sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gel, mães e filhos (2)

Como a mãe do post anterior, talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do bairro onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado. Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou — mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento se tenha usado gel. Ou por causa disso.

Gel, mães e filhos (1)

Uma jovem mãe percorre as prateleiras do supermercado com o telemóvel na orelha. Procura um gel para o cabelo e percebe-se que, com branda resistência, está a ser dirigida remotamente pelo filho adolescente. Efeito molhado, fixação normal, forte ou extraforte, marcas, preços... As variáveis são muitas e é difícil encontrar um equilíbrio entre a exigência do rapaz e a carteira da mãe.
Não parece aborrecida com os caprichos do filho, talvez porque já teve ou testemunhou experiências piores. Protagonizadas por teenagers maldispostos, rudes, rufiões, que acompanham as mães às lojas como quem sequestra um desconhecido e o leva sob coacção ao multibanco mais próximo. Filhos que mandam calar as progenitoras e cospem em público ninguém te perguntou a opinião como bandidos sem paciência para as objecções patéticas e impertinentes das suas vítimas. E que, depois de escolherem algo da última moda para gangues (que um diligente criativo desenhou a pensar na globalização do Bronx), arrastam com maus modos a mãe para a caixa, deixando já adivinhar que à saída da loja atirarão com ela e a sua carteira vazia para uma valeta.

A mãe no supermercado fica por momentos esquecida a olhar carinhosamente a filha, talvez para afastar maus pensamentos. A rapariga, criança, entretém-se na secção de produtos para o rosto — não ainda a projectar-se na adolescência que tarda, mas porque as cores e as formas lhe parecem divertidas.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Imprudência

Com os cada vez mais evidentes sinais de regresso dos fascismos à Europa (e ao poder; a originalidade da Hungria não durará), com um clima político a leste cada vez mais prussiano, a direita continua, com moral de inquisidor, obcecada em punir os países e as pessoas que, na opinião dela, viveram acima das suas posses. A direita é muito estúpida, conivente ou imprudente. E receio ter escrito imprudente apenas por cortesia ou fair play.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Confidencial

Porque as coisas são o que são e porque esta noite me visitou o espírito carrancudo mas empreendedor do Torga, comunico aos que se interessam que editarei por mim mesmo, num qualquer dia solarengo, o Hotel do Norte e o Aranda. Não prometo é que esse dia esteja perto (e com isto não estou a ser um céptico do aquecimento global). 

O papel do jornalista tem dias

Nos posts anteriores defendi o papel do jornalista no caso Rodrigues dos Santos versus Sócrates. Muita gente o tem feito, alguns com particular ferocidade, incluindo o próprio José Rodrigues dos Santos. Contudo, não vi muita gente defender o papel do jornalista também nos casos das partenaires inânimes de Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes. Que de resto são comentadores há mais tempo.
É isto que me irrita ou entedia (depende das horas) na vida política portuguesa, este clubismo sem coluna e hipócrita, incapaz de esconder o longo rabo que deixa de fora. Onde têm estado os defensores do papel activo do jornalista nos longos anos que Marcelo leva de missa dominical? Onde estão quando é Marques Mendes a perorar sem particular contraditório?
Uma intervenção útil em defesa do jornalismo era terem aproveitado este episódio para reivindicar verdadeiros jornalistas também nos programas de Marcelo & Mendes — em vez de uma defesa de JRS que não consegue disfarçar um imbecil ódio a Sócrates e é na verdade uma defesa acéfala do Governo.

terça-feira, 25 de março de 2014

JRS x JS - 2.º round

Entretanto percebi melhor qual o formato do programa (não vejo televisão, não sabia) e porque o desvio de JRS causou indignação. Ora bem, o facto de se tratar de um programa que procura saber a opinião de José Socrates não dispensa os jornalistas de fazer o seu trabalho. Errados estão todos os outros jornalistas que fazem de naperon ou de figurantes nos programas de Marcelo e afins. Se a ideia é que os tipos falem sem contraditório, o correcto seria pô-los sozinhos em frente à câmara. Os separadores de temas poderiam ser quadros de legendas, como nos filmes mudos, ou mão-de-obra requisitada à Elite Models, não gente com carteira de jornalista. JRS pode ter mostrado um excesso de zelo direitista (uma agenda pró-governamental), mas antes isso do que um daqueles cães que antigamente se punham nos carros e se limitavam a acenar com a cabeça. O papel do jornalismo é perguntar, questionar, confrontar, e não só quando isso nos agrada.

segunda-feira, 24 de março de 2014

JRS x JS

Vai para aí celeuma por causa da entrevista de José Rodrigues dos Santos a Sócrates. Não gosto de nenhum dos dois. Vi a entrevista. Rodrigues dos Santos fez bem em confrontar Sócrates com afirmações suas do passado. É para isso que servem os jornalistas, não para pés de microfone. JRS fê-lo com particular prazer? Acho que sim, mas o que importa é a utilidade da coisa, e tinha-a. Em contrapartida, Sócrates fez o seu papel, alertando para os contextos. Não o achei particularmente irritado, ao contrário do que para aí também se diz. E acho que se saiu relativamente bem na sua argumentação. Há, de facto, contextos que convém não esquecer, embora a muitos desse jeito.

P.S. Já agora, um exercício hilariante seria confrontar Passos Coelho com as suas afirmações pré-Governo e ver que "contextos" invocaria ele.

Drink sangria in the park

Quando se pensa, à nossa maneira burguesa, num grupo de junkies a jogar à bola, imagina-se perónios pelo ar e tíbias pelo chão. Um grupo de pessoas a desconjuntar-se, a esvair-se em fluídos pouco dignos de observar. Isto se considerarmos sequer a hipótese de haver junkies com tempo de se juntarem à volta de uma bola, tão apressados e ocupados que sempre parecem, busy with dealing. Não estamos preparados é para os ver, íntegros, com risos e técnica superlativa, desfrutar. Desfrutar e reincidir nisso dia após dia. Na nossa própria alienação, andamos esquecidos de que o ócio era a aspiração da humanidade.

Definitely Maybe

Enquanto ouvia com indolência “Wonderwall”, dos Oasis, apeteceu-me escrever que, se há vinte anos eu e o Paulo Araújo tivéssemos continuado juntos em projectos musicais, talvez tivéssemos sido uma espécie de irmãos Gallagher (em melhor). Mas não, não teríamos agredido ninguém fora do círculo familiar.

Dúvida ociosa

Será que os tipos da direita situacionista que hoje orbitam Rentes de Carvalho (e são tantos) lêem com toda a atenção tudo o que ele escreve e diz?

quarta-feira, 19 de março de 2014

Efemérides

Olhando o país e o mundo, as minhas indagações remontam a 1914 e 1939 e ao que sentiam os tipos de 45 anos que eram resgatados da reserva para um qualquer contingente activo. Ou talvez, na verdade, indague mais atrás na História, 1908 e um voluntariado na Carbonária.

terça-feira, 18 de março de 2014

Corram...

...a ler a bela série de «Postais de um fotógrafo de bairro» de José Bandeira. O melhor cartoonista português é também um admirável escritor. Se houver um módico de justiça entre o céu a terra (onde dizem haver muita coisa), um dia seremos presenteados com um livro de José, ele que já nos estraga com mimos desenhados.

sábado, 15 de março de 2014

«Os senhores professores», disse ele

Anteontem ouvi na rádio Passos Coelho acusar algumas universidades de manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores professores» poderem dar aulas. Não é a questão da racionalidade da oferta universitária que aqui me interessa (sobre isso já discorri antes de haver crise). É o tom, a forma como Coelho expeliu aquele «senhores professores». Há expressões que dizem tudo, traem pensamentos e sentimentos. O Primeiro-Ministro naquela frase não acusou apenas as universidades de irrazoabilidade — achou também abusivo que os senhores professores quisessem dar aulas. Sem o dizer, achou absurdo que os senhores professores quisessem trabalhar.

Vinda de um Primeiro-Ministro que se opôs a qualquer medida capaz de criar emprego, vinda de um PM que favoreceu com a alegria e a jovialidade dos fanáticos a degradação do emprego (ou quando muito o emprego com salários de insulto), esta sua «racionalidade» na organização do Estado parece tão científica e altruísta quanto a «medicina» de Josef Mengele.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O pimba do Senhor

Nos meus tempos de adolescente e néscio (com os anos, abandonei a primeira condição), achei assaz progressista, apesar do traje, um franciscano que me incitou a levar o baixo eléctrico para cima de um palco onde se cantavam hinos ao Senhor. Passou-se isto no catolicismo e numa era anterior à editora Flor Caveira, do evangélico Tiago (Guilul) Cavaco. O pioneirismo católico, aliás, havia-se já manifestado quando na década de setenta a Igreja sobrepôs letras de excitação beata a canções de Bob Dylan. E o aggiornamento não mais parou. Hoje, muito modernas formações musicais louvam o Senhor como aos domingos à tarde se louva na TVI a genitália feminina: com vocalista trejeitoso e partenaires gesticulantes, comprimidas em slim jeans ou calças de lycra e t-shirts um número abaixo. (Se não tivesse visto, não seria capaz de imaginar isto.)
A estética e o sentido coreográfico pimba são tão omnipresentes em Portugal quanto Deus Ele Mesmo. E mais influentes. Não admira que a própria Igreja ache natural que, em palco, se declare amor a Cristo com os passos, os gestos, a melodia, o instrumental e os coros que geralmente se usam na TVI para, com trocadilhos e metáforas de baixa extracção, se aludir a fodas, minetes e broches.
De resto, se é popular, a Igreja procura absorver, como sempre fez com qualquer ritual pagão. Que se lixe a estética e a lógica, se isso lhe permitir recensear mais umas almas (importa-lhe mais a estatística das almas do que as suas práticas). Não se pode é a Igreja admirar que os aleluias gritados no apogeu dos cânticos passem a ter outra conotação e o êxtase deixe de ser místico.

P.S.: «E nós… pimba, Senhor», poderia ser uma resposta moderna ao «crescei e multiplicai-vos», não fosse a contracepção.

P.S.2: Já no Natal, poderiam substituir-se as estrofes gastas do «Noite Feliz» por versos mais modernos: «Mas quem será? Mas quem será? Mas quem será / O pai da criança, eu sei lá, sei lá… eu sei lá, sei lá...»

Comportamentos desviantes

Reconhecemos uma alma gémea quando alguém que entra no shopping, depois de puxar para si a grande porta envidraçada, volta a fechá-la e de novo a abre apenas para confirmar que, sim, a porta faz um barulho cómico, humanóide, que apetece ouvir outra vez. Depois da breve pausa na frivolidade do mundo, ele entra e eu saio, sorrindo ambos de portas que adoptam comportamentos desviantes.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Aparências

1.
São meia dúzia em volta da mesa de pedra junto ao rio. Geralmente a mesa é usada, em tardes de furo ou gazeta escolar, para umas festas de álcool, para enrolar e partilhar uns charros. Os grupos exclusivamente femininos são talvez menos frequentes, mas lá está a atitude semiclandestina, lá estão os risinhos langorosos e cúmplices, os corpos dobrados em tenda conspirativa sobre o centro da mesa. E no entanto, quando se abre um pouco a corola de adolescentes primaveris, o que aparece a ser transaccionado ali no meio é um banal frasco de verniz de unhas, como num cliché da Ragazza.

2.
O rapaz vem de praticar desporto, calções, t-shirt suada, cabelos molhados, sweatshirt atirada sobre um ombro. As três raparigas aproximam-se entre embaraçadas e conspirativas, com segredinhos e empurrando-se umas às outras. Cortejam-no. De saia ou vestidos coquetes, alguma pintura no rosto, parecem saídas da mesma edição da Ragazza atrás referida. Ou de um quadro mais antigo, de um que tenha fixado a óleo uma tarde bucólica no parque. Porém a oralidade trá-las de volta ao futuro. Tendo talvez sido contrariada, uma delas abandona a discrição, a corte vintage, e dispara à colega um sonoro «vai-te foder, caralho», que o rio devolve em eco. O rapaz não parece sentir que se tenha desfeito o encanto, continua a atrasar o passo e a controlar a distância e os risinhos pelo canto do olho.

3.
Pequeno gangue, vêm subindo a rua. Cortes de cabelo, roupas, calçado, balanço do corpo, tudo de acordo com o modelo rebelde sem causa, vulgo arruaceiro. Param de súbito a conversar animadamente, ruidosamente, belicamente, ocupando metade da via de trânsito e todo o passeio. Os carros ultrapassam-nos em pequeno e conformado slalom. Os peões contornam-nos por fora, como vítimas de bullying fugindo à palmada nas costas. A descer a rua, avanço a direito com a inércia e uma vaga intenção de reivindicar o meu direito a um vector no passeio. Estendo o braço para abrir alas e o distraído rapaz à minha frente estremece de susto, como se acabasse de ser abordado por um assaltante. Desvia-se, cordial, e eu continuo caminho, a rir-me do ridículo. Do meu ridículo.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A vitoriosa trimestralidade da LER (1)

O Correio da Manhã, esse pândego, considerou uma boa notícia a LER passar (ou regressar) a uma periocidade trimestral. Pelo menos a seta junto à informação apontava para cima (recebendo como troco uma farpa de Rui Zink no Facebook). Para mim, esta alteração pode de facto ser uma boa notícia: se a revista aumentar o conteúdo, como prometido, e mantiver o preço de 5 euros, talvez, bem contados os trocos, possa voltar a comprá-la.

Mas esta renovação da LER («sem lamentos nem desculpas») só é uma vitória ou uma boa notícia porque estamos demasiado habituados a más notícias. Podemos, nestes tempos de cinza, considerar uma vitória a LER conseguir manter-se, ainda que trimestralmente; podemos considerar uma boa notícia a LER simplesmente não acabar, como seria possível e de certo ponto de vista até provável. Mas estas são as vitórias simbólicas da Resistência, destinadas a manter o moral. Verdadeira vitória e boa notícia sem sombra de eufemismo seria a LER renovar-se e aparecer com «mais páginas, mais reportagens, mais profundidade e densidade» mantendo a edição mensal.

Assim, concluímos apenas que o país não tem dinheiro nem leitores suficientes (ou suficientes leitores com dinheiro, numa versão optimista) para uma revista mensal de livros.

Assim, a muito custo afastamos o motejo: de vitória em vitória até à derrota final.