segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Congresso dos recreios
Na série “Diziam”, de Pedro Correia, no Delito de Opinião, só faltou
acrescentar que o que aconteceu contra o que "diziam" aconteceu decerto também
contra os desejos íntimos do infame Passos. A coisa mais relevante que
aconteceu de acordo com o vermículo Passos foi talvez o regresso, em seu tempo apalavrado, do sósia Relvas.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
A última dança
O vídeo da companhia Rubberbandance que inspirou o post anterior não é necessariamente o mais representativo. Sê-lo-iam mais estes espectáculos da companhia Peeping Tom: http://youtu.be/KlrXPVZG5Ho(“32 rue Vandenbranden”); http://youtu.be/NwACVrZIuVg (“Les Sous Sol”); ou este, da C de la B: http://youtu.be/pyQrK_Q2HOo (“Ashes”), vistos em Guimarães e no Porto. Por outro lado, várias companhias ou coreógrafos portugueses poderiam também elucidar o que disse no post. Neste campo, como de resto nos mais variados géneros musicais e no teatro, o país não padece de talento e profissionalismo como padece por exemplo na política e na gestão. A juntar-se a ex-elementos do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado, há uma nova geração de intérpretes (e coreógrafos) com formação sólida, experiência (tantas vezes internacional) e talento que infelizmente terá agora menos oportunidades de desenvolver o seu trabalho. O Portugal dos últimos anos — «europeu» no sentido civilizado, culto, sofisticado, cosmopolita, democrático e descentralizado que se costuma utilizar para falar da Europa central —, o país onde as pessoas podiam fruir o seu gosto pela dança contemporânea sem precisarem de se deslocar com demasiada frequência a Lisboa, muitas vezes sem precisarem sequer de sair da sua cidade ou da cidade de província que por algum acaso estavam a visitar, está a terminar. A troika, o governo e o statu quo encarregar-se-ão de devolver o país à condição de provinciano e de gosto único.
Dança contemporânea
["Gravity of Center", Rubberbandance: http://vimeo.com/30708149]
Gosto de música, de pintura, de cinema, de dança, de literatura, de teatro,
e gosto de tudo isto com um eclectismo bem pronunciado, que em certos momentos
— na presença de certa fidalguia artística menos condescendente— se pode tornar
embaraçoso. Mas, de todas as artes, a que mais me arrebata é a dança. Não a
dança clássica ou de salão (aqui o eclectismo retrai-se). Refiro-me à dança
contemporânea.
Não sou um indefectível da arte contemporânea. Nem sequer da arte
moderna. Ou modernista. Há movimentos ou tendências do século XX que deixaram sementes
e eu dispenso fora do seu contexto histórico e fora da história das ideias, ou
das atitudes. Acresce que o verniz de leituras, viagens, idas a museus e
teatros não sepultou de todo o rapazola que no fim a província manteve enredado:
por vezes dou por mim a olhar para algumas obras como um tradicional boi a
olhar para um palácio. (Porém, um boi que não investe.)
Mas sou certamente alguém que se aborrece com águas estagnadas, com o
gosto tradicional ou massificado, com a ingenuidade popular, com a pomposidade
e a arte mecânica, imitativa, evocativa, desinspirada, insensível, medíocre,
atrofiante.
Do ballet clássico, por
exemplo, interessa-me apenas a música. Se tenho o azar de entrar numa sala onde
se dança uma dessas peças, fecho os olhos e passo um bom bocado — que é ainda melhor
se há orquestra ao vivo.
De resto, por alguma razão o ballet
clássico se tornou “popular”, enchendo coliseus, e virou fetiche de elementos
de todas as classes (alta, média e baixa), que acorrem a ele com entusiasmo e
casacos de pele como a um ritual, a uma festividade religiosa, a uma vernissage, na sua ânsia de emular nos
hábitos e na pose fútil a elite aristocrata há muito destronada.
A dança contemporânea — expressão aliás vaga, equívoca, designando
desde peças efectivamente de dança a performances;
de teatro físico ou de objectos a produções multidisciplinares e
transdisciplinares; de momentos de expressão corporal a happenings — a dança contemporânea, dizia, aquela de que eu mais
gosto, confunde-se com algum teatro e raramente deixa de lado ou menoriza a
música, ou uma criativa sonoplastia. Está consciente da história da dança e das
suas múltiplas expressões — clássicas ou primitivas, de salão ou de rua,
urbanas ou folclóricas —, e não desdenha cumplicidades com a palavra e a
atitude teatral. De certo modo, em muitos casos, é aquilo a que eu chamaria a ópera dos dias de hoje: um espectáculo
global expressionista, que se absorve
mais com os sentidos do que com a razão. Como se lia num título do Público, «uma dança que não é para
perceber, é para sentir».
N’Os Idiotas, a minha «novela
picaresca» (assim se referiu ao livrinho um ilustre leitor), uma personagem
definia a dança contemporânea da seguinte maneira… picaresca: «um reboliço
caótico onde, espantosamente, era possível ainda assim perceber disciplina,
padrão, coreografia. Aquelas pessoas no palco assemelhavam-se a vítimas de
trombose, doentes epilépticos, loucos saídos do hospital psiquiátrico, mas no
meio do frenesim, dos transes, das convulsões e das quedas percebia-se que
exerciam autoridade sobre os seus membros. Pareciam desajeitadas porque tinham
decidido ser desajeitadas. Caíam, mas levantavam-se por si mesmas. Derrubavam
objectos no palco porque estava no guião derrubar objectos no palco. Eram,
enfim, donas do seu corpo e da sua vontade.» E também fazia um paralelismo com
o ballet: «[…] o que distinguia a
dança contemporânea da clássica era o que distinguia o caos da ordem. O ballet clássico tentava uma tal harmonia
e uma tal perfeição que se tornava artificial e enfadonho. A dança
contemporânea parecia mais ligada ao erro e à vida quotidiana dos corpos, mesmo
que na maior parte das vezes se tratasse de corpos atormentados», interpretados
por gente com um «perfil fibroso e elástico».
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Vizinhas novas no prédio
Perante uma berraria prolongada de três moças universitárias em frente
ao prédio (na verdade, uma só magricela, bebida e histérica, tenta à força de
decibéis obsessiva e compulsivamente pôr «de quatro» uma caloira mais cheiinha e
musculada, inamovível e paciente como um santo de altar), perante aquela berraria, alguma
vizinhança assoma à varanda. No bairro, o alvoroço estudantil é rotina que entorpece:
só é hábito chamar a polícia quando a coisa redunda em pancadaria a que não se
vê fim breve. Talvez por haver gente nova no prédio, de uma das varandas
ouvem-se uns «shiu!» e uns «então?!». O trio praxista, pouco habituado a que a vizinhança
dê sinais de vida, olha em redor, estupefacto. Para minha surpresa, enfia a
viola na bolsa coquete e retira, ordeiramente, como adolescentes a caminho da
catequese (um dos bares das imediações).
Estou eu a fruir o momento quando as moças da varanda (também são
moças, certamente novas no bairro) resolvem cantar vitória e lançam lá para
baixo: «Andor! Tá andar, caralho!»
Ora, desfez-se o feitiço. As teenagers
temporariamente bem-comportadas apontam como podem os queixos à varanda, reconhecem
como iguais as oponentes e soltam as peixeiras que há dentro delas (o sotaque
é do Porto, mas duvido que algum dia tenham vendido peixe no Bolhão, pelo que
retiro a ofensa àquelas profissionais). «Como?!», retorquem apontando a pélvis como
forcados amadores. «Vamos a calar!» ordenam as de cima, por alguma disfunção cognitiva
ou erupção de jactância tendo ignorado que caladas tinham ficado as outras ao
primeiro «shiu». «Estás-me a mandar calar?» «Estou, pois!» «Anda cá em baixo
então, caralho!»
Pronto, suspiro, eis como se desbarata uma vitória. Agora a berraria
passa a ter dois focos e não tarda há paralelepípedos arremessados às vidraças
e sempre será precisa a polícia.
Mas a noite reserva mais surpresas. As de cima retiram-se da varanda e,
ao contrário do que se suspeitaria, aparecem passado pouco tempo no passeio. A
coisa pode redundar em maior alvoroço do que o que havia, mas há que louvar às
moças da varanda a coerência. E a coragem: a caloira musculosa pôs-se entretanto do lado das dótoras, talvez em defesa do direito a ser humilhada.
Da minha própria varanda — comummente tomada neste blogue por bancada
de circo ou balaustrada de zoológico, com certa pretensão literária —, solto outro
suspiro. Novamente desajustado: as cinco moças ficam a trocar argumentos, mas,
ou as de cima têm um forte carisma, ou a magricela danificou as cordas vocais
na meia hora anterior: a altercação parece quase cordata. Podemos facilmente
imaginá-las daqui a pouco a trocar números de telefone ou endereços de e-mail.
Quando me retiro para a sala, tenho a certeza de que as da varanda vão
subir a buscar os casacos para se juntarem numa ida aos bares com as de baixo. E talvez
depois venham as cinco ali para o passeio muito amistosamente debater aos berros
quaisquer insignificantes diferenças de opinião, como sói fazer-se por aqui na
hora em que os bares fecham. Um céptico não acredita em milagres que sempre
durem.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Pedras Salgadas: futuro e memória
As ecohouses de Pedras
Salgadas têm recolhido elogios e prémios. Merecidamente. São de facto bonitas,
inteligentemente desenhadas e integradas no arvoredo do centenário parque. Convidam
irresistivelmente a habitá-las por um ou muitos fins-de-semana mesmo quem como
eu praticamente nasceu e foi criado naquele território romântico. Mas não sei
se tem sido referido um aspecto essencial: parte do sucesso das casas deve-se…
ao arvoredo do parque.
As ecohouses precisam de um
cenário. Tanto para os que se encantam apenas com as fotografias (e são a
maioria) como para os que de facto as visitam ou alugam. Quem já pôde confirmar
com os olhos que as casas são algo mais do que um belo projecto, com animações
3D muito pitorescas e realistas, terá por certo intuído que o cenário já era
bonito antes de as casas existirem.
Na verdade, o sucesso das ecohouses das
Pedras Salgadas iniciou-se há mais de um século, quando o parque começou a ser
plantado. Não abundam no país territórios como aquele e deveriam ser ferozmente
protegidos.
Uma parte das pessoas que ama as Pedras Salgadas, por baptismo ou
adopção, indignou-se com o projecto das ecohouses.
Parecia um sucedâneo miserável dos sonhos que as pessoas têm para ali. E de
algum modo estavam certas em achar as casas um sucedâneo. São-no. De uma forma literal
e pragmática. Substituem os hotéis que no seu tempo tiveram igual (ou maior) sucesso.
Mas substituem-nos não necessariamente de uma forma aviltante. Há um certo
realismo no projecto (e o realismo é quase sempre desmancha-prazeres), mas neste caso é um realismo sensato. Ou
antes: sensível. Há que reconhecer que as construções, ainda que modernas (ou por
isso mesmo), não feriram o território, respeitaram-no, dialogaram
construtivamente com ele, como a boa arquitectura sabe fazer. E são facilmente
desmontáveis, descartáveis, se acreditarmos que algum dia o termalismo terá suficiente
importância para encher hotéis em vez de casas nas árvores e defendermos que as
duas actividades são incompatíveis.
Há certa legitimidade em achar que os lucros de quem explora as águas
das Pedras (e paga os correspondentes impostos em Lisboa ou na Holanda) deveriam
obrigar — se não legal, moralmente — a concessionária a ser um pouco menos
realista e a sonhar um pouco mais com a terra. Mas esperar-se que reconstrua os
hotéis e os ponha a funcionar (como felizmente fez com o Balneário) é talvez irrealista,
se nos lembrarmos que a mesma empresa é também proprietária do magnífico Vidago
Palace Hotel, ali ao lado.
No curto prazo (enquanto o turismo termal não a estimule
suficientemente, se confiarmos que algum dia o venha a fazer), uma das formas que
a concessionária das águas tem de beneficiar a terra, de lhe assegurar um
futuro digno da sua antiga glória, é proteger
o património, como fez com as ecohouses
(e com o Casino, sejamos justos). Proteger desde logo, inexoravelmente, a sua
enorme riqueza botânica — e proteger o que resta de história, de memória nas
ruínas do Grande Hotel, do Hotel Universal, das Romanas (com a sua fonte e
edifício adjacente). Fora de muros, o território das Pedras Salgadas tem sido
paulatinamente descaracterizado. De termal resta ali praticamente a memória.
Dentro de muros, há abundância de fantasmas, mas fantasmas benignos e
eventualmente lucrativos.
Depois dos buracos deixados pela demolição do Hotel do Norte, do Bazar
Fotográfico, da Pensão do Parque e do Hotel Avelames (deve dizer-se que este tinha
sido já bastante prejudicado por intervenção medíocre anterior, que além de
descaracterizar o edifício abriu uma clareira no bosque contíguo,
revelando que os arquitectos responsáveis não perceberam o espírito romântico e
o interesse da sombra num parque termal); depois da demolição da Casa de Chá na
Romanas, a concessionária das águas mostraria já um grande respeito pela terra,
ajudá-la-ia bastante (por vezes até contra a vontade dela) se não permitisse o
abate de nenhuma árvore que não estivesse doente e se parasse com as
demolições.
O turismo termal nos dias de hoje tem potencialmente mais motivações do
que a tradicional ida a águas. Há a vertente da natureza (que o marketing das ecohouses evidentemente explorou) e há uma “arqueologia termal”, um
“turismo de época”, de “nostalgia” que não deveriam ser negligenciados. Ora,
estas duas vertentes só poderão ser rentabilizadas se o património edificado persistir,
como em Roma o Coliseu ou o que resta do Fórum. Claro que custa muito dinheiro
pôr os edifícios habitáveis, mas custa certamente muito menos estabilizá-los,
dar-lhes segurança, fazer deles elementos dignos da paisagem, do cenário que são
o parque termal e as Romanas. A Unicer será já amiga das Pedras Salgadas se
deixar de demolir património e se impedir a sua descaracterização. Se zelar
para que quaisquer intervenções nas suas propriedades (ou em áreas que com elas
conflituem) se façam com a mesma inteligência, o mesmo gosto, a mesma
sofisticação, a mesma clarividência arquitectónica das ecohouses.
Estão em curso intervenções na marginal ao rio (e
ao Parque) e nas Romanas. Eis um bom momento para a Unicer assegurar que no futuro
lhe agradeceremos a defesa intransigente que ela fez da nossa memória, do nosso
património — e do
nosso futuro. É que se se distrai ainda lhe plantam uma rotunda com uma
torneira em frente à entrada.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Escritor de levar para casa
Li que Valter Hugo Mãe esteve à conversa com leitores em Bragança ou
Macedo e que a algumas pessoas no fim apetecia levá-lo para casa, por ser tão doce. Fiquei
deprimido, com a inveja. Depois esbofeteei-me. Pela estupidez.
A inveja entre escritores é proverbial* — e tê-la sentido alegrou-me. Pensei
que já podia pegar no telefone e dizer: «Mãe, sou escritor!», como se tivesse
detectado os primeiros pêlos no buço (ou em zona mais meridional) e quisesse
gritar: «Mãe, já sou homem!»
Mas de seguida fiquei deprimido, porque, embora exagere nos açúcares,
jamais serei um tipo doce que as pessoas queiram ir ouvir falar — quanto mais levar
para casa.
Se depois me esbofeteei é porque me lembrei que detestaria que as pessoas
me quisessem levar para casa. Se por hipótese bizarra me quisessem ir ouvir
falar.
* Leia-se A Informação, de
Martin Amis.
Zuckerberg: vê lá se cresces, pá!
Como por infortúnio
(ou melhor dizendo, por ausência de fortuna) não posso comprar a revista LER,
amiguei-me com ela no Facebook. Contudo, o Facebook não deve gostar deste tipo
de promiscuidade, porque não me tem dado qualquer notícia de actualizações da página.
Dá-me notícias de actualizações patetas (sim, também as há no rol dos meus 275 "amigos") e dá-me sugestões de imbecilidades que não lhe pedi. Mas não me informa
de novidades da LER. De início julgava que era porque a revista não publicava nada, e creio que
assim foi durante algum tempo. Mas agora, por um acaso, descobri que o blogue da LER tem estado mais activo do que me lembrava e que a página do Facebook tem
espelhado essa actividade.
Caro Zuckerberg: bem sabemos que o bom uso que
alguns fazem da tua invenção é algo que não estava na tua cabeça e te deixa
contrariado, mas é um golpe baixo favorecer os patetas só porque simpatizas
mais com eles. Vê lá se cresces, pá, isto não é a universidade! Já não és um
caloiro! Ou um dux!
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
A nostalgia dos regicidas
As mimosas florescem,
mas é um embuste,
não há essa coisa a que chamam Primavera.
Este é o tempo dos regicidas,
alvoraçados como andorinhas.
Eles virão, eles virão.
Quando o cuco sobressoar nas copas
e o pica-pau na pele dos ulmeiros,
os reis lembrar-se-ão com estupor
da última luz de Nagasaki,
pobres nostálgicos.
Eles virão, eles virão,
arrasando o edificado
vergando a floresta
queimando terra e ar
estoirando os crânios reais (só de pensar neles)
— ou acordando com azia
num dia de expediente
e atrasados para o eléctrico.
Não há essa coisa a que chamam Primavera.
E.K.
[versão google translator retocada a partir de original grego]
mas é um embuste,
não há essa coisa a que chamam Primavera.
Este é o tempo dos regicidas,
alvoraçados como andorinhas.
Eles virão, eles virão.
Quando o cuco sobressoar nas copas
e o pica-pau na pele dos ulmeiros,
os reis lembrar-se-ão com estupor
da última luz de Nagasaki,
pobres nostálgicos.
Eles virão, eles virão,
arrasando o edificado
vergando a floresta
queimando terra e ar
estoirando os crânios reais (só de pensar neles)
— ou acordando com azia
num dia de expediente
e atrasados para o eléctrico.
Não há essa coisa a que chamam Primavera.
E.K.
[versão google translator retocada a partir de original grego]
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Ford Ácido
Os Idiotas segundo Nuno Costa Santos, n'O Marginal Ameno:
«Ford Ácido
Tenho transportado na mochila o romance "Os Idiotas" de Rui Ângelo Araújo (O Lado Esquerdo Editora). Além de trazer uma artilharia literária potente, dá sempre jeito quando vou ter com figuras que não me inspiram a mais luminosa das simpatias. Mais do que as histórias, as viagens – pela Roménia, pelo Vietname - e as personagens, ficou-me a energia do tom do livro, que não encontro com tanta frequência na novíssima literatura portuguesa: um fulgor descomplexado, uma vocação para a frase crua de efeito satírico, uma especulação de cronista livre, uma mundana deambulação sem sinal de parábola.
Vejo aqui uma influência de alguma literatura americana, no sentido mais coloquial e sem berloques do termo (a epígrafe é de Philipp Meyer, autor de "Ferrugem Americana"). Fala-se do regresso à terra, da vida numa pequena cidade que quer ser maior do que é, de políticos que contratam bloggers para escreverem comentários semanais, da bancarrota de países e das relações, de presidentes de câmara sem dimensão, das mamas da Mafalda, a funcionária da biblioteca. E de bebedeiras. Vocês sabem que sou pelas frases, mesmo tendo a consciência de que há romances maiores que as dispensam. Quando as há, colecciono-as. Guardei algumas, de uma estirpe literariamente incorrecta, no masculino e no feminino:
- "No que concerne à líbido, os homens tendem a ser trolhas na hora de a exprimir".
- "Pensei ingenuamente que uma vida difícil tirava o ânimo da cópula, mas estava-me a esquecer da taxa de natalidade nos países do terceiro mundo".
- "Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável".
- "O teatro impúdico e repugnante da intimidade alheia".
- "Creio que o beijei mesmo como quem esmurra, com igual raiva, igual necessidade de ferir, de causar sofrimento, de humilhar, de vencer, ficar por cima”.
- “Que porra sabemos nós do que pensávamos e sentíamos na adolescência?”.
Existe mais concisa acidez em “Os Idiotas” – com referências sem interlúdios à cultura pop, a filmes com George Clooney sobre despedimentos, aos AC/DC e ao"Creep" dos doutores Radiohead. Em cada passo sente-se uma voz vigiada, sempre disposta a sabotar o que registou uma linha antes, que se deixa transportar num Ford Capri 1300 de 1972, o mesmo que figura no desenho bem sacado da capa.»
domingo, 9 de fevereiro de 2014
The boy with the thorn in his side
Como não pensar que há uma correspondência entre a tempestade e a necessidade de eloquência? Ou de mera expressão? O vento fala por mim.
Tom Rosenthal
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Redireccionando a bigorna
«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a "comunicação" entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»
Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se
o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares
(que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos:
o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de
comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e
consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais:
este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do
Correio da Manhã, esse órgão onde
parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e
sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas
não leiam jornais, nem sequer o CM. A
Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)
O Facebook é também por certo
uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora,
reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem,
que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor:
reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é
ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.
Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência
do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta
de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O
problema é a subserviência. A
idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a
idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do
que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de
sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Velas benzidas
[Eis o conto a que se referia o post anterior:]
Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz
falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum
modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos
obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.
10 livros que me marcaram
[Desafiado para uma “corrente” no Facebook, fiz a seguinte lista, que
não resisti a comentar. Escuso de dizer que os dez livros indicados não são os dez
livros da minha vida, mas apenas alguns deles.]
1 - A MONTANHA MÁGICA,
Thomas Mann.
Li-o numa edição que já tinha passado por várias mãos, sem capas, em
papel amarelado, com cheiros antigos, talvez a edição perfeita para me
transportar para a época da acção. Foi-me emprestado pelo meu grande amigo
Carlos Chaves e, entre tantos, fiquei-lhe a dever também este favor: de me por na
rota da literatura séria. Era Inverno mas nos dias que demorei a lê-lo nunca
houve frio. Na cama, funcionava como um cobertor extra, um que aquecia também a
alma.
2 - A GUERRA DO FOGO, J.-H.
Rosny, pseudónimo dos irmãos belgas Joseph Henri Honoré Boex e Séraphin Justin
François Boex.
Também é uma recordação de calor por fonte literária. Devo dizer que
não tenho a certeza absoluta de que o livro que me ficou na memória seja este,
embora pela pesquisa qui fiz na Internet a probabilidade seja bastante grande.
Terei de ver o filme. As razões por que me marcou serviram já de inspiração
para este post: http://www.canhoes.blogspot.pt/2011/12/planos-de-vida.html
e um conto (“Velas benzidas”), que, já agora, publicarei aqui num post a
seguir.
3 - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA,
Gabriel García Márquez. Li-o de uma assentada com espanto por ficar preso a uma
história de que sabia o fim. Tinha andado a fazer a limpeza de Primavera (na
minha terra fazia-se na Páscoa uma limpeza anual aprofundada à casa, e eu devo
ter demorado a livrar-me do ritual). O mundo, como a casa e os lençóis lavados,
cheirava a fresco, parecia estar a começar de novo, resplandecente e auspicioso.
Tenho de me lembrar dessa receita para estes dias de chumbo. Uma barrela e um
livro.
4 - O PROCESSO, Franz Kafka. Durante alguns anos, dizia, como elogio
à força do livro, que durante a leitura, nas partes do tribunal, me doía o
pescoço ao imaginar-me nas galerias de tecto baixo que obrigavam a assistência
a ter a cabeça dobrada. Hoje nem sequer sei se o livro tem de facto uma parte
assim ou se, como tantas vezes, a minha memória se pôs a ficcionar. De qualquer
modo, a estranheza das histórias e o magnetismo da escrita de Kafka, neste e
nos outros romances e contos, foram definitivamente marcos literários na minha
vida.
5 – A PORTA DOS LIMITES (Urbano Tavares Rodrigues) e 6 – FATHERLAND (Robert Harris).
Refiro estes não exactamente pela sua qualidade literária (de Urbano
teria de referir A Vaga de Calor), mas porque em dois momentos da vida me
alertaram para o facto de que havia mais literatura (e prazer) do que a de
aventuras ou de ficção científica. Depois deles estava pronto para A Montanha
Mágica. Que foram marcantes, testemunham as vezes que já os mencionei, como
neste post: http://canhoes.blogspot.pt/2011/11/de-equivoco-em-equivoco.html
e num outro de uma vida anterior do blogue que talvez um dia reponha por aqui.
7 – EM NOME DA TERRA, Vergílio Ferreira. É este mas podiam ser vários
outros do mesmo autor. Folheei-o na casa de alguém com uma atitude snob, não querendo acreditar que a
proprietária o comprara intencionalmente, o não confundira com literatura do
coração. (Consegui ser muitas vezes parvo ao longo da vida.) Eu nunca lera
nenhum livro de Vergílio, mas por ter ‘ouvido dizer’ que era bom achava-me já no
direito de desconfiar de quem de facto o comprara para ler. Enquanto o folheava,
fui agarrado pelos tomates. Aquilo era avassalador: a escrita, o ambiente, a
narrativa, a indagação existencialista, a poesia amarga ou melancólica do
discurso. Revia-me intensamente naquele tom e entrava com assombro num mundo de
gente mais velha, que olhava para a vida de outro estádio, para mim ainda
estranho. Pedi-o emprestado e de seguida comprei e li tudo o que apanhei do
autor, aproveitando sofregamente as pausas do almoço.
8. O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, José Saramago
Comecei pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo, que achei bom, mas
passado num ambiente e num estilo de parábola que nunca me entusiasmaram. O Ensaio
Sobre a Cegueira (que já não me lembro se li antes ou depois de O Ano da Morte…)
pareceu-me “bom demais” e, na minha juventude insegura, temi estar a ser levado
por um eficaz efeito cinematográfico (antes de haver o filme). O Ano da Morte de
Ricardo Reis parecia-se mais com os clássicos e tinha uma história menos fantástica,
apesar da sua improbabilidade. A Lisboa narrada, o ambiente no quarto, na sala
de jantar, no hotel, nas próprias ruas, as relações entre as personagens, tudo
isso tinha para mim muito de A Montanha Mágica, para dialogar com outro livro
desta lista. Deveria lê-lo de novo para perceber se a parte política, agora
mais percebida, me teria influenciado negativa ou positivamente. Seja como for,
o menos saramaguiano dos livros de Saramago ficou-me na memória e nos afectos
como um dos livros da minha vida. De resto, prefiro este lado mais sombrio e
kafkiano da obra do autor: Todos Os Nomes seria a minha segunda escolha.
9. O ANIMAL MORIBUNDO, Philip Roth
Este é uma leitura mais recente, com uns seis ou sete anos. O fã de
aventuras e ficção científica tinha-se transformado e passara a interessar-se
por quem escrevia sobre a vida das pessoas, a sua psicologia, as suas relações,
a doença, o amor frustrado, os sentimentos, etc. Já passara nos anos anteriores
por Updike, Bellow, Carver, etc. Talvez ainda fosse o mesmo fascínio da Natureza,
das sagas, do Universo, mas agora concentrada na aventura e no mistério de estar
vivo. A prosa de Philip também ajudou a que por aquela altura me apetecesse oferecer
o livro a toda a gente. E ainda não tinha lido O Complexo de Portnoy.
10. AS LÁGRIMAS DE MEU PAI, de John Updike. (Também podia ser Procurai
a Minha Face.)
Leitura ainda mais recente, esta colecção de contos é tudo o que
gostaria de escrever na terceira idade, se algum dia lá chegar. (Bem, é tudo o
que eu não me importava de escrever ‘agora’…) A mestria da escrita, a
serenidade do tom, a paz, a evocação não exactamente nostálgica nem traumática
da vida dos protagonistas… O livro é uma espécie de testamento, de despedida do
escritor. Pelo menos eu li-o assim. São histórias de gente idosa que se
encontra com velhos colegas de liceu em jantares de curso ou por acaso, que se
visita em lares de terceira idade, que reencontra antigos cônjuges ou amantes,
que confere a lista de baixas, as doenças, os desaparecimentos, as inflexões
nas relações, as mudanças de carácter. Que revisita lugares antigos. Mas tudo é
relatado, observado com uma ironia carinhosa, um afecto cordial e discreto.
Como só os espíritos superiores podem olhar para a vida.
[O décimo livro poderia ou deveria ter sido O Teu Rosto Amanhã, de
Javier Marias, mas sobre ele teria de me atrever a um longo texto e isto já vai
suficientemente arrastado. Já o aflorei em pelo menos dois posts, este http://canhoes.blogspot.pt/2013/10/moldando-o-entusiasmo.html
e este http://canhoes.blogspot.pt/2012/03/o-tempo-e-prosa.html.
E A Piada Infinita? E Liberdade? E A Viúva Grávida? E...?
«Ser humilhado é um direito»
O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não
exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades
exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com
frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto
prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se
revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos;
se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem
resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e
títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante
fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm)
para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras
à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais
afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade.
Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas
perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são
curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
The show must go on
Perante um
"contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal
engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de
pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.
P.S. Visto no jas-mim.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria
O El Mundo trouxe à luz do
dia os casos Bárcenas (financiamento
ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente,
afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor,
que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em
projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o
dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico
ou cultural (as do Público Mais). São
interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores,
jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da
investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de
El Mundo, os leitores do jornal
deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais
difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das
democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em
Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia
por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes
ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo
a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.sábado, 1 de fevereiro de 2014
Pequenos retratos infames (1)
José Manuel Fernandes
Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto
editorial, o Observador, que certamente
não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho
Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do
velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José
Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela
conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da
juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão
natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados
de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel
Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea
Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos,
uma espécie de Bonnie and Clyde com um
gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha
fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste
género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às
artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo
director do Público. Anos atrás, ele
escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela
educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de
“criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia
dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas
artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um
passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos
um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições
tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel
Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem.
É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas
agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco
grande de os portugueses confundirem o Observador
com o Diário da República, quando
notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de
concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício
em assinar o Observador, onde as (más)
novas legislativas aparecerão primeiro. O DR
deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público
oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?
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