segunda-feira, 14 de abril de 2014
Revista de imprensa e blogosfera
Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias mas a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.
sábado, 12 de abril de 2014
De olho no céu
Na página Humans of New York leio que, de acordo com um mito nativo americano, cães com olhos de cores diferentes podem ver simultaneamente a terra e o céu (no sentido mítico, ou religioso). E isto para mim explica o génio de David Bowie.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Gel, mães e filhos (2)
Como a mãe do post anterior,
talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por
telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do
bairro —
onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de
sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do
bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o
risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui
deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos
em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado.
Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez
que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce
num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje
nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não
o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por
vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso
revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um
Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha
de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os
dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou
certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou —
mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o
empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento
se tenha usado gel. Ou por causa disso.Gel, mães e filhos (1)
Uma jovem mãe percorre as prateleiras do supermercado com o telemóvel
na orelha. Procura um gel para o cabelo e percebe-se que, com branda resistência,
está a ser dirigida remotamente pelo filho adolescente. Efeito molhado, fixação
normal, forte ou extraforte, marcas, preços... As variáveis são muitas e é
difícil encontrar um equilíbrio entre a exigência do rapaz e a carteira da mãe.
Não parece aborrecida com os caprichos do filho, talvez porque já teve
ou testemunhou experiências piores. Protagonizadas por teenagers maldispostos, rudes, rufiões, que acompanham as mães às
lojas como quem sequestra um desconhecido e o leva sob coacção ao multibanco mais
próximo. Filhos que mandam calar as progenitoras e cospem em público ninguém te perguntou a opinião como
bandidos sem paciência para as objecções patéticas e impertinentes das suas
vítimas. E que, depois de escolherem algo da última moda para gangues (que um
diligente criativo desenhou a pensar na globalização do Bronx), arrastam com
maus modos a mãe para a caixa, deixando já adivinhar que à saída da loja
atirarão com ela e a sua carteira vazia para uma valeta.
A mãe no supermercado fica por momentos esquecida a olhar carinhosamente
a filha, talvez para afastar maus pensamentos. A rapariga, criança, entretém-se
na secção de produtos para o rosto — não ainda a projectar-se na adolescência
que tarda, mas porque as cores e as formas lhe parecem divertidas.quinta-feira, 10 de abril de 2014
Imprudência
Com os cada vez mais evidentes sinais de regresso dos fascismos à
Europa (e ao poder; a originalidade da Hungria não durará), com um clima político
a leste cada vez mais prussiano, a
direita continua, com moral de inquisidor, obcecada em punir os países e as
pessoas que, na opinião dela, viveram acima das suas posses. A direita é muito
estúpida, conivente ou imprudente. E receio ter escrito imprudente apenas por cortesia ou fair play.
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Confidencial
Porque as coisas são o que são e porque esta noite me
visitou o espírito carrancudo mas empreendedor do Torga, comunico aos que se
interessam que editarei por mim mesmo, num qualquer dia solarengo, o Hotel do Norte e o Aranda. Não prometo é que esse dia
esteja perto (e com isto não estou a ser um céptico do aquecimento global).
O papel do jornalista tem dias
Nos posts anteriores defendi
o papel do jornalista no caso Rodrigues dos Santos versus Sócrates. Muita gente o tem feito, alguns com particular
ferocidade, incluindo o próprio José Rodrigues dos Santos. Contudo, não vi
muita gente defender o papel do jornalista também nos casos das partenaires inânimes de Marcelo Rebelo
de Sousa e Marques Mendes. Que de resto são comentadores há mais tempo.
É isto que me irrita ou entedia (depende das horas) na vida política
portuguesa, este clubismo sem coluna e hipócrita, incapaz de esconder o longo
rabo que deixa de fora. Onde têm estado os defensores do papel activo do
jornalista nos longos anos que Marcelo leva de missa dominical? Onde estão
quando é Marques Mendes a perorar sem particular contraditório?
Uma intervenção útil em defesa do jornalismo era terem aproveitado este
episódio para reivindicar verdadeiros jornalistas também nos programas de
Marcelo & Mendes — em vez de uma defesa de JRS que não consegue disfarçar um
imbecil ódio a Sócrates e é na verdade uma defesa acéfala do Governo.sexta-feira, 28 de março de 2014
terça-feira, 25 de março de 2014
JRS x JS - 2.º round
Entretanto percebi melhor qual o formato do programa (não vejo televisão, não sabia) e porque o desvio de JRS causou indignação. Ora bem, o facto de se tratar de um programa que procura saber a opinião de José Socrates não dispensa os jornalistas de fazer o seu trabalho. Errados estão todos os outros jornalistas que fazem de naperon ou de figurantes nos programas de Marcelo e afins. Se a ideia é que os tipos falem sem contraditório, o correcto seria pô-los sozinhos em frente à câmara. Os separadores de temas poderiam ser quadros de legendas, como nos filmes mudos, ou mão-de-obra requisitada à Elite Models, não gente com carteira de jornalista. JRS pode ter mostrado um excesso de zelo direitista (uma agenda pró-governamental), mas antes isso do que um daqueles cães que antigamente se punham nos carros e se limitavam a acenar com a cabeça. O papel do jornalismo é perguntar, questionar, confrontar, e não só quando isso nos agrada.
segunda-feira, 24 de março de 2014
JRS x JS
Vai para aí celeuma por causa da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Sócrates. Não gosto de nenhum dos dois. Vi a entrevista. Rodrigues dos Santos fez bem em confrontar Sócrates com afirmações suas do passado. É para isso que servem os jornalistas, não para pés de microfone. JRS fê-lo com particular prazer? Acho que sim, mas o que importa é a utilidade da coisa, e tinha-a. Em contrapartida, Sócrates fez o seu papel, alertando para os contextos. Não o achei particularmente irritado, ao contrário do que para aí também se diz. E acho que se saiu relativamente bem na sua argumentação. Há, de facto, contextos que convém não esquecer, embora a muitos desse jeito.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.
Drink sangria in the park
Quando se pensa, à nossa maneira burguesa, num grupo de junkies a jogar à bola, imagina-se perónios
pelo ar e tíbias pelo chão. Um grupo de pessoas a desconjuntar-se, a esvair-se
em fluídos pouco dignos de observar. Isto se considerarmos sequer a hipótese de
haver junkies com tempo de se juntarem
à volta de uma bola, tão apressados e ocupados que sempre parecem, busy with dealing. Não estamos
preparados é para os ver, íntegros, com risos e técnica superlativa, desfrutar.
Desfrutar e reincidir nisso dia após dia. Na nossa própria alienação, andamos
esquecidos de que o ócio era a aspiração da humanidade.
Definitely Maybe
Enquanto ouvia com indolência “Wonderwall”, dos Oasis, apeteceu-me escrever que, se há vinte anos eu e o Paulo Araújo tivéssemos continuado juntos em projectos musicais, talvez tivéssemos sido uma espécie de irmãos Gallagher (em melhor). Mas não, não teríamos agredido ninguém fora do círculo familiar.
Dúvida ociosa
Será que os tipos da direita situacionista que hoje orbitam Rentes
de Carvalho (e são tantos) lêem com toda
a atenção tudo o que ele escreve e
diz?
quarta-feira, 19 de março de 2014
Efemérides
Olhando o país e o mundo, as minhas indagações remontam a 1914 e 1939 e ao que sentiam os tipos de 45 anos que eram resgatados da reserva para um qualquer contingente activo. Ou talvez, na verdade, indague mais atrás na História, 1908 e um voluntariado na Carbonária.
terça-feira, 18 de março de 2014
Corram...
...a ler a bela série de «Postais de um fotógrafo de bairro» de José Bandeira. O melhor cartoonista português é também um admirável escritor. Se houver um módico de justiça entre o céu a terra (onde dizem haver muita coisa), um dia seremos presenteados com um livro de José, ele que já nos estraga com mimos desenhados.
domingo, 16 de março de 2014
Cursos sem sentido
Sobre as declarações de Passos Coelho mencionadas no post anterior, Rui Rocha tem no Delito de Opinião o comentário adequado.
sábado, 15 de março de 2014
«Os senhores professores», disse ele
Anteontem ouvi na rádio Passos Coelho acusar algumas universidades de
manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores
professores» poderem dar aulas. Não é a questão da racionalidade da oferta
universitária que aqui me interessa (sobre isso já discorri antes de
haver crise). É o tom, a forma como Coelho expeliu aquele «senhores
professores». Há expressões que dizem tudo, traem pensamentos e sentimentos. O
Primeiro-Ministro naquela frase não acusou apenas as universidades de
irrazoabilidade — achou também abusivo que os senhores professores quisessem
dar aulas. Sem o dizer, achou absurdo que os senhores professores quisessem
trabalhar.
Vinda de um Primeiro-Ministro que se opôs a qualquer medida capaz de criar
emprego, vinda de um PM que favoreceu com a alegria e a jovialidade dos fanáticos
a degradação do emprego (ou quando muito o emprego com salários de insulto), esta sua
«racionalidade» na organização do Estado parece tão científica e altruísta
quanto a «medicina» de Josef Mengele.
sexta-feira, 14 de março de 2014
O pimba do Senhor
Nos meus tempos de adolescente e néscio (com os anos, abandonei a
primeira condição), achei assaz progressista, apesar do traje, um franciscano
que me incitou a levar o baixo eléctrico para cima de um palco onde se cantavam
hinos ao Senhor. Passou-se isto no catolicismo e numa era anterior à editora
Flor Caveira, do evangélico Tiago (Guilul) Cavaco. O pioneirismo católico,
aliás, havia-se já manifestado quando na década de setenta a Igreja sobrepôs
letras de excitação beata a canções de Bob Dylan. E o aggiornamento não mais parou. Hoje, muito modernas formações musicais
louvam o Senhor como aos domingos à tarde se louva na TVI a genitália feminina:
com vocalista trejeitoso e partenaires gesticulantes, comprimidas em slim jeans ou calças de lycra e t-shirts
um número abaixo. (Se não tivesse visto, não seria capaz de imaginar isto.)
A estética e o sentido coreográfico pimba são tão omnipresentes em
Portugal quanto Deus Ele Mesmo. E mais influentes. Não admira que a própria
Igreja ache natural que, em palco, se declare amor a Cristo com os passos, os
gestos, a melodia, o instrumental e os coros que geralmente se usam na TVI para,
com trocadilhos e metáforas de baixa extracção, se aludir a fodas, minetes e
broches.
De resto, se é popular, a Igreja procura absorver, como sempre fez com qualquer
ritual pagão. Que se lixe a estética e a lógica, se isso lhe permitir recensear
mais umas almas (importa-lhe mais a estatística das almas do que as suas práticas).
Não se pode é a Igreja admirar que os aleluias gritados no apogeu dos cânticos
passem a ter outra conotação e o êxtase deixe de ser místico.
P.S.: «E nós… pimba, Senhor», poderia ser uma resposta moderna ao «crescei
e multiplicai-vos», não fosse a contracepção.
P.S.2: Já no Natal, poderiam substituir-se as estrofes gastas do «Noite
Feliz» por versos mais modernos: «Mas quem será? Mas quem será? Mas quem será /
O pai da criança, eu sei lá, sei lá… eu sei lá, sei lá...»
Comportamentos desviantes
Reconhecemos uma alma gémea quando alguém que entra no shopping, depois de puxar para si a grande porta envidraçada,
volta a fechá-la e de novo a abre apenas para confirmar que, sim, a porta faz
um barulho cómico, humanóide, que apetece ouvir outra vez. Depois da breve pausa
na frivolidade do mundo, ele entra e eu saio, sorrindo ambos de portas que
adoptam comportamentos desviantes.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Aparências
1.
São meia dúzia em volta da mesa de pedra junto ao rio. Geralmente a
mesa é usada, em tardes de furo ou gazeta escolar, para umas festas de álcool, para
enrolar e partilhar uns charros. Os grupos exclusivamente femininos são talvez
menos frequentes, mas lá está a atitude semiclandestina, lá estão os risinhos langorosos
e cúmplices, os corpos dobrados em tenda conspirativa sobre o centro da mesa. E
no entanto, quando se abre um pouco a corola de adolescentes primaveris, o que
aparece a ser transaccionado ali no meio é um banal frasco de verniz de unhas,
como num cliché da Ragazza.
2.
O rapaz vem de praticar desporto, calções, t-shirt suada, cabelos molhados, sweatshirt atirada sobre um ombro. As três raparigas aproximam-se
entre embaraçadas e conspirativas, com segredinhos e empurrando-se umas às
outras. Cortejam-no. De saia ou vestidos coquetes, alguma pintura no rosto,
parecem saídas da mesma edição da Ragazza
atrás referida. Ou de um quadro mais antigo, de um que tenha fixado a óleo uma
tarde bucólica no parque. Porém a oralidade trá-las de volta ao futuro. Tendo
talvez sido contrariada, uma delas abandona a discrição, a corte vintage, e dispara à colega um sonoro «vai-te
foder, caralho», que o rio devolve em eco. O rapaz não parece sentir que se
tenha desfeito o encanto, continua a atrasar o passo e a controlar a distância e
os risinhos pelo canto do olho.
3.
Pequeno gangue, vêm subindo a rua. Cortes de cabelo, roupas, calçado,
balanço do corpo, tudo de acordo com o modelo rebelde sem causa, vulgo
arruaceiro. Param de súbito a conversar animadamente, ruidosamente, belicamente,
ocupando metade da via de trânsito e todo o passeio. Os carros ultrapassam-nos
em pequeno e conformado slalom. Os
peões contornam-nos por fora, como vítimas de bullying fugindo à palmada nas costas. A descer a rua, avanço a direito
com a inércia e uma vaga intenção de reivindicar o meu direito a um vector no
passeio. Estendo o braço para abrir alas e o distraído rapaz à minha frente estremece
de susto, como se acabasse de ser abordado por um assaltante. Desvia-se,
cordial, e eu continuo caminho, a rir-me do ridículo. Do meu ridículo.quarta-feira, 12 de março de 2014
A vitoriosa trimestralidade da LER (1)
O Correio da Manhã, esse
pândego, considerou uma boa notícia a LER passar (ou regressar) a uma periocidade
trimestral. Pelo menos a seta junto à informação apontava para cima (recebendo como
troco uma farpa de Rui Zink no Facebook). Para mim, esta alteração pode de
facto ser uma boa notícia: se a revista aumentar o conteúdo, como prometido, e mantiver
o preço de 5 euros, talvez, bem contados os trocos, possa voltar a comprá-la.
Mas esta renovação da LER («sem lamentos nem desculpas») só é uma
vitória ou uma boa notícia porque estamos demasiado habituados a más notícias.
Podemos, nestes tempos de cinza, considerar uma vitória a LER conseguir manter-se,
ainda que trimestralmente; podemos considerar uma boa notícia a LER
simplesmente não acabar, como seria possível e de certo ponto de vista até
provável. Mas estas são as vitórias simbólicas da Resistência, destinadas a
manter o moral. Verdadeira vitória e boa notícia sem sombra de eufemismo seria
a LER renovar-se e aparecer com «mais páginas, mais reportagens, mais profundidade e densidade» mantendo a edição mensal.
Assim, concluímos apenas que o país não tem dinheiro nem leitores
suficientes (ou suficientes leitores com dinheiro, numa versão optimista) para
uma revista mensal de livros.
A vitoriosa trimestralidade da LER (2)
Muitos anos, circunstâncias, instituições e pessoas contribuíram para o retrocesso da LER à periodicidade trimestral. Paulatinamente, o livro (e não
falo em particular do romance) foi banido das televisões, das escolas, das
universidades, dos jornais (guetizado em suplementos a que prescreveram uma dieta
crescente), dos discursos políticos, das conversas em geral. Uma ou duas
gerações de dirigentes partidários e institucionais particularmente plebeias,
particularmente representativas da boçalidade e do arrivismo nacionais, foram
suficientes para consumar o desaparecimento do livro — e a geração que lhes
há-de suceder nem sequer consegue soletrar a palavra.
quinta-feira, 6 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
Um país ao espelho
[no Âncoras e Nefelibatas]
«Não sou muito de partilhar dos curiosos hábitos higiénicos dos colegas portugueses que asseveram que "isto é uma cambada de paneleiros e de fufas que até mete nojo". Há que relativizar hábitos higiénicos de um povo que tem assegurado a longevidade política do doutor Alberto João Jardim, e a epistemologia de quem em Maio ou Setembro vai de rojo a Fátima por causa da senhora que brilhou na azinheira.»
sábado, 1 de março de 2014
Pequenos retratos infames (2)
Helena Matos
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Espírito de grupo
Além de Porta dos Fundos, acompanho desde cedo outro fenómeno de
popularidade nascido na Internet: Walk off The Earth. Neste caso trata-se de um
grupo de música canadiano que, celebrizado sobretudo pelos seus vídeos inventivos,
acabou a fazer digressões mundiais. Embora a música original de WOTE nem sempre
seja especialmente boa (ou, pronto, do meu agrado), admiro sem reservas o espírito
do grupo e o seu “espírito de grupo”, de "comunidade".
Em ambos os casos há talento, gente educada, espirituosa, sofisticada,
com acesso a tecnologia. Mas há sobretudo um bando de amigos que se diverte à
maluca a fazer (muito bem e livremente) o que gosta. Porra, como os invejo!
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Cansado da guerra
Furtei-me ao dever (as Metamorfoses
de Ovídio) para ler o artigo sobre Brideshead
Revisited numa LER emprestada. Soube que Evelyn Waugh pediu uma licença da
guerra para escrever o romance. Eu já revisitei a minha Brideshead em dois livros— mas, ah!, de bom-grado metia uma licença para tentar de novo, falhar melhor.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Congresso dos recreios
Na série “Diziam”, de Pedro Correia, no Delito de Opinião, só faltou
acrescentar que o que aconteceu contra o que "diziam" aconteceu decerto também
contra os desejos íntimos do infame Passos. A coisa mais relevante que
aconteceu de acordo com o vermículo Passos foi talvez o regresso, em seu tempo apalavrado, do sósia Relvas.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
A última dança
O vídeo da companhia Rubberbandance que inspirou o post anterior não é necessariamente o mais representativo. Sê-lo-iam mais estes espectáculos da companhia Peeping Tom: http://youtu.be/KlrXPVZG5Ho(“32 rue Vandenbranden”); http://youtu.be/NwACVrZIuVg (“Les Sous Sol”); ou este, da C de la B: http://youtu.be/pyQrK_Q2HOo (“Ashes”), vistos em Guimarães e no Porto. Por outro lado, várias companhias ou coreógrafos portugueses poderiam também elucidar o que disse no post. Neste campo, como de resto nos mais variados géneros musicais e no teatro, o país não padece de talento e profissionalismo como padece por exemplo na política e na gestão. A juntar-se a ex-elementos do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado, há uma nova geração de intérpretes (e coreógrafos) com formação sólida, experiência (tantas vezes internacional) e talento que infelizmente terá agora menos oportunidades de desenvolver o seu trabalho. O Portugal dos últimos anos — «europeu» no sentido civilizado, culto, sofisticado, cosmopolita, democrático e descentralizado que se costuma utilizar para falar da Europa central —, o país onde as pessoas podiam fruir o seu gosto pela dança contemporânea sem precisarem de se deslocar com demasiada frequência a Lisboa, muitas vezes sem precisarem sequer de sair da sua cidade ou da cidade de província que por algum acaso estavam a visitar, está a terminar. A troika, o governo e o statu quo encarregar-se-ão de devolver o país à condição de provinciano e de gosto único.
Dança contemporânea
["Gravity of Center", Rubberbandance: http://vimeo.com/30708149]
Gosto de música, de pintura, de cinema, de dança, de literatura, de teatro,
e gosto de tudo isto com um eclectismo bem pronunciado, que em certos momentos
— na presença de certa fidalguia artística menos condescendente— se pode tornar
embaraçoso. Mas, de todas as artes, a que mais me arrebata é a dança. Não a
dança clássica ou de salão (aqui o eclectismo retrai-se). Refiro-me à dança
contemporânea.
Não sou um indefectível da arte contemporânea. Nem sequer da arte
moderna. Ou modernista. Há movimentos ou tendências do século XX que deixaram sementes
e eu dispenso fora do seu contexto histórico e fora da história das ideias, ou
das atitudes. Acresce que o verniz de leituras, viagens, idas a museus e
teatros não sepultou de todo o rapazola que no fim a província manteve enredado:
por vezes dou por mim a olhar para algumas obras como um tradicional boi a
olhar para um palácio. (Porém, um boi que não investe.)
Mas sou certamente alguém que se aborrece com águas estagnadas, com o
gosto tradicional ou massificado, com a ingenuidade popular, com a pomposidade
e a arte mecânica, imitativa, evocativa, desinspirada, insensível, medíocre,
atrofiante.
Do ballet clássico, por
exemplo, interessa-me apenas a música. Se tenho o azar de entrar numa sala onde
se dança uma dessas peças, fecho os olhos e passo um bom bocado — que é ainda melhor
se há orquestra ao vivo.
De resto, por alguma razão o ballet
clássico se tornou “popular”, enchendo coliseus, e virou fetiche de elementos
de todas as classes (alta, média e baixa), que acorrem a ele com entusiasmo e
casacos de pele como a um ritual, a uma festividade religiosa, a uma vernissage, na sua ânsia de emular nos
hábitos e na pose fútil a elite aristocrata há muito destronada.
A dança contemporânea — expressão aliás vaga, equívoca, designando
desde peças efectivamente de dança a performances;
de teatro físico ou de objectos a produções multidisciplinares e
transdisciplinares; de momentos de expressão corporal a happenings — a dança contemporânea, dizia, aquela de que eu mais
gosto, confunde-se com algum teatro e raramente deixa de lado ou menoriza a
música, ou uma criativa sonoplastia. Está consciente da história da dança e das
suas múltiplas expressões — clássicas ou primitivas, de salão ou de rua,
urbanas ou folclóricas —, e não desdenha cumplicidades com a palavra e a
atitude teatral. De certo modo, em muitos casos, é aquilo a que eu chamaria a ópera dos dias de hoje: um espectáculo
global expressionista, que se absorve
mais com os sentidos do que com a razão. Como se lia num título do Público, «uma dança que não é para
perceber, é para sentir».
N’Os Idiotas, a minha «novela
picaresca» (assim se referiu ao livrinho um ilustre leitor), uma personagem
definia a dança contemporânea da seguinte maneira… picaresca: «um reboliço
caótico onde, espantosamente, era possível ainda assim perceber disciplina,
padrão, coreografia. Aquelas pessoas no palco assemelhavam-se a vítimas de
trombose, doentes epilépticos, loucos saídos do hospital psiquiátrico, mas no
meio do frenesim, dos transes, das convulsões e das quedas percebia-se que
exerciam autoridade sobre os seus membros. Pareciam desajeitadas porque tinham
decidido ser desajeitadas. Caíam, mas levantavam-se por si mesmas. Derrubavam
objectos no palco porque estava no guião derrubar objectos no palco. Eram,
enfim, donas do seu corpo e da sua vontade.» E também fazia um paralelismo com
o ballet: «[…] o que distinguia a
dança contemporânea da clássica era o que distinguia o caos da ordem. O ballet clássico tentava uma tal harmonia
e uma tal perfeição que se tornava artificial e enfadonho. A dança
contemporânea parecia mais ligada ao erro e à vida quotidiana dos corpos, mesmo
que na maior parte das vezes se tratasse de corpos atormentados», interpretados
por gente com um «perfil fibroso e elástico».
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Vizinhas novas no prédio
Perante uma berraria prolongada de três moças universitárias em frente
ao prédio (na verdade, uma só magricela, bebida e histérica, tenta à força de
decibéis obsessiva e compulsivamente pôr «de quatro» uma caloira mais cheiinha e
musculada, inamovível e paciente como um santo de altar), perante aquela berraria, alguma
vizinhança assoma à varanda. No bairro, o alvoroço estudantil é rotina que entorpece:
só é hábito chamar a polícia quando a coisa redunda em pancadaria a que não se
vê fim breve. Talvez por haver gente nova no prédio, de uma das varandas
ouvem-se uns «shiu!» e uns «então?!». O trio praxista, pouco habituado a que a vizinhança
dê sinais de vida, olha em redor, estupefacto. Para minha surpresa, enfia a
viola na bolsa coquete e retira, ordeiramente, como adolescentes a caminho da
catequese (um dos bares das imediações).
Estou eu a fruir o momento quando as moças da varanda (também são
moças, certamente novas no bairro) resolvem cantar vitória e lançam lá para
baixo: «Andor! Tá andar, caralho!»
Ora, desfez-se o feitiço. As teenagers
temporariamente bem-comportadas apontam como podem os queixos à varanda, reconhecem
como iguais as oponentes e soltam as peixeiras que há dentro delas (o sotaque
é do Porto, mas duvido que algum dia tenham vendido peixe no Bolhão, pelo que
retiro a ofensa àquelas profissionais). «Como?!», retorquem apontando a pélvis como
forcados amadores. «Vamos a calar!» ordenam as de cima, por alguma disfunção cognitiva
ou erupção de jactância tendo ignorado que caladas tinham ficado as outras ao
primeiro «shiu». «Estás-me a mandar calar?» «Estou, pois!» «Anda cá em baixo
então, caralho!»
Pronto, suspiro, eis como se desbarata uma vitória. Agora a berraria
passa a ter dois focos e não tarda há paralelepípedos arremessados às vidraças
e sempre será precisa a polícia.
Mas a noite reserva mais surpresas. As de cima retiram-se da varanda e,
ao contrário do que se suspeitaria, aparecem passado pouco tempo no passeio. A
coisa pode redundar em maior alvoroço do que o que havia, mas há que louvar às
moças da varanda a coerência. E a coragem: a caloira musculosa pôs-se entretanto do lado das dótoras, talvez em defesa do direito a ser humilhada.
Da minha própria varanda — comummente tomada neste blogue por bancada
de circo ou balaustrada de zoológico, com certa pretensão literária —, solto outro
suspiro. Novamente desajustado: as cinco moças ficam a trocar argumentos, mas,
ou as de cima têm um forte carisma, ou a magricela danificou as cordas vocais
na meia hora anterior: a altercação parece quase cordata. Podemos facilmente
imaginá-las daqui a pouco a trocar números de telefone ou endereços de e-mail.
Quando me retiro para a sala, tenho a certeza de que as da varanda vão
subir a buscar os casacos para se juntarem numa ida aos bares com as de baixo. E talvez
depois venham as cinco ali para o passeio muito amistosamente debater aos berros
quaisquer insignificantes diferenças de opinião, como sói fazer-se por aqui na
hora em que os bares fecham. Um céptico não acredita em milagres que sempre
durem.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Pedras Salgadas: futuro e memória
As ecohouses de Pedras
Salgadas têm recolhido elogios e prémios. Merecidamente. São de facto bonitas,
inteligentemente desenhadas e integradas no arvoredo do centenário parque. Convidam
irresistivelmente a habitá-las por um ou muitos fins-de-semana mesmo quem como
eu praticamente nasceu e foi criado naquele território romântico. Mas não sei
se tem sido referido um aspecto essencial: parte do sucesso das casas deve-se…
ao arvoredo do parque.
As ecohouses precisam de um
cenário. Tanto para os que se encantam apenas com as fotografias (e são a
maioria) como para os que de facto as visitam ou alugam. Quem já pôde confirmar
com os olhos que as casas são algo mais do que um belo projecto, com animações
3D muito pitorescas e realistas, terá por certo intuído que o cenário já era
bonito antes de as casas existirem.
Na verdade, o sucesso das ecohouses das
Pedras Salgadas iniciou-se há mais de um século, quando o parque começou a ser
plantado. Não abundam no país territórios como aquele e deveriam ser ferozmente
protegidos.
Uma parte das pessoas que ama as Pedras Salgadas, por baptismo ou
adopção, indignou-se com o projecto das ecohouses.
Parecia um sucedâneo miserável dos sonhos que as pessoas têm para ali. E de
algum modo estavam certas em achar as casas um sucedâneo. São-no. De uma forma literal
e pragmática. Substituem os hotéis que no seu tempo tiveram igual (ou maior) sucesso.
Mas substituem-nos não necessariamente de uma forma aviltante. Há um certo
realismo no projecto (e o realismo é quase sempre desmancha-prazeres), mas neste caso é um realismo sensato. Ou
antes: sensível. Há que reconhecer que as construções, ainda que modernas (ou por
isso mesmo), não feriram o território, respeitaram-no, dialogaram
construtivamente com ele, como a boa arquitectura sabe fazer. E são facilmente
desmontáveis, descartáveis, se acreditarmos que algum dia o termalismo terá suficiente
importância para encher hotéis em vez de casas nas árvores e defendermos que as
duas actividades são incompatíveis.
Há certa legitimidade em achar que os lucros de quem explora as águas
das Pedras (e paga os correspondentes impostos em Lisboa ou na Holanda) deveriam
obrigar — se não legal, moralmente — a concessionária a ser um pouco menos
realista e a sonhar um pouco mais com a terra. Mas esperar-se que reconstrua os
hotéis e os ponha a funcionar (como felizmente fez com o Balneário) é talvez irrealista,
se nos lembrarmos que a mesma empresa é também proprietária do magnífico Vidago
Palace Hotel, ali ao lado.
No curto prazo (enquanto o turismo termal não a estimule
suficientemente, se confiarmos que algum dia o venha a fazer), uma das formas que
a concessionária das águas tem de beneficiar a terra, de lhe assegurar um
futuro digno da sua antiga glória, é proteger
o património, como fez com as ecohouses
(e com o Casino, sejamos justos). Proteger desde logo, inexoravelmente, a sua
enorme riqueza botânica — e proteger o que resta de história, de memória nas
ruínas do Grande Hotel, do Hotel Universal, das Romanas (com a sua fonte e
edifício adjacente). Fora de muros, o território das Pedras Salgadas tem sido
paulatinamente descaracterizado. De termal resta ali praticamente a memória.
Dentro de muros, há abundância de fantasmas, mas fantasmas benignos e
eventualmente lucrativos.
Depois dos buracos deixados pela demolição do Hotel do Norte, do Bazar
Fotográfico, da Pensão do Parque e do Hotel Avelames (deve dizer-se que este tinha
sido já bastante prejudicado por intervenção medíocre anterior, que além de
descaracterizar o edifício abriu uma clareira no bosque contíguo,
revelando que os arquitectos responsáveis não perceberam o espírito romântico e
o interesse da sombra num parque termal); depois da demolição da Casa de Chá na
Romanas, a concessionária das águas mostraria já um grande respeito pela terra,
ajudá-la-ia bastante (por vezes até contra a vontade dela) se não permitisse o
abate de nenhuma árvore que não estivesse doente e se parasse com as
demolições.
O turismo termal nos dias de hoje tem potencialmente mais motivações do
que a tradicional ida a águas. Há a vertente da natureza (que o marketing das ecohouses evidentemente explorou) e há uma “arqueologia termal”, um
“turismo de época”, de “nostalgia” que não deveriam ser negligenciados. Ora,
estas duas vertentes só poderão ser rentabilizadas se o património edificado persistir,
como em Roma o Coliseu ou o que resta do Fórum. Claro que custa muito dinheiro
pôr os edifícios habitáveis, mas custa certamente muito menos estabilizá-los,
dar-lhes segurança, fazer deles elementos dignos da paisagem, do cenário que são
o parque termal e as Romanas. A Unicer será já amiga das Pedras Salgadas se
deixar de demolir património e se impedir a sua descaracterização. Se zelar
para que quaisquer intervenções nas suas propriedades (ou em áreas que com elas
conflituem) se façam com a mesma inteligência, o mesmo gosto, a mesma
sofisticação, a mesma clarividência arquitectónica das ecohouses.
Estão em curso intervenções na marginal ao rio (e
ao Parque) e nas Romanas. Eis um bom momento para a Unicer assegurar que no futuro
lhe agradeceremos a defesa intransigente que ela fez da nossa memória, do nosso
património — e do
nosso futuro. É que se se distrai ainda lhe plantam uma rotunda com uma
torneira em frente à entrada.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Escritor de levar para casa
Li que Valter Hugo Mãe esteve à conversa com leitores em Bragança ou
Macedo e que a algumas pessoas no fim apetecia levá-lo para casa, por ser tão doce. Fiquei
deprimido, com a inveja. Depois esbofeteei-me. Pela estupidez.
A inveja entre escritores é proverbial* — e tê-la sentido alegrou-me. Pensei
que já podia pegar no telefone e dizer: «Mãe, sou escritor!», como se tivesse
detectado os primeiros pêlos no buço (ou em zona mais meridional) e quisesse
gritar: «Mãe, já sou homem!»
Mas de seguida fiquei deprimido, porque, embora exagere nos açúcares,
jamais serei um tipo doce que as pessoas queiram ir ouvir falar — quanto mais levar
para casa.
Se depois me esbofeteei é porque me lembrei que detestaria que as pessoas
me quisessem levar para casa. Se por hipótese bizarra me quisessem ir ouvir
falar.
* Leia-se A Informação, de
Martin Amis.
Zuckerberg: vê lá se cresces, pá!
Como por infortúnio
(ou melhor dizendo, por ausência de fortuna) não posso comprar a revista LER,
amiguei-me com ela no Facebook. Contudo, o Facebook não deve gostar deste tipo
de promiscuidade, porque não me tem dado qualquer notícia de actualizações da página.
Dá-me notícias de actualizações patetas (sim, também as há no rol dos meus 275 "amigos") e dá-me sugestões de imbecilidades que não lhe pedi. Mas não me informa
de novidades da LER. De início julgava que era porque a revista não publicava nada, e creio que
assim foi durante algum tempo. Mas agora, por um acaso, descobri que o blogue da LER tem estado mais activo do que me lembrava e que a página do Facebook tem
espelhado essa actividade.
Caro Zuckerberg: bem sabemos que o bom uso que
alguns fazem da tua invenção é algo que não estava na tua cabeça e te deixa
contrariado, mas é um golpe baixo favorecer os patetas só porque simpatizas
mais com eles. Vê lá se cresces, pá, isto não é a universidade! Já não és um
caloiro! Ou um dux!
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
A nostalgia dos regicidas
As mimosas florescem,
mas é um embuste,
não há essa coisa a que chamam Primavera.
Este é o tempo dos regicidas,
alvoraçados como andorinhas.
Eles virão, eles virão.
Quando o cuco sobressoar nas copas
e o pica-pau na pele dos ulmeiros,
os reis lembrar-se-ão com estupor
da última luz de Nagasaki,
pobres nostálgicos.
Eles virão, eles virão,
arrasando o edificado
vergando a floresta
queimando terra e ar
estoirando os crânios reais (só de pensar neles)
— ou acordando com azia
num dia de expediente
e atrasados para o eléctrico.
Não há essa coisa a que chamam Primavera.
E.K.
[versão google translator retocada a partir de original grego]
mas é um embuste,
não há essa coisa a que chamam Primavera.
Este é o tempo dos regicidas,
alvoraçados como andorinhas.
Eles virão, eles virão.
Quando o cuco sobressoar nas copas
e o pica-pau na pele dos ulmeiros,
os reis lembrar-se-ão com estupor
da última luz de Nagasaki,
pobres nostálgicos.
Eles virão, eles virão,
arrasando o edificado
vergando a floresta
queimando terra e ar
estoirando os crânios reais (só de pensar neles)
— ou acordando com azia
num dia de expediente
e atrasados para o eléctrico.
Não há essa coisa a que chamam Primavera.
E.K.
[versão google translator retocada a partir de original grego]
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Ford Ácido
Os Idiotas segundo Nuno Costa Santos, n'O Marginal Ameno:
«Ford Ácido
Tenho transportado na mochila o romance "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo (O Lado Esquerdo Editora). Além de trazer uma artilharia literária potente, dá sempre jeito quando vou ter com figuras que não me inspiram a mais luminosa das simpatias. Mais do que as histórias, as viagens – pela Roménia, pelo Vietname - e as personagens, ficou-me a energia do tom do livro, que não encontro com tanta frequência na novíssima literatura portuguesa: um fulgor descomplexado, uma vocação para a frase crua de efeito satírico, uma especulação de cronista livre, uma mundana deambulação sem sinal de parábola.
Vejo aqui uma influência de alguma literatura americana, no sentido mais coloquial e sem berloques do termo (a epígrafe é de Philipp Meyer, autor de "Ferrugem Americana"). Fala-se do regresso à terra, da vida numa pequena cidade que quer ser maior do que é, de políticos que contratam bloggers para escreverem comentários semanais, da bancarrota de países e das relações, de presidentes de câmara sem dimensão, das mamas da Mafalda, a funcionária da biblioteca. E de bebedeiras. Vocês sabem que sou pelas frases, mesmo tendo a consciência de que há romances maiores que as dispensam. Quando as há, colecciono-as. Guardei algumas, de uma estirpe literariamente incorrecta, no masculino e no feminino:
- "No que concerne à líbido, os homens tendem a ser trolhas na hora de a exprimir".
- "Pensei ingenuamente que uma vida difícil tirava o ânimo da cópula, mas estava-me a esquecer da taxa de natalidade nos países do terceiro mundo".
- "Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável".
- "O teatro impúdico e repugnante da intimidade alheia".
- "Creio que o beijei mesmo como quem esmurra, com igual raiva, igual necessidade de ferir, de causar sofrimento, de humilhar, de vencer, ficar por cima”.
- “Que porra sabemos nós do que pensávamos e sentíamos na adolescência?”.
Existe mais concisa acidez em “Os Idiotas” – com referências sem interlúdios à cultura pop, a filmes com George Clooney sobre despedimentos, aos AC/DC e ao"Creep" dos doutores Radiohead. Em cada passo sente-se uma voz vigiada, sempre disposta a sabotar o que registou uma linha antes, que se deixa transportar num Ford Capri 1300 de 1972, o mesmo que figura no desenho bem sacado da capa.»
domingo, 9 de fevereiro de 2014
The boy with the thorn in his side
Como não pensar que há uma correspondência entre a tempestade e a necessidade de eloquência? Ou de mera expressão? O vento fala por mim.
Tom Rosenthal
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Redireccionando a bigorna
«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a "comunicação" entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»
Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se
o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares
(que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos:
o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de
comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e
consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais:
este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do
Correio da Manhã, esse órgão onde
parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e
sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas
não leiam jornais, nem sequer o CM. A
Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)
O Facebook é também por certo
uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora,
reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem,
que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor:
reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é
ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.
Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência
do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta
de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O
problema é a subserviência. A
idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a
idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do
que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de
sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Velas benzidas
[Eis o conto a que se referia o post anterior:]
Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz
falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum
modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos
obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
10 livros que me marcaram
[Desafiado para uma “corrente” no Facebook, fiz a seguinte lista, que
não resisti a comentar. Escuso de dizer que os dez livros indicados não são os dez
livros da minha vida, mas apenas alguns deles.]
1 - A MONTANHA MÁGICA,
Thomas Mann.
Li-o numa edição que já tinha passado por várias mãos, sem capas, em
papel amarelado, com cheiros antigos, talvez a edição perfeita para me
transportar para a época da acção. Foi-me emprestado pelo meu grande amigo
Carlos Chaves e, entre tantos, fiquei-lhe a dever também este favor: de me por na
rota da literatura séria. Era Inverno mas nos dias que demorei a lê-lo nunca
houve frio. Na cama, funcionava como um cobertor extra, um que aquecia também a
alma.
2 - A GUERRA DO FOGO, J.-H.
Rosny, pseudónimo dos irmãos belgas Joseph Henri Honoré Boex e Séraphin Justin
François Boex.
Também é uma recordação de calor por fonte literária. Devo dizer que
não tenho a certeza absoluta de que o livro que me ficou na memória seja este,
embora pela pesquisa qui fiz na Internet a probabilidade seja bastante grande.
Terei de ver o filme. As razões por que me marcou serviram já de inspiração
para este post: http://www.canhoes.blogspot.pt/2011/12/planos-de-vida.html
e um conto (“Velas benzidas”), que, já agora, publicarei aqui num post a
seguir.
3 - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA,
Gabriel García Márquez. Li-o de uma assentada com espanto por ficar preso a uma
história de que sabia o fim. Tinha andado a fazer a limpeza de Primavera (na
minha terra fazia-se na Páscoa uma limpeza anual aprofundada à casa, e eu devo
ter demorado a livrar-me do ritual). O mundo, como a casa e os lençóis lavados,
cheirava a fresco, parecia estar a começar de novo, resplandecente e auspicioso.
Tenho de me lembrar dessa receita para estes dias de chumbo. Uma barrela e um
livro.
4 - O PROCESSO, Franz Kafka. Durante alguns anos, dizia, como elogio
à força do livro, que durante a leitura, nas partes do tribunal, me doía o
pescoço ao imaginar-me nas galerias de tecto baixo que obrigavam a assistência
a ter a cabeça dobrada. Hoje nem sequer sei se o livro tem de facto uma parte
assim ou se, como tantas vezes, a minha memória se pôs a ficcionar. De qualquer
modo, a estranheza das histórias e o magnetismo da escrita de Kafka, neste e
nos outros romances e contos, foram definitivamente marcos literários na minha
vida.
5 – A PORTA DOS LIMITES (Urbano Tavares Rodrigues) e 6 – FATHERLAND (Robert Harris).
Refiro estes não exactamente pela sua qualidade literária (de Urbano
teria de referir A Vaga de Calor), mas porque em dois momentos da vida me
alertaram para o facto de que havia mais literatura (e prazer) do que a de
aventuras ou de ficção científica. Depois deles estava pronto para A Montanha
Mágica. Que foram marcantes, testemunham as vezes que já os mencionei, como
neste post: http://canhoes.blogspot.pt/2011/11/de-equivoco-em-equivoco.html
e num outro de uma vida anterior do blogue que talvez um dia reponha por aqui.
7 – EM NOME DA TERRA, Vergílio Ferreira. É este mas podiam ser vários
outros do mesmo autor. Folheei-o na casa de alguém com uma atitude snob, não querendo acreditar que a
proprietária o comprara intencionalmente, o não confundira com literatura do
coração. (Consegui ser muitas vezes parvo ao longo da vida.) Eu nunca lera
nenhum livro de Vergílio, mas por ter ‘ouvido dizer’ que era bom achava-me já no
direito de desconfiar de quem de facto o comprara para ler. Enquanto o folheava,
fui agarrado pelos tomates. Aquilo era avassalador: a escrita, o ambiente, a
narrativa, a indagação existencialista, a poesia amarga ou melancólica do
discurso. Revia-me intensamente naquele tom e entrava com assombro num mundo de
gente mais velha, que olhava para a vida de outro estádio, para mim ainda
estranho. Pedi-o emprestado e de seguida comprei e li tudo o que apanhei do
autor, aproveitando sofregamente as pausas do almoço.
8. O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, José Saramago
Comecei pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo, que achei bom, mas
passado num ambiente e num estilo de parábola que nunca me entusiasmaram. O Ensaio
Sobre a Cegueira (que já não me lembro se li antes ou depois de O Ano da Morte…)
pareceu-me “bom demais” e, na minha juventude insegura, temi estar a ser levado
por um eficaz efeito cinematográfico (antes de haver o filme). O Ano da Morte de
Ricardo Reis parecia-se mais com os clássicos e tinha uma história menos fantástica,
apesar da sua improbabilidade. A Lisboa narrada, o ambiente no quarto, na sala
de jantar, no hotel, nas próprias ruas, as relações entre as personagens, tudo
isso tinha para mim muito de A Montanha Mágica, para dialogar com outro livro
desta lista. Deveria lê-lo de novo para perceber se a parte política, agora
mais percebida, me teria influenciado negativa ou positivamente. Seja como for,
o menos saramaguiano dos livros de Saramago ficou-me na memória e nos afectos
como um dos livros da minha vida. De resto, prefiro este lado mais sombrio e
kafkiano da obra do autor: Todos Os Nomes seria a minha segunda escolha.
9. O ANIMAL MORIBUNDO, Philip Roth
Este é uma leitura mais recente, com uns seis ou sete anos. O fã de
aventuras e ficção científica tinha-se transformado e passara a interessar-se
por quem escrevia sobre a vida das pessoas, a sua psicologia, as suas relações,
a doença, o amor frustrado, os sentimentos, etc. Já passara nos anos anteriores
por Updike, Bellow, Carver, etc. Talvez ainda fosse o mesmo fascínio da Natureza,
das sagas, do Universo, mas agora concentrada na aventura e no mistério de estar
vivo. A prosa de Philip também ajudou a que por aquela altura me apetecesse oferecer
o livro a toda a gente. E ainda não tinha lido O Complexo de Portnoy.
10. AS LÁGRIMAS DE MEU PAI, de John Updike. (Também podia ser Procurai
a Minha Face.)
Leitura ainda mais recente, esta colecção de contos é tudo o que
gostaria de escrever na terceira idade, se algum dia lá chegar. (Bem, é tudo o
que eu não me importava de escrever ‘agora’…) A mestria da escrita, a
serenidade do tom, a paz, a evocação não exactamente nostálgica nem traumática
da vida dos protagonistas… O livro é uma espécie de testamento, de despedida do
escritor. Pelo menos eu li-o assim. São histórias de gente idosa que se
encontra com velhos colegas de liceu em jantares de curso ou por acaso, que se
visita em lares de terceira idade, que reencontra antigos cônjuges ou amantes,
que confere a lista de baixas, as doenças, os desaparecimentos, as inflexões
nas relações, as mudanças de carácter. Que revisita lugares antigos. Mas tudo é
relatado, observado com uma ironia carinhosa, um afecto cordial e discreto.
Como só os espíritos superiores podem olhar para a vida.
[O décimo livro poderia ou deveria ter sido O Teu Rosto Amanhã, de
Javier Marias, mas sobre ele teria de me atrever a um longo texto e isto já vai
suficientemente arrastado. Já o aflorei em pelo menos dois posts, este http://canhoes.blogspot.pt/2013/10/moldando-o-entusiasmo.html
e este http://canhoes.blogspot.pt/2012/03/o-tempo-e-prosa.html.
E A Piada Infinita? E Liberdade? E A Viúva Grávida? E...?
«Ser humilhado é um direito»
O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não
exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades
exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com
frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto
prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se
revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos;
se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem
resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e
títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante
fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm)
para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras
à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais
afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade.
Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas
perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são
curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
The show must go on
Perante um
"contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal
engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de
pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.
P.S. Visto no jas-mim.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria
O El Mundo trouxe à luz do
dia os casos Bárcenas (financiamento
ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente,
afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor,
que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em
projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o
dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico
ou cultural (as do Público Mais). São
interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores,
jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da
investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de
El Mundo, os leitores do jornal
deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais
difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das
democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em
Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia
por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes
ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo
a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.sábado, 1 de fevereiro de 2014
Pequenos retratos infames (1)
José Manuel Fernandes
Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto
editorial, o Observador, que certamente
não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho
Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do
velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José
Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela
conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da
juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão
natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados
de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel
Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea
Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos,
uma espécie de Bonnie and Clyde com um
gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha
fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste
género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às
artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo
director do Público. Anos atrás, ele
escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela
educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de
“criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia
dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas
artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um
passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos
um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições
tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel
Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem.
É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas
agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco
grande de os portugueses confundirem o Observador
com o Diário da República, quando
notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de
concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício
em assinar o Observador, onde as (más)
novas legislativas aparecerão primeiro. O DR
deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público
oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Private, but not a joke
Convocado para uma farsa, sentiu por fim na pele o que é ser estalinescamente apagado de uma fotografia antiga. Resta-lhe agora decidir se aguarda a picareta cordial ou colericamente.
Diálogo de partisans
J.: Vai haver um dia em que as pessoas de bons sentimentos e ilustração
terão de se mobilizar contra uma sociedade onde imperam jotinhas e boçais.
G.: Concordo, mas temo é que pelo andar da carruagem essa mobilização
seja já a de um movimento de resistência, de sabotagem, clandestino, de
sobrevivência — não a de um exército que impressione e vença guerras pela mera
exibição do número das suas tropas.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
A liberdade de ser e o papel do bobo
Os pobres de espírito e de carácter (e até de inteligência, não pode
ser totalmente inteligente quem não percebe o conceito de liberdade individual)
hão-de precisar sempre de alguém a quem discriminar, sobre quem fazer recair raivas,
preconceitos, frustrações, complexos. A História ensina: mulheres, pretos,
judeus, homossexuais… Há sempre um “argumento” de ordem “natural”, “científica”
ou “cultural” para negarem ao próximo aquilo de que se consideram legítimos (alguns
por direito divino) detentores: a liberdade de ser. É da definição de liberdade
global que o direito a ser imbecil, inalienável, tem de se restringir à esfera
do próprio indivíduo. Por favor ninguém proponha, neste estádio da civilização,
um referendo sobre a possibilidade de as pessoas serem parvas para si mesmas. Direitos
humanos não se referendam — e continuamos
a precisar de cromos de quem rir. Não os deixemos é legislar, não é esse, historicamente, o papel do bobo.
Tontarias
Sobre um artigo de um tal Nuno Ferreira no P3 (esse por vezes compêndio de má escrita e mentes ingénuas), escrevi numa página de Facebook o comentário abaixo. Foi num impulso da madrugada e acabei por tirar os insultos, como compete às pessoas decentes. Mas nem sei porque me dei ao trabalho. De comentar e de tirar depois os insultos.
De qualquer modo, partilho:
UM IDIOTA ÚTIL, PRESUMO | Eu próprio já escrevi que uma licenciatura não é, nem poderia ser, uma garantia de emprego. Mas, para além da manifesta falta de empatia pelos seus concidadãos, o autor do artigo ignora as circunstâncias e sofre de vários preconceitos. Ao ponto de afogar em estupidez e cinismo a pouca razão que tem.
Ignora, por exemplo, que os «calimeros» de que fala não encontram emprego na área da sua licenciatura nem em área nenhuma. Ou que, quando o encontram, é em condições precárias, mal remuneradas e não raro humilhantes (para licenciados e não licenciados).
A sua definição de «emigrante normal» seria hilariante, se além de patética não fosse manipuladora.
O país não tem de «sustentar profissões que já não fazem sentido» diz o jovem empreendedor (deve ser um jovem empreendedor, não deve, este Nuno Ferreira?). Mas não define é quais são as profissões que não fazem sentido. Talvez porque lhe daria muito trabalho. É que no Portugal de hoje são poucas as profissões que fazem sentido (ou seja, que empregam gente) e infelizmente deixam de fora mais de 15% dos portugueses (números oficiais, logo muito optimistas) e muitas das que «fazem sentido» pagam o salário que Nuno Ferreira certamente acharia escandaloso (ou não, o optimismo destes gajos é do tipo religioso, submisso).
«E quando existem quase 1,5 milhões de licenciados (a que todos os anos se juntam mais 80 mil), não será difícil adivinhar que, num futuro próximo, alguns caixas de supermercado, empregadas da limpeza ou empregados de balcão sejam licenciados. É uma evolução vulgar de Lineu: se caminhamos, e bem, para a educação superior de quase todos, alguns vão ter de fazer o que tem de ser feito e não o que gostariam de fazer.» Não é para mim escandaloso este parágrafo do jovem empreendedor. É apenas pragmático. Tem é dois problemas: no contexto do seu artigo, não conseguimos deixar de pensar que ele se exclui das tarefas que evidentemente considera menores. O outro problema, revelador dos seus preconceitos, e que me deixa particularmente indisposto, é a designação «empregadas de limpeza». Todas as outras profissões foram definidas no masculino, «empregadas de limpeza» no feminino. Alguém que tenciona de forma tão evidente mostrar-se um livre espírito (sejamos por momentos condescendentes) tinha obrigação de não ser tradicionalista ou sexista na abordagem destes assuntos. Para mim, quem utiliza de forma automática o género feminino para identificar profissões ou cargos marcados pelo ferrete das sociedades patriarcais, como «secretária» ou «empregada de limpeza», merece pouco respeito intelectual. Se a isso somarmos a inoportunidade, a inexactidão, o equívoco, a manipulação e o cinismo do seu texto, fico bastante convencido que estamos na presença de um idiota útil, mais um bate-punho desta admirável era passista.
De qualquer modo, partilho:
UM IDIOTA ÚTIL, PRESUMO | Eu próprio já escrevi que uma licenciatura não é, nem poderia ser, uma garantia de emprego. Mas, para além da manifesta falta de empatia pelos seus concidadãos, o autor do artigo ignora as circunstâncias e sofre de vários preconceitos. Ao ponto de afogar em estupidez e cinismo a pouca razão que tem.
Ignora, por exemplo, que os «calimeros» de que fala não encontram emprego na área da sua licenciatura nem em área nenhuma. Ou que, quando o encontram, é em condições precárias, mal remuneradas e não raro humilhantes (para licenciados e não licenciados).
A sua definição de «emigrante normal» seria hilariante, se além de patética não fosse manipuladora.
O país não tem de «sustentar profissões que já não fazem sentido» diz o jovem empreendedor (deve ser um jovem empreendedor, não deve, este Nuno Ferreira?). Mas não define é quais são as profissões que não fazem sentido. Talvez porque lhe daria muito trabalho. É que no Portugal de hoje são poucas as profissões que fazem sentido (ou seja, que empregam gente) e infelizmente deixam de fora mais de 15% dos portugueses (números oficiais, logo muito optimistas) e muitas das que «fazem sentido» pagam o salário que Nuno Ferreira certamente acharia escandaloso (ou não, o optimismo destes gajos é do tipo religioso, submisso).
«E quando existem quase 1,5 milhões de licenciados (a que todos os anos se juntam mais 80 mil), não será difícil adivinhar que, num futuro próximo, alguns caixas de supermercado, empregadas da limpeza ou empregados de balcão sejam licenciados. É uma evolução vulgar de Lineu: se caminhamos, e bem, para a educação superior de quase todos, alguns vão ter de fazer o que tem de ser feito e não o que gostariam de fazer.» Não é para mim escandaloso este parágrafo do jovem empreendedor. É apenas pragmático. Tem é dois problemas: no contexto do seu artigo, não conseguimos deixar de pensar que ele se exclui das tarefas que evidentemente considera menores. O outro problema, revelador dos seus preconceitos, e que me deixa particularmente indisposto, é a designação «empregadas de limpeza». Todas as outras profissões foram definidas no masculino, «empregadas de limpeza» no feminino. Alguém que tenciona de forma tão evidente mostrar-se um livre espírito (sejamos por momentos condescendentes) tinha obrigação de não ser tradicionalista ou sexista na abordagem destes assuntos. Para mim, quem utiliza de forma automática o género feminino para identificar profissões ou cargos marcados pelo ferrete das sociedades patriarcais, como «secretária» ou «empregada de limpeza», merece pouco respeito intelectual. Se a isso somarmos a inoportunidade, a inexactidão, o equívoco, a manipulação e o cinismo do seu texto, fico bastante convencido que estamos na presença de um idiota útil, mais um bate-punho desta admirável era passista.
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