Ver Helena Matos queixar-se de hate
mail.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
17
Ia propor-me oferecer um exemplar d’Os Idiotas ao primeiro leitor ou leitora que decifrasse o cabalístico 17 que se vê na foto, mas percebi que o exercício era em si idiota, por redundante. Decerto todos os que conhecem a importância do 17 na mitologia deste blogue são já detentores do livrinho.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Uma epifania todoroviana para Marco António Costa
Num daqueles vídeos que nos aparecem no Facebook e que às vezes,
por qualquer indução subliminar tecnológica ou simples tédio existencial, não
resistimos a espreitar, vi Helena Roseta servir-se vagamente da poesia num debate
político televisivo e um Marco António de barba aparada e gravata sem mácula rejeitar
essa via ingénua e inútil, subordinando-a naturalmente ao pragmatismo sério —
talvez adulto, para usar a terminologia
do FMI — e salvífico da economia.
Tzvetan Todorov é um búlgaro que foi estudar em Paris nos
anos do bloco comunista. Para passar nos testes que lhe davam acesso à cidade luz,
precisava de falar de literatura nos termos que a ideologia comunista impunha: era
preciso mostrar de que forma os escritos analisados ilustravam a boa ideologia
ou como falhavam em fazê-lo. Para não ter de entrar nesse exercício
simultaneamente estranho e constrangedor, Todorov, como tantos outros, escreveu
um trabalho que abordava a materialidade do texto e as suas formas
linguísticas. Seguiu, já se vê, a via do estruturalismo (aliás viçoso à época e
vicejante em todas as décadas seguintes), via que seria a sua na carreira
universitária que então iniciou em França.
Posteriormente, num livrinho intitulado «A literatura em
perigo» (2007), que por coincidência hoje dei por mim a ler, o mesmo Todorov
nota que o seu subterfúgio para não discutir a literatura nos termos do regime se
tornou afinal a norma no ensino francês (e europeu), que não tinha a mesma necessidade
de tergiversar. Todorov alerta para o absurdo que é ensinar e aprender literatura
em função da forma e das estruturas dos textos em vez de o fazer primariamente
a partir daquilo de que as obras falam, do seu sentido.
Marco António e um bom lote de políticos e economistas
europeus são uma espécie de semióticos da actual
ideologia dominante. Só podemos desejar que tenham depressa a sua epifania
todoroviana sobre o verdadeiro sentido da existência humana e da vida em
comunidade. Talvez isso não salve o euro, mas poupa-nos a um pretensiosismo
estéril e patético.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Vanitas
Só para lembrar que a Granta Portugal n.º 5 chegou às livrarias e traz um conto meu. Bem sei, não é a mesma coisa que pertencer à elite dos mil poetas da Chiado Editora, mas figurar ao lado de Jonathan Franzen e Gore Vidal sempre dá uma certa vaidade.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Silvano, o profeta
«Há um profeta no Seixo, disse Eurico,
levantando-se para encarar os campos que os separavam da aldeia. Ninguém que
seja de levar muito a sério, apenas um tipo louco que escolheu uma vida
original. Habita uma cabana tosca lá em baixo, depois da curva do rio, comendo
o peixe que pesca e as ofertas piedosas da aldeia, onde sobe uma vez por
semana. De vez em quando vai pelas terras em volta, de porta em porta, como os
apóstolos, de Bíblia na mão. Tem uns longos cabelos negros, barba, é magro mas
musculado e veste sempre pouca roupa, mesmo no Inverno. Os mais supersticiosos
não deixam de se benzer quando ele aparece. Se não o conhecessem jurariam que
se tratava de Jesus Cristo, Ele próprio, e alguns ainda esperam, sem o
confessarem, que um dia algo de maravilhoso se revele nele. As mulheres
suspiram, e entre elas falam do desperdício que é um homem daqueles, bonito
como o Errol Flynn, ter-se perdido assim.
Houve alturas em que esteve para ser
morto, abatido a tiro como um javali, ou à sacholada como uma víbora. Nestas
terreolas os homens saem cedo, para a lavoura, e só as mulheres ficam em casa.
À hora a que o Silvano (é este o nome dele) chega para a sua pregação só as
encontra a elas. Ele fala baixinho, com afabilidade e extrema educação
(estudou) e é de facto uma pessoa com bom coração, cheia de amor pelo próximo,
como manda a Bíblia. Seduz, para dizer tudo numa palavra. Se fosse um
caixeiro-viajante ninguém duvidava que os seus modos não passavam de uma
táctica para vender as bugigangas que trazia na mala e sabe-se lá para que
mais. Mas ele só fala de religião, de praticar o bem, de confessar e perdoar os
pecados e coisas assim. Seja como for, por essas ou outras razões, é bem
recebido, as mulheres gostam de o ouvir e perdem um bom tempo com ele, a
suspirar, enlevadas num bem-estar místico, a darem-lhe as mãos a beijar, por
vezes. E isto nem sempre agrada aos maridos, aos mais ciumentos, que vêem
naquela catequese, reprovada pelo padre, uma maneira de serem desprezados pelas
mulheres, e às vezes pior do que isso. O que lhe vale, ao Silvano, é não fugir,
dar sempre a outra face. Se se acobardasse um bocadinho quando eles chegam com
as fúrias e desatasse a correr pelos campos a segurar os seus andrajos, já
teria, talvez, levado com chumbo nas costas. Assim, exaspera os homens — que
lhe invejam a figura e a bravura —, mas ao mesmo tempo intimida-os, com o seu
olhar bondoso de santo no altar. Duma forma ou de outra, sobreviveu até hoje.»
in Hotel do Norte
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Granta
Em Maio de 2003 publicávamos na Periférica
uma crónica de Ian Jack, então editor da Granta,
e uma entrevista que lhe fez o jornalista Justin Webster. Na altura o céu era o
limite e com muita lata e alguma ajuda conseguíamos para a revista matérias e
colaborações por vezes um pouco surpreendentes. Na verdade, nenhum de nós
conhecia muito bem a Granta, o
Fernando fizera recentemente uma assinatura, lêramos umas coisas sobre ela, il padrino Rentes de Carvalho aconselhara-a, percebíamos a sua importância e influência, gostávamos daquilo do “new
writing”.
Desde então a vidinha impôs-se e a fanfarronice moderou-se. A Periférica acabou. A Granta deixou de ser exclusivamente inglesa
e ganhou edições em 12 países, um dos quais este remorso de todos nós.
Doze anos depois, o número 5 da Granta lusa publica
um texto meu — e tem a festa de lançamento na Rua do Alecrim a 27 de Maio, o
mesmo dia em que, em 2003, fazíamos no Chiado o lançamento da Periférica n.º 5.
domingo, 26 de abril de 2015
Hugo Boss*
Uma das coisas positivas de se ser teso é não ter
no guarda-fatos nada que nos possa perturbar quando descobrimos que Hugo Boss,
membro do partido Nacional-Socialista alemão, vulgo Nazi, confeccionou os uniformes
das SS.
Não acho que os erros dos antecessores devam estigmatizar
ou condenar os herdeiros (familiares ou empresariais) mais do que as leis da
sucessão (e das compensações de guerra, quando aplicáveis) devam prever, e será
difícil encontrar uma marca alemã que não tenha trabalhado para os nazis. Além
disso, temos o também perturbador currículo asiático da Zara e das outras marcas
low cost. Tudo isso merece ponderação, pois claro.
Mas ainda assim, alivia, francamente, seguir uma linha de vestuário, pouco fashion que seja, que não teve Himmler
como cliente emérito.
*Depois de ler um post de Rui Bebiano no Facebook.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Mil poetas
A Chiado Editora tem uma Antologia de Poesia Contemporânea que reúne cerca de mil autores. Sim,
apenas mil. Julgávamos nós que Portugal era um país de poetas e a Chiado,
propondo-se antologiar a raça, não encontra mais de mil. Que ineficiência. Que
preguiça. Que falta de respeito pela veia pátria.
É certo que o excesso de escrúpulo teve as suas
vantagens: não há na antologia senão Homeros. O escasso número de autores assegura ao leitor o mesmo conforto que teve o organizador: em colectânea peneirada
com tal minúcia é virtualmente impossível encontrar um poema mau.
A opção elitista da editora tem naturalmente
desvantagens comerciais (o que dá uma certa nobreza abnegada à empresa, é de
reconhecer). Sabendo-se que os leitores portugueses, na hora de comprar, são
movidos sobretudo pela cumplicidade estética,
pela afectividade intelectual e pelos laços literários
que mantêm com os autores, está bom de ver que se venderão uns meros seis
ou sete milhares de exemplares da antologia quando se poderiam vender pelo
menos sessenta mil, se se multiplicasse por dez o número de antologiados.
Reflectindo, aliás, mais verosimilmente a contemporânea arcádia lusitana.
Dez mil poetas lusos* é o mínimo que uma antologia que se preze deve às letras
portuguesas.
* De longas barbas e de braço dado a cantar eurovisivamente,
à grega, “Good bye, my love, good bye”.
P.S.: Entre o Sono e o Sonho é o título da
antologia da Chiado Editora. Entre o sono dos leitores e o sonho delirante dos
autores, presumo.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Tolentino
Tolentino de Nóbrega, correspondente do Público na Madeira, quotidiano ilustrador do boçal caciquismo jardinista, era um exemplo do que é ser jornalista.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
Morreu hoje, e eu, que admirava a sua coragem, tenho pena, muita pena, e remorsos de nunca ter escrito uma linha sobre ele enquanto vivia.
Para nós, continentais, era fácil lidar com o défice democrático da Madeira declarando, jocosa e unilateralmente (e mesmo assim sem darmos consequência às palavras), a independência da ilha. Era um lavar de mãos, que desculpávamos com as votações norte-coreanas de Alberto João. Tolentino era de outro calibre. Ao que consta, também ria muito, mas profissionalmente informava-nos, ano após ano, com uma coragem que nos devia envergonhar a todos, do desvario madeirense.
Devíamos ter percebido que cada artigo seu não era apenas uma notícia do ultramar, mas uma bitola para a dignidade. Nós sempre tivemos (e temos) os nossos próprios caciques, mas ao contrário de Tolentino fingimos que eles não existem ou contemporizamos.
terça-feira, 7 de abril de 2015
J. Rentes de Carvalho na RTP
O documentário de António-Pedro Vasconcelos e Leandro Ferreira sobre J. Rentes de Carvalho (www.tempocontado.blogspot.pt) passa nesta terça-feira, 7 de Abril, na RTP2, às 23h25. Quem puder, veja. Quem não puder, por uma vez use as opções de gravação de programas para algo útil.
(Notícia aqui e aqui.)
(Notícia aqui e aqui.)
segunda-feira, 6 de abril de 2015
A ascensão germânica
Há quem diga que todas as rivalidades dos anos 80 foram redimidas com o
convite de Nena a Kim Wilde em 2002 para o remake de “Irgendwie, Irgendwo,
Irgendwann”, incluído no álbum que celebrava os 20 anos de carreira da cantora
alemã com o título “Anyplace, Anywhere, Anytime”. Mas a exegese do vídeo que acompanhou a canção deu azo a duas teorias diferentes. A primeira toma o gesto de Nena por
um acto de piedade, não de conciliação. Contudo, embora a piedade não raro envolva
sobranceria ou condescendência, pode-se ainda optar por ver ali apenas nobreza.
«Vamos lá tirar a Kim da sua jardinagem por um momento e lembrar ao mundo como também
ela cantava bem», poderia ter pensado a simpática Nena, num arroubo de caridade.
quarta-feira, 1 de abril de 2015
O tee do 17
Vidago é a minha Sintra. Eu sei que para um tipo nado nas Pedras
Salgadas isto constitui uma traição, mas não vou iludir ninguém.
No parque das Pedras — que continuo a amar como o meu quintal — habitam
as primeiras duas décadas da minha vida. Continuam a habitar. Habitam talvez
mais confinadamente do que quando as vivi: creio que, apesar de tudo, conseguia
sair com mais frequência dos limites termais quando tinha de facto 16 ou 17
anos. Agora não. Agora raramente tenho vida adolescente fora dali. Na minha
memória (que a partir dos quarenta passou a ser uma parte não negligenciável e
vívida do meu quotidiano) a vida púbere resume-se ao que acontece(u)
intramuros.
Mas se falei em confinamento foi por facilitismo semântico, na verdade
o parque das décadas de 70 e 80, o meu parque, era incomensurável. Ainda hoje
quando o revisito — o adulto em mim a reavaliá-lo como agrimensor perplexo ou incrédulo
— me convenço que os cálculos topográficos e as leis da física se não aplicam
ali, a não ser que consideremos a quarta dimensão e seguintes. O parque das
Pedras era a minha vila de M. Night Shyamalan, mas o mistério estava todo do
lado de dentro.
E contudo hoje é para Vidago que me desvio quando posso; para o parque
de Vidago. (Mesmo que não raro para ali me desvie sem sair das Pedras.) Há a
minha costela aristocrática, já aqui referida, e que em Vidago, reconheçamo-lo,
tem mais onde se inspirar. Mas não é uma costela de aristocrata cortesão, dado
à prática e à intriga palacianas. É mais um espírito de rei consorte, uma reincarnação
de D. Fernando II de Portugal. Retiro-me para Vidago como D. Fernando para a
Pena, para me subtrair ao mundo com a minha arte. No caso, para ler uns livros
e observar a humanidade ao virar da página e a uma distância segura. Mais
precisamente, à distância do banquinho instalado nas alturas do tee do buraco 17, já bem avançado na
encosta do monte. Refiro-me ao tee
dos 525 metros, a maior distância do buraco, onde raros se dão ao trabalho de
subir para a first shot, talvez por em
Vidago apenas aparecerem jogadores de handicap
alto e sempre é melhor subir menos e tacar 50 metros mais próximo do green. Aquele banco de granito consegue
nos finais de tarde de Primavera e Verão parecer-se a um terraço em Sintra, e a
discreta plaquinha votiva afixada nas suas costas, em memória de Robert Keith
Cameron (presumo que da firma Cameron & Powel, responsável pelo novo
desenho do golfe), concede ao sítio uma dignidade de local sagrado. Cameron
deve ter olhado para a sua obra dali de cima, como Deus ao sétimo dia, e
mandado pôr ali um banco para apreciar a imensa beleza do que fez (sem,
felizmente, estragar o não menos belo trabalho da Natureza). Por isso, ali só
deviam subir, circunspectos e silenciosos, jogadores de handicap zero (e espero que todos prefiram jogar de manhã, nunca ao
final da tarde) ou verdadeiros apreciadores da paisagem e de retiros bucólicos.
Ou seja, eu — e, vá lá, o fantasma de D. Fernando.
P.S.: À consideração dos vigilantes do parque: deixem em paz o gajo
dominical dos livros, caso algum dia vos incomode a peregrinação, e persigam os
que lhe sucedam. Esses serão os profanadores.
sexta-feira, 27 de março de 2015
LER mal os sinais
O novo número da LER apareceu-me de surpresa num post de alguém no Facebook, esse antro de ociosos e desmiolados. O blogue da revista, ainda que indicado a vermelho logo na página 1 como sendo um local de «informação diária sobre edição», não é actualizado desde 21 de Novembro de 2014. A página de Facebook (sim, o Francisco deixou que alguém criasse uma), ontem actualizada, estava silenciosa desde 5 de Dezembro (silêncio, aliás, apenas interrompido para colocar a capa da edição anterior).
Confesso que imaginava ter-se a revista finado. Tinha-o referido com tristeza há dois ou três dias. Folheá-la agora conforta-me. Cheirá-la inebria-me um pouco, como o odor de uma lareira ao passar na rua, com a sua promessa de aconchego e histórias ao serão. Mas a inesperada existência física da revista, mesmo que surpreendentemente impregnada de viço juvenil nos seus “Manifestos” e rubricas afins, não afastou de todo a sombra instalada pela sua ausência electrónica. Agradeço, bem entendido, que a LER seja uma revista impressa, e não vejo necessidade de que os seus editores se ocupem da tal «informação diária sobre edição». Mas dado que hoje somos também, queiramos ou não, seres online, impõem-se uns regulares sinais vitais (ainda que em ritmo de urso hibernando) — ou, para evitar equívocos e agoiros, a eliminação sumária das páginas na Internet. Se é para estarmos de coração na mão em cada final de trimestre, ao menos que não tenhamos capas antigas a assombrar-nos as espreitadelas ansiosas aos sites.
Benefícios do agendamento de posts
Uma das vantagens de ter escrito livros que permanecem inéditos é esta possibilidade de ir publicando excertos no defeso, alimentando com eles o
blogue, agendando posts como se o
escritor ainda estivesse vivo (quem o garante?). Além disso, o leitor pode
encontrar certo prazer lúdico em coleccionar os excertos e tentar uma
reconstrução da obra, a ver se lhe encontra sentido. Etiquetas como Aranda ou Hotel do Norte, havendo paciência, podem encher-se de um número
suficiente de excertos para que, montando-os laboriosamente como bobinas de
película, o leitor logre ufano a sua reader’s
cut.
Claro, há também a possibilidade de, no termo da montagem ou cansado de
tentativas, o leitor descobrir que a obra não tem afinal, digamos, ponta por
onde se lhe pegue. Mas nessa altura não é certo que o autor ainda esteja aí para sofrer o
choque.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Os primeiros trovões em Aranda
«O casal chegou trazendo um filho
pequeno pela mão. A mulher era naturalmente bonita mas a amargura ou o tédio,
ou talvez o ódio, pesavam-lhe no rosto, puxando os cantos da boca para baixo e
com eles as pálpebras, um pouco vermelhas, de um vermelho escuro, a caminhar
para o roxo. Não parecia ter estado a chorar, não era isso, embora também não
estivesse contente. Não eram, de qualquer modo, olhos violentados, ninguém
tinha desferido neles golpes físicos — mas havia ali sofrimento.
O homem, provavelmente da mesma
idade dela, no início dos trinta, tinha bom aspecto, mas um bom aspecto suspeito.
A barba, ainda que catalogável, inserida num protótipo comum a uma boa parte dos
homens ocidentais daquela geração, estava demasiado crescida naquele rosto, era
máscula em excesso. Depois havia a tentativa dele de parecer responsável com a
criança (acorria sempre mais tarde do que a mãe) e de liderar a visita à
esplanada, antecipando o pedido da companheira, que ela de imediato corrigiu
por não corresponder de todo ao seu apetite.
Na mesa ao lado havia um advogado
e o seu cliente. Ele tinha uma risca perfeita no cabelo, à direita, e o cliente
desgrenhava-se, passando mãos sapudas e transpiradas pela cabeça encaracolada.
O advogado era um Cyrano, ditando frases que o cliente repetia ao telemóvel.
Não era um caso de divórcio doloroso, ou a tentativa de o evitar: aquele
advogado era demasiado hesitante para enfrentar a ira de uma mulher e ao
cliente de mãos gordas não tinha sido dada a possibilidade de amar, pelo menos
de o fazer de uma forma romântica, mesmo que com poemas e serenatas sugeridos.
Eram certamente dívidas, acordos
mal consumados, contratos por cumprir. O advogado mostrava-se indignado com a
argumentação contrária que vinha pelo telemóvel do seu constituinte e tentava
ser mais implacável nas instruções que lhe transmitia. Em momento nenhum pegou
ele próprio no aparelho, pelo que teve tempo de reparar no desamparo da mulher
que acabara de se sentar na mesa ao lado, esquecendo por minutos (ou sempre) o
desamparo que oprimia o seu próprio cliente.
Uma segunda mulher subiu à cena,
vinda da parte inferior do jardim. O chão da esplanada estava pavimentado em pequenos
cubos de granito, mal aparelhados, e ela vinha com as cautelas que têm todas as
mulheres que usam saltos altos e não querem vê-los entalados nas juntas
traiçoeiras da calçada. Caminhava de pernas flectidas, ombros levantados,
tentando usar ainda menos os calcanhares, como em tempos antigos faziam alguns
dos que ousavam atravessar descalços as fogueiras de São João. Sentou-se do
outro lado do advogado, contribuindo para a desorientação dele, já dividido
entre o cliente à sua frente e a mãe amarga à esquerda.
Esta nova mulher (com tatuagens à
vista e uma respeitável massa corporal que a faziam parecer um nórdico
apreciador de cerveja) tinha o que se diria um toque oriental, com o cabelo
muito escuro penteado para trás e preso na nuca. Mas depois de melhor
observação, o que se via era alguém que desejava a toda a força e com um método
artesanal disfarçar a decadência do rosto. Talvez ela não acreditasse nos
cremes ou não tivesse dinheiro para plásticas. Ou talvez aquele expediente se
destinasse apenas a evitar ingenuamente que o duplo queixo ficasse ainda mais
saliente. Fosse como fosse, o seu rosto, as peles e as rugas, tudo estava
repuxado pelo cabelo, bem preso atrás, dando aos olhos uma obliquidade asiática,
de lutador de sumo, e às maçãs do rosto e ao maxilar superior um ar de roedor.
No entanto, o artifício não vencia a gravidade que lhe reclamava a ignóbil
prega debaixo do queixo.
A terceira mulher a chegar não
tinha nenhum destes problemas, embora nos seus dezoito anos se achasse certamente
repositório de muitos outros e mais graves. Tinha uma ponta de acne e os dois
rapazes que a acompanhavam não faziam jus à sua beleza entediada (mais do que
dramática ou trágica) como costuma ser a de muitas mulheres jovens. Levantou-se
logo depois de se ter sentado e reconhecido alguém numa mesa mais longínqua. Avançou
para ali com passo destemido, mas calculista. Havia três outros rapazes naquela
mesa do canto e só um era seu conhecido. Os olhos varriam a mesa, tanto para se
certificar de que não conhecia de facto nenhum dos outros dois como para os
avaliar, avaliar o seu potencial reprodutor, ainda que a reprodução, o fim
último, não fosse exactamente o que desejava.
O rapaz conhecido estava de
costas, o que facilitou a actuação. Pôde afagar-lhe o cabelo na nuca — manipuladoramente,
como ela sabia que os rapazes gostavam, gatinhos imbecis, sentindo-se por
segundos ingénuos os únicos destinatários do afecto de uma rapariga por quem
vertiam saliva várias vezes ao dia —, pôde afagar-lhe o cabelo na nuca e ao
mesmo tempo observar tacticamente o resto da mesa. Pediu um cigarro, fora essa
a desculpa para deixar o seu próprio grupo. O rapaz conhecido apressou-se a
oferecer um Marlboro, mas ela soube distrair-se o suficiente para em vez disso aceitar
um dos cigarros que os outros dois estendiam.
Havia ainda mais uma mesa, onde
dois homens avantajados e gabarolas falavam de sexo e violência, de ciúmes e vinganças,
de conquistas e sucessos em rixas, mas nessa mesa Inês preferiu não se deter. (Ainda
que talvez aquela fosse a mesa que mais fielmente resumia tudo.) Ajudou-a o
facto de a encenação estar a atingir o momento alto: a dada altura, a esposa
amarga (ou a mãe amarga, talvez o das barbas não fosse seu marido nem pai da
criança, não havia nele determinação ou acomodamento suficiente no que concernia
às duas relações) resolveu desistir. O filho que esbracejasse e derrubasse as
cadeiras e a louça; o das barbas que continuasse inútil e ele próprio aborrecido
com a relação; o advogado que a espreitasse de todos os ângulos que pudesse; e
os outros, os adolescentes e a mulher zangada com a idade e as pregas da carne
e os tipos gabarolas, que viessem no fim acusá-la de estupidez por se ter
deixado parir aquele filho. Encostou-se na cadeira e deslizou por ali abaixo, a
saia subindo pelas coxas, ela imergindo num mundo outro.
Talvez por obediência a um código
tribal, a mulher amarga e o acompanhante vestiam de escuro, exibiam uma espécie
de viuvez mútua, que a saia curta dela não resgatava. Por isso, aquele
triângulo claro, quando surgiu entre as pernas abertas, desleixadas,
desistentes, era eloquência pura: umas cuecas festivas, alegres, com um padrão de
formas zombeteiras, vermelhas e amarelas, sobre um fundo branco, imaculado.
Inês não pôde deixar de
considerar aquilo um novo grito do Ipiranga — ou um pedido de resgate. Aquelas
cuecas naquele casal. Desde o início desconfiara que, primeiro, o das barbas
não era pai da criança, segundo, chegara com pouca convicção à relação (e
ansioso por ir andando) e, terceiro, a mãe amarga tinha ainda menos convicção
naquela relação e não estava segura de que havia alguma espécie de realização
pessoal na magna questão da maternidade. E, quarto (afinal havia uma quarta
dedução), a menos que o das barbas baixasse naquele momento as calças para
mostrar idêntica escolha no que se referia à roupa interior, ela apostaria que
entre aqueles dois não tinha havido sexo (ou intimidade) nos últimos tempos.
Umas cuecas coloridas eram, naquele agregado sombrio, mais do que segredo ou dissidência
camuflada — eram traição. Ou talvez só desprezo.
Ela estava agora a ver como se
arranjaria o advogado para espreitar as coxas da mulher amarga. Do seu lugar, o
penteadinho não conseguiria desfrutar o panorama, mas tinha as antenas
suficientemente alerta para se dar conta que havia um panorama para desfrutar.
Talvez se levantasse para ir ao balcão pagar os cafés — esse tipo de
investimento num cliente ele achava que podia fazer —, abrindo bem os olhos no
regresso. E a mulher das tatuagens e do cabelo preso? E a adolescente? E ela
própria? O que deveriam pensar as mulheres ali presentes daquela exibição de
intimidade? O que deveria ela, Inês, pensar?
Bem, não haveria escândalo, isso era certo. A não ser que fizesse o que lhe
apetecia, que era afastar o incompetente das barbas, segurar na criança (era
verdade? o instinto maternal era um facto científico?) e afagar o cabelo negro
da mãe amarga.
Não fez nada disso. Bebeu o resto
do café e chamou o empregado. Ao longe ouviram-se os primeiros trovões desde
que chegara a Aranda.»
Inês, in Aranda
quarta-feira, 18 de março de 2015
Gostava do tic tic tic tic da tesoura
«Aparava o cabelo de quinze em quinze dias e escanhoava a barba todas as manhãs, bem cedo. Por vezes, se ia haver baile à noite no Casino, ou algum sarau de nota no Hotel, passava novamente ao final da tarde na barbearia para que lhe fosse devolvida a face macia. Não adivinhava quando o destino lhe iria conceder a possibilidade de aproximar a cara ao rosto de uma mulher, mas ia querer estar prevenido. O bigode, encostado ao lábio superior e cortado à escovinha, era também alvo do seu zelo e da dedicação profissional do barbeiro. Nunca lhe passou pela ideia rapá-lo, como alguns faziam, embora em certas alturas se pusesse ao espelho a imaginar o que aconteceria na hora de beijar. Pelo sim, pelo não, escolhera um modelo curto e mantinha-o sob vigilância da tesoura.
A natureza favorecera-o, cedo deixara de ser imberbe e a vasta pilosidade tinha crescimento rápido. Isto causava os seus incómodos, perdia muito tempo no barbeiro. Mas sentia-se viril e, como sabia escolher bem o artífice, raramente dava por perdidas as horas dedicadas ao apuro da fácies.
Os outros homens da família tratavam do aprumo recorrendo aos serviços que o Hotel do Norte proporcionava. Ele não lhes seguia as pisadas, não nesta matéria. Descobrira muito cedo a barbearia na saída norte do Parque, ainda pela mão do avô materno, que tinha as suas excentricidades e gostava de confraternizar com a população local. Mesmo que com o crescimento viesse a distanciar-se das ousadias do avô, não mais esqueceu o caminho daquele pequeno estabelecimento de uma só cadeira, e logo que teve autonomia decidiu que trataria ali do aspecto.
Não saberia explicar por que e não se questionava. No Hotel havia talvez uma partilha excessiva de intimidades, eram aviados aos três em frente ao mesmo espelho corrido e nas cadeiras de espera ficavam todos os outros a olhar. Ali, na barbearia do bairro, havia aspectos mais deploráveis, claro: a clientela não era selecta, acorriam também agricultores e operários, com pescoços surrados e doses de piolhos. Mas ele não conhecia ninguém e os outros, pelo contrário, sabiam muito bem quem ele era, cedendo a vez, desfazendo-se em vénias e ademanes, mantendo distância e guardando silêncio sempre que ele entrava e abanava o rosto com o chapéu, para afastar os cheiros.
Nunca confraternizava com os nativos. A barbearia esvaziava-se, ainda que ele pressentisse através da porta os olhares tímidos e reverentes do outro lado da estrada. Aguardava que o barbeiro espanasse com esmero a cadeira e, mal se sentava, lembrava-lhe a necessidade de passar os instrumentos pelo álcool uma segunda vez. Depois relaxava e entregava-se às mãos compridas, ossudas e experientes, sentindo um enlevo que o tornava dócil, manietável, paciente. Regia com uma ponta de desconsolo à notícia de que o serviço estava pronto e encontrava sempre um reparo a fazer que lhe permitia um encore na prestação do mestre.
Gostava do tic tic tic tic da tesoura no ar à volta da sua cabeça, das poses do barbeiro, pernas flectidas, braços levantados, a olhar a obra de diversos ângulos, directamente e no espelho. Por cada estocada no cabelo a tesoura repetia meia dúzia no vácuo, em preparativos sonoros, aquecimento de atleta antes do salto. Ele aprovava este método perdulário, jamais censurava o desperdício de energia e a lentidão, entregava-se-lhe. O espanador no rosto e no pescoço a seguir ao corte causava-lhe volúpia, e depois abria com prazer os braços para que lhe fosse escovado o fato.
Tinha vinte e seis anos e nunca beijara uma mulher.»
A natureza favorecera-o, cedo deixara de ser imberbe e a vasta pilosidade tinha crescimento rápido. Isto causava os seus incómodos, perdia muito tempo no barbeiro. Mas sentia-se viril e, como sabia escolher bem o artífice, raramente dava por perdidas as horas dedicadas ao apuro da fácies.
Os outros homens da família tratavam do aprumo recorrendo aos serviços que o Hotel do Norte proporcionava. Ele não lhes seguia as pisadas, não nesta matéria. Descobrira muito cedo a barbearia na saída norte do Parque, ainda pela mão do avô materno, que tinha as suas excentricidades e gostava de confraternizar com a população local. Mesmo que com o crescimento viesse a distanciar-se das ousadias do avô, não mais esqueceu o caminho daquele pequeno estabelecimento de uma só cadeira, e logo que teve autonomia decidiu que trataria ali do aspecto.
Não saberia explicar por que e não se questionava. No Hotel havia talvez uma partilha excessiva de intimidades, eram aviados aos três em frente ao mesmo espelho corrido e nas cadeiras de espera ficavam todos os outros a olhar. Ali, na barbearia do bairro, havia aspectos mais deploráveis, claro: a clientela não era selecta, acorriam também agricultores e operários, com pescoços surrados e doses de piolhos. Mas ele não conhecia ninguém e os outros, pelo contrário, sabiam muito bem quem ele era, cedendo a vez, desfazendo-se em vénias e ademanes, mantendo distância e guardando silêncio sempre que ele entrava e abanava o rosto com o chapéu, para afastar os cheiros.
Nunca confraternizava com os nativos. A barbearia esvaziava-se, ainda que ele pressentisse através da porta os olhares tímidos e reverentes do outro lado da estrada. Aguardava que o barbeiro espanasse com esmero a cadeira e, mal se sentava, lembrava-lhe a necessidade de passar os instrumentos pelo álcool uma segunda vez. Depois relaxava e entregava-se às mãos compridas, ossudas e experientes, sentindo um enlevo que o tornava dócil, manietável, paciente. Regia com uma ponta de desconsolo à notícia de que o serviço estava pronto e encontrava sempre um reparo a fazer que lhe permitia um encore na prestação do mestre.
Gostava do tic tic tic tic da tesoura no ar à volta da sua cabeça, das poses do barbeiro, pernas flectidas, braços levantados, a olhar a obra de diversos ângulos, directamente e no espelho. Por cada estocada no cabelo a tesoura repetia meia dúzia no vácuo, em preparativos sonoros, aquecimento de atleta antes do salto. Ele aprovava este método perdulário, jamais censurava o desperdício de energia e a lentidão, entregava-se-lhe. O espanador no rosto e no pescoço a seguir ao corte causava-lhe volúpia, e depois abria com prazer os braços para que lhe fosse escovado o fato.
Tinha vinte e seis anos e nunca beijara uma mulher.»
in Hotel do Norte (2009)
sexta-feira, 13 de março de 2015
Lugar de saudade
Questionado sobre que sítio gostara mais de visitar recentemente, pensei em diversos destinos ibéricos e europeus, mas depois passou uma fotografia de uma country house no ecrã e senti uma nostalgia dilacerante de uma cidadezinha que nunca visitei no País de Gales. Os Velhos Diabos, prazeroso, nem está no meu top de leituras, mas lembrar-me do seu cenário foi um sinal eloquente de como os lugares literários disputam aos lugares reais um espaço no meu coração. E de como a literatura se me apresenta actualmente como um radioso, feliz — e sobretudo distante — lugar de saudade.
Existencialismo automóvel
Estou a envelhecer. Antes acordava a meio da noite a questionar-me se chegara a estacionar o carro ou se simplesmente o parara no meio da rua e subira assobiando as escadas de casa. Hoje espreito frequentes noites da varanda se o carro ficou estacionado numa perpendicular perfeita ao lancil e com distâncias cívicas aos automóveis dos vizinhos.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
Pensando bem, talvez isto não seja envelhecer, talvez seja o legado merkeliano a frutificar em mim. Se um destes dias acordar com o ímpeto irrevogável de trocar o meu ineficiente veículo meridional por um produtivo BMW é porque a doutrinação germano-passista surtiu efeito. E se tiver dinheiro para o fazer é porque afinal a troika foi uma boa ideia.
Mas se, como é mais certo, amanhã acordar a rir-me por ter vãs preocupações nocturnas com o parqueamento de uma viatura que o banco levou, fico feliz. É sinal de que no meio da desgraça não perdi o humor.
Embora esteja a envelhecer.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Dhafer Youssef ou a reconciliação da espécie
Há três anos havia lua cheia e Dhafer Youssef actuava em Sines (lembras-te?).
Nós estávamos no mesmo paralelo, mas não mesmo mesmo meridiano — e contudo
parámos o carro na berma alentejana, saímos para o calor da noite com o rádio
no máximo e dançámos no alcatrão, inquietando a bicheza que esbugalhava um olho
de cada vez nos prumos das cercas ao redor. Apesar da proximidade mediterrânica
e do Sete Sóis, Sete Luas, que também já visitáramos e havíamos de visitar, não
nos ocorria exactamente a celebração de um melting
pot musical ou cultural, pensávamos apenas no prazer de ser Verão e estarmos
vivos a Sul. Mas calhava de Youssef — o tunisino, o francês, às vezes vienense,
o terráqueo, em suma — ser versado na Teoria das Cordas e explicar o Universo
dedilhando o seu oud ou tensionando incrivelmente
as fibras da laringe. Por isso havia Harmonia e o jazz era o seu esperanto — e
nós estávamos afinal sintonizados com o Cosmos, reconciliados com a espécie. Tínhamos
bebido um copo ou outro, é certo.
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