As opiniões que se lamentam sobre os parcos vencimentos dos políticos dividem-se em pouco mais de três géneros: as hipócritas (ou cínicas), as ingénuas (mas cultíssimas e seguríssimas da verdade) e as simplesmente patetas, de adolescentes esperançosos e ambiciosos que ensaiam todos os dias ao espelho a célebre proclamação «mãe, sou ministro!».
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.
Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.
Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.
Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.
Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)
Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Orgulho e preconceito
No concurso televisivo “Quem quer ser milionário”, um rapaz estudante
de Jornalismo tinha de escolher, entre quatro possibilidades, o nome do autor
de Frankenstein. Minutos antes,
amigas na plateia diziam apostar nele pela sua cultura geral. Ele definia-se
como pessoa que lê.
As opções eram Arthur C. Clarke, Bram Stoker, Mary Shelley e H.
G. Wells. O rapaz não teve a tradicional hesitação entre Shelley e Stoker —
rejeitou de imediato a escritora porque, palavras suas, não lhe parecia que uma
mulher pudesse escrever um livro daqueles.
Depois de ter recorrido a uma ajuda que reduziu as escolhas a dois nomes (precisamente
Shelley e Stoker), manteve-se na rejeição de Mary, ainda que não fizesse ideia
de quem era o outro.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Depois da freira, os élderes e os reis
Depois da minha boa acção com a freira de ontem, tocaram-me à porta
dois simpáticos élderes (por estes dias as pessoas são todas simpáticas para
mim, coração de queijo amanteigado). Para quem não saiba, elder não é nome, é cargo, função; os rapazes da gabardina e da
gravata com ar anglo-saxónico, mesmo quando escuros de pele, são presbíteros de
um dos ramos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a IJCSUD
para os amigos. Tocarem-nos à porta para falar de Cristo é tão legítimo (ou
mais) quanto os bispos católicos terem freiras que lhes fazem as compras.
Adiante.
Eu queria ignorar os sinais, mas hoje tocaram de novo à campainha e
eram os Reis Magos. Ou alguém em seu nome. No caso, uma anciã com ar de pedinte
e voz de grafonola enferrujada. Não percebi a letra, mas a toada era vagamente
típica das janeiras. Também podia ser uma canção de embalar — a senhora
encostava-se de olhos fechados à parede, reparei enquanto espeitava pelo
olho-de-peixe. E só não dormia porque a pandeireta que abanava nas mãos não
deixava dormir ninguém, nem a própria. Cínicos dirão que se pode ser indigente
mas não tem de se ser estúpido. A senhora terá percebido nas tradições cristãs
uma forma de variar a sua abordagem à clientela piedosa. Ou então era apenas
alguém com idade suficiente para ter saudades de ir por esses quintais adentro
e, não tendo companhia para o caminho, resolveu tirar a pandeireta do prego
(sem metáforas) e aclarar sozinha a garganta. Sem sucesso, nesta última parte.
Para mim, contudo, ela faz talvez parte de um teste ou é sintomática da
forma trôpega que o altíssimo tem de abordar as pessoas. E, se foi teste, eu
falhei. Aos élderes ainda retorqui simpaticamente que compreendia o ímpeto
missionário deles (de resto, premissa cristã que os católicos não cumprem), mas
me considerava servido no que tocava à palavra de Deus. Se estivessem a fazer
entrega de hambúrgueres, talvez pudesse ficar com um para mais tarde. A ela, à
janeireira, não abri a porta, considerando cobarde e abusivamente que a caridade
da vizinha da frente representava todo o condomínio.
Deve haver uma lógica nisto. Enviesada, claro, mas sabemos que Deus
escreve direito por linhas tortas. Ou vice-versa, já não sei. Freiras,
presbíteros, reis magos… Alguém lá em cima quer falar comigo e não tem o meu
número? Falem com a NSA, caramba. Estou no Skype, se for preciso olhar nos
olhos.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Blasfemando no fim do jogging
No fim da corrida, quando a estrada se ergue em rampa, uma freira pousa
o saco das compras para tomar fôlego e enfrentar o pequeno calvário que se lhe
apresenta. No último instante, tenho a minha epifania, caio do cavalo e ofereço-me
para lhe carregar o saco. Ela aceita e eu, talvez deixando-a a reconsiderar a possibilidade
ontológica da bondade, saio a correr rampa acima com o saco na mão. Sinto-me
revigorado, capaz de correr a maratona, mas o meu gesto (e o meu fôlego)
termina logo ao cimo do outeiro, no paço episcopal. (Talvez não se chame assim,
mas de todo o modo, é a casa onde mora o bispo.)
Se fosse escuteiro, suponho que consideraria, inspirado pela doutrina,
que a boa acção me garantia uns pontos no ranking
celeste, mas na verdade os meus ganhos são desbaratados no imediato. Não evito
blasfemar logo ali perguntando-me por que raio o bispo, no seu metafisicamente supérfluo
automóvel de luxo, não faz as suas próprias compras. E, já agora, reincido, por
que raio tem de morar numa casa apalaçada, servido por um conjunto de obedientes
freiras. Ele é o quê? Um novo-rico com tara por serviçais fardadas? Um padrinho
da máfia com respeitáveis códigos de honra e de vestuário? Um conservador de
velha casta que se passeia no solar de estola pelos ombros, dando palmadinhas nas
criadas uniformizadas quando ninguém vê?
Bom, só não atiro com as compras porque suspeito que a pobre e esbaforida
freira ficaria chateada (talvez aquilo seja o
seu jantar). E porque, na verdade, me sinto verdadeiramente, cristãmente, satisfeito por a ter ajudado.
Talvez Deus me perdoe a heresia — mesmo que a sua classista e machista
Igreja não o faça. Em todo o caso, o prazer foi todo meu e da simpática
freirinha que, calhando, ainda me reserva uma oração esta noite, tão precisado
que ando delas. Saravá.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Notas de viagem
Não sendo, nem em sonhos, um viajante imparável, tenho ainda
assim no cadastro um número simpático de milhas aéreas e muitos quilómetros de alcatrão
peninsular.
E contudo são insuficientes. Não me arrependo da
eventualidade de ter vivido nos últimos anos acima das minhas possibilidades, mas
arrependo-me (um pouco retoricamente, concedo) de não ter tentado poupar para estourar
em mais viagens.
Até há um mês arrependia-me também de não ter levado um
Moleskine nas expedições que fiz. Achava que as notas me seriam úteis nos posts e livros que ambicionava escrever.
Estava errado. As viagens são úteis — as notas não.
Em primeiro lugar, o mesmo carácter pudendo que me impede de
sociabilizar com facilidade inibe-me de escrever sobre as minhas viagens. Pelo
menos de escrever textos especificamente sobre as viagens.
O único Moleskine que tive (e tenho) foi-me oferecido há mais
de três anos e tem três quartos das páginas intactas. Recentemente levei-o para
Paris, mas foi inútil. Em nenhum momento dos dias que entretanto passaram senti
qualquer vontade (ou senti o à-vontade)
de o abrir para escrever fosse que género de texto fosse.
Em todo o caso, não seria de muita utilidade: apontei escassas
observações e mesmo essas me parecem fúteis.
Na verdade, o que aproveito literariamente das viagens não
surge por invocação e não poderia ficaria registado no período em que acontece.
A identificação (e gradação) da importância das coisas é um exercício
posterior. É mais tarde, por vezes bastante mais tarde — e involuntariamente,
quase inconscientemente —, que as experiências das viagens surgem e se revelam
úteis.
É como a vida: não sabemos que parte dela pode mais tarde ser
romanceada, caso contrário vivê-la-íamos como uma ficção vigiada e seria
portanto depois inverosímil, inutilizável, falsa, rebuscada, artificial, sem
proveito. Não é durante a viagem que detecto o material literário (ou apenas com
interesse narrativo): ele atropela-me um dia, no jogging, na caixa do supermercado, no trânsito, no duche. E então,
sim, deveria correr para o Moleskine, para que à noite, iluminado pelo ecrã,
não perdesse nada da ideia.
Creio que as notas tomadas durante uma viagem me seriam úteis
se as pudesse tomar em modo inspirado, se pudesse viajar como um paciente Cézanne
em frente a uma paisagem. Infelizmente, as minhas excursões são demasiado
curtas (orçamento oblige) para que me
possa dar ao luxo de agir como um escritor em viagem, sorvendo demoradamente. A
única coisa que posso fazer —
e isso é mais útil do que notas — é manter olhos e ouvidos bem abertos o tempo
todo. Passar pelos sítios e pelas pessoas como um aspirador diligente, com
grande poder de sucção. Um Hoover topo
de gama ao serviço do detalhe e das sensações. E depois confiar na memória,
esse departamento de arquivo e síntese de fábulas do cérebro humano.
É verdade. As sociedades de partido único resolvem-nos melhor.
«Os pequenos partidos são um sintoma de sociedades que não conseguem resolver os seus problemas.»
Vasco Pulido Valente, Público
sábado, 28 de dezembro de 2013
Quim Roscas e Zeca Estacionâncio
A dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio parece provar que a ascensão
social é possível nesta egrégia nação. Dois moços dados às anedotas, aparentemente
condenados, como noutros tempos, a animarem os serões de tascas de província,
conseguem um programa de televisão em horário nobre — o “Telerural”, emitido a partir
de Curral das Moinas. Um deles vai mais longe e, qual sapo beijado por princesa
do Lumiar (ou de lá onde a RTP tem os estúdios), não tarda é transformado em
apresentador de concursos. Num terceiro momento da sua ascensão, ambos têm o venerável
Nicolau Breyner a fazê-los protagonistas de “7 pecados rurais”, um filme
seminal (eles haveriam de apreciar o potencial javardo desta qualificação).
Todo este sucesso parece provar, dizia, que Portugal não tem o ascensor
social avariado. Os pobres e os indigentes, sobretudo estes, conseguem chegar
ao topo. Mas se analisarmos bem o fenómeno percebemos que é tudo um problema de
fundações: o duo não saiu do rés-do-chão: o edifício nacional é que se afundou
mais no solo em algumas décadas do que a Torre de Pisa em séculos.
No cinema 2: M’espanto às vezes
Antes de iniciar o filme, a ZON oferece-nos um sketch ou um trailer ou uma coisa qualquer com a dupla Quim Roscas
e Zeca Estacionâncio. Ao contrário do que eu esperava, a audiência não reage entusiasticamente.
Não reage, sequer. Espreito a sala para ver se atrás de mim está toda a gente distraída
com o iPhone ou a lamber no escurinho, à moda antiga, o parceiro do lado, mas
na verdade cerca de dois quintos do público olha para a tela, sorumbaticamente.
Não sei que ilações tirar disto. As probabilidades de se encontrar numa
sala da ZON trinta pessoas com bom gosto e sentido de humor sofisticado não são
grandes. São maiores as de encontrar trinta pessoas que compraram um bilhete
por recomendação clínica, para subirem o astral com um pouco de entretenimento.
Mas, por outro lado, e atendendo ao efeito que o sketch tem no meu próprio estado de espírito, sei que não é preciso
ter-se um diagnóstico médico de depressão para se desejar cortar os pulsos logo
ali nos preliminares da noite.
No cinema 1: Panem et circenses
Atento à arena, no filme The Hunger
Games o público do pós-apocalíptico Capitólio espelha o povo de Roma na sua
infantil necessidade de entretenimento e sede de sangue. Entre o passado e o
futuro, a civilizada plateia de um cinema mastiga furiosamente pipocas e aborrece-se
enquanto o enredo atrasa o ambicionado início da acção. Ao som de «let the games begin» a massa no ecrã
parece ulular por ventriloquismo o alívio e o entusiasmo da audiência do filme.
A quem escapa que The Hunger Games é
talvez mais um momento tautológico da indústria do entretenimento do que um
filme sobre a insubmissão.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Regressar a casa
(clique)
Escrevi anteontem para uma apresentação de Os Idiotas em Vila Pouca de Aguiar um texto a que chamei erradamente “Regresso a casa”. Erradamente porque para regressar a casa tinha na verdade de recuar 25 anos e não dez, 33 quilómetros e não 27. Não li o texto, mas insisti nos equívocos passando uma boa parte do tempo a falar do livro errado, do Hotel do Norte. Talvez seja da época, do toque de recolher à família que se ouve entre os jingles do comércio natalício. Por isso, ou por outras razões igualmente (con)sanguíneas, devo ter achado que esta era a altura de apresentar a minha obra sobre as Pedras Salgadas e não a minha obra sobre Portugal.
E assim não hesitei em alimentar mais equívocos, reduzindo ambos os livros
(como voltei agora a fazer) a meros postais ou crónicas de territórios delimitados,
regiões demarcadas do autor. A catalã residente no Alentejo Natàlia Tost a
pretender que Os Idiotas se traduza
para outras línguas, e eu a confundir a minha cartografia mental com a minha
cartografia geográfica.
Parece-me que não há mal nenhum em publicar crónicas territoriais ou de
época, mas devia ter-me lembrado que não escrevi monografias. Suponho que, por
exemplo, o livro de Bruno Vieira Amaral As
primeiras coisas não é bom por ser um levantamento sociológico de um bairro,
mas por ter criado o Bairro Amélia a
partir de matéria humana não exactamente circunscrita. Analogamente, o Hotel do Norte nunca existiu senão na minha imaginação (alimentada,
naturalmente, de memórias, experiências, testemunhos, mas também da filmografia
e da biblioteca eclécticas que fui instalando nas dobras do meu cérebro — e
mais fundo, nos interstícios da alma, considerando a eventualidade de ter uma).
Não precisavam de ter demolido o verdadeiro Hotel do Norte, como
fizeram, para que eu pudesse defender que ele é a minha fantasia. Um escritor
não precisa de álibi nem de apagar impressões digitais, ou de fazer desaparecer
provas, para cometer os seus crimes literários. O edifício podia permanecer que
o livro continuaria a existir numa realidade alternativa e com fundações mais
devedoras à mecânica quântica do que à velhinha, previsível e mensurável física
de engenheiros civis, arquitectos e pedreiros.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
Bruteza
No dia em que o JN noticiou a morte de Nadir Afonso, a sua manchete
cumpria a rotina de informar em letras garrafais sobre um novo assalto ou um
novo crime. Para o pintor ficou um quadradinho. Sendo inadequado ter vergonha
do JN (porque não sou seu comprador nem seu accionista), tenho vergonha do país
que o engendra. E quero que se foda a conversa sobre o país real. Um país, seja
ele real ou imaginário, devia ter limites para a bruteza.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
O fosso entre o cais e a viagem
1. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. Uma lê, a outra lê-se. A primeira segura um
espelho, a segunda, um livro. É legítima a confusão sobre quem faz o quê.
2. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. Um espelho e um livro. Ambas lêem, mas só
uma avança para lá do frontispício, e não é seguro afirmar qual delas o faz.
3. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. A do espelho reforça o rouge, a outra enrubesce numa passagem de As Cinquenta Sombras de Grey.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
«Who gave you this number?»
Há uns anos alguém achou que me podia confiar o número de telefone de
Paul Auster e eu liguei para esse número. Na altura eu tinha acessos, por vezes
bem-sucedidos, de megalomania, mas atendeu-me uma voz feminina e o castelo de
autoconfiança que eu tinha erigido desmoronou. «Mr. Paul Auster?», balbuciei cá
de baixo, das masmorras. E ela, da sua torre de menagem: «Who gave you this
number?» Ainda tentei explicar ao que vinha, procurando recuperar um pouco da
compostura e da assertividade (da lata, na verdade) que usava em ocasiões análogas.
Mas ela não se comoveu demasiado, retorquiu com uma cordialidade evasiva, e estava
particularmente obcecada com a pergunta «who gave you this number». Não delatei
a minha fonte — tive esse resto de dignidade —, mas o inglês que treinara
saiu dos carris e a auto-estima deitou-se neles à espera do próximo comboio. Desesperado,
pedi-lhe um endereço de e-mail ou um número
de fax (ainda se usavam) e a voz deu-me uma sequência de algarismos. Terminou
ali a conversa e a campanha de Brooklyn. Mandei o meu fax e nunca tive
resposta.
Na hora e nos anos que se seguiram fiquei convencido de que falara com
a esposa do escritor. A voz era demasiado madura para ser da filha, então adolescente,
e, talvez para salvar o que me restava de ego, decidi que não falara com
nenhuma secretária, agente ou relações públicas. Não conseguira nada de Auster
— mas falara com a mulher dele. Assim se constroem os mitos.
Mais tarde cheguei a um primeiro livro de Siri Hustvedt (Aquilo que eu amava) e o meu trauma
transformou-se. Já não era a questão de ter falhado a operação Paul Auster, era
a de ter levado o meu embaraço para um novo nível. O livro de Hustvedt era
fascinante, mas ela era casada com o autor da Trilogia de Nova Iorque e isso fazia com que ao longo da leitura
soasse regularmente nos meus ouvidos aquela admoestação antiga: «Who gave you
this number?» Eu tinha descoberto uma escritora interessante, mas simultaneamente
descobrira que os seus livros estavam assombrados. «Who gave you this number?»
não era uma pergunta com que eu não soubera lidar: era um mantra
fantasmagórico. Olhava para a fotografia na badana e o seu rosto norueguês mas
tão ariano intimidava-me, remetia-me para o gueto. Hesitei em comprar o meu
terceiro livro dela porque temi que o título fosse uma insinuação, um aviso
críptico para mim: Verão sem homens. Aquele
homens era comigo. Eu estava impedido
de entrar no Verão de Siri Hustvedt, como anos antes fora impedido por ela de
entrar na casa do marido.
Tudo teria sido mais simples se a minha vaidade tivesse desde o início aceitado
que a secretária ou a mulher-a-dias do escritor ficara simplesmente
espantada com o facto de um desconhecido pouco fluente em inglês do outro lado
do Atlântico estar de posse do número do patrão. Porém, considerando que talvez
os livros de Siri Hustvedt sejam mais interessantes do que os de Paul Auster,
vou ali alimentar mais um bocadinho o mito de que um dia falei com ela ao
telefone e já venho.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Melancolia
Diz a Wikipédia que é «um estado psíquico
de depressão com ou sem causa específica» e se caracteriza «pela falta de entusiasmo e
predisposição para actividades em geral». Não parece a descrição da minha
patologia. Se é certo que a maioria das actividades em geral me parece repulsiva quando me inclino para ouvir “Gallows” em loop, a verdade é
que nestes momentos sinto um grande entusiasmo literário.
Os frívolos dirão que literatura não é actividade, e terão a sua razão terrena.
Mas quem se interessa por actividades quando tem as CocoRosie a sussurrar-lhe
ao ouvido canções de assombramento, uma pilha de livros à distância de um braço
e disposição para reescrever o mundo em vários tomos? Quem se interessaria por
um emprego, uma comunidade, um país ou um planeta se pudesse simplesmente permanecer
arrebatado?
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
A carranca do vizinho
Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O
vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu
automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do
morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um
aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu.
Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao
mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.
O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente
que neste jogging arrastado em dia de
alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e
curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem
resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma
numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a
propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e
que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora
ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!
domingo, 24 de novembro de 2013
«A esquerda sem povo»
A propósito deste pragmático artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público, recordei uma passagem do meu ainda inédito Aranda, escrita há três anos:
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Já estou a notar o vosso olharzinho irónico
Nesta fotografia de uma leitora, tirada na FNAC (Chiado?), Os Idiotas estão entalados entre a
Margarida Rebelo Pinto e o Valter Hugo Mãe.
(clique)
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Conservador
Nos anos do Independente
sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente
conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do
lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas,
como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente,
aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados
assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E
a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às
artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um
decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se
mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada
politicamente.
Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um
conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que
eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse.
Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.
[Romanas, 17.11.2013]
As costas largas da crise
A Lua este domingo pôs-se antes de nascer. Cerca de 12 horas antes.
Como ela, também tenho dias de acabar antes de começar, apesar de todos os planos,
de todas as expectativas. Mas no meu caso não há nada daquela exuberância da
lua cheia, que inspira e promete quer esteja a subir no firmamento, quer esteja
no seu ocaso. Comigo é um balão a esvaziar-se, com o silvozinho embaraçoso e
tudo. Um desânimo, uma desistência, um drama de nada vale a pena nem que a alma
seja grande.
Que sorte haver uma crise a quem deitar as culpas — e isso não ser completamente
mentira.
(clique)
domingo, 17 de novembro de 2013
Casal a vozes
Nos sessentas, bem-parecidos, melhor vestidos, ele tem voz de castrato e ela, por um daqueles
mecanismos compensatórios da natureza ou pelo espírito de contradição habitual entre
alguns casais, dir-se-ia que imita Tom Waits. São por isso um par curioso mas
verdadeiramente complementar. A cantar a vozes não ficariam nada mal perante a
dupla Simon & Garfunkel, mas a discutir desafiam os nossos mais embaraçosos
preconceitos. Sobretudo quando ele guincha que as mulheres são todas iguais e
ela, com uma baforada e voz cava, lhe chama machista de merda.
Amigos
São clientes um do outro e como a jornada de trabalho se prolongasse
acabaram a jantar juntos. Entre as manteiguinhas e o prato foram as juras de
amizade. «Tu sabes que eu sou teu amigo.» «Fiz aquilo porque sou teu amigo.» «Com
os meus amigos é assim.» «Digo-te isto porque sou teu amigo.» «Se não fossemos
amigos…» À sobremesa a amizade entrara num outro nível. «Ouve, eu sou teu
amigo!» «Se és meu amigo…» «Um amigo não…» «Não é por seres meu amigo que…»
«Teu amigo o caralho!» Depois do café e do bagaço tiveram de ser separados pelo
chefe de mesa, com a ameaça de que chamaria a polícia.
A manchete do JN
Ainda não percebi se o vizinho do rés-do-chão deixa quotidianamente o
jornal à sua porta depois de o ler ou se lho entregam tarde e ele apenas o
recolhe no dia seguinte. Seja como for, todos os dias leio a manchete do JN ao regressar
a casa — e, graças sejam dadas aos cinquenta e quatro degraus que entretanto
venço, todos os dias a tenho já esquecida quando entro em casa.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
A perdulária arte de chegar tarde
Depois de quase todos o literatos do país terem dado o seu contributo
para o debate facebookiano que espoletou um post
de José Mário Silva sobre um comentário (crítico) de Luís Quintais a uma
crítica (elogiosa) de José Mário Silva no Actual,
a coisa provavelmente esmorecerá. Mais uma vez, cheguei tarde. Damn it!
terça-feira, 12 de novembro de 2013
De donde és?
Aquelas duas aldeias eram conhecidas pelo afinco que os habitantes
tinham à terra, particularmente a rapaziada mais nova. Numa altura em que a
juventude estava toda a emigrar, os moços e as moças dali permaneciam,
raramente se afastando das povoações, aliás. Também eram conhecidos pela
timidez, mas nunca ninguém ligou muito as duas coisas. Ou se ligavam era com um
raciocínio incompleto: imaginavam que a timidez se devia a nunca terem saído, a isso lhes ter gravado no carácter um proverbial acanhamento provinciano. A verdade era um
pouco diferente. Não saíam porque tinham vergonha de responder se alguém nos
longes onde fossem parar lhes perguntasse de onde eles eram — e eles eram, sem
culpa disso mas embaraçados por isso, do Monte das Pitas e do Sítio da Éguas.
(Ideia de e dedicado a A. P.)
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Talvez coisar
Ouço no programa do provedor de uma rádio que ouvintes se queixam de
passarem ali músicas com palavrões. (Um dos exemplos é “Anos de bailado e
natação”, o belíssimo tema dos Mundo Cão com letra feliz de Valter Hugo Mãe de
que já aqui falei.) Isto no mesmo santo
dia em que a televisão dedica todo o período da tarde a fazer desfilar um
inesgotável repertório de grosseria e brejeirice.
Pergunto-me se os provedores das TVs (existem?) recebem queixas de
badalhoquices verbais no pequeno ecrã, mas suspeito que não. A cultura pimba é
ali hegemónica ou exclusiva. E, mesmo que não primem pela subtileza ou pela
elegância, os letristas pimba conseguem nos seus trocadilhos soezes evitar nomear
as coisas de que obsessivamente se ocupam. Ora, a hipocrisia nacional tolera o
mau-gosto, o machismo, a misoginia, a homofobia, o kitsch mais obsceno e a mais estridente ausência de talento — mas
nunca o vernáculo radiotransmitido.
Se não tivesse há muito sido banida qualquer forma de arte da TV lusa,
os Mundo Cão teriam na conjugação do verbo foder, ainda que poética, a razão do
seu ostracismo hertziano.
sábado, 9 de novembro de 2013
O elogio do grupo
(Ensaio de um ex-baixista frustrado)
Não sei se por ter sido baixista e na definição clássica um baixista ser um guitarrista sem talento e frustrado, sinto grande simpatia pelos membros esquecidos das bandas. Por exemplo, fico retrospectivamente contente quando leio que Morrissey perdeu o diferendo jurídico que manteve com o baterista dos Smiths. É que, embora se saiba que o génio de um grupo é quase sempre individual ou, vá lá, bicéfalo, não é menos verdade que na maior parte dos casos tudo o que de realmente genial esses génios individuais fizeram aconteceu enquanto estavam no grupo. O que são Lloyd Cole sem os Commotions, Roger Hugdson sem os Supertramp, Roger Waters sem os Pink Floyd, John Lennon e McCartney sem os Beatles, o próprio Morrissey sem os Smiths? Génios, é verdade. Mas génios menores. Talvez eu pudesse idolatrar o trabalho deles a solo se não os tivesse ouvido antes, quando tinham um grupo. Assim, apenas posso amar as suas carreiras a solo.
Não sei se por ter sido baixista e na definição clássica um baixista ser um guitarrista sem talento e frustrado, sinto grande simpatia pelos membros esquecidos das bandas. Por exemplo, fico retrospectivamente contente quando leio que Morrissey perdeu o diferendo jurídico que manteve com o baterista dos Smiths. É que, embora se saiba que o génio de um grupo é quase sempre individual ou, vá lá, bicéfalo, não é menos verdade que na maior parte dos casos tudo o que de realmente genial esses génios individuais fizeram aconteceu enquanto estavam no grupo. O que são Lloyd Cole sem os Commotions, Roger Hugdson sem os Supertramp, Roger Waters sem os Pink Floyd, John Lennon e McCartney sem os Beatles, o próprio Morrissey sem os Smiths? Génios, é verdade. Mas génios menores. Talvez eu pudesse idolatrar o trabalho deles a solo se não os tivesse ouvido antes, quando tinham um grupo. Assim, apenas posso amar as suas carreiras a solo.
Há algo num colectivo que faz
o som de uma banda. Uma banda pode ter num tipo que se limita a abanar a
pandeireta um elemento fundamental. Toda a gente sabe abanar uma pandeireta,
mas só quem bebe connosco ou fuma connosco abana a pandeireta daquele jeito que
o grupo precisa. É corrente gozar-se com Ringo Starr, mas o que seriam os Beatles
se na bateria tivessem John Bonham? Diferentes, claro, mas também piores, acreditem. A genialidade dos
grupos pop/rock não está apenas no talento dos seus instrumentistas ou
compositores, mas no cozinhado que eles conseguem fazer com as diferentes
capacidades e contribuições dos seus elementos. Um hit pop é um acidente no
universo da música. Tem menos a ver com o virtuosismo das partes do que com o
cruzamento delas. Em rigor, não há filhos sem pai ou sem mãe. Frequentemente,
apenas um dos progenitores tem genes que se aproveitem (e, tantas vezes,
nenhum), mas a beleza de alguém é sempre um cocktail
que resulta da sacudidela conjugal. Ou de haver sorte no banco de esperma.
Os génios que se lançam numa carreira a solo cometem o pecado da
soberba. Se não conseguem deixar de se zangar com os bandmates, deviam ter a coragem de se reformarem ou morrerem para
deixar o mito intacto. Mas não, suas excelências acham que ainda têm muito para
dar (e é verdade) e vão para estúdio com um conjunto de tipos contratados à
espera que a magia aconteça entre estranhos como entre íntimos. Os músicos
contratados ou requisitados para acompanhar vedetas recém-divorciadas são
tratados com paninhos quentes (no caso de serem eles próprios vedetas de outras
proveniências) ou como escravos. Ora, com escravos fazem-se pirâmides, não
música. E a cordialidade entre pares dá palmadinhas e salamaleques coreográficos,
não canções.
Acresce que o génio desagrupado tende a achar que, desde que tecnicamente
correcta, é indiferente a linha de baixo, a malha de guitarra, a agitadela da
pandeireta que passam a acompanhar a sua música. Na sua arrogância recém
adquirida (ou exacerbada), julgam auto-suficiente a canção que compõem. E por
isso gravam discos sem personalidade, ou com a personalidade de um grupo de swing (um grupo de adeptos da troca de
pares sexuais, excitante, mas inconsequente). Pressente-se ali o talento
melodioso do compositor, a voz distinta, a interpretação temperamental — mas como
ecos do passado. The Pros and Cons of
Hitch Hiking podia ser um bom álbum, mas sem os Pink Floyd é um fraco sucedâneo
de The Wall. (Pelo seu lado, A Momentary Lapse of Reason por não ter Roger
Waters tem muita dificuldade em parecer música.)
Quando se esteve num grupo, não se devia pretender a arrogância de uma carreira
a solo. Quem quer uma carreira a solo chama a si próprio desde o início David
Bowie e calça-lhe os sapatos de plataforma.
Fica aqui o meu elogio aos grupos — e a minha frustração por, enquanto ex-baixista,
não ter um grupo a quem pedir indemnização.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
«Vá cortar as unhas!»
Coisas que me dispuseram bem no Facebook hoje:
- Chamarem Tico e Teco aos dois neurónios de Margarida Rebelo
Pinto.
- Dizerem-lhe: «Vá cortar as unhas»
Coisas que me dispuseram mal:
- Um link para um artigo do Público onde Pedro Lomba mostra como
também sabe ser hipócrita. Ou parvo.
Há uns tempos o problema era a produtividade, a função pública
precisava de trabalhar mais horas. Hoje soubemos que afinal a função pública
pode trabalhar menos horas e que isso, levar mais horas mas menos dinheiro para
casa, é bom para as famílias. O empobrecimento passou de necessário a bom.
É como a demografia: a direita tonta que Lomba frequenta (e que, por
contágio, o entonteceu) não se cansou durante anos de alertar para a o problema
de uma demografia envelhecida, era preciso combater o aborto e fazer filhos,
ter grandes e sólidas famílias tradicionais, monárquicas também podia ser.
Depois os tontos, muito educadinhos e aperaltadinhos e sabujinhos, abriram a
porta à tia troika e foram para o poder com pins
na lapela (ler a crónica de Lobo Antunes é imprescindível) e afinal já não
importava nada envelhecer o país mandando os jovens emigrar.
Estes bebés prematuros, espermatozóides de gravata ao pescoço, acham
que os outros tiveram o mesmo tipo de desenvolvimento intelectual que eles, que
também formaram pensamento e currículo na incubadora da Alfredo da Costa. A
desfaçatez é tão grande e tão óbvia que num acesso de ternura, como os que por
vezes se tem perante os tolinhos da aldeia, somos inclinados a pensar que
tomarem-nos por parvos é a maneira deles um elogio, é dizerem-nos que nos
consideram seus iguais.
É que tipos destes chegam a acreditar nas imbecilidades que dizem. Não
se importam de ser parvos em nome da causa.
Sacrificam a sua inteligência (considerando a possibilidade de terem mais do que
um Tico e um Teco debaixo da melena beta) e a sua honra em nome de um bem superior (uma entidade tão
insondável quanto os mercados, possivelmente um heterónimo destes). Tais secretários de estado
e assessores so british, com muito
ciência política à inglesa (a francesa é hó-rro-ro-sa!), são as tias louras da
direita tonta portuguesa.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Portugal na cauda da Europa
Sobre esta notícia, se alguém lhe ligar, haverá duas escolas analíticas.
A vasco-pulidiana dirá que é assim porque somos um país subdesenvolvido
economicamente: só o bem-estar económico favorece o ócio e a curiosidade intelectual
ou cultural. A oposta dirá que temos uma economia fraca porque somos subdesenvolvidos cultural e intelectualmente. E, enquanto
as elites debatem entre si o velho e na verdade fútil enigma da galinha e do ovo,
o país, entregue a si próprio, contínua desinteressado quer da cultura, quer da
economia.
sábado, 2 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
O amor em Portugal
— Não ficavas feliz se te saísse [o euromilhões]?
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.
Hermenêutica futebolística
O amigo chegou, encomendou a sandes e a mini ao balcão e virou-se para
a TV, onde passava um jogo de campeonato estrangeiro. O outro, quando se deu
conta, arrastou-se lá do fundo e, depois do cumprimento, atirou:
— O árbitro está a ser tendencioso a favor dos azuis.
O tom era neutro, indiferente, de quem invoca as condições climatéricas
para início de conversa.
Reflectindo nas palavras, fiquei na dúvida se aquela observação de circunstância
significava que:
a) É possível dedicar-se uma atenção mecânica mas minuciosa a um jogo de
futebol mesmo que se desconheça os clubes ou eles não sejam suficientemente importantes
para merecerem ser fixados;
b) A parcialidade da arbitragem ou a crença de que há parcialidade na
arbitragem são tão inerentes aos jogos quanto a rotundidade da bola;
c) Os rituais de desculpabilização e a hermenêutica televisiva mudaram
o foco do jogo para a incidentalidade.
d) O autor da observação era um irredimível benfiquista.
Mas, pensando bem, talvez fosse apenas verdade que o árbitro estava a ser tendencioso
a favor dos estrunfes.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Perder tempo
Uns vinte anos depois de ter pousado a viola-baixo, dei por mim na
última madrugada a assistir online a
lições sobre matérias prementes como walking
bass lines, slap e the secret triplet (admirável técnica),
ministradas por um tal Scott Devine. Não tenho qualquer intenção (ou
esperança?) de voltar a pegar na guitarra e as tarefas que nos próximos tempos me
esperam não convivem bem com este diletantismo fora de horas. Acresce que,
tirando certas facetas parvas do emprego, todas as tarefas que me esperam têm a
particularidade de serem prazerosas — ou necessárias, úteis e prazerosas — e envolvem livros.
Porquê então esta tendência para a perda de tempo? Racionalmente, não comungo
da definição de liberdade expressa no poema de Fernando Pessoa (Ai que prazer / não cumprir um dever.
/ Ter um livro para ler / e não o fazer! / Ler é maçada, /
estudar é nada. / O sol doira sem literatura.)
Emocionalmente, também não, já que o meu prazer mistura o sol, a brisa, o rio, a
bruma, danças, flores, música e luar (passo as crianças) com livros.
É isto uma manifestação de irreprimível curiosidade? De fome de
conhecimento? Ou uma forma velada de descer à franca humanidade dos que passam os
serões e as décadas vendo novelas, futebol ou reality shows como se não houvesse outro sentido para a vida?
Vou por esta prova de fraqueza, da minha iniludível pertença ao género
humano. Uma parte de mim também desiste a espaços perante o absurdo de uma
existência efémera. Para quê fazer um gesto que nada muda se podemos ficar
simplesmente à espera?
Ou talvez não, talvez isto seja apenas um problema de gestão da
curiosidade. Lembro-me agora que depois dos vídeos, já se descarregavam as hortaliças
no mercado, ainda fui perceber a razão por que o baixista Devine tocava com luvas. Distonia Focal, descobri, uma doença
neurológica que afecta um músculo ou conjuntos de músculos e causa espasmos
involuntários. O uso de luvas de seda (terapêutica chique, de ambivalente
delicadeza) altera a sensibilidade e engana os neurónios avariados, bloqueando as
contracções.
Descoberta útil, não? Não?
terça-feira, 29 de outubro de 2013
O Padrinho
Na Periférica, a coluna de J.
Rentes de Carvalho tinha o título deste post. Todas as rubricas eram na revista
nomeadas a partir de filmes e a sugestão de O Padrinho para a crónica dele foi absolutamente incontroversa — não sendo a boutade o argumento principal, já que em
rigor não havia uma boutade no título.
Mais de uma dezena de anos depois, aquilo de sábado na Traga-Mundos não
foi bem um debute, uma entronização que JRC apadrinhasse. Foi um reencontro
afectivo. De vez em quando, para revermos amigos, para podermos ter aquele
abraço reconfortante, para recebermos a bênção balsâmica de um patrinu, de um pater, temos de trocar as voltas à vida, criar situações onde tal
possa ocorrer. No sábado, todos (até eu) exagerámos dizendo que estávamos ali a
propósito d’Os Idiotas — mas ninguém escondia
com muita convicção que estávamos ali para recebermos afecto e um pouco daquela
espantosa energia vital de Rentes de Carvalho.
Il padrino, pelo seu lado, não
foi avaro, foi aliás desmedido — para meu embaraço. O texto com que se prontificou a participar na instrumental apresentação do livro, o trecho que se
me refere, deve por isso ser lido apenas como uma enorme e paternal demonstração de
generosidade.segunda-feira, 28 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Diz que há vinho
E pronto, é hoje. Quem quiser conversar sobre idiotas comigo e com Rentes de Carvalho, apareça às 21h30 na Traga-Mundos. Diz que há vinho.
(Os que estão longe, não se impacientem, novas apresentações serão anunciadas já, já.)
(Os que estão longe, não se impacientem, novas apresentações serão anunciadas já, já.)
(clique para ampliar)
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Da praxe no parque à escatologia: ensaio taxonómico sobre a academia
A propósito de uma sucessão de casos, ou antes, da cobertura jornalística
de casos de francos excessos nas praxes académicas, e em sequência de uma débil
pressão social ou de uma réstia de escrúpulos, algumas universidades lá assumiram
que lhes cabiam desempenhar um papel, não exactamente na formação de carácter
dos seus alunos (não exageremos), mas de moderação da selvajaria. Passaram a
existir regras um pouco mais restritivas para a praxe em alguns campus. Como em
certas cidades mais progressivas do farwest,
os alunos foram convidados a deixar as armas no portão. Se querem brincar aos
índios e cowboys, que o façam lá fora.
A academia nada tem contra os tiroteios e a caça ao escalpe — desde que essas românticas
actividades ocorram extramuros.
E também assim a academia volta as costas à comunidade, ao mesmo tempo
que renega as suas incumbências fingindo que a sua jurisdição sobre o estudante
é limitada pela vedação do campus.
Os grupos de praxe, aliás, parecem não caber no âmbito jurisdicional de
nenhuma instituição, civil ou uniformizada. Desde que notoriamente envolvidos —
quer como vítimas, quer como algozes — nessa fundamental ocupação dos vinte
anos que é a praxe, é-lhes passado um livre-trânsito, uma espécie de carta de
alforria para a ignomínia e o vandalismo, sem limitação de decibéis.
Se você, caro cidadão, dando-lhe
na veneta, resolvesse, como por aqui se faz, chafurdar ou fazer bodyboard na relva húmida de um parque até
transformar o círculo do seu enchafurdamento num lamaçal, ou arrancar, com
sequelas para o futuro botânico do sítio, qualquer vestígio de relva no
percurso do seu reiterado deslizamento, provavelmente teria um funcionário
municipal ou um agente da autoridade a censurar-lhe o comportamento (por mais genuinamente
divertido que você estivesse) e a sacar do bloco de multas para lhe pedir contas.
Tratando-se de grupos de praxe, as instituições do Estado quando muito abanam a
cabeça com aquela indulgência que se oferece às crianças e aos malucos da
terra.
Tempos houve em que as cidades médias viam no estudante universitário a
galinha-dos-ovos-de-ouro e temiam incomodar a debicante espécie com os seus
escrúpulos e as suas preocupações cívicas (se as tinham). Galinhas desta estirpe,
achava a mentalidade mercantil dos burgos, deviam ser deixadas a cacarejar estridentemente
antes de cada postura. A caca de galinha com que revestiam abundantemente as
calçadas da urbe não devia ser censurada, pois saía do mesmo sítio de onde
saíam os áureos ovos. A escatologia era
assim preocupação dominante nestas pequenas ou médias comunidades, quer na sua
acepção científica (relacionando a merda estudantil com a saúde económica do
condado), quer na sua dimensão filosófica (o fim dos universitários era o fim
do mundo).
Claro que da ignara e vil burguesia mercantil e das instituições dos
burgos, constituídas tantas vezes por meros perus emproados ou galináceos da
mesma cepa estudantil, não se esperariam conhecimentos zootécnicos. Era natural
que desconhecessem serem inúteis as asas das aves poedeiras e, por isso,
desadequado o temor melodramático quanto à fuga das galinhas. Seria talvez uma iconoclastia
humilhante e traumática alguém informar as comunidades que os Gallus gallus aureos, vulgo estudantes
universitários, arrendariam igualmente casas, se alimentariam quotidianamente e
quotidianamente apanhariam pifos mesmo que algumas regras da civitas lhes fossem impostas.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Embirrando com a leitura
Na forma como cita parece revelar-se algo do carácter (ou da formação) de
um autor. Leio um ensaio onde as fontes francesas são citadas em francês e as
italianas, russas, alemãs e mesmo as anglo-saxónicas são-no em português
(quando não também em francês).
Talvez o autor tenha optado por citar as suas fontes na língua em que
as leu, é um critério. E, nesse caso, estamos perante um afrancesado, por
formação e/ou por afinidade cultural.
Com a minha mania de imaginar biografias, decidi tratar-se de um pavão
vaidoso do seu francesismo, do seu domínio da língua de Sartre. Como não tem
idade para ser um ex-expatriado ou para se ter formado no tempo em que quase
toda a gente em Portugal era culturalmente afrancesada, decido também que viveu
em França, nasceu ali, talvez filho de emigrantes orgulhosos da sua (dele)
carreira académica.
Assim tomado por esta animosidade ficcionalmente refocalizada, decido
que os livros citados no ensaio têm edições portuguesas, que o autor não aplica
às fontes francesas o critério que geralmente aplica às russas e às alemãs (citando-as
em português) por presunção, gosto ostentatório. E encontro então explicação
para a forma arrevesada como escreve o seu ensaio, num português engalanado e
hirto: é prosa de calça vincada e gola alta, ou enrolada num cachecol parisiense.
Não exactamente elegante — apenas afectada.
Ideologia e competências autárquicas
Já se sabe que para os contribuidores do Blasfémias o Estado devia desaparecer, e nesse sentido é esclarecedora
a visão caricatural das competências autárquicas que Rui A. (nome artístico ou
timidez juvenil?) apresenta neste post:
«Em vez de tapar os buracos das ruas, licenciar novos prédios*, dar um destino decente ao Bolhão e resolver os problemas do trânsito, o programa da coligação municipal Rui Moreira/PS tem por objectivos “as prioridades que foram amplamente sufragadas pelos portuenses: Coesão Social, Economia e Cultura”. “Coesão Social, Economia e Cultura”? E nas mãos do PS? Tremam, portuenses!»
É generoso da parte do blogger
blasfemo confiar os buracos e o trânsito às câmaras (quando lá no íntimo
acredita que a iniciativa privada é melhor a repor paralelepípedos e a
programar semáforos), mas conceder que sejam necessárias licenças de construção é uma absoluta extravagância da sua parte. E
a livre iniciativa? O empreendedorismo sem burocracias? Mais um pouco e Rui A. ainda
acha que os mercados devem ser regulados.
* Já agora, num país onde se construiu demais e onde as empresas de
construção estão falidas, «licenciar novos prédios» parece estupidez ou utopia
— raio de lapso num blogue tão seguro da sua clarividência.
Crueldade instrumental
Eis como numa frase (longa, é certo) se condena a crítica à irrelevância
(implícita, mesmo que não conscientemente, fazendo o elogio do marketing):
«(…) embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (…)»*
*Maria do Rosário Pedreira, editora, referindo-se ao célebre dossier do Actual sobre autores sobrevalorizados e subvalorizados.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
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Livro do dia na TSF
Os Idiotas foi hoje o livro do dia na TSF. Ouça o programa de Carlos Vaz Marques clicando neste link:
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=3475854
«Um romance que surge como a confirmação de um talento já adivinhado por quem o lia na Periférica e como uma revelação para quem só agora venha a descobrir o autor.»
Os Idiotas foi hoje o livro do dia na TSF. Ouça o programa de Carlos Vaz Marques clicando neste link:
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=3475854
«Um romance que surge como a confirmação de um talento já adivinhado por quem o lia na Periférica e como uma revelação para quem só agora venha a descobrir o autor.»
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Más notícias
É injusto para os autores terem o azar de surgir na minha
lista depois de Foster Wallace.
Meio enganado por uma qualquer referência que li, avancei a
certa altura para Cinerama Peruana,
convencido que havia ali ecos de A Piada
Infinita. Como se usar notas de rodapé fosse suficiente para aproximar os
dois livros. Não são próximos. Talvez haja ecos de Bolaño no livro de Rodrigo
Magalhães, mas não vi nada de Wallace. E, lamento dizê-lo, a despeito do
talento do autor, aborreci-me. Certamente pela enorme sombra que lhe fez a
leitura anterior. Mas também um pouco pelo género: aquelas espécie de fábulas
eminentemente literárias e literariamente tautológicas não me apaixonam, mesmo
quando são assinadas por Borges. Foi para arquivo, a um terço do fim. Decidi
ser condescendente comigo mesmo, poupar-me o esforço.
Hoje fui buscar Uma
coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer — o que me parece más
notícias para os restantes autores da pilha.
«Todos os meninos do papá chegam a presidentes»?
Recensão de Os Idiotas na revista online Rua de Baixo:
http://www.ruadebaixo.com/os-idiotas-rui-angelo-araujo-10-10-2013.html
http://www.ruadebaixo.com/os-idiotas-rui-angelo-araujo-10-10-2013.html
sábado, 12 de outubro de 2013
Lobbies e doping na genitália alheia
O José Mário Silva diz na sua página de Facebook que «a edição desta semana do 'Actual' é capaz de dar polémica», e acrescenta um link para um post do blogue Bibliotecário de Babel que, dá para perceber, lista os temas da secção de livros do dito suplemento. O problema é que chegamos ao blogue e deparamo-nos com um artigo sobre Viagra.
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Tontarias
Como posso aspirar a tornar-me um escritor respeitável se ultimamente etiqueto a
maioria dos meus posts como
«tontarias»?
Entusiamo
O corrector ortográfico do meu Word não está acertado pelo Acordo
Ortográfico — está acertado pelo Mia Couto. Quero escrever «entusiasmo» e
sai-me «entusiamo», com uma estratégica elisão do segundo «s». Aos outros
desacertos o corrector reage sublinhando-os a vermelho. Este deixa-o
laconicamente sem marca, esperando que eu dê pelo caso e sobre ele pondere
etimologicamente.
«Entusiamo» será assim a fusão de dois termos: «entusiasmo» e «amo».
«Amo com entusiasmo», quer certamente o corrector que eu conclua, com romântico
exacerbamento.
Moldando o entusiasmo
Senti um entusiasmo inadequado e embaraçoso ao ler que Pedro Mexia escolheria Javier Marias como um dos seus dois favoritos para o Nobel deste ano. O entusiasmo foi inadequado porque o senti de um modo
pessoal, como se fosse eu o nomeado. E foi embaraçoso porque pueril, ou melhor,
servilmente penhorado. Não que sonhe ombrear com Mexia em cultura e sabedoria literárias,
mas escusava de ter acessos de entusiasmo tão obnóxios, tão avassalados por uma
lisonja dirigida a um objecto de estima mútua.
Compreendo porém o meu próprio entusiasmo. Não tendo lido muitos
títulos de Marias, entre as leituras que fiz estão os três volumes de O Teu Rosto Amanhã, uma obra que só por
si vale um Nobel. E a minha satisfação com essa magna leitura tem equivalência em
grau à perplexidade de ver os anos passar sem que a tradução portuguesa seja
retomada (a Dom Quixote editou o primeiro volume em 2005 e ficou-se por ali).
A relativa ignorância a que obra de Marias é votada em Portugal concede-lhe
aos meus olhos (ou aos olhos do meu entusiasmo) uma certa aura de autor de
culto. A simpatia pela obra e a sensação de injustiça traduzem-se numa identificação
com as suas tribulações e os seus sucessos. Admiração semelhante de outros é sentimento
de união, irmana.
Por isso, se o meu entusiasmo não fosse tão voluntarista, perante a referência
de Mexia a Marias ter-se-ia manifestado mais dignamente na forma de mero regozijo
pelo reconhecimento de um igual. Se as minhas emoções se dessem ao trabalho de
se intelectualizarem um pouco, a nomeação de Javier Marias por Mexia seria
recebida, adequadamente, com um entusiasmo
de classe, de membro de um clube restrito, exclusivo, reagindo ao nome do
escritor como ao santo-e-senha do clube. Talvez permitindo-se (o entusiasmo) um
sorriso irónico e levar dois dedos ritualizados ao Borsalino.
Mas temo que se derem o Nobel a Javier Marias, Pedro, o meu entusiasmo celebre
plebeiamente dedicando aos editores portugueses um daqueles gestos revanchistas
de jogador de futebol.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
José Rodrigues dos Santos ou Educação para a modéstia
Educado para a modéstia (a soberba descobri-a por mim mesmo mais tarde,
junto com a ironia), fascina-me a forma despudorada como José Rodrigues dos
Santos fala dos seus próprios livros. No meu quadro educacional, e se descontarmos
as conversas de balneário, a hipérbole reservava-se para os feitos dos outros,
se tínhamos a generosidade de os admirar; os nossos tratávamo-los com reserva,
rubor e olhos baixos. Por isso, quando leio entrevistas do autor de A Mão do Diabo — presumindo sempre que
são registadas fora dos locais onde tradicionalmente os rapazes cotejam as suas
galgas —, uma parte antiquada de mim pensa que ele está a falar de livros
escritos por outros. Depois lembro-me de certas teorias da conspiração, que
metem cálculos de tempo e ghost writers,
e por instantes dou-lhes crédito: se
calhar está. E assim se compreenderia a enfatuação.
Mas se considerarmos que o entusiasmo de Rodrigues do Santos não
resulta de ele se distrair e involuntariamente revelar o seu apreço pelo
trabalho dos colaboradores (o que até seria bonito); se considerarmos que ele
escreve os seus próprios livros, todos eles, temos então de perceber se a sua
arrogância tem a legitimidade da de um Mourinho, por exemplo.
No caso do futebol, estamos dispostos a engolir a bazófia de Mourinho
se depois ele ganhar os jogos e conquistar os títulos. Podemos achá-lo um
parvalhão emproado, mas é um parvalhão emproado que no fim leva a taça e
milhões de euros.
Deste ponto de vista, e embora custe equiparar a literatura a um campeonato
de gajos depilados em calças curtas, Rodrigues do Santos está também autorizado
a ser um parvalhão emproado — afinal, a sua equipa ganha fortunas e tem já uma
série de internacionalizações. E se não conquista as taças literárias é porque
elas, anacronicamente, ainda são atribuídas por críticos e júris, não pelo
terceiro anel da Luz. (Eis algo que urge alterar.)
Claro que se pode dizer que José não tem um jogo bonito, o seu futebol
é tosco, ganha muitos jogos recorrendo à mão
de Deus, para baixo todos os santos ajudam, etc., mas no fim do mês lá está
ele nos tops e as suas filas para
autógrafos, di-lo ele mesmo, dobram esquinas.
Os historiadores do futebol podem argumentar que houve noutras épocas
treinadores melhores do que Mourinho e talvez a contabilidade de títulos ainda
nem lhe seja inequivocamente favorável, não sei, mas isso importa pouco aos
adeptos actuais se ele continuar a vencer. O mesmo se passa com os rodriguinhos
de dos Santos: críticos e historiadores (como Rui Bebiano, neste post) podem defender, com razões de sobra, que a entrevista
do escritor ao I no sábado foi um «vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil», mas a sua massa
associativa (e mesmo hooligans de
outros ramos) continuará a dedicar-lhe olas e cânticos épicos.
Para além disso, na mesma entrevista de sábado e antes que a História
se pusesse com coisas, Rodrigues dos Santos tratou de a arrumar num só
parágrafo. Falando de Equador como
espécie de profeta que anunciou os seus livros messiânicos, o jornalista disse:
«Demonstrou várias coisas. Que os portugueses tinham disposição para ler um
autor português, o que até aí era como o cinema português, de que se fugia. (…)
Porque não entendiam, o que era escrito, é a terrível verdade. Os nossos
autores eram ilegíveis.»
Diria que nem Mourinho seria farofeiro o suficiente para defender que
antes dele não havia futebol, mas talvez Rodrigues dos Santos tenha evocado na sua mente o panteão das letras portuguesas e
concluído melancolicamente que não tinha de facto razões para humildade.
Espantou-me, por isso, que noutra passagem da entrevista ele
concedesse, acerca de diferentes atitudes literárias, que «umas são tão válidas
como as outras». Havia, afinal, uma reserva de modéstia no bravo best-seller. Ou então ocorreu-lhe que
também ele poderia um dia querer levar «duas páginas a descrever um armário»,
como o sádico James Joyce em Ulysses,
e mais valia sancionar preventivamente o recurso. Just for the record.
Ou será que temia incomodar uma importante facção dos seus leitores censurando
o «exercício de masoquismo» que disse ser ler o calhamaço de Joyce?
Além disso, depois de Dan Brown, o seu catavento literário pode muito bem
estar a sintonizar-se nas cinquenta sombras sadomasoquistas de E. L. James. Rodrigues
dos Santos tendo prazer a infligir sofrimento literário? Não é impossível.
sábado, 5 de outubro de 2013
Machetada
Provavelmente — e decerto com particular incidência nas últimas
legislaturas —, sempre houve gente nos governos com alguma incapacidade para
defender os seus currículos. Quer porque eles (os currículos) eram má ficção, quer
porque eram facilmente confundidos com cadastros. Mas no governo de Passos
Coelho isso parece uma especialidade, uma cláusula.
Um tipo põe-se a pensar que, se os lugares de ministro e secretário de estado
(ou assessor) fossem a concurso, Coelho mandaria lavrar anúncio no Diário da República com a alínea: «Dá-se
preferência a quem tenha rabos-de-palha; da sua elisão trata-se a seguir, com
corrector Bic ou Pelikan, depende de quem patrocinar.»
Os currículos de Gaspar e Santos Pereira, bons rapazes e sem mácula no carácter,
pertenciam ao lote da ficção, poderiam ter sido escritos por José Rodrigues dos
Santos num dia inspirado. O de Relvas também, mas acumulava vilanias. Agora, a
ministra das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros são o topo hierárquico de
uma lista de governantes cujos currículos os habilitam com distinção ao governo
passista mas logo depois têm de passar pela lavandaria para serem apresentáveis
ao resto do país.
Desde Junho de 2011 há um campeonato para ver quem mente-mais-e-pior e,
em simultâneo, tem o raio-de-uma-lata. Os melhores nestas duas disciplinas
mantêm-se no governo ad nauseam, até
aparecerem cartazes no tour de França
e na Estação Espacial Internacional. Só saem quando a sua reputação não se distingue
da lama onde nadam.
«Machete: s. m. sabre de artilheiro com dois gumes, faca de mato, viola pequena, cavaquinho.»
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
A fé nunca morre
No Blasfémias aproveitaram o rescaldo das eleições para verter mais cera na hagiografia de Vítor Gaspar (1 e 2). Já se sabe, os santos morrem para que a fé possa sobreviver.
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