segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ford Ácido

Os Idiotas segundo Nuno Costa Santos, n'O Marginal Ameno:
«Ford Ácido
Tenho transportado na mochila o romance "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo (O Lado Esquerdo Editora). Além de trazer uma artilharia literária potente, dá sempre jeito quando vou ter com figuras que não me inspiram a mais luminosa das simpatias. Mais do que as histórias, as viagens – pela Roménia, pelo Vietname - e as personagens, ficou-me a energia do tom do livro, que não encontro com tanta frequência na novíssima literatura portuguesa: um fulgor descomplexado, uma vocação para a frase crua de efeito satírico, uma especulação de cronista livre, uma mundana deambulação sem sinal de parábola.
Vejo aqui uma influência de alguma literatura americana, no sentido mais coloquial e sem berloques do termo (a epígrafe é de Philipp Meyer, autor de "Ferrugem Americana"). Fala-se do regresso à terra, da vida numa pequena cidade que quer ser maior do que é, de políticos que contratam bloggers para escreverem comentários semanais, da bancarrota de países e das relações, de presidentes de câmara sem dimensão, das mamas da Mafalda, a funcionária da biblioteca. E de bebedeiras. Vocês sabem que sou pelas frases, mesmo tendo a consciência de que há romances maiores que as dispensam. Quando as há, colecciono-as. Guardei algumas, de uma estirpe literariamente incorrecta, no masculino e no feminino:
- "No que concerne à líbido, os homens tendem a ser trolhas na hora de a exprimir".
- "Pensei ingenuamente que uma vida difícil tirava o ânimo da cópula, mas estava-me a esquecer da taxa de natalidade nos países do terceiro mundo".
- "Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável".
- "O teatro impúdico e repugnante da intimidade alheia".
- "Creio que o beijei mesmo como quem esmurra, com igual raiva, igual necessidade de ferir, de causar sofrimento, de humilhar, de vencer, ficar por cima”.
- “Que porra sabemos nós do que pensávamos e sentíamos na adolescência?”.
Existe mais concisa acidez em “Os Idiotas” – com referências sem interlúdios à cultura pop, a filmes com George Clooney sobre despedimentos, aos AC/DC e ao"Creep" dos doutores Radiohead. Em cada passo sente-se uma voz vigiada, sempre disposta a sabotar o que registou uma linha antes, que se deixa transportar num Ford Capri 1300 de 1972, o mesmo que figura no desenho bem sacado da capa.»

domingo, 9 de fevereiro de 2014

The boy with the thorn in his side

Como não pensar que há uma correspondência entre a tempestade e a necessidade de eloquência? Ou de mera expressão? O vento fala por mim.

Tom Rosenthal

Quando nos sentimos felizes por não conhecer a música original. Não: quando nos sentimos felizes por conhecer um excelente artista.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Redireccionando a bigorna

«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a "comunicação" entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»
Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares (que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos: o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais: este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do Correio da Manhã, esse órgão onde parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas não leiam jornais, nem sequer o CM. A Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)  

O Facebook é também por certo uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora, reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem, que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor: reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.

Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O problema é a subserviência. A idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)

A cair uma bigorna (e Deus sabe como eu sonho com uma há décadas) que caia primeiro nas TVs, onde traz mais proveito e tem bem menos probabilidades de esmagar inocentes.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Velas benzidas

[Eis o conto a que se referia o post anterior:]

Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.

10 livros que me marcaram

[Desafiado para uma “corrente” no Facebook, fiz a seguinte lista, que não resisti a comentar. Escuso de dizer que os dez livros indicados não são os dez livros da minha vida, mas apenas alguns deles.]

1 - A MONTANHA MÁGICA, Thomas Mann.
Li-o numa edição que já tinha passado por várias mãos, sem capas, em papel amarelado, com cheiros antigos, talvez a edição perfeita para me transportar para a época da acção. Foi-me emprestado pelo meu grande amigo Carlos Chaves e, entre tantos, fiquei-lhe a dever também este favor: de me por na rota da literatura séria. Era Inverno mas nos dias que demorei a lê-lo nunca houve frio. Na cama, funcionava como um cobertor extra, um que aquecia também a alma.

2 - A GUERRA DO FOGO, J.-H. Rosny, pseudónimo dos irmãos belgas Joseph Henri Honoré Boex e Séraphin Justin François Boex.
Também é uma recordação de calor por fonte literária. Devo dizer que não tenho a certeza absoluta de que o livro que me ficou na memória seja este, embora pela pesquisa qui fiz na Internet a probabilidade seja bastante grande. Terei de ver o filme. As razões por que me marcou serviram já de inspiração para este post: http://www.canhoes.blogspot.pt/2011/12/planos-de-vida.html e um conto (“Velas benzidas”), que, já agora, publicarei aqui num post a seguir.

3 - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA, Gabriel García Márquez. Li-o de uma assentada com espanto por ficar preso a uma história de que sabia o fim. Tinha andado a fazer a limpeza de Primavera (na minha terra fazia-se na Páscoa uma limpeza anual aprofundada à casa, e eu devo ter demorado a livrar-me do ritual). O mundo, como a casa e os lençóis lavados, cheirava a fresco, parecia estar a começar de novo, resplandecente e auspicioso. Tenho de me lembrar dessa receita para estes dias de chumbo. Uma barrela e um livro.

4 - O PROCESSO, Franz Kafka. Durante alguns anos, dizia, como elogio à força do livro, que durante a leitura, nas partes do tribunal, me doía o pescoço ao imaginar-me nas galerias de tecto baixo que obrigavam a assistência a ter a cabeça dobrada. Hoje nem sequer sei se o livro tem de facto uma parte assim ou se, como tantas vezes, a minha memória se pôs a ficcionar. De qualquer modo, a estranheza das histórias e o magnetismo da escrita de Kafka, neste e nos outros romances e contos, foram definitivamente marcos literários na minha vida.

5 – A PORTA DOS LIMITES (Urbano Tavares Rodrigues) e 6 – FATHERLAND (Robert Harris).
Refiro estes não exactamente pela sua qualidade literária (de Urbano teria de referir A Vaga de Calor), mas porque em dois momentos da vida me alertaram para o facto de que havia mais literatura (e prazer) do que a de aventuras ou de ficção científica. Depois deles estava pronto para A Montanha Mágica. Que foram marcantes, testemunham as vezes que já os mencionei, como neste post: http://canhoes.blogspot.pt/2011/11/de-equivoco-em-equivoco.html e num outro de uma vida anterior do blogue que talvez um dia reponha por aqui.

7 – EM NOME DA TERRA, Vergílio Ferreira. É este mas podiam ser vários outros do mesmo autor. Folheei-o na casa de alguém com uma atitude snob, não querendo acreditar que a proprietária o comprara intencionalmente, o não confundira com literatura do coração. (Consegui ser muitas vezes parvo ao longo da vida.) Eu nunca lera nenhum livro de Vergílio, mas por ter ‘ouvido dizer’ que era bom achava-me já no direito de desconfiar de quem de facto o comprara para ler. Enquanto o folheava, fui agarrado pelos tomates. Aquilo era avassalador: a escrita, o ambiente, a narrativa, a indagação existencialista, a poesia amarga ou melancólica do discurso. Revia-me intensamente naquele tom e entrava com assombro num mundo de gente mais velha, que olhava para a vida de outro estádio, para mim ainda estranho. Pedi-o emprestado e de seguida comprei e li tudo o que apanhei do autor, aproveitando sofregamente as pausas do almoço.

8. O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, José Saramago
Comecei pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo, que achei bom, mas passado num ambiente e num estilo de parábola que nunca me entusiasmaram. O Ensaio Sobre a Cegueira (que já não me lembro se li antes ou depois de O Ano da Morte…) pareceu-me “bom demais” e, na minha juventude insegura, temi estar a ser levado por um eficaz efeito cinematográfico (antes de haver o filme). O Ano da Morte de Ricardo Reis parecia-se mais com os clássicos e tinha uma história menos fantástica, apesar da sua improbabilidade. A Lisboa narrada, o ambiente no quarto, na sala de jantar, no hotel, nas próprias ruas, as relações entre as personagens, tudo isso tinha para mim muito de A Montanha Mágica, para dialogar com outro livro desta lista. Deveria lê-lo de novo para perceber se a parte política, agora mais percebida, me teria influenciado negativa ou positivamente. Seja como for, o menos saramaguiano dos livros de Saramago ficou-me na memória e nos afectos como um dos livros da minha vida. De resto, prefiro este lado mais sombrio e kafkiano da obra do autor: Todos Os Nomes seria a minha segunda escolha.

9. O ANIMAL MORIBUNDO, Philip Roth
Este é uma leitura mais recente, com uns seis ou sete anos. O fã de aventuras e ficção científica tinha-se transformado e passara a interessar-se por quem escrevia sobre a vida das pessoas, a sua psicologia, as suas relações, a doença, o amor frustrado, os sentimentos, etc. Já passara nos anos anteriores por Updike, Bellow, Carver, etc. Talvez ainda fosse o mesmo fascínio da Natureza, das sagas, do Universo, mas agora concentrada na aventura e no mistério de estar vivo. A prosa de Philip também ajudou a que por aquela altura me apetecesse oferecer o livro a toda a gente. E ainda não tinha lido O Complexo de Portnoy.

10. AS LÁGRIMAS DE MEU PAI, de John Updike. (Também podia ser Procurai a Minha Face.)
Leitura ainda mais recente, esta colecção de contos é tudo o que gostaria de escrever na terceira idade, se algum dia lá chegar. (Bem, é tudo o que eu não me importava de escrever ‘agora’…) A mestria da escrita, a serenidade do tom, a paz, a evocação não exactamente nostálgica nem traumática da vida dos protagonistas… O livro é uma espécie de testamento, de despedida do escritor. Pelo menos eu li-o assim. São histórias de gente idosa que se encontra com velhos colegas de liceu em jantares de curso ou por acaso, que se visita em lares de terceira idade, que reencontra antigos cônjuges ou amantes, que confere a lista de baixas, as doenças, os desaparecimentos, as inflexões nas relações, as mudanças de carácter. Que revisita lugares antigos. Mas tudo é relatado, observado com uma ironia carinhosa, um afecto cordial e discreto. Como só os espíritos superiores podem olhar para a vida.

[O décimo livro poderia ou deveria ter sido O Teu Rosto Amanhã, de Javier Marias, mas sobre ele teria de me atrever a um longo texto e isto já vai suficientemente arrastado. Já o aflorei em pelo menos dois posts, este http://canhoes.blogspot.pt/2013/10/moldando-o-entusiasmo.html e este http://canhoes.blogspot.pt/2012/03/o-tempo-e-prosa.html.


E A Piada Infinita? E Liberdade? E A Viúva Grávida? E...?

«Ser humilhado é um direito»

O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos; se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm) para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade. Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

The show must go on

Perante um "contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.


P.S. Visto no jas-mim.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria

O El Mundo trouxe à luz do dia os casos Bárcenas (financiamento ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente, afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor, que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico ou cultural (as do Público Mais). São interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores, jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de El Mundo, os leitores do jornal deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pequenos retratos infames (1)

José Manuel Fernandes

Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto editorial, o Observador, que certamente não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos, uma espécie de Bonnie and Clyde com um gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo director do Público. Anos atrás, ele escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de “criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem. É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco grande de os portugueses confundirem o Observador com o Diário da República, quando notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício em assinar o Observador, onde as (más) novas legislativas aparecerão primeiro. O DR deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Private, but not a joke

Convocado para uma farsa, sentiu por fim na pele o que é ser estalinescamente apagado de uma fotografia antiga. Resta-lhe agora decidir se aguarda a picareta cordial ou colericamente.

Diálogo de partisans

J.: Vai haver um dia em que as pessoas de bons sentimentos e ilustração terão de se mobilizar contra uma sociedade onde imperam jotinhas e boçais.

G.: Concordo, mas temo é que pelo andar da carruagem essa mobilização seja já a de um movimento de resistência, de sabotagem, clandestino, de sobrevivência — não a de um exército que impressione e vença guerras pela mera exibição do número das suas tropas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A liberdade de ser e o papel do bobo

Os pobres de espírito e de carácter (e até de inteligência, não pode ser totalmente inteligente quem não percebe o conceito de liberdade individual) hão-de precisar sempre de alguém a quem discriminar, sobre quem fazer recair raivas, preconceitos, frustrações, complexos. A História ensina: mulheres, pretos, judeus, homossexuais… Há sempre um “argumento” de ordem “natural”, “científica” ou “cultural” para negarem ao próximo aquilo de que se consideram legítimos (alguns por direito divino) detentores: a liberdade de ser. É da definição de liberdade global que o direito a ser imbecil, inalienável, tem de se restringir à esfera do próprio indivíduo. Por favor ninguém proponha, neste estádio da civilização, um referendo sobre a possibilidade de as pessoas serem parvas para si mesmas. Direitos humanos não se referendam — e continuamos a precisar de cromos de quem rir. Não os deixemos é legislar, não é esse, historicamente, o papel do bobo.

Tontarias

Sobre um artigo de um tal Nuno Ferreira no P3 (esse por vezes compêndio de má escrita e mentes ingénuas), escrevi numa página de Facebook o comentário abaixo. Foi num impulso da madrugada e acabei por tirar os insultos, como compete às pessoas decentes. Mas nem sei porque me dei ao trabalho. De comentar e de tirar depois os insultos.
De qualquer modo, partilho:

UM IDIOTA ÚTIL, PRESUMO | Eu próprio já escrevi que uma licenciatura não é, nem poderia ser, uma garantia de emprego. Mas, para além da manifesta falta de empatia pelos seus concidadãos, o autor do artigo ignora as circunstâncias e sofre de vários preconceitos. Ao ponto de afogar em estupidez e cinismo a pouca razão que tem.
Ignora, por exemplo, que os «calimeros» de que fala não encontram emprego na área da sua licenciatura nem em área nenhuma. Ou que, quando o encontram, é em condições precárias, mal remuneradas e não raro humilhantes (para licenciados e não licenciados).
A sua definição de «emigrante normal» seria hilariante, se além de patética não fosse manipuladora.

O país não tem de «sustentar profissões que já não fazem sentido» diz o jovem empreendedor (deve ser um jovem empreendedor, não deve, este Nuno Ferreira?). Mas não define é quais são as profissões que não fazem sentido. Talvez porque lhe daria muito trabalho. É que no Portugal de hoje são poucas as profissões que fazem sentido (ou seja, que empregam gente) e infelizmente deixam de fora mais de 15% dos portugueses (números oficiais, logo muito optimistas) e muitas das que «fazem sentido» pagam o salário que Nuno Ferreira certamente acharia escandaloso (ou não, o optimismo destes gajos é do tipo religioso, submisso).

«E quando existem quase 1,5 milhões de licenciados (a que todos os anos se juntam mais 80 mil), não será difícil adivinhar que, num futuro próximo, alguns caixas de supermercado, empregadas da limpeza ou empregados de balcão sejam licenciados. É uma evolução vulgar de Lineu: se caminhamos, e bem, para a educação superior de quase todos, alguns vão ter de fazer o que tem de ser feito e não o que gostariam de fazer.» Não é para mim escandaloso este parágrafo do jovem empreendedor. É apenas pragmático. Tem é dois problemas: no contexto do seu artigo, não conseguimos deixar de pensar que ele se exclui das tarefas que evidentemente considera menores. O outro problema, revelador dos seus preconceitos, e que me deixa particularmente indisposto, é a designação «empregadas de limpeza». Todas as outras profissões foram definidas no masculino, «empregadas de limpeza» no feminino. Alguém que tenciona de forma tão evidente mostrar-se um livre espírito (sejamos por momentos condescendentes) tinha obrigação de não ser tradicionalista ou sexista na abordagem destes assuntos. Para mim, quem utiliza de forma automática o género feminino para identificar profissões ou cargos marcados pelo ferrete das sociedades patriarcais, como «secretária» ou «empregada de limpeza», merece pouco respeito intelectual. Se a isso somarmos a inoportunidade, a inexactidão, o equívoco, a manipulação e o cinismo do seu texto, fico bastante convencido que estamos na presença de um idiota útil, mais um bate-punho desta admirável era passista.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Caixa de Pandora

Há uma certa ironia no facto de a Quetzal, que publicou em 2010 o livro Mudar, o mein kampf de Passos Coelho, ser a mesma editora que lançou no final do ano passado Austeridade – A história de uma ideia perigosa. Se pudéssemos ver nisto um ciclo, a abertura e o fecho de um ciclo… 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Allahu Akbar

Descubro agora que o início da segunda vida deste blogue coincidiu com a ascensão de Passos Coelho a Primeiro-Ministro. Desculpem a má-sorte. Acabo já com o blogue se isso nos livrar da aventesma pasmada e dos vampiros que a rodeiam. Dêem-me um sinal. (Haverá cintos de explosivos para blogues?)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Praxes

Julgo por vezes que ninguém que mereça respeito intelectual simpatiza com o mundo idiota e perigoso das praxes universitárias. O que é que isto significa? Que tenho uma visão restrita das pessoas que merecem respeito intelectual? Talvez. Sou um sentimental, mas não confundo afecto e piedade com admiração. Não acho inteligentes ou iluminadas todas as pessoas que amo ou por quem tenho compaixão. Neste tempo de dificuldades, por exemplo, apiedo-me do país, mas continuo a não o ter lá assim em grande consideração. O país aceita as praxes — eu tenho pena do país também por isso.
O que acho mesmo que isto significa é que ninguém respeitável do ponto de vista intelectual tem poder ou, tendo-o, o quer exercer contra a imbecilidade geral. Isto significa também que à frente de uma parte das universidades, como do país, estão idiotas, comodistas ou cobardes. Ou apenas gente manietada.
A natureza estupidificante e fascizante das praxes universitárias está há muito identificada. Num mundo de adultos, ou num mundo de gente decente e culta, a sua abolição tinha ocorrido há muito, sem dramas, com a veemência célere e inelutável dos gestos necessários e consensuais.
Acontece que Portugal não é nenhum desses mundos. O poder dos reitores e o poder da gente decente e culta é limitado. O respeito intelectual é uma daquelas coisas obsoletas, como a palavra de honra ou a honestidade. Quem o merece, torna-se geralmente clandestino, por segurança. Como nos media e na rua, a indigência intelectual sequestrou o que resta de inteligência e cultura no campus. Os reitores são tolerados no seu posto — não exactamente respeitados ou obedecidos. Os professores não contam, e muitos deles são suficientemente cultos e intelectualmente respeitáveis para abominar as praxes.
No mundo de anedota que é Portugal, os próprios jornais de referência identificam um rapazola qualquer como «ex-responsável pelo conselho de praxes». Notem-se os termos, a sisudez e a gravidade dos termos: «ex-responsável» para definir um ex-cabecilha de uma comandita vocacionada para a galhofice e a humilhação. Como se houvesse naquela figuras alguma ponta de responsabilidade no sentido institucional ou ético do termo. Como se com frequência aquela responsabilidade não fosse meramente do âmbito do Código Penal. E «conselho de praxes», assim, embrulhado em respeitabilidade, em seriedade, como se os adultos dos jornais se empenhassem na brincadeirinha das crianças, sorvessem cerimoniosamente o chá que não está nas chávenas, mastigassem convictos e censurando-se as cólicas a lama dos bolinhos que as crianças lhes dão a comer.
Que a rapaziada nos seus divertidos e irresponsáveis vinte anos crie «conselhos» e nomeie «responsáveis», determine «códigos» que regem a companhia alegre, compreende-se — quem não quis ter na adolescência um clube secreto ou uma casa na árvore? Que os adultos de um país, os seus jornais, as suas instituições e os seus líderes não ponham limites à brincadeira é caso para levar a nação ao divã de Freud ou a internar no Conde Ferreira. Se houver verba. E vagas.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Das virtudes da leitura

«A literatura não salva», costuma dizer-se, muitas vezes apenas para contrariar um certo proselitismo de miss universo de alguns cândidos amantes da leitura. Mas em minha opinião, salva. E não precisa de finais felizes. Salva mesmo quando é dura, triste, deprimente, terrível. Para citar com liberdade Steiner, a leitura responde tautologicamente à questão «quem somos e o que andamos aqui a fazer». Ou evita as aguilhoadas dessa inquietante questão mantendo-nos prazerosamente ocupados a tentar encontrar nos livros a resposta. Salva dessas duas maneiras.
A literatura não impede os crimes, nem as guerras, nem nada disso, desiludam-se. Um torcionário pode fazer o seu trabalho ao som da melodia mais doce de Tchaikovsky e entre dois capítulos de Sebald. Mas desconfio que o fará ainda mais facilmente se for o único a ler Sebald. Devemos ler por uma questão de equidade, para estarmos à altura dos nossos verdugos.

Falta de vergonha

Francisco José Viegas toca num ponto essencial: «as pessoas “já não se envergonham” de dizer que não lêem livros.» O mesmo é dizer que as pessoas já não se envergonham de não lerem livros.

Na emancipação do povo português houve este equívoco fatal: as pessoas acharam que a grande vitória era perderem a vergonha da sua condição — quando a grande vitória deveria ser terem ultrapassado a sua condição.

É verdade que em momento nenhum da História deveria ter havido razões para que alguém sentisse vergonha das suas origens humildes. Mas, do mesmo modo que as pessoas procuraram vencer a pobreza enriquecendo, do mesmo modo que ninguém hoje se orgulha de ser pobre mesmo quando tem o azar de o ser, ninguém devia sentir orgulho de não ler. Sai-se de uma situação de carência estrutural suprimindo essa carência, não passando a decretá-la virtuosa. A incompetência do país vive também deste equívoco.

A questão é esta: em tantos casos, mais do que terem perdido a vergonha de não lerem, as pessoas sentem um orgulho revanchista nessa sua recusa dos livros. Como se os livros e a leitura fossem caprichos das antigas classes opressoras e a libertação só ficasse completa com a sua abolição. Muitos destes revanchistas, mais ou menos conscientes do seu jacobinismo desajustado e patético, ocuparam cargos ou conquistaram notoriedade, granjearam influência. Uma grande parte da nossa classe política, da classe política que tem desgovernado o país nas últimas décadas, é constituída por arrivistas destes.
Quem julga que os livros são um problema de editoras e gente ociosa é já um produto desta emancipação falhada. E há demasiada gente com responsabilidades a julgá-lo.

Não direi, para dialogar com a metáfora final do texto de Viegas, que «os bárbaros» já entraram na cidade, mas estamos certamente sitiados pelo glamour da indigência. Armemos as pessoas de vergonha.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rodrigues dos Santos* ou uma coboiada?

«Se as pessoas vão gastar dinheiro num livro têm de ter a garantia de que gostarão de o ler.» [diz José Rodrigues dos Santos, insinuando sem qualquer subtileza que as pessoas compram os seus livros porque garantidamente vão gostar. E decerto tem razão.]
Do mesmo modo que sou com demasiada frequência um consumidor de (mau) entretenimento cinematográfico, não me repugnaria, se tivesse o tempo e a vontade, ler um livro de José Rodrigues do Santos. Não tenho contra o entretenimento nada além do remorso de saber que poderia quase sempre utilizar melhor o tempo.
Se nunca senti esse impulso é porque se perde mais tempo com um (mau) livro do que com um (mau) filme e porque o entertainer das letras faz questão de me repelir. Uma coisa é sentirmos a nossa inteligência insultada nas duas horas de um blockbuster para lerdos (passe o pleonasmo), outra é sermos injuriados pelo realizador à entrada do cinema e mesmo assim entrarmos. Há limites.
As entrevistas a escritores, tal como as recensões, são o átrio dos livros. Ali decidimos se compramos ou não o bilhete para a leitura. O que Rodrigues dos Santos nos diz nas suas entrevistas é que, se não formos estúpidos que chegue para o admirar incondicionalmente, não devemos comprar um livro seu. Ora, isso já nós sabemos, mas, tal como no cinema, se não no-lo lembrarem, não é raro que o compremos à mesma.
Na mais recente edição do Jornal de Letras o escritor insiste no argumento habitual: a garantia da qualidade da sua obra é dada pela quantidade de exemplares vendidos. E, como de costume, essa vanglória, que Toni Carreira, um génio da música, usa com mais modéstia e discrição, não lhe chega. Alegando que a crítica o renega por não ser um “autor da linguagem”, acaba, na sua suprema vaidade, a qualificar de ineptos os “autores da linguagem” e na prática qualquer autor e qualquer género literário que não o seu. Por extensão, qualifica também de néscio todo o leitor que ouse apreciar livros diferentes dos que ele escreve.
Ora, que os seus leitores não se sintam insultados por isto significa que de facto só o lêem a ele (e não podem portanto ser garantia de qualidade, por falta de termo de comparação) ou que não têm amor-próprio (dificilmente tendo, pois, espírito crítico). (A hipótese de haver quem o leia descomplexadamente e se estar apenas nas tintas para a boçalidade que ele debita nas entrevistas não é para aqui chamada.)
Eu, que gostaria de ler mais um ou dois autores diferentes do José sem ser insultado por isso e que alimento a esperança de ter ainda um pouco de amor-próprio, decido, não exactamente sentir-me insultado de cada vez que o homem dá uma entrevista, mas sentir-me dispensado de o ler. E a seguir até vejo uma coboiada com menos remorsos.

* O autor é facultativo. Pode ler-se este texto substituindo o nome por Miguel Sousa Tavares ou mesmo Margarida Rebelo Pinto — Portugal é pródigo em autores que por despeito negam direito de cidade ao resto dos escribas.

As jotas

Uma parte da geração de direita que está hoje no poder ou o orbita teve formação intelectual. Não aderiu a um partido apenas como quem adere a um clube de futebol (embora muitas vezes aja como se o tivesse feito): casuisticamente, por inércia, seguidismo ou tradição familiar. Tratou de encontrar leituras filosóficas e políticas que fundamentassem a sua escolha ou inclinação natural.
Em muitos casos, deve dizer-se, a procura literária visou apaziguar a suspeita instintiva e embaraçosa de que há algo de errado com o privilégio que se tem ou ambiciona. O método consiste em soterrar a dúvida, o mal-estar, o escrúpulo ou o remorso com umas dezenas de volumes e autores. Ao fim de uma curta biblioteca, fica-se apto a considerar um bem universal a existência de ricos e classes favorecidas. Faz-se até equivaler o pragmatismo capitalista (que opera no pressuposto de que o homem é ambicioso por natureza e isso é inelutável) a uma legitimação das castas.
Alguns dos que percorreram com empenho a biblioteca acreditam genuinamente nela e desejam mesmo, com sinceridade e bons sentimentos, que ela funcione para o bem geral. Outros frequentaram-na apenas o suficiente para obterem o seu alibi. Se o ideário direitista se revelar um logro, tanto pior para a classe média, desde que eles o possam continuar a apresentar como bibliografia recomendada.

As jotas partidárias, contudo, funcionam numa lógica ainda mais mesquinha, mesmo quando se servem — geralmente em segunda mão — da mesma biblioteca. É por isso que a JS se pode equivaler, não só operacionalmente, à JSD e à JP: pela lógica da seita que acomoda os movimentos, as estratégias, as tácticas e os objectivos dos grupos. Aqui já não se trata de grupos ou classes socais tomados intemporal e universalmente, mas de um conjunto delimitado e identificado de elementos que se visa proteger e favorecer. A equivalência entre as jotas e as claques de futebol, no estilo, nos valores e nos métodos, não é fútil.

Quando Hugo Soares e os cinco anónimos deputados da JSD propõem um referendo sobre a co-adopção não estão a tentar ser irreverentes e ousados de uma forma moderna (na sociedade actual, o conservadorismo é mais irreverente do que o esquerdismo clássico e por isso alguns o adoptaram) — estão a ser solidários e a agir em articulação com os seus irmãos jotas hoje no poder. É uma espécie de maçonaria ou Opus Dei, ainda que sem transversalidade partidária, com circunscrição clubística. Os seus elementos devem mais lealdade à seita do que ao partido, e muito mais do que à sociedade.

Que a recusa da co-adopção seja também uma das bandeiras conservadoras é apenas uma coincidência feliz. O mais importante era a manobra dilatória — e captar as atenções, obter protagonismo. Os valores ou princípios são instrumentos, caprichos, ferramentas levantadas mais ou menos ao acaso do armário disponível na sede partidária. Exceptuando um punhado de idealistas geralmente sem expressão, os jotas apenas visam obter poder e privilégios dentro do sistema, contra o resto da comunidade — esta é a triste realidade.  

domingo, 19 de janeiro de 2014

1. JSD

Nos dias que correm custa-me citar alguém de direita, mas a carta de Carlos Reis dos Santos, ex-dirigente da JSD, no Público merece ser lida. Talvez sair da juventude partidária e, enfim, crescer torne as pessoas melhores, mesmo as da JSD. Enquanto Hugo Soares, a anémona do momento, não tiver cumprido o seu processo de crescimento (se algum dia o tiver), só podemos lamentar que os calduços do veterano Carlos Santos não tenham sido dados fisicamente na pessoa do imberbe deputado e com a violência, digamos, de uma praxe extrema do Colégio Militar, para invocar uma instituição do agrado da seita.

2. Democracia

Mas chamei para aqui o artigo de Carlos Reis do Santos (referido no post anterior) para destacar isto:

3. Da necessidade do carácter e das lições de história

Já esta noite tinha lido outra frase fundamental, que diz mais ou menos isto: a democracia não é sobre o poder das maiorias, mas sobre a protecção das minorias.

Convinha que os eleitos democraticamente, da câmara municipal ao governo da nação, tivessem o carácter, a grandeza (e umas quantas lições de história) para compreender isto.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A (pato)lógica bravura empresarial

1. Sobre o corte nas bolsas científicas diz o Ministro da Economia que não se pode «alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real». Com Pires de Lima, suspeito, a investigação faz-se junto às linhas de engarrafamento da Unicer, com tempo contado para ir à casa de banho.

A solução é, portanto, cortar. Cortar nas bolsas aumentará decerto a investigação que chega à economia real. Deve ser a isto que, na mesma notícia, Pires de Lima chama «dar continuidade à trajectória de investimento, mas também procurar criar um modelo de estímulos e de sinais que ligue a investigação, a ciência, a educação à vida concreta e real das empresas». De facto, que melhor estímulo haverá para a «vida concreta» do que bolsos vazios?

3. Creio que a notícia não apresenta a citação completa do que o Ministro propunha. O que ele queria dizer era «ligar a investigação, a ciência, a educação à vida concreta e real das empresas falidas». Por uma questão de equidade, não faz realmente sentido que haja alguém a comer quando outros passam fome.

4. Quando esta rapaziada do PP e do PSD acabar de “salvar” o país, a única coisa que haverá para investigar, para além de algumas contas bancárias, é como tantos anos de história ficaram reduzidos a tão escassas cinzas. É sempre assim nos incêndios.

Ligar a investigação às empresas... do Ministro

É claro que um investigador sem bolsa tem mais tempo e apetite para emborcar cervejolas nas esplanadas. 

Esperar sentado no Banco de Portugal

O post que publiquei anteontem lembrou-me porque é que o Banco de Portugal não tem condições para funcionar bem: o seu quadro de pessoal nunca está completo. Há ali sempre uma vaga a precisar de ser preenchida por ex-governantes.
Creio que seria muito mais simples para a instituição e para o país se o BdP, em vez de estar sempre à espera que mais alguém se demita ou seja demitido, pusesse anúncios de emprego.

A não ser, claro, que aquelas vagas sejam apenas para os estagiários de São Bento que aguardam entrada na Goldman Sachs ou filiais. É justo que o Banco tenha permanentemente no orçamento uma verba para entreter a espera de Suas tirocinantes Excelências.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Dos honorários do políticos

As opiniões que se lamentam sobre os parcos vencimentos dos políticos dividem-se em pouco mais de três géneros: as hipócritas (ou cínicas), as ingénuas (mas cultíssimas e seguríssimas da verdade) e as simplesmente patetas, de adolescentes esperançosos e ambiciosos que ensaiam todos os dias ao espelho a célebre proclamação «mãe, sou ministro!».
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.

Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.

Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.

Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.

Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)

Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Orgulho e preconceito

No concurso televisivo “Quem quer ser milionário”, um rapaz estudante de Jornalismo tinha de escolher, entre quatro possibilidades, o nome do autor de Frankenstein. Minutos antes, amigas na plateia diziam apostar nele pela sua cultura geral. Ele definia-se como pessoa que lê.
As opções eram Arthur C. Clarke, Bram Stoker, Mary Shelley e H. G. Wells. O rapaz não teve a tradicional hesitação entre Shelley e Stoker — rejeitou de imediato a escritora porque, palavras suas, não lhe parecia que uma mulher pudesse escrever um livro daqueles.
Depois de ter recorrido a uma ajuda que reduziu as escolhas a dois nomes (precisamente Shelley e Stoker), manteve-se na rejeição de Mary, ainda que não fizesse ideia de quem era o outro.

Dir-se-ia que o concorrente seguiu uma intuição legitimada histórica e/ou estatisticamente, mas não é certo que ele conhecesse a história ou a estatística. As amigas na plateia abanavam a cabeça, desoladas com a escolha dele. Infelizmente, abanavam a cabeça porque sabiam que ele ia perder — não porque se sentissem ofendidas com a forma como rejeitou a opção feminina. É pena. Eu teria gostado de as ver mandá-lo bugiar quando ele regressasse entristecido com a sua má-sorte.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Depois da freira, os élderes e os reis

Depois da minha boa acção com a freira de ontem, tocaram-me à porta dois simpáticos élderes (por estes dias as pessoas são todas simpáticas para mim, coração de queijo amanteigado). Para quem não saiba, elder não é nome, é cargo, função; os rapazes da gabardina e da gravata com ar anglo-saxónico, mesmo quando escuros de pele, são presbíteros de um dos ramos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a IJCSUD para os amigos. Tocarem-nos à porta para falar de Cristo é tão legítimo (ou mais) quanto os bispos católicos terem freiras que lhes fazem as compras.
Adiante.
Eu queria ignorar os sinais, mas hoje tocaram de novo à campainha e eram os Reis Magos. Ou alguém em seu nome. No caso, uma anciã com ar de pedinte e voz de grafonola enferrujada. Não percebi a letra, mas a toada era vagamente típica das janeiras. Também podia ser uma canção de embalar — a senhora encostava-se de olhos fechados à parede, reparei enquanto espeitava pelo olho-de-peixe. E só não dormia porque a pandeireta que abanava nas mãos não deixava dormir ninguém, nem a própria. Cínicos dirão que se pode ser indigente mas não tem de se ser estúpido. A senhora terá percebido nas tradições cristãs uma forma de variar a sua abordagem à clientela piedosa. Ou então era apenas alguém com idade suficiente para ter saudades de ir por esses quintais adentro e, não tendo companhia para o caminho, resolveu tirar a pandeireta do prego (sem metáforas) e aclarar sozinha a garganta. Sem sucesso, nesta última parte.
Para mim, contudo, ela faz talvez parte de um teste ou é sintomática da forma trôpega que o altíssimo tem de abordar as pessoas. E, se foi teste, eu falhei. Aos élderes ainda retorqui simpaticamente que compreendia o ímpeto missionário deles (de resto, premissa cristã que os católicos não cumprem), mas me considerava servido no que tocava à palavra de Deus. Se estivessem a fazer entrega de hambúrgueres, talvez pudesse ficar com um para mais tarde. A ela, à janeireira, não abri a porta, considerando cobarde e abusivamente que a caridade da vizinha da frente representava todo o condomínio.

Deve haver uma lógica nisto. Enviesada, claro, mas sabemos que Deus escreve direito por linhas tortas. Ou vice-versa, já não sei. Freiras, presbíteros, reis magos… Alguém lá em cima quer falar comigo e não tem o meu número? Falem com a NSA, caramba. Estou no Skype, se for preciso olhar nos olhos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Blasfemando no fim do jogging

No fim da corrida, quando a estrada se ergue em rampa, uma freira pousa o saco das compras para tomar fôlego e enfrentar o pequeno calvário que se lhe apresenta. No último instante, tenho a minha epifania, caio do cavalo e ofereço-me para lhe carregar o saco. Ela aceita e eu, talvez deixando-a a reconsiderar a possibilidade ontológica da bondade, saio a correr rampa acima com o saco na mão. Sinto-me revigorado, capaz de correr a maratona, mas o meu gesto (e o meu fôlego) termina logo ao cimo do outeiro, no paço episcopal. (Talvez não se chame assim, mas de todo o modo, é a casa onde mora o bispo.)
Se fosse escuteiro, suponho que consideraria, inspirado pela doutrina, que a boa acção me garantia uns pontos no ranking celeste, mas na verdade os meus ganhos são desbaratados no imediato. Não evito blasfemar logo ali perguntando-me por que raio o bispo, no seu metafisicamente supérfluo automóvel de luxo, não faz as suas próprias compras. E, já agora, reincido, por que raio tem de morar numa casa apalaçada, servido por um conjunto de obedientes freiras. Ele é o quê? Um novo-rico com tara por serviçais fardadas? Um padrinho da máfia com respeitáveis códigos de honra e de vestuário? Um conservador de velha casta que se passeia no solar de estola pelos ombros, dando palmadinhas nas criadas uniformizadas quando ninguém vê?
Bom, só não atiro com as compras porque suspeito que a pobre e esbaforida freira ficaria chateada (talvez aquilo seja o seu jantar). E porque, na verdade, me sinto verdadeiramente, cristãmente, satisfeito por a ter ajudado.

Talvez Deus me perdoe a heresia — mesmo que a sua classista e machista Igreja não o faça. Em todo o caso, o prazer foi todo meu e da simpática freirinha que, calhando, ainda me reserva uma oração esta noite, tão precisado que ando delas. Saravá.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Notas de viagem

Não sendo, nem em sonhos, um viajante imparável, tenho ainda assim no cadastro um número simpático de milhas aéreas e muitos quilómetros de alcatrão peninsular.
E contudo são insuficientes. Não me arrependo da eventualidade de ter vivido nos últimos anos acima das minhas possibilidades, mas arrependo-me (um pouco retoricamente, concedo) de não ter tentado poupar para estourar em mais viagens.
Até há um mês arrependia-me também de não ter levado um Moleskine nas expedições que fiz. Achava que as notas me seriam úteis nos posts e livros que ambicionava escrever.
Estava errado. As viagens são úteis — as notas não.
Em primeiro lugar, o mesmo carácter pudendo que me impede de sociabilizar com facilidade inibe-me de escrever sobre as minhas viagens. Pelo menos de escrever textos especificamente sobre as viagens.
O único Moleskine que tive (e tenho) foi-me oferecido há mais de três anos e tem três quartos das páginas intactas. Recentemente levei-o para Paris, mas foi inútil. Em nenhum momento dos dias que entretanto passaram senti qualquer vontade (ou senti o à-vontade) de o abrir para escrever fosse que género de texto fosse.
Em todo o caso, não seria de muita utilidade: apontei escassas observações e mesmo essas me parecem fúteis.
Na verdade, o que aproveito literariamente das viagens não surge por invocação e não poderia ficaria registado no período em que acontece. A identificação (e gradação) da importância das coisas é um exercício posterior. É mais tarde, por vezes bastante mais tarde — e involuntariamente, quase inconscientemente —, que as experiências das viagens surgem e se revelam úteis.
É como a vida: não sabemos que parte dela pode mais tarde ser romanceada, caso contrário vivê-la-íamos como uma ficção vigiada e seria portanto depois inverosímil, inutilizável, falsa, rebuscada, artificial, sem proveito. Não é durante a viagem que detecto o material literário (ou apenas com interesse narrativo): ele atropela-me um dia, no jogging, na caixa do supermercado, no trânsito, no duche. E então, sim, deveria correr para o Moleskine, para que à noite, iluminado pelo ecrã, não perdesse nada da ideia.

Creio que as notas tomadas durante uma viagem me seriam úteis se as pudesse tomar em modo inspirado, se pudesse viajar como um paciente Cézanne em frente a uma paisagem. Infelizmente, as minhas excursões são demasiado curtas (orçamento oblige) para que me possa dar ao luxo de agir como um escritor em viagem, sorvendo demoradamente. A única coisa que posso fazer — e isso é mais útil do que notas — é manter olhos e ouvidos bem abertos o tempo todo. Passar pelos sítios e pelas pessoas como um aspirador diligente, com grande poder de sucção. Um Hoover topo de gama ao serviço do detalhe e das sensações. E depois confiar na memória, esse departamento de arquivo e síntese de fábulas do cérebro humano.

É verdade. As sociedades de partido único resolvem-nos melhor.

«Os pequenos partidos são um sintoma de sociedades que não conseguem resolver os seus problemas.»

Vasco Pulido Valente, Público

sábado, 28 de dezembro de 2013

Quim Roscas e Zeca Estacionâncio

A dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio parece provar que a ascensão social é possível nesta egrégia nação. Dois moços dados às anedotas, aparentemente condenados, como noutros tempos, a animarem os serões de tascas de província, conseguem um programa de televisão em horário nobre — o “Telerural”, emitido a partir de Curral das Moinas. Um deles vai mais longe e, qual sapo beijado por princesa do Lumiar (ou de lá onde a RTP tem os estúdios), não tarda é transformado em apresentador de concursos. Num terceiro momento da sua ascensão, ambos têm o venerável Nicolau Breyner a fazê-los protagonistas de “7 pecados rurais”, um filme seminal (eles haveriam de apreciar o potencial javardo desta qualificação).

Todo este sucesso parece provar, dizia, que Portugal não tem o ascensor social avariado. Os pobres e os indigentes, sobretudo estes, conseguem chegar ao topo. Mas se analisarmos bem o fenómeno percebemos que é tudo um problema de fundações: o duo não saiu do rés-do-chão: o edifício nacional é que se afundou mais no solo em algumas décadas do que a Torre de Pisa em séculos.

No cinema 2: M’espanto às vezes

Antes de iniciar o filme, a ZON oferece-nos um sketch ou um trailer ou uma coisa qualquer com a dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio. Ao contrário do que eu esperava, a audiência não reage entusiasticamente. Não reage, sequer. Espreito a sala para ver se atrás de mim está toda a gente distraída com o iPhone ou a lamber no escurinho, à moda antiga, o parceiro do lado, mas na verdade cerca de dois quintos do público olha para a tela, sorumbaticamente.
Não sei que ilações tirar disto. As probabilidades de se encontrar numa sala da ZON trinta pessoas com bom gosto e sentido de humor sofisticado não são grandes. São maiores as de encontrar trinta pessoas que compraram um bilhete por recomendação clínica, para subirem o astral com um pouco de entretenimento. Mas, por outro lado, e atendendo ao efeito que o sketch tem no meu próprio estado de espírito, sei que não é preciso ter-se um diagnóstico médico de depressão para se desejar cortar os pulsos logo ali nos preliminares da noite.

Ponderando a apatia da audiência hesito assim entre sentir alegria por aquela putativa amostra de um país de gosto exigente ou chamar por prevenção três ou quatro equipas do INEM.

No cinema 1: Panem et circenses

Atento à arena, no filme The Hunger Games o público do pós-apocalíptico Capitólio espelha o povo de Roma na sua infantil necessidade de entretenimento e sede de sangue. Entre o passado e o futuro, a civilizada plateia de um cinema mastiga furiosamente pipocas e aborrece-se enquanto o enredo atrasa o ambicionado início da acção. Ao som de «let the games begin» a massa no ecrã parece ulular por ventriloquismo o alívio e o entusiasmo da audiência do filme. A quem escapa que The Hunger Games é talvez mais um momento tautológico da indústria do entretenimento do que um filme sobre a insubmissão.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Regressar a casa

(clique)

Escrevi anteontem para uma apresentação de Os Idiotas em Vila Pouca de Aguiar um texto a que chamei erradamente “Regresso a casa”. Erradamente porque para regressar a casa tinha na verdade de recuar 25 anos e não dez, 33 quilómetros e não 27. Não li o texto, mas insisti nos equívocos passando uma boa parte do tempo a falar do livro errado, do Hotel do Norte. Talvez seja da época, do toque de recolher à família que se ouve entre os jingles do comércio natalício. Por isso, ou por outras razões igualmente (con)sanguíneas, devo ter achado que esta era a altura de apresentar a minha obra sobre as Pedras Salgadas e não a minha obra sobre Portugal.
E assim não hesitei em alimentar mais equívocos, reduzindo ambos os livros (como voltei agora a fazer) a meros postais ou crónicas de territórios delimitados, regiões demarcadas do autor. A catalã residente no Alentejo Natàlia Tost a pretender que Os Idiotas se traduza para outras línguas, e eu a confundir a minha cartografia mental com a minha cartografia geográfica.

Parece-me que não há mal nenhum em publicar crónicas territoriais ou de época, mas devia ter-me lembrado que não escrevi monografias. Suponho que, por exemplo, o livro de Bruno Vieira Amaral As primeiras coisas não é bom por ser um levantamento sociológico de um bairro, mas por ter criado o Bairro Amélia a partir de matéria humana não exactamente circunscrita. Analogamente, o Hotel do Norte nunca existiu senão na minha imaginação (alimentada, naturalmente, de memórias, experiências, testemunhos, mas também da filmografia e da biblioteca eclécticas que fui instalando nas dobras do meu cérebro — e mais fundo, nos interstícios da alma, considerando a eventualidade de ter uma).
Não precisavam de ter demolido o verdadeiro Hotel do Norte, como fizeram, para que eu pudesse defender que ele é a minha fantasia. Um escritor não precisa de álibi nem de apagar impressões digitais, ou de fazer desaparecer provas, para cometer os seus crimes literários. O edifício podia permanecer que o livro continuaria a existir numa realidade alternativa e com fundações mais devedoras à mecânica quântica do que à velhinha, previsível e mensurável física de engenheiros civis, arquitectos e pedreiros.

Se me encomendassem (como aliás deviam) uma monografia sobre Pedras Salgadas, a “rainha das termas”, temo que seria desonesto da minha parte aceitar o serviço. É que não há uma correspondência absoluta entre aquele pedaço de território e o que eu frequento nas minhas visitas à terra. Por vezes julgo, ao passear no parque, que me passeio entre fantasmas, tal a quantidade de imagens e silhuetas que cada recanto, cada edifício, cada árvore espoleta. Mas depois de pensar no assunto, descubro, como no filme The others, que o fantasma sou eu. Não precisava de haver nevoeiro como havia para que o meu vulto no crepúsculo de hoje fosse espectral, deambulando solitário por entre o que resta ali de passado e o que se construiu de futuro. O hóspede de uma das eco houses que veio fumar para o alpendre não deu pela minha presença na vereda senão por um leve arrepio na espinha. Ele não estava a invadir mais o meu território do que eu o dele. Ou vice-versa. Na verdade, coexistimos em universos paralelos. Tal como é um universo paralelo aquele onde eu entro quando desço à cave da velha casa da família (e aos níveis mais subterrâneos do meu ser) e descubro os objectos familiares com que ficciono aquilo que antes confundia com recordações. Se me perguntarem onde eu estava em determinado dia de há trinta anos, talvez eu tenha um álibi convincente, mas ele é necessariamente forjado. Literariamente forjado.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Bruteza

No dia em que o JN noticiou a morte de Nadir Afonso, a sua manchete cumpria a rotina de informar em letras garrafais sobre um novo assalto ou um novo crime. Para o pintor ficou um quadradinho. Sendo inadequado ter vergonha do JN (porque não sou seu comprador nem seu accionista), tenho vergonha do país que o engendra. E quero que se foda a conversa sobre o país real. Um país, seja ele real ou imaginário, devia ter limites para a bruteza.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O fosso entre o cais e a viagem

1. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. Uma lê, a outra lê-se. A primeira segura um espelho, a segunda, um livro. É legítima a confusão sobre quem faz o quê.

2. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. Um espelho e um livro. Ambas lêem, mas só uma avança para lá do frontispício, e não é seguro afirmar qual delas o faz.

3. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. A do espelho reforça o rouge, a outra enrubesce numa passagem de As Cinquenta Sombras de Grey.

4. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara e dedicam-lhe olhares penetrantes. O espelho e o livro são arrumados em bolsas idênticas quando por fim a composição chega e uma voz avisa para o fosso entre o cais e a viagem.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

«Who gave you this number?»

Há uns anos alguém achou que me podia confiar o número de telefone de Paul Auster e eu liguei para esse número. Na altura eu tinha acessos, por vezes bem-sucedidos, de megalomania, mas atendeu-me uma voz feminina e o castelo de autoconfiança que eu tinha erigido desmoronou. «Mr. Paul Auster?», balbuciei cá de baixo, das masmorras. E ela, da sua torre de menagem: «Who gave you this number?» Ainda tentei explicar ao que vinha, procurando recuperar um pouco da compostura e da assertividade (da lata, na verdade) que usava em ocasiões análogas. Mas ela não se comoveu demasiado, retorquiu com uma cordialidade evasiva, e estava particularmente obcecada com a pergunta «who gave you this number». Não delatei a minha fonte — tive esse resto de dignidade —, mas o inglês que treinara saiu dos carris e a auto-estima deitou-se neles à espera do próximo comboio. Desesperado, pedi-lhe um endereço de e-mail ou um número de fax (ainda se usavam) e a voz deu-me uma sequência de algarismos. Terminou ali a conversa e a campanha de Brooklyn. Mandei o meu fax e nunca tive resposta.

Na hora e nos anos que se seguiram fiquei convencido de que falara com a esposa do escritor. A voz era demasiado madura para ser da filha, então adolescente, e, talvez para salvar o que me restava de ego, decidi que não falara com nenhuma secretária, agente ou relações públicas. Não conseguira nada de Auster — mas falara com a mulher dele. Assim se constroem os mitos.

Mais tarde cheguei a um primeiro livro de Siri Hustvedt (Aquilo que eu amava) e o meu trauma transformou-se. Já não era a questão de ter falhado a operação Paul Auster, era a de ter levado o meu embaraço para um novo nível. O livro de Hustvedt era fascinante, mas ela era casada com o autor da Trilogia de Nova Iorque e isso fazia com que ao longo da leitura soasse regularmente nos meus ouvidos aquela admoestação antiga: «Who gave you this number?» Eu tinha descoberto uma escritora interessante, mas simultaneamente descobrira que os seus livros estavam assombrados. «Who gave you this number?» não era uma pergunta com que eu não soubera lidar: era um mantra fantasmagórico. Olhava para a fotografia na badana e o seu rosto norueguês mas tão ariano intimidava-me, remetia-me para o gueto. Hesitei em comprar o meu terceiro livro dela porque temi que o título fosse uma insinuação, um aviso críptico para mim: Verão sem homens. Aquele homens era comigo. Eu estava impedido de entrar no Verão de Siri Hustvedt, como anos antes fora impedido por ela de entrar na casa do marido.

Tudo teria sido mais simples se a minha vaidade tivesse desde o início aceitado que a secretária ou a mulher-a-dias do escritor ficara simplesmente espantada com o facto de um desconhecido pouco fluente em inglês do outro lado do Atlântico estar de posse do número do patrão. Porém, considerando que talvez os livros de Siri Hustvedt sejam mais interessantes do que os de Paul Auster, vou ali alimentar mais um bocadinho o mito de que um dia falei com ela ao telefone e já venho.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Melancolia

Diz a Wikipédia que é «um estado psíquico de depressão com ou sem causa específica» e se caracteriza «pela falta de entusiasmo e predisposição para actividades em geral». Não parece a descrição da minha patologia. Se é certo que a maioria das actividades em geral me parece repulsiva quando me inclino para ouvir “Gallows” em loop, a verdade é que nestes momentos sinto um grande entusiasmo literário. Os frívolos dirão que literatura não é actividade, e terão a sua razão terrena. Mas quem se interessa por actividades quando tem as CocoRosie a sussurrar-lhe ao ouvido canções de assombramento, uma pilha de livros à distância de um braço e disposição para reescrever o mundo em vários tomos? Quem se interessaria por um emprego, uma comunidade, um país ou um planeta se pudesse simplesmente permanecer arrebatado?

A única parte triste da melancolia é termos de desligar a música, fechar os livros e ir picar o ponto nessa coisa a que chamamos vida adulta e responsável.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

November song


A carranca do vizinho

Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu. Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.

O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente que neste jogging arrastado em dia de alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!