Kettle, uma velha snob da
saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a
sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo
e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de
intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as
pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
terça-feira, 14 de julho de 2015
Um Pirandello para Coelho
Desde La Feria que Passos Coelho é uma personagem à procura de um
papel. Infelizmente, Herman José desistiu de ter piada, senão hoje veríamos
Passos como «presidente da junta». O ex-líder da JSD, melena ao vento, poderia
mesmo ter sido «o maior da sua aldeia», se os Gato Fedorento não tivessem suspendido
precocemente actividades.
Olhamos em volta e temos de concluir com mágoa que Passos «por-acaso-até-foi-uma-ideia-minha»
Coelho só é Primeiro-Ministro por falta de papéis cómicos noutras empresas — ou
porque é mais exigente um casting para
musicais de lantejoulas na Rua das Portas de Santo Antão do que a democracia
portuguesa.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
O pessimismo antropológico revisitado
É irónico que o reforço da minha sensibilidade de esquerda tenha sido
obtido observando os próceres e os pregoeiros das instituições capitalistas com
a lupa de uma inata característica de direita: o pessimismo antropológico.
Todos os homens são maus e naturalmente egoístas, só que alguns são-no
mais do que os outros — é com
esta espécie de paráfrase orwelliana que o que resta de direita inocente se
devia hoje confrontar.
«A vida militar»
«Tudo
começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que
nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado
para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era
eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying
na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos
cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais
tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada
Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento,
era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que
realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e
galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um
tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes
logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias,
quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente
erradas.
A
mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas
frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram
absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no
mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com
um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem
loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados.
Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam
de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se
eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me
mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar
seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do
ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada
os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os
cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do
seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser
perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura
do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem
bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado
onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à
hierarquia.
Nas
primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de
sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda
mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila
para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona,
incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o
equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de
suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao
contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que
éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de
os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas
ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que,
numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se
ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa,
tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para
conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada
a atmosfera já de si empestada da caserna.
O
pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de
Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e
mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do
Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a
perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era
de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na
parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os
gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do
alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De
resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo
que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava
demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes.
Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente
convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se
misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho
ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com
a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se
pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica,
como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a
violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um
tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em
que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha
quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma
num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número
três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros,
quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral
verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt
de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta
e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente
penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os
cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no
desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço,
ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro
que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me
entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de
ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em
metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da
manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade
da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista
de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e
na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram
infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»
* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem
sofística do Exército.
P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html
quarta-feira, 8 de julho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
17
Ia propor-me oferecer um exemplar d’Os Idiotas ao primeiro leitor ou leitora que decifrasse o cabalístico 17 que se vê na foto, mas percebi que o exercício era em si idiota, por redundante. Decerto todos os que conhecem a importância do 17 na mitologia deste blogue são já detentores do livrinho.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Uma epifania todoroviana para Marco António Costa
Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes,
por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não
resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate
político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar
essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério —
talvez adulto, para usar a terminologia
do FMI — e salvífico da economia.
Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos
anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz,
precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era
preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia
ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício
simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu
um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas
linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e
vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira
universitária que então iniciou em França.
Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em
perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov
nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se
tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade
de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura
em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente
a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.
Marco António e um bom lote de políticos e economistas
europeus são uma espécie de semióticos da actual
ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania
todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em
comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo
estéril e patético.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Vanitas
Só para lembrar que a Granta Portugal n.º 5 chegou às livrarias e traz um conto meu. Bem sei, não é a mesma coisa que pertencer à elite dos mil poetas da Chiado Editora, mas figurar ao lado de Jonathan Franzen e Gore Vidal sempre dá uma certa vaidade.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Silvano, o profeta
«Há um profeta no Seixo, disse Eurico,
levantando-se para encarar os campos que os separavam da aldeia. Ninguém que
seja de levar muito a sério, apenas um tipo louco que escolheu uma vida
original. Habita uma cabana tosca lá em baixo, depois da curva do rio, comendo
o peixe que pesca e as ofertas piedosas da aldeia, onde sobe uma vez por
semana. De vez em quando vai pelas terras em volta, de porta em porta, como os
apóstolos, de Bíblia na mão. Tem uns longos cabelos negros, barba, é magro mas
musculado e veste sempre pouca roupa, mesmo no Inverno. Os mais supersticiosos
não deixam de se benzer quando ele aparece. Se não o conhecessem jurariam que
se tratava de Jesus Cristo, Ele próprio, e alguns ainda esperam, sem o
confessarem, que um dia algo de maravilhoso se revele nele. As mulheres
suspiram, e entre elas falam do desperdício que é um homem daqueles, bonito
como o Errol Flynn, ter-se perdido assim.
Houve alturas em que esteve para ser
morto, abatido a tiro como um javali, ou à sacholada como uma víbora. Nestas
terreolas os homens saem cedo, para a lavoura, e só as mulheres ficam em casa.
À hora a que o Silvano (é este o nome dele) chega para a sua pregação só as
encontra a elas. Ele fala baixinho, com afabilidade e extrema educação
(estudou) e é de facto uma pessoa com bom coração, cheia de amor pelo próximo,
como manda a Bíblia. Seduz, para dizer tudo numa palavra. Se fosse um
caixeiro-viajante ninguém duvidava que os seus modos não passavam de uma
táctica para vender as bugigangas que trazia na mala e sabe-se lá para que
mais. Mas ele só fala de religião, de praticar o bem, de confessar e perdoar os
pecados e coisas assim. Seja como for, por essas ou outras razões, é bem
recebido, as mulheres gostam de o ouvir e perdem um bom tempo com ele, a
suspirar, enlevadas num bem-estar místico, a darem-lhe as mãos a beijar, por
vezes. E isto nem sempre agrada aos maridos, aos mais ciumentos, que vêem
naquela catequese, reprovada pelo padre, uma maneira de serem desprezados pelas
mulheres, e às vezes pior do que isso. O que lhe vale, ao Silvano, é não fugir,
dar sempre a outra face. Se se acobardasse um bocadinho quando eles chegam com
as fúrias e desatasse a correr pelos campos a segurar os seus andrajos, já
teria, talvez, levado com chumbo nas costas. Assim, exaspera os homens — que
lhe invejam a figura e a bravura —, mas ao mesmo tempo intimida-os, com o seu
olhar bondoso de santo no altar. Duma forma ou de outra, sobreviveu até hoje.»
in Hotel do Norte
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Granta
Em Maio de 2003 publicávamos na Periférica
uma crónica de Ian Jack, então editor da Granta,
e uma entrevista que lhe fez o jornalista Justin Webster. Na altura o céu era o
limite e com muita lata e alguma ajuda conseguíamos para a revista matérias e
colaborações por vezes um pouco surpreendentes. Na verdade, nenhum de nós
conhecia muito bem a Granta, o
Fernando fizera recentemente uma assinatura, lêramos umas coisas sobre ela, il padrino Rentes de Carvalho aconselhara-a, percebíamos a sua importância e influência, gostávamos daquilo do “new
writing”.
Desde então a vidinha impôs-se e a fanfarronice moderou-se. A Periférica acabou. A Granta deixou de ser exclusivamente inglesa
e ganhou edições em 12 países, um dos quais este remorso de todos nós.
Doze anos depois, o número 5 da Granta lusa publica
um texto meu — e tem a festa de lançamento na Rua do Alecrim a 27 de Maio, o
mesmo dia em que, em 2003, fazíamos no Chiado o lançamento da Periférica n.º 5.
domingo, 26 de abril de 2015
Hugo Boss*
Uma das coisas positivas de se ser teso é não ter
no guarda-fatos nada que nos possa perturbar quando descobrimos que Hugo Boss,
membro do partido Nacional-Socialista alemão, vulgo Nazi, confeccionou os uniformes
das SS.
Não acho que os erros dos antecessores devam estigmatizar
ou condenar os herdeiros (familiares ou empresariais) mais do que as leis da
sucessão (e das compensações de guerra, quando aplicáveis) devam prever, e será
difícil encontrar uma marca alemã que não tenha trabalhado para os nazis. Além
disso, temos o também perturbador currículo asiático da Zara e das outras marcas
low cost. Tudo isso merece ponderação, pois claro.
Mas ainda assim, alivia, francamente, seguir uma linha de vestuário, pouco fashion que seja, que não teve Himmler
como cliente emérito.
*Depois de ler um post de Rui Bebiano no Facebook.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Mil poetas
A Chiado Editora tem uma Antologia de Poesia Contemporânea que reúne cerca de mil autores. Sim,
apenas mil. Julgávamos nós que Portugal era um país de poetas e a Chiado,
propondo-se antologiar a raça, não encontra mais de mil. Que ineficiência. Que
preguiça. Que falta de respeito pela veia pátria.
É certo que o excesso de escrúpulo teve as suas
vantagens: não há na antologia senão Homeros. O escasso número de autores assegura ao leitor o mesmo conforto que teve o organizador: em colectânea peneirada
com tal minúcia é virtualmente impossível encontrar um poema mau.
A opção elitista da editora tem naturalmente
desvantagens comerciais (o que dá uma certa nobreza abnegada à empresa, é de
reconhecer). Sabendo-se que os leitores portugueses, na hora de comprar, são
movidos sobretudo pela cumplicidade estética,
pela afectividade intelectual e pelos laços literários
que mantêm com os autores, está bom de ver que se venderão uns meros seis
ou sete milhares de exemplares da antologia quando se poderiam vender pelo
menos sessenta mil, se se multiplicasse por dez o número de antologiados.
Reflectindo, aliás, mais verosimilmente a contemporânea arcádia lusitana.
Dez mil poetas lusos* é o mínimo que uma antologia que se preze deve às letras
portuguesas.
* De longas barbas e de braço dado a cantar eurovisivamente,
à grega, “Good bye, my love, good bye”.
P.S.: Entre o Sono e o Sonho é o título da
antologia da Chiado Editora. Entre o sono dos leitores e o sonho delirante dos
autores, presumo.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Tolentino
Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público na Madeira, quotidiano ilustrador do boçal caciquismo jardinista, era um exemplo do que é ser jornalista.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
terça-feira, 7 de abril de 2015
J. Rentes de Carvalho na RTP
O documentário de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira sobre J. Rentes de Carvalho (www.tempocontado.blogspot.pt) passa nesta terça-feira, 7 de Abril, na RTP2, às 23h25. Quem puder, veja. Quem não puder, por uma vez use as opções de gravação de programas para algo útil.
(Notícia aqui e aqui.)
(Notícia aqui e aqui.)
segunda-feira, 6 de abril de 2015
A ascensão germânica
Há quem diga que todas as rivalidades dos anos 80 foram redimidas com o
convite de Nena a Kim Wilde em 2002 para o remake de “Irgendwie, Irgendwo,
Irgendwann”, incluído no álbum que celebrava os 20 anos de carreira da cantora
alemã com o título “Anyplace, Anywhere, Anytime”. Mas a exegese do vídeo que acompanhou a canção deu azo a duas teorias diferentes. A primeira toma o gesto de Nena por
um acto de piedade, não de conciliação. Contudo, embora a piedade não raro envolva
sobranceria ou condescendência, pode-se ainda optar por ver ali apenas nobreza.
«Vamos lá tirar a Kim da sua jardinagem por um momento e lembrar ao mundo como também
ela cantava bem», poderia ter pensado a simpática Nena, num arroubo de caridade.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
O tee do 17
Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras
Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam
as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez
mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia
sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17
anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha
memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e
vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u)
intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade
o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje
quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo
— me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam
ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das
Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do
lado de dentro.
E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque
de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a
minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo,
tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado
à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação
de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a
Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros
e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais
precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na
encosta do monte. Refiro-me ao tee
dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de
subir para a first shot, talvez por em
Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap
alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue
nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a
discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith
Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo
desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron
deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e
mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem,
felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só
deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao
final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos.
Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.
P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo
dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os
que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.
sexta-feira, 27 de março de 2015
LER mal os sinais
O novo número da LER apareceu-me de surpresa num post de alguém no Facebook, esse antro de ociosos e desmiolados. O blogue da revista, ainda que indicado a vermelho logo na página 1 como sendo um local de «informação diária sobre edição», não é actualizado desde 21 de Novembro de 2014. A página de Facebook (sim, o Francisco deixou que alguém criasse uma), ontem actualizada, estava silenciosa desde 5 de Dezembro (silêncio, aliás, apenas interrompido para colocar a capa da edição anterior).
Confesso que imaginava ter-se a revista finado. Tinha-o referido com tristeza há dois ou três dias. Folheá-la agora conforta-me. Cheirá-la inebria-me um pouco, como o odor de uma lareira ao passar na rua, com a sua promessa de aconchego e histórias ao serão. Mas a inesperada existência física da revista, mesmo que surpreendentemente impregnada de viço juvenil nos seus “Manifestos” e rubricas afins, não afastou de todo a sombra instalada pela sua ausência electrónica. Agradeço, bem entendido, que a LER seja uma revista impressa, e não vejo necessidade de que os seus editores se ocupem da tal «informação diária sobre edição». Mas dado que hoje somos também, queiramos ou não, seres online, impõem-se uns regulares sinais vitais (ainda que em ritmo de urso hibernando) — ou, para evitar equívocos e agoiros, a eliminação sumária das páginas na Internet. Se é para estarmos de coração na mão em cada final de trimestre, ao menos que não tenhamos capas antigas a assombrar-nos as espreitadelas ansiosas aos sites.
Benefícios do agendamento de posts
Uma das vantagens de ter escrito livros que permanecem inéditos é esta possibilidade de ir publicando excertos no defeso, alimentando com eles o
blogue, agendando posts como se o
escritor ainda estivesse vivo (quem o garante?). Além disso, o leitor pode
encontrar certo prazer lúdico em coleccionar os excertos e tentar uma
reconstrução da obra, a ver se lhe encontra sentido. Etiquetas como Aranda ou Hotel do Norte, havendo paciência, podem encher-se de um número
suficiente de excertos para que, montando-os laboriosamente como bobinas de
película, o leitor logre ufano a sua reader’s
cut.
Claro, há também a possibilidade de, no termo da montagem ou cansado de
tentativas, o leitor descobrir que a obra não tem afinal, digamos, ponta por
onde se lhe pegue. Mas nessa altura não é certo que o autor ainda esteja aí para sofrer o
choque.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Os primeiros trovões em Aranda
«O casal chegou trazendo um filho
pequeno pela mão. A mulher era naturalmente bonita mas a amargura ou o tédio,
ou talvez o ódio, pesavam-lhe no rosto, puxando os cantos da boca para baixo e
com eles as pálpebras, um pouco vermelhas, de um vermelho escuro, a caminhar
para o roxo. Não parecia ter estado a chorar, não era isso, embora também não
estivesse contente. Não eram, de qualquer modo, olhos violentados, ninguém
tinha desferido neles golpes físicos — mas havia ali sofrimento.
O homem, provavelmente da mesma
idade dela, no início dos trinta, tinha bom aspecto, mas um bom aspecto suspeito.
A barba, ainda que catalogável, inserida num protótipo comum a uma boa parte dos
homens ocidentais daquela geração, estava demasiado crescida naquele rosto, era
máscula em excesso. Depois havia a tentativa dele de parecer responsável com a
criança (acorria sempre mais tarde do que a mãe) e de liderar a visita à
esplanada, antecipando o pedido da companheira, que ela de imediato corrigiu
por não corresponder de todo ao seu apetite.
Na mesa ao lado havia um advogado
e o seu cliente. Ele tinha uma risca perfeita no cabelo, à direita, e o cliente
desgrenhava-se, passando mãos sapudas e transpiradas pela cabeça encaracolada.
O advogado era um Cyrano, ditando frases que o cliente repetia ao telemóvel.
Não era um caso de divórcio doloroso, ou a tentativa de o evitar: aquele
advogado era demasiado hesitante para enfrentar a ira de uma mulher e ao
cliente de mãos gordas não tinha sido dada a possibilidade de amar, pelo menos
de o fazer de uma forma romântica, mesmo que com poemas e serenatas sugeridos.
Eram certamente dívidas, acordos
mal consumados, contratos por cumprir. O advogado mostrava-se indignado com a
argumentação contrária que vinha pelo telemóvel do seu constituinte e tentava
ser mais implacável nas instruções que lhe transmitia. Em momento nenhum pegou
ele próprio no aparelho, pelo que teve tempo de reparar no desamparo da mulher
que acabara de se sentar na mesa ao lado, esquecendo por minutos (ou sempre) o
desamparo que oprimia o seu próprio cliente.
Uma segunda mulher subiu à cena,
vinda da parte inferior do jardim. O chão da esplanada estava pavimentado em pequenos
cubos de granito, mal aparelhados, e ela vinha com as cautelas que têm todas as
mulheres que usam saltos altos e não querem vê-los entalados nas juntas
traiçoeiras da calçada. Caminhava de pernas flectidas, ombros levantados,
tentando usar ainda menos os calcanhares, como em tempos antigos faziam alguns
dos que ousavam atravessar descalços as fogueiras de São João. Sentou-se do
outro lado do advogado, contribuindo para a desorientação dele, já dividido
entre o cliente à sua frente e a mãe amarga à esquerda.
Esta nova mulher (com tatuagens à
vista e uma respeitável massa corporal que a faziam parecer um nórdico
apreciador de cerveja) tinha o que se diria um toque oriental, com o cabelo
muito escuro penteado para trás e preso na nuca. Mas depois de melhor
observação, o que se via era alguém que desejava a toda a força e com um método
artesanal disfarçar a decadência do rosto. Talvez ela não acreditasse nos
cremes ou não tivesse dinheiro para plásticas. Ou talvez aquele expediente se
destinasse apenas a evitar ingenuamente que o duplo queixo ficasse ainda mais
saliente. Fosse como fosse, o seu rosto, as peles e as rugas, tudo estava
repuxado pelo cabelo, bem preso atrás, dando aos olhos uma obliquidade asiática,
de lutador de sumo, e às maçãs do rosto e ao maxilar superior um ar de roedor.
No entanto, o artifício não vencia a gravidade que lhe reclamava a ignóbil
prega debaixo do queixo.
A terceira mulher a chegar não
tinha nenhum destes problemas, embora nos seus dezoito anos se achasse certamente
repositório de muitos outros e mais graves. Tinha uma ponta de acne e os dois
rapazes que a acompanhavam não faziam jus à sua beleza entediada (mais do que
dramática ou trágica) como costuma ser a de muitas mulheres jovens. Levantou-se
logo depois de se ter sentado e reconhecido alguém numa mesa mais longínqua. Avançou
para ali com passo destemido, mas calculista. Havia três outros rapazes naquela
mesa do canto e só um era seu conhecido. Os olhos varriam a mesa, tanto para se
certificar de que não conhecia de facto nenhum dos outros dois como para os
avaliar, avaliar o seu potencial reprodutor, ainda que a reprodução, o fim
último, não fosse exactamente o que desejava.
O rapaz conhecido estava de
costas, o que facilitou a actuação. Pôde afagar-lhe o cabelo na nuca — manipuladoramente,
como ela sabia que os rapazes gostavam, gatinhos imbecis, sentindo-se por
segundos ingénuos os únicos destinatários do afecto de uma rapariga por quem
vertiam saliva várias vezes ao dia —, pôde afagar-lhe o cabelo na nuca e ao
mesmo tempo observar tacticamente o resto da mesa. Pediu um cigarro, fora essa
a desculpa para deixar o seu próprio grupo. O rapaz conhecido apressou-se a
oferecer um Marlboro, mas ela soube distrair-se o suficiente para em vez disso aceitar
um dos cigarros que os outros dois estendiam.
Havia ainda mais uma mesa, onde
dois homens avantajados e gabarolas falavam de sexo e violência, de ciúmes e vinganças,
de conquistas e sucessos em rixas, mas nessa mesa Inês preferiu não se deter. (Ainda
que talvez aquela fosse a mesa que mais fielmente resumia tudo.) Ajudou-a o
facto de a encenação estar a atingir o momento alto: a dada altura, a esposa
amarga (ou a mãe amarga, talvez o das barbas não fosse seu marido nem pai da
criança, não havia nele determinação ou acomodamento suficiente no que concernia
às duas relações) resolveu desistir. O filho que esbracejasse e derrubasse as
cadeiras e a louça; o das barbas que continuasse inútil e ele próprio aborrecido
com a relação; o advogado que a espreitasse de todos os ângulos que pudesse; e
os outros, os adolescentes e a mulher zangada com a idade e as pregas da carne
e os tipos gabarolas, que viessem no fim acusá-la de estupidez por se ter
deixado parir aquele filho. Encostou-se na cadeira e deslizou por ali abaixo, a
saia subindo pelas coxas, ela imergindo num mundo outro.
Talvez por obediência a um código
tribal, a mulher amarga e o acompanhante vestiam de escuro, exibiam uma espécie
de viuvez mútua, que a saia curta dela não resgatava. Por isso, aquele
triângulo claro, quando surgiu entre as pernas abertas, desleixadas,
desistentes, era eloquência pura: umas cuecas festivas, alegres, com um padrão de
formas zombeteiras, vermelhas e amarelas, sobre um fundo branco, imaculado.
Inês não pôde deixar de
considerar aquilo um novo grito do Ipiranga — ou um pedido de resgate. Aquelas
cuecas naquele casal. Desde o início desconfiara que, primeiro, o das barbas
não era pai da criança, segundo, chegara com pouca convicção à relação (e
ansioso por ir andando) e, terceiro, a mãe amarga tinha ainda menos convicção
naquela relação e não estava segura de que havia alguma espécie de realização
pessoal na magna questão da maternidade. E, quarto (afinal havia uma quarta
dedução), a menos que o das barbas baixasse naquele momento as calças para
mostrar idêntica escolha no que se referia à roupa interior, ela apostaria que
entre aqueles dois não tinha havido sexo (ou intimidade) nos últimos tempos.
Umas cuecas coloridas eram, naquele agregado sombrio, mais do que segredo ou dissidência
camuflada — eram traição. Ou talvez só desprezo.
Ela estava agora a ver como se
arranjaria o advogado para espreitar as coxas da mulher amarga. Do seu lugar, o
penteadinho não conseguiria desfrutar o panorama, mas tinha as antenas
suficientemente alerta para se dar conta que havia um panorama para desfrutar.
Talvez se levantasse para ir ao balcão pagar os cafés — esse tipo de
investimento num cliente ele achava que podia fazer —, abrindo bem os olhos no
regresso. E a mulher das tatuagens e do cabelo preso? E a adolescente? E ela
própria? O que deveriam pensar as mulheres ali presentes daquela exibição de
intimidade? O que deveria ela, Inês, pensar?
Bem, não haveria escândalo, isso era certo. A não ser que fizesse o que lhe
apetecia, que era afastar o incompetente das barbas, segurar na criança (era
verdade? o instinto maternal era um facto científico?) e afagar o cabelo negro
da mãe amarga.
Não fez nada disso. Bebeu o resto
do café e chamou o empregado. Ao longe ouviram-se os primeiros trovões desde
que chegara a Aranda.»
Inês, in Aranda
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