa que Cavaco existiu.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
A timidez e o ‘piropo’
Numa conversa alheia a que assisto no Facebook como numa esplanada de
café, com a mesma indiscrição semi-involuntária, alguém, uma mulher, diz de si
mesma:
«Eu sou um típico caso de pessoa tímida, não gosto muito que olhem para mim, mas sei que isso é um defeito (…)»
Esta confissão e autocrítica associam-se a um conjunto de argumentos
contra a penalização das propostas importunas de teor sexual (por preguiça
designadas como ‘piropos’), um processo que a mesma mulher, jovem e com
formação, considera promovido por «feminazis» (fêmeas ao que parece com vontade
de controlar os homens).
É sintomático que alguém venha criticar este aditamento legislativo ao
artigo 170.º do Código Penal considerando um defeito a sua própria timidez (ou
seja, o seu mal-estar com a importunação). É sintomático porque, apesar do tom
de bravata no resto do discurso, denuncia uma cultura de submissão, afinal o
terreno fértil onde o comportamento intrusivo tradicional, sem respeito pela
individualidade e pela sensibilidade do outro, se permite dominar, com direitos
de cidade superiores, por supostamente a extroversão, incluindo este tipo de
extroversão opressor, ser a condição ‘normal’, a condição das pessoas sem
defeitos.
Não, cara facebookiana desconhecida, a sua timidez não é um defeito, é
uma característica, aliás comum, que cabe a todas as outras pessoas respeitar. Defeito
é a incontinência do ‘piropo’ importuno. Defeituoso é o caracter de todos
aqueles que acham legítimo importunar outras pessoas com seja que tipo de pensamento
ou desejo lhe vai na cabeça ou nas partes.
Teria sido necessário legislar sobre isto? Eventualmente não. Se os tímidos
não achassem defeituosa a sua timidez e os importunadores tivessem suficiente educação
e carácter para controlar a sua líbido excessiva. Mas se as vítimas nunca tivessem
de recalcar a sua condição e os opressores jamais oprimissem, todo o Estado de Direito,
com todos os seus códigos, toda a sua artilharia legislativa, seria pouco mais
do que uma redundância, não?
Existem várias formas de uma sociedade prevenir comportamentos
perturbadores da integridade alheia sem necessidade de recorrer ao braço pesado
da Lei. A censura familiar e social pode ser uma delas. Quando esta falha,
talvez devêssemos apreciar haver no país capacidade legislativa independente da
vox populi. Se a vox populi prefere defender o direito de alguém a ser grunho (ou
pior do que isso) contra a liberdade do outro, talvez aqueles que elegemos, numa
democracia representativa, tenham o dever de se elevar acima da miséria moral e
aprovar leis que defendam os tímidos do despotismo da ‘normalidade’.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Crise da imprensa: os meus contributos
A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada
para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta
e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o
baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante).
A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de
entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e
social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma
reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse
drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e
transformasse em caderno diário o Ípsilon,
o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se
está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente
lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de
tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do
que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora
qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos
provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional.
Pirotecnia precoce
Às cinco da manhã houve fogo-de-artifício na rua ali atrás e não fui eu
que o lancei. Podia ter sido: partilho da mesma insónia e do mesmo desejo de adiantar
a pirotecnia e os ponteiros, da mesma pressa em sair deste ano velho e de maus-fígados.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
sábado, 12 de dezembro de 2015
Miasma
«Também havia a voz. A madrinha tinha uma daquelas
vozes afectadas de lady inglesa, oscilando
entre agudos e graves como um adolescente a amadurecer, mas com o sotaque
carregado, as vogais rudes e as interjeições dum lavrador. Agora que dedico
algum tempo a pensar nisso, não era com a nobreza britânica que a madrinha mais
se parecia, mas com as preceptoras da
nobreza britânica. Quando lhe ouvíamos a voz a progredir pelos corredores e
pelas divisões da casa, espécie de miasma que se infiltrava por qualquer
frincha e a qualquer hora, o nosso estremecimento não era de súbditos receosos
do alcance do poder real, mas de pupilos que odeiam e temem a velha ama
germânica que a família mantém como tradição orgulhosa nas folhas de pagamento mensais.
(Qualquer comparação com bruxas verrugosas e histéricas teria igualmente
cabimento: a madrinha parecia ter sido concebida ou treinada para ser prova de
verosimilhança de todos os clichés.)
Um verdadeiro fenómeno era a sua gargalhada. Já
imaginaram alguém dar sonoras gargalhadas sem que no seu rosto houvesse um
indício de riso ou divertimento? A madrinha não tinha humor (embora utilizasse
doses regulares de sarcasmo), mas isso não a impedia de acompanhar (e na
verdade suplantar) as reacções a certos comentários ou piadas que se produziam
à mesa. Ela gargalhava com a mesma força de quem expele um osso de frango da
garganta, percutindo as paredes da sala como o equipamento sobredimensionado de
uma discoteca ou fazendo drapejar os cortinados como um vento dos que activam
avisos da meteorologia, mas os seus olhos mantinham a mesma vigilância censória
e fria sobre os circunstantes, não traíam um único momento de cumplicidade ou empatia.
A madrinha zelava pela casa e pelas tradições com o
empenho exacerbado e anacrónico de aias e ministros de casas reais que na devida
altura advertiram os senhores para os perigos dos caminhos que trilhavam. Ela
tivera razão antes de tempo, mas não lhe cabia tomar as decisões (era uma
matriarca que reconhecia a legitimidade do poder patriarcal), e quando o pôde
fazer, demasiado tarde para evitar a queda em desgraça, já não conseguia deixar
de agir como o último dos miguelistas — o ódio, a frustração e o desejo de
vingança a dominarem cada segundo do dia.»
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Sílvia
«Quando a Sílvia cresceu não o fez apenas em sentido
figurado, como acontece a tantas mulheres, cujo corpo de adolescente se
transforma e enche de curvas mas não se estende verdadeiramente em direcção aos
céus. Com Sílvia o crescimento ganhou expressão e significado, foi botânico, os seus membros cresceram como
troncos e ramos de árvores mas ao ritmo de pés de feijão, ávidos de sol,
competindo com os adultos pelo domínio do espaço aéreo. Nesse processo de
grande consumo energético, tornou-se magra, por vezes demasiado magra, e a
herança feminina da madrinha, sua avó, aqueles seios fartos mas rijos, parecia
um equívoco, uma perturbação no perfil longilíneo, um lastro à última hora
adicionado à sua anatomia para a impedir de se perder nas nuvens antes de a
hipófise determinar o fim do crescimento.
Ter um peito daqueles não lhe concedeu porém uma
silhueta recurvada; algo na sua estrutura óssea e muscular resistia à
gravidade, a Sílvia deslocava-se de nariz bem emproado e sentava-se num
perfeito ângulo recto que surpreendia. O primeiro bofetão que lhe dei, depois
de me ter deixado, foi também em paga
daquela perfeição ergonómica (talvez um ressentimento inconsciente da promessa
de corcunda que eu era). Há algo de irritante numa mulher que parece
quotidianamente a ilustração viva de um manual de etiqueta. Mesmo que na maior
parte do tempo nos encha de vaidade (e até desejo) o seu talento para a
elegância — expresso na materialidade das roupas e adereços que adquire sem interrupção,
assegurando um fluxo de aquisições permanente e vital como soro para
moribundos, e na imaterialidade da sua postura, fisionomia, gestos de
antebraços, pensamentos e locuções de profunda vacuidade —, mesmo que nos
sintamos envaidecidos e distintos por ter uma mulher assim, há sempre momentos
em que vivermos com a Ava Gardner ou a Audrey Hepburn nos cansa. Cansa
contracenar diariamente, sentir a obrigação de ser Gregory Peck das abluções
matinais ao último escovar de dentes do dia. Um bofetão é um grito de liberdade,
ainda que dado fora de tempo.»
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Swamp Thing
«(...) Eu fazia isso em algumas noites, com o impulso
gótico de me vir enrodilhar depois nas algas ou nas ervas das águas menos
profundas, sentindo a repugnância da sua viscosidade, as suas carícias
arrepiantes de seres vivos asquerosos, a sujidade do lodo a levantar-se do
fundo e a procurar envolver-nos numa nuvem perceptível de sanguessugas. Eram
banhos de podridão com que eu procurava purgar-me, em noites de lua nova, da
benfazeja luz solar que no Douro nos faz sentir príncipes destinados ao ócio e
ao amor cortesão numa eternidade descomprometida, leve, a conjugar verbos
apenas no único tempo interessante, o presente.
Desci ao cais nessa noite com o mesmo propósito de mergulhar,
de me espolinhar nas águas rasas da margem e regressar ao quarto pingando lama,
para desespero do pessoal da limpeza no dia seguinte. Mas a lua estava agora muito
avançada no seu quarto crescente, iluminando com uma proficiência de lua cheia
aquele troço de rio ainda livre do excesso de iluminação pública que já se
verificava em tantas estradas desertas da região. A presença da Adèle, nos seus
habituais trajes etéreos, dedicando-se na beira do cais a seduzir o firmamento
nocturno com o mesmo ritual dervixe que lhe vira no primeiro dia, fez-me mudar
de planos. Inicialmente pensei que podia ficar apenas a observá-la, com aquele
deslumbramento juvenil de rapaz que pela primeira vez descobre os contornos de
um corpo feminino, mas depois agi como agem os homens adultos, se
suficientemente cheios de si, e fui meter conversa.
Não era uma surpresa que a Adèle estivesse receptiva
à conversa — não havia por ali muita gente com quem falar e eu ainda não estava
transformado como habitualmente no Swamp
Thing. As constelações, se formos competentes nisso e o céu estiver
descoberto, são um bom tema de conversa. Há outras possibilidades, além dessa
mostra extravagante de erudição cosmológica, como por exemplo a deriva para a
Antiguidade Clássica — com os seus deuses, os seus mitos, as suas metamorfoses,
os seus amores e a sua excitante promiscuidade — ou para assuntos de foro
místico, como os signos do Zodíaco, igualmente prenhes de insinuações amorosas
e preliminares sexuais.
A temática estelar interessou Adèle, seria aliás uma
surpresa que não interessasse a alguém tão eminentemente espiritual, mas ela
quis ver os astros do meio do rio. Que esse desejo tivesse uma plausibilidade geométrica,
digamos, assente no cálculo intuitivo de que no ponto mais equidistante de
ambas as margens arborizadas a cúpula celeste se revelaria de uma forma mais
ampla, não diminuiu o meu sentimento de que havia uma intenção romântica na
vontade dela. Tanto mais que me perguntou, delicadamente, se sabia remar.
Deslizámos em silêncio para o meio da corrente, que,
apesar de fraca, não permitia que o bote permanecesse estacionário como num
lago. Preocupei-me, por isso, em orientar a proa no sentido da corrente,
corrigindo o nosso avanço involuntário com ocasionais movimentos dos remos. A Adèle
reclinara-se na popa, com as pontas dos cabelos de nórdica submergidas no Douro
e oferecendo a sua garganta branca à Lua e ao meu olhar.
Esgotado o meu conhecimento sobre constelações, e
ainda com os contornos fantasiosos da casa da Quinta à vista, como se
estivéssemos no meio do Lago Léman, a rapariga belga, inspirada por essa mesma
divertida imagem nocturna de uma Suíça duriense, enveredou pela história de
Mary Shelley, de que parecia ter decorado longos parágrafos da Wikipédia. Falou
da mãe da escritora, a feminista Mary Wollstonecraft, e do seu pai, o filósofo
William Baldwin. A Adèle estava simplesmente a fruir um tema que a entusiasmava
e, com intenção ou não, a dar-me a conhecer a sua adesão a ideais de amor
livre, mas eu ficara retido umas passagens atrás, na entrada do seu dicionário
que falava dos escritos de Baldwin sobre o casamento enquanto «monopólio
repressivo».
A linhagem Wollstonecraft/Baldwin/Shelley era algo
mais do que eu poderia suportar. Toda aquela gente de espírito livre, tão
sensata e avançada quanto às relações entre homens e mulheres, parecia ter sido
convocada para me fazer enfrentar os meus fantasmas recentes. Se a Adèle
tencionava ter comigo o seu caso amoroso no Douro Superior dera um passo em
falso com aquela digressão de enciclopédia online.
Eu teria sido facilmente seduzido, naquele tão agudo estado de carência, mas,
pelo menos de momento, ocorria-me tudo menos ter sexo com ela no fundo
impermeabilizado do bote da Quinta de Pompeia. Antes que, de Shelley, me viesse
à inspiração Frankenstein, um ser de um
romantismo menos delicado, remei com furiosa urgência até ao cais, alegando
efeitos secundários do jantar, de costume tão saboroso e serenamente digerível.»
terça-feira, 29 de setembro de 2015
A Zona de Interesse
A Zona de Interesse, de
Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no
entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal,
onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é
uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade
— e isso, que tem em si algo de Amis way,
não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro.
Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em
momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer
o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um
passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e
morte, crimes e violações são décor. Não.
Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha
nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer
estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de
amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de
nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e
predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas
pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha
outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre
o enredo.)
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Nunca tinha pensado nisso
«Nunca tinha pensado nisso, mas os mosaicos da nossa
casa-de-banho, para onde jorravam clandestinas as minhas primeiras golfadas de
sémen, eram iguais aos da cozinha dela. Ainda que o chão da madrinha fosse
anterior, tenho a certeza de que não houve nenhuma intenção irónica da parte do
meu pai quando ele se ajoelhou no local onde colocaria a retrete a assentar com
ferramentas emprestadas aquelas tijoleiras que formavam um padrão geométrico trompe-l’oeil de degraus tridimensionais
capaz de nos baralhar o sentido da visão como se tivesse sido desenhado por
Escher. Estou convencido de que os mosaicos da nossa minúscula casa-de-banho
eram sobras da cozinha dela, doadas com aquele misto de condescendência feudal
e arrependimento avaro que lhe retorcia os lábios sempre que hesitava na
avaliação do seu próprio acto. A madrinha gostava de se imaginar próspera ao
ponto de se permitir uma prodigalidade indiferente, mas para sua infelicidade
ela não tinha como ignorar a falência da empresa e o seu próprio carácter, de
que não fazia parte a empatia. Daí aquela luta consigo mesma, visível e perenemente
fixada no esgar do rosto. O meu pai, pelo seu lado, desconhecia as virtudes catárticas
da ironia e nunca lhe ocorreriam pensamentos menos dignos ao sentar-se naquela sanita
com vista para o puzzle vertiginoso
que desenhava no chão a cerâmica esmolada.
A mim, sim, ocorria toda a espécie de pensamentos
insultuosos, excepto os que envolviam a líbido. Quando era uma presença regular
na minha vida, a madrinha não passara há muito os quarenta anos, mas para os
meus olhos era uma velha, e eu atribuía o volume e a firmeza aguda — bélica, de
obus alemão — dos seus grandes seios a soutiens
antiquados feitos de arame e renda, não a quaisquer qualidades eróticas do seu
próprio corpo.
A ironia — e também a epifania, chamemos-lhe assim —
era eu ter-me recordado da madrinha quando hospedado na Quinta de Pompeia
descobri que o quarto-de-banho da suite e a cozinha semi-rústica da casa
principal estavam recobertos com o mesmo tipo de mosaicos, possivelmente
fabricados na década em que eles eram modernos (a mesma da minha infância), tal
o afã tradicionalista e o desejo de genuinidade que tinham presidido à
reconstrução da Quinta.
Tenho uma propensão para reparar em mosaicos. Herdei
do meu pai o carácter introspectivo e o infame hábito de manter o olhar baixo, serviçal,
como as castas inferiores na sua congénita prontidão para aceitar o menosprezo,
ou como os judeus demasiado perplexos com o que lhes acontecia em Auschwitz
para sequer pensarem em reagir. Na selva das relações sociais, um olhar baixo é
um convite aos predadores. A menos agressiva ou hostil das criaturas sente o
apelo do sangue e uma força dominadora se à sua frente encontra um humilde de
cerviz curvada. Não há como negar razão ao aforismo perante estes factos: todos
os homens são maus, basta terem a sua oportunidade.»
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Bastardia
Kettle, uma velha snob da
saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a
sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo
e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de
intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as
pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.
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