Para elevar o ecrã do portátil ao nível dos olhos e tentar contrariar a
marreca de horas a mais ao teclado, uso uma biografia de Mao Tsé-Tung, um
volume sobre castelos e uma escalfeta velha. São três objectos que não me fazem
falta. De crápulas sei já o suficiente. Para castelos deixei de ter posses.
Contra o frio rasteiro calço uns eficazes peúgos de lã grossa e áspera. Este é,
contudo, um pragmatismo diferente daquele que com alegria incauta erigiu a
babélica torre sobre a secretária.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Densidade
Meio à procura de alienação fílmica, meio enganado pelas estrelinhas do Público (dois críticos, 4 estrelas, não li a sinopse), fui um destes dias ver Blackhat – Ameaça na
Rede. Não é uma comédia, mas diverti-me como se estivesse a ver uma (o filme é
mauzinho). A dada altura, numa homenagem ao mítico MacGyver, o protagonista
improvisa armamento e equipamento de protecção pessoal. Para este fim, envolve
os seus abdominais em revistas, e, num dos raros momentos sérios da noite, fiquei
a pensar quão eficaz seria aquele colete improvisado contra balas e facas.
Concluí que bastante, se se tratasse de revistas com artigos densos. Colectâneas
de textos do Ministério da Educação, por exemplo. Impenetráveis.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
My own private blitz
A abóbada nocturna da cidade tem sido nos últimos tempos varrida por
focos de luz, e honestamente não vejo que fosse absurdo dar por mim em certas noites
de nevoeiro pacientemente à espera dos bombardeiros (quem nunca desejou a ira
dos céus?), com aquele misto de fascínio pela sofisticação das máquinas e
terror pelo que elas transportam no porão.
P.S. É avisadamente que os estabelecimentos não arriscam a piada de utilizar
a marca de Batman nos seus focos de luz: poderiam atrair o tipo errado de
noctívagos. Quem sabe, de todos os anjos vingadores que aguardam a sua vez nas
trevas de uma cidade, quantos não se formaram com a DC Comics?
domingo, 11 de janeiro de 2015
Pássaro na gaiola
Está um frio de rachar e, submerso em camadas de vestuário de acordo
com os receituários meteorológicos, ouço pássaros em plenos fôlego e inspiração
melódica. Não duvido da minha sanidade, mas pelo sim pelo não encosto os phones à orelha para checkar: no meio de
tantas páginas abertas para os trabalhos de hoje alguma terá talvez música de
fundo ornitológica. Porém, não. Os pássaros não esperam por padecer da
nostalgia de ar livre (mesmo que siberiano) e do consequente impulso que senti
há pouco quando me permiti espreitar a janela por segundos. Os pássaros
recusam-se à ladainha humana de ser domingo e ter de trabalhar e ficar meses
sem passear pelos montes. Os pássaros voam assobiando ou assobiam voando, e que
se foda a vidinha responsável e burguesa! Onde raios pus as minhas asas e o
diapasão?
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Não, não sou Charlie Hebdo
Durante uma boa parte da minha vida adulta escrevi textos críticos e
satíricos de pendor social ou político. Antes tinha feito cartoon (é verdade), primeiro como argumentista, depois, por desistência
do parceiro, também como desenhador. Não eram grande coisa, os meus cartoons, tanto no traço como no humor.
Embora aquilo me desse bastante gozo, não sei se haverá algum por que possa
sentir qualquer ponta de orgulho. Guardo parte deles na garagem, mas há mais de
uma dúzia de anos que não lhes toco. Quando o fizer, provavelmente o papel de
jornal desfaz-se-me nas mãos e não me parece triste nem injusto que isso
aconteça. Inicialmente assinava-os com pseudónimo, mais por timidez e insegurança
(ou por consciência não assumida da sua mediocridade) do que por receio de
represálias. Mas em algum momento devo ter percebido (finalmente) que,
medíocres ou não, era cobardia não assinar os desenhecos e passei a fazê-lo. O
mundo, acertadamente, não se comoveu com o gesto, a Terra não alterou a sua
órbita.
Quando passei para as colunas de opinião, em publicações próprias ou alheias, a ironia e a irrisão acentuaram-se. Ganhei os meus primeiros
inimigos para a vida, mas quase todos inimigos cordiais e até afáveis, devo
dizê-lo.
Por ocasião do III Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, se não
estou em erro, escrevi para o extinto Semanário
Transmontano, onde era na altura cronista regular, um texto a ridicularizar
sarcasticamente o evento e as suas pretensões e o director resolveu publicá-lo em
letra gorda na primeira página. O jornal foi distribuído no Congresso e eu
resolvi aparecer no local, com suposta heroicidade, para dar a cara pelas
minhas palavras (ou talvez deva dizer honestamente, para recolher os louros pela boutade). De novo com justiça, a nata
transmontana ali reunida não deu pela minha presença: não houve vaias,
assobios, ameaças à integridade do escriba petulante e traidor. Só o meu
ego saiu ferido.
De resto, tirando ocasionais reacções frouxas, a minha intervenção
cívica através da crítica e da sátira pareceu-se demasiado a um passeio bucólico
pelos bosques. Só a espaços senti ter despertado algum ódio atávico, geralmente
vertido em colunitas azedas, algumas convenientemente anónimas, e apenas em
duas ocasiões as reacções ao que escrevi traziam implícitas ameaças de consequências.
Numa noite de vitória eleitoral de uma facção que eu satirizara nas minhas crónicas,
um militante mais eufórico ofereceu-me o seu olhar de pura raiva hooligan e perdigotou palavras de exemplares democraticidade e fair play (confirmando,
aliás, involuntariamente, o que eu escrevera sobre a seita, mas isso ele jamais
poderia perceber). Pela mesma época, certo figurão resolveu informar uma
audiência (não apenas privada, infelizmente para a sua honra) que os meus
escritos eram razões suficientes para ele mexer cordelinhos e conduzir-me ao desemprego.
Deve ter-se sobrestimado ou arrependido, porque continuei empregado.
É por este triste currículo que me sinto obrigado a confessar ter
sentido uma certa vergonha a acompanhar a minha comoção com a morte dos
cartoonistas e jornalistas do Charlie
Hebdo. A afirmação Je Suis Charlie
que pus como foto de perfil no Facebook é sincera na sua solidariedade, mas é
simultaneamente cabotina, equívoca. Não, não sou Charlie. Eu não tenho a bravura, a grandeza daqueles homens. Eu não
escrevo textos nem faço desenhos corajosos como os daquelas pessoas que
morreram em Paris. Eu não vivo a um passo da ameaça terrorista. As minhas actividades
e as minhas opiniões não me expõem a perigos quotidianos potencialmente fatais.
Poderia passar os dias, aqui neste canto da periferia europeia, a republicar cartoons sobre cretinos e fanáticos muçulmanos,
católicos, judeus, hindus e nacionalistas e provavelmente morrer de velhice, cirrose ou de um
AVC — não com balas ou bombas.
Mas sobretudo não sou Charlie porque com os anos tenho demasiadas vezes
cedido à inércia e à preguiça e deixado de me rir — rir ironicamente, sarcasticamente, ferozmente, acintosamente, publicamente — das pequenas iniquidades
e dos pequenos ayatollahs que neste
país também frutificam. A minha resolução de ano novo deveria ser a de voltar a
rir às gargalhadas com certa regularidade. Enquanto isso não acontecer, vou ali
trocar a foto do Facebook por uma igualmente solidária mas menos pretensiosa.quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
O último acto
[Já agora, que diabos, fica aqui em nova versão o contito referido no post anterior.]
Mudara-se para as montanhas no
início da semana com o objectivo de passar o Verão. Não tinha exactamente um
projecto a que se entregar, nada mais do que uma mala cheia de livros e a
necessidade absoluta de não ver ninguém, ninguém conhecido, pelo menos.
Escolheu uma vila pequena sem outros
atractivos além de uma paisagem discreta e um festivalzinho de música clássica
num fim-de-semana de Agosto (reparar no festival fora uma cedência de que
esperava não se vir a arrepender). Alugou por oito semanas o bungalow com uma lareira e um
alpendre virado para um vale profundo. Ficava nos arredores da povoação e fora
o único a ser erigido de um complexo turístico falhado.
A cabana não estava nas melhores
condições, era frágil, em madeira, mas tinha conforto suficiente, mais do que muitas casas
nas redondezas. Usaria o alpendre tanto quanto possível. Quando não estivesse ali
sentada a ler os seus livros andaria a tentar perder-se pelos montes ou teria
ido fazer as refeições à vila, guardando-se de fazer amizades. Por uma vez na
vida, estava-se nas tintas para a educação ou para a cordialidade. Seria a
velha antipática e egoísta que tinha o direito de ser.
Bem, talvez não tivesse esse
direito. Não tinha sido exactamente o melhor dos seres humanos. Mas, que diabo,
quem poderia atirar a primeira pedra? Não havia seres humanos bons e ela queria
mesmo que se fodessem todos (estava velha e com um diagnóstico de senilidade
galopante, podia, finalmente, usar o verbo foder).
No terceiro dia começou a nevar.
Estava a tarde a meio e ela apenas se deu ao trabalho de achar ridículo nevar
em pleno Verão, com aquele calor. De todo o modo, era-lhe indiferente. A
lareira estava funcional, caso a temperatura baixasse, e havia lenha nas
traseiras do bungalow. Além do mais,
teria a sua desculpa: escusava de se censurar por ficar em casa em vez de ir caminhar
pelas redondezas. Gostava do exercício físico — tivera sempre o culto do corpo,
do movimento, fora bailarina —, mas agora já não via o mesmo interesse nisso.
O crepúsculo foi belo, teve de
admitir. Duas forças em oposição: a noite que caía e a neve que teimava em
manter os campos e os montes iluminados. Assistiu ao combate de rosto colado na
janela e livro esquecido nas mãos. A noite ganhou, naturalmente, mas não foi
uma vitória completa: não havia trevas, apenas uma penumbra que permitia ver
muito mais do que os contornos das coisas. Ao redor da cabana estava até bem
claro, como uma noite de filme. O branco da neve reflectia a luz eléctrica e a
luz das estrelas, transformando a envolvência num décor de estúdio.
Então eles chegaram. Não se
moviam como pessoas normais. Vinham acometidos de convulsões, como que afectados por danos
neurológicos, tropeçando, caindo e levantando-se quais robots inadaptados ao terreno. Na aparência eram humanos, mas
diferenciavam-se pelos movimentos, pela postura estranha do corpo, pela maneira
impossível como mexiam e dispunham os membros.
Marionetas animadas, deu consigo
a pensar. Alguns pareciam querer aproveitar a neve para deslizar. Outros
simplesmente tombavam a cada dois passos, com violência. Levantavam-se de
imediato, dir-se-ia que impulsionados por molas, para voltarem a cair no passo seguinte.
Depois já nem tinham o trabalho de se levantarem, simplesmente saltavam no chão
com o corpo na horizontal, em estertores de gatos atropelados, acrobáticos, conseguindo
progredir no terreno desta forma.
Não era absurdo ver uma intenção
coreográfica naquilo tudo. Pelo menos ela achava que era esse o espírito que
animava os visitantes. Talvez porque não estava disposta a ceder ao pânico
fácil e estereotipado de se imaginar na presença de uma dúzia de mortos-vivos.
No momento seguinte eles
levantaram-se e juntaram-se em círculo, com os braços nos ombros uns dos
outros, como uma equipa de râguebi disforme. Segredavam e parecia ouvir-se uma
música alusiva à conspiração (de certeza o vento, que entretanto chegara). Fechou
o livro e apagou a luz. Apetecia-lhe desfrutar aquilo intensamente — e ao mesmo
tempo sentiu que era esse o gesto que se esperava dela, como se tudo naquela
noite obedecesse a um guião.
E agora parecia que uma bomba
rebentara no meio do conciliábulo lá fora: cada corpo foi projectado para um
lado e os primeiros a conseguirem levantar-se tiveram uma reacção estranha:
correram a atirar-se repetidamente contra a cabana.
Achou que devia abrir a
porta — aquelas pessoas procuravam desesperadamente abrigo, por certo —, mas
alguma coisa a fez permanecer à janela, a espreitar. Talvez eles desejassem, na
verdade, derrubar-lhe a casa, fazê-la cair sobre a inquilina, sepultando-a
viva. Era uma ideia terrível. Contudo, estava a ter prazer em observar a
violência com que os visitantes se atiravam contra a casa, a forma coordenada,
bela e perturbante como o faziam. Eram impactos de uma bizarria que assentava
na violência e na invulnerabilidade de que pareciam beneficiar os atacantes.
Daquele assalto não resultavam danos físicos para eles. Era possível sentir a
força a que era submetida a estrutura de madeira da cabana a cada investida,
mas não havia lesões ou queixumes.
O ataque obedecia a um padrão que
ela esteve quase a decifrar, só que acabou por perder o fio ao raciocínio.
Acontecia-lhe com crescente frequência. Estava velha, talvez com Alzheimer, não
havia nada a fazer.
Um dos visitantes começou a
mexer-se freneticamente, possuído por um demónio ou tomado por um feroz ataque
epiléptico. Pareceram-lhe familiares, a pessoa e os movimentos. Era um homem
jovem, de etnia oriental, e fazia coisas assombrosas com o corpo. Tinha a
capacidade de o metamorfosear, dava-lhe novas formas e dimensões. Esticava-se e
parecia uma pessoa alta, de longos membros, ou encolhia-se até ao chão e não
era mais do que um pequeno monte de roupa enrugada sem nada dentro. Erguia-se
de novo como uma pessoa franzina, pouco mais do que um cadáver emagrecido, e no
momento seguinte ficava largo de ombros, os músculos recortados e imponentes. Dir-se-ia
um daqueles bailarinos acrobáticos de que em tempos gostara tanto.
De súbito, o oriental esmagou o
rosto contra a vidraça (sem a partir) e ela, com um susto, julgou reconhecer-lhe
a cara. Não lhe faltaria mais nada, pensou, tanto trabalho para conseguir um
Verão só para si e agora ter conhecidos a tentarem derrubar-lhe a cabana...
Seria patética, se não fosse trágica, a ameaça de companhia.
Estava a tentar concentrar-se nas
razões que levariam um grupo de desconhecidos (insistia em considerar que o eram)
a encetar um ataque daquele género quando todos lá fora se imobilizaram,
fixando um ponto qualquer para lá do círculo da luz branca artificial que rodeava o bungalow. Não falavam, mas o seu olhar
dizia tudo: o inominável, nada menos
do que isso. Ouviam-se passos pesados e uma música tensa.
Após alguns instantes fustigados
pelo vento, um velho, mais aturdido do que ameaçador, atravessou a neve pisada
do quintal. Passou em silêncio pelo grupo petrificado e veio postar-se de
joelhos à frente da janela,
no rosto uma expressão de súplica. Parecia-se de forma assombrosa com alguém
que ela conhecera intimamente, amorosamente. E se era quem parecia, esta era então
uma visita do além.
Aquele homem já não existia.
Tanto quanto ela conseguia raciocinar, não devia estar ali, não podia estar ali. Teve um suspiro de
enfado e deixou-se cair no sofá. Pior do que a visita de conhecidos era a
visita de conhecidos mortos.
Olhou à sua volta, incomodada com
a farsa. A cabana parecia parte de um cenário, as estrelas projectores num
palco.
Uma voz sussurrou-lhe no interior
da cabeça, como um ponto a segredar-lhe as deixas, e ela sobressaltou-se. A voz
dizia-lhe: «Maria, agora sais da cabana e abraça-lo.»
Que demónios significava isto?
Que epifania absurda era esta? Quem lhe falava? Que divindade não invocada lhe
dava ordens? Tentou abafar aqueles murmúrios tapando os ouvidos com as mãos e
nesse momento percebeu que tinha um auricular enfiado numa das orelhas.
[Inspirado em "32 Rue
Vandenbranden", de Peeping Tom]
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Peeping Tom
Já me tinha
acometido a sugestão de um conto a partir de um espectáculo de Peeping Tom, mas
planear férias em função da agenda da companhia belga era a primeira vez. A
dança contemporânea (no caso, o termo mais apropriado é tanztheater,
até se quisermos evocar o ascendente de Pina Bausch) parece-me uma óptima
bússola para os dias. Do mesmo modo que alguns guiam os seus passos pelos
signos, pelo tarot ou pelo calendário futebolístico, se eu
tivesse o tempo e o dinheiro orientaria hoje o meu quotidiano totalmente em
função de certas tournées. Seria com
imenso prazer e sem medo do ridículo uma espécie de groupie das
grandes (e boas) companhias.
Não teria uma
vida aborrecida ou pacata. Apesar da crise e da bruteza de uma boa parte dos
dirigentes europeus, a oferta é muita. Um tipo (com dinheiro e tempo) ainda
pode passar os seus dias de malas aviadas entre aeroportos, estações e hotéis,
numa digressão que tem a vantagem de ser simultaneamente um roteiro por cidades
interessantes. Só na pequena Bélgica, e
para a produção mais recente da companhia, as opções eram Bruxelas, Antuérpia,
Genk, Namur, Bruges ou Lovaina.
Nem sempre
parece fácil transmitir ou explicar este interesse. Dir-se-ia que o gosto do
cidadão médio europeu está demasiado cercado pela estreiteza medíocre dos media para
se se sentir autorizado a curiosidades ou extravagâncias.
Naquela noite
em Bruxelas, as nossas guias da cidade acompanhavam-nos em parte
talvez por delicadeza de anfitrião — não tinham o hábito de ir ao KVS, e
Peeping Tom era novidade. Mas a suposta sensatez de as prevenirmos contra alguma
estranheza que pudessem vir a presenciar era na verdade uma cedência ao
preconceito e à condescendência: não houve distinção entre o nosso entusiasmo e
o entusiasmo delas no final da peça simultaneamente perturbadora, terna e
cómica que é “Vader”. Devíamos saber: não é necessário ter visto outras
produções da companhia (ou sequer ser iniciado no género) para a apreciar.
Basta ter a inteligência e a sensibilidade activadas.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia
Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de
costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece
mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a
fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou
ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de
parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz
a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no
enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a
mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode
ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó
passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece
corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.
Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a
especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam
para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local
foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez
alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.
(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar
fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar
cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Mademoiselle Marcelle La Pompe, aliás, Renée Dunan
A realidade pode ser ainda mais truculenta e divertida do que já
achávamos. Alertam-me que o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle La Pompe», que me serviu há dias para prosa a armar, é na
verdade obra de Renée Dunan, escritora, crítica, poeta, anarquista, dadaísta e
feminista francesa que provavelmente emparelhou com alguma da clientela
surrealista do café La Fleur en Papier Doré. Marcelle La Pompe era apenas um
dos seus vários pseudónimos.
(Devia saber que os meus dois vagos anos lectivos de francês não me
autorizavam hermenêutica deste calibre.)
Alguns links úteis:
http://lenaweb.voila.net/Dunan/Reneee_Dunan01.jpgsegunda-feira, 15 de dezembro de 2014
E-musas
Uma vez escrevi em directo no blogue, durante semanas, um conto longo que
em boa parte se inspirava na persona de PJ Harvey de alguns vídeos e tinha como
banda sonora obsessiva um outro vídeo com uma música igualmente obsessiva de
Radiohead — “Street Spirit (Fade Out)”. Lembrei-me disto enquanto imaginava a
vida de escritor na Antiguidade Clássica: uma actividade dura, sem o YouTube e sem
essa invenção fundamental que é o loop.
A estatuária grega, falando de musas, tinha a vantagem (também táctil) dos
volumes, uma tridimensionalidade que o YouTube ainda não tem, mas faltava-lhe o
movimento, e seria necessária uma sucessão de estátuas para cobrir toda a
expressividade do rosto de PJ: a inocência e a perversidade, a candura e a dureza,
a melancolia e a violência. Retratá-la seria trabalho para toda uma guilda
medieval. Já manter uma trupe dias a fio a tocar a mesma música sairia caro em
broa e vinho, algo que a electrónica nos poupa.
sábado, 13 de dezembro de 2014
O primeiro murro e os seguintes
«Não visitei o quarto senão quando
o Hotel era uma ruína sem ponta de nobreza, disse eu a Leonardo. Não que eu concordasse
que nobreza teria sido um termo adequado para caracterizar aquele edifício,
pese embora o facto de alguma nobreza nacional ter em tempos ali pernoitado.
Mas a decadência tem o poder de exaltar o que a antecede, disse eu, e nas
madeiras apodrecidas, nas paredes esburacadas, no mobiliário despedaçado podia
imaginar-se um luxo ou pelo menos uma distinção maior do que aquela que na
verdade existira.
Durante muito tempo não soube que
intuição me levara àquele exacto compartimento e depois descobri que a intuição
nada tinha a ver com o assunto. Em 1998 eram ainda visíveis as marcas claras dos
calendários na parede (ou eu imaginei que aquilo eram marcas de calendários) e
o crucifixo de madeira preta permanecia, tutelar, na parede onde se encostara a
cabeceira da cama. Depois o Hotel do Norte foi demolido e o espaço que ele
ocupava no chão entretanto nivelado era ridiculamente pequeno, parecia
impossível que naquela reduzida clareira do Parque pudesse ter existido semelhante
edifício e que por ele tivessem passado tantas épocas e tantas vidas.
Leonardo permanecia atónito
depois da nossa aventura no clube de jazz. Tínhamo-nos escapado sem qualquer
problema, mas abandonáramos o corpo inanimado de Octávio e eu sabia que isso
iria pesar na consciência dele, mesmo que nos tivéssemos certificado, à
distância, como malfeitores compassivos ou arrependidos, de que os amigos dele
o tinham enfiado numa ambulância não muito depois da minha agressão.
Ter imaginado que estes
acontecimentos me iriam deixar sem interlocutor (que importância tinha a minha
história perante a enormidade daquilo que Leonardo e eu fizéramos?, era isto
que Leonardo estaria a pensar naquele momento) fez-me desejar acelerar o
relato, saltar etapas, chegar ao seu término, mas logo percebi que era uma
coisa estúpida de fazer. Aquilo não podia ser varrido para debaixo do tapete,
ignorado como mais um incidente numa noite excessiva de copos, nem sequer sepultado
debaixo da torrente de revelações que eu reservara para Leonardo naqueles
últimos dias, dez anos depois da minha primeira partida. Ele olhava para mim e
— eu percebia — continuava a ver-me erguer o postalete e a fazê-lo descer sobre
a cabeça de Octávio, felizmente sem usar a circunferência aguçada da base. Se
fosse um dos seus próprios pacientes, Leonardo ter-se-ia aconselhado a
afastar-se de mim, pelo menos enquanto não conseguisse ultrapassar o trauma,
resolver o impasse existencial, moral, em que se afundara. Mas eu não era
apenas parte do problema, ou nem sequer era o problema. Leonardo precisava de
mim para se ver a si próprio a perder o juízo. Eu era o espelho, era mais fácil
ver-se reflectido em mim de navalha na mão prestes a consumar uma loucura. Se
tivesse de pensar sobre isto a sós — o que decerto também faria: à noite, na
cama; durante a curta viagem de carro para o consultório; nos únicos momentos
em que eu o deixava sozinho —, talvez não tivesse coragem de o fazer, pelo
menos não profundamente, não tão cedo, não sem se socorrer de uma boa dose de whisky. A minha presença solicitava o
que de racional e profissional havia nele, mesmo que desta vez a vocação
tivesse de ser posta ao serviço da sua auto-análise.
Eu queria ajudá-lo forçando a
normalidade. Estava de regresso à cidade para lhe contar a minha história e era
isso que iria fazer, já que nada tinha acontecido — queria eu que parecesse,
queria eu que fosse verdade — que impusesse uma mudança de planos. Mas daquela
noite em diante tivemos de lidar também com a presença opressora dos fantasmas
de Leonardo, que disputavam aos meus o espaço sofisticado do seu gabinete, ou
todos os outros sítios por onde andámos.
A primeira vez que desejei enfiar
um murro na cara de alguém, disse eu a Leonardo, não estava convencido, por
razões físicas e morais, de que o podia fazer. Ignorava a extensão da minha
força por nunca a ter verdadeiramente posto à prova e inibia-me o excesso de
doutrina católica. Temia que um murro não fosse suficiente e eu não fosse capaz
de sustentar a briga ulterior, mas temia ainda mais que o Céu estivesse de facto a observar-me e fosse testemunha da minha
iniquidade. Fingia então indiferença, superioridade, desprezo. Passei a fazê-lo
com demasiada frequência, ignorando o quanto era acreditado naquele meu papel (embora,
no íntimo, supusesse que pouco: não poderia transmitir esses sentimentos, ou a
ausência de sentimentos, uma vez que o que sentia era raiva, impotência, desejo
de vingança). Eu lia algures que uma pessoa podia transmitir beleza, se se sentisse
bela, ou confiança, se se sentisse confiante. O carisma, recitava de cor depois
de ter lido, era algo químico, como o odor que os cães pressentem quando não
conseguimos conter o medo. Mas eu sentia
medo e raiva e ressentimento, como poderiam os outros ignorá-lo? Não agredia a
murro todos aqueles que injustamente me incomodavam — o preto era também um medroso —, mas os meus pensamentos apresentavam
um currículo de serial killer, ou
pelo menos de alguém demasiado violento, incapaz de conter a cólera. Foi a
consciência de que, para todos os efeitos, eu era um pecador, que me era
impossível não transgredir em pensamentos e, consequentemente, impossível evitar
o Inferno, que me fez entrar numa nova etapa da minha vida. A lógica infantil
moldada pela catequese salvou-me, embora não da maneira que os catequistas
desejariam. Convenci-me, por volta dos doze anos, de que era um pecador reincidente
e que não tinha grandeza bastante para a redenção, já que não conseguia
arrepender-me de cada maldade que pensava. Se havia uma paridade entre os actos
e os pensamentos, por que me continha eu?
Quando a ocasião se proporcionou
de novo, disse eu a um Leonardo enfraquecido mas ainda capaz de atenção, tinha-me
livrado do obstáculo moral e desenvolvera uma estratégia para evitar a briga
que consistia em dar o primeiro murro — e dar também todos os seguintes, numa
sucessão e ritmo que imobilizasse o adversário antes de ele ter tempo de reagir
e notar que era mais forte. Jogávamos futebol. Ou jogavam os outros, e eu
limitava-me a sonhar que em algum momento poderia ser chamado a substituir um
dos da nossa equipa (fazia figas para que alguém se aleijasse o suficiente para
ter de sair do campo). Estava de pé junto à linha imaginária que delimitava a
área de jogo quando um rapaz mais velho, que não jogava, se aproximou pelas
costas e me puxou os calções até aos joelhos, perdido de riso e a gritar para
as raparigas que assistiam envergonhadas se era verdade ou não que também a
minha pila era preta.
Por segundos que me pareceram
eternos, fiquei ali com os calções em baixo a sentir a maior humilhação da
minha vida. Depois, baixei-me para os puxar para cima e com o mesmo movimento
apanhei um pau do chão e atirei-me com ele para cima do tipo que me fizera
aquilo. Não parei de lhe bater enquanto não houve sangue e quando terminei já
não sentia raiva nem sentia nada. À minha volta todos estavam parados a olhar,
sem decidirem o que fazer. Eu tinha sido o ofendido, era meu direito retaliar,
mas na sua apatia eles pareciam buscar uma razão para se lançarem em grupo
sobre mim. Abandonei no mesmo momento o jogo em que não participara e abandonei
a obsessão em sentir-me injustiçado, rejeitado. Dali em diante seria
verdadeiramente capaz da indiferença, do desprezo, não raro da superioridade.
Passei por eles como numa despedida, a aguentar os seus olhares confusos e
nervosos, vazio de sentimentos e estados de espírito.
Terminei a história sem
convicção, não estava convencido de que as coisas se tinham passado assim, de que
aquele tinha sido um momento inaugural ou sequer que tivesse existido. Por
vezes, imaginava a minha biografia, ou alguns episódios dela, como uma ficção
que eu próprio reescrevia de acordo com uma disposição posterior. Leonardo deve
ter percebido esta hesitação e interpretou-a como se eu estivesse a tentar algo
para o confortar, a inventar uma parábola, uma coisa que relativizasse o seu
acto e lhe apontasse pistas sobre como lidar com ele e com o futuro, se acaso Octávio
recuperasse com vontade de continuar a sua saga importunadora. Talvez fosse
assim de facto, talvez esta história não fizesse parte da narrativa inicial que
eu tinha para Leonardo e a tivesse inventado no momento, para ele e para mim,
como uma forma de lhe ser útil.»
in Hotel do Norte
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Catalogue des prix d’amour
[O senhor flagrado não é Paul Nougé, apesar do ar satisfeito]
Mosquitos em Bruxelas parecia-me um contra senso, imaginando-os bichos eminentemente meridionais ou amigos de ambientes de gente pobre. Mas quando me começaram a cair no copo lembrei-me que sou pobre e meridional. Não, não foi isso. Quando passei a usar a vetusta base de copos como tampa contra os dípteros kamikazes, tomei consciência do sítio onde estava: La Fleur en Papier Doré (Het Goudblommeke in Papier para os amigos flamengos), um café que respeita o seu ilustre passado mantendo, quase sem a espanar, a decoração original. A Flor em Papel Dourado é um estaminet fundado em 1366, mas não creio que houvesse nenhum mosquito dessa colheita. Os que partilharam comigo o cabernet e mais tarde nadaram nos meus sucos gástricos deveriam ser do tempo da última remodelação do botequim, acontecida, diria, na transição de oitocentos para novecentos. Gosto de sítios assim, com verdadeira história. E se tomasse notas no meu moleskine (ou, menos romanticamente, usasse a câmara do telemóvel), poderia hoje reproduzir na íntegra, poupando o trabalho de inventar tema e coerência para um post, a piéce de résistance das antiquarias que enfeitam, emolduradas, amareladas e empoeiradas, as paredes da casa. Refiro-me ao tarifário de um prostíbulo, de 1915.
Não me parece que o nome do café derive deste dístico utilitário, mas podia: o “Catalogue des prix d’amour de Mademoiselle Marcelle Lapompe”1 é um belo documento histórico em papel dourado pelo tempo. E a flor… vocês sabem.
A informação disponível no café refere que Magritte e os surrealistas belgas passavam ali os dias, e acredito que eles tenham reparado, como eu, que chez Marcelle Lapompe2 havia descontos se o cliente não precisasse de luz (já a vela custava 15 cêntimos). Talvez, pensando bem, o tarifário tenha sido esquecido ali por um dos surrealistas, depois de o ter consultado disfarçadamente no meio de um exemplar que fingia ler de L’Amour Fou, do condiscípulo francês. Ou, quem sabe, o papelito comprometedor caiu do bolso de um Paul Nougé vindo de se ter feito “glouglouter le poireau”3, depois de “faire sucer une pastille de menthe a l’opératrice”. Tudo é possível (refiro-me à cronologia): o tarifário diz que “anula todos os precedentes”, mas pode ter vigorado nas décadas seguintes (é consultar a inflação da época).
A tabela de Mademoiselle Lapompe — que eu mesmo que tivesse tomado notas na verdade não citaria, por pudor — é simultaneamente um documento de grande objectividade e um catálogo de metáforas e eufemismos de 1915 para essa outra metáfora e esse eufemismo intemporal que é o “amor”.
Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.
Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.
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1 Ok, fui pesquisar na Internet, comprovando de passagem a minha teoria de que hoje não é preciso levar máquina fotográfica para as viagens, alguém já tirou as fotografias de que precisamos.
2 Na Rue du Chant-Noir, número, adivinharam, 69.
3 Pardon my french.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A necessidade de flanar
Algumas ruas aqui em volta fazem-me por estes dias lembrar Roma, a
caminho do Trastevere. Nada nas ruas sem Tibre nem classicismo desta cidade se
parece a Roma, excepto as coloridas folhas de plátano coladas ao chão pela
chuva. Mas é de Roma que me lembro ao contemplar o que o Outono fez às folhas. O
que me teria sucedido de interessante ali, se descontarmos estar desobrigado de
horários e compromissos?
O caminhar à noite pela margem esquerda do rio, indagando abstraidamente
a corrente rápida e acastanhada, o cruzar a Ponte Fabricio com vaga e preguiçosa
curiosidade estética e histórica não estavam balizados por nenhum prazo ou
ânsia, não tinham nenhum objectivo que não fosse descobrir algures, sem
urgência, uma taberna simpática com preços módicos. E percebo que é isso o que de importante me aconteceu em
Roma. Isso, essa suspensão do tempo, do trabalho, da existência social mesmo
que misantropa, esse interlúdio da vida quotidiana que deambular por uma cidade
estrangeira pode significar.
Há um prazer, uma leveza, um sentimento de eternidade quando se vagueia
por uma cidade sem pressa nem destino nem desejos nem gente conhecida. Não é talvez
de Roma que me lembro, mas de flanar
por uma cidade atapetada de folhas no fim do Outono. Não é de Roma que tenho
saudades (que patético seria reclamar-me saudoso de uma capital de fim-de-semana),
mas daquela versão de mim que não tinha agenda.
Descubro que sou, por aspiração (e julgo que natureza íntima), uma
espécie de flâneur. Um flâneur rústico, pelo menos provinciano,
mas um flâneur. Fui-o quando saía de
fim-de-semana da tropa e tinha de queimar horas entre estações de Lisboa ou do
Porto. Fui, então, um flâneur do Cais
do Sodré a Santa Apolónia, de S. Bento a Campanhã, fazendo grandes desvios pré-baudelerianos
(no sentido de inconscientes de si), preferindo calcorrear horas a fio as
cidades do que passar o tempo de espera em bancos frios e sujos de apeadeiro ou
em cafés para cuja cerveja não tinha dinheiro. Fui um flâneur à maneira torguiana (figura que, contudo, me não desperta interesse),
pisando em todas as oportunidades o saibro dos caminhos e escalando as rochas
dos montes. Fui, a espaços, com certa pretensão walterbenjaminiana, digamos, um
flâneur à medida das pequenas terras
onde vivi ou procurando erguer-me ao tamanho de algumas das que visitava.
Mas só hoje, ao regressar a casa e aos deveres, ao olhar com nostalgia este
tapete de folhas nesta terra que não é Roma, percebo mais intensamente que a
felicidade talvez seja não aceitar na vida mais do que solas de sapatos e
bilhetes low cost.
Algo que na verdade já devia ter intuído quando em Bruxelas me pus, não
sem embaraço, — como aqueles fãs que vão a Paris visitar o túmulo de Jim
Morrison — à procura dos sítios por onde andou o narrador flanante de Cidade Aberta, de Teju Cole. Não era uma
emulação ou uma excentricidade constrangedora das que por vezes me assolam —
era uma acusação e um apelo dirigidos a mim mesmo.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
O direito à poligamia
Decerto com razoável ironia, o escritor Nick Hornby propôs algures que se
devia queimar os livros «complicados». Esta é daquelas frases que dão jeito a um
provocador e está de acordo com o zeitgeist
comercial, numa altura em que há empresas que não se importam de lançar e
depois retirar compungidas do mercado produtos politicamente incorrectos porque
sabem que a visibilidade concedida pelo “escândalo” lhes acabará por trazer
lucros. Ainda que aqui não haja necessidade de Hornby se vir a queixar de citação
fora de contexto: a sua afirmação tem tanto de provocador como de banal. Muitos
disseram o mesmo, por aquelas ou outras palavras, e vários deles eram também
escritores, ou coisa aproximada.
O El País, que traz a notícia e fala da repercussão que terá tido aquele fait
divers literário, dá-se contudo ao trabalho de coligir uma lista de 10 livros que «carregam o estigma (muitas vezes injusto) de serem inacabáveis»,
por gigantismo ou ilegibilidade. Vai de O Arco-Íris da Gravidade a A
Piada Infinita, mas passa por Crime e
Castigo e Guerra e Paz. Isto é ir
um bocadinho mais longe do que se atreveria José Rodrigues dos Santos, e o
artigo mistura, com certa tontice, a suposta complexidade com o tamanho dos
livros.
Teremos, portanto, duas razões, nem sempre acumuláveis, para queimar
livros: a dificuldade de leitura que eles oferecem ou o número de páginas que
os constitui.
Reparem que nenhum dos escritores citados na peça, Nick Hornby ou Kingsley
Amis, teve a franqueza de Fernando Pessoa, nenhum defende que pura e
simplesmente se não leia. Não. São (ou eram) escritores: naturalmente não
querem afastar a clientela (pelo contrário, como se verá adiante). Consideram a
leitura importante, claro, ou uma interessante «actividade hedonista».
No que toca ao tamanho dos livros, a estigmatização dos grandes é
estulta, se tivermos precisamente em conta o prazer da leitura: o que importa
ler dez novelas ou um só calhamaço, dez autores ou um só escritor, se o objectivo
é o prazer que tiramos do exercício de ler? Eu, por exemplo, e pensando só no
prazer, trocaria de bom grado uma dezena de livros menores que li por um novo
tomo de A Piada Infinita. Ganharia,
entre outras coisas, novidade e variedade, tudo num só livro, vejam só.
De resto, para escritor, aquele Hornby parece ter um medíocre
conhecimento da natureza humana. Ignora que, nos prazeres literários como,
digamos, na culinária, os seres humanos são diferentes?
E vamos ao argumento da complexidade. É claro que há gente que lê ou
diz ler destas obras «estigmatizadas» para poder fazer alarde de superioridade intelectual
ou para seguir, por pretensão, o mais exigente cânone. Eu li o Ulisses em bicos de pés e pouco percebi
dele na altura, mas não me arrependo de ter seguido a via pedante (se quiserem)
em vez da via pirómana. Acredito que, neurologicamente, duas pessoas diferentes
possam sentir o mesmo grau de prazer a ler o supra-referido dos Santos, por
exemplo, ou o falecido Wallace, mas desconfio que o cérebro do leitor que lesse
o segundo sairia bastante mais colorido e refulgente de uma ressonância magnética.
E eu não vejo, com franqueza, razões para se preferir levar para casa imagens
de um blackout quando se faz uma IRM.
Tirando Philip Roth — que chegou ao ponto de desaconselhar a leitura tout court mas porque, bem sabemos,
decidiu deixar de escrever —, o aprendiz de Torquemada que manda queimar livros
alheios está, geralmente, com consciência disso ou não, a ser juiz em causa própria,
a autojustificar as suas opções enquanto escritor, a puxar a brasa à sua
sardinha literária, a defendera a sua bancazinha no mercado livreiro.
Adicionalmente, mostra que, por infelicidade, o ter-se tornado escritor não
preservou o leitor que eventualmente havia nele. É que nenhum leitor
verdadeiramente interessado na leitura (ou viciado
na leitura, se quisermos continuar nas metáforas hedónicas) escolherá ou
rejeitará um livro pelo seu tamanho, ainda que possa ter o seu próprio
calendário de leituras e tendência a postergar indefinidamente luxações nos
pulsos.
Nick Hornby diz, e nisto tem razão, que «de cada vez que continuamos a
ler sem vontade reforçamos a ideia de que ler é uma obrigação e ver TV um
prazer». Mas um escritor com alguns conhecimentos de sociologia, psicologia,
neurologia ou o diabo a quatro e que apreciasse a diversidade humana talvez não
devesse ignorar que se pode não ter a menor vontade de ler o mais fininho dos
livros de JMS (J),
se ele algum dia escrever um à sua imagem, e encontrar em cada magra página um
trabalho de Hércules. Num mundo em que o cânone excluísse livros complicados e/ou
grossos (e esse mundo já está aí), haveria sempre gente a reconhecer que prazer
é ver TV.
A redutora imagem da humanidade implícita numa condenação dos livros «excessivamente
complicados» é, insisto, apologia de uma escola ou da obra própria. Infelizmente,
uma parte dos escritores não resiste a esta tendência, e é por isso que tantas
vezes ler-lhes as entrevistas se torna penoso. Detesto escritores possessivos,
que me queiram só para si. Enquanto leitor, reclamo o meu direito à
biodiversidade — ou à poligamia, para regressarmos ao prazer.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Coisas que não anoto no moleskine (2): em Mainz
Recordo assim de repente Mainz como cidade irmã de outras imaginadas onde
o adro fronteiro à gare se reveste de uma anarquia lânguida, vagamente
ameaçadora ou repulsiva. Bandos esfarrapados de punks, com as suas repas coloridas
e hirtas, chocalhavam quando ali desembarcámos correntes de forçados e constituíam
uma pequena multidão de rebeldes ociosos, espalhados no lajeado cinzento e sujo
como focas gordas ou tartarugas trazidas pela maré com o lixo a uma praia
vulcânica. Sentados ou recostados como romanos em orgia, bebiam e derramavam as
suas cervejas enquanto lançavam por rotina insultos aos passageiros que, como nós,
ziguezaguevam por entre eles na direcção da paragem de táxis ou dos meandros do
centro urbano. Não é um bom cartão-de-visita de uma cidade, mas suponho que
ninguém se dá ao trabalho de ir até à Alemanha para acabar a apear-se do
comboio em Mainz. O acampamento punk não se monta quotidianamente ali para
assediar turistas, creio, mas para chocar os concidadãos burgueses e devotos do
trabalho que usam o comboio nas suas idas e vindas diárias para Frankfurt ou
para localidades próximas. De resto, a cidade, que até tem os seus encantos,
não precisa da estética punk para enjoar os visitantes: tem a cozinha, com salsichas
sensaboronas e puré de bata avinagrado, que se serve com um apfelwein menos entusiasmante do que um Fruto
Real que tivesse sobrevivido aos anos 80 e decidíssemos por estultícia arriscar
beber hoje.
Se contudo o viajante se dá, como nós, ao trabalho de ir até Alemanha
para acabar a apear-se no comboio em Mainz, não adianta ir fazer perguntas ao estabelecimento
tuga a dois passos da estação: ali deixam de falar português quando descobrem que
os entendemos. A alternativa é acreditar no casal simpático que nos aborda mais
tarde, vestido para ir ao teatro num fim de dia de Agosto, e que garante ter um
quarto vago, se no fim da peça ainda andarmos pelas ruas de mapa na mão e falhos
de abrigo. Em Mainz fica-se então a olhar para estoutro cartão-de-visita, um
pequeno rectângulo de papel que assegura serem os elementos do casal cientistas
numa universidade próxima, e, enquanto se continua a busca por hotel barato, entreolham-se
os viajantes perguntando-se se há alemães calorosos ou se um currículo
universitário distinto é atributo que os teutões julgam necessitar para seduzir
swingers meridionais. Como entretanto
escurece de vez naquela parte da cidade com arquitectura vagamente pré-Segunda Guerra Mundial, e como se levanta uma brisa de inquietação e preconceito, os viajantes
deixam de se sentir lisonjeados com a ideia de assédio intelectualizado e
passam a interrogar-se academicamente o quão sedutor poderia ser Norman Bates
para copycats germânicos. A imagem hitchcockiana
de uma faca no duche diverte os viajantes — e leva-os a optar por subir um
bocadinho a quantia que estão dispostos a despender por um quarto em Mainz. Alojam-se
naquele hotel que era antes bom de mais para portugueses temporariamente sem bússola
mas permanentemente sem dinheiro, trocando uma aventura literária por um
pequeno luxo capaz de aliviar o corpo e a alma. No moleskine anotei o
preço do hotel.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Coisas que não anoto no moleskine
Dificilmente poderia viver com a humidade tropical, mas com a chuva e a
monção sim. No Vietname usei o tempo todo uma echarpe feminina enrolada e
empapada no pescoço e arrastava-me pelo território como um alucinado no deserto,
seguro de que se parasse desfalecia ali mesmo. O meu caminhar era como o de alpinistas
a 8 mil metros de altitude sem forças, oxigénio e discernimento, mas com aquela
motivação ou obsessão prévias que lhes concedem um caminhar de autómato, pondo
lenta e lunarmente um pé após o outro, mais como estertores em slow motion de morto do que passadas voluntárias
de vivo. Era assim eu naquela latitude, a deslocar-me em linhas rectas entre
duas sombras em vez de vaguear turisticamente pela paisagem; a olhar as coisas
pitorescas pelo canto do olho enquanto elas iam desfilando a meu lado como
noutra dimensão, sem nunca me deter para apreciar pormenores ou comentar particularidades;
anunciando com desespero homicida na voz que se parasse para fazer fotos ou me desviasse
do caminho da sombra fosse por que razão turístico-imperiosa fosse seria um
português suado morto, e não um ocidental vivo enriquecido pela viagem. Descobri
que nos trópicos tenho espírito de mula atrelada à nora: caminho porque tenho
de caminhar, remoendo pensamentos asininos, obstinados, sem nexo nem
finalidade, incapaz de parar depois de me pôr em marcha e impedido pelo jugo tropical
de gestos de revolta, de qualquer gesto, aliás, que não seja descolar um pouco
a t-shirt do corpo. Mudava de trajectória de vez em quando, é verdade que mudava,
se a companhia me reorientava os passos segurando-me pelos ombros como se faz a
um bebé ou ao tal autómato com pilhas Duracell e uma versão muito beta de GPS.
Por vezes também chocava com postes e paredes, e conseguia inflectir ou
contornar o obstáculo com a mesma destreza convulsiva das sondas robóticas em
Marte. As primeiras e mais primitivas, que se atolavam à terceira tentativa —
não sem o alívio que devem sentir os moribundos finalmente autorizados a fenecer.
Mas é da chuva que queria falar, não de como viro zombie em atmosferas de
30 ou mais graus e 100% de humidade.
Já fui feliz à chuva no Inverno, fazendo jogging ensopado como um náufrago escocês emerso do Loch Ness (e
portanto com razões para correr), fazendo trekking
com botas encharcadas que emitem barulhinhos ora constrangedores ora estupidamente
cómicos como dobragens de filmes porno (mas não suficientemente sugestivos para
um escroto alojado em boxers impregnados de chuva e frio), e, se recuar um pouco
mais na biografia, também já fui feliz no Inverno chegando como um pito a casa
vindo da escola com os pés enfiados em sacos plásticos dentro dos sapatos e pronto
para café com leite, torradas, luz de velas e livros de Júlio Verne.
Gosto de apanhar molhas, como se vê, mas como não sou um masoquista
indefectível, as minhas melhores molhas são as de Verão. Chuva quente é a minha
ideia de Paraíso. Debaixo de borrascas estivais tenho reminiscências do Éden,
como se cada cromossoma do meu ADN estremecesse de um prazer herdado de quando
a humanidade tinha guelras e dava as primeiras braçadas no aquaworld primordial. Debaixo da chuva de Verão, de virilhas
ensopadas, sinto-me feliz, purificado e nu como Adão e Eva. (Não duvidemos que
estas figuras bíblicas existiram, só que, ao contrário do que pensa a religião,
eram batráquios ou girinos sem nada pudendo a esconder.)
Mas se invoquei o tema chuva foi porque hoje me lembrei, não sei bem porquê, que uma das
vezes em que fui feliz estava encharcado até aos ossos na Alemanha. Não
encharcado e tremelicante como trabalhador meridional na suja neve teutónica,
mas encharcado e esfusiante como vagamundo munido de moleskine e optimismo.
Tínhamos descido do castelo de Stahleck, transformado em pousada da juventude e
sobranceiro à pitoresca aldeia de Bacharach, por sua vez ancorada à margem do
Reno. O Reno é ali o Douro da Alemanha, com os seus curiosos vinhedos de bardos
perpendiculares às curvas de nível, mas inebria um pouco mais. Não porque os
seus famosos brancos tenham mais teor de álcool, mas porque as suas paisagens
urbanas têm menor teor de mau gosto. Fosse como fosse, talvez viéssemos um
pouco tocados de Stahleck — tínhamos bebido um copo ou dois enquanto
assistíamos a um ensaio da banda da juventude ali hospedada e não nos pareceu
loucura caminhar os três ou quatro quilómetros para montante (até ao
ancoradouro de onde partia o barco que fazia a travessia para a estação na
margem oposta a tempo de apanharmos o nosso comboio para Coblença), mesmo que a
chuva começasse a cair com intensidade e os nossos impermeáveis tivessem sido
comprados na loja dos chineses que ficava no rés-do-chão do meu prédio em
Portugal. Subimos o Reno encharcados e eu feliz, de calções e a chinelar como
se a Alemanha ficasse abaixo do Trópico de Câncer, indiferente à distância e à
chuva. Recordo-me que fiquei ligeiramente aborrecido quando parou de chover e o
barco partiu a horas e vi que o nosso plano se iria cumprir, o que era bom, mas
já não, o que era mau, sob uma chuva que aspergia como se os deuses, de luvas e
galochas no seu jardim, se entretivessem a irrigar a felicidade dos homens.
Depois disso, fui então feliz à chuva nos arredores de Hué, viajando na
traseira de uma motoreta e agarrado ao meu oriental como Leonardo DiCaprio a
Kate Winslet (só que ele, o meu oriental, felizmente não largava as mãos do
guiador para abrir os braços à proa e era eu quem tirava os chinelos dos apoios
e levantava as pernas como se estivesse a vogar cinematicamente num Titanic meridional).
Nessa tarde tínhamos ido ver templos funerários e no caminho de regresso havia
ao longo da estrada telas de artistas plásticos, uma exposição de arte
contemporânea a céu aberto que se afogava por uma hora ou duas e depois secava
num instantinho, como tudo ali secava num instantinho excepto o meu suor.
Mais tarde fui ainda feliz à chuva em Roma, a correr para o metro acima
da Piazza di Spagna e a ter tempo de achar afinal pequena e banal a Via dei
Condotti que o guia dizia ser «a busy and fashionable street».
Em Paris não choveu, e eu que levava um kispo novo à espera de o
estrear com o mesmo ânimo pueril e inconfessável de quando, adolescente, vesti em
Agosto um kispo em segunda mão — herdado de um primo afastado e a cheirar a
essências que não eram o sabão rosa lá de casa —, pela primeira (e última) vez
impaciente pelo Inverno, só porque tinha caído uma chuvita de Verão antes da
missa.
Levava também, em Paris, o moleskine que me foi oferecido como ferramenta
de escritor mas que uso apenas para anotar despesas e coisas práticas.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Futuro próximo
Devido a uma mudança de fornecedor de serviço de internet que implicou a instalação de mais parafernália informática do que a que na realidade necessito, fiquei com uma tal quantidade de luzes a piscar na secretária que sinceramente não sei se a minha sala vai entrar em órbita daqui a pouco ou se o mundo vai explodir dentro de trinta segundos. Só não fico apreensivo porque há algo de sedutor em ambas as hipóteses.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
A insustentável leveza da pubescência
Talvez houvesse também razões musicais, mas parece-me que na disputa
entre Spandau Ballet e Duran Duran eu preteria os primeiros porque pareciam demasiadas
vezes vestidos para casar (ou ser padrinhos de casamento), enquanto a mistura de
farrapada punk e marinheiro russo que frequentemente cobria os segundos os
tornava românticos aos meus olhos adolescentes. Mas românticos de aventuras,
não do coração. Afinal, na altura eu também preferia a Rama de Arthur C. Clarke
à Praga de Milan Kundera. E ainda revirava os olhos nas cenas de beijo dos
filmes, fazendo mentalmente zapping
para Mad Max.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Tudo o que era certo e errado
«A minha mãe
nasceu num casebre com piso de terra e duas divisões, numa das quais vivia o
gado, uma vaca e um burro — suponho que há pouca originalidade nisto, disse eu.
Jantava com Leonardo num restaurante novo e gastei pouco tempo a estudar o
espaço, um japonês de asséptico minimalismo. É fastidioso tentar perceber o que
cresceu mais depressa, continuei, se a família se o número de animais, mas ainda
que ambas as expansões denunciassem uma certa prosperidade, isso não aproximava
a infância dela dos padrões mínimos de conforto que hoje reivindicamos, nem
acrescentou compartimentos à casa, à excepção de um telheiro sem paredes. Com oito
anos e três irmãos mais novos viu-se investida de responsabilidades maternais e
mandada diariamente para os montes atrás de uma pequena manada de vacas
indolentes. Não sei se há um momento limite para a salvação — se decidirmos considerar
que retirar alguém de um mundo rústico daqueles salva —, mas o resgate da minha
mãe aconteceu talvez um pouco tarde, deixando-a num limbo entre duas
existências. Não era demasiado tarde para alguma escolaridade, mas havia já uma
vida de memórias indeléveis, todas efectivamente marcadas na pele.
Leonardo
estava a gostar do peixe cru; eu aproveitava a minúcia que os hashi permitem para debicar como alguém
devoto de uma filosofia ascética. Andei muitas vezes pelo território onde ela
guardara gado, disse, mas só no fim senti ter incorporado um pouco daquela
experiência. Faltava-me, claro, a herança genética, e de todas as versões da
história a única que me penetrou com força foi a última, quando ela se despiu
de vaidades, de vergonhas, quando deixou de interpretar ou justificar a sua
própria vida e, solicitada pela velhice, apenas reviveu, com distanciamento, ou
talvez com alegria feroz, um conjunto de factos.
Creio que há
uma certa justiça na senilidade, dei por mim a dizer, em algum momento as
pessoas deveriam sentir-se livres para falar de si próprias e das suas vidas
sem o peso da moral. Claro que a minha mãe acreditava na vida depois da morte e
por sua vontade deixaria as confissões e os ajustes de contas para o outro lado
ou para a sua antecâmara, mas por vezes a biologia antecipa o alívio. A
degenerescência convidou-a a esquecer a religião e a tomar as coisas pelo lado
físico, brutal, que elas tinham representado para si. A destruição dos
neurónios começou por aquele punhado deles que se ocupava das conveniências.
Também para
mim era uma experiência inesperada, disse eu a Leonardo. Um ano antes de ela
morrer, era uma outra mulher aquela que eu levava a revisitar a aldeia na
montanha onde nasceu. O exercício do dever filial há muito deixara de ter
significado para mim, mas de repente aquilo revelava-se algo diferente.
Tomava-a pelo braço e sentia uma corrente de afecto, uma vontade de a abraçar e
de a beijar, o que passei a fazer com uma frequência que não punha em prática
desde a infância.
Também eu, por
razões diferentes, tinha entrado num estado amoral, ou pelo menos associal. Vais-me
censurar por dizer isto, disse a Leonardo, mas tive uma espécie de flirt com a minha mãe nos meses que ela
levou a morrer. Era algo que não nos estava vedado, não éramos consanguíneos, não
havia nenhum tipo de jurisdição sobre nós que não fosse pura convenção, e a
isso já não ligávamos, enlaçávamo-nos apenas, nas encostas da sua infância, ela
a achatar camadas de memórias e eu, galante, ao serviço da rapariga em que ela
se transformara.
Dançávamos,
porque, ao mesmo tempo que recordava cada uma das vacas que pastoreara, lhe vinham
memórias de bailes em que não participara, ou que aproveitara pouco. A dança
era, aliás, logo a seguir ao canto, uma parte fundamental da sua existência,
dizia-me ela e dizia eu a Leonardo. Achava-se uma tola por algum dia ter
sentido timidez, ligado às conveniências, dado prioridade aos deveres. Havia um
filme, como se chamava?, dizia a minha mãe, em que uma moça bonita cantava e
dançava nas montanhas da Suíça. Eu sabia que era na Áustria, Música no Coração, mas que importavam
estas clarificações quando me podia limitar a rodopiar com ela nos braços,
bebendo da sua felicidade, zelando para amortecer as suas quedas?
Ali em baixo,
dizia a minha mãe à vista das ruínas do casebre onde crescera, ali em baixo não
viviam pessoas, viviam animais. Não digo isto com mágoa nem nostalgia. Era
assim. Éramos assim. Agíamos por impulsos e necessidades, como o gado do outro
lado da parede. Quando vi o meu primeiro lobo, aqui mesmo onde estamos, senti
medo, claro, ia nesse sentido a escassa instrução que tínhamos, mas também me
achei em pé de igualdade com ele. Durante toda a vida pensei nestes encontros
como se fosse uma pobre criança indefesa à mercê de uma fera sem compaixão, mas
ultimamente vejo as coisas de outra forma. Sabes, dizia a minha mãe e repeti eu
a Leonardo, acho que agora me lembro melhor de tudo. Eu não ficava petrificada,
nem os lobos estavam convencidos da sua superioridade. Medíamo-nos com respeito
e curiosidade, muita curiosidade, e depois eu pensava que tinha de proteger as
vacas, que tratava pelo nome próprio, e de me salvar de uma sova em casa:
pegava em paus e pedras e gritava-lhes, aos saltos, como aqueles chimpanzés da
televisão. Podes-te rir, não me envergonho da comparação, eu era pouco mais do
que uma macaquinha, trepava às árvores e nadava nua no ribeiro — depois é que
tive de aprender tudo o que era certo e errado.»
in Hotel do Norte
'Teoria Geral do Verão'
«Mário foi o
primeiro a chegar. Acordou com o dealbar do dia. Na verdade, quase não dormiu,
sentia demasiada excitação. Estar ali era como ter congeminado um teorema e
ser-lhe oferecida depois a oportunidade de o testar e demonstrar ele mesmo. Já
tinha um nome para aquilo, passou a noite com ele na cabeça: Teoria Geral do Verão. Basicamente, a
sua ideia postulava que não havia felicidade na chuva, no vento, no frio, nos
dias cinzentos e ensimesmados. O estio era o quinhão de paraíso que Deus legara
à Terra, um vislumbre do que esperava na outra vida os bons, os justos, os
impolutos. Era talvez também a manifestação do Seu sadismo, permitia-se Mário
pensar, já que Ele sabia como falhara com o homem. Desvelar o paraíso era como
mostrar imagens de fontes e lagos suíços a um moribundo no deserto africano ou
deixar um suculento naco de carne meros centímetros fora do alcance da corrente
de um cão esfaimado.
Tinha havido
alguns erros no desenvolvimento humano, no seu desenvolvimento biológico. Havia
tanto que aprender com aves, répteis, insectos. A selecção natural falhara ao
fazer do homem um animal sedentário. Não tardaria a perceber-se porque definhava
a civilização ocidental, por que é que o Hemisfério Norte se fazia triste e
evitava reproduzir-se. Por que se suicidavam os nórdicos (por enquanto eles).
Séculos de saber acumulado e ainda não havia uma solução para o mal-estar. E
era tão simples: migração sazonal ou hibernação.
Lembrava-se de
um episódio: dois casais de patos a esvoaçarem sobre uma albufeira. Talvez não
fossem dois casais, podiam ser quatro machos ou quatro fêmeas, ou três de um
género e um do outro, quem saberia dizê-lo? Era um daqueles dias de Outono
apelidados de perfeitos, um dos que se rejeitariam na Primavera ou no Verão
(demasiado frios e cinzentos, com o maldito nevoeiro a ameaçar cobrir tudo) e
que pela sua pouca dureza seriam ignorados no Inverno, mas que, com um fundo de
folhas coloridas e uma promessa de lareira, pareciam irrepetíveis. Mário estava
com o pai e lembrava-se de o ver subir a gola do casaco ao mesmo tempo que
falava de castanhas assadas e vinho tinto. Ali, ao seu lado, trinta anos antes,
com a elegância enfiada num fato de três peças e camisa branca, o cabelo
submetido pela brilhantina, o pai de Mário explicava que o pato selvagem era
uma espécie rara naquelas paragens e a lagoa era apenas uma estação de serviço
onde eles se detinham para abastecer no caminho para África, para terras mais
quentes. Mário a tremer de frio e desconforto, insensível à beleza outonal,
invejou a inteligência dos patos.
O europeu era
intrinsecamente estúpido: rumava a sul no Verão e procurava a neve no Inverno,
quando o que devia estar a fazer era aprender com as aves, descer uns quantos
paralelos à medida que os dias diminuíam e regressar logo que as plantas
ameaçassem florir. Claro que este tipo de migração em massa enfrentava
obstáculos severos, por mais que os serviços de turismo do Magrebe esfregassem
as mãos. As grandes deslocações de Estaline não tinham ficado bem vistas (mas
essas não incluíam bilhete de volta); contudo, pondo de parte a engenharia
social, ainda havia a biologia, a hibernação induzida. Se o homem, no seu longo
percurso evolutivo, recusara um metabolismo como o dos ursos, estava ainda
muito a tempo de se reencontrar por via científica com esse ramo da família. O
que não se pouparia em recursos se a Europa adormecesse no Inverno. E o que se
ganharia em felicidade social se todos saíssem do quarto apenas em Abril ou Maio,
quando o Sol mostrava finalmente músculo.»
in Aranda
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