Diz a Wikipédia que é «um estado psíquico
de depressão com ou sem causa específica» e se caracteriza «pela falta de entusiasmo e
predisposição para actividades em geral». Não parece a descrição da minha
patologia. Se é certo que a maioria das actividades em geral me parece repulsiva quando me inclino para ouvir “Gallows” em loop, a verdade é
que nestes momentos sinto um grande entusiasmo literário.
Os frívolos dirão que literatura não é actividade, e terão a sua razão terrena.
Mas quem se interessa por actividades quando tem as CocoRosie a sussurrar-lhe
ao ouvido canções de assombramento, uma pilha de livros à distância de um braço
e disposição para reescrever o mundo em vários tomos? Quem se interessaria por
um emprego, uma comunidade, um país ou um planeta se pudesse simplesmente permanecer
arrebatado?
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Melancolia
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
A carranca do vizinho
Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O
vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu
automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do
morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um
aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu.
Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao
mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.
O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente
que neste jogging arrastado em dia de
alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e
curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem
resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma
numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a
propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e
que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora
ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!
domingo, 24 de novembro de 2013
«A esquerda sem povo»
A propósito deste pragmático artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público, recordei uma passagem do meu ainda inédito Aranda, escrita há três anos:
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
«Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.»
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Já estou a notar o vosso olharzinho irónico
Nesta fotografia de uma leitora, tirada na FNAC (Chiado?), Os Idiotas estão entalados entre a
Margarida Rebelo Pinto e o Valter Hugo Mãe.
(clique)
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Conservador
Nos anos do Independente
sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente
conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do
lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas,
como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente,
aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados
assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E
a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às
artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um
decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se
mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada
politicamente.
Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um
conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que
eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse.
Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.
[Romanas, 17.11.2013]
As costas largas da crise
A Lua este domingo pôs-se antes de nascer. Cerca de 12 horas antes.
Como ela, também tenho dias de acabar antes de começar, apesar de todos os planos,
de todas as expectativas. Mas no meu caso não há nada daquela exuberância da
lua cheia, que inspira e promete quer esteja a subir no firmamento, quer esteja
no seu ocaso. Comigo é um balão a esvaziar-se, com o silvozinho embaraçoso e
tudo. Um desânimo, uma desistência, um drama de nada vale a pena nem que a alma
seja grande.
Que sorte haver uma crise a quem deitar as culpas — e isso não ser completamente
mentira.
(clique)
domingo, 17 de novembro de 2013
Casal a vozes
Nos sessentas, bem-parecidos, melhor vestidos, ele tem voz de castrato e ela, por um daqueles
mecanismos compensatórios da natureza ou pelo espírito de contradição habitual entre
alguns casais, dir-se-ia que imita Tom Waits. São por isso um par curioso mas
verdadeiramente complementar. A cantar a vozes não ficariam nada mal perante a
dupla Simon & Garfunkel, mas a discutir desafiam os nossos mais embaraçosos
preconceitos. Sobretudo quando ele guincha que as mulheres são todas iguais e
ela, com uma baforada e voz cava, lhe chama machista de merda.
Amigos
São clientes um do outro e como a jornada de trabalho se prolongasse
acabaram a jantar juntos. Entre as manteiguinhas e o prato foram as juras de
amizade. «Tu sabes que eu sou teu amigo.» «Fiz aquilo porque sou teu amigo.» «Com
os meus amigos é assim.» «Digo-te isto porque sou teu amigo.» «Se não fossemos
amigos…» À sobremesa a amizade entrara num outro nível. «Ouve, eu sou teu
amigo!» «Se és meu amigo…» «Um amigo não…» «Não é por seres meu amigo que…»
«Teu amigo o caralho!» Depois do café e do bagaço tiveram de ser separados pelo
chefe de mesa, com a ameaça de que chamaria a polícia.
A manchete do JN
Ainda não percebi se o vizinho do rés-do-chão deixa quotidianamente o
jornal à sua porta depois de o ler ou se lho entregam tarde e ele apenas o
recolhe no dia seguinte. Seja como for, todos os dias leio a manchete do JN ao regressar
a casa — e, graças sejam dadas aos cinquenta e quatro degraus que entretanto
venço, todos os dias a tenho já esquecida quando entro em casa.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
A perdulária arte de chegar tarde
Depois de quase todos o literatos do país terem dado o seu contributo
para o debate facebookiano que espoletou um post
de José Mário Silva sobre um comentário (crítico) de Luís Quintais a uma
crítica (elogiosa) de José Mário Silva no Actual,
a coisa provavelmente esmorecerá. Mais uma vez, cheguei tarde. Damn it!
terça-feira, 12 de novembro de 2013
De donde és?
Aquelas duas aldeias eram conhecidas pelo afinco que os habitantes
tinham à terra, particularmente a rapaziada mais nova. Numa altura em que a
juventude estava toda a emigrar, os moços e as moças dali permaneciam,
raramente se afastando das povoações, aliás. Também eram conhecidos pela
timidez, mas nunca ninguém ligou muito as duas coisas. Ou se ligavam era com um
raciocínio incompleto: imaginavam que a timidez se devia a nunca terem saído, a isso lhes ter gravado no carácter um proverbial acanhamento provinciano. A verdade era um
pouco diferente. Não saíam porque tinham vergonha de responder se alguém nos
longes onde fossem parar lhes perguntasse de onde eles eram — e eles eram, sem
culpa disso mas embaraçados por isso, do Monte das Pitas e do Sítio da Éguas.
(Ideia de e dedicado a A. P.)
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Talvez coisar
Ouço no programa do provedor de uma rádio que ouvintes se queixam de
passarem ali músicas com palavrões. (Um dos exemplos é “Anos de bailado e
natação”, o belíssimo tema dos Mundo Cão com letra feliz de Valter Hugo Mãe de
que já aqui falei.) Isto no mesmo santo
dia em que a televisão dedica todo o período da tarde a fazer desfilar um
inesgotável repertório de grosseria e brejeirice.
Pergunto-me se os provedores das TVs (existem?) recebem queixas de
badalhoquices verbais no pequeno ecrã, mas suspeito que não. A cultura pimba é
ali hegemónica ou exclusiva. E, mesmo que não primem pela subtileza ou pela
elegância, os letristas pimba conseguem nos seus trocadilhos soezes evitar nomear
as coisas de que obsessivamente se ocupam. Ora, a hipocrisia nacional tolera o
mau-gosto, o machismo, a misoginia, a homofobia, o kitsch mais obsceno e a mais estridente ausência de talento — mas
nunca o vernáculo radiotransmitido.
Se não tivesse há muito sido banida qualquer forma de arte da TV lusa,
os Mundo Cão teriam na conjugação do verbo foder, ainda que poética, a razão do
seu ostracismo hertziano.
sábado, 9 de novembro de 2013
O elogio do grupo
(Ensaio de um ex-baixista frustrado)
Não sei se por ter sido baixista e na definição clássica um baixista ser um guitarrista sem talento e frustrado, sinto grande simpatia pelos membros esquecidos das bandas. Por exemplo, fico retrospectivamente contente quando leio que Morrissey perdeu o diferendo jurídico que manteve com o baterista dos Smiths. É que, embora se saiba que o génio de um grupo é quase sempre individual ou, vá lá, bicéfalo, não é menos verdade que na maior parte dos casos tudo o que de realmente genial esses génios individuais fizeram aconteceu enquanto estavam no grupo. O que são Lloyd Cole sem os Commotions, Roger Hugdson sem os Supertramp, Roger Waters sem os Pink Floyd, John Lennon e McCartney sem os Beatles, o próprio Morrissey sem os Smiths? Génios, é verdade. Mas génios menores. Talvez eu pudesse idolatrar o trabalho deles a solo se não os tivesse ouvido antes, quando tinham um grupo. Assim, apenas posso amar as suas carreiras a solo.
Não sei se por ter sido baixista e na definição clássica um baixista ser um guitarrista sem talento e frustrado, sinto grande simpatia pelos membros esquecidos das bandas. Por exemplo, fico retrospectivamente contente quando leio que Morrissey perdeu o diferendo jurídico que manteve com o baterista dos Smiths. É que, embora se saiba que o génio de um grupo é quase sempre individual ou, vá lá, bicéfalo, não é menos verdade que na maior parte dos casos tudo o que de realmente genial esses génios individuais fizeram aconteceu enquanto estavam no grupo. O que são Lloyd Cole sem os Commotions, Roger Hugdson sem os Supertramp, Roger Waters sem os Pink Floyd, John Lennon e McCartney sem os Beatles, o próprio Morrissey sem os Smiths? Génios, é verdade. Mas génios menores. Talvez eu pudesse idolatrar o trabalho deles a solo se não os tivesse ouvido antes, quando tinham um grupo. Assim, apenas posso amar as suas carreiras a solo.
Há algo num colectivo que faz
o som de uma banda. Uma banda pode ter num tipo que se limita a abanar a
pandeireta um elemento fundamental. Toda a gente sabe abanar uma pandeireta,
mas só quem bebe connosco ou fuma connosco abana a pandeireta daquele jeito que
o grupo precisa. É corrente gozar-se com Ringo Starr, mas o que seriam os Beatles
se na bateria tivessem John Bonham? Diferentes, claro, mas também piores, acreditem. A genialidade dos
grupos pop/rock não está apenas no talento dos seus instrumentistas ou
compositores, mas no cozinhado que eles conseguem fazer com as diferentes
capacidades e contribuições dos seus elementos. Um hit pop é um acidente no
universo da música. Tem menos a ver com o virtuosismo das partes do que com o
cruzamento delas. Em rigor, não há filhos sem pai ou sem mãe. Frequentemente,
apenas um dos progenitores tem genes que se aproveitem (e, tantas vezes,
nenhum), mas a beleza de alguém é sempre um cocktail
que resulta da sacudidela conjugal. Ou de haver sorte no banco de esperma.
Os génios que se lançam numa carreira a solo cometem o pecado da
soberba. Se não conseguem deixar de se zangar com os bandmates, deviam ter a coragem de se reformarem ou morrerem para
deixar o mito intacto. Mas não, suas excelências acham que ainda têm muito para
dar (e é verdade) e vão para estúdio com um conjunto de tipos contratados à
espera que a magia aconteça entre estranhos como entre íntimos. Os músicos
contratados ou requisitados para acompanhar vedetas recém-divorciadas são
tratados com paninhos quentes (no caso de serem eles próprios vedetas de outras
proveniências) ou como escravos. Ora, com escravos fazem-se pirâmides, não
música. E a cordialidade entre pares dá palmadinhas e salamaleques coreográficos,
não canções.
Acresce que o génio desagrupado tende a achar que, desde que tecnicamente
correcta, é indiferente a linha de baixo, a malha de guitarra, a agitadela da
pandeireta que passam a acompanhar a sua música. Na sua arrogância recém
adquirida (ou exacerbada), julgam auto-suficiente a canção que compõem. E por
isso gravam discos sem personalidade, ou com a personalidade de um grupo de swing (um grupo de adeptos da troca de
pares sexuais, excitante, mas inconsequente). Pressente-se ali o talento
melodioso do compositor, a voz distinta, a interpretação temperamental — mas como
ecos do passado. The Pros and Cons of
Hitch Hiking podia ser um bom álbum, mas sem os Pink Floyd é um fraco sucedâneo
de The Wall. (Pelo seu lado, A Momentary Lapse of Reason por não ter Roger
Waters tem muita dificuldade em parecer música.)
Quando se esteve num grupo, não se devia pretender a arrogância de uma carreira
a solo. Quem quer uma carreira a solo chama a si próprio desde o início David
Bowie e calça-lhe os sapatos de plataforma.
Fica aqui o meu elogio aos grupos — e a minha frustração por, enquanto ex-baixista,
não ter um grupo a quem pedir indemnização.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
«Vá cortar as unhas!»
Coisas que me dispuseram bem no Facebook hoje:
- Chamarem Tico e Teco aos dois neurónios de Margarida Rebelo
Pinto.
- Dizerem-lhe: «Vá cortar as unhas»
Coisas que me dispuseram mal:
- Um link para um artigo do Público onde Pedro Lomba mostra como
também sabe ser hipócrita. Ou parvo.
Há uns tempos o problema era a produtividade, a função pública
precisava de trabalhar mais horas. Hoje soubemos que afinal a função pública
pode trabalhar menos horas e que isso, levar mais horas mas menos dinheiro para
casa, é bom para as famílias. O empobrecimento passou de necessário a bom.
É como a demografia: a direita tonta que Lomba frequenta (e que, por
contágio, o entonteceu) não se cansou durante anos de alertar para a o problema
de uma demografia envelhecida, era preciso combater o aborto e fazer filhos,
ter grandes e sólidas famílias tradicionais, monárquicas também podia ser.
Depois os tontos, muito educadinhos e aperaltadinhos e sabujinhos, abriram a
porta à tia troika e foram para o poder com pins
na lapela (ler a crónica de Lobo Antunes é imprescindível) e afinal já não
importava nada envelhecer o país mandando os jovens emigrar.
Estes bebés prematuros, espermatozóides de gravata ao pescoço, acham
que os outros tiveram o mesmo tipo de desenvolvimento intelectual que eles, que
também formaram pensamento e currículo na incubadora da Alfredo da Costa. A
desfaçatez é tão grande e tão óbvia que num acesso de ternura, como os que por
vezes se tem perante os tolinhos da aldeia, somos inclinados a pensar que
tomarem-nos por parvos é a maneira deles um elogio, é dizerem-nos que nos
consideram seus iguais.
É que tipos destes chegam a acreditar nas imbecilidades que dizem. Não
se importam de ser parvos em nome da causa.
Sacrificam a sua inteligência (considerando a possibilidade de terem mais do que
um Tico e um Teco debaixo da melena beta) e a sua honra em nome de um bem superior (uma entidade tão
insondável quanto os mercados, possivelmente um heterónimo destes). Tais secretários de estado
e assessores so british, com muito
ciência política à inglesa (a francesa é hó-rro-ro-sa!), são as tias louras da
direita tonta portuguesa.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Portugal na cauda da Europa
Sobre esta notícia, se alguém lhe ligar, haverá duas escolas analíticas.
A vasco-pulidiana dirá que é assim porque somos um país subdesenvolvido
economicamente: só o bem-estar económico favorece o ócio e a curiosidade intelectual
ou cultural. A oposta dirá que temos uma economia fraca porque somos subdesenvolvidos cultural e intelectualmente. E, enquanto
as elites debatem entre si o velho e na verdade fútil enigma da galinha e do ovo,
o país, entregue a si próprio, contínua desinteressado quer da cultura, quer da
economia.
sábado, 2 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
O amor em Portugal
— Não ficavas feliz se te saísse [o euromilhões]?
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.
Hermenêutica futebolística
O amigo chegou, encomendou a sandes e a mini ao balcão e virou-se para
a TV, onde passava um jogo de campeonato estrangeiro. O outro, quando se deu
conta, arrastou-se lá do fundo e, depois do cumprimento, atirou:
— O árbitro está a ser tendencioso a favor dos azuis.
O tom era neutro, indiferente, de quem invoca as condições climatéricas
para início de conversa.
Reflectindo nas palavras, fiquei na dúvida se aquela observação de circunstância
significava que:
a) É possível dedicar-se uma atenção mecânica mas minuciosa a um jogo de
futebol mesmo que se desconheça os clubes ou eles não sejam suficientemente importantes
para merecerem ser fixados;
b) A parcialidade da arbitragem ou a crença de que há parcialidade na
arbitragem são tão inerentes aos jogos quanto a rotundidade da bola;
c) Os rituais de desculpabilização e a hermenêutica televisiva mudaram
o foco do jogo para a incidentalidade.
d) O autor da observação era um irredimível benfiquista.
Mas, pensando bem, talvez fosse apenas verdade que o árbitro estava a ser tendencioso
a favor dos estrunfes.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Perder tempo
Uns vinte anos depois de ter pousado a viola-baixo, dei por mim na
última madrugada a assistir online a
lições sobre matérias prementes como walking
bass lines, slap e the secret triplet (admirável técnica),
ministradas por um tal Scott Devine. Não tenho qualquer intenção (ou
esperança?) de voltar a pegar na guitarra e as tarefas que nos próximos tempos me
esperam não convivem bem com este diletantismo fora de horas. Acresce que,
tirando certas facetas parvas do emprego, todas as tarefas que me esperam têm a
particularidade de serem prazerosas — ou necessárias, úteis e prazerosas — e envolvem livros.
Porquê então esta tendência para a perda de tempo? Racionalmente, não comungo
da definição de liberdade expressa no poema de Fernando Pessoa (Ai que prazer / não cumprir um dever.
/ Ter um livro para ler / e não o fazer! / Ler é maçada, /
estudar é nada. / O sol doira sem literatura.)
Emocionalmente, também não, já que o meu prazer mistura o sol, a brisa, o rio, a
bruma, danças, flores, música e luar (passo as crianças) com livros.
É isto uma manifestação de irreprimível curiosidade? De fome de
conhecimento? Ou uma forma velada de descer à franca humanidade dos que passam os
serões e as décadas vendo novelas, futebol ou reality shows como se não houvesse outro sentido para a vida?
Vou por esta prova de fraqueza, da minha iniludível pertença ao género
humano. Uma parte de mim também desiste a espaços perante o absurdo de uma
existência efémera. Para quê fazer um gesto que nada muda se podemos ficar
simplesmente à espera?
Ou talvez não, talvez isto seja apenas um problema de gestão da
curiosidade. Lembro-me agora que depois dos vídeos, já se descarregavam as hortaliças
no mercado, ainda fui perceber a razão por que o baixista Devine tocava com luvas. Distonia Focal, descobri, uma doença
neurológica que afecta um músculo ou conjuntos de músculos e causa espasmos
involuntários. O uso de luvas de seda (terapêutica chique, de ambivalente
delicadeza) altera a sensibilidade e engana os neurónios avariados, bloqueando as
contracções.
Descoberta útil, não? Não?
terça-feira, 29 de outubro de 2013
O Padrinho
Na Periférica, a coluna de J.
Rentes de Carvalho tinha o título deste post. Todas as rubricas eram na revista
nomeadas a partir de filmes e a sugestão de O Padrinho para a crónica dele foi absolutamente incontroversa — não sendo a boutade o argumento principal, já que em
rigor não havia uma boutade no título.
Mais de uma dezena de anos depois, aquilo de sábado na Traga-Mundos não
foi bem um debute, uma entronização que JRC apadrinhasse. Foi um reencontro
afectivo. De vez em quando, para revermos amigos, para podermos ter aquele
abraço reconfortante, para recebermos a bênção balsâmica de um patrinu, de um pater, temos de trocar as voltas à vida, criar situações onde tal
possa ocorrer. No sábado, todos (até eu) exagerámos dizendo que estávamos ali a
propósito d’Os Idiotas — mas ninguém escondia
com muita convicção que estávamos ali para recebermos afecto e um pouco daquela
espantosa energia vital de Rentes de Carvalho.
Il padrino, pelo seu lado, não
foi avaro, foi aliás desmedido — para meu embaraço. O texto com que se prontificou a participar na instrumental apresentação do livro, o trecho que se
me refere, deve por isso ser lido apenas como uma enorme e paternal demonstração de
generosidade.segunda-feira, 28 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Diz que há vinho
E pronto, é hoje. Quem quiser conversar sobre idiotas comigo e com Rentes de Carvalho, apareça às 21h30 na Traga-Mundos. Diz que há vinho.
(Os que estão longe, não se impacientem, novas apresentações serão anunciadas já, já.)
(Os que estão longe, não se impacientem, novas apresentações serão anunciadas já, já.)
(clique para ampliar)
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Da praxe no parque à escatologia: ensaio taxonómico sobre a academia
A propósito de uma sucessão de casos, ou antes, da cobertura jornalística
de casos de francos excessos nas praxes académicas, e em sequência de uma débil
pressão social ou de uma réstia de escrúpulos, algumas universidades lá assumiram
que lhes cabiam desempenhar um papel, não exactamente na formação de carácter
dos seus alunos (não exageremos), mas de moderação da selvajaria. Passaram a
existir regras um pouco mais restritivas para a praxe em alguns campus. Como em
certas cidades mais progressivas do farwest,
os alunos foram convidados a deixar as armas no portão. Se querem brincar aos
índios e cowboys, que o façam lá fora.
A academia nada tem contra os tiroteios e a caça ao escalpe — desde que essas românticas
actividades ocorram extramuros.
E também assim a academia volta as costas à comunidade, ao mesmo tempo
que renega as suas incumbências fingindo que a sua jurisdição sobre o estudante
é limitada pela vedação do campus.
Os grupos de praxe, aliás, parecem não caber no âmbito jurisdicional de
nenhuma instituição, civil ou uniformizada. Desde que notoriamente envolvidos —
quer como vítimas, quer como algozes — nessa fundamental ocupação dos vinte
anos que é a praxe, é-lhes passado um livre-trânsito, uma espécie de carta de
alforria para a ignomínia e o vandalismo, sem limitação de decibéis.
Se você, caro cidadão, dando-lhe
na veneta, resolvesse, como por aqui se faz, chafurdar ou fazer bodyboard na relva húmida de um parque até
transformar o círculo do seu enchafurdamento num lamaçal, ou arrancar, com
sequelas para o futuro botânico do sítio, qualquer vestígio de relva no
percurso do seu reiterado deslizamento, provavelmente teria um funcionário
municipal ou um agente da autoridade a censurar-lhe o comportamento (por mais genuinamente
divertido que você estivesse) e a sacar do bloco de multas para lhe pedir contas.
Tratando-se de grupos de praxe, as instituições do Estado quando muito abanam a
cabeça com aquela indulgência que se oferece às crianças e aos malucos da
terra.
Tempos houve em que as cidades médias viam no estudante universitário a
galinha-dos-ovos-de-ouro e temiam incomodar a debicante espécie com os seus
escrúpulos e as suas preocupações cívicas (se as tinham). Galinhas desta estirpe,
achava a mentalidade mercantil dos burgos, deviam ser deixadas a cacarejar estridentemente
antes de cada postura. A caca de galinha com que revestiam abundantemente as
calçadas da urbe não devia ser censurada, pois saía do mesmo sítio de onde
saíam os áureos ovos. A escatologia era
assim preocupação dominante nestas pequenas ou médias comunidades, quer na sua
acepção científica (relacionando a merda estudantil com a saúde económica do
condado), quer na sua dimensão filosófica (o fim dos universitários era o fim
do mundo).
Claro que da ignara e vil burguesia mercantil e das instituições dos
burgos, constituídas tantas vezes por meros perus emproados ou galináceos da
mesma cepa estudantil, não se esperariam conhecimentos zootécnicos. Era natural
que desconhecessem serem inúteis as asas das aves poedeiras e, por isso,
desadequado o temor melodramático quanto à fuga das galinhas. Seria talvez uma iconoclastia
humilhante e traumática alguém informar as comunidades que os Gallus gallus aureos, vulgo estudantes
universitários, arrendariam igualmente casas, se alimentariam quotidianamente e
quotidianamente apanhariam pifos mesmo que algumas regras da civitas lhes fossem impostas.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Embirrando com a leitura
Na forma como cita parece revelar-se algo do carácter (ou da formação) de
um autor. Leio um ensaio onde as fontes francesas são citadas em francês e as
italianas, russas, alemãs e mesmo as anglo-saxónicas são-no em português
(quando não também em francês).
Talvez o autor tenha optado por citar as suas fontes na língua em que
as leu, é um critério. E, nesse caso, estamos perante um afrancesado, por
formação e/ou por afinidade cultural.
Com a minha mania de imaginar biografias, decidi tratar-se de um pavão
vaidoso do seu francesismo, do seu domínio da língua de Sartre. Como não tem
idade para ser um ex-expatriado ou para se ter formado no tempo em que quase
toda a gente em Portugal era culturalmente afrancesada, decido também que viveu
em França, nasceu ali, talvez filho de emigrantes orgulhosos da sua (dele)
carreira académica.
Assim tomado por esta animosidade ficcionalmente refocalizada, decido
que os livros citados no ensaio têm edições portuguesas, que o autor não aplica
às fontes francesas o critério que geralmente aplica às russas e às alemãs (citando-as
em português) por presunção, gosto ostentatório. E encontro então explicação
para a forma arrevesada como escreve o seu ensaio, num português engalanado e
hirto: é prosa de calça vincada e gola alta, ou enrolada num cachecol parisiense.
Não exactamente elegante — apenas afectada.
Ideologia e competências autárquicas
Já se sabe que para os contribuidores do Blasfémias o Estado devia desaparecer, e nesse sentido é esclarecedora
a visão caricatural das competências autárquicas que Rui A. (nome artístico ou
timidez juvenil?) apresenta neste post:
«Em vez de tapar os buracos das ruas, licenciar novos prédios*, dar um destino decente ao Bolhão e resolver os problemas do trânsito, o programa da coligação municipal Rui Moreira/PS tem por objectivos “as prioridades que foram amplamente sufragadas pelos portuenses: Coesão Social, Economia e Cultura”. “Coesão Social, Economia e Cultura”? E nas mãos do PS? Tremam, portuenses!»
É generoso da parte do blogger
blasfemo confiar os buracos e o trânsito às câmaras (quando lá no íntimo
acredita que a iniciativa privada é melhor a repor paralelepípedos e a
programar semáforos), mas conceder que sejam necessárias licenças de construção é uma absoluta extravagância da sua parte. E
a livre iniciativa? O empreendedorismo sem burocracias? Mais um pouco e Rui A. ainda
acha que os mercados devem ser regulados.
* Já agora, num país onde se construiu demais e onde as empresas de
construção estão falidas, «licenciar novos prédios» parece estupidez ou utopia
— raio de lapso num blogue tão seguro da sua clarividência.
Crueldade instrumental
Eis como numa frase (longa, é certo) se condena a crítica à irrelevância
(implícita, mesmo que não conscientemente, fazendo o elogio do marketing):
«(…) embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (…)»*
*Maria do Rosário Pedreira, editora, referindo-se ao célebre dossier do Actual sobre autores sobrevalorizados e subvalorizados.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Propaganda
Livro do dia na TSF
Os Idiotas foi hoje o livro do dia na TSF. Ouça o programa de Carlos Vaz Marques clicando neste link:
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=3475854
«Um romance que surge como a confirmação de um talento já adivinhado por quem o lia na Periférica e como uma revelação para quem só agora venha a descobrir o autor.»
Os Idiotas foi hoje o livro do dia na TSF. Ouça o programa de Carlos Vaz Marques clicando neste link:
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=3475854
«Um romance que surge como a confirmação de um talento já adivinhado por quem o lia na Periférica e como uma revelação para quem só agora venha a descobrir o autor.»
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Más notícias
É injusto para os autores terem o azar de surgir na minha
lista depois de Foster Wallace.
Meio enganado por uma qualquer referência que li, avancei a
certa altura para Cinerama Peruana,
convencido que havia ali ecos de A Piada
Infinita. Como se usar notas de rodapé fosse suficiente para aproximar os
dois livros. Não são próximos. Talvez haja ecos de Bolaño no livro de Rodrigo
Magalhães, mas não vi nada de Wallace. E, lamento dizê-lo, a despeito do
talento do autor, aborreci-me. Certamente pela enorme sombra que lhe fez a
leitura anterior. Mas também um pouco pelo género: aquelas espécie de fábulas
eminentemente literárias e literariamente tautológicas não me apaixonam, mesmo
quando são assinadas por Borges. Foi para arquivo, a um terço do fim. Decidi
ser condescendente comigo mesmo, poupar-me o esforço.
Hoje fui buscar Uma
coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer — o que me parece más
notícias para os restantes autores da pilha.
«Todos os meninos do papá chegam a presidentes»?
Recensão de Os Idiotas na revista online Rua de Baixo:
http://www.ruadebaixo.com/os-idiotas-rui-angelo-araujo-10-10-2013.html
http://www.ruadebaixo.com/os-idiotas-rui-angelo-araujo-10-10-2013.html
sábado, 12 de outubro de 2013
Lobbies e doping na genitália alheia
O José Mário Silva diz na sua página de Facebook que «a edição desta semana do 'Actual' é capaz de dar polémica», e acrescenta um link para um post do blogue Bibliotecário de Babel que, dá para perceber, lista os temas da secção de livros do dito suplemento. O problema é que chegamos ao blogue e deparamo-nos com um artigo sobre Viagra.
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Tontarias
Como posso aspirar a tornar-me um escritor respeitável se ultimamente etiqueto a
maioria dos meus posts como
«tontarias»?
Entusiamo
O corrector ortográfico do meu Word não está acertado pelo Acordo
Ortográfico — está acertado pelo Mia Couto. Quero escrever «entusiasmo» e
sai-me «entusiamo», com uma estratégica elisão do segundo «s». Aos outros
desacertos o corrector reage sublinhando-os a vermelho. Este deixa-o
laconicamente sem marca, esperando que eu dê pelo caso e sobre ele pondere
etimologicamente.
«Entusiamo» será assim a fusão de dois termos: «entusiasmo» e «amo».
«Amo com entusiasmo», quer certamente o corrector que eu conclua, com romântico
exacerbamento.
Moldando o entusiasmo
Senti um entusiasmo inadequado e embaraçoso ao ler que Pedro Mexia escolheria Javier Marias como um dos seus dois favoritos para o Nobel deste ano. O entusiasmo foi inadequado porque o senti de um modo
pessoal, como se fosse eu o nomeado. E foi embaraçoso porque pueril, ou melhor,
servilmente penhorado. Não que sonhe ombrear com Mexia em cultura e sabedoria literárias,
mas escusava de ter acessos de entusiasmo tão obnóxios, tão avassalados por uma
lisonja dirigida a um objecto de estima mútua.
Compreendo porém o meu próprio entusiasmo. Não tendo lido muitos
títulos de Marias, entre as leituras que fiz estão os três volumes de O Teu Rosto Amanhã, uma obra que só por
si vale um Nobel. E a minha satisfação com essa magna leitura tem equivalência em
grau à perplexidade de ver os anos passar sem que a tradução portuguesa seja
retomada (a Dom Quixote editou o primeiro volume em 2005 e ficou-se por ali).
A relativa ignorância a que obra de Marias é votada em Portugal concede-lhe
aos meus olhos (ou aos olhos do meu entusiasmo) uma certa aura de autor de
culto. A simpatia pela obra e a sensação de injustiça traduzem-se numa identificação
com as suas tribulações e os seus sucessos. Admiração semelhante de outros é sentimento
de união, irmana.
Por isso, se o meu entusiasmo não fosse tão voluntarista, perante a referência
de Mexia a Marias ter-se-ia manifestado mais dignamente na forma de mero regozijo
pelo reconhecimento de um igual. Se as minhas emoções se dessem ao trabalho de
se intelectualizarem um pouco, a nomeação de Javier Marias por Mexia seria
recebida, adequadamente, com um entusiasmo
de classe, de membro de um clube restrito, exclusivo, reagindo ao nome do
escritor como ao santo-e-senha do clube. Talvez permitindo-se (o entusiasmo) um
sorriso irónico e levar dois dedos ritualizados ao Borsalino.
Mas temo que se derem o Nobel a Javier Marias, Pedro, o meu entusiasmo celebre
plebeiamente dedicando aos editores portugueses um daqueles gestos revanchistas
de jogador de futebol.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
José Rodrigues dos Santos ou Educação para a modéstia
Educado para a modéstia (a soberba descobri-a por mim mesmo mais tarde,
junto com a ironia), fascina-me a forma despudorada como José Rodrigues dos
Santos fala dos seus próprios livros. No meu quadro educacional, e se descontarmos
as conversas de balneário, a hipérbole reservava-se para os feitos dos outros,
se tínhamos a generosidade de os admirar; os nossos tratávamo-los com reserva,
rubor e olhos baixos. Por isso, quando leio entrevistas do autor de A Mão do Diabo — presumindo sempre que
são registadas fora dos locais onde tradicionalmente os rapazes cotejam as suas
galgas —, uma parte antiquada de mim pensa que ele está a falar de livros
escritos por outros. Depois lembro-me de certas teorias da conspiração, que
metem cálculos de tempo e ghost writers,
e por instantes dou-lhes crédito: se
calhar está. E assim se compreenderia a enfatuação.
Mas se considerarmos que o entusiasmo de Rodrigues do Santos não
resulta de ele se distrair e involuntariamente revelar o seu apreço pelo
trabalho dos colaboradores (o que até seria bonito); se considerarmos que ele
escreve os seus próprios livros, todos eles, temos então de perceber se a sua
arrogância tem a legitimidade da de um Mourinho, por exemplo.
No caso do futebol, estamos dispostos a engolir a bazófia de Mourinho
se depois ele ganhar os jogos e conquistar os títulos. Podemos achá-lo um
parvalhão emproado, mas é um parvalhão emproado que no fim leva a taça e
milhões de euros.
Deste ponto de vista, e embora custe equiparar a literatura a um campeonato
de gajos depilados em calças curtas, Rodrigues do Santos está também autorizado
a ser um parvalhão emproado — afinal, a sua equipa ganha fortunas e tem já uma
série de internacionalizações. E se não conquista as taças literárias é porque
elas, anacronicamente, ainda são atribuídas por críticos e júris, não pelo
terceiro anel da Luz. (Eis algo que urge alterar.)
Claro que se pode dizer que José não tem um jogo bonito, o seu futebol
é tosco, ganha muitos jogos recorrendo à mão
de Deus, para baixo todos os santos ajudam, etc., mas no fim do mês lá está
ele nos tops e as suas filas para
autógrafos, di-lo ele mesmo, dobram esquinas.
Os historiadores do futebol podem argumentar que houve noutras épocas
treinadores melhores do que Mourinho e talvez a contabilidade de títulos ainda
nem lhe seja inequivocamente favorável, não sei, mas isso importa pouco aos
adeptos actuais se ele continuar a vencer. O mesmo se passa com os rodriguinhos
de dos Santos: críticos e historiadores (como Rui Bebiano, neste post) podem defender, com razões de sobra, que a entrevista
do escritor ao I no sábado foi um «vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil», mas a sua massa
associativa (e mesmo hooligans de
outros ramos) continuará a dedicar-lhe olas e cânticos épicos.
Para além disso, na mesma entrevista de sábado e antes que a História
se pusesse com coisas, Rodrigues dos Santos tratou de a arrumar num só
parágrafo. Falando de Equador como
espécie de profeta que anunciou os seus livros messiânicos, o jornalista disse:
«Demonstrou várias coisas. Que os portugueses tinham disposição para ler um
autor português, o que até aí era como o cinema português, de que se fugia. (…)
Porque não entendiam, o que era escrito, é a terrível verdade. Os nossos
autores eram ilegíveis.»
Diria que nem Mourinho seria farofeiro o suficiente para defender que
antes dele não havia futebol, mas talvez Rodrigues dos Santos tenha evocado na sua mente o panteão das letras portuguesas e
concluído melancolicamente que não tinha de facto razões para humildade.
Espantou-me, por isso, que noutra passagem da entrevista ele
concedesse, acerca de diferentes atitudes literárias, que «umas são tão válidas
como as outras». Havia, afinal, uma reserva de modéstia no bravo best-seller. Ou então ocorreu-lhe que
também ele poderia um dia querer levar «duas páginas a descrever um armário»,
como o sádico James Joyce em Ulysses,
e mais valia sancionar preventivamente o recurso. Just for the record.
Ou será que temia incomodar uma importante facção dos seus leitores censurando
o «exercício de masoquismo» que disse ser ler o calhamaço de Joyce?
Além disso, depois de Dan Brown, o seu catavento literário pode muito bem
estar a sintonizar-se nas cinquenta sombras sadomasoquistas de E. L. James. Rodrigues
dos Santos tendo prazer a infligir sofrimento literário? Não é impossível.
sábado, 5 de outubro de 2013
Machetada
Provavelmente — e decerto com particular incidência nas últimas
legislaturas —, sempre houve gente nos governos com alguma incapacidade para
defender os seus currículos. Quer porque eles (os currículos) eram má ficção, quer
porque eram facilmente confundidos com cadastros. Mas no governo de Passos
Coelho isso parece uma especialidade, uma cláusula.
Um tipo põe-se a pensar que, se os lugares de ministro e secretário de estado
(ou assessor) fossem a concurso, Coelho mandaria lavrar anúncio no Diário da República com a alínea: «Dá-se
preferência a quem tenha rabos-de-palha; da sua elisão trata-se a seguir, com
corrector Bic ou Pelikan, depende de quem patrocinar.»
Os currículos de Gaspar e Santos Pereira, bons rapazes e sem mácula no carácter,
pertenciam ao lote da ficção, poderiam ter sido escritos por José Rodrigues dos
Santos num dia inspirado. O de Relvas também, mas acumulava vilanias. Agora, a
ministra das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros são o topo hierárquico de
uma lista de governantes cujos currículos os habilitam com distinção ao governo
passista mas logo depois têm de passar pela lavandaria para serem apresentáveis
ao resto do país.
Desde Junho de 2011 há um campeonato para ver quem mente-mais-e-pior e,
em simultâneo, tem o raio-de-uma-lata. Os melhores nestas duas disciplinas
mantêm-se no governo ad nauseam, até
aparecerem cartazes no tour de França
e na Estação Espacial Internacional. Só saem quando a sua reputação não se distingue
da lama onde nadam.
«Machete: s. m. sabre de artilheiro com dois gumes, faca de mato, viola pequena, cavaquinho.»
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
A fé nunca morre
No Blasfémias aproveitaram o rescaldo das eleições para verter mais cera na hagiografia de Vítor Gaspar (1 e 2). Já se sabe, os santos morrem para que a fé possa sobreviver.
sábado, 28 de setembro de 2013
O civismo e a caça ao Raposo
«O civismo não nasce no coração dos homens e não está na genética de um povo. O civismo nasce na espada que protege a lei.» (Henrique Raposo, in "Uma cidade sem cães, s.f.f.", Expresso)
Por acaso, até concordo em boa parte com esta frase de Henrique Raposo. Não concordaria que fosse ele a decidir o que é “civismo” — o homúnculo é demasiado reaccionário (não misturar com conservador) e confunde demasiado os seus interesses e os do country club a que aspira ser membro com o interesse geral para que o deixemos ditar unilateralmente leis para a urbe. Como ele desejaria.
Raposo utilizou a frase num artigo onde revelou a sua utopia («pessoal,
intransmissível e impraticável», concedamos-lhe) de cidades sem cães. Eu, por exemplo, também tenho utopias
semelhantes, entre as quais as de cidades sem crianças. Parafraseando Henry Fox
(ele há-de gostar da versão british
do nome, não?, no seu fato de riscado e tudo), cidades onde um sujeito pode
estar no parque sem ser interrompido por um puto a rosnar, cidades onde um
sujeito não tem de aturar a petulância dos pais, ai, esteja descansado que ele (o
puto) não morde, nem lhe berra aos ouvidos, nem desperta em si o instinto
assassino da espécie.
Outra das utopias que tenho é a de cidades onde os fumadores não são
excepções e são decapitados de cada vez que deitam com o maior desplante a
beata ao chão, a enterram na areia da praia ou despejam os cinzeiros dos carros
nas bermas das estradas. Mas a maior e mais utópica utopia que tenho é a de
cidades sem teenagers e
universitários aos berros símios pelas ruas, a partirem garrafas e copos como
quem deita a beata por cima do ombro, com a mesma naturalidade dos gestos
comuns e aceites pela civitas, a
mijarem pela cidade inteira como se a humanidade de que com generosidade nossa ainda
os deixamos fazer parte não tivesse inventado a retrete e o recato da retrete,
a mijarem-me a porta do prédio com o mesmo à-vontade e conversas imbecis e
desprezo que têm nos balneários da escola pública que tanto custou a instituir
e que eles não merecem nem em bebés.
Os cães de Raposo são um problema na cidade, evidentemente. Há falta de
civismo por parte da uma grande parte dos donos de bichos (que, menos mal, já
não põem as suas crianças a cagar no espaço público, embora ainda as ponham a
mijar ali com irritante frequência). Há um desprezo egoísta desses mesmos donos
pelas pessoas que não simpatizam ou mesmo têm pavor dos bichos que para mim até
são geralmente amorosos. A trela ou o açaimo não são imposições da Inquisição,
são formas sensatas de procurar o equilíbrio entre quem quer passear os seus
bichos e quem a eles tem aversão ou medo. (Ainda que, se pegássemos nas ideias
neoliberais para a humanidade e as aplicássemos aos canídeos, devêssemos na
verdade soltar todos os animais da terra e deixá-los, como os rafeiros do Lemon
Brothers, competir livre e selvaticamente pelo território, pelo mercado, pelas
canelas do Raposo.)
Voltando à frase de abertura (até porque tenho de ir trabalhar, o Expresso não paga os meus devaneios), o
civismo não nasce, de facto, «no coração dos homens e não está na genética de
um povo». Não de todos os homens, não
por certo de todo o povo. O próprio Estado
de Direito é uma aberração histórica que apenas foi possível implantar porque
houve um tempo em que homens bons, cultos, inteligentes, intelectuais e, por um
acaso na história da humanidade, sensíveis
e solidários, houve um tempo, dizia, em que este género de homens tinha
acesso ao poder. Hoje, os partidos e os imbecis que lhes permitem a existência,
os mesmos imbecis que amanhã, 29 de Setembro, vão eleger dinossauros, seus delfins
ou siameses, não estão para aturar homens destes.
Não digo que o civismo «nasce na espada que protege a lei», mas em
certas alturas não passa sem ela, ou — vá lá, não sejamos tão raposisticamente medievais
na escolha das metáforas — não passa sem a multa ou o tribunal, versões extremas,
mas por vezes necessárias e ainda civilizadas, da hoje inexistente censura social
a comportamentos egoístas, cretinos e lesivos da liberdade alheia. O Estado de Direito e os seus tribunais são, aliás, o único obstáculo entre mim e o meu desejo selvático de anunciar ao
Bloco ou ao MRPP que a caça ao Raposo é legal durante todo o ano.
Dia de reflexão
1. Muitos acham ridícula a lei que impõe um dia de reflexão antes das eleições. Eu acho ridículo que a lei não imponha 15 dias de reflexão antes das eleições — incluindo o mesmo silêncio e pacatez dos sábados de véspera de urnas.
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Never mind the gap
Na altura, entre a província e a capital havia um gap um pouco maior do que aquele para que avisa intemporalmente a
voz do Metro de Londres. A admiração que a província tinha pela coreógrafa Olga
Roriz, por exemplo, era reflexa. Obediente aos media — no tempo em que os media
gastavam tempo com artistas como a Olga Roriz —, a província remetera-a para a
galeria dos notáveis da nação e tinha-lhe a vaga estima que se dedicava a influentes
estadistas estrangeiros, vivos e mortos, ou mesmo a um ou outro mais distante político
da pátria.
Um dia a coreógrafa trouxe a companhia à província e a província
acorreu engalanada ao recinto. Era a Olga Roriz! Ali chegada, a província não
conseguiu mais do que deixar cair desajeitadamente os queixos. Foi como se
alguém revelasse que afinal a Torre de Belém não era maior do que uma torre de xadrez.
Ou antes, como se fosse anunciado que o Tejo não era um rio, mas um laguito de
águas paradas e rasas. A província embasbacou. O que era aquilo? Que farsa era
aquela? Quem tinha mentido à província?
O problema era que a companhia de dança de Olga Roriz não dançava, não
nos termos em que a província se tinha habituado a imaginar a dança. Pensava-se
no folclore, no ballet ou no Fame e
nada daquilo encaixava, não sem grandes esforços da imaginação.
(O mito Pina Bausch durou porque a alemã teve o bom senso de não sair
de Lisboa sempre que veio a Portugal. E de morrer entretanto.)
Mas felizmente o desacerto entre a província e a capital foi já
bastante ultrapassado. Tirando uma ou outra distracção do jornal de Belmiro, os
media passaram basicamente a ignorar tanto
Roriz como Bausch e, muito adequadamente, inauguraram-se feiras e piqueniques
na Praça do Comércio. Suponho que a província esteja assaz satisfeita com a
aproximação que a capital lhe fez. Mas o melhor é que hoje já ninguém é
enganado, já não se fazem notáveis que não sejam transparentes à mais desarmada
vista e apresentáveis em qualquer romaria, de Unhais da Serra à TVI.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Time Out
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Deus não é um ET, bolas
Num questionário qualquer (sim, esse que no final faz de todos nós
nórdicos) fui confrontado com a questão de acreditar ou não em Deus. A pergunta,
com certa crueldade, não permitia nuances ou agnosticismos, não deixava espaço
para o conforto da neutralidade ou do adiamento. A reposta tinha de ser «sim»
ou «não». Acreditas ou não acreditas,
perguntei a mim mesmo, sentindo-me encurralado, confrontado, obrigado a
decidir-me. Disse que não, porque tudo à minha volta e dentro do meu cérebro
grita «não». Mas a dúvida permaneceu. Talvez por medo, medo católico de que os meus
modestos pecados mereçam ainda assim as chamas do Inferno. Talvez por uma
cautela de inspiração pascaliana. Certamente pela vergonha instintiva de me
mostrar crente num mundo pragmático. Respondi negativamente lamentando que não
houvesse a opção «não sabe/não responde» disponível em inquéritos mais
sensatos.
Entretanto vi um post a
informar que «Luzes no céu voltaram a ser observadas de Norte a Sul de Portugal»
e o meu coração acelerou, a minha alma excitou-se. Não como acontece aos peregrinos
que, a caminho de Fátima, desatam a cantar «a 13 de Maio…» sempre que à noite
os sobrevoam as luzes do helicóptero do INEM transportando mais uma vítima da
sua própria promessa. O post era do site
UFO Portugal e parece que as luzes não
eram balões de LEDs.
Suponho que um bispo da IURD me perguntaria o que há de errado em mim,
um tipo devidamente crismado que rejubila mais com notícias de nerds do que com as boas novas do Velho
Testamento. E alguma coisa deve haver, claro. A possibilidade de testemunhar um
milagre religioso deixa-me indiferente ou atento aos sinais de fraude,
disponível para rir e derramar paternalismo. A hipótese de um avistamento
extraterrestre, pelo contrário, põe-me a olhar discretamente os céus, a sonhar
com encontros imediatos, a correr para o clube de vídeo para alugar de novo Contacto. Embora não desaproveite a
oportunidade para rir e derramar paternalismo (nunca se deve perder uma).
Encontrar Deus é o susto de me ver desmascarado na minha hipocrisia, no
meu cinismo, na minha pusilanimidade, nos meus vícios. Encontrar um ET é tocar o
verdadeiro Mistério. Jamais senti uma epifania ou qualquer tipo de excitação da
alma ou do intelecto nos meus contactos com a Bíblia; mas senti-me inquietante
e maravilhosamente próximo do Inefável quando li Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke.
Suponho que isto diga também qualquer coisa sobre as tão propaladas virtudes
literárias da Bíblia, faça dos evangelistas autores menores, se comparados
com Isaac Azimov ou Philip K. Dick. Imagino que as coisas poderiam ser
diferentes se Marcos, Mateus, Lucas e João tivessem sabido deixar o rosto do
Senhor desconhecido, em vez de fazerem do simples acto de nos vermos ao espelho
um spoiler. Se tivessem inventado um 13.º
apóstolo tão fugaz e perturbante quanto o 8.º passageiro. Se, eles e os seus
continuadores, tivessem conseguido fazer uma narrativa menos autobiográfica,
recalcada e catártica (logo, amadora). E, claro, se não tivessem assinado os seus livros com nomes
de cantores pimba brasileiros.
sábado, 21 de setembro de 2013
Talvez divirta
Quem estiver interessado em acompanhar a saga do meu romancezinho pode fazer amizade no Facebook com o protagonista Lúcio (www.facebook.com/luciopeixao) ou clicar "Gosto" na página www.facebook.com/osidiotaslivro. Não custa nada, é útil e talvez divirta. Veja-se, por exemplo, a carta que Lúcio escreveu aos jornalistas:
«NOTÍCIA DE UM SEQUESTRO
O meu nome é Lúcio Peixe e fui sequestrado. Há uns meses enviei, sob pseudónimo, um manuscrito autobiográfico para a editora O Lado Esquerdo. Disseram-me que tinham gostado muito da obra, sobretudo pela sua tocante sinceridade, e gostariam de a publicar. Convocaram-me para um encontro onde acordaríamos os detalhes da edição. Na verdade, mal entrei nas instalações da editora, um dos raros edifícios no Alentejo com cave, bateram-me com um cão de louça na nuca e puseram-me a dormir por 48 horas. Quando acordei, estava amarrado a uma cadeira de vime, parece que produto do artesanato local, e com o verbo impedido por duas voltas de fita-adesiva castanha, da que se usa para embrulhos.
De lá para cá, conseguiram subtrair-me a password de acesso ao meu perfil do Facebook e têm-se feito passar por mim. O que pretendem exactamente não sei. Mas avançaram para a edição do livro com bizarras alterações factuais. Do autor, eu mesmo, fizeram apenas personagem da obra. O meu pseudónimo, “Rui Ângelo Araújo”, esse vitupério que em má hora resolvi inventar, surge agora como pessoa real, com um sorriso imbecil na badana que pede mesmo que o encham de alcatrão e penas, à boa maneira do farwest.
Achariam a história demasiado inverosímil para a apresentar como autobiografia? Podiam tê-lo dito, que eu tentaria adaptá-la ainda mais à realidade.
Tenho sido alimentado, felizmente, mas confesso que já estou farto de açorda e sopa de tomate. Em relação aos coentros, então, sinto uma fúria verdadeiramente pesticida.
Preciso de ajuda. Nas minhas idas à casa de banho tenho conseguido passar umas mensagens, mas os idiotas que a elas têm acesso não fazem mais do que publicá-las no Facebook, como se isso resolvesse algum problema na vida real. Na minha vida real.
Escrevo-vos porque, no debate que opõe o jornalismo clássico às novas tecnologias da comunicação, estou do vosso lado, do lado dos bons e velhos jornalistas um pouco obesos e alcoólicos. Se há uma esperança de a verdade vir ao de cima (e ser amplamente difundida) nesta crise despoletada pela edição do famigerado “romance” Os Idiotas, ela passa pelas redacções. Por favor desmascarem a cabala em que me envolveram. Ajam antes que Os Idiotas seja um bestseller pelas razões erradas: aquilo é um drama biográfico, não uma comédia ficcionada! (E muito menos uma pílula da felicidade, como já ouvi que iam anunciar. Ou um manual autárquico.)
Façam qualquer coisa em favor do livro e, já agora, chamem a merda da polícia, que já tenho as costas marcadas com um padrão de artesanato mediterrânico que não combina nada bem com a minha índole. Socorro, portanto.
Sinceramente vosso,
Lúcio Peixe
Informações úteis para a Judiciária:
www.osidiotas.pt
www.facebook.com/osidiotaslivro
http://www.revistadevinhos.pt/»
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
3* - O fim do romance
No que se refere ao romance em geral, há ainda quem vá mais longe e
vaticine a sua morte. Para já, que eu saiba, apenas um ou outro escritor
geronte (Roth), um ou outro guru das novas tendências ou tecnologias. No
primeiro caso é talvez uma questão de ego ou de mágoa: comigo morre o mundo ou o
mundo que me sobrevive nada terá que valha. No segundo caso é só uma
questão de patetice, infelizmente com o flanco coberto pelos media mais populares. Mas, de novo, há
que ter em conta a indústria e a televisão. O fim do romance pode tornar-se uma
militância, rapidamente apoiada pela matilha popular. Do mesmo modo que o fim da poesia
foi há poucos anos decretado por alguém com meios para o ajudar a tornar-se
realidade (um responsável da Porto Editora), a literatura que não inclua
vampiros, bruxos ou látex pode ver-se reduzida a samizdat de 300 exemplares
enquanto o Diabo (de Rodrigues dos Santos) esfrega um olho.
No mundo literário, importa não ignorar as diferenças — mas talvez convenha relativizá-las.
* Considerando que os posts anteriores foram os números 1 e 2 da série.
2* - Inimigos da literatura
Não é incomum as pessoas medirem o mundo pela sua própria bitola, também
se se trata do mundo o literário. Quando os escritores se arregimentam numa
escola, fazem-no quase sempre como se houvesse uma guerra e eles estivessem
numa trincheira. Fora do buraco que cavaram para si próprios, tudo deve ser
aniquilado, nada merece existência. Na versão benévola, tudo fora da trincheira
é medíocre ou inútil.
É bom que a espaços haja destes belicismos. Do confronto é que surgem
as coisas boas e novas. Almada estava provavelmente a exagerar no Manifesto Anti-Dantas,
mas foi bom que o escrevesse.
Mas passados os ardores da juventude e vencido o complexo de Édipo, é
um pouco estúpido permanecer entrincheirado.
A diversidade não deveria ser um termo restrito à ecologia.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
O romance convencional (Liberdade x A Piada Infinita)
Pessoa amiga conta-me que lhe ofereceram recentemente os romances Liberdade (de Jonathan Franzen) e A Piada Infinita (de David Foster
Wallace). Percebe-se a escolha: de forma mais ou menos assumida ou por
interpostos críticos, ambos os autores (e ambos os livros) foram candidatos à
categoria recorrente de o (novo) grande
romance americano. Quando a feliz aniversariante mostrou os presentes a um
outro amigo, ele teve uma compreensível reacção idiossincrática: «Lê muito a Piada; queimamos já aqui o Liberdade.»
É certo que Franzen competiria melhor com Wallace se o livro escolhido
fosse Correcções. Ou antes:
competiria um pouco mais no mesmo terreno de Wallace se o livro considerado
fosse este último. Contudo, Liberdade
continua a ser um grande livro, ainda que mais convencional.
Há várias razões para não se gostar de Franzen, e ser “mais convencional”
parece ser uma delas.
Um post de Nuno Costa Santos,
por exemplo, defende que «o romance convencional já não chega lá». E já não
chega lá porquê? Porque «não basta a historinhazinha, a trama branda, as
personagens bem desenhadas mas sem fogo». Porque «a realidade, contraditória e
conflituosa, está a reivindicar atenção». Porque «é necessário assumir o quase
sempre evitado "eu" — um "eu" que não é o ego tout court, é
um jogo literário arriscado entre a vida e a ficção».
Pelo meu lado, julgo excessivo presumir-se que o romance convencional
se define daquela maneira. Talvez aquilo defina um romance fraco, mas não exactamente um romance convencional. O romance
convencional terá uma história, uma trama, personagens bem desenhadas — os
diminutivos paternalistas e os qualificativos pejorativos excedem a definição.
Por outro lado, não seria descabida generosidade considerar que o romance convencional
tem tido os seus momentos de aggiornamento,
de sábia atenção à «realidade, contraditória e conflituosa», e de assumpção do
«eu».
Creio que Costa Santos, como se depreende do resto do seu texto, queria
na verdade dizer que, em sua opinião, o romance convencional não tem sabido chegar lá. Ou mesmo que o romance
convencional já não tem forma de chegar lá.
E aqui talvez entremos no domínio do estilo e das preferências.
Por ter crescido num tempo e num canto de Trás-os-Montes onde não havia tutores nem
escolas literárias ou figuras de referência, tornei-me, julgo que felizmente sem traumas,
num tipo ecléctico no que se refere a géneros e estilos. Ou talvez apenas
descomplexadamente generoso no que toca a leituras. A verdade é que se rejeito por
vezes certos livros não é porque os ache necessariamente maus. É apenas porque
estão desacertados comigo (ou, geralmente, eu com eles).
Tendo-me divertido mais com A
Piada Infinita e tendo sido mais estimulado por Wallace, não vejo contudo razões
para desconsiderar Liberdade ou temer
que o “romance convencional” já não sirva.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Praxe
Comentário de um paisano sobre a praxe ali perto: «Ainda nem os
deixaram ir ver a universidade e já os estão a foder.»
Ou de como a sageza popular é suficiente para deitar por terra qualquer
treta hipócrita sobre a praxe enquanto forma de introduzir os novos alunos na
vida universitária, de os guiar pelo campus, de os integrar na comunidade
académica.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Os Idiotas
O livro mais tonto e sagaz do ano (é assim paradoxal e humilde) lança-se hoje oficialmente na Sociedade Recreativa e Filarmónica 1.º de Janeiro, em Castro Verde. É um pulinho e há jantar.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Esperança
Leio que a «mensagem» de Índice Médio da Felicidade «é de esperança, associada ao amor aos outros e à solidariedade» e concluo que foi má ideia ter faltado às aulas de escrita criativa.
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