Muitos anos, circunstâncias, instituições e pessoas contribuíram para o retrocesso da LER à periodicidade trimestral. Paulatinamente, o livro (e não
falo em particular do romance) foi banido das televisões, das escolas, das
universidades, dos jornais (guetizado em suplementos a que prescreveram uma dieta
crescente), dos discursos políticos, das conversas em geral. Uma ou duas
gerações de dirigentes partidários e institucionais particularmente plebeias,
particularmente representativas da boçalidade e do arrivismo nacionais, foram
suficientes para consumar o desaparecimento do livro — e a geração que lhes
há-de suceder nem sequer consegue soletrar a palavra.
quarta-feira, 12 de março de 2014
A vitoriosa trimestralidade da LER (2)
quinta-feira, 6 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
Um país ao espelho
[no Âncoras e Nefelibatas]
«Não sou muito de partilhar dos curiosos hábitos higiénicos dos colegas portugueses que asseveram que "isto é uma cambada de paneleiros e de fufas que até mete nojo". Há que relativizar hábitos higiénicos de um povo que tem assegurado a longevidade política do doutor Alberto João Jardim, e a epistemologia de quem em Maio ou Setembro vai de rojo a Fátima por causa da senhora que brilhou na azinheira.»
sábado, 1 de março de 2014
Pequenos retratos infames (2)
Helena Matos
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Espírito de grupo
Além de Porta dos Fundos, acompanho desde cedo outro fenómeno de
popularidade nascido na Internet: Walk off The Earth. Neste caso trata-se de um
grupo de música canadiano que, celebrizado sobretudo pelos seus vídeos inventivos,
acabou a fazer digressões mundiais. Embora a música original de WOTE nem sempre
seja especialmente boa (ou, pronto, do meu agrado), admiro sem reservas o espírito
do grupo e o seu “espírito de grupo”, de "comunidade".
Em ambos os casos há talento, gente educada, espirituosa, sofisticada,
com acesso a tecnologia. Mas há sobretudo um bando de amigos que se diverte à
maluca a fazer (muito bem e livremente) o que gosta. Porra, como os invejo!
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Cansado da guerra
Furtei-me ao dever (as Metamorfoses
de Ovídio) para ler o artigo sobre Brideshead
Revisited numa LER emprestada. Soube que Evelyn Waugh pediu uma licença da
guerra para escrever o romance. Eu já revisitei a minha Brideshead em dois livros— mas, ah!, de bom-grado metia uma licença para tentar de novo, falhar melhor.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Congresso dos recreios
Na série “Diziam”, de Pedro Correia, no Delito de Opinião, só faltou
acrescentar que o que aconteceu contra o que "diziam" aconteceu decerto também
contra os desejos íntimos do infame Passos. A coisa mais relevante que
aconteceu de acordo com o vermículo Passos foi talvez o regresso, em seu tempo apalavrado, do sósia Relvas.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
A última dança
O vídeo da companhia Rubberbandance que inspirou o post anterior não é necessariamente o mais representativo. Sê-lo-iam mais estes espectáculos da companhia Peeping Tom: http://youtu.be/KlrXPVZG5Ho(“32 rue Vandenbranden”); http://youtu.be/NwACVrZIuVg (“Les Sous Sol”); ou este, da C de la B: http://youtu.be/pyQrK_Q2HOo (“Ashes”), vistos em Guimarães e no Porto. Por outro lado, várias companhias ou coreógrafos portugueses poderiam também elucidar o que disse no post. Neste campo, como de resto nos mais variados géneros musicais e no teatro, o país não padece de talento e profissionalismo como padece por exemplo na política e na gestão. A juntar-se a ex-elementos do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado, há uma nova geração de intérpretes (e coreógrafos) com formação sólida, experiência (tantas vezes internacional) e talento que infelizmente terá agora menos oportunidades de desenvolver o seu trabalho. O Portugal dos últimos anos — «europeu» no sentido civilizado, culto, sofisticado, cosmopolita, democrático e descentralizado que se costuma utilizar para falar da Europa central —, o país onde as pessoas podiam fruir o seu gosto pela dança contemporânea sem precisarem de se deslocar com demasiada frequência a Lisboa, muitas vezes sem precisarem sequer de sair da sua cidade ou da cidade de província que por algum acaso estavam a visitar, está a terminar. A troika, o governo e o statu quo encarregar-se-ão de devolver o país à condição de provinciano e de gosto único.
Dança contemporânea
["Gravity of Center", Rubberbandance: http://vimeo.com/30708149]
Gosto de música, de pintura, de cinema, de dança, de literatura, de teatro,
e gosto de tudo isto com um eclectismo bem pronunciado, que em certos momentos
— na presença de certa fidalguia artística menos condescendente— se pode tornar
embaraçoso. Mas, de todas as artes, a que mais me arrebata é a dança. Não a
dança clássica ou de salão (aqui o eclectismo retrai-se). Refiro-me à dança
contemporânea.
Não sou um indefectível da arte contemporânea. Nem sequer da arte
moderna. Ou modernista. Há movimentos ou tendências do século XX que deixaram sementes
e eu dispenso fora do seu contexto histórico e fora da história das ideias, ou
das atitudes. Acresce que o verniz de leituras, viagens, idas a museus e
teatros não sepultou de todo o rapazola que no fim a província manteve enredado:
por vezes dou por mim a olhar para algumas obras como um tradicional boi a
olhar para um palácio. (Porém, um boi que não investe.)
Mas sou certamente alguém que se aborrece com águas estagnadas, com o
gosto tradicional ou massificado, com a ingenuidade popular, com a pomposidade
e a arte mecânica, imitativa, evocativa, desinspirada, insensível, medíocre,
atrofiante.
Do ballet clássico, por
exemplo, interessa-me apenas a música. Se tenho o azar de entrar numa sala onde
se dança uma dessas peças, fecho os olhos e passo um bom bocado — que é ainda melhor
se há orquestra ao vivo.
De resto, por alguma razão o ballet
clássico se tornou “popular”, enchendo coliseus, e virou fetiche de elementos
de todas as classes (alta, média e baixa), que acorrem a ele com entusiasmo e
casacos de pele como a um ritual, a uma festividade religiosa, a uma vernissage, na sua ânsia de emular nos
hábitos e na pose fútil a elite aristocrata há muito destronada.
A dança contemporânea — expressão aliás vaga, equívoca, designando
desde peças efectivamente de dança a performances;
de teatro físico ou de objectos a produções multidisciplinares e
transdisciplinares; de momentos de expressão corporal a happenings — a dança contemporânea, dizia, aquela de que eu mais
gosto, confunde-se com algum teatro e raramente deixa de lado ou menoriza a
música, ou uma criativa sonoplastia. Está consciente da história da dança e das
suas múltiplas expressões — clássicas ou primitivas, de salão ou de rua,
urbanas ou folclóricas —, e não desdenha cumplicidades com a palavra e a
atitude teatral. De certo modo, em muitos casos, é aquilo a que eu chamaria a ópera dos dias de hoje: um espectáculo
global expressionista, que se absorve
mais com os sentidos do que com a razão. Como se lia num título do Público, «uma dança que não é para
perceber, é para sentir».
N’Os Idiotas, a minha «novela
picaresca» (assim se referiu ao livrinho um ilustre leitor), uma personagem
definia a dança contemporânea da seguinte maneira… picaresca: «um reboliço
caótico onde, espantosamente, era possível ainda assim perceber disciplina,
padrão, coreografia. Aquelas pessoas no palco assemelhavam-se a vítimas de
trombose, doentes epilépticos, loucos saídos do hospital psiquiátrico, mas no
meio do frenesim, dos transes, das convulsões e das quedas percebia-se que
exerciam autoridade sobre os seus membros. Pareciam desajeitadas porque tinham
decidido ser desajeitadas. Caíam, mas levantavam-se por si mesmas. Derrubavam
objectos no palco porque estava no guião derrubar objectos no palco. Eram,
enfim, donas do seu corpo e da sua vontade.» E também fazia um paralelismo com
o ballet: «[…] o que distinguia a
dança contemporânea da clássica era o que distinguia o caos da ordem. O ballet clássico tentava uma tal harmonia
e uma tal perfeição que se tornava artificial e enfadonho. A dança
contemporânea parecia mais ligada ao erro e à vida quotidiana dos corpos, mesmo
que na maior parte das vezes se tratasse de corpos atormentados», interpretados
por gente com um «perfil fibroso e elástico».
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Vizinhas novas no prédio
Perante uma berraria prolongada de três moças universitárias em frente
ao prédio (na verdade, uma só magricela, bebida e histérica, tenta à força de
decibéis obsessiva e compulsivamente pôr «de quatro» uma caloira mais cheiinha e
musculada, inamovível e paciente como um santo de altar), perante aquela berraria, alguma
vizinhança assoma à varanda. No bairro, o alvoroço estudantil é rotina que entorpece:
só é hábito chamar a polícia quando a coisa redunda em pancadaria a que não se
vê fim breve. Talvez por haver gente nova no prédio, de uma das varandas
ouvem-se uns «shiu!» e uns «então?!». O trio praxista, pouco habituado a que a vizinhança
dê sinais de vida, olha em redor, estupefacto. Para minha surpresa, enfia a
viola na bolsa coquete e retira, ordeiramente, como adolescentes a caminho da
catequese (um dos bares das imediações).
Estou eu a fruir o momento quando as moças da varanda (também são
moças, certamente novas no bairro) resolvem cantar vitória e lançam lá para
baixo: «Andor! Tá andar, caralho!»
Ora, desfez-se o feitiço. As teenagers
temporariamente bem-comportadas apontam como podem os queixos à varanda, reconhecem
como iguais as oponentes e soltam as peixeiras que há dentro delas (o sotaque
é do Porto, mas duvido que algum dia tenham vendido peixe no Bolhão, pelo que
retiro a ofensa àquelas profissionais). «Como?!», retorquem apontando a pélvis como
forcados amadores. «Vamos a calar!» ordenam as de cima, por alguma disfunção cognitiva
ou erupção de jactância tendo ignorado que caladas tinham ficado as outras ao
primeiro «shiu». «Estás-me a mandar calar?» «Estou, pois!» «Anda cá em baixo
então, caralho!»
Pronto, suspiro, eis como se desbarata uma vitória. Agora a berraria
passa a ter dois focos e não tarda há paralelepípedos arremessados às vidraças
e sempre será precisa a polícia.
Mas a noite reserva mais surpresas. As de cima retiram-se da varanda e,
ao contrário do que se suspeitaria, aparecem passado pouco tempo no passeio. A
coisa pode redundar em maior alvoroço do que o que havia, mas há que louvar às
moças da varanda a coerência. E a coragem: a caloira musculosa pôs-se entretanto do lado das dótoras, talvez em defesa do direito a ser humilhada.
Da minha própria varanda — comummente tomada neste blogue por bancada
de circo ou balaustrada de zoológico, com certa pretensão literária —, solto outro
suspiro. Novamente desajustado: as cinco moças ficam a trocar argumentos, mas,
ou as de cima têm um forte carisma, ou a magricela danificou as cordas vocais
na meia hora anterior: a altercação parece quase cordata. Podemos facilmente
imaginá-las daqui a pouco a trocar números de telefone ou endereços de e-mail.
Quando me retiro para a sala, tenho a certeza de que as da varanda vão
subir a buscar os casacos para se juntarem numa ida aos bares com as de baixo. E talvez
depois venham as cinco ali para o passeio muito amistosamente debater aos berros
quaisquer insignificantes diferenças de opinião, como sói fazer-se por aqui na
hora em que os bares fecham. Um céptico não acredita em milagres que sempre
durem.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Pedras Salgadas: futuro e memória
As ecohouses de Pedras
Salgadas têm recolhido elogios e prémios. Merecidamente. São de facto bonitas,
inteligentemente desenhadas e integradas no arvoredo do centenário parque. Convidam
irresistivelmente a habitá-las por um ou muitos fins-de-semana mesmo quem como
eu praticamente nasceu e foi criado naquele território romântico. Mas não sei
se tem sido referido um aspecto essencial: parte do sucesso das casas deve-se…
ao arvoredo do parque.
As ecohouses precisam de um
cenário. Tanto para os que se encantam apenas com as fotografias (e são a
maioria) como para os que de facto as visitam ou alugam. Quem já pôde confirmar
com os olhos que as casas são algo mais do que um belo projecto, com animações
3D muito pitorescas e realistas, terá por certo intuído que o cenário já era
bonito antes de as casas existirem.
Na verdade, o sucesso das ecohouses das
Pedras Salgadas iniciou-se há mais de um século, quando o parque começou a ser
plantado. Não abundam no país territórios como aquele e deveriam ser ferozmente
protegidos.
Uma parte das pessoas que ama as Pedras Salgadas, por baptismo ou
adopção, indignou-se com o projecto das ecohouses.
Parecia um sucedâneo miserável dos sonhos que as pessoas têm para ali. E de
algum modo estavam certas em achar as casas um sucedâneo. São-no. De uma forma literal
e pragmática. Substituem os hotéis que no seu tempo tiveram igual (ou maior) sucesso.
Mas substituem-nos não necessariamente de uma forma aviltante. Há um certo
realismo no projecto (e o realismo é quase sempre desmancha-prazeres), mas neste caso é um realismo sensato. Ou
antes: sensível. Há que reconhecer que as construções, ainda que modernas (ou por
isso mesmo), não feriram o território, respeitaram-no, dialogaram
construtivamente com ele, como a boa arquitectura sabe fazer. E são facilmente
desmontáveis, descartáveis, se acreditarmos que algum dia o termalismo terá suficiente
importância para encher hotéis em vez de casas nas árvores e defendermos que as
duas actividades são incompatíveis.
Há certa legitimidade em achar que os lucros de quem explora as águas
das Pedras (e paga os correspondentes impostos em Lisboa ou na Holanda) deveriam
obrigar — se não legal, moralmente — a concessionária a ser um pouco menos
realista e a sonhar um pouco mais com a terra. Mas esperar-se que reconstrua os
hotéis e os ponha a funcionar (como felizmente fez com o Balneário) é talvez irrealista,
se nos lembrarmos que a mesma empresa é também proprietária do magnífico Vidago
Palace Hotel, ali ao lado.
No curto prazo (enquanto o turismo termal não a estimule
suficientemente, se confiarmos que algum dia o venha a fazer), uma das formas que
a concessionária das águas tem de beneficiar a terra, de lhe assegurar um
futuro digno da sua antiga glória, é proteger
o património, como fez com as ecohouses
(e com o Casino, sejamos justos). Proteger desde logo, inexoravelmente, a sua
enorme riqueza botânica — e proteger o que resta de história, de memória nas
ruínas do Grande Hotel, do Hotel Universal, das Romanas (com a sua fonte e
edifício adjacente). Fora de muros, o território das Pedras Salgadas tem sido
paulatinamente descaracterizado. De termal resta ali praticamente a memória.
Dentro de muros, há abundância de fantasmas, mas fantasmas benignos e
eventualmente lucrativos.
Depois dos buracos deixados pela demolição do Hotel do Norte, do Bazar
Fotográfico, da Pensão do Parque e do Hotel Avelames (deve dizer-se que este tinha
sido já bastante prejudicado por intervenção medíocre anterior, que além de
descaracterizar o edifício abriu uma clareira no bosque contíguo,
revelando que os arquitectos responsáveis não perceberam o espírito romântico e
o interesse da sombra num parque termal); depois da demolição da Casa de Chá na
Romanas, a concessionária das águas mostraria já um grande respeito pela terra,
ajudá-la-ia bastante (por vezes até contra a vontade dela) se não permitisse o
abate de nenhuma árvore que não estivesse doente e se parasse com as
demolições.
O turismo termal nos dias de hoje tem potencialmente mais motivações do
que a tradicional ida a águas. Há a vertente da natureza (que o marketing das ecohouses evidentemente explorou) e há uma “arqueologia termal”, um
“turismo de época”, de “nostalgia” que não deveriam ser negligenciados. Ora,
estas duas vertentes só poderão ser rentabilizadas se o património edificado persistir,
como em Roma o Coliseu ou o que resta do Fórum. Claro que custa muito dinheiro
pôr os edifícios habitáveis, mas custa certamente muito menos estabilizá-los,
dar-lhes segurança, fazer deles elementos dignos da paisagem, do cenário que são
o parque termal e as Romanas. A Unicer será já amiga das Pedras Salgadas se
deixar de demolir património e se impedir a sua descaracterização. Se zelar
para que quaisquer intervenções nas suas propriedades (ou em áreas que com elas
conflituem) se façam com a mesma inteligência, o mesmo gosto, a mesma
sofisticação, a mesma clarividência arquitectónica das ecohouses.
Estão em curso intervenções na marginal ao rio (e
ao Parque) e nas Romanas. Eis um bom momento para a Unicer assegurar que no futuro
lhe agradeceremos a defesa intransigente que ela fez da nossa memória, do nosso
património — e do
nosso futuro. É que se se distrai ainda lhe plantam uma rotunda com uma
torneira em frente à entrada.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Escritor de levar para casa
Li que Valter Hugo Mãe esteve à conversa com leitores em Bragança ou
Macedo e que a algumas pessoas no fim apetecia levá-lo para casa, por ser tão doce. Fiquei
deprimido, com a inveja. Depois esbofeteei-me. Pela estupidez.
A inveja entre escritores é proverbial* — e tê-la sentido alegrou-me. Pensei
que já podia pegar no telefone e dizer: «Mãe, sou escritor!», como se tivesse
detectado os primeiros pêlos no buço (ou em zona mais meridional) e quisesse
gritar: «Mãe, já sou homem!»
Mas de seguida fiquei deprimido, porque, embora exagere nos açúcares,
jamais serei um tipo doce que as pessoas queiram ir ouvir falar — quanto mais levar
para casa.
Se depois me esbofeteei é porque me lembrei que detestaria que as pessoas
me quisessem levar para casa. Se por hipótese bizarra me quisessem ir ouvir
falar.
* Leia-se A Informação, de
Martin Amis.
Zuckerberg: vê lá se cresces, pá!
Como por infortúnio
(ou melhor dizendo, por ausência de fortuna) não posso comprar a revista LER,
amiguei-me com ela no Facebook. Contudo, o Facebook não deve gostar deste tipo
de promiscuidade, porque não me tem dado qualquer notícia de actualizações da página.
Dá-me notícias de actualizações patetas (sim, também as há no rol dos meus 275 "amigos") e dá-me sugestões de imbecilidades que não lhe pedi. Mas não me informa
de novidades da LER. De início julgava que era porque a revista não publicava nada, e creio que
assim foi durante algum tempo. Mas agora, por um acaso, descobri que o blogue da LER tem estado mais activo do que me lembrava e que a página do Facebook tem
espelhado essa actividade.
Caro Zuckerberg: bem sabemos que o bom uso que
alguns fazem da tua invenção é algo que não estava na tua cabeça e te deixa
contrariado, mas é um golpe baixo favorecer os patetas só porque simpatizas
mais com eles. Vê lá se cresces, pá, isto não é a universidade! Já não és um
caloiro! Ou um dux!
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
A nostalgia dos regicidas
As mimosas florescem,
mas é um embuste,
não há essa coisa a que chamam Primavera.
Este é o tempo dos regicidas,
alvoraçados como andorinhas.
Eles virão, eles virão.
Quando o cuco sobressoar nas copas
e o pica-pau na pele dos ulmeiros,
os reis lembrar-se-ão com estupor
da última luz de Nagasaki,
pobres nostálgicos.
Eles virão, eles virão,
arrasando o edificado
vergando a floresta
queimando terra e ar
estoirando os crânios reais (só de pensar neles)
— ou acordando com azia
num dia de expediente
e atrasados para o eléctrico.
Não há essa coisa a que chamam Primavera.
E.K.
[versão google translator retocada a partir de original grego]
mas é um embuste,
não há essa coisa a que chamam Primavera.
Este é o tempo dos regicidas,
alvoraçados como andorinhas.
Eles virão, eles virão.
Quando o cuco sobressoar nas copas
e o pica-pau na pele dos ulmeiros,
os reis lembrar-se-ão com estupor
da última luz de Nagasaki,
pobres nostálgicos.
Eles virão, eles virão,
arrasando o edificado
vergando a floresta
queimando terra e ar
estoirando os crânios reais (só de pensar neles)
— ou acordando com azia
num dia de expediente
e atrasados para o eléctrico.
Não há essa coisa a que chamam Primavera.
E.K.
[versão google translator retocada a partir de original grego]
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Ford Ácido
Os Idiotas segundo Nuno Costa Santos, n'O Marginal Ameno:
«Ford Ácido
Tenho transportado na mochila o romance "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo (O Lado Esquerdo Editora). Além de trazer uma artilharia literária potente, dá sempre jeito quando vou ter com figuras que não me inspiram a mais luminosa das simpatias. Mais do que as histórias, as viagens – pela Roménia, pelo Vietname - e as personagens, ficou-me a energia do tom do livro, que não encontro com tanta frequência na novíssima literatura portuguesa: um fulgor descomplexado, uma vocação para a frase crua de efeito satírico, uma especulação de cronista livre, uma mundana deambulação sem sinal de parábola.
Vejo aqui uma influência de alguma literatura americana, no sentido mais coloquial e sem berloques do termo (a epígrafe é de Philipp Meyer, autor de "Ferrugem Americana"). Fala-se do regresso à terra, da vida numa pequena cidade que quer ser maior do que é, de políticos que contratam bloggers para escreverem comentários semanais, da bancarrota de países e das relações, de presidentes de câmara sem dimensão, das mamas da Mafalda, a funcionária da biblioteca. E de bebedeiras. Vocês sabem que sou pelas frases, mesmo tendo a consciência de que há romances maiores que as dispensam. Quando as há, colecciono-as. Guardei algumas, de uma estirpe literariamente incorrecta, no masculino e no feminino:
- "No que concerne à líbido, os homens tendem a ser trolhas na hora de a exprimir".
- "Pensei ingenuamente que uma vida difícil tirava o ânimo da cópula, mas estava-me a esquecer da taxa de natalidade nos países do terceiro mundo".
- "Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável".
- "O teatro impúdico e repugnante da intimidade alheia".
- "Creio que o beijei mesmo como quem esmurra, com igual raiva, igual necessidade de ferir, de causar sofrimento, de humilhar, de vencer, ficar por cima”.
- “Que porra sabemos nós do que pensávamos e sentíamos na adolescência?”.
Existe mais concisa acidez em “Os Idiotas” – com referências sem interlúdios à cultura pop, a filmes com George Clooney sobre despedimentos, aos AC/DC e ao"Creep" dos doutores Radiohead. Em cada passo sente-se uma voz vigiada, sempre disposta a sabotar o que registou uma linha antes, que se deixa transportar num Ford Capri 1300 de 1972, o mesmo que figura no desenho bem sacado da capa.»
domingo, 9 de fevereiro de 2014
The boy with the thorn in his side
Como não pensar que há uma correspondência entre a tempestade e a necessidade de eloquência? Ou de mera expressão? O vento fala por mim.
Tom Rosenthal
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Redireccionando a bigorna
«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a "comunicação" entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»
Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se
o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares
(que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos:
o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de
comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e
consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais:
este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do
Correio da Manhã, esse órgão onde
parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e
sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas
não leiam jornais, nem sequer o CM. A
Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)
O Facebook é também por certo
uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora,
reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem,
que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor:
reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é
ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.
Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência
do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta
de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O
problema é a subserviência. A
idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a
idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do
que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de
sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)
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