terça-feira, 29 de setembro de 2015

A Zona de Interesse


A Zona de Interesse, de Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal, onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade — e isso, que tem em si algo de Amis way, não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro. Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e morte, crimes e violações são décor. Não. Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre o enredo.)
Há o risco de leitores menos familiarizados com a História ficarem a achar que as atrocidades nazis não passam de ficção, cenário para romances e filmes, no máximo uns contratempos aborrecidos para personagens secundárias, contribuindo assim o livro para banalizar o Mal e relativizar os crimes nazis? Não. Primeiro porque Hollywood já se encarregou disso há muito tempo. Segundo porque leitores menos familiarizados com a História dificilmente lerão Martin Amis. Terceiro porque esses leitores, na eventualidade de lerem o livro, teriam de ser também insensíveis, incapazes de empatia e sobretudo pouco familiarizados com a inteligência (pelo menos pouco treinados nela). Há leitores assim, que devamos proteger do terrível Amis? Há. Chamam-se geralmente adolescentes (mesmo que alguns tenham passado a idade púbere) e são já várias as gerações deles que têm vindo a ser poupadas a conhecer a História. Há leitores assim, mas não os devemos proteger de Amis. Devemos protegê-los das televisões, dos Ministérios da Educação, da robotização neoliberal em curso — e dar-lhes muitos, muitos livros de História para ler. E depois dar-lhes também o livro de Amis para ler.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nunca tinha pensado nisso

«Nunca tinha pensado nisso, mas os mosaicos da nossa casa-de-banho, para onde jorravam clandestinas as minhas primeiras golfadas de sémen, eram iguais aos da cozinha dela. Ainda que o chão da madrinha fosse anterior, tenho a certeza de que não houve nenhuma intenção irónica da parte do meu pai quando ele se ajoelhou no local onde colocaria a retrete a assentar com ferramentas emprestadas aquelas tijoleiras que formavam um padrão geométrico trompe-l’oeil de degraus tridimensionais capaz de nos baralhar o sentido da visão como se tivesse sido desenhado por Escher. Estou convencido de que os mosaicos da nossa minúscula casa-de-banho eram sobras da cozinha dela, doadas com aquele misto de condescendência feudal e arrependimento avaro que lhe retorcia os lábios sempre que hesitava na avaliação do seu próprio acto. A madrinha gostava de se imaginar próspera ao ponto de se permitir uma prodigalidade indiferente, mas para sua infelicidade ela não tinha como ignorar a falência da empresa e o seu próprio carácter, de que não fazia parte a empatia. Daí aquela luta consigo mesma, visível e perenemente fixada no esgar do rosto. O meu pai, pelo seu lado, desconhecia as virtudes catárticas da ironia e nunca lhe ocorreriam pensamentos menos dignos ao sentar-se naquela sanita com vista para o puzzle vertiginoso que desenhava no chão a cerâmica esmolada.

A mim, sim, ocorria toda a espécie de pensamentos insultuosos, excepto os que envolviam a líbido. Quando era uma presença regular na minha vida, a madrinha não passara há muito os quarenta anos, mas para os meus olhos era uma velha, e eu atribuía o volume e a firmeza aguda — bélica, de obus alemão — dos seus grandes seios a soutiens antiquados feitos de arame e renda, não a quaisquer qualidades eróticas do seu próprio corpo.
A ironia — e também a epifania, chamemos-lhe assim — era eu ter-me recordado da madrinha quando hospedado na Quinta de Pompeia descobri que o quarto-de-banho da suite e a cozinha semi-rústica da casa principal estavam recobertos com o mesmo tipo de mosaicos, possivelmente fabricados na década em que eles eram modernos (a mesma da minha infância), tal o afã tradicionalista e o desejo de genuinidade que tinham presidido à reconstrução da Quinta.

Tenho uma propensão para reparar em mosaicos. Herdei do meu pai o carácter introspectivo e o infame hábito de manter o olhar baixo, serviçal, como as castas inferiores na sua congénita prontidão para aceitar o menosprezo, ou como os judeus demasiado perplexos com o que lhes acontecia em Auschwitz para sequer pensarem em reagir. Na selva das relações sociais, um olhar baixo é um convite aos predadores. A menos agressiva ou hostil das criaturas sente o apelo do sangue e uma força dominadora se à sua frente encontra um humilde de cerviz curvada. Não há como negar razão ao aforismo perante estes factos: todos os homens são maus, basta terem a sua oportunidade.»

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bastardia

Kettle, uma velha snob da saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Um Pirandello para Coelho

Desde La Feria que Passos Coelho é uma personagem à procura de um papel. Infelizmente, Herman José desistiu de ter piada, senão hoje veríamos Passos como «presidente da junta». O ex-líder da JSD, melena ao vento, poderia mesmo ter sido «o maior da sua aldeia», se os Gato Fedorento não tivessem suspendido precocemente actividades.

Olhamos em volta e temos de concluir com mágoa que Passos «por-acaso-até-foi-uma-ideia-minha» Coelho só é Primeiro-Ministro por falta de papéis cómicos noutras empresas — ou porque é mais exigente um casting para musicais de lantejoulas na Rua das Portas de Santo Antão do que a democracia portuguesa.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O pessimismo antropológico revisitado

É irónico que o reforço da minha sensibilidade de esquerda tenha sido obtido observando os próceres e os pregoeiros das instituições capitalistas com a lupa de uma inata característica de direita: o pessimismo antropológico.

Todos os homens são maus e naturalmente egoístas, só que alguns são-no mais do que os outros — é com esta espécie de paráfrase orwelliana que o que resta de direita inocente se devia hoje confrontar.

«A vida militar»

[Primeiros parágrafos de uma prosa justamente descontinuada]

«Tudo começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento, era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias, quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente erradas.
A mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados. Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à hierarquia.
Nas primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona, incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que, numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa, tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada a atmosfera já de si empestada da caserna.
O pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes. Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica, como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros, quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço, ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»

* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem sofística do Exército.

P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html

Pequenas ironias

Ver Helena Matos queixar-se de hate mail.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

«Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.»
Hélia Correia com uma razão que já tão pouca gente consegue perceber.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

17


Ia propor-me oferecer um exemplar d’Os Idiotas ao primeiro leitor ou leitora que decifrasse o cabalístico 17 que se vê na foto, mas percebi que o exercício era em si idiota, por redundante. Decerto todos os que conhecem a importância do 17 na mitologia deste blogue são já detentores do livrinho.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma epifania todoroviana para Marco António Costa

Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes, por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério — talvez adulto, para usar a terminologia do FMI — e salvífico da economia.

Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz, precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira universitária que então iniciou em França.

Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.

Marco António e um bom lote de políticos e economistas europeus são uma espécie de semióticos da actual ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo estéril e patético.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Vanitas


Só para lembrar que a Granta Portugal n.º 5 chegou às livrarias e traz um conto meu. Bem sei, não é a mesma coisa que pertencer à elite dos mil poetas da Chiado Editora, mas figurar ao lado de Jonathan Franzen e Gore Vidal sempre dá uma certa vaidade.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Silvano, o profeta

«Há um profeta no Seixo, disse Eurico, levantando-se para encarar os campos que os separavam da aldeia. Ninguém que seja de levar muito a sério, apenas um tipo louco que escolheu uma vida original. Habita uma cabana tosca lá em baixo, depois da curva do rio, comendo o peixe que pesca e as ofertas piedosas da aldeia, onde sobe uma vez por semana. De vez em quando vai pelas terras em volta, de porta em porta, como os apóstolos, de Bíblia na mão. Tem uns longos cabelos negros, barba, é magro mas musculado e veste sempre pouca roupa, mesmo no Inverno. Os mais supersticiosos não deixam de se benzer quando ele aparece. Se não o conhecessem jurariam que se tratava de Jesus Cristo, Ele próprio, e alguns ainda esperam, sem o confessarem, que um dia algo de maravilhoso se revele nele. As mulheres suspiram, e entre elas falam do desperdício que é um homem daqueles, bonito como o Errol Flynn, ter-se perdido assim.
Houve alturas em que esteve para ser morto, abatido a tiro como um javali, ou à sacholada como uma víbora. Nestas terreolas os homens saem cedo, para a lavoura, e só as mulheres ficam em casa. À hora a que o Silvano (é este o nome dele) chega para a sua pregação só as encontra a elas. Ele fala baixinho, com afabilidade e extrema educação (estudou) e é de facto uma pessoa com bom coração, cheia de amor pelo próximo, como manda a Bíblia. Seduz, para dizer tudo numa palavra. Se fosse um caixeiro-viajante ninguém duvidava que os seus modos não passavam de uma táctica para vender as bugigangas que trazia na mala e sabe-se lá para que mais. Mas ele só fala de religião, de praticar o bem, de confessar e perdoar os pecados e coisas assim. Seja como for, por essas ou outras razões, é bem recebido, as mulheres gostam de o ouvir e perdem um bom tempo com ele, a suspirar, enlevadas num bem-estar místico, a darem-lhe as mãos a beijar, por vezes. E isto nem sempre agrada aos maridos, aos mais ciumentos, que vêem naquela catequese, reprovada pelo padre, uma maneira de serem desprezados pelas mulheres, e às vezes pior do que isso. O que lhe vale, ao Silvano, é não fugir, dar sempre a outra face. Se se acobardasse um bocadinho quando eles chegam com as fúrias e desatasse a correr pelos campos a segurar os seus andrajos, já teria, talvez, levado com chumbo nas costas. Assim, exaspera os homens — que lhe invejam a figura e a bravura —, mas ao mesmo tempo intimida-os, com o seu olhar bondoso de santo no altar. Duma forma ou de outra, sobreviveu até hoje.»

in Hotel do Norte

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Granta


Em Maio de 2003 publicávamos na Periférica uma crónica de Ian Jack, então editor da Granta, e uma entrevista que lhe fez o jornalista Justin Webster. Na altura o céu era o limite e com muita lata e alguma ajuda conseguíamos para a revista matérias e colaborações por vezes um pouco surpreendentes. Na verdade, nenhum de nós conhecia muito bem a Granta, o Fernando fizera recentemente uma assinatura, lêramos umas coisas sobre ela, il padrino Rentes de Carvalho aconselhara-a, percebíamos a sua importância e influência, gostávamos daquilo do “new writing”.
Desde então a vidinha impôs-se e a fanfarronice moderou-se. A Periférica acabou. A Granta deixou de ser exclusivamente inglesa e ganhou edições em 12 países, um dos quais este remorso de todos nós.
Doze anos depois, o número 5 da Granta lusa publica um texto meu — e tem a festa de lançamento na Rua do Alecrim a 27 de Maio, o mesmo dia em que, em 2003, fazíamos no Chiado o lançamento da Periférica n.º 5.

domingo, 26 de abril de 2015

Hugo Boss*

Uma das coisas positivas de se ser teso é não ter no guarda-fatos nada que nos possa perturbar quando descobrimos que Hugo Boss, membro do partido Nacional-Socialista alemão, vulgo Nazi, confeccionou os uniformes das SS.
Não acho que os erros dos antecessores devam estigmatizar ou condenar os herdeiros (familiares ou empresariais) mais do que as leis da sucessão (e das compensações de guerra, quando aplicáveis) devam prever, e será difícil encontrar uma marca alemã que não tenha trabalhado para os nazis. Além disso, temos o também perturbador currículo asiático da Zara e das outras marcas low cost. Tudo isso merece ponderação, pois claro. Mas ainda assim, alivia, francamente, seguir uma linha de vestuário, pouco fashion que seja, que não teve Himmler como cliente emérito.


*Depois de ler um post de Rui Bebiano no Facebook.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mil poetas

A Chiado Editora tem uma Antologia de Poesia Contemporânea que reúne cerca de mil autores. Sim, apenas mil. Julgávamos nós que Portugal era um país de poetas e a Chiado, propondo-se antologiar a raça, não encontra mais de mil. Que ineficiência. Que preguiça. Que falta de respeito pela veia pátria. 
Há quem defenda a editora dizendo que o magro número de antologiados se deve ao apertado crivo do antologiador, receoso de deixar a impressão de que ali entrava qualquer transeunte capaz de assinar o próprio nome, mesmo que com erros ortográficos. Receio absurdo, bem se vê, que na verdade conduziu à publicação de uma obra incompleta, pouco representativa da vivacidade lírica nacional.
É certo que o excesso de escrúpulo teve as suas vantagens: não há na antologia senão Homeros. O escasso número de autores assegura ao leitor o mesmo conforto que teve o organizador: em colectânea peneirada com tal minúcia é virtualmente impossível encontrar um poema mau.
A opção elitista da editora tem naturalmente desvantagens comerciais (o que dá uma certa nobreza abnegada à empresa, é de reconhecer). Sabendo-se que os leitores portugueses, na hora de comprar, são movidos sobretudo pela cumplicidade estética, pela afectividade intelectual e pelos laços literários que mantêm com os autores, está bom de ver que se venderão uns meros seis ou sete milhares de exemplares da antologia quando se poderiam vender pelo menos sessenta mil, se se multiplicasse por dez o número de antologiados. Reflectindo, aliás, mais verosimilmente a contemporânea arcádia lusitana. Dez mil poetas lusos* é o mínimo que uma antologia que se preze deve às letras portuguesas.

* De longas barbas e de braço dado a cantar eurovisivamente, à grega, “Good bye, my love, good bye”.

P.S.: Entre o Sono e o Sonho é o título da antologia da Chiado Editora. Entre o sono dos leitores e o sonho delirante dos autores, presumo.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Tolentino

Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público na Madeira, quotidiano ilustrador do boçal caciquismo jardinista, era um exemplo do que é ser jornalista.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.

terça-feira, 7 de abril de 2015

J. Rentes de Carvalho na RTP

O documentário de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira sobre J. Rentes de Carvalho (www.tempocontado.blogspot.pt) passa nesta terça-feira, 7 de Abril, na RTP2, às 23h25. Quem puder, veja. Quem não puder, por uma vez use as opções de gravação de programas para algo útil.

(Notícia aqui e aqui.)



segunda-feira, 6 de abril de 2015

A ascensão germânica

Há quem diga que todas as rivalidades dos anos 80 foram redimidas com o convite de Nena a Kim Wilde em 2002 para o remake de “Irgendwie, Irgendwo, Irgendwann”, incluído no álbum que celebrava os 20 anos de carreira da cantora alemã com o título “Anyplace, Anywhere, Anytime”. Mas a exegese do vídeo que acompanhou a canção deu azo a duas teorias diferentes. A primeira toma o gesto de Nena por um acto de piedade, não de conciliação. Contudo, embora a piedade não raro envolva sobranceria ou condescendência, pode-se ainda optar por ver ali apenas nobreza. «Vamos lá tirar a Kim da sua jardinagem por um momento e lembrar ao mundo como também ela cantava bem», poderia ter pensado a simpática Nena, num arroubo de caridade.
A segunda teoria, porém, não deixa espaço a ambiguidades destas. Os seus preconizadores consideram que os 3’44’’, apesar da boa prestação vocal de Wilde, são uma orquestrada humilhação que a raça ariana, representada pela esguia, jovial e saltitante Nena, perpetra sobre a melancólica e já pesadona Inglaterra. Eram, defendem, os primeiros sinais da ambição germânica que dez anos depois transbordaria do festival da Eurovisão para a economia e a política.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O tee do 17

Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17 anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u) intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo — me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do lado de dentro.

E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo, tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na encosta do monte. Refiro-me ao tee dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de subir para a first shot, talvez por em Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem, felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos. Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.

P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.

sexta-feira, 27 de março de 2015

LER mal os sinais

O novo número da LER apareceu-me de surpresa num post de alguém no Facebook, esse antro de ociosos e desmiolados. O blogue da revista, ainda que indicado a vermelho logo na página 1 como sendo um local de «informação diária sobre edição», não é actualizado desde 21 de Novembro de 2014. A página de Facebook (sim, o Francisco deixou que alguém criasse uma), ontem actualizada, estava silenciosa desde 5 de Dezembro (silêncio, aliás, apenas interrompido para colocar a capa da edição anterior).
Confesso que imaginava ter-se a revista finado. Tinha-o referido com tristeza há dois ou três dias. Folheá-la agora conforta-me. Cheirá-la inebria-me um pouco, como o odor de uma lareira ao passar na rua, com a sua promessa de aconchego e histórias ao serão. Mas a inesperada existência física da revista, mesmo que surpreendentemente impregnada de viço juvenil nos seus “Manifestos” e rubricas afins, não afastou de todo a sombra instalada pela sua ausência electrónica. Agradeço, bem entendido, que a LER seja uma revista impressa, e não vejo necessidade de que os seus editores se ocupem da tal «informação diária sobre edição». Mas dado que hoje somos também, queiramos ou não, seres online, impõem-se uns regulares sinais vitais (ainda que em ritmo de urso hibernando) — ou, para evitar equívocos e agoiros, a eliminação sumária das páginas na Internet. Se é para estarmos de coração na mão em cada final de trimestre, ao menos que não tenhamos capas antigas a assombrar-nos as espreitadelas ansiosas aos sites.