Muitas pessoas (e tantas delas são gente da informática ou das novas tecnologias) pensam que regras e convenções da escrita são uma espécie de capricho de gente conservadora, quando não uma demonstração de intolerância ou fascismo em relação a quem tem uma atitude mais «descontraída» com a língua e a escrita. Suponho que essas pessoas lêem pouco, ou apenas lêem o que escrevem. Ou ignoram regras e convenções quando escrevem porque na verdade se estão nas tintas para quem as vai ler.
O problema é quando algumas destas pessoas escrevem textos que, por uma razão ou outra, nos vemos forçados a ler. A sua forma «descontraída» de escrever geralmente significa que nós não vamos ter uma leitura descontraída, mas trabalhosa, aborrecida, tentando decifrar a sintaxe para conseguir chegar à semântica. Irrita-me quando antes de perceber a ideia ou argumento tenho de parar para perceber a frase. E irrito-me mais quando, depois de finalmente perceber a frase, descubro que não há uma ideia ou argumento (o que também é frequente).
Os praticantes desta «escrita descontraída», mesmo que pensem o contrário, são meros principiantes das letras e da comunicação. Não se relacionam suficientemente com a língua e a linguagem para perceber duas coisas:
1) Que as frases que escrevemos saíram da nossa cabeça e, por isso, somos capazes de entender facilmente um texto nosso, mesmo que ele esteja descuidado, mal pontuado, sem acentos e que ao escrevê-lo lhe tenhamos comido uma parte das palavras. Quem alguma vez se deu ao trabalho de rever a sério o que escreve sabe que é assim.
2) Aquilo a que noutros escritores chamamos de «escrita simples» é geralmente uma escrita bastante trabalhada — e que não ignora regras e convenções. Este tipo de «escritores simples» trabalha arduamente os textos para que a comunicação resulte límpida, transparente, sem dar trabalho desnecessário ao leitor (a não ser o que resulta da compreensão das ideias expressas).
Meus amigos: aspas, acentuação, vírgulas, pontos, travessões, itálicos (em estrangeirismos e títulos, por exemplo), concordância em género e número, correcta conjugação e aplicação de verbos, escolha rigorosa de adjectivos, etc. não são coisas antiquadas, desnecessárias, descartáveis. Não são, sequer, caprichos estilísticos de escritor. São a essência formal da comunicação escrita. Se não têm nada a dizer, não escrevam. Se acham que têm alguma coisa a dizer, lembrem-se que estão a escrever para seres que não convivem intimamente com os macaquinhos que vocês têm no sótão.
terça-feira, 17 de junho de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Love and War(paint)
Estas meninas já nos brindaram (à geração de 80) com uma bela versão de "Ashes to ashes" (Bowie) e agora têm o bom gosto de atacar "The Chauffeur" (Duran Duran). Conhecendo também os seus originais, só se pode amá-las.
https://soundcloud.com/manimal-vinyl/warpaint-the-chauffeur-1/s-FYTII
https://soundcloud.com/manimal-vinyl/warpaint-the-chauffeur-1/s-FYTII
Catástrofe
«também está um dia bom para apanhar peixe banana»Adicionei o blogue há dias e agora acaba... Depois não querem que me sinta triste e amargo como o cavalo de Átila.
Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo
No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina
procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco
Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:
«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*
Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa
similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento
de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas
para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou
lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência,
mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo
inteligente».
Descontada a boutade pateta, há
decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas.
A Europa devia lembrar-se.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
Golo da Costa Rica
Não foi uma excentricidade como ir ao Solar Transmontano, mas perdi a
cabeça e gastei doze euros numa churrasqueira. Por vezes, o bilhete para observar
a vida selvagem sai caro.
O empregado perguntou-me o que estava a achar do Mundial e eu não dei
parte de fraco: aqueles cinco a um da Espanha eram qualquer coisa… Passei no
teste sem ter de explicar que coisa eram os cinco a um. De seguida chamaram-no
a outra mesa e também não tive de opinar sobre o Uruguai x Costa Rica que se
disputava no plasma (cujo resultado tinha espreitado preventivamente enquanto
ele falava e sobre o qual estava a tentar pensar o que haveria de expectável a
dizer).
Os clientes também podem ser constrangedores, quando são conhecidos do
pessoal. Uma das cozinheiras passa a caminho da casa de banho mas é detida por
umas perguntas e considerações mundanas da mãe de duas crianças do outro lado
da sala. A cozinheira, não contando demorar-se, fica a três quartos, com um pé no
ar, respondendo pelo canto da boca e pronta a continuar o seu caminho. Todavia,
a cliente tem sempre mais uma coisa para dizer e a cozinheira, indecisa entre a
delicadeza e a urgência, naquela postura de quem só ouvirá mais uma frase e
continuará a andar, vai deixando os pés para trás e inclinando o corpo na
direcção que pretende seguir. Estão nisto mais um longo minuto e eu preparo-me
para amparar a cozinheira, que está mesmo no limite da sustentabilidade da sua
posição. Mais uma frase da cliente e a queda é irreversível, foi atingido o ângulo
máximo de inclinação que um corpo humano consegue atingir sem se estatelar. Por
fim ouve-se uma interjeição telepática e a cozinheira dá o seu passo em frente,
aquele passo que suspendera antes, e deixa a cliente a falar para a abertura que
dá para o hall dos lavabos. Esta resigna-se,
dá um safanão numa das crianças e comenta para o garçon que o golo da Costa Rica foi mesmo um grande golo.
Espertina
Gosto de madrugadas quentes, porque a vizinha vem para a rua
aparar as sebes e eu vou para a varanda ver a vizinha aparar as sebes.
sábado, 14 de junho de 2014
Cristo sinaleiro
Cristo persegue-me (quando devia talvez ser o contrário, eu ir-lhe na
peugada com veneração e toga de discípulo). Hoje postou-se-me a meio de uma
bifurcação de estradas e, com aqueles seus braços permanentemente abertos, a
apontar uma coisa e o seu contrário, fiquei sem perceber se me aconselhava a
direita, se a esquerda. Como sinaleiro, tem muito a aprender. Nem deviam,
aliás, autorizá-lo a exercer (mas neste país uns são filhos de deus, outros...).
A certa altura mais carente da viagem (havia uma recta de uns setenta metros
antes de ter de escolher), achei que ele abria os braços mas era para me
abraçar e fiquei tentado a ir em frente, entregar-me ao amplexo cristão com
Chevrolet e tudo. Travei antes do muro.
(E ao passar-lhe ao largo devo dizer que me pareceu mais o Roger Hodgson
do que o Cristo: ou há um culto novo na cidade ou anda alguém a brincar com os
moldes.)
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Confidências de um palhaço
Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava
a divertida campanha d’Os Idiotas,
comia com regra e medida e era regular no jogging.
O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores.
Daí a pouco começava o meu annus
horribilis, com ataques em várias frentes, directos
e sobre interposta família, uns manufacturados
outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem,
uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque
todos os palhaços sabem que the show must
go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da
minha consciência.
Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à
frente. Mesmo que um annus tenha 365
dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de
todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências,
dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o
pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um
assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.
Diagnóstico
Vi agora mesmo um cartoon que
pretendia representar o individualismo e na verdade representa o egoísmo. Dizem
que os portugueses estão mais individualistas. É mentira. Os portugueses estão é
mais egoístas. Só pensam em si, mas não pensam por si.
Os portugueses não estão (nem são) individualistas, não se afirmam senão
em grupo, não têm iniciativa própria nem reclamam liberdade individual. Os
portugueses são tão individualistas quanto carneirinhos em rebanhos. Amam o
pastor por síndroma de Estocolmo e o cajado por morbidez do espírito.
(Que o dicionário confunda individualismo com egoísmo é um arcaísmo idiota,
que ignora a Renascença e toda a filosofia subsequente.)
LER
Durante anos, uma das minhas maiores alegrias era folhear jornais e
revistas novos ou reformulados. Gostava tanto de bons textos quanto de bom (e
novo) grafismo. Por isso não resisti à extravagância financeira de comprar a “nova”
LER. (Há leitores deste blogue que julgam ser uma boutade
o meu lamento por no último ano e picos não ter estado à altura dos cinco euros
da revista. Pois saibam que hesitei em pagar o euro extra que agora custa e me
não estava a ser pedido pela tabacaria, cujo sistema informático ainda
considerava o preço antigo. Fui honesto, alertei o funcionário — e vim todo o
caminho a chorar a minha inadequação idiossincrática ao capitalismo sem
pruridos ora vigente. Sou um cândido.)
Lá dei os seis euritos, portanto, apaziguando-me com a ideia que seria um
luxo trimestral que a troika certamente toleraria. O regresso à trimestralidade
está, de resto, também de acordo com a minha actual disponibilidade de tempo
(disputada, contudo, pela Granta, cuja
assinatura um anjo partilhou comigo).
Bem, queria era dizer que gostei bastante desta LER (estava só a ver se
adormecia os editores antes de chegar aqui, mas talvez nem fosse necessário, estão
certamente distraídos com o Mundial). Ao pegar-lhe senti o mesmo tipo de
textura, maleabilidade e excitação que sentia há trinta anos com um Disney Especial — e isto é um elogio.
Depois vou ler.
Gosto que os meus amigos bloggers
ou facebookers façam de DJs. Em cada
visita à internet vou coleccionando toda uma banda sonora do dia em janelas
abertas à espera de serem ouvidas. Depois ouço-as, a maior parte das vezes com prazer
e proveito. (Isto porque ganhei o higiénico hábito de ocultar chatos, pessoas
desinteressantes e fãs do ‘Blasfémias’, que, como se sabe, têm péssimo gosto
musical).
Profissão de (pouca) fé
Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch
na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal
da vizinhança, propriedade privada.
[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]
quinta-feira, 12 de junho de 2014
O fanico de Cavaco
Aprendi a certa altura que não se goza com as características físicas
das pessoas. O debate público é acerca de ideias ou actos, não de deformidades. Uma
corcunda ou um penteado ridículo não transformam em mentira ou erro as afirmações
de quem os padece. A beleza e a feiura, como a saúde e a enfermidade, a
inteligência ou a mediania, não fazem boas ou más pessoas.
Caricaturar o outro a partir dos seus defeitos ou padecimentos físicos é, portanto,
recurso dos pobres de espírito ou daqueles a quem escasseia talento para mais. É
humor que as tascas aceitam (porque aceitam tudo), mas delas não devia sair.
Dito isto, se me parece errado desejar que o fanico de Cavaco Silva seja
consequente, não vejo por que a ocorrência (a quase queda) não possa ser
invocada em frases irónicas sobre o seu
mandato enquanto presidente ou sobre o
regime que ele representa. Podemos desejar a máxima saúde para o cidadão
Cavaco Silva — mas agradecer que ele a vá gozar por muitos anos longe de Belém.
De resto, depois de, por exemplo, a sua tirada sobre a reforma que aufere, a empatia que as pessoas eventualmente sintam pelo ser humano que ele é será sempre mérito da bondade delas — nunca efeito dos actos dele.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Não e não
Uma coisa que é capaz de não ajudar nada este blogue: ao contrário de tantos, não vou inaugurar uma série de posts sobre o mundial.
A menina de óculos
Saltitante como um cachorrito, acompanha os pais numa caminhada ao fim
da tarde. A figura de alguém que lê um livro num banco à margem do caminho prende-lhe
de súbito o olhar. Não ao ponto de a fazer perder a oportunidade de pisar
ritmadamente as pedras que enterraram no percurso a fingir de pegadas de
animais. Mas, cumprido o gostoso exercício, volta a observar o leitor enquanto passa
por ele. Uns metros depois, não resiste a virar-se para trás e dar uma última
espreitadela. Os óculos de massa apoiados no narizito parecem assegurar-lhe um perfil
de leitora precoce e cúmplice que acabou de reconhecer um par. Porém, as
aparências demasiadas vezes enganam: talvez seja apenas uma criança que acabou
de ver uma bizarria. Ou talvez o paralelo canino seja acertado e, como todas as
crias de mamíferos, está apenas a cartografar intensa e francamente o mundo,
ainda desconhecedora das convenções adultas sobre o olhar.
Eu próprio transgressor, pisquei-lhe — e ela sorriu. Não digam a
ninguém.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Bombos
[Para os patriotas que se
entusiasmaram com o post anterior]
Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos
forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente
as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do
globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas
por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos
melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade
rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza
física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque,
não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são
a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar
talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos
nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo
de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.
P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente
ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o
triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer
relevância musical.
Aufklärung – a semântica do iluminismo alemão
Leio que o termo alemão para iluminismo é «Aufklärung». E orgulhosamente
concluo que o povo germânico importou daqui as luzes. «Aufklärung» é resultado
de um adido ou embaixador ter acrescentado o prefixo canino-teutónico «auf» ao
étimo portuense «clarão» (dito com sotaque).
sábado, 7 de junho de 2014
Post scriptum
O grande Filipe Melo diz-me que o mérito de ‘Deixem o pimba em paz’* é
de Bruno Nogueira, que teve a ideia e orientou os músicos na reinvenção do
cancioneiro. E já que estamos numa de distribuir créditos, há que referir
também Nelson Cascais, multifacetado contrabaixista, e Manuela Azevedo, capaz
de ressuscitar músicas que na verdade nunca estiveram vivas e de nos emocionar esteticamente com a mais insípida ou parva das letras pimba.
* A propósito deste post.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Mau augúrio
Não sou supersticioso nem iniciado em filosofias orientais como o Feng
Shui, mas sempre que posso oriento as camas onde durmo para sul. O tempo
cinzento afecta-me o humor, quebra-me o ânimo, e a sul há uma expectativa de
sol, de bom tempo. Já aconteceu deitar-me com os pés para a cabeceira numa cama
norteada apenas porque queria acordar bem-disposto. Saber-me de cara virada ao
sol, ou orientado para latitudes onde a probabilidade de sol é maior, fornece-me
a réstia de conforto que estar vivo exige. Por isso os quartos onde durmo, insensivelmente
projectados sem orientação solar, têm por vezes aquele ar desacertado, de coisa
fora do lugar (a cama).
Talvez esta fuga à mobilação prevista exerça a sua influência sobre as
minhas ideias, a minha psicologia. Mas como disse, não sou supersticioso. Mesmo
que tenha ficado preventivamente maldisposto quando me disseram que amanhã iria
acordar com um dia de chuva.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Feira do livro
Este não se encontra na feira do Parque Eduardo VII, mas os últimos exemplares andam por aí:
Virgulino
Há muito tempo que não compro um jornal por causa de um cronista.
Compraria um que publicasse registos diários de Ivone Mendes da Silva e António Gregório, por exemplo. Talvez prevenindo-se
contra isso, o Expresso contratou
Duarte Marques, não fosse eu assiná-lo, ou o raio.
Verdade
Não há verdade em literatura. Se alguma coisa tiver acontecido a um coveiro
em Janeiro, o escritor dirá que foi em Dezembro, para não rimar.
terça-feira, 3 de junho de 2014
Janela
A casa onde vivi a infância só tinha uma janela pequena para a rua. Era ali que às vezes nos juntávamos quatro ou cinco dos irmãos, alguns empoleirados numa cadeira, para observar o mundo e as estrelas. No Verão havia o fascínio dos incêndios na serra em frente, e de Inverno o exame minucioso das mesmas encostas à procura de auspícios de neve. Era uma janela paciente, estava disponível se era dia de aborrecer a olhar a cortina de chuva ou se descia a banda numa manhã de Agosto em peditório para a festa. Desenhávamos-lhe nos vidros, à noite, no vapor da respiração ou na geada de Dezembro, caveiras sorridentes cujo efeito dramatizávamos apagando a luz do quarto e deixando que o candeeiro da rua as retroiluminasse e projectasse na parede ou no soalho.
Em certa ocasião, ainda os satélites não tinham rotas que cruzassem o bairro, julgámos detectar movimento numa luz celeste. Já sabíamos distinguir pelo bruxulear estrelas de planetas, mas aquele discretíssimo avançar no firmamento era algo diferente; podia ser, porque não?, um ovni. Mas era um ovni tão lento e circunspecto que apenas sabíamos que se movia aferindo ao longo da noite a distância à linha de cume da serra. Não porque perdêssemos a paciência, mas porque havia outros afazeres, revezávamo-nos na vigilância, e quem regressava ao posto depois de ter ido à cozinha percebia melhor do que os outros o avanço da nave alienígena. Estava claramente mais distante da serra depois de cada ausência.
Hoje é difícil acreditar que coubessem naquela janela tão pequena — além das estações do ano e da fenomenologia meteoro-teratológica, além das grandes tempestades e dos monstros mais assustadores — excitantes visitantes de Vénus com a sua sofisticada tecnologia. Mas cabiam. A revolução coperniciana só tinha roubado movimento ao Sol e a mais nenhum corpo celeste, incluindo os que não identificávamos. Nenhuma lei da física nos impedia de sonhar, e a exiguidade de uma janela não tornava pequena a ambição.
Se agora não conseguimos conceber como se ajustavam e fervilhavam ali tantas cabeças não é porque a janela tenha minguado, é apenas porque as nossas cabeças cresceram na razão inversa da nossa imaginação.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Deixem o pimba em paz? As artes e o público
À saída do espectáculo DEIXEM O PIMBA EM PAZ (uma reinvenção
brilhante de Filipe Melo e Nuno Rafael a partir do hegemónico repertório pimba)
alguém registou duas reacções dos espectadores: a dos que gostaram porque os novos arranjos eram música genial e a dos que gostaram porque dava para reconhecer as
cantigas originais.
Estas reacções do público parecem demonstrar que é possível fazer arte
consensual, ou mesmo arte de qualidade para uma imensa maioria. Dar-se-ia assim
razão a Filipe La Feria, que terá dito na noite dos Globos de Ouro que «o
segredo das casas cheias é o talento».
Mas é precipitada a conclusão sobre a consensualidade — e, claro, está
infelizmente errada a afirmação laferiana. Se voltarmos às reacções daquele
público, vemos que o que agradou aos mais exigentes (ou menos engajados no
género) foi apenas a magnificência dos arranjos, a sua qualidade de coisa nova
e boa em si mesma, e o que agradou aos fãs das canções originais foi uma certa
resiliência da coisa pimba, o conforto da sua permanência no novo objecto
artístico. Não há exactamente nisto um consenso estético.
Posição diferente, e mais perspicaz (ou honesta), da de La Feria tem um
espectador do Theatro Circo, que, indignado, se queixava há dias na página de
Facebook daquela sala que «tudo o que fuja 1 milímetro ao mainstream (quase) não tem público».
A recepção das artes, para a maioria das pessoas, tem muito menos a ver
com méritos artísticos de criadores e intérpretes do que com factores externos,
como a psicologia de massas. É muito menos uma questão artística do que
sociológica, cultural (no sentido de educação, tradições, costumes, hábitos,
rituais, valores, ideologia, preconceitos, imaginário, etc.). O espectador
português não vai em massa aos espectáculos por interesses estéticos. Ou, dito
de outro modo, a estética das multidões não é artística, mas, digamos, étnica,
identitária, gregária. O espectador que integra grandes plateias vai aos
espectáculos em busca de entretenimento, e vai também para se inscrever no
grupo, se incluir no ritual, se saber parte da encenação social da comunidade,
poder dizer também fui, também estive, também vi, também sou, faço parte. É o mesmo impulso emulador que
leva o turismo de massas ao Algarve, ao Brasil ou ao resort na República Dominicana. Não é necessariamente a qualidade
das praias que o leva ali, mas o conforto e a excitação de ir onde todos vão, de
pisar onde os outros pisaram, de não ficar para trás, de não ser excluído, de
não ser aquele que não foi, não esteve, não viu, não fez parte, aquele que não é. Um local ou um espectáculo são
declarados objectos «de excelência» para um colectivo pelo mesmo mecanismo
gregário que junta as pessoas em volta da Selecção Nacional em dia de vitória
(antigamente era também na nave da igreja em dia de terramoto), ou que as põe a
vestir em cada estação roupa igual sem lhe chamar farda ou uniforme.
Malgré La Feria, o talento
artístico, portanto, tem pouco a ver com a presença massiva do público nos espectáculos
— assim como a ausência do público não é geralmente uma posição estética ou crítica em relação a um espectáculo. No tempo de Shakespeare, ou na
Lisboa de Garrett, o público ia em números significativos ao teatro, mas isso
não significa que gostasse ou percebesse mais de teatro do que o público de
hoje. Significa sobretudo que isso era o que a comunidade fazia com
naturalidade naquela altura. Ia-se ao
teatro, era o rito social. (E já então as pateadas e as aclamações conseguiam
frequentemente não corresponder ao mérito das peças.)
Estas considerações não levam à conclusão de que o público é inepto,
mas à de que, aglomerado em multidões, o seu critério se dilui, se transfere da
apreciação estética para a aprovação social — e à de que é susceptível de
manipulação, mais ou menos consciente ou maquiavélica. Talvez ainda haja
encenadores ou produtores que contratam claques para aplaudir as suas peças ou
patear as dos adversários, mas o campeonato já não se joga aí. As rivalidades
entre criativos são, aliás, deste ponto de vista, ridículas: os criativos (se usarmos
o termo também para adjectivar a classe) estão infelizmente todos do mesmo lado:
o lado dos sem público (para
dramatizarmos um pouco a coisa). Clássicos ou contemporâneos, apologistas do
texto ou da performance física, indefectíveis do sentido ou niilistas
absolutos, conservadores ou ferozes experimentalistas — não depende dos
criativos ter espectadores às centenas ou moscas nas suas salas (continua a
dramatização). A afluência em massa de espectadores não se fará pelo
brilhantismo do que se apresenta no palco mas pela particularidade de o local,
o espectáculo, ou algum seu protagonista terem sido eleitos instrumentos de inscrição
social. As pessoas aparecerão numerosamente se sentirem que vão ali,
divertir-se, é certo, mas sobretudo receber a bênção da inclusão, ser ungidas
de visibilidade e aceitação, aparecerão se ali lhes for dada existência, uma existência de corpo
celeste que orbita e depende da sua estrela. Este género de espectador, o género
que pode constituir plateias numerosas, aparece num espectáculo um pouco como
um concorrente no Big Brother: à espera de ser premiado por existir ou estar. Percebe-se que um e outro mantenham uma boa relação.
Um espectáculo que tenha uma figura do tal mainstream, famosa (famosa por exemplo pela sua proverbial falta de
dons) corre muito mais o risco de esgotar do que um que tenha várias pessoas apenas talentosas. Mas isto continua a
não ser suficiente para classificar o público de inepto, porque em rigor ele
não está neste contexto a exercer função de público, não de público de artes. A
sua atenção não está virada para o objecto artístico, mas para o comércio
social. O público aparecerá para testemunhar o fenómeno, coleccionar a memória
da experiência, sentir que não ficou de fora do rito — não para fruir uma
melodia, um texto, uma interpretação.
Não sendo necessariamente inepto, o público que apenas funciona em
massa também não é, todavia, curioso. E também isso explica a sua ausência de
tantos espectáculos, como referia o espectador lá em cima. Este público não dá
o benefício da dúvida a um espectáculo que ainda não tenha sido visto e
aprovado por centenas ou não tenha em si os elementos que garantem essa
aprovação, os elementos da previsibilidade (ou seja, um cúmulo de repetições e
clichés). Este público não vai por sua iniciativa espreitar um jornal, um site, um cartaz ou um palco onde o que
esteja em causa seja um espectáculo novo e não um espectáculo aclamado. O que
naturalmente traz um problema para autores ou espectáculos ainda não sancionados
por uma multidão, mesmo que excelentes.
Não estando disposto «a pagar para ver», a arriscar num espectáculo ou
artista desconhecido, não procurando realmente experiências estéticas mas
catarse social, e sendo incapaz de gerir o seu próprio cânone sem o submeter à
validação geral, este público tende a confundir critérios estéticos com atributos
não artísticos. O «renome» de um artista (cuja origem o público não investiga e
cujo prazo de validade não verifica) substitui os seus dotes vocais ou
coreográficos, a sua inspiração a cada novo trabalho; o género praticado por um par de vedetas é, por sinédoque, uma coisa
boa, mesmo que os demais praticantes sejam medíocres; a «visibilidade»
mediática é alvará superior ao diploma do conservatório, à opinião da crítica
especializada ou ao arbítrio individual, pessoal; uma grande quantidade de
visualizações ou testemunhos «promete» que a experiência será positiva e
suspende desde logo o juízo próprio, garante por isso a posterior ratificação.
O segredo das casas cheias não é, portanto, o talento, mas o ter-se bafejado
o objecto com o hálito saturado das multidões ou com o seu sucedâneo
laboriosamente preparado pelos alquimistas de serviço.
E os alquimistas de serviço não são os criativos. Quem hoje manipula o
público, para retomar a prática oitocentista referida atrás, não são os
directores ou os donos das companhias. A «inscrição social» que alguma arte
pode proporcionar e que a faz ser procurada por multidões, na sua freudiana
necessidade de unção e integração, não está nas mãos dos criadores artísticos, mas
nas dos media, sobretudo nas da TELEVISÃO. O pimba não sairia do
relativo anonimato das feiras e romarias de província, como o fandango e a
chula, se a televisão e Herman José não se tivessem apaixonado por ele. (Em
contrapartida, também Filipe Melo e Nuno Rafael não teriam tido provavelmente vontade
de aplicar o seu génio a material tão insípido e monótono se ele se tivesse
mantido circunscrito.)
A televisão não é só the drug of
the nation — é para as massas o árbitro da elegância. Ninguém pode esperar
que o público seja massivo no teatro se o teatro está ausente da televisão.
E a influência da televisão é tanto maior quanto as elites, duma
maneira ou doutra, participam dela.
Os GLOBOS DE OURO (como
noutra dimensão os Oscares) são reconhecidamente um miserável Panteão das Artes,
são uma cerimónia de pechisbeque de onde a crítica, o juízo estético e tantas
vezes o mero bom gosto estão ausentes. Contudo, uma boa parte dos que não
reconhecem autoridade à cerimónia passa a noite a acompanhá-la, pela TV, pelo
Facebook, pelo Twitter, por sms, pelas informações de amigos. Esta elite de
excluídos dos Globos (excluídos porque não foram convidados ou auto-excluídos porque
os desprezam) fica de fora a gozar ao detalhe o acontecimento ou a odiá-lo como
a um amor antigo — e participa assim do mecanismo de entrosamento ou coroamento
social que ele constitui, porque a caricatura, o insulto ou o ressabiamento mal
disfarçado entram no metabolismo do monstro, fazem-no crescer.
Os Globos de Ouro servem para ungir os premiados não necessariamente
pelo seu mérito, mas pela conveniência que o acto acarreta. Conveniência para o
canal. Alguns prémios são apenas a confirmação do critério (encontrar o
premiado que valide a ideia, o conceito que se quer valorizar). Outros, frequentemente,
são atribuições que, numa inversão de funções, procuram garantir notoriedade ao
próprio programa e ao canal, procuram inscrevê-los socialmente. O árbitro quer
definir o que é elegante — e quer que os elegantes lembrem a todos quem é o
arbitro.
É esta espécie de tautologia que está na origem do afunilamento pimba
das televisões. (Repare-se que pimba já não é apenas aquele género musical
brejeiro e uniforme, é uma forma de estar, um amarfanhamento social que faz,
por exemplo, com que se torne difícil distinguir, pelo lado do público, um
concerto de Tony Carreira de um de Abrunhosa.) A existência de audiências
fragmentadas por gostos, interesses ou divergências estéticas seria perigosa e
dispendiosa para os canais televisivos. Perigosa porque estimularia mais o zapping, dispendiosa porque exigiria
mais conteúdos, mais formatos, mais inventividade, mais inteligência, mais
talento. O pimba não é necessariamente ou apenas uma simpatia natural dos
proprietários e directores de canais — é o fruto do seu esforço para impor pelo
facilitismo a marca e lucrar mais com menos investimento. O gosto único é,
talvez, do ponto de vista das televisões, menos uma ambição ideológica do que
um instrumento de economia. Em todo o caso, faz sempre parte de uma estratégia
de poder.
E falar de poder remete-nos para o ESTADO.
Que papel o Estado há-de reservar para si nesta relação difícil entre público e
artes?
Antes de mais, o Estado deveria definir se lhe interessa ter um papel. Atendendo a que já não há mecenas (os
mecenas, como se sabe, eram o Estado na Antiguidade Clássica e na Renascença, já que de uma forma ou de outra viviam
dos rendimentos que obtinham do povo), atendendo a estas circunstâncias, eu
diria que sim, que ao Estado interessa ter um papel, mas eu sou um antiquado,
um conservador. Tomemos o estado de direito, por exemplo. O estado de direito é
uma coisa dispendiosa, não dá lucro, mas é talvez a maior conquista
civilizacional da humanidade. Nenhum governo, por mais bruto que seja, se
atreveu (para já) a considerar o estado de direito obsoleto ou a achar que o
ministério público e os tribunais deveriam ser privatizados, financiados pelos
que os demandam, sem qualquer participação do Estado. Ora, as artes e o direito
caminharam, historicamente, ombro com ombro. Dialogam intimamente, do ponto de
vista filosófico. A capacidade de abstracção, o sentido crítico, o debate, a
independência de raciocínio e de opinião, a criatividade, a imaginação, tudo
isto que nos trouxe ao século XXI são características que a humanidade apurou
com o tempo e que de algum modo foram também estimuladas, potenciadas,
exercitadas pelas artes. Seria um pouco pretensioso (e perigoso) da nossa parte
achá-las agora dispensáveis.
O Estado, de forma activa ou por interposta legislação, com maior ou
menor convicção, é (tem de ser) o garante último da biodiversidade, da preservação
da memória, dos direitos das minorias e da alternativa democrática. Se não
tivermos outras ideias para as artes, diria que no mínimo devemos encaixá-las
nestes conceitos, tê-las em conta do ponto de vista ecológico (criando «reservas territoriais» onde elas possam
medrar), do ponto de vista social
(garantindo um rendimento de sobrevivência para intérpretes e espectadores,
podendo estes ser providos em géneros pelos primeiros), do ponto de vista histórico-patrimonial (desenvolvendo uma
política de «património vivo» para salas de espectáculos e galerias) e do ponto
de vista político-filosófico
(assegurando a possibilidade de propostas alternativas e o direito democrático à
livre escolha, à escolha livre de proselitismos televisivos).
Ironias à parte, que tipo de reflexão deve o Estado fazer sobre as artes
e o público? Perante a constatação de que não vão multidões ao teatro, uma
reflexão sobre artes não deveria concluir que o teatro deve ter menos apoios (nem
aumentar o IVA dos bilhetes). Do mesmo modo que aos governos preocupa a
abstenção (pelo menos envergonham-se de confessar que não preocupa), devia
preocupá-los a ausência de público no teatro. A qualidade de uma democracia sai talvez prejudicada se as pessoas não votarem, mas a qualidade do voto sai prejudicada
se as pessoas não tiverem uma relação íntima com as artes e o pensamento informado
e crítico que elas estimulam. Uma reflexão sobre artes, portanto, debruça-se
sobre como levar mais público ao
teatro.
Um governo não é um canal de televisão. Não pode ter como objectivo uniformizar
a sociedade para melhor a governar e para governar mais barato. Governar mais
barato pode ser uma triste necessidade, não uma aspiração. Daí que a um governo
que queira ser realmente útil não possa deixar de se colocar duas questões:
como levar mais público às artes (ou seja, ao pensamento crítico) e como (que é
quase o mesmo) contrariar o proselitismo pimba das televisões.
A resposta à segunda questão passaria por açaimar ligeiramente,
legislativamente, as TVs, mas isso é certamente pouco democrático e pouco
liberal.
A resposta à primeira questão, que a prazo também responderia à
segunda, reside em grande parte no ensino, essa instituição que o Estado (para
já) ainda controla.
Com a entrada do ministro Crato, um intelectual que quase toda a gente
estimava, o ENSINO ficou ainda mais
de costas voltadas para as artes. (Foi assim com este governo, transformou
desde o início pessoas interessantes em factótuns da política bulldozer.) Mas em rigor não é o actual
ministro que deve ser culpado por o ensino não educar as crianças para as
artes, para a estética, para a literatura, para o pensamento crítico. O mal é
antigo. Na ausência de uma boa política institucional, as escolas foram
deixadas à livre iniciativa (o que só por si não é um mal e em muitos casos
teve resultados positivos) e essa ausência de enquadramento conduziu geralmente
ao voluntarismo. A ênfase passou em poucas décadas de levar acriticamente os
miúdos ao teatro, por exemplo, de os deixar enfiados e contrariados durante uma
hora numa plateia a ver o que quer que fosse, para a originalidade de os levar
directamente para o palco, ainda mais acriticamente e com frequência sem
qualquer relação com a sua vocação. Há hoje no país centenas ou milhares de
crianças que estiveram mais vezes num palco (calorosamente ovacionadas, e por
isso induzidas em erro, pela família e os amigos) do que numa plateia, e em
tantas das ocasiões em que estiveram na plateia estiveram a ver e a aplaudir sem
critério crianças como elas. O equívoco tem as suas raízes antigas no
pensamento muito esquerdista e igualitarista de que todos temos talento, todos
temos criatividade, todos temos um poeta ou um bailarino dentro de nós. Depois
foi continuado pela bigbrotheriana ideologia, ainda mais «democrática», de que
todos temos direito à fama, mesmo que não façamos absolutamente nada para a
merecer. A televisão, claro, contribui fortemente para isto, com as suas chuvas
de estrelas, os seus inesgotáveis programas de talentos, e, não raro, os seus shows para macaquinhos de imitação.
Como resultado desta soma de equívocos — nem todos conscientes ou
mal-intencionados, conceda-se — temos hoje grandes fragmentos geracionais que
não sabem distinguir o mérito, o talento, a criatividade, a originalidade. Que
não conhecem a história das artes nem têm com elas qualquer relação intelectual
ou de afecto. Que «detestam» figadalmente o que não conhecem (e é quase tudo) e
idolatram qualquer frivolidade que se pareça longinquamente com o «talento» e o
gosto promovido pelas TVs.
Há muitas excepções a este cenário miserável, mas o ensino não devia
viver apenas de iniciativas individuais (e difíceis, desprezadas) de
professores esclarecidos e esforçados.
As artes no ensino não são importantes porque, na tal perspectiva
laferiana, podem assegurar «casas cheias» no futuro (as estatísticas são outro
equívoco), não é esse o ponto. A formação artística que o ensino pode e deve
proporcionar não deve estar necessariamente focada em criar «públicos» (isso
será um resultado natural) nem em criar artistas (a vocação não se incute). Prioritárias
a isso tudo são a sensibilidade, o espírito crítico, a capacidade de
abstracção, a autonomia de pensamento e o conhecimento, para os quais as artes
são um veículo útil.
As artes não se fruem sem uma boa parte de individualidade, de
concentração, de existência intelectual própria e capaz de se alhear dentro de
si mesma pelo período de um andamento musical, de um monólogo, de uma sequência
coreográfica, de um capítulo de um livro. Infelizmente as escolas não favorecem
isto (que por natureza não é fácil) e o resultado é termos já hoje uma ou duas
gerações que não se imaginam fechadas numa sala por uma hora sem poder
conversar e gritar, sem trocar sms, sem fumar um cigarro ou beber um copo. As
salas de cinema renderam-se a esta forma de estar e a própria Hollywood produz
há muito filmes que não exigem atenção permanente ou perspicácia. Nos teatros,
os espectáculos de massas são geralmente as comédias, os musicais ou os
concertos, produções, que, se não dão para o cigarrito e a mini, sempre permitem
a interacção na plateia e com o telemóvel durante
as representações.
Post scriptum: O grande Filipe Melo diz-me que o mérito de ‘Deixem o pimba em paz’* é
de Bruno Nogueira, que teve a ideia e orientou os músicos na reinvenção do
repertório. E já que estamos numa de distribuir créditos, há que referir
também Nelson Cascais, multifacetado contrabaixista, e Manuela Azevedo, capaz
de ressuscitar músicas que na verdade nunca estiveram vivas e de nos emocionar
com a mais insípida ou parva das letras pimba.
As artes e o público (II)
[Teaser para um ensaio in progress]
(...)
Os GLOBOS DE OURO (como noutra dimensão os Oscares) são reconhecidamente um miserável Panteão das Artes, são uma cerimónia de pechisbeque de onde a crítica, o juízo estético e tantas vezes o mero bom gosto estão ausentes. Contudo, uma boa parte dos que não reconhecem autoridade à cerimónia passa a noite a acompanhá-la, pela TV, pelo Facebook, pelo Twitter, por sms, pelas informações de amigos. Esta elite de excluídos dos Globos (excluídos porque não foram convidados ou auto-excluídos porque supostamente os desprezam) fica de fora a gozar ao detalhe o acontecimento ou a odiá-lo como a um amor antigo — e participa assim do mecanismo de entrosamento ou coroamento social que ele constitui, porque a caricatura, o insulto ou o ressabiamento mal disfarçado entram no metabolismo do monstro, fazem-no crescer.
(...)
(...)
Os GLOBOS DE OURO (como noutra dimensão os Oscares) são reconhecidamente um miserável Panteão das Artes, são uma cerimónia de pechisbeque de onde a crítica, o juízo estético e tantas vezes o mero bom gosto estão ausentes. Contudo, uma boa parte dos que não reconhecem autoridade à cerimónia passa a noite a acompanhá-la, pela TV, pelo Facebook, pelo Twitter, por sms, pelas informações de amigos. Esta elite de excluídos dos Globos (excluídos porque não foram convidados ou auto-excluídos porque supostamente os desprezam) fica de fora a gozar ao detalhe o acontecimento ou a odiá-lo como a um amor antigo — e participa assim do mecanismo de entrosamento ou coroamento social que ele constitui, porque a caricatura, o insulto ou o ressabiamento mal disfarçado entram no metabolismo do monstro, fazem-no crescer.
(...)
sábado, 31 de maio de 2014
Está um tipo a tentar trabalhar e é-lhe infligido um concerto de fim-de-tarde pela janela dentro. Felizmente, não há o apelo de ir ver (a não ser aquele apelo primitivo do horror, que nos impele a espreitar acidentes).
Mas como se trata de um repertório anos 80 (ainda que pouco sofisticado, rock M80, top of the tops, Woodstock de galera de tractor para província ver) lá surge uma ou outra memória teimosa e despropositada a envergonhar-nos. Antes fosse pimba, que autoriza uma raiva sem concessões.
Mas como se trata de um repertório anos 80 (ainda que pouco sofisticado, rock M80, top of the tops, Woodstock de galera de tractor para província ver) lá surge uma ou outra memória teimosa e despropositada a envergonhar-nos. Antes fosse pimba, que autoriza uma raiva sem concessões.
As artes e o público
[Teaser para um ensaio in progress]
À saída do espectáculo DEIXEM O PIMBA EM PAZ (uma reinvenção brilhante de Filipe Melo e Nuno Rafael a partir do hegemónico repertório pimba) alguém registou duas reacções dos espectadores:
1) a dos que gostaram porque os novos arranjos eram música genial;
2) e a dos que gostaram porque dava para reconhecer as cantigas originais.
Esta reacção do público parece demonstrar que é possível fazer arte consensual, ou mesmo arte de qualidade para uma imensa maioria. Dar-se-ia assim razão a Filipe La Feria, que terá dito na noite dos Globos de Ouro que «o segredo das casas cheias é o talento».
(...)
À saída do espectáculo DEIXEM O PIMBA EM PAZ (uma reinvenção brilhante de Filipe Melo e Nuno Rafael a partir do hegemónico repertório pimba) alguém registou duas reacções dos espectadores:
1) a dos que gostaram porque os novos arranjos eram música genial;
2) e a dos que gostaram porque dava para reconhecer as cantigas originais.
Esta reacção do público parece demonstrar que é possível fazer arte consensual, ou mesmo arte de qualidade para uma imensa maioria. Dar-se-ia assim razão a Filipe La Feria, que terá dito na noite dos Globos de Ouro que «o segredo das casas cheias é o talento».
(...)
Chicote
O inefável jornal do Blasfémias,
que José Manuel Fernandes finge não dirigir, apresentou esta noite uma citação
que resultaria irónica se não fosse cínica: «A função do jornal é confortar os
atacados e atacar os confortáveis.*»
Depois de passar três anos a atacar os portugueses por terem «vivido
acima das suas posses», depois de defender mais e mais cortes salariais (ainda
hoje, aliás), depois de três anos sempre do lado dos bancos e das empresas que pagam
impostos no estrangeiro, aquela gentinha resolveu vestir agora os collants de Robin Wood — não se percebe
se para que ríssemos, se para açular o sádico que há em nós.
* Finley Peter Dunne
* Finley Peter Dunne
segunda-feira, 26 de maio de 2014
domingo, 25 de maio de 2014
Deus, diz-me onde construo a Arca.
Um agressor e assassino de mulheres é mascote de
foto-piadolas na internet e é aplaudido na sua entrada em tribunal. Duas faces
do mesmo país boçal. É perante quadros destes que acho a crise leve, enquanto
nação merecemos mais, uma purga a sério, uma das pragas da Bíblia, pelo menos.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Cu
Da minha geração e anteriores, muita gente escreve cu com assento. Embora pareça, cu com assento não é um imerecido privilégio pré-troikiano, é um erro ortográfico. Erro que juraria vir do facto de no nosso tempo a palavra ser lida apenas em publicações malformadas. Malformadas mas muito consultadas e manuseadas.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
TV, the drug of the nation
Anunciaram-lhe o decesso por conveniência táctica (e isso mostra que, sendo mal intencionados, não são parvos), mas a televisão de sinal aberto continua a ser o principal meio de formatar o gosto e a opinião do país. Qual internet, qual cabo.
O proselitismo existe, é pimba, hiperactivo e, com bênção governamental, exclusivo.
O proselitismo existe, é pimba, hiperactivo e, com bênção governamental, exclusivo.
Feeling good
Fiz uma boa acção. Duas. Acrescentei finalmente à minha lista* de blogues o excelente Catastrophe e eliminei os cretinos do Blasfémias (onde tinha eu a cabeça quando meti aquela merda na lista? já não tenho idade para me irritar). Vou dormir um pouco mais feliz.
*Um dia organizo isto por ordem alfabética ou de preferência.
*Um dia organizo isto por ordem alfabética ou de preferência.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Má-língua
Os que se preocuparam com os ajustes directos de Fernando Tordo já foram ver o caderno de encargos de Kátia Guerreiro?
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Tupperwares
Enquanto o país se distrai com o Benfica, eu ocupo-me de problemas sérios. Tenho recebido apoio alimentar de diversas proveniências e, chegada a hora de devolver os tupperwares, não sei quais pertencem a quem… As cores não ajudam. Tirando os reciclados de sobremesas, é tudo amarelo ou laranja. Vou ter de tomar medidas: de hoje em diante, só aceito solidariedade a fundo perdido ou em tupperwares etiquetados.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Pensando bem
Pensando bem, o meu problema nunca foi a permanente hesitação entre
Bowie e Morrissey (para falar de uma delas). O meu problema foi optar sempre
por Araújo, esse inconseguimento.
Comovente
Morrissey em concerto apertando sucessivamente as mesmas mãos (a boca
de cena não é assim tão larga) mas dizendo «they’re so many». A espaços, sobem
fãs ao palco, e comovente é ver os enormes seguranças caírem sobre elas como
armários num terramoto e numa súbita contenção pegarem-lhes com pinças, levando-as
dali com delicadeza, lembrando-se talvez que não se maltrata mulheres.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Tirania e despotismo
De que serve ter-se arquitectado dois posts e um trabalho académico se ao pôr-se o sol na varanda a
sensação é a de que se perdeu um dia de vida? Pelo menos um dia de Primavera,
desses raros ensolarados e amenos. Não, a literatura só é útil quando podemos
dela desfrutar encostados a uma árvore ou rocha, respirando o ar puro dos
montes nordestinos ou da falsa planície alentejana, ouvindo o murmúrio de um
ribeiro ou o incessante restolhar de uma cascata, a conversa cíclica da
beira-mar. É-se escritor de Inverno, por necessidade, ausência de sol e
alternativas. Mas o que se deseja é o Verão interminável e a possibilidade de se
ser apenas leitor. Tirania é ter de trabalhar seja de que forma for quando
chega Maio. E despotismo é que depois de Setembro nos imponham Outubro e os
meses tenebrosos.
O retrato do escritor
Já escrevi sobre isto algumas vezes: é um erro que manuais escolares, jornais,
revistas literárias, contracapas e badanas ou separadores televisivos (estes já
só em dias de centenário) passem o tempo a mostrar imagens dos escritores clássicos
enquanto velhos. A escrita literária não dispensa, geralmente, maturidade e
sapiência, mas não é uma actividade reservada a anciãos, como a iconografia
editorial sugere. Pedagogicamente, esta tradição ou inércia tem sido catastrófica.
A juventude está por vezes disponível para a literatura, mas é sempre avessa a
projectar-se a si própria na terceira idade. E o que a imagética institucional tem
feito é dar à juventude a desculpa de que ela precisa para remeter os clássicos
para a cave bafienta da paleontologia (sem que Hollywood tenha feito com os escribas
jurássicos o mesmo marketing que fez
com os dinossauros).
Somado o fosso geracional ao fosso histórico — tão fundamente cavados
pela passagem do tempo, a invenção da cor, a evolução do trajar e do pentear, e
pelas escolhas preguiçosas dos responsáveis gráficos —, é uma verdadeira
surpresa que hoje alguém com menos de trinta anos se interesse por literatura
com mais de vinte anos (quando já tão dificilmente se interessa por literatura tout court).
É certo que em alguns dos casos mais antigos não há retratos disponíveis
do escritor enquanto jovem. Sobram uma estatuária amputada, umas gravuras que parecem
de santinhos da igreja, de duvidosa correspondência ao modelo biológico. Mas, havendo
pudor de fazer passar esta iconografia por um processo inverso ao da Maddie (um
rejuvenescimento especulativo computadorizado),
restavam duas soluções: assegurar-se que de autores mais recentes se publicavam
sobretudo as fotos menos envelhecidas, para contrabalançar, ou optar-se por
biografias em vez de imagens, biografias que insistissem particularmente no
facto de os autores terem sido jovens e humanos como todas as outras pessoas.
Porque a verdade é que a maioria dos escritores e pensadores não teve
de esperar pelos sessenta ou setenta anos para escrever as suas melhores obras —
e é isso que a juventude em formação precisaria imediatamente de saber, se não
por imagens, por palavras. Que, tirando José Rodrigues dos Santos, a literatura
é coisa de gente interessante ou normal, viva ela em que século viva.
Para ser verdadeiramente pedagógico, um livro ou manual escolar deveria
apresentar a imagem do escritor à época que escreveu o texto. Junto com o
cadastro policial e político, testes de alcoolémia, testemunhos de rivais,
resultados de análises às DST e cartas de ex-amantes ressentidos/as.quinta-feira, 1 de maio de 2014
Freud, Pavlov e Green Peace na fila do supermercado
Baixote mas entroncado, vermelhusco, segurando o telemóvel com aparente
mau jeito, espera na fila enquanto fala com o que se suspeita ser uma esposa provisoriamente
desavinda, talvez uma ex-mulher com esperanças ou contas a ajustar. Longos
silêncios significam que escuta. Ou finge escutar, já que quando fala retoma
exactamente ao ponto anterior da conversa, como se do lado de lá não tivessem
dito nada, acrescentado nenhum argumento ou informação nova. A espaços, bufa e
solta pequenas interjeições, faz comentários para o lado, como se os clientes
do supermercado fossem a sua plateia e ele tivesse apartes a cumprir no texto
que o autor escreveu para si na peça. Pede a nossa simpatia para a maçada que
enfrenta pacientemente, a nossa cumplicidade com a sua condescendência, o nosso
sorriso para as suas piadolas paternalistas, o nosso aplauso para os súbitos rasgos
de autoridade, à homem. Machistas.
Quando chega a vez dele na caixa, rejeita o saco plástico e desdobra o
seu próprio saco reutilizável, gesto inesperado para figura tão claramente desinteressada
do conceito de sustentabilidade ambiental. O que devia desiludir quem acredita
na adesão consciente, não-pavloviana, do povo a campanhas de sensibilização. Ou
dar um pequeno gosto de vingança à ex-cônjuge do indivíduo em estudo:
certamente foi ela quem lhe incutiu o hábito económico ou ecológico que ele
ternamente perpetua.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Metáforas estafadas
Chegam ruidosos, em modo botellón,
com bebidas enfiadas em sacos e empurrões amistosos de gorilas na tundra. Argumentam,
discordam, objectam, como costumam fazer nas pausas de ulular hinos
futebolísticos ou apor letras obscenas a repertório tunante. Mas, surpresa!, a
discussão é sobre figuras de estilo. Não sobre figuras estilosas do futebol ou
da música. O tom e o vernáculo são os mesmos, mas o assunto é gramática. Defendem,
uns, e contestam, outros, a ocorrência do advérbio metaforicamente.
— Metáforas existem, é óbvio, mas metaforicamente
não se diz.
— Diz, claro que diz. Então se se diz anaforicamente, que vem de outra figura de estilo, porque não se
havia de dizer metaforicamente?
Eu, que sempre demoro uns segundos a distinguir anáforas de ânforas, espanto-me e alimento
a esperança de estar perante uma tertúlia literária. (Elas dão-se onde menos se
espera, anelo.) Mas depois os tertulianos iniciam uma guerra convencional disparando
cubos de gelo em todas as direcções, incluindo na dos carros estacionados, e um
proprietário vem prevenir possíveis danos no seu Mitsubishi exibindo um martelo
na mão («porque eram muitos», dirá mais tarde) e verifico com fadiga que não foi
esta noite que o mundo saiu do seu eixo.quinta-feira, 24 de abril de 2014
Os heróis e os cabos de João Miguel Tavares
A direita tem com o 25 de Abril uma relação difícil: ou o odeia ou o desvaloriza. Por vezes surge uma inesperada e comovente apropriação, como a do secretário de estado Pedro Lomba. No Público de terça-feira, João Miguel Tavares, outro jovem turco da direita, foi mais fiel à ortodoxia da tribo, mas nem por isso foi menos enternecedor. Munindo-se das ferramentas da condescendência e do lugar-comum, temperadas com uma pitada humorada de literatura, Tavares informou-nos que o 25 de Abril, ao invés de uma Revolução, foi um caso de não-acção típico dos portugueses. Para esta sua tese, elegeu como episódio central e representativo do movimento das forças armadas o do cabo-apontador Alves Costa — que se fechou no tanque para não ser obrigado a disparar, tal como conta o livro Os Rapazes dos Tanques. João Miguel reproduz o episódio, relaciona-o com a idiossincrasia lusa e culmina aquela secção do artigo com um lapidar «E assim se fez Abril».
Percebo que a vivacidade de algumas fotos do 25 de Abril seja perturbadora, e que certas pessoas, arrebatadas pela tensão das imagens, se sintam tentadas a refugiar-se num tanque. Mas isso não deveria servir para ignorar que naquele mesmo dia houve quem se posicionasse em frente ao canhão, de peito aberto. Quem, ao contrário de João Miguel Tavares hoje, não sabia que os tanques não iam disparar.
O cabo-apontador da história que encantou Tavares pode ser representativo de uma certa portugalidade. Portugal inteiro pode hoje ser fielmente representado pela personagem de Herman Melville, aquele Bartleby paradigma da passividade, divertidamente invocado por João Miguel. Não discuto isso. Mas só uma hermenêutica muito irreverente ousaria considerar que «Preferiria não o fazer», o mantra de Bartleby, é o slogan adequado ao 25 de Abril.
Por mais que custe ou não convenha à narrativa actual, a Revolução foi feita pelos tipos que se dispuseram a sair de Santarém e a enfrentar um regime, amolecido, é certo, mas que continuava a prender, a punir e a torturar. Um regime que tinha do seu lado gente que não hesitaria, como não hesitou, em disparar ou mandar disparar.
Enfatizar o papel do cabo-apontador Alves Costa em detrimento do de Salgueiro Maia é escolher a caricatura da pequena história em vez da dignidade do retrato, igualmente disponível.
O cabo-apontador, no artigo de João Miguel Tavares, teve o mérito de impedir «que a revolução se tornasse num banho de sangue», mas a coragem dos capitães que se dispuseram a fornecer sangue para esse «banho» parece ser menos relevante para a narrativa.
«Se há coisa em que os norte-americanos são realmente bons», diz Tavares, «é a criar heróis e memoriais». E conclui: «(…) nós não temos essa cultura em Portugal.» Pois não. E João Miguel empenhou-se em provar que não a temos — preterindo heróis inconvenientes a cabos de anedota.
Concluo com uma interpretação talvez também ousada (preferiria não o fazer, mas detestaria mais passar por bartlebyano): desvalorizar a coragem dos outros à distância de décadas e no conforto de uma boutade de jornal é, parece-me, uma cobardia.
Percebo que a vivacidade de algumas fotos do 25 de Abril seja perturbadora, e que certas pessoas, arrebatadas pela tensão das imagens, se sintam tentadas a refugiar-se num tanque. Mas isso não deveria servir para ignorar que naquele mesmo dia houve quem se posicionasse em frente ao canhão, de peito aberto. Quem, ao contrário de João Miguel Tavares hoje, não sabia que os tanques não iam disparar.
O cabo-apontador da história que encantou Tavares pode ser representativo de uma certa portugalidade. Portugal inteiro pode hoje ser fielmente representado pela personagem de Herman Melville, aquele Bartleby paradigma da passividade, divertidamente invocado por João Miguel. Não discuto isso. Mas só uma hermenêutica muito irreverente ousaria considerar que «Preferiria não o fazer», o mantra de Bartleby, é o slogan adequado ao 25 de Abril.
Por mais que custe ou não convenha à narrativa actual, a Revolução foi feita pelos tipos que se dispuseram a sair de Santarém e a enfrentar um regime, amolecido, é certo, mas que continuava a prender, a punir e a torturar. Um regime que tinha do seu lado gente que não hesitaria, como não hesitou, em disparar ou mandar disparar.
Enfatizar o papel do cabo-apontador Alves Costa em detrimento do de Salgueiro Maia é escolher a caricatura da pequena história em vez da dignidade do retrato, igualmente disponível.
O cabo-apontador, no artigo de João Miguel Tavares, teve o mérito de impedir «que a revolução se tornasse num banho de sangue», mas a coragem dos capitães que se dispuseram a fornecer sangue para esse «banho» parece ser menos relevante para a narrativa.
«Se há coisa em que os norte-americanos são realmente bons», diz Tavares, «é a criar heróis e memoriais». E conclui: «(…) nós não temos essa cultura em Portugal.» Pois não. E João Miguel empenhou-se em provar que não a temos — preterindo heróis inconvenientes a cabos de anedota.
Concluo com uma interpretação talvez também ousada (preferiria não o fazer, mas detestaria mais passar por bartlebyano): desvalorizar a coragem dos outros à distância de décadas e no conforto de uma boutade de jornal é, parece-me, uma cobardia.
Não praticantes
«O conservadorismo, segundo João Pereira Coutinho, busca evitar os males do radicalismo revolucionário ou do revanchismo reaccionário.»Nos dias de hoje em Portugal, e no que toca à segunda parte da doutrina, os conservadores são como a maioria dos católicos: não praticantes.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
O meu prédio é uma metáfora nacional
O meu prédio é uma metáfora nacional. Durante anos apenas nos mijavam diária e copiosamente a entrada principal. Os excessos da boémia académica são o tributo que a terra aceita pagar pelos benefícios de ser uma cidade universitária. Pode dizer-se que Vila Real contribuiu activamente para hoje termos a geração mais indiscutivelmente bem formada da história lusa.
Como o progresso é imparável, no último ano temos também diariamente mijada a porta das traseiras. Já não pelos frequentadores das tascas do bairro, mas por adolescentes do prédio que se acoitam à noite, com as suas playstations, primeiros cigarros e cervejas clandestinos, numa das garagens familiares convertida em sala de jogos.
Lamentavelmente, dentre as benfeitorias levadas a cabo na garagem não parece constar nenhum WC, penico ou algália. Os papás proprietários da garagem não devem ter sentido necessidade disso porque confiam demasiado na elasticidade das bexigas juvenis, ou, mais certamente, porque não utilizam a nossa porta das traseiras, a mais discreta da fachada.
Em consequência da boçalidade adulta e da imbecilidade infanto-juvenil, do desleixo duns e da má-educação doutros, no meu prédio entra-se hoje sempre de mão no nariz e a descolar os sapatos depois de cada passo dado. O exercício é particularmente divertido e peganhento nos dias em que, como agora, há pó verde de pinheiros também nas entradas dos edifícios.
To send you my love
No Verão passado frequentei com certa assiduidade, para livros e vinho,
a esplanada ocidental da Club House de Vidago. Tanto porque sou patologicamente
avesso à humanidade (embora às vezes disfarce) e o sítio é pouco concorrido,
como porque tenho romântica nostalgia de um passado aristocrata que não posso
reivindicar e por tantas razões abomino.
Para lá das minhas bizarrias (e das minhas frases barrocas), locais
como o Parque de Vidago agradam-me também porque providenciam um contacto
delicado com a Natureza.
Por todas estas razões, aceito partilhar com poucas pessoas os momentos
que ali passo, e a memória de cada tarde é preciosa.
Se hoje evoco este cenário é porque, por razões particulares, recordei uma
tarde em que ali passeei com a mais nova das minhas irmãs. Não era a primeira
vez que íamos juntos esquecer o mundo e a vida, mas naquela tarde de 2013 deambulámos
descalços pelo relvado suave e levemente húmido dos buracos 17 ou 18. Talvez o
momento panteísta apenas tenha sido intenso para mim, mas eu gostaria que
aqueles minutos de felicidade tivessem tomado também o espírito da minha irmã
deixando marcas duradouras. Que o meu amor e o meu orgulho nela, já que não
saem por palavras, tivessem descido aos meus pés e ao solo como a corrente eléctrica
das trovoadas e subido depois pelos dela ao seu coração. Se isso não aconteceu
então, que esses sentimentos façam agora o caminho dos meus dedos para a
ligação ADSL, do meu ecrã para o dela. Que de mim se aproveite alguma energia
para fortalecer (ainda mais) a dela. A tua, irmã.
Pequenos retratos infames (3): Henrique ‘Santa Comba’ Raposo
É ilegítimo e vil usar aspectos físicos das pessoas para atacar as suas ideias ou
posições políticas. Ou para as defender. Na minha pós-adolescência ocorreu acusarem-me
de Júlio Isidro e simultaneamente piropearem-me
de James Dean. (Hoje fariam pior.) Mas
isso aconteceu, tanto para o mal como para o bem, porque na verdade ninguém, eu
incluído, sabia ou se interessava pelo que eu pensava. Apenas estava toda a
gente, de novo eu incluído, fascinada (como no circo) pelos diferentes ângulos
da minha fotogenia: de frente para o James; de lado para o Júlio (nunca
subestimem o poder afrodisíaco de um nariz).
Mas deixemos Narciso no seu lago. Se tivermos nobreza de princípios e
intenções, será deveras impróprio e torpe lembrar o quanto Henrique Raposo, naquela
sua foto de míope, se parece com um oficial das SS ou com um agente da Gestapo.
O exercício é contudo legítimo se reconhecermos ao alvo dos nossos insultos uma
inteligência capaz. Precisamente porque sabemos que Raposo não ignora as
circunstâncias, as conotações e a vanidade de muitos dos seus artigozinhos irreverentes e caprichosos do Expresso, podemos, se formos igualmente
mesquinhos, responder-lhe com um «Heil Hitler para ti também». Ou, pronto, não
exageremos, o caso não é assim tão teutónico. Raposo talvez apenas se pareça
com um mangas-de-alpaca doutrinário, uma espécie de primito lisboeta e envernizado
do homem de Santa Comba, para quem basta um simples e nacional manguito das
caldas. E se o caso for menos grave ainda — Raposo enquanto mero delfim de
César das Neves, invejoso do sucesso daquele no anedotário luso (que não da
avença, imagino que o Expresso pague
mais) —, até podemos
achar o Henrique boa companhia para um copo. Quem não gosta de partilhar a mesa
com um tipo mesmo de direita? Eu
gosto, e o único amigo que tinha capaz de achar que a culpa da crise era dos gajos
do rendimento mínimo vacilou nas convicções quando o Governo lhe foi ao bolso e
o deixou mal equilibrado às portas do desemprego. Sinto por isso falta de
alguém a quem possa pagar com gosto umas rodadas enquanto digo: o que bebes,
nazi do caralho?
terça-feira, 15 de abril de 2014
GPS
Os movimentos parecem indicar tratar-se de mais um yogi, dos que por vezes aparecem no parque, mas a orientação precisa e constante, aquela maneira de encarar um ponto (para mim) indefinido a sudeste, revela outra intenção, outra atitude. Num primeiro impulso, com certa presunção de geógrafo ou de nativo íntimo do curso do Sol em Trás-os-Montes, estou tentando a corrigir-lhe a direcção do olhar, o azimute para onde aponta o rosto. Mas depois reconheço que preciso de consultar outra vez o mapa para localizar Meca, que, na verdade, eu próprio nos últimos tempos ignoro o norte.
Enquanto me debato com a magna questão dos pontos cardeais, dois élderes passam absortos no seu próprio ritual itinerante, ziguezagueante, mostrando como é ubíqua a existência de Deus ou como são múltiplas as maneiras de o Homem se desorientar.
Enquanto me debato com a magna questão dos pontos cardeais, dois élderes passam absortos no seu próprio ritual itinerante, ziguezagueante, mostrando como é ubíqua a existência de Deus ou como são múltiplas as maneiras de o Homem se desorientar.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Revista de imprensa e blogosfera
Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias mas a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.
sábado, 12 de abril de 2014
De olho no céu
Na página Humans of New York leio que, de acordo com um mito nativo americano, cães com olhos de cores diferentes podem ver simultaneamente a terra e o céu (no sentido mítico, ou religioso). E isto para mim explica o génio de David Bowie.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Gel, mães e filhos (2)
Como a mãe do post anterior,
talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por
telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do
bairro —
onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de
sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do
bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o
risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui
deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos
em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado.
Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez
que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce
num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje
nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não
o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por
vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso
revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um
Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha
de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os
dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou
certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou —
mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o
empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento
se tenha usado gel. Ou por causa disso.Gel, mães e filhos (1)
Uma jovem mãe percorre as prateleiras do supermercado com o telemóvel
na orelha. Procura um gel para o cabelo e percebe-se que, com branda resistência,
está a ser dirigida remotamente pelo filho adolescente. Efeito molhado, fixação
normal, forte ou extraforte, marcas, preços... As variáveis são muitas e é
difícil encontrar um equilíbrio entre a exigência do rapaz e a carteira da mãe.
Não parece aborrecida com os caprichos do filho, talvez porque já teve
ou testemunhou experiências piores. Protagonizadas por teenagers maldispostos, rudes, rufiões, que acompanham as mães às
lojas como quem sequestra um desconhecido e o leva sob coacção ao multibanco mais
próximo. Filhos que mandam calar as progenitoras e cospem em público ninguém te perguntou a opinião como
bandidos sem paciência para as objecções patéticas e impertinentes das suas
vítimas. E que, depois de escolherem algo da última moda para gangues (que um
diligente criativo desenhou a pensar na globalização do Bronx), arrastam com
maus modos a mãe para a caixa, deixando já adivinhar que à saída da loja
atirarão com ela e a sua carteira vazia para uma valeta.
A mãe no supermercado fica por momentos esquecida a olhar carinhosamente
a filha, talvez para afastar maus pensamentos. A rapariga, criança, entretém-se
na secção de produtos para o rosto — não ainda a projectar-se na adolescência
que tarda, mas porque as cores e as formas lhe parecem divertidas.quinta-feira, 10 de abril de 2014
Imprudência
Com os cada vez mais evidentes sinais de regresso dos fascismos à
Europa (e ao poder; a originalidade da Hungria não durará), com um clima político
a leste cada vez mais prussiano, a
direita continua, com moral de inquisidor, obcecada em punir os países e as
pessoas que, na opinião dela, viveram acima das suas posses. A direita é muito
estúpida, conivente ou imprudente. E receio ter escrito imprudente apenas por cortesia ou fair play.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Confidencial
Porque as coisas são o que são e porque esta noite me
visitou o espírito carrancudo mas empreendedor do Torga, comunico aos que se
interessam que editarei por mim mesmo, num qualquer dia solarengo, o Hotel do Norte e o Aranda. Não prometo é que esse dia
esteja perto (e com isto não estou a ser um céptico do aquecimento global).
O papel do jornalista tem dias
Nos posts anteriores defendi
o papel do jornalista no caso Rodrigues dos Santos versus Sócrates. Muita gente o tem feito, alguns com particular
ferocidade, incluindo o próprio José Rodrigues dos Santos. Contudo, não vi
muita gente defender o papel do jornalista também nos casos das partenaires inânimes de Marcelo Rebelo
de Sousa e Marques Mendes. Que de resto são comentadores há mais tempo.
É isto que me irrita ou entedia (depende das horas) na vida política
portuguesa, este clubismo sem coluna e hipócrita, incapaz de esconder o longo
rabo que deixa de fora. Onde têm estado os defensores do papel activo do
jornalista nos longos anos que Marcelo leva de missa dominical? Onde estão
quando é Marques Mendes a perorar sem particular contraditório?
Uma intervenção útil em defesa do jornalismo era terem aproveitado este
episódio para reivindicar verdadeiros jornalistas também nos programas de
Marcelo & Mendes — em vez de uma defesa de JRS que não consegue disfarçar um
imbecil ódio a Sócrates e é na verdade uma defesa acéfala do Governo.sexta-feira, 28 de março de 2014
terça-feira, 25 de março de 2014
JRS x JS - 2.º round
Entretanto percebi melhor qual o formato do programa (não vejo televisão, não sabia) e porque o desvio de JRS causou indignação. Ora bem, o facto de se tratar de um programa que procura saber a opinião de José Socrates não dispensa os jornalistas de fazer o seu trabalho. Errados estão todos os outros jornalistas que fazem de naperon ou de figurantes nos programas de Marcelo e afins. Se a ideia é que os tipos falem sem contraditório, o correcto seria pô-los sozinhos em frente à câmara. Os separadores de temas poderiam ser quadros de legendas, como nos filmes mudos, ou mão-de-obra requisitada à Elite Models, não gente com carteira de jornalista. JRS pode ter mostrado um excesso de zelo direitista (uma agenda pró-governamental), mas antes isso do que um daqueles cães que antigamente se punham nos carros e se limitavam a acenar com a cabeça. O papel do jornalismo é perguntar, questionar, confrontar, e não só quando isso nos agrada.
segunda-feira, 24 de março de 2014
JRS x JS
Vai para aí celeuma por causa da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Sócrates. Não gosto de nenhum dos dois. Vi a entrevista. Rodrigues dos Santos fez bem em confrontar Sócrates com afirmações suas do passado. É para isso que servem os jornalistas, não para pés de microfone. JRS fê-lo com particular prazer? Acho que sim, mas o que importa é a utilidade da coisa, e tinha-a. Em contrapartida, Sócrates fez o seu papel, alertando para os contextos. Não o achei particularmente irritado, ao contrário do que para aí também se diz. E acho que se saiu relativamente bem na sua argumentação. Há, de facto, contextos que convém não esquecer, embora a muitos desse jeito.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
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