domingo, 9 de fevereiro de 2014
Tom Rosenthal
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Redireccionando a bigorna
«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a "comunicação" entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»
Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se
o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares
(que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos:
o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de
comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e
consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais:
este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do
Correio da Manhã, esse órgão onde
parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e
sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas
não leiam jornais, nem sequer o CM. A
Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)
O Facebook é também por certo
uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora,
reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem,
que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor:
reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é
ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.
Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência
do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta
de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O
problema é a subserviência. A
idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a
idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do
que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de
sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Velas benzidas
[Eis o conto a que se referia o post anterior:]
Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz
falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum
modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos
obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
10 livros que me marcaram
[Desafiado para uma “corrente” no Facebook, fiz a seguinte lista, que
não resisti a comentar. Escuso de dizer que os dez livros indicados não são os dez
livros da minha vida, mas apenas alguns deles.]
1 - A MONTANHA MÁGICA,
Thomas Mann.
Li-o numa edição que já tinha passado por várias mãos, sem capas, em
papel amarelado, com cheiros antigos, talvez a edição perfeita para me
transportar para a época da acção. Foi-me emprestado pelo meu grande amigo
Carlos Chaves e, entre tantos, fiquei-lhe a dever também este favor: de me por na
rota da literatura séria. Era Inverno mas nos dias que demorei a lê-lo nunca
houve frio. Na cama, funcionava como um cobertor extra, um que aquecia também a
alma.
2 - A GUERRA DO FOGO, J.-H.
Rosny, pseudónimo dos irmãos belgas Joseph Henri Honoré Boex e Séraphin Justin
François Boex.
Também é uma recordação de calor por fonte literária. Devo dizer que
não tenho a certeza absoluta de que o livro que me ficou na memória seja este,
embora pela pesquisa qui fiz na Internet a probabilidade seja bastante grande.
Terei de ver o filme. As razões por que me marcou serviram já de inspiração
para este post: http://www.canhoes.blogspot.pt/2011/12/planos-de-vida.html
e um conto (“Velas benzidas”), que, já agora, publicarei aqui num post a
seguir.
3 - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA,
Gabriel García Márquez. Li-o de uma assentada com espanto por ficar preso a uma
história de que sabia o fim. Tinha andado a fazer a limpeza de Primavera (na
minha terra fazia-se na Páscoa uma limpeza anual aprofundada à casa, e eu devo
ter demorado a livrar-me do ritual). O mundo, como a casa e os lençóis lavados,
cheirava a fresco, parecia estar a começar de novo, resplandecente e auspicioso.
Tenho de me lembrar dessa receita para estes dias de chumbo. Uma barrela e um
livro.
4 - O PROCESSO, Franz Kafka. Durante alguns anos, dizia, como elogio
à força do livro, que durante a leitura, nas partes do tribunal, me doía o
pescoço ao imaginar-me nas galerias de tecto baixo que obrigavam a assistência
a ter a cabeça dobrada. Hoje nem sequer sei se o livro tem de facto uma parte
assim ou se, como tantas vezes, a minha memória se pôs a ficcionar. De qualquer
modo, a estranheza das histórias e o magnetismo da escrita de Kafka, neste e
nos outros romances e contos, foram definitivamente marcos literários na minha
vida.
5 – A PORTA DOS LIMITES (Urbano Tavares Rodrigues) e 6 – FATHERLAND (Robert Harris).
Refiro estes não exactamente pela sua qualidade literária (de Urbano
teria de referir A Vaga de Calor), mas porque em dois momentos da vida me
alertaram para o facto de que havia mais literatura (e prazer) do que a de
aventuras ou de ficção científica. Depois deles estava pronto para A Montanha
Mágica. Que foram marcantes, testemunham as vezes que já os mencionei, como
neste post: http://canhoes.blogspot.pt/2011/11/de-equivoco-em-equivoco.html
e num outro de uma vida anterior do blogue que talvez um dia reponha por aqui.
7 – EM NOME DA TERRA, Vergílio Ferreira. É este mas podiam ser vários
outros do mesmo autor. Folheei-o na casa de alguém com uma atitude snob, não querendo acreditar que a
proprietária o comprara intencionalmente, o não confundira com literatura do
coração. (Consegui ser muitas vezes parvo ao longo da vida.) Eu nunca lera
nenhum livro de Vergílio, mas por ter ‘ouvido dizer’ que era bom achava-me já no
direito de desconfiar de quem de facto o comprara para ler. Enquanto o folheava,
fui agarrado pelos tomates. Aquilo era avassalador: a escrita, o ambiente, a
narrativa, a indagação existencialista, a poesia amarga ou melancólica do
discurso. Revia-me intensamente naquele tom e entrava com assombro num mundo de
gente mais velha, que olhava para a vida de outro estádio, para mim ainda
estranho. Pedi-o emprestado e de seguida comprei e li tudo o que apanhei do
autor, aproveitando sofregamente as pausas do almoço.
8. O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, José Saramago
Comecei pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo, que achei bom, mas
passado num ambiente e num estilo de parábola que nunca me entusiasmaram. O Ensaio
Sobre a Cegueira (que já não me lembro se li antes ou depois de O Ano da Morte…)
pareceu-me “bom demais” e, na minha juventude insegura, temi estar a ser levado
por um eficaz efeito cinematográfico (antes de haver o filme). O Ano da Morte de
Ricardo Reis parecia-se mais com os clássicos e tinha uma história menos fantástica,
apesar da sua improbabilidade. A Lisboa narrada, o ambiente no quarto, na sala
de jantar, no hotel, nas próprias ruas, as relações entre as personagens, tudo
isso tinha para mim muito de A Montanha Mágica, para dialogar com outro livro
desta lista. Deveria lê-lo de novo para perceber se a parte política, agora
mais percebida, me teria influenciado negativa ou positivamente. Seja como for,
o menos saramaguiano dos livros de Saramago ficou-me na memória e nos afectos
como um dos livros da minha vida. De resto, prefiro este lado mais sombrio e
kafkiano da obra do autor: Todos Os Nomes seria a minha segunda escolha.
9. O ANIMAL MORIBUNDO, Philip Roth
Este é uma leitura mais recente, com uns seis ou sete anos. O fã de
aventuras e ficção científica tinha-se transformado e passara a interessar-se
por quem escrevia sobre a vida das pessoas, a sua psicologia, as suas relações,
a doença, o amor frustrado, os sentimentos, etc. Já passara nos anos anteriores
por Updike, Bellow, Carver, etc. Talvez ainda fosse o mesmo fascínio da Natureza,
das sagas, do Universo, mas agora concentrada na aventura e no mistério de estar
vivo. A prosa de Philip também ajudou a que por aquela altura me apetecesse oferecer
o livro a toda a gente. E ainda não tinha lido O Complexo de Portnoy.
10. AS LÁGRIMAS DE MEU PAI, de John Updike. (Também podia ser Procurai
a Minha Face.)
Leitura ainda mais recente, esta colecção de contos é tudo o que
gostaria de escrever na terceira idade, se algum dia lá chegar. (Bem, é tudo o
que eu não me importava de escrever ‘agora’…) A mestria da escrita, a
serenidade do tom, a paz, a evocação não exactamente nostálgica nem traumática
da vida dos protagonistas… O livro é uma espécie de testamento, de despedida do
escritor. Pelo menos eu li-o assim. São histórias de gente idosa que se
encontra com velhos colegas de liceu em jantares de curso ou por acaso, que se
visita em lares de terceira idade, que reencontra antigos cônjuges ou amantes,
que confere a lista de baixas, as doenças, os desaparecimentos, as inflexões
nas relações, as mudanças de carácter. Que revisita lugares antigos. Mas tudo é
relatado, observado com uma ironia carinhosa, um afecto cordial e discreto.
Como só os espíritos superiores podem olhar para a vida.
[O décimo livro poderia ou deveria ter sido O Teu Rosto Amanhã, de
Javier Marias, mas sobre ele teria de me atrever a um longo texto e isto já vai
suficientemente arrastado. Já o aflorei em pelo menos dois posts, este http://canhoes.blogspot.pt/2013/10/moldando-o-entusiasmo.html
e este http://canhoes.blogspot.pt/2012/03/o-tempo-e-prosa.html.
E A Piada Infinita? E Liberdade? E A Viúva Grávida? E...?
«Ser humilhado é um direito»
O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não
exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades
exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com
frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto
prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se
revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos;
se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem
resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e
títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante
fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm)
para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras
à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais
afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade.
Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas
perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são
curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
The show must go on
Perante um
"contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal
engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de
pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.
P.S. Visto no jas-mim.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria
O El Mundo trouxe à luz do
dia os casos Bárcenas (financiamento
ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente,
afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor,
que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em
projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o
dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico
ou cultural (as do Público Mais). São
interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores,
jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da
investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de
El Mundo, os leitores do jornal
deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais
difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das
democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em
Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia
por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes
ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo
a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.sábado, 1 de fevereiro de 2014
Pequenos retratos infames (1)
José Manuel Fernandes
Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto
editorial, o Observador, que certamente
não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho
Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do
velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José
Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela
conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da
juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão
natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados
de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel
Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea
Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos,
uma espécie de Bonnie and Clyde com um
gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha
fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste
género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às
artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo
director do Público. Anos atrás, ele
escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela
educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de
“criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia
dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas
artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um
passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos
um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições
tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel
Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem.
É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas
agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco
grande de os portugueses confundirem o Observador
com o Diário da República, quando
notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de
concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício
em assinar o Observador, onde as (más)
novas legislativas aparecerão primeiro. O DR
deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público
oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Private, but not a joke
Convocado para uma farsa, sentiu por fim na pele o que é ser estalinescamente apagado de uma fotografia antiga. Resta-lhe agora decidir se aguarda a picareta cordial ou colericamente.
Diálogo de partisans
J.: Vai haver um dia em que as pessoas de bons sentimentos e ilustração
terão de se mobilizar contra uma sociedade onde imperam jotinhas e boçais.
G.: Concordo, mas temo é que pelo andar da carruagem essa mobilização
seja já a de um movimento de resistência, de sabotagem, clandestino, de
sobrevivência — não a de um exército que impressione e vença guerras pela mera
exibição do número das suas tropas.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
A liberdade de ser e o papel do bobo
Os pobres de espírito e de carácter (e até de inteligência, não pode
ser totalmente inteligente quem não percebe o conceito de liberdade individual)
hão-de precisar sempre de alguém a quem discriminar, sobre quem fazer recair raivas,
preconceitos, frustrações, complexos. A História ensina: mulheres, pretos,
judeus, homossexuais… Há sempre um “argumento” de ordem “natural”, “científica”
ou “cultural” para negarem ao próximo aquilo de que se consideram legítimos (alguns
por direito divino) detentores: a liberdade de ser. É da definição de liberdade
global que o direito a ser imbecil, inalienável, tem de se restringir à esfera
do próprio indivíduo. Por favor ninguém proponha, neste estádio da civilização,
um referendo sobre a possibilidade de as pessoas serem parvas para si mesmas. Direitos
humanos não se referendam — e continuamos
a precisar de cromos de quem rir. Não os deixemos é legislar, não é esse, historicamente, o papel do bobo.
Tontarias
Sobre um artigo de um tal Nuno Ferreira no P3 (esse por vezes compêndio de má escrita e mentes ingénuas), escrevi numa página de Facebook o comentário abaixo. Foi num impulso da madrugada e acabei por tirar os insultos, como compete às pessoas decentes. Mas nem sei porque me dei ao trabalho. De comentar e de tirar depois os insultos.
De qualquer modo, partilho:
UM IDIOTA ÚTIL, PRESUMO | Eu próprio já escrevi que uma licenciatura não é, nem poderia ser, uma garantia de emprego. Mas, para além da manifesta falta de empatia pelos seus concidadãos, o autor do artigo ignora as circunstâncias e sofre de vários preconceitos. Ao ponto de afogar em estupidez e cinismo a pouca razão que tem.
Ignora, por exemplo, que os «calimeros» de que fala não encontram emprego na área da sua licenciatura nem em área nenhuma. Ou que, quando o encontram, é em condições precárias, mal remuneradas e não raro humilhantes (para licenciados e não licenciados).
A sua definição de «emigrante normal» seria hilariante, se além de patética não fosse manipuladora.
O país não tem de «sustentar profissões que já não fazem sentido» diz o jovem empreendedor (deve ser um jovem empreendedor, não deve, este Nuno Ferreira?). Mas não define é quais são as profissões que não fazem sentido. Talvez porque lhe daria muito trabalho. É que no Portugal de hoje são poucas as profissões que fazem sentido (ou seja, que empregam gente) e infelizmente deixam de fora mais de 15% dos portugueses (números oficiais, logo muito optimistas) e muitas das que «fazem sentido» pagam o salário que Nuno Ferreira certamente acharia escandaloso (ou não, o optimismo destes gajos é do tipo religioso, submisso).
«E quando existem quase 1,5 milhões de licenciados (a que todos os anos se juntam mais 80 mil), não será difícil adivinhar que, num futuro próximo, alguns caixas de supermercado, empregadas da limpeza ou empregados de balcão sejam licenciados. É uma evolução vulgar de Lineu: se caminhamos, e bem, para a educação superior de quase todos, alguns vão ter de fazer o que tem de ser feito e não o que gostariam de fazer.» Não é para mim escandaloso este parágrafo do jovem empreendedor. É apenas pragmático. Tem é dois problemas: no contexto do seu artigo, não conseguimos deixar de pensar que ele se exclui das tarefas que evidentemente considera menores. O outro problema, revelador dos seus preconceitos, e que me deixa particularmente indisposto, é a designação «empregadas de limpeza». Todas as outras profissões foram definidas no masculino, «empregadas de limpeza» no feminino. Alguém que tenciona de forma tão evidente mostrar-se um livre espírito (sejamos por momentos condescendentes) tinha obrigação de não ser tradicionalista ou sexista na abordagem destes assuntos. Para mim, quem utiliza de forma automática o género feminino para identificar profissões ou cargos marcados pelo ferrete das sociedades patriarcais, como «secretária» ou «empregada de limpeza», merece pouco respeito intelectual. Se a isso somarmos a inoportunidade, a inexactidão, o equívoco, a manipulação e o cinismo do seu texto, fico bastante convencido que estamos na presença de um idiota útil, mais um bate-punho desta admirável era passista.
De qualquer modo, partilho:
UM IDIOTA ÚTIL, PRESUMO | Eu próprio já escrevi que uma licenciatura não é, nem poderia ser, uma garantia de emprego. Mas, para além da manifesta falta de empatia pelos seus concidadãos, o autor do artigo ignora as circunstâncias e sofre de vários preconceitos. Ao ponto de afogar em estupidez e cinismo a pouca razão que tem.
Ignora, por exemplo, que os «calimeros» de que fala não encontram emprego na área da sua licenciatura nem em área nenhuma. Ou que, quando o encontram, é em condições precárias, mal remuneradas e não raro humilhantes (para licenciados e não licenciados).
A sua definição de «emigrante normal» seria hilariante, se além de patética não fosse manipuladora.
O país não tem de «sustentar profissões que já não fazem sentido» diz o jovem empreendedor (deve ser um jovem empreendedor, não deve, este Nuno Ferreira?). Mas não define é quais são as profissões que não fazem sentido. Talvez porque lhe daria muito trabalho. É que no Portugal de hoje são poucas as profissões que fazem sentido (ou seja, que empregam gente) e infelizmente deixam de fora mais de 15% dos portugueses (números oficiais, logo muito optimistas) e muitas das que «fazem sentido» pagam o salário que Nuno Ferreira certamente acharia escandaloso (ou não, o optimismo destes gajos é do tipo religioso, submisso).
«E quando existem quase 1,5 milhões de licenciados (a que todos os anos se juntam mais 80 mil), não será difícil adivinhar que, num futuro próximo, alguns caixas de supermercado, empregadas da limpeza ou empregados de balcão sejam licenciados. É uma evolução vulgar de Lineu: se caminhamos, e bem, para a educação superior de quase todos, alguns vão ter de fazer o que tem de ser feito e não o que gostariam de fazer.» Não é para mim escandaloso este parágrafo do jovem empreendedor. É apenas pragmático. Tem é dois problemas: no contexto do seu artigo, não conseguimos deixar de pensar que ele se exclui das tarefas que evidentemente considera menores. O outro problema, revelador dos seus preconceitos, e que me deixa particularmente indisposto, é a designação «empregadas de limpeza». Todas as outras profissões foram definidas no masculino, «empregadas de limpeza» no feminino. Alguém que tenciona de forma tão evidente mostrar-se um livre espírito (sejamos por momentos condescendentes) tinha obrigação de não ser tradicionalista ou sexista na abordagem destes assuntos. Para mim, quem utiliza de forma automática o género feminino para identificar profissões ou cargos marcados pelo ferrete das sociedades patriarcais, como «secretária» ou «empregada de limpeza», merece pouco respeito intelectual. Se a isso somarmos a inoportunidade, a inexactidão, o equívoco, a manipulação e o cinismo do seu texto, fico bastante convencido que estamos na presença de um idiota útil, mais um bate-punho desta admirável era passista.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Caixa de Pandora
Há uma certa ironia no facto de a Quetzal, que publicou em 2010 o livro
Mudar, o mein kampf de Passos Coelho, ser a mesma editora que lançou no final
do ano passado Austeridade – A história
de uma ideia perigosa. Se pudéssemos ver nisto um ciclo, a abertura e o
fecho de um ciclo…
sábado, 25 de janeiro de 2014
Allahu Akbar
Descubro agora que o início da segunda vida deste blogue coincidiu com
a ascensão de Passos Coelho a Primeiro-Ministro. Desculpem a má-sorte. Acabo já
com o blogue se isso nos livrar da aventesma pasmada e dos vampiros que a
rodeiam. Dêem-me um sinal. (Haverá cintos de explosivos para blogues?)
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Praxes
Julgo por vezes que ninguém que mereça respeito intelectual simpatiza
com o mundo idiota e perigoso das praxes universitárias. O que é que isto
significa? Que tenho uma visão restrita das pessoas que merecem respeito
intelectual? Talvez. Sou um sentimental, mas não confundo afecto e piedade com
admiração. Não acho inteligentes ou iluminadas todas as pessoas que amo ou por
quem tenho compaixão. Neste tempo de dificuldades, por exemplo, apiedo-me do
país, mas continuo a não o ter lá assim em grande consideração. O país aceita
as praxes — eu tenho pena do país também
por isso.
O que acho mesmo que isto significa é que ninguém respeitável do ponto
de vista intelectual tem poder ou, tendo-o, o quer exercer contra a
imbecilidade geral. Isto significa também que à frente de uma parte das
universidades, como do país, estão idiotas, comodistas ou cobardes. Ou apenas gente manietada.
A natureza estupidificante e fascizante das praxes universitárias está há
muito identificada. Num mundo de adultos, ou num mundo de gente decente e
culta, a sua abolição tinha ocorrido há muito, sem dramas, com a veemência célere
e inelutável dos gestos necessários e consensuais.
Acontece que Portugal não é nenhum desses mundos. O poder dos reitores
e o poder da gente decente e culta é limitado. O respeito intelectual é uma
daquelas coisas obsoletas, como a palavra de honra ou a honestidade. Quem o
merece, torna-se geralmente clandestino, por segurança. Como nos media e na rua, a indigência intelectual
sequestrou o que resta de inteligência e cultura no campus. Os reitores são tolerados no seu posto — não exactamente respeitados
ou obedecidos. Os professores não contam, e muitos deles são suficientemente
cultos e intelectualmente respeitáveis para abominar as praxes.
No mundo de anedota que é Portugal, os próprios jornais de referência identificam
um rapazola qualquer como «ex-responsável pelo conselho de praxes». Notem-se os
termos, a sisudez e a gravidade dos termos: «ex-responsável» para definir um ex-cabecilha
de uma comandita vocacionada para a galhofice e a humilhação. Como se houvesse naquela
figuras alguma ponta de responsabilidade no sentido institucional ou ético do
termo. Como se com frequência aquela responsabilidade não fosse meramente do âmbito
do Código Penal. E «conselho de praxes», assim, embrulhado em respeitabilidade,
em seriedade, como se os adultos dos jornais se empenhassem na brincadeirinha
das crianças, sorvessem cerimoniosamente o chá que não está nas chávenas,
mastigassem convictos e censurando-se as cólicas a lama dos bolinhos que as
crianças lhes dão a comer.
Que a rapaziada nos seus divertidos e irresponsáveis vinte anos crie «conselhos»
e nomeie «responsáveis», determine «códigos» que regem a companhia alegre,
compreende-se — quem não quis ter na adolescência um clube secreto ou uma casa
na árvore? Que os adultos de um país, os seus jornais, as suas instituições e
os seus líderes não ponham limites à brincadeira é caso para levar a nação ao
divã de Freud ou a internar no Conde Ferreira. Se houver verba. E vagas.quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Das virtudes da leitura
«A literatura não salva», costuma dizer-se, muitas vezes apenas para contrariar um certo proselitismo de miss universo de alguns cândidos amantes da leitura. Mas em minha opinião, salva. E não precisa de finais felizes. Salva mesmo quando é dura, triste, deprimente, terrível. Para citar com liberdade Steiner, a leitura responde tautologicamente à questão «quem somos e o que andamos aqui a fazer». Ou evita as aguilhoadas dessa inquietante questão mantendo-nos prazerosamente ocupados a tentar encontrar nos livros a resposta. Salva dessas duas maneiras.
A literatura não impede os crimes, nem as guerras, nem nada disso, desiludam-se. Um torcionário pode fazer o seu trabalho ao som da melodia mais doce de Tchaikovsky e entre dois capítulos de Sebald. Mas desconfio que o fará ainda mais facilmente se for o único a ler Sebald. Devemos ler por uma questão de equidade, para estarmos à altura dos nossos verdugos.
A literatura não impede os crimes, nem as guerras, nem nada disso, desiludam-se. Um torcionário pode fazer o seu trabalho ao som da melodia mais doce de Tchaikovsky e entre dois capítulos de Sebald. Mas desconfio que o fará ainda mais facilmente se for o único a ler Sebald. Devemos ler por uma questão de equidade, para estarmos à altura dos nossos verdugos.
Falta de vergonha
Francisco José Viegas toca num ponto essencial: «as pessoas “já não se envergonham” de dizer que não lêem livros.» O mesmo é dizer que as pessoas já
não se envergonham de não lerem livros.
Na emancipação do povo português houve este equívoco fatal: as pessoas acharam
que a grande vitória era perderem a vergonha da sua condição — quando a grande
vitória deveria ser terem ultrapassado
a sua condição.
É verdade que em momento nenhum da História deveria ter havido razões
para que alguém sentisse vergonha das suas origens humildes. Mas, do mesmo modo
que as pessoas procuraram vencer a pobreza enriquecendo, do mesmo modo que
ninguém hoje se orgulha de ser pobre
mesmo quando tem o azar de o ser, ninguém devia sentir orgulho de não ler.
Sai-se de uma situação de carência estrutural suprimindo essa carência, não passando
a decretá-la virtuosa. A incompetência do país vive também deste equívoco.
A questão é esta: em tantos casos, mais do que terem perdido a vergonha
de não lerem, as pessoas sentem um orgulho revanchista nessa sua recusa dos
livros. Como se os livros e a leitura fossem caprichos das antigas classes
opressoras e a libertação só ficasse completa com a sua abolição. Muitos destes
revanchistas, mais ou menos conscientes do seu jacobinismo desajustado e patético,
ocuparam cargos ou conquistaram notoriedade, granjearam influência. Uma grande
parte da nossa classe política, da classe política que tem desgovernado o país
nas últimas décadas, é constituída por arrivistas destes.
Quem julga que os livros são um problema de editoras e gente ociosa é já
um produto desta emancipação falhada. E há demasiada gente com
responsabilidades a julgá-lo.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Rodrigues dos Santos* ou uma coboiada?
«Se as pessoas vão gastar dinheiro num livro têm de ter a garantia de que gostarão de o ler.» [diz José Rodrigues dos Santos, insinuando sem qualquer subtileza que as pessoas compram os seus livros porque garantidamente vão gostar. E decerto tem razão.]Do mesmo modo que sou com demasiada frequência um consumidor de (mau) entretenimento cinematográfico, não me repugnaria, se tivesse o tempo e a vontade, ler um livro de José Rodrigues do Santos. Não tenho contra o entretenimento nada além do remorso de saber que poderia quase sempre utilizar melhor o tempo.
Se nunca senti esse impulso é porque se perde mais tempo com um (mau) livro do que com um (mau) filme e porque o entertainer das letras faz questão de me repelir. Uma coisa é sentirmos a nossa inteligência insultada nas duas horas de um blockbuster para lerdos (passe o pleonasmo), outra é sermos injuriados pelo realizador à entrada do cinema e mesmo assim entrarmos. Há limites.
As entrevistas a escritores, tal como as recensões, são o átrio dos livros. Ali decidimos se compramos ou não o bilhete para a leitura. O que Rodrigues dos Santos nos diz nas suas entrevistas é que, se não formos estúpidos que chegue para o admirar incondicionalmente, não devemos comprar um livro seu. Ora, isso já nós sabemos, mas, tal como no cinema, se não no-lo lembrarem, não é raro que o compremos à mesma.
Na mais recente edição do Jornal de Letras o escritor insiste no argumento habitual: a garantia da qualidade da sua obra é dada pela quantidade de exemplares vendidos. E, como de costume, essa vanglória, que Toni Carreira, um génio da música, usa com mais modéstia e discrição, não lhe chega. Alegando que a crítica o renega por não ser um “autor da linguagem”, acaba, na sua suprema vaidade, a qualificar de ineptos os “autores da linguagem” e na prática qualquer autor e qualquer género literário que não o seu. Por extensão, qualifica também de néscio todo o leitor que ouse apreciar livros diferentes dos que ele escreve.
Ora, que os seus leitores não se sintam insultados por isto significa que de facto só o lêem a ele (e não podem portanto ser garantia de qualidade, por falta de termo de comparação) ou que não têm amor-próprio (dificilmente tendo, pois, espírito crítico). (A hipótese de haver quem o leia descomplexadamente e se estar apenas nas tintas para a boçalidade que ele debita nas entrevistas não é para aqui chamada.)
Eu, que gostaria de ler mais um ou dois autores diferentes do José sem ser insultado por isso e que alimento a esperança de ter ainda um pouco de amor-próprio, decido, não exactamente sentir-me insultado de cada vez que o homem dá uma entrevista, mas sentir-me dispensado de o ler. E a seguir até vejo uma coboiada com menos remorsos.
As jotas
Uma parte da geração de direita que está hoje no poder ou o orbita teve
formação intelectual. Não aderiu a um partido apenas como quem adere a um clube
de futebol (embora muitas vezes aja como se o tivesse feito): casuisticamente,
por inércia, seguidismo ou tradição familiar. Tratou de encontrar leituras filosóficas
e políticas que fundamentassem a sua escolha ou inclinação natural.
Em muitos casos, deve dizer-se, a procura literária visou apaziguar a
suspeita instintiva e embaraçosa de que há algo de errado com o privilégio que
se tem ou ambiciona. O método consiste em soterrar a dúvida, o mal-estar, o escrúpulo
ou o remorso com umas dezenas de volumes e autores. Ao fim de uma curta
biblioteca, fica-se apto a considerar um bem universal a existência de ricos e classes
favorecidas. Faz-se até equivaler o pragmatismo capitalista (que opera no
pressuposto de que o homem é ambicioso por natureza e isso é inelutável) a uma
legitimação das castas.
Alguns dos que percorreram com empenho a biblioteca acreditam genuinamente
nela e desejam mesmo, com sinceridade e bons sentimentos, que ela funcione para
o bem geral. Outros frequentaram-na apenas o suficiente para obterem o seu
alibi. Se o ideário direitista se revelar um logro, tanto pior para a classe
média, desde que eles o possam continuar a apresentar como bibliografia
recomendada.
As jotas partidárias, contudo, funcionam numa lógica ainda mais
mesquinha, mesmo quando se servem — geralmente em segunda mão — da mesma biblioteca.
É por isso que a JS se pode equivaler, não só operacionalmente, à JSD e à JP: pela
lógica da seita que acomoda os movimentos, as estratégias, as tácticas e os
objectivos dos grupos. Aqui já não se trata de grupos ou classes socais tomados
intemporal e universalmente, mas de um conjunto delimitado e identificado de
elementos que se visa proteger e favorecer. A equivalência entre as jotas e as
claques de futebol, no estilo, nos valores e nos métodos, não é fútil.
Quando Hugo Soares e os cinco anónimos deputados da JSD propõem um
referendo sobre a co-adopção não estão a tentar ser irreverentes e ousados de
uma forma moderna (na sociedade actual, o conservadorismo é mais irreverente do
que o esquerdismo clássico e por isso alguns o adoptaram) — estão a ser
solidários e a agir em articulação com os seus irmãos jotas hoje no poder. É
uma espécie de maçonaria ou Opus Dei, ainda que sem transversalidade partidária,
com circunscrição clubística. Os seus elementos devem mais lealdade à seita do
que ao partido, e muito mais do que à sociedade.
Que a recusa da co-adopção seja também uma das bandeiras conservadoras
é apenas uma coincidência feliz. O mais importante era a manobra dilatória — e
captar as atenções, obter protagonismo. Os valores ou princípios são instrumentos,
caprichos, ferramentas levantadas mais ou menos ao acaso do armário disponível
na sede partidária. Exceptuando um punhado de idealistas geralmente sem
expressão, os jotas apenas visam obter poder e privilégios dentro do sistema,
contra o resto da comunidade — esta é a triste realidade.
domingo, 19 de janeiro de 2014
1. JSD
Nos dias que correm
custa-me citar alguém de direita, mas a carta de Carlos Reis dos Santos,
ex-dirigente da JSD, no Público
merece ser lida. Talvez sair da juventude partidária e, enfim, crescer torne as
pessoas melhores, mesmo as da JSD. Enquanto Hugo Soares, a anémona do momento,
não tiver cumprido o seu processo de crescimento (se algum dia o tiver), só
podemos lamentar que os calduços do veterano Carlos Santos não tenham sido
dados fisicamente na pessoa do imberbe deputado e com a violência, digamos, de
uma praxe extrema do Colégio Militar, para invocar uma instituição do agrado da
seita.
2. Democracia
Mas chamei para aqui o
artigo de Carlos Reis do Santos (referido no post anterior) para destacar isto:
«(…) [a democracia] não se pode confundir com o absolutismo das maiorias. Porque a linha que separa a democracia do totalitarismo é ténue – é por isso que a democracia não dispensa a mediação dos seus representantes – e é por isso que historicamente as leis que garantem direitos, liberdade e garantias andam à frente da sociedade.»
3. Da necessidade do carácter e das lições de história
Já esta noite tinha lido outra frase fundamental, que diz
mais ou menos isto: a democracia não é
sobre o poder das maiorias, mas sobre a protecção das minorias.
Convinha que os eleitos democraticamente, da câmara municipal
ao governo da nação, tivessem o carácter, a grandeza (e umas quantas lições de
história) para compreender isto.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
A (pato)lógica bravura empresarial
1. Sobre o corte nas bolsas científicas diz o Ministro da Economia que
não se pode «alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real». Com Pires de Lima, suspeito,
a investigação faz-se junto às linhas de engarrafamento da Unicer, com tempo
contado para ir à casa de banho.
2. «Uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real», continuou o ministro.
A solução é, portanto, cortar. Cortar nas bolsas aumentará decerto a
investigação que chega à economia real. Deve ser a isto que, na mesma notícia,
Pires de Lima chama «dar continuidade à trajectória de investimento, mas também
procurar criar um modelo de estímulos e de sinais que ligue a investigação, a
ciência, a educação à vida concreta e real das empresas». De facto, que melhor
estímulo haverá para a «vida concreta» do que bolsos vazios?
3. Creio que a notícia não apresenta a citação completa do que o
Ministro propunha. O que ele queria dizer era «ligar a investigação, a ciência,
a educação à vida concreta e real das empresas falidas». Por uma questão de equidade, não faz realmente sentido
que haja alguém a comer quando outros passam fome.
Ligar a investigação às empresas... do Ministro
É claro que um investigador sem bolsa tem mais tempo e apetite para
emborcar cervejolas nas esplanadas.
Esperar sentado no Banco de Portugal
O post que publiquei anteontem lembrou-me porque é que o Banco de Portugal não tem
condições para funcionar bem: o seu quadro de pessoal nunca está completo. Há
ali sempre uma vaga a precisar de ser preenchida por ex-governantes.
Creio que seria muito mais simples para a instituição
e para o país se o BdP, em vez de estar sempre à espera que mais alguém se
demita ou seja demitido, pusesse anúncios de emprego.
A não ser, claro, que aquelas vagas sejam
apenas para os estagiários de São Bento que aguardam entrada na Goldman Sachs ou
filiais. É justo que o Banco tenha permanentemente no orçamento uma verba para
entreter a espera de Suas tirocinantes Excelências.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Dos honorários do políticos
As opiniões que se lamentam sobre os parcos vencimentos dos políticos dividem-se em pouco mais de três géneros: as hipócritas (ou cínicas), as ingénuas (mas cultíssimas e seguríssimas da verdade) e as simplesmente patetas, de adolescentes esperançosos e ambiciosos que ensaiam todos os dias ao espelho a célebre proclamação «mãe, sou ministro!».
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.
Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.
Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.
Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.
Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)
Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.
Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.
Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.
Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.
Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)
Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Orgulho e preconceito
No concurso televisivo “Quem quer ser milionário”, um rapaz estudante
de Jornalismo tinha de escolher, entre quatro possibilidades, o nome do autor
de Frankenstein. Minutos antes,
amigas na plateia diziam apostar nele pela sua cultura geral. Ele definia-se
como pessoa que lê.
As opções eram Arthur C. Clarke, Bram Stoker, Mary Shelley e H.
G. Wells. O rapaz não teve a tradicional hesitação entre Shelley e Stoker —
rejeitou de imediato a escritora porque, palavras suas, não lhe parecia que uma
mulher pudesse escrever um livro daqueles.
Depois de ter recorrido a uma ajuda que reduziu as escolhas a dois nomes (precisamente
Shelley e Stoker), manteve-se na rejeição de Mary, ainda que não fizesse ideia
de quem era o outro.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Depois da freira, os élderes e os reis
Depois da minha boa acção com a freira de ontem, tocaram-me à porta
dois simpáticos élderes (por estes dias as pessoas são todas simpáticas para
mim, coração de queijo amanteigado). Para quem não saiba, elder não é nome, é cargo, função; os rapazes da gabardina e da
gravata com ar anglo-saxónico, mesmo quando escuros de pele, são presbíteros de
um dos ramos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a IJCSUD
para os amigos. Tocarem-nos à porta para falar de Cristo é tão legítimo (ou
mais) quanto os bispos católicos terem freiras que lhes fazem as compras.
Adiante.
Eu queria ignorar os sinais, mas hoje tocaram de novo à campainha e
eram os Reis Magos. Ou alguém em seu nome. No caso, uma anciã com ar de pedinte
e voz de grafonola enferrujada. Não percebi a letra, mas a toada era vagamente
típica das janeiras. Também podia ser uma canção de embalar — a senhora
encostava-se de olhos fechados à parede, reparei enquanto espeitava pelo
olho-de-peixe. E só não dormia porque a pandeireta que abanava nas mãos não
deixava dormir ninguém, nem a própria. Cínicos dirão que se pode ser indigente
mas não tem de se ser estúpido. A senhora terá percebido nas tradições cristãs
uma forma de variar a sua abordagem à clientela piedosa. Ou então era apenas
alguém com idade suficiente para ter saudades de ir por esses quintais adentro
e, não tendo companhia para o caminho, resolveu tirar a pandeireta do prego
(sem metáforas) e aclarar sozinha a garganta. Sem sucesso, nesta última parte.
Para mim, contudo, ela faz talvez parte de um teste ou é sintomática da
forma trôpega que o altíssimo tem de abordar as pessoas. E, se foi teste, eu
falhei. Aos élderes ainda retorqui simpaticamente que compreendia o ímpeto
missionário deles (de resto, premissa cristã que os católicos não cumprem), mas
me considerava servido no que tocava à palavra de Deus. Se estivessem a fazer
entrega de hambúrgueres, talvez pudesse ficar com um para mais tarde. A ela, à
janeireira, não abri a porta, considerando cobarde e abusivamente que a caridade
da vizinha da frente representava todo o condomínio.
Deve haver uma lógica nisto. Enviesada, claro, mas sabemos que Deus
escreve direito por linhas tortas. Ou vice-versa, já não sei. Freiras,
presbíteros, reis magos… Alguém lá em cima quer falar comigo e não tem o meu
número? Falem com a NSA, caramba. Estou no Skype, se for preciso olhar nos
olhos.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Blasfemando no fim do jogging
No fim da corrida, quando a estrada se ergue em rampa, uma freira pousa
o saco das compras para tomar fôlego e enfrentar o pequeno calvário que se lhe
apresenta. No último instante, tenho a minha epifania, caio do cavalo e ofereço-me
para lhe carregar o saco. Ela aceita e eu, talvez deixando-a a reconsiderar a possibilidade
ontológica da bondade, saio a correr rampa acima com o saco na mão. Sinto-me
revigorado, capaz de correr a maratona, mas o meu gesto (e o meu fôlego)
termina logo ao cimo do outeiro, no paço episcopal. (Talvez não se chame assim,
mas de todo o modo, é a casa onde mora o bispo.)
Se fosse escuteiro, suponho que consideraria, inspirado pela doutrina,
que a boa acção me garantia uns pontos no ranking
celeste, mas na verdade os meus ganhos são desbaratados no imediato. Não evito
blasfemar logo ali perguntando-me por que raio o bispo, no seu metafisicamente supérfluo
automóvel de luxo, não faz as suas próprias compras. E, já agora, reincido, por
que raio tem de morar numa casa apalaçada, servido por um conjunto de obedientes
freiras. Ele é o quê? Um novo-rico com tara por serviçais fardadas? Um padrinho
da máfia com respeitáveis códigos de honra e de vestuário? Um conservador de
velha casta que se passeia no solar de estola pelos ombros, dando palmadinhas nas
criadas uniformizadas quando ninguém vê?
Bom, só não atiro com as compras porque suspeito que a pobre e esbaforida
freira ficaria chateada (talvez aquilo seja o
seu jantar). E porque, na verdade, me sinto verdadeiramente, cristãmente, satisfeito por a ter ajudado.
Talvez Deus me perdoe a heresia — mesmo que a sua classista e machista
Igreja não o faça. Em todo o caso, o prazer foi todo meu e da simpática
freirinha que, calhando, ainda me reserva uma oração esta noite, tão precisado
que ando delas. Saravá.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Notas de viagem
Não sendo, nem em sonhos, um viajante imparável, tenho ainda
assim no cadastro um número simpático de milhas aéreas e muitos quilómetros de alcatrão
peninsular.
E contudo são insuficientes. Não me arrependo da
eventualidade de ter vivido nos últimos anos acima das minhas possibilidades, mas
arrependo-me (um pouco retoricamente, concedo) de não ter tentado poupar para estourar
em mais viagens.
Até há um mês arrependia-me também de não ter levado um
Moleskine nas expedições que fiz. Achava que as notas me seriam úteis nos posts e livros que ambicionava escrever.
Estava errado. As viagens são úteis — as notas não.
Em primeiro lugar, o mesmo carácter pudendo que me impede de
sociabilizar com facilidade inibe-me de escrever sobre as minhas viagens. Pelo
menos de escrever textos especificamente sobre as viagens.
O único Moleskine que tive (e tenho) foi-me oferecido há mais
de três anos e tem três quartos das páginas intactas. Recentemente levei-o para
Paris, mas foi inútil. Em nenhum momento dos dias que entretanto passaram senti
qualquer vontade (ou senti o à-vontade)
de o abrir para escrever fosse que género de texto fosse.
Em todo o caso, não seria de muita utilidade: apontei escassas
observações e mesmo essas me parecem fúteis.
Na verdade, o que aproveito literariamente das viagens não
surge por invocação e não poderia ficaria registado no período em que acontece.
A identificação (e gradação) da importância das coisas é um exercício
posterior. É mais tarde, por vezes bastante mais tarde — e involuntariamente,
quase inconscientemente —, que as experiências das viagens surgem e se revelam
úteis.
É como a vida: não sabemos que parte dela pode mais tarde ser
romanceada, caso contrário vivê-la-íamos como uma ficção vigiada e seria
portanto depois inverosímil, inutilizável, falsa, rebuscada, artificial, sem
proveito. Não é durante a viagem que detecto o material literário (ou apenas com
interesse narrativo): ele atropela-me um dia, no jogging, na caixa do supermercado, no trânsito, no duche. E então,
sim, deveria correr para o Moleskine, para que à noite, iluminado pelo ecrã,
não perdesse nada da ideia.
Creio que as notas tomadas durante uma viagem me seriam úteis
se as pudesse tomar em modo inspirado, se pudesse viajar como um paciente Cézanne
em frente a uma paisagem. Infelizmente, as minhas excursões são demasiado
curtas (orçamento oblige) para que me
possa dar ao luxo de agir como um escritor em viagem, sorvendo demoradamente. A
única coisa que posso fazer —
e isso é mais útil do que notas — é manter olhos e ouvidos bem abertos o tempo
todo. Passar pelos sítios e pelas pessoas como um aspirador diligente, com
grande poder de sucção. Um Hoover topo
de gama ao serviço do detalhe e das sensações. E depois confiar na memória,
esse departamento de arquivo e síntese de fábulas do cérebro humano.
É verdade. As sociedades de partido único resolvem-nos melhor.
«Os pequenos partidos são um sintoma de sociedades que não conseguem resolver os seus problemas.»
Vasco Pulido Valente, Público
sábado, 28 de dezembro de 2013
Quim Roscas e Zeca Estacionâncio
A dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio parece provar que a ascensão
social é possível nesta egrégia nação. Dois moços dados às anedotas, aparentemente
condenados, como noutros tempos, a animarem os serões de tascas de província,
conseguem um programa de televisão em horário nobre — o “Telerural”, emitido a partir
de Curral das Moinas. Um deles vai mais longe e, qual sapo beijado por princesa
do Lumiar (ou de lá onde a RTP tem os estúdios), não tarda é transformado em
apresentador de concursos. Num terceiro momento da sua ascensão, ambos têm o venerável
Nicolau Breyner a fazê-los protagonistas de “7 pecados rurais”, um filme
seminal (eles haveriam de apreciar o potencial javardo desta qualificação).
Todo este sucesso parece provar, dizia, que Portugal não tem o ascensor
social avariado. Os pobres e os indigentes, sobretudo estes, conseguem chegar
ao topo. Mas se analisarmos bem o fenómeno percebemos que é tudo um problema de
fundações: o duo não saiu do rés-do-chão: o edifício nacional é que se afundou
mais no solo em algumas décadas do que a Torre de Pisa em séculos.
No cinema 2: M’espanto às vezes
Antes de iniciar o filme, a ZON oferece-nos um sketch ou um trailer ou uma coisa qualquer com a dupla Quim Roscas
e Zeca Estacionâncio. Ao contrário do que eu esperava, a audiência não reage entusiasticamente.
Não reage, sequer. Espreito a sala para ver se atrás de mim está toda a gente distraída
com o iPhone ou a lamber no escurinho, à moda antiga, o parceiro do lado, mas
na verdade cerca de dois quintos do público olha para a tela, sorumbaticamente.
Não sei que ilações tirar disto. As probabilidades de se encontrar numa
sala da ZON trinta pessoas com bom gosto e sentido de humor sofisticado não são
grandes. São maiores as de encontrar trinta pessoas que compraram um bilhete
por recomendação clínica, para subirem o astral com um pouco de entretenimento.
Mas, por outro lado, e atendendo ao efeito que o sketch tem no meu próprio estado de espírito, sei que não é preciso
ter-se um diagnóstico médico de depressão para se desejar cortar os pulsos logo
ali nos preliminares da noite.
No cinema 1: Panem et circenses
Atento à arena, no filme The Hunger
Games o público do pós-apocalíptico Capitólio espelha o povo de Roma na sua
infantil necessidade de entretenimento e sede de sangue. Entre o passado e o
futuro, a civilizada plateia de um cinema mastiga furiosamente pipocas e aborrece-se
enquanto o enredo atrasa o ambicionado início da acção. Ao som de «let the games begin» a massa no ecrã
parece ulular por ventriloquismo o alívio e o entusiasmo da audiência do filme.
A quem escapa que The Hunger Games é
talvez mais um momento tautológico da indústria do entretenimento do que um
filme sobre a insubmissão.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Regressar a casa
(clique)
Escrevi anteontem para uma apresentação de Os Idiotas em Vila Pouca de Aguiar um texto a que chamei erradamente “Regresso a casa”. Erradamente porque para regressar a casa tinha na verdade de recuar 25 anos e não dez, 33 quilómetros e não 27. Não li o texto, mas insisti nos equívocos passando uma boa parte do tempo a falar do livro errado, do Hotel do Norte. Talvez seja da época, do toque de recolher à família que se ouve entre os jingles do comércio natalício. Por isso, ou por outras razões igualmente (con)sanguíneas, devo ter achado que esta era a altura de apresentar a minha obra sobre as Pedras Salgadas e não a minha obra sobre Portugal.
E assim não hesitei em alimentar mais equívocos, reduzindo ambos os livros
(como voltei agora a fazer) a meros postais ou crónicas de territórios delimitados,
regiões demarcadas do autor. A catalã residente no Alentejo Natàlia Tost a
pretender que Os Idiotas se traduza
para outras línguas, e eu a confundir a minha cartografia mental com a minha
cartografia geográfica.
Parece-me que não há mal nenhum em publicar crónicas territoriais ou de
época, mas devia ter-me lembrado que não escrevi monografias. Suponho que, por
exemplo, o livro de Bruno Vieira Amaral As
primeiras coisas não é bom por ser um levantamento sociológico de um bairro,
mas por ter criado o Bairro Amélia a
partir de matéria humana não exactamente circunscrita. Analogamente, o Hotel do Norte nunca existiu senão na minha imaginação (alimentada,
naturalmente, de memórias, experiências, testemunhos, mas também da filmografia
e da biblioteca eclécticas que fui instalando nas dobras do meu cérebro — e
mais fundo, nos interstícios da alma, considerando a eventualidade de ter uma).
Não precisavam de ter demolido o verdadeiro Hotel do Norte, como
fizeram, para que eu pudesse defender que ele é a minha fantasia. Um escritor
não precisa de álibi nem de apagar impressões digitais, ou de fazer desaparecer
provas, para cometer os seus crimes literários. O edifício podia permanecer que
o livro continuaria a existir numa realidade alternativa e com fundações mais
devedoras à mecânica quântica do que à velhinha, previsível e mensurável física
de engenheiros civis, arquitectos e pedreiros.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
Bruteza
No dia em que o JN noticiou a morte de Nadir Afonso, a sua manchete
cumpria a rotina de informar em letras garrafais sobre um novo assalto ou um
novo crime. Para o pintor ficou um quadradinho. Sendo inadequado ter vergonha
do JN (porque não sou seu comprador nem seu accionista), tenho vergonha do país
que o engendra. E quero que se foda a conversa sobre o país real. Um país, seja
ele real ou imaginário, devia ter limites para a bruteza.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
O fosso entre o cais e a viagem
1. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. Uma lê, a outra lê-se. A primeira segura um
espelho, a segunda, um livro. É legítima a confusão sobre quem faz o quê.
2. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. Um espelho e um livro. Ambas lêem, mas só
uma avança para lá do frontispício, e não é seguro afirmar qual delas o faz.
3. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. A do espelho reforça o rouge, a outra enrubesce numa passagem de As Cinquenta Sombras de Grey.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
«Who gave you this number?»
Há uns anos alguém achou que me podia confiar o número de telefone de
Paul Auster e eu liguei para esse número. Na altura eu tinha acessos, por vezes
bem-sucedidos, de megalomania, mas atendeu-me uma voz feminina e o castelo de
autoconfiança que eu tinha erigido desmoronou. «Mr. Paul Auster?», balbuciei cá
de baixo, das masmorras. E ela, da sua torre de menagem: «Who gave you this
number?» Ainda tentei explicar ao que vinha, procurando recuperar um pouco da
compostura e da assertividade (da lata, na verdade) que usava em ocasiões análogas.
Mas ela não se comoveu demasiado, retorquiu com uma cordialidade evasiva, e estava
particularmente obcecada com a pergunta «who gave you this number». Não delatei
a minha fonte — tive esse resto de dignidade —, mas o inglês que treinara
saiu dos carris e a auto-estima deitou-se neles à espera do próximo comboio. Desesperado,
pedi-lhe um endereço de e-mail ou um número
de fax (ainda se usavam) e a voz deu-me uma sequência de algarismos. Terminou
ali a conversa e a campanha de Brooklyn. Mandei o meu fax e nunca tive
resposta.
Na hora e nos anos que se seguiram fiquei convencido de que falara com
a esposa do escritor. A voz era demasiado madura para ser da filha, então adolescente,
e, talvez para salvar o que me restava de ego, decidi que não falara com
nenhuma secretária, agente ou relações públicas. Não conseguira nada de Auster
— mas falara com a mulher dele. Assim se constroem os mitos.
Mais tarde cheguei a um primeiro livro de Siri Hustvedt (Aquilo que eu amava) e o meu trauma
transformou-se. Já não era a questão de ter falhado a operação Paul Auster, era
a de ter levado o meu embaraço para um novo nível. O livro de Hustvedt era
fascinante, mas ela era casada com o autor da Trilogia de Nova Iorque e isso fazia com que ao longo da leitura
soasse regularmente nos meus ouvidos aquela admoestação antiga: «Who gave you
this number?» Eu tinha descoberto uma escritora interessante, mas simultaneamente
descobrira que os seus livros estavam assombrados. «Who gave you this number?»
não era uma pergunta com que eu não soubera lidar: era um mantra
fantasmagórico. Olhava para a fotografia na badana e o seu rosto norueguês mas
tão ariano intimidava-me, remetia-me para o gueto. Hesitei em comprar o meu
terceiro livro dela porque temi que o título fosse uma insinuação, um aviso
críptico para mim: Verão sem homens. Aquele
homens era comigo. Eu estava impedido
de entrar no Verão de Siri Hustvedt, como anos antes fora impedido por ela de
entrar na casa do marido.
Tudo teria sido mais simples se a minha vaidade tivesse desde o início aceitado
que a secretária ou a mulher-a-dias do escritor ficara simplesmente
espantada com o facto de um desconhecido pouco fluente em inglês do outro lado
do Atlântico estar de posse do número do patrão. Porém, considerando que talvez
os livros de Siri Hustvedt sejam mais interessantes do que os de Paul Auster,
vou ali alimentar mais um bocadinho o mito de que um dia falei com ela ao
telefone e já venho.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Melancolia
Diz a Wikipédia que é «um estado psíquico
de depressão com ou sem causa específica» e se caracteriza «pela falta de entusiasmo e
predisposição para actividades em geral». Não parece a descrição da minha
patologia. Se é certo que a maioria das actividades em geral me parece repulsiva quando me inclino para ouvir “Gallows” em loop, a verdade é
que nestes momentos sinto um grande entusiasmo literário.
Os frívolos dirão que literatura não é actividade, e terão a sua razão terrena.
Mas quem se interessa por actividades quando tem as CocoRosie a sussurrar-lhe
ao ouvido canções de assombramento, uma pilha de livros à distância de um braço
e disposição para reescrever o mundo em vários tomos? Quem se interessaria por
um emprego, uma comunidade, um país ou um planeta se pudesse simplesmente permanecer
arrebatado?
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
A carranca do vizinho
Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O
vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu
automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do
morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um
aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu.
Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao
mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.
O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente
que neste jogging arrastado em dia de
alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e
curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem
resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma
numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a
propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e
que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora
ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!
domingo, 24 de novembro de 2013
«A esquerda sem povo»
A propósito deste pragmático artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público, recordei uma passagem do meu ainda inédito Aranda, escrita há três anos:
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Já estou a notar o vosso olharzinho irónico
Nesta fotografia de uma leitora, tirada na FNAC (Chiado?), Os Idiotas estão entalados entre a
Margarida Rebelo Pinto e o Valter Hugo Mãe.
(clique)
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