A minha relação com a imprensa no último ano não tem contribuído nada
para a sua saúde económica. Deixei de comprar o Público quando me incutiram a sensatez de considerar um euro e sessenta
e cinco dinheiro a mais para um jogo de Sudoku (só comprava ao fim-de-semana, o
baixo nível de dificuldade dos jogos de segunda a quinta não era estimulante).
A única outra razão que me fazia (e faz) comprar o jornal era o suplemento Ípsilon. Há alguma possibilidade de
entusiasmo e fascínio nas artes que não encontro no quotidiano político e
social do país, na sua nefasta e maçadora previsibilidade. Sem me atrever a uma
reflexão como a da Alexandra Lucas Coelho, julgo que, se o jornal diminuísse
drasticamente o número de páginas e colunistas dedicados à vidinha e
transformasse em caderno diário o Ípsilon,
o número de compradores aumentava. Não subestimem a quantidade de pessoas que se
está nas tintas para o futuro de Paulo Portas e dispensa a redundância de quotidianamente
lhe darem as mesmas más notícias sobre o seu próprio futuro. Há, apesar de
tudo, mais efervescência e diversidade na literatura, no teatro ou na música do
que na vida da república. Desta, um resumo mensal dificilmente deixaria de fora
qualquer novidade. Aliás, um almanaque anual ao género do Borda d’Água, com as suas tabelas de ciclos e reiterações e os mesmos
provérbios e mezinhas, seria suficiente periódico nacional.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Pirotecnia precoce
Às cinco da manhã houve fogo-de-artifício na rua ali atrás e não fui eu
que o lancei. Podia ter sido: partilho da mesma insónia e do mesmo desejo de adiantar
a pirotecnia e os ponteiros, da mesma pressa em sair deste ano velho e de maus-fígados.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
sábado, 12 de dezembro de 2015
Miasma
«Também havia a voz. A madrinha tinha uma daquelas
vozes afectadas de lady inglesa, oscilando
entre agudos e graves como um adolescente a amadurecer, mas com o sotaque
carregado, as vogais rudes e as interjeições dum lavrador. Agora que dedico
algum tempo a pensar nisso, não era com a nobreza britânica que a madrinha mais
se parecia, mas com as preceptoras da
nobreza britânica. Quando lhe ouvíamos a voz a progredir pelos corredores e
pelas divisões da casa, espécie de miasma que se infiltrava por qualquer
frincha e a qualquer hora, o nosso estremecimento não era de súbditos receosos
do alcance do poder real, mas de pupilos que odeiam e temem a velha ama
germânica que a família mantém como tradição orgulhosa nas folhas de pagamento mensais.
(Qualquer comparação com bruxas verrugosas e histéricas teria igualmente
cabimento: a madrinha parecia ter sido concebida ou treinada para ser prova de
verosimilhança de todos os clichés.)
Um verdadeiro fenómeno era a sua gargalhada. Já
imaginaram alguém dar sonoras gargalhadas sem que no seu rosto houvesse um
indício de riso ou divertimento? A madrinha não tinha humor (embora utilizasse
doses regulares de sarcasmo), mas isso não a impedia de acompanhar (e na
verdade suplantar) as reacções a certos comentários ou piadas que se produziam
à mesa. Ela gargalhava com a mesma força de quem expele um osso de frango da
garganta, percutindo as paredes da sala como o equipamento sobredimensionado de
uma discoteca ou fazendo drapejar os cortinados como um vento dos que activam
avisos da meteorologia, mas os seus olhos mantinham a mesma vigilância censória
e fria sobre os circunstantes, não traíam um único momento de cumplicidade ou empatia.
A madrinha zelava pela casa e pelas tradições com o
empenho exacerbado e anacrónico de aias e ministros de casas reais que na devida
altura advertiram os senhores para os perigos dos caminhos que trilhavam. Ela
tivera razão antes de tempo, mas não lhe cabia tomar as decisões (era uma
matriarca que reconhecia a legitimidade do poder patriarcal), e quando o pôde
fazer, demasiado tarde para evitar a queda em desgraça, já não conseguia deixar
de agir como o último dos miguelistas — o ódio, a frustração e o desejo de
vingança a dominarem cada segundo do dia.»
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Sílvia
«Quando a Sílvia cresceu não o fez apenas em sentido
figurado, como acontece a tantas mulheres, cujo corpo de adolescente se
transforma e enche de curvas mas não se estende verdadeiramente em direcção aos
céus. Com Sílvia o crescimento ganhou expressão e significado, foi botânico, os seus membros cresceram como
troncos e ramos de árvores mas ao ritmo de pés de feijão, ávidos de sol,
competindo com os adultos pelo domínio do espaço aéreo. Nesse processo de
grande consumo energético, tornou-se magra, por vezes demasiado magra, e a
herança feminina da madrinha, sua avó, aqueles seios fartos mas rijos, parecia
um equívoco, uma perturbação no perfil longilíneo, um lastro à última hora
adicionado à sua anatomia para a impedir de se perder nas nuvens antes de a
hipófise determinar o fim do crescimento.
Ter um peito daqueles não lhe concedeu porém uma
silhueta recurvada; algo na sua estrutura óssea e muscular resistia à
gravidade, a Sílvia deslocava-se de nariz bem emproado e sentava-se num
perfeito ângulo recto que surpreendia. O primeiro bofetão que lhe dei, depois
de me ter deixado, foi também em paga
daquela perfeição ergonómica (talvez um ressentimento inconsciente da promessa
de corcunda que eu era). Há algo de irritante numa mulher que parece
quotidianamente a ilustração viva de um manual de etiqueta. Mesmo que na maior
parte do tempo nos encha de vaidade (e até desejo) o seu talento para a
elegância — expresso na materialidade das roupas e adereços que adquire sem interrupção,
assegurando um fluxo de aquisições permanente e vital como soro para
moribundos, e na imaterialidade da sua postura, fisionomia, gestos de
antebraços, pensamentos e locuções de profunda vacuidade —, mesmo que nos
sintamos envaidecidos e distintos por ter uma mulher assim, há sempre momentos
em que vivermos com a Ava Gardner ou a Audrey Hepburn nos cansa. Cansa
contracenar diariamente, sentir a obrigação de ser Gregory Peck das abluções
matinais ao último escovar de dentes do dia. Um bofetão é um grito de liberdade,
ainda que dado fora de tempo.»
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Swamp Thing
«(...) Eu fazia isso em algumas noites, com o impulso
gótico de me vir enrodilhar depois nas algas ou nas ervas das águas menos
profundas, sentindo a repugnância da sua viscosidade, as suas carícias
arrepiantes de seres vivos asquerosos, a sujidade do lodo a levantar-se do
fundo e a procurar envolver-nos numa nuvem perceptível de sanguessugas. Eram
banhos de podridão com que eu procurava purgar-me, em noites de lua nova, da
benfazeja luz solar que no Douro nos faz sentir príncipes destinados ao ócio e
ao amor cortesão numa eternidade descomprometida, leve, a conjugar verbos
apenas no único tempo interessante, o presente.
Desci ao cais nessa noite com o mesmo propósito de mergulhar,
de me espolinhar nas águas rasas da margem e regressar ao quarto pingando lama,
para desespero do pessoal da limpeza no dia seguinte. Mas a lua estava agora muito
avançada no seu quarto crescente, iluminando com uma proficiência de lua cheia
aquele troço de rio ainda livre do excesso de iluminação pública que já se
verificava em tantas estradas desertas da região. A presença da Adèle, nos seus
habituais trajes etéreos, dedicando-se na beira do cais a seduzir o firmamento
nocturno com o mesmo ritual dervixe que lhe vira no primeiro dia, fez-me mudar
de planos. Inicialmente pensei que podia ficar apenas a observá-la, com aquele
deslumbramento juvenil de rapaz que pela primeira vez descobre os contornos de
um corpo feminino, mas depois agi como agem os homens adultos, se
suficientemente cheios de si, e fui meter conversa.
Não era uma surpresa que a Adèle estivesse receptiva
à conversa — não havia por ali muita gente com quem falar e eu ainda não estava
transformado como habitualmente no Swamp
Thing. As constelações, se formos competentes nisso e o céu estiver
descoberto, são um bom tema de conversa. Há outras possibilidades, além dessa
mostra extravagante de erudição cosmológica, como por exemplo a deriva para a
Antiguidade Clássica — com os seus deuses, os seus mitos, as suas metamorfoses,
os seus amores e a sua excitante promiscuidade — ou para assuntos de foro
místico, como os signos do Zodíaco, igualmente prenhes de insinuações amorosas
e preliminares sexuais.
A temática estelar interessou Adèle, seria aliás uma
surpresa que não interessasse a alguém tão eminentemente espiritual, mas ela
quis ver os astros do meio do rio. Que esse desejo tivesse uma plausibilidade geométrica,
digamos, assente no cálculo intuitivo de que no ponto mais equidistante de
ambas as margens arborizadas a cúpula celeste se revelaria de uma forma mais
ampla, não diminuiu o meu sentimento de que havia uma intenção romântica na
vontade dela. Tanto mais que me perguntou, delicadamente, se sabia remar.
Deslizámos em silêncio para o meio da corrente, que,
apesar de fraca, não permitia que o bote permanecesse estacionário como num
lago. Preocupei-me, por isso, em orientar a proa no sentido da corrente,
corrigindo o nosso avanço involuntário com ocasionais movimentos dos remos. A Adèle
reclinara-se na popa, com as pontas dos cabelos de nórdica submergidas no Douro
e oferecendo a sua garganta branca à Lua e ao meu olhar.
Esgotado o meu conhecimento sobre constelações, e
ainda com os contornos fantasiosos da casa da Quinta à vista, como se
estivéssemos no meio do Lago Léman, a rapariga belga, inspirada por essa mesma
divertida imagem nocturna de uma Suíça duriense, enveredou pela história de
Mary Shelley, de que parecia ter decorado longos parágrafos da Wikipédia. Falou
da mãe da escritora, a feminista Mary Wollstonecraft, e do seu pai, o filósofo
William Baldwin. A Adèle estava simplesmente a fruir um tema que a entusiasmava
e, com intenção ou não, a dar-me a conhecer a sua adesão a ideais de amor
livre, mas eu ficara retido umas passagens atrás, na entrada do seu dicionário
que falava dos escritos de Baldwin sobre o casamento enquanto «monopólio
repressivo».
A linhagem Wollstonecraft/Baldwin/Shelley era algo
mais do que eu poderia suportar. Toda aquela gente de espírito livre, tão
sensata e avançada quanto às relações entre homens e mulheres, parecia ter sido
convocada para me fazer enfrentar os meus fantasmas recentes. Se a Adèle
tencionava ter comigo o seu caso amoroso no Douro Superior dera um passo em
falso com aquela digressão de enciclopédia online.
Eu teria sido facilmente seduzido, naquele tão agudo estado de carência, mas,
pelo menos de momento, ocorria-me tudo menos ter sexo com ela no fundo
impermeabilizado do bote da Quinta de Pompeia. Antes que, de Shelley, me viesse
à inspiração Frankenstein, um ser de um
romantismo menos delicado, remei com furiosa urgência até ao cais, alegando
efeitos secundários do jantar, de costume tão saboroso e serenamente digerível.»
terça-feira, 29 de setembro de 2015
A Zona de Interesse
A Zona de Interesse, de
Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no
entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal,
onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é
uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade
— e isso, que tem em si algo de Amis way,
não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro.
Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em
momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer
o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um
passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e
morte, crimes e violações são décor. Não.
Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha
nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer
estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de
amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de
nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e
predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas
pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha
outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre
o enredo.)
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Nunca tinha pensado nisso
«Nunca tinha pensado nisso, mas os mosaicos da nossa
casa-de-banho, para onde jorravam clandestinas as minhas primeiras golfadas de
sémen, eram iguais aos da cozinha dela. Ainda que o chão da madrinha fosse
anterior, tenho a certeza de que não houve nenhuma intenção irónica da parte do
meu pai quando ele se ajoelhou no local onde colocaria a retrete a assentar com
ferramentas emprestadas aquelas tijoleiras que formavam um padrão geométrico trompe-l’oeil de degraus tridimensionais
capaz de nos baralhar o sentido da visão como se tivesse sido desenhado por
Escher. Estou convencido de que os mosaicos da nossa minúscula casa-de-banho
eram sobras da cozinha dela, doadas com aquele misto de condescendência feudal
e arrependimento avaro que lhe retorcia os lábios sempre que hesitava na
avaliação do seu próprio acto. A madrinha gostava de se imaginar próspera ao
ponto de se permitir uma prodigalidade indiferente, mas para sua infelicidade
ela não tinha como ignorar a falência da empresa e o seu próprio carácter, de
que não fazia parte a empatia. Daí aquela luta consigo mesma, visível e perenemente
fixada no esgar do rosto. O meu pai, pelo seu lado, desconhecia as virtudes catárticas
da ironia e nunca lhe ocorreriam pensamentos menos dignos ao sentar-se naquela sanita
com vista para o puzzle vertiginoso
que desenhava no chão a cerâmica esmolada.
A mim, sim, ocorria toda a espécie de pensamentos
insultuosos, excepto os que envolviam a líbido. Quando era uma presença regular
na minha vida, a madrinha não passara há muito os quarenta anos, mas para os
meus olhos era uma velha, e eu atribuía o volume e a firmeza aguda — bélica, de
obus alemão — dos seus grandes seios a soutiens
antiquados feitos de arame e renda, não a quaisquer qualidades eróticas do seu
próprio corpo.
A ironia — e também a epifania, chamemos-lhe assim —
era eu ter-me recordado da madrinha quando hospedado na Quinta de Pompeia
descobri que o quarto-de-banho da suite e a cozinha semi-rústica da casa
principal estavam recobertos com o mesmo tipo de mosaicos, possivelmente
fabricados na década em que eles eram modernos (a mesma da minha infância), tal
o afã tradicionalista e o desejo de genuinidade que tinham presidido à
reconstrução da Quinta.
Tenho uma propensão para reparar em mosaicos. Herdei
do meu pai o carácter introspectivo e o infame hábito de manter o olhar baixo, serviçal,
como as castas inferiores na sua congénita prontidão para aceitar o menosprezo,
ou como os judeus demasiado perplexos com o que lhes acontecia em Auschwitz
para sequer pensarem em reagir. Na selva das relações sociais, um olhar baixo é
um convite aos predadores. A menos agressiva ou hostil das criaturas sente o
apelo do sangue e uma força dominadora se à sua frente encontra um humilde de
cerviz curvada. Não há como negar razão ao aforismo perante estes factos: todos
os homens são maus, basta terem a sua oportunidade.»
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Bastardia
Kettle, uma velha snob da
saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a
sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo
e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de
intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as
pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.
terça-feira, 14 de julho de 2015
Um Pirandello para Coelho
Desde La Feria que Passos Coelho é uma personagem à procura de um
papel. Infelizmente, Herman José desistiu de ter piada, senão hoje veríamos
Passos como «presidente da junta». O ex-líder da JSD, melena ao vento, poderia
mesmo ter sido «o maior da sua aldeia», se os Gato Fedorento não tivessem suspendido
precocemente actividades.
Olhamos em volta e temos de concluir com mágoa que Passos «por-acaso-até-foi-uma-ideia-minha»
Coelho só é Primeiro-Ministro por falta de papéis cómicos noutras empresas — ou
porque é mais exigente um casting para
musicais de lantejoulas na Rua das Portas de Santo Antão do que a democracia
portuguesa.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
O pessimismo antropológico revisitado
É irónico que o reforço da minha sensibilidade de esquerda tenha sido
obtido observando os próceres e os pregoeiros das instituições capitalistas com
a lupa de uma inata característica de direita: o pessimismo antropológico.
Todos os homens são maus e naturalmente egoístas, só que alguns são-no
mais do que os outros — é com
esta espécie de paráfrase orwelliana que o que resta de direita inocente se
devia hoje confrontar.
«A vida militar»
«Tudo
começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que
nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado
para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era
eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying
na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos
cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais
tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada
Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento,
era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que
realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e
galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um
tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes
logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias,
quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente
erradas.
A
mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas
frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram
absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no
mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com
um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem
loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados.
Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam
de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se
eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me
mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar
seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do
ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada
os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os
cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do
seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser
perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura
do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem
bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado
onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à
hierarquia.
Nas
primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de
sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda
mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila
para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona,
incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o
equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de
suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao
contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que
éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de
os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas
ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que,
numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se
ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa,
tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para
conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada
a atmosfera já de si empestada da caserna.
O
pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de
Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e
mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do
Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a
perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era
de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na
parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os
gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do
alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De
resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo
que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava
demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes.
Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente
convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se
misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho
ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com
a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se
pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica,
como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a
violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um
tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em
que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha
quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma
num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número
três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros,
quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral
verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt
de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta
e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente
penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os
cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no
desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço,
ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro
que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me
entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de
ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em
metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da
manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade
da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista
de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e
na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram
infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»
* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem
sofística do Exército.
P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html
quarta-feira, 8 de julho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
17
Ia propor-me oferecer um exemplar d’Os Idiotas ao primeiro leitor ou leitora que decifrasse o cabalístico 17 que se vê na foto, mas percebi que o exercício era em si idiota, por redundante. Decerto todos os que conhecem a importância do 17 na mitologia deste blogue são já detentores do livrinho.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Uma epifania todoroviana para Marco António Costa
Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes,
por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não
resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate
político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar
essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério —
talvez adulto, para usar a terminologia
do FMI — e salvífico da economia.
Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos
anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz,
precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era
preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia
ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício
simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu
um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas
linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e
vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira
universitária que então iniciou em França.
Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em
perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov
nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se
tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade
de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura
em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente
a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.
Marco António e um bom lote de políticos e economistas
europeus são uma espécie de semióticos da actual
ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania
todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em
comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo
estéril e patético.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Vanitas
Só para lembrar que a Granta Portugal n.º 5 chegou às livrarias e traz um conto meu. Bem sei, não é a mesma coisa que pertencer à elite dos mil poetas da Chiado Editora, mas figurar ao lado de Jonathan Franzen e Gore Vidal sempre dá uma certa vaidade.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Silvano, o profeta
«Há um profeta no Seixo, disse Eurico,
levantando-se para encarar os campos que os separavam da aldeia. Ninguém que
seja de levar muito a sério, apenas um tipo louco que escolheu uma vida
original. Habita uma cabana tosca lá em baixo, depois da curva do rio, comendo
o peixe que pesca e as ofertas piedosas da aldeia, onde sobe uma vez por
semana. De vez em quando vai pelas terras em volta, de porta em porta, como os
apóstolos, de Bíblia na mão. Tem uns longos cabelos negros, barba, é magro mas
musculado e veste sempre pouca roupa, mesmo no Inverno. Os mais supersticiosos
não deixam de se benzer quando ele aparece. Se não o conhecessem jurariam que
se tratava de Jesus Cristo, Ele próprio, e alguns ainda esperam, sem o
confessarem, que um dia algo de maravilhoso se revele nele. As mulheres
suspiram, e entre elas falam do desperdício que é um homem daqueles, bonito
como o Errol Flynn, ter-se perdido assim.
Houve alturas em que esteve para ser
morto, abatido a tiro como um javali, ou à sacholada como uma víbora. Nestas
terreolas os homens saem cedo, para a lavoura, e só as mulheres ficam em casa.
À hora a que o Silvano (é este o nome dele) chega para a sua pregação só as
encontra a elas. Ele fala baixinho, com afabilidade e extrema educação
(estudou) e é de facto uma pessoa com bom coração, cheia de amor pelo próximo,
como manda a Bíblia. Seduz, para dizer tudo numa palavra. Se fosse um
caixeiro-viajante ninguém duvidava que os seus modos não passavam de uma
táctica para vender as bugigangas que trazia na mala e sabe-se lá para que
mais. Mas ele só fala de religião, de praticar o bem, de confessar e perdoar os
pecados e coisas assim. Seja como for, por essas ou outras razões, é bem
recebido, as mulheres gostam de o ouvir e perdem um bom tempo com ele, a
suspirar, enlevadas num bem-estar místico, a darem-lhe as mãos a beijar, por
vezes. E isto nem sempre agrada aos maridos, aos mais ciumentos, que vêem
naquela catequese, reprovada pelo padre, uma maneira de serem desprezados pelas
mulheres, e às vezes pior do que isso. O que lhe vale, ao Silvano, é não fugir,
dar sempre a outra face. Se se acobardasse um bocadinho quando eles chegam com
as fúrias e desatasse a correr pelos campos a segurar os seus andrajos, já
teria, talvez, levado com chumbo nas costas. Assim, exaspera os homens — que
lhe invejam a figura e a bravura —, mas ao mesmo tempo intimida-os, com o seu
olhar bondoso de santo no altar. Duma forma ou de outra, sobreviveu até hoje.»
in Hotel do Norte
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Granta
Em Maio de 2003 publicávamos na Periférica
uma crónica de Ian Jack, então editor da Granta,
e uma entrevista que lhe fez o jornalista Justin Webster. Na altura o céu era o
limite e com muita lata e alguma ajuda conseguíamos para a revista matérias e
colaborações por vezes um pouco surpreendentes. Na verdade, nenhum de nós
conhecia muito bem a Granta, o
Fernando fizera recentemente uma assinatura, lêramos umas coisas sobre ela, il padrino Rentes de Carvalho aconselhara-a, percebíamos a sua importância e influência, gostávamos daquilo do “new
writing”.
Desde então a vidinha impôs-se e a fanfarronice moderou-se. A Periférica acabou. A Granta deixou de ser exclusivamente inglesa
e ganhou edições em 12 países, um dos quais este remorso de todos nós.
Doze anos depois, o número 5 da Granta lusa publica
um texto meu — e tem a festa de lançamento na Rua do Alecrim a 27 de Maio, o
mesmo dia em que, em 2003, fazíamos no Chiado o lançamento da Periférica n.º 5.
domingo, 26 de abril de 2015
Hugo Boss*
Uma das coisas positivas de se ser teso é não ter
no guarda-fatos nada que nos possa perturbar quando descobrimos que Hugo Boss,
membro do partido Nacional-Socialista alemão, vulgo Nazi, confeccionou os uniformes
das SS.
Não acho que os erros dos antecessores devam estigmatizar
ou condenar os herdeiros (familiares ou empresariais) mais do que as leis da
sucessão (e das compensações de guerra, quando aplicáveis) devam prever, e será
difícil encontrar uma marca alemã que não tenha trabalhado para os nazis. Além
disso, temos o também perturbador currículo asiático da Zara e das outras marcas
low cost. Tudo isso merece ponderação, pois claro.
Mas ainda assim, alivia, francamente, seguir uma linha de vestuário, pouco fashion que seja, que não teve Himmler
como cliente emérito.
*Depois de ler um post de Rui Bebiano no Facebook.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




