domingo, 6 de julho de 2014

É caro e ineficiente manter o interior: encerra-o e deita fora a chave

Vasco Pulido Valente costuma dizer que este Governo não é neoliberal, e de facto talvez Passos Coelho não tenha conseguido ir tão longe quanto a casta desejaria em algumas áreas. Mas em várias medidas já concretizadas e em muitas outras planeadas o menino-cantor, com a sua melena beta e ar de sacripanta, é merecidamente o orgulho dos thatcherianos meridionais e setentrionais. É, por exemplo, um empenhado darwinista social (sector privado contra função pública, professores contra professores, jovens contra velhos, tudo tem promovido) e só não encerrará definitivamente o interior se o interior, por vezes tão irritantemente tradicionalista e atávico, não recuperar por um dia velhos hábitos e não se munir de varapaus e chuços para o correr daqui para fora da sua zona de conforto.

A propósito disto: 

domingo, 22 de junho de 2014

Elogio da impassibilidade

O suspense, a expectativa, os sustos, a angústia, as frustrações de assistir a um jogo de futebol têm uma certa equivalência aos prazeres da melancolia. Com a diferença de que no futebol ninguém suporta perder e na melancolia isso está implícito. Tive estes pensamentos enquanto antecipava gostosamente uma noite de mortificação em frente à TV, mas amigos muito mais ligados ao futebol do que eu dizem-me coisas como: «hoje, torcer pela selecção é mais ou menos como torcer pelos banqueiros, torcer por um negócio de outros que circunstancialmente são nossos compatriotas e usam as nossas cores». Postas as coisas nestes termos, se assistir ao jogo, fá-lo-ei de modo clandestino, anelando patrioteiramente (e por traição de classe) a vitória e reconhecendo maior justeza social na derrota.
Devo confessar ainda que a derrota me é mais conveniente também porque tenho ouvidos sensíveis e uma certa aversão estética a desfiles de carros buzinando inglória e jactantemente, como limusinas em Adis Abeba.
Ah, que saudades de sermos o povo melancólico que às vezes dizem sermos, impassível na vitória como na derrota.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O Tua e a sua canção (ou)vistos pela nova direita

Um grupo de artistas dedicou uma canção ao Tua. A Helena Matos já deverá estar a escrever no pravda da nova direita um artigo a defender que se afogue não só o vale como os artistas. Se faltavam motivos para construir a barragem, dirá ela, agora temos um. João Miguel Tavares, pelo seu lado, pessoa sensível, aumentará o caudal do Tua com uma lágrima ou duas pelo vale e pelos artistas, mas lembrar-lhes-á a sua culpa por canções e paisagens belas serem actividades condenadas num Portugal falido.
Pedro Lomba dirá num briefing falhado que os artistas deviam era estar a contribuir para a demografia fazendo filhos enquanto a água não os cobre. Poiares Maduro tentará tirar-lhes o subsídio de férias e Passos vender-lhes uma formação em aeronáutica que lhes permita emigrar a partir de qualquer aeródromo das redondezas. Que os há-de haver.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Lição n.º 1

Muitas pessoas (e tantas delas são gente da informática ou das novas tecnologias) pensam que regras e convenções da escrita são uma espécie de capricho de gente conservadora, quando não uma demonstração de intolerância ou fascismo em relação a quem tem uma atitude mais «descontraída» com a língua e a escrita. Suponho que essas pessoas lêem pouco, ou apenas lêem o que escrevem. Ou ignoram regras e convenções quando escrevem porque na verdade se estão nas tintas para quem as vai ler.
O problema é quando algumas destas pessoas escrevem textos que, por uma razão ou outra, nos vemos forçados a ler. A sua forma «descontraída» de escrever geralmente significa que nós não vamos ter uma leitura descontraída, mas trabalhosa, aborrecida, tentando decifrar a sintaxe para conseguir chegar à semântica. Irrita-me quando antes de perceber a ideia ou argumento tenho de parar para perceber a frase. E irrito-me mais quando, depois de finalmente perceber a frase, descubro que não há uma ideia ou argumento (o que também é frequente).
Os praticantes desta «escrita descontraída», mesmo que pensem o contrário, são meros principiantes das letras e da comunicação. Não se relacionam suficientemente com a língua e a linguagem para perceber duas coisas:
1) Que as frases que escrevemos saíram da nossa cabeça e, por isso, somos capazes de entender facilmente um texto nosso, mesmo que ele esteja descuidado, mal pontuado, sem acentos e que ao escrevê-lo lhe tenhamos comido uma parte das palavras. Quem alguma vez se deu ao trabalho de rever a sério o que escreve sabe que é assim.
2) Aquilo a que noutros escritores chamamos de «escrita simples» é geralmente uma escrita bastante trabalhada — e que não ignora regras e convenções. Este tipo de «escritores simples» trabalha arduamente os textos para que a comunicação resulte límpida, transparente, sem dar trabalho desnecessário ao leitor (a não ser o que resulta da compreensão das ideias expressas).
Meus amigos: aspas, acentuação, vírgulas, pontos, travessões, itálicos (em estrangeirismos e títulos, por exemplo), concordância em género e número, correcta conjugação e aplicação de verbos, escolha rigorosa de adjectivos, etc. não são coisas antiquadas, desnecessárias, descartáveis. Não são, sequer, caprichos estilísticos de escritor. São a essência formal da comunicação escrita. Se não têm nada a dizer, não escrevam. Se acham que têm alguma coisa a dizer, lembrem-se que estão a escrever para seres que não convivem intimamente com os macaquinhos que vocês têm no sótão.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ao anterior inquilino deste domicílio tenho a agradecer uma frigideira que nunca usei e o não ter feito da varanda uma marquise. Estas horas não teriam sido iguais se ele tivesse sido mais tuga.

Love and War(paint)

Estas meninas já nos brindaram (à geração de 80) com uma bela versão de "Ashes to ashes" (Bowie) e agora têm o bom gosto de atacar "The Chauffeur" (Duran Duran). Conhecendo também os seus originais, só se pode amá-las. 

https://soundcloud.com/manimal-vinyl/warpaint-the-chauffeur-1/s-FYTII

Catástrofe

«também está um dia bom para apanhar peixe banana»
Adicionei o blogue há dias e agora acaba... Depois não querem que me sinta triste e amargo como o cavalo de Átila.

Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo

No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:

«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*

Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência, mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo inteligente».

Descontada a boutade pateta, há decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas. A Europa devia lembrar-se.  

* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.

Golo da Costa Rica

Não foi uma excentricidade como ir ao Solar Transmontano, mas perdi a cabeça e gastei doze euros numa churrasqueira. Por vezes, o bilhete para observar a vida selvagem sai caro.
O empregado perguntou-me o que estava a achar do Mundial e eu não dei parte de fraco: aqueles cinco a um da Espanha eram qualquer coisa… Passei no teste sem ter de explicar que coisa eram os cinco a um. De seguida chamaram-no a outra mesa e também não tive de opinar sobre o Uruguai x Costa Rica que se disputava no plasma (cujo resultado tinha espreitado preventivamente enquanto ele falava e sobre o qual estava a tentar pensar o que haveria de expectável a dizer).

Os clientes também podem ser constrangedores, quando são conhecidos do pessoal. Uma das cozinheiras passa a caminho da casa de banho mas é detida por umas perguntas e considerações mundanas da mãe de duas crianças do outro lado da sala. A cozinheira, não contando demorar-se, fica a três quartos, com um pé no ar, respondendo pelo canto da boca e pronta a continuar o seu caminho. Todavia, a cliente tem sempre mais uma coisa para dizer e a cozinheira, indecisa entre a delicadeza e a urgência, naquela postura de quem só ouvirá mais uma frase e continuará a andar, vai deixando os pés para trás e inclinando o corpo na direcção que pretende seguir. Estão nisto mais um longo minuto e eu preparo-me para amparar a cozinheira, que está mesmo no limite da sustentabilidade da sua posição. Mais uma frase da cliente e a queda é irreversível, foi atingido o ângulo máximo de inclinação que um corpo humano consegue atingir sem se estatelar. Por fim ouve-se uma interjeição telepática e a cozinheira dá o seu passo em frente, aquele passo que suspendera antes, e deixa a cliente a falar para a abertura que dá para o hall dos lavabos. Esta resigna-se, dá um safanão numa das crianças e comenta para o garçon que o golo da Costa Rica foi mesmo um grande golo.

Espertina

Gosto de madrugadas quentes, porque a vizinha vem para a rua aparar as sebes e eu vou para a varanda ver a vizinha aparar as sebes.

sábado, 14 de junho de 2014

Cristo sinaleiro

Cristo persegue-me (quando devia talvez ser o contrário, eu ir-lhe na peugada com veneração e toga de discípulo). Hoje postou-se-me a meio de uma bifurcação de estradas e, com aqueles seus braços permanentemente abertos, a apontar uma coisa e o seu contrário, fiquei sem perceber se me aconselhava a direita, se a esquerda. Como sinaleiro, tem muito a aprender. Nem deviam, aliás, autorizá-lo a exercer (mas neste país uns são filhos de deus, outros...).
A certa altura mais carente da viagem (havia uma recta de uns setenta metros antes de ter de escolher), achei que ele abria os braços mas era para me abraçar e fiquei tentado a ir em frente, entregar-me ao amplexo cristão com Chevrolet e tudo. Travei antes do muro.

(E ao passar-lhe ao largo devo dizer que me pareceu mais o Roger Hodgson do que o Cristo: ou há um culto novo na cidade ou anda alguém a brincar com os moldes.)  

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Confidências de um palhaço

Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava a divertida campanha d’Os Idiotas, comia com regra e medida e era regular no jogging. O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores. Daí a pouco começava o meu annus horribilis, com ataques em várias frentes, directos e sobre interposta família, uns manufacturados outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem, uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque todos os palhaços sabem que the show must go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da minha consciência.

Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à frente. Mesmo que um annus tenha 365 dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências, dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.

Diagnóstico

Vi agora mesmo um cartoon que pretendia representar o individualismo e na verdade representa o egoísmo. Dizem que os portugueses estão mais individualistas. É mentira. Os portugueses estão é mais egoístas. Só pensam em si, mas não pensam por si.
Os portugueses não estão (nem são) individualistas, não se afirmam senão em grupo, não têm iniciativa própria nem reclamam liberdade individual. Os portugueses são tão individualistas quanto carneirinhos em rebanhos. Amam o pastor por síndroma de Estocolmo e o cajado por morbidez do espírito.

(Que o dicionário confunda individualismo com egoísmo é um arcaísmo idiota, que ignora a Renascença e toda a filosofia subsequente.)



LER

Durante anos, uma das minhas maiores alegrias era folhear jornais e revistas novos ou reformulados. Gostava tanto de bons textos quanto de bom (e novo) grafismo. Por isso não resisti à extravagância financeira de comprar a “nova” LER. (Há leitores deste blogue que julgam ser uma boutade o meu lamento por no último ano e picos não ter estado à altura dos cinco euros da revista. Pois saibam que hesitei em pagar o euro extra que agora custa e me não estava a ser pedido pela tabacaria, cujo sistema informático ainda considerava o preço antigo. Fui honesto, alertei o funcionário — e vim todo o caminho a chorar a minha inadequação idiossincrática ao capitalismo sem pruridos ora vigente. Sou um cândido.)
Lá dei os seis euritos, portanto, apaziguando-me com a ideia que seria um luxo trimestral que a troika certamente toleraria. O regresso à trimestralidade está, de resto, também de acordo com a minha actual disponibilidade de tempo (disputada, contudo, pela Granta, cuja assinatura um anjo partilhou comigo).
Bem, queria era dizer que gostei bastante desta LER (estava só a ver se adormecia os editores antes de chegar aqui, mas talvez nem fosse necessário, estão certamente distraídos com o Mundial). Ao pegar-lhe senti o mesmo tipo de textura, maleabilidade e excitação que sentia há trinta anos com um Disney Especial — e isto é um elogio.

Depois vou ler.
Gosto que os meus amigos bloggers ou facebookers façam de DJs. Em cada visita à internet vou coleccionando toda uma banda sonora do dia em janelas abertas à espera de serem ouvidas. Depois ouço-as, a maior parte das vezes com prazer e proveito. (Isto porque ganhei o higiénico hábito de ocultar chatos, pessoas desinteressantes e fãs do ‘Blasfémias’, que, como se sabe, têm péssimo gosto musical).

Profissão de (pouca) fé

Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal da vizinhança, propriedade privada.
Mas se o jardim se transforma em horta, por força do “ajustamento”, o que passa a ser um cristo de braços abertos ali plantado? Uma confissão de impotência ou um aggiornamento? Talvez uma resignação: na impossibilidade de expulsar os vendilhões do templo, o filho de deus gosta de se saber útil a espantar os pardais do quintal. É isso ou o desemprego.

[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O fanico de Cavaco

Aprendi a certa altura que não se goza com as características físicas das pessoas. O debate público é acerca de ideias ou actos, não de deformidades. Uma corcunda ou um penteado ridículo não transformam em mentira ou erro as afirmações de quem os padece. A beleza e a feiura, como a saúde e a enfermidade, a inteligência ou a mediania, não fazem boas ou más pessoas.
Caricaturar o outro a partir dos seus defeitos ou padecimentos físicos é, portanto, recurso dos pobres de espírito ou daqueles a quem escasseia talento para mais. É humor que as tascas aceitam (porque aceitam tudo), mas delas não devia sair.
Dito isto, se me parece errado desejar que o fanico de Cavaco Silva seja consequente, não vejo por que a ocorrência (a quase queda) não possa ser invocada em frases irónicas sobre o seu mandato enquanto presidente ou sobre o regime que ele representa. Podemos desejar a máxima saúde para o cidadão Cavaco Silva — mas agradecer que ele a vá gozar por muitos anos longe de Belém.

De resto, depois de, por exemplo, a sua tirada sobre a reforma que aufere, a empatia que as pessoas eventualmente sintam pelo ser humano que ele é será sempre mérito da bondade delas — nunca efeito dos actos dele.
Cavaco, devemos reconhecê-lo, é um homo sapiens — não um santo. Tem direito a misericórdia — não devoção.

Honra pífia: ser citado na nova LER ao lado do arquitecto Saraiva.