https://soundcloud.com/manimal-vinyl/warpaint-the-chauffeur-1/s-FYTII
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Love and War(paint)
Estas meninas já nos brindaram (à geração de 80) com uma bela versão de "Ashes to ashes" (Bowie) e agora têm o bom gosto de atacar "The Chauffeur" (Duran Duran). Conhecendo também os seus originais, só se pode amá-las.
https://soundcloud.com/manimal-vinyl/warpaint-the-chauffeur-1/s-FYTII
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Catástrofe
«também está um dia bom para apanhar peixe banana»Adicionei o blogue há dias e agora acaba... Depois não querem que me sinta triste e amargo como o cavalo de Átila.
Problemas de habitação, no centenário de Sarajevo
No Verão de 2012, o jornalista Tim Butcher foi às profundezas da Bósnia-Herzegovina
procurar a casa de Gravilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco
Fernando da Áustria. Quando encontra o que resta dela, pensa:
«Aquilo era uma casa europeia habitada por uma família inteira no início do século XX, mas fazia-me lembrar as choupanas com que me deparava frequentemente na África rural. O princípio era exactamente o mesmo: um chão de terra batida numa habitação construída com paredes de pedra, sob um telhado feito de madeira, colmo ou ramos apanhados localmente. Uma taxa de mortalidade infantil que podia matar seis dos nove filhos da família Princip soava mais a África do que a Europa. O mundo desenvolvido podia desesperar perante os problemas sistémicos da África moderna, mas estar ali, naquele jardim de Obljaj, ensinou-me como grande parte da Europa estivera recentemente em situação similar.»*
Duas décadas depois da morte de Gravilo, a minha mãe crescia numa casa
similar à do sérvio-bósnio que serviu de gatilho à Primeira Guerra Mundial. Um compartimento
de terra batida para a família, um compartimento adjacente com chão de carquejas
para o gado. Como Gravilo, a minha mãe cuidou dos animais em criança, afastou
lobos com paus e pedras. Não abateu nenhum arquiduque no final da adolescência,
mas um dos seus filhos escreveu um romance onde se fala de «terrorismo
inteligente».
Descontada a boutade pateta, há
decerto uma maldição sobre domicílios impróprios. Resolver problemas de habitação é talvez um bom exorcismo para casas-assombradas.
A Europa devia lembrar-se.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
* A partir do muito interessante excerto de O Gatilho, de Tim Butcher, publicado na LER de Junho.
Golo da Costa Rica
Não foi uma excentricidade como ir ao Solar Transmontano, mas perdi a
cabeça e gastei doze euros numa churrasqueira. Por vezes, o bilhete para observar
a vida selvagem sai caro.
O empregado perguntou-me o que estava a achar do Mundial e eu não dei
parte de fraco: aqueles cinco a um da Espanha eram qualquer coisa… Passei no
teste sem ter de explicar que coisa eram os cinco a um. De seguida chamaram-no
a outra mesa e também não tive de opinar sobre o Uruguai x Costa Rica que se
disputava no plasma (cujo resultado tinha espreitado preventivamente enquanto
ele falava e sobre o qual estava a tentar pensar o que haveria de expectável a
dizer).
Os clientes também podem ser constrangedores, quando são conhecidos do
pessoal. Uma das cozinheiras passa a caminho da casa de banho mas é detida por
umas perguntas e considerações mundanas da mãe de duas crianças do outro lado
da sala. A cozinheira, não contando demorar-se, fica a três quartos, com um pé no
ar, respondendo pelo canto da boca e pronta a continuar o seu caminho. Todavia,
a cliente tem sempre mais uma coisa para dizer e a cozinheira, indecisa entre a
delicadeza e a urgência, naquela postura de quem só ouvirá mais uma frase e
continuará a andar, vai deixando os pés para trás e inclinando o corpo na
direcção que pretende seguir. Estão nisto mais um longo minuto e eu preparo-me
para amparar a cozinheira, que está mesmo no limite da sustentabilidade da sua
posição. Mais uma frase da cliente e a queda é irreversível, foi atingido o ângulo
máximo de inclinação que um corpo humano consegue atingir sem se estatelar. Por
fim ouve-se uma interjeição telepática e a cozinheira dá o seu passo em frente,
aquele passo que suspendera antes, e deixa a cliente a falar para a abertura que
dá para o hall dos lavabos. Esta resigna-se,
dá um safanão numa das crianças e comenta para o garçon que o golo da Costa Rica foi mesmo um grande golo.
Espertina
Gosto de madrugadas quentes, porque a vizinha vem para a rua
aparar as sebes e eu vou para a varanda ver a vizinha aparar as sebes.
sábado, 14 de junho de 2014
Cristo sinaleiro
Cristo persegue-me (quando devia talvez ser o contrário, eu ir-lhe na
peugada com veneração e toga de discípulo). Hoje postou-se-me a meio de uma
bifurcação de estradas e, com aqueles seus braços permanentemente abertos, a
apontar uma coisa e o seu contrário, fiquei sem perceber se me aconselhava a
direita, se a esquerda. Como sinaleiro, tem muito a aprender. Nem deviam,
aliás, autorizá-lo a exercer (mas neste país uns são filhos de deus, outros...).
A certa altura mais carente da viagem (havia uma recta de uns setenta metros
antes de ter de escolher), achei que ele abria os braços mas era para me
abraçar e fiquei tentado a ir em frente, entregar-me ao amplexo cristão com
Chevrolet e tudo. Travei antes do muro.
(E ao passar-lhe ao largo devo dizer que me pareceu mais o Roger Hodgson
do que o Cristo: ou há um culto novo na cidade ou anda alguém a brincar com os
moldes.)
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Confidências de um palhaço
Há um ano, por esta altura, estava mais elegante e confiante. Iniciava
a divertida campanha d’Os Idiotas,
comia com regra e medida e era regular no jogging.
O livro correu bem económica e literariamente, tive gosto na pequena tournée de promoção e ganhei leitores.
Daí a pouco começava o meu annus
horribilis, com ataques em várias frentes, directos
e sobre interposta família, uns manufacturados
outros concebidos na crueldade dos céus. Fruto disso, deixei, de camuflagem,
uma permanente barba de oito dias, procrastino o jogging e desgosto do que agora vejo no espelho. Aguentei-me porque
todos os palhaços sabem que the show must
go on, e eu não defraudo a minha audiência, mesmo que defraude uma parte da
minha consciência.
Não desci, contudo, aos abismos da comiseração que se me abriram à
frente. Mesmo que um annus tenha 365
dias e este ainda não tenha acabado (acabará?), o sol está aí e, apesar de
todos os compromissos, obrigações, responsabilidades, deveres, contingências,
dependências, limitações e demais merdas, a única coisa que me ocupa o
pensamento é cometer outra pequena loucura. Esperem só que resolva aqui um
assunto ou dois e preparem-se para uma temporada no Hotel do Norte.
Diagnóstico
Vi agora mesmo um cartoon que
pretendia representar o individualismo e na verdade representa o egoísmo. Dizem
que os portugueses estão mais individualistas. É mentira. Os portugueses estão é
mais egoístas. Só pensam em si, mas não pensam por si.
Os portugueses não estão (nem são) individualistas, não se afirmam senão
em grupo, não têm iniciativa própria nem reclamam liberdade individual. Os
portugueses são tão individualistas quanto carneirinhos em rebanhos. Amam o
pastor por síndroma de Estocolmo e o cajado por morbidez do espírito.
(Que o dicionário confunda individualismo com egoísmo é um arcaísmo idiota,
que ignora a Renascença e toda a filosofia subsequente.)
LER
Durante anos, uma das minhas maiores alegrias era folhear jornais e
revistas novos ou reformulados. Gostava tanto de bons textos quanto de bom (e
novo) grafismo. Por isso não resisti à extravagância financeira de comprar a “nova”
LER. (Há leitores deste blogue que julgam ser uma boutade
o meu lamento por no último ano e picos não ter estado à altura dos cinco euros
da revista. Pois saibam que hesitei em pagar o euro extra que agora custa e me
não estava a ser pedido pela tabacaria, cujo sistema informático ainda
considerava o preço antigo. Fui honesto, alertei o funcionário — e vim todo o
caminho a chorar a minha inadequação idiossincrática ao capitalismo sem
pruridos ora vigente. Sou um cândido.)
Lá dei os seis euritos, portanto, apaziguando-me com a ideia que seria um
luxo trimestral que a troika certamente toleraria. O regresso à trimestralidade
está, de resto, também de acordo com a minha actual disponibilidade de tempo
(disputada, contudo, pela Granta, cuja
assinatura um anjo partilhou comigo).
Bem, queria era dizer que gostei bastante desta LER (estava só a ver se
adormecia os editores antes de chegar aqui, mas talvez nem fosse necessário, estão
certamente distraídos com o Mundial). Ao pegar-lhe senti o mesmo tipo de
textura, maleabilidade e excitação que sentia há trinta anos com um Disney Especial — e isto é um elogio.
Depois vou ler.
Gosto que os meus amigos bloggers
ou facebookers façam de DJs. Em cada
visita à internet vou coleccionando toda uma banda sonora do dia em janelas
abertas à espera de serem ouvidas. Depois ouço-as, a maior parte das vezes com prazer
e proveito. (Isto porque ganhei o higiénico hábito de ocultar chatos, pessoas
desinteressantes e fãs do ‘Blasfémias’, que, como se sabe, têm péssimo gosto
musical).
Profissão de (pouca) fé
Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch
na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal
da vizinhança, propriedade privada.
[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]
quinta-feira, 12 de junho de 2014
O fanico de Cavaco
Aprendi a certa altura que não se goza com as características físicas
das pessoas. O debate público é acerca de ideias ou actos, não de deformidades. Uma
corcunda ou um penteado ridículo não transformam em mentira ou erro as afirmações
de quem os padece. A beleza e a feiura, como a saúde e a enfermidade, a
inteligência ou a mediania, não fazem boas ou más pessoas.
Caricaturar o outro a partir dos seus defeitos ou padecimentos físicos é, portanto,
recurso dos pobres de espírito ou daqueles a quem escasseia talento para mais. É
humor que as tascas aceitam (porque aceitam tudo), mas delas não devia sair.
Dito isto, se me parece errado desejar que o fanico de Cavaco Silva seja
consequente, não vejo por que a ocorrência (a quase queda) não possa ser
invocada em frases irónicas sobre o seu
mandato enquanto presidente ou sobre o
regime que ele representa. Podemos desejar a máxima saúde para o cidadão
Cavaco Silva — mas agradecer que ele a vá gozar por muitos anos longe de Belém.
De resto, depois de, por exemplo, a sua tirada sobre a reforma que aufere, a empatia que as pessoas eventualmente sintam pelo ser humano que ele é será sempre mérito da bondade delas — nunca efeito dos actos dele.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Não e não
Uma coisa que é capaz de não ajudar nada este blogue: ao contrário de tantos, não vou inaugurar uma série de posts sobre o mundial.
A menina de óculos
Saltitante como um cachorrito, acompanha os pais numa caminhada ao fim
da tarde. A figura de alguém que lê um livro num banco à margem do caminho prende-lhe
de súbito o olhar. Não ao ponto de a fazer perder a oportunidade de pisar
ritmadamente as pedras que enterraram no percurso a fingir de pegadas de
animais. Mas, cumprido o gostoso exercício, volta a observar o leitor enquanto passa
por ele. Uns metros depois, não resiste a virar-se para trás e dar uma última
espreitadela. Os óculos de massa apoiados no narizito parecem assegurar-lhe um perfil
de leitora precoce e cúmplice que acabou de reconhecer um par. Porém, as
aparências demasiadas vezes enganam: talvez seja apenas uma criança que acabou
de ver uma bizarria. Ou talvez o paralelo canino seja acertado e, como todas as
crias de mamíferos, está apenas a cartografar intensa e francamente o mundo,
ainda desconhecedora das convenções adultas sobre o olhar.
Eu próprio transgressor, pisquei-lhe — e ela sorriu. Não digam a
ninguém.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Bombos
[Para os patriotas que se
entusiasmaram com o post anterior]
Observando desfiles populares noutras paragens geográficas, somos
forçados a concluir com melancolia que, como povo, nem para descer alegre e ritualmente
as ruas temos jeito.
As formações “musicais” mais requisitadas para arruadas nesta zona do
globo são as de Zés Pereiras, ou equivalentes. O facto de serem constituídas apenas
por percussionistas não seria um mal, se colmatassem a falta de instrumentos
melódicos e harmónicos com virtuosismo técnico, variedade e complexidade
rítmicas, originalidade de composições, brilho coreográfico, ousadia e destreza
física ou elegância de trajes.
Mas não. A popularidade destas formações dá-se provavelmente porque,
não necessitando de ponta de génio ou talento, são baratas — e sendo baratas são
a desculpa adequada para instituições medíocres e desinteressadas de chamar
talento ou génio para as suas cerimónias e festividades.
Acresce que para instituições e um povo do calibre dos
nossos, o talento, mesmo que só para o fagote ou a gaita-de-foles, é um distintivo
de “elite”, essa ameaça à mediania fundacional da pátria.
P.S. Além dos bombos, o único instrumento que a raça genuinamente
ama (pela sua democraticidade, ou seja, por qualquer burro poder tocá-lo) é o
triângulo (ou ferrinhos), esse objecto que só em mãos brasileiras ganha qualquer
relevância musical.
Aufklärung – a semântica do iluminismo alemão
Leio que o termo alemão para iluminismo é «Aufklärung». E orgulhosamente
concluo que o povo germânico importou daqui as luzes. «Aufklärung» é resultado
de um adido ou embaixador ter acrescentado o prefixo canino-teutónico «auf» ao
étimo portuense «clarão» (dito com sotaque).
sábado, 7 de junho de 2014
Post scriptum
O grande Filipe Melo diz-me que o mérito de ‘Deixem o pimba em paz’* é
de Bruno Nogueira, que teve a ideia e orientou os músicos na reinvenção do
cancioneiro. E já que estamos numa de distribuir créditos, há que referir
também Nelson Cascais, multifacetado contrabaixista, e Manuela Azevedo, capaz
de ressuscitar músicas que na verdade nunca estiveram vivas e de nos emocionar esteticamente com a mais insípida ou parva das letras pimba.
* A propósito deste post.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Mau augúrio
Não sou supersticioso nem iniciado em filosofias orientais como o Feng
Shui, mas sempre que posso oriento as camas onde durmo para sul. O tempo
cinzento afecta-me o humor, quebra-me o ânimo, e a sul há uma expectativa de
sol, de bom tempo. Já aconteceu deitar-me com os pés para a cabeceira numa cama
norteada apenas porque queria acordar bem-disposto. Saber-me de cara virada ao
sol, ou orientado para latitudes onde a probabilidade de sol é maior, fornece-me
a réstia de conforto que estar vivo exige. Por isso os quartos onde durmo, insensivelmente
projectados sem orientação solar, têm por vezes aquele ar desacertado, de coisa
fora do lugar (a cama).
Talvez esta fuga à mobilação prevista exerça a sua influência sobre as
minhas ideias, a minha psicologia. Mas como disse, não sou supersticioso. Mesmo
que tenha ficado preventivamente maldisposto quando me disseram que amanhã iria
acordar com um dia de chuva.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Feira do livro
Este não se encontra na feira do Parque Eduardo VII, mas os últimos exemplares andam por aí:
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