terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Velas benzidas

[Eis o conto a que se referia o post anterior:]

Era agradável estar a ler ao jantar quando a luz falhava. Reuníamo-nos doze numa mesa que mal dava para seis, mas eu de algum modo conseguia espaço para pousar o livro ao lado do prato. Não sermos obrigados a utilizar os dois talheres ajudava.
Nessas noites de invernia, bastante frequentes, retirávamos às apalpadelas os castiçais de alumínio amolgado da sua prateleira habitual e, por vezes, ainda usávamos o gargalo de garrafas de vidro para entalar velas de cera. Os castiçais (como o termo soa antigo!) tinham sempre um coto de vela, mas havia uma altura em que se tornava necessário substituí-lo, não raro a meio do blackout. Aquele a quem calhasse a tarefa de encontrar as velas de reserva devia certificar-se de que enfiava a mão na caixa correcta, caso contrário teria de enfrentar a cólera da avó. Acontecia, quando alguém se baralhava na escuridão e regressava à cozinha com uma das velas benzidas a arder. As velas benzidas eram fáceis de distinguir, mais perfeitas no seu acabamento, e eram, naturalmente, sagradas, não se destinavam a iluminar.
Na maior parte das vezes não aconteciam desaires destes, tínhamos um treino de cegos, éramos capazes de encontrar no escuro os castiçais, os fósforos, as velas certas, tudo aquilo que fizesse falta no momento em que a luz nos abandonava. Mas se acontecia, a noite ficava ainda mais estragada, teríamos de rezar a dobrar, já não só pela intempérie mas também pelo sacrilégio de acender em vão uma vela benzida.
Em certas ocasiões perguntei, assustado, se acenderíamos velas benzidas caso a trovoada fosse ainda mais insuportável, mas quem aferia os rigores do clima era a avó e o método dela consistia apenas em rezar, rezar com fervor, voltar a rezar. Nunca acendia frivolamente uma daquelas. Na verdade, estava certa: não me lembro de nenhuma tempestade que tivesse um mau desfecho, tínhamos sobrevivido a todas, afinal; mesmo quando os meus nervos gritavam o contrário, mesmo quando os baldes e os alguidares que aparavam as pingas do vendaval transbordavam uma dúzia de vezes na mesma noite e o granizo no terraço tinha o tamanho de ovos.
Acendia-as, a avó, em certas datas evocativas, quando a mim me parecia inútil, um desperdício o próprio fósforo. Entendíamos o mundo de forma diferente, ela e eu. Eu olhava para as coisas no momento em que elas surgiam; a avó tinha costumes, efemérides, memórias, a Bíblia. Eu vivia no futuro, ela no passado. O resto da família, o presente entre nós, obedecia-lhe.
Não tanto quando a luz falhava. Quando a luz falhava a casa parecia finalmente ampla, havia privacidade, podiam esquecer-se de mim. O espaço comum reduzia-se àquilo que as velas iluminavam. Fora dos círculos de luz existia o mundo de cada um e menos disposição para se invadir o mundo alheio. A noite recuperava uma boa parte da sua função primordial.
Sou capaz de me lembrar de cada uma das leituras que fiz em noites daquelas, mas sempre que penso no assunto é o mesmo livro que evoco. Um volume de folhas grossas, amareladas, com textura, recolhido na biblioteca itinerante. Um romance sobre homens pré-históricos e a sua luta para preservar o fogo. Parece demasiado adequado, bem sei, mas não houve qualquer planeamento da minha parte. Escolhi-o à sorte e tentava lê-lo antes de a luz falhar, à espera que me mandassem parar porque a comer não se lia.
Depois veio a tempestade e a luz falhou e eu pude ficar à mesa com o livro, como acontecia sempre nessas alturas. Cheguei a pensar, posteriormente, que a súbita tolerância estava relacionada com o ditado que se aplicava noutras ocasiões, quando por conveniência se queria dizer que sem testemunhas não havia pecado: o que os olhos não vêem o coração não sente. Claro que eles me podiam ver, se o quisessem mesmo, mas não se pode negar que há na meia-luz das velas sombras bastantes para usar como convenha.
A avó no topo da mesa tinha muitas dioptrias e deixava de me ver. O resto da família, que me podia ver, talvez ficasse contente por não ter de pensar no assunto. Devia ser cansativo lidar com a avó e comigo todos os dias, balançando entre um sentimento e outro. A avó só queria rezar e eles rezavam, como não o fazer? Eu só queria ler, e se falhava a luz ninguém se importava com isso, não se notava a ausência da minha voz nas orações, no longo responso quotidiano.
Quando ela adoeceu naquela mesma noite eu não tinha em mente nada em particular, apenas me ocorreu que era uma boa ocasião para recorrer ao stock de velas benzidas. Havia, de resto, por uma vez, uma surpreendente concordância entre a doutrina da avó e o livro que eu estava a ler, O Clã do Fogo. Os anciães pré-históricos eram frequentemente velados com pequenas tochas ao redor do seu corpo. Quer dizer, não tão frequentemente, só quando morriam. O fogo era o que de mais importante o clã tinha, e as sucessivas gerações dedicavam-se a preservar a chama. Literalmente. Ninguém saberia como a reacender, se acaso a deixassem extinguir. Transportavam e alimentavam permanentemente as brasas. Era isto o que o livro tinha de fascinante e era por isso que a maior homenagem que se podia fazer aos mortos era rodeá-los de inúmeras chamas, tantas mais quanto maior fosse a importância do defunto.
Eu achava a avó importante. Não se me pode negar isso. Não era aliás possível que eu não lhe reconhecesse importância. Ela era o centro da família. Tudo na casa girava em torno dela. Era indubitavelmente a cabeça do clã. Acompanhei o resto da família quando a levaram em braços para a cama e estive tão perto da cabeceira quanto pude enquanto o médico, que atravessou o temporal, a examinou. Estava perto da cabeceira quando ela ordenou que me levassem dali, desprezando a minha vontade mesmo se lhe faltavam as forças para outras coisas.
Depois de todos nos termos deitado, a família desorientada com a doença súbita da avó, eu não conseguia dormir nem deter os pensamentos. Era a primeira vez que no meu próprio clã alguém soçobrava daquele modo, que o ancião dos anciães (eram quase todos anciães, do meu ponto de vista) recolhia ao leito perante a perplexidade generalizada.
A luz não tinha voltado, mas eu sabia onde e como encontrar os castiçais e os fósforos, e desta vez parecia-me evidente por muitas razões que não seria repreendido por usar as velas benzidas. Mesmo que o meu domínio do fogo fosse afinal incipiente e os resultados da iniciativa incertos e tendencialmente catastróficos. Mas sem testemunhas não havia pecado.

10 livros que me marcaram

[Desafiado para uma “corrente” no Facebook, fiz a seguinte lista, que não resisti a comentar. Escuso de dizer que os dez livros indicados não são os dez livros da minha vida, mas apenas alguns deles.]

1 - A MONTANHA MÁGICA, Thomas Mann.
Li-o numa edição que já tinha passado por várias mãos, sem capas, em papel amarelado, com cheiros antigos, talvez a edição perfeita para me transportar para a época da acção. Foi-me emprestado pelo meu grande amigo Carlos Chaves e, entre tantos, fiquei-lhe a dever também este favor: de me por na rota da literatura séria. Era Inverno mas nos dias que demorei a lê-lo nunca houve frio. Na cama, funcionava como um cobertor extra, um que aquecia também a alma.

2 - A GUERRA DO FOGO, J.-H. Rosny, pseudónimo dos irmãos belgas Joseph Henri Honoré Boex e Séraphin Justin François Boex.
Também é uma recordação de calor por fonte literária. Devo dizer que não tenho a certeza absoluta de que o livro que me ficou na memória seja este, embora pela pesquisa qui fiz na Internet a probabilidade seja bastante grande. Terei de ver o filme. As razões por que me marcou serviram já de inspiração para este post: http://www.canhoes.blogspot.pt/2011/12/planos-de-vida.html e um conto (“Velas benzidas”), que, já agora, publicarei aqui num post a seguir.

3 - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA, Gabriel García Márquez. Li-o de uma assentada com espanto por ficar preso a uma história de que sabia o fim. Tinha andado a fazer a limpeza de Primavera (na minha terra fazia-se na Páscoa uma limpeza anual aprofundada à casa, e eu devo ter demorado a livrar-me do ritual). O mundo, como a casa e os lençóis lavados, cheirava a fresco, parecia estar a começar de novo, resplandecente e auspicioso. Tenho de me lembrar dessa receita para estes dias de chumbo. Uma barrela e um livro.

4 - O PROCESSO, Franz Kafka. Durante alguns anos, dizia, como elogio à força do livro, que durante a leitura, nas partes do tribunal, me doía o pescoço ao imaginar-me nas galerias de tecto baixo que obrigavam a assistência a ter a cabeça dobrada. Hoje nem sequer sei se o livro tem de facto uma parte assim ou se, como tantas vezes, a minha memória se pôs a ficcionar. De qualquer modo, a estranheza das histórias e o magnetismo da escrita de Kafka, neste e nos outros romances e contos, foram definitivamente marcos literários na minha vida.

5 – A PORTA DOS LIMITES (Urbano Tavares Rodrigues) e 6 – FATHERLAND (Robert Harris).
Refiro estes não exactamente pela sua qualidade literária (de Urbano teria de referir A Vaga de Calor), mas porque em dois momentos da vida me alertaram para o facto de que havia mais literatura (e prazer) do que a de aventuras ou de ficção científica. Depois deles estava pronto para A Montanha Mágica. Que foram marcantes, testemunham as vezes que já os mencionei, como neste post: http://canhoes.blogspot.pt/2011/11/de-equivoco-em-equivoco.html e num outro de uma vida anterior do blogue que talvez um dia reponha por aqui.

7 – EM NOME DA TERRA, Vergílio Ferreira. É este mas podiam ser vários outros do mesmo autor. Folheei-o na casa de alguém com uma atitude snob, não querendo acreditar que a proprietária o comprara intencionalmente, o não confundira com literatura do coração. (Consegui ser muitas vezes parvo ao longo da vida.) Eu nunca lera nenhum livro de Vergílio, mas por ter ‘ouvido dizer’ que era bom achava-me já no direito de desconfiar de quem de facto o comprara para ler. Enquanto o folheava, fui agarrado pelos tomates. Aquilo era avassalador: a escrita, o ambiente, a narrativa, a indagação existencialista, a poesia amarga ou melancólica do discurso. Revia-me intensamente naquele tom e entrava com assombro num mundo de gente mais velha, que olhava para a vida de outro estádio, para mim ainda estranho. Pedi-o emprestado e de seguida comprei e li tudo o que apanhei do autor, aproveitando sofregamente as pausas do almoço.

8. O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS, José Saramago
Comecei pelo Evangelho Segundo Jesus Cristo, que achei bom, mas passado num ambiente e num estilo de parábola que nunca me entusiasmaram. O Ensaio Sobre a Cegueira (que já não me lembro se li antes ou depois de O Ano da Morte…) pareceu-me “bom demais” e, na minha juventude insegura, temi estar a ser levado por um eficaz efeito cinematográfico (antes de haver o filme). O Ano da Morte de Ricardo Reis parecia-se mais com os clássicos e tinha uma história menos fantástica, apesar da sua improbabilidade. A Lisboa narrada, o ambiente no quarto, na sala de jantar, no hotel, nas próprias ruas, as relações entre as personagens, tudo isso tinha para mim muito de A Montanha Mágica, para dialogar com outro livro desta lista. Deveria lê-lo de novo para perceber se a parte política, agora mais percebida, me teria influenciado negativa ou positivamente. Seja como for, o menos saramaguiano dos livros de Saramago ficou-me na memória e nos afectos como um dos livros da minha vida. De resto, prefiro este lado mais sombrio e kafkiano da obra do autor: Todos Os Nomes seria a minha segunda escolha.

9. O ANIMAL MORIBUNDO, Philip Roth
Este é uma leitura mais recente, com uns seis ou sete anos. O fã de aventuras e ficção científica tinha-se transformado e passara a interessar-se por quem escrevia sobre a vida das pessoas, a sua psicologia, as suas relações, a doença, o amor frustrado, os sentimentos, etc. Já passara nos anos anteriores por Updike, Bellow, Carver, etc. Talvez ainda fosse o mesmo fascínio da Natureza, das sagas, do Universo, mas agora concentrada na aventura e no mistério de estar vivo. A prosa de Philip também ajudou a que por aquela altura me apetecesse oferecer o livro a toda a gente. E ainda não tinha lido O Complexo de Portnoy.

10. AS LÁGRIMAS DE MEU PAI, de John Updike. (Também podia ser Procurai a Minha Face.)
Leitura ainda mais recente, esta colecção de contos é tudo o que gostaria de escrever na terceira idade, se algum dia lá chegar. (Bem, é tudo o que eu não me importava de escrever ‘agora’…) A mestria da escrita, a serenidade do tom, a paz, a evocação não exactamente nostálgica nem traumática da vida dos protagonistas… O livro é uma espécie de testamento, de despedida do escritor. Pelo menos eu li-o assim. São histórias de gente idosa que se encontra com velhos colegas de liceu em jantares de curso ou por acaso, que se visita em lares de terceira idade, que reencontra antigos cônjuges ou amantes, que confere a lista de baixas, as doenças, os desaparecimentos, as inflexões nas relações, as mudanças de carácter. Que revisita lugares antigos. Mas tudo é relatado, observado com uma ironia carinhosa, um afecto cordial e discreto. Como só os espíritos superiores podem olhar para a vida.

[O décimo livro poderia ou deveria ter sido O Teu Rosto Amanhã, de Javier Marias, mas sobre ele teria de me atrever a um longo texto e isto já vai suficientemente arrastado. Já o aflorei em pelo menos dois posts, este http://canhoes.blogspot.pt/2013/10/moldando-o-entusiasmo.html e este http://canhoes.blogspot.pt/2012/03/o-tempo-e-prosa.html.


E A Piada Infinita? E Liberdade? E A Viúva Grávida? E...?

«Ser humilhado é um direito»

O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos; se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm) para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade. Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

The show must go on

Perante um "contratempo" estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.


P.S. Visto no jas-mim.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria

O El Mundo trouxe à luz do dia os casos Bárcenas (financiamento ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente, afastaram Pedro J. Ramirez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor, que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico ou cultural (as do Público Mais). São interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores, jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de El Mundo, os leitores do jornal deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pequenos retratos infames (1)

José Manuel Fernandes

Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto editorial, o Observador, que certamente não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos, uma espécie de Bonnie and Clyde com um gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo director do Público. Anos atrás, ele escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de “criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem. É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco grande de os portugueses confundirem o Observador com o Diário da República, quando notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício em assinar o Observador, onde as (más) novas legislativas aparecerão primeiro. O DR deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Private, but not a joke

Convocado para uma farsa, sentiu por fim na pele o que é ser estalinescamente apagado de uma fotografia antiga. Resta-lhe agora decidir se aguarda a picareta cordial ou colericamente.

Diálogo de partisans

J.: Vai haver um dia em que as pessoas de bons sentimentos e ilustração terão de se mobilizar contra uma sociedade onde imperam jotinhas e boçais.

G.: Concordo, mas temo é que pelo andar da carruagem essa mobilização seja já a de um movimento de resistência, de sabotagem, clandestino, de sobrevivência — não a de um exército que impressione e vença guerras pela mera exibição do número das suas tropas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A liberdade de ser e o papel do bobo

Os pobres de espírito e de carácter (e até de inteligência, não pode ser totalmente inteligente quem não percebe o conceito de liberdade individual) hão-de precisar sempre de alguém a quem discriminar, sobre quem fazer recair raivas, preconceitos, frustrações, complexos. A História ensina: mulheres, pretos, judeus, homossexuais… Há sempre um “argumento” de ordem “natural”, “científica” ou “cultural” para negarem ao próximo aquilo de que se consideram legítimos (alguns por direito divino) detentores: a liberdade de ser. É da definição de liberdade global que o direito a ser imbecil, inalienável, tem de se restringir à esfera do próprio indivíduo. Por favor ninguém proponha, neste estádio da civilização, um referendo sobre a possibilidade de as pessoas serem parvas para si mesmas. Direitos humanos não se referendam — e continuamos a precisar de cromos de quem rir. Não os deixemos é legislar, não é esse, historicamente, o papel do bobo.

Tontarias

Sobre um artigo de um tal Nuno Ferreira no P3 (esse por vezes compêndio de má escrita e mentes ingénuas), escrevi numa página de Facebook o comentário abaixo. Foi num impulso da madrugada e acabei por tirar os insultos, como compete às pessoas decentes. Mas nem sei porque me dei ao trabalho. De comentar e de tirar depois os insultos.
De qualquer modo, partilho:

UM IDIOTA ÚTIL, PRESUMO | Eu próprio já escrevi que uma licenciatura não é, nem poderia ser, uma garantia de emprego. Mas, para além da manifesta falta de empatia pelos seus concidadãos, o autor do artigo ignora as circunstâncias e sofre de vários preconceitos. Ao ponto de afogar em estupidez e cinismo a pouca razão que tem.
Ignora, por exemplo, que os «calimeros» de que fala não encontram emprego na área da sua licenciatura nem em área nenhuma. Ou que, quando o encontram, é em condições precárias, mal remuneradas e não raro humilhantes (para licenciados e não licenciados).
A sua definição de «emigrante normal» seria hilariante, se além de patética não fosse manipuladora.

O país não tem de «sustentar profissões que já não fazem sentido» diz o jovem empreendedor (deve ser um jovem empreendedor, não deve, este Nuno Ferreira?). Mas não define é quais são as profissões que não fazem sentido. Talvez porque lhe daria muito trabalho. É que no Portugal de hoje são poucas as profissões que fazem sentido (ou seja, que empregam gente) e infelizmente deixam de fora mais de 15% dos portugueses (números oficiais, logo muito optimistas) e muitas das que «fazem sentido» pagam o salário que Nuno Ferreira certamente acharia escandaloso (ou não, o optimismo destes gajos é do tipo religioso, submisso).

«E quando existem quase 1,5 milhões de licenciados (a que todos os anos se juntam mais 80 mil), não será difícil adivinhar que, num futuro próximo, alguns caixas de supermercado, empregadas da limpeza ou empregados de balcão sejam licenciados. É uma evolução vulgar de Lineu: se caminhamos, e bem, para a educação superior de quase todos, alguns vão ter de fazer o que tem de ser feito e não o que gostariam de fazer.» Não é para mim escandaloso este parágrafo do jovem empreendedor. É apenas pragmático. Tem é dois problemas: no contexto do seu artigo, não conseguimos deixar de pensar que ele se exclui das tarefas que evidentemente considera menores. O outro problema, revelador dos seus preconceitos, e que me deixa particularmente indisposto, é a designação «empregadas de limpeza». Todas as outras profissões foram definidas no masculino, «empregadas de limpeza» no feminino. Alguém que tenciona de forma tão evidente mostrar-se um livre espírito (sejamos por momentos condescendentes) tinha obrigação de não ser tradicionalista ou sexista na abordagem destes assuntos. Para mim, quem utiliza de forma automática o género feminino para identificar profissões ou cargos marcados pelo ferrete das sociedades patriarcais, como «secretária» ou «empregada de limpeza», merece pouco respeito intelectual. Se a isso somarmos a inoportunidade, a inexactidão, o equívoco, a manipulação e o cinismo do seu texto, fico bastante convencido que estamos na presença de um idiota útil, mais um bate-punho desta admirável era passista.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Caixa de Pandora

Há uma certa ironia no facto de a Quetzal, que publicou em 2010 o livro Mudar, o mein kampf de Passos Coelho, ser a mesma editora que lançou no final do ano passado Austeridade – A história de uma ideia perigosa. Se pudéssemos ver nisto um ciclo, a abertura e o fecho de um ciclo… 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Allahu Akbar

Descubro agora que o início da segunda vida deste blogue coincidiu com a ascensão de Passos Coelho a Primeiro-Ministro. Desculpem a má-sorte. Acabo já com o blogue se isso nos livrar da aventesma pasmada e dos vampiros que a rodeiam. Dêem-me um sinal. (Haverá cintos de explosivos para blogues?)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Praxes

Julgo por vezes que ninguém que mereça respeito intelectual simpatiza com o mundo idiota e perigoso das praxes universitárias. O que é que isto significa? Que tenho uma visão restrita das pessoas que merecem respeito intelectual? Talvez. Sou um sentimental, mas não confundo afecto e piedade com admiração. Não acho inteligentes ou iluminadas todas as pessoas que amo ou por quem tenho compaixão. Neste tempo de dificuldades, por exemplo, apiedo-me do país, mas continuo a não o ter lá assim em grande consideração. O país aceita as praxes — eu tenho pena do país também por isso.
O que acho mesmo que isto significa é que ninguém respeitável do ponto de vista intelectual tem poder ou, tendo-o, o quer exercer contra a imbecilidade geral. Isto significa também que à frente de uma parte das universidades, como do país, estão idiotas, comodistas ou cobardes. Ou apenas gente manietada.
A natureza estupidificante e fascizante das praxes universitárias está há muito identificada. Num mundo de adultos, ou num mundo de gente decente e culta, a sua abolição tinha ocorrido há muito, sem dramas, com a veemência célere e inelutável dos gestos necessários e consensuais.
Acontece que Portugal não é nenhum desses mundos. O poder dos reitores e o poder da gente decente e culta é limitado. O respeito intelectual é uma daquelas coisas obsoletas, como a palavra de honra ou a honestidade. Quem o merece, torna-se geralmente clandestino, por segurança. Como nos media e na rua, a indigência intelectual sequestrou o que resta de inteligência e cultura no campus. Os reitores são tolerados no seu posto — não exactamente respeitados ou obedecidos. Os professores não contam, e muitos deles são suficientemente cultos e intelectualmente respeitáveis para abominar as praxes.
No mundo de anedota que é Portugal, os próprios jornais de referência identificam um rapazola qualquer como «ex-responsável pelo conselho de praxes». Notem-se os termos, a sisudez e a gravidade dos termos: «ex-responsável» para definir um ex-cabecilha de uma comandita vocacionada para a galhofice e a humilhação. Como se houvesse naquela figuras alguma ponta de responsabilidade no sentido institucional ou ético do termo. Como se com frequência aquela responsabilidade não fosse meramente do âmbito do Código Penal. E «conselho de praxes», assim, embrulhado em respeitabilidade, em seriedade, como se os adultos dos jornais se empenhassem na brincadeirinha das crianças, sorvessem cerimoniosamente o chá que não está nas chávenas, mastigassem convictos e censurando-se as cólicas a lama dos bolinhos que as crianças lhes dão a comer.
Que a rapaziada nos seus divertidos e irresponsáveis vinte anos crie «conselhos» e nomeie «responsáveis», determine «códigos» que regem a companhia alegre, compreende-se — quem não quis ter na adolescência um clube secreto ou uma casa na árvore? Que os adultos de um país, os seus jornais, as suas instituições e os seus líderes não ponham limites à brincadeira é caso para levar a nação ao divã de Freud ou a internar no Conde Ferreira. Se houver verba. E vagas.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Das virtudes da leitura

«A literatura não salva», costuma dizer-se, muitas vezes apenas para contrariar um certo proselitismo de miss universo de alguns cândidos amantes da leitura. Mas em minha opinião, salva. E não precisa de finais felizes. Salva mesmo quando é dura, triste, deprimente, terrível. Para citar com liberdade Steiner, a leitura responde tautologicamente à questão «quem somos e o que andamos aqui a fazer». Ou evita as aguilhoadas dessa inquietante questão mantendo-nos prazerosamente ocupados a tentar encontrar nos livros a resposta. Salva dessas duas maneiras.
A literatura não impede os crimes, nem as guerras, nem nada disso, desiludam-se. Um torcionário pode fazer o seu trabalho ao som da melodia mais doce de Tchaikovsky e entre dois capítulos de Sebald. Mas desconfio que o fará ainda mais facilmente se for o único a ler Sebald. Devemos ler por uma questão de equidade, para estarmos à altura dos nossos verdugos.

Falta de vergonha

Francisco José Viegas toca num ponto essencial: «as pessoas “já não se envergonham” de dizer que não lêem livros.» O mesmo é dizer que as pessoas já não se envergonham de não lerem livros.

Na emancipação do povo português houve este equívoco fatal: as pessoas acharam que a grande vitória era perderem a vergonha da sua condição — quando a grande vitória deveria ser terem ultrapassado a sua condição.

É verdade que em momento nenhum da História deveria ter havido razões para que alguém sentisse vergonha das suas origens humildes. Mas, do mesmo modo que as pessoas procuraram vencer a pobreza enriquecendo, do mesmo modo que ninguém hoje se orgulha de ser pobre mesmo quando tem o azar de o ser, ninguém devia sentir orgulho de não ler. Sai-se de uma situação de carência estrutural suprimindo essa carência, não passando a decretá-la virtuosa. A incompetência do país vive também deste equívoco.

A questão é esta: em tantos casos, mais do que terem perdido a vergonha de não lerem, as pessoas sentem um orgulho revanchista nessa sua recusa dos livros. Como se os livros e a leitura fossem caprichos das antigas classes opressoras e a libertação só ficasse completa com a sua abolição. Muitos destes revanchistas, mais ou menos conscientes do seu jacobinismo desajustado e patético, ocuparam cargos ou conquistaram notoriedade, granjearam influência. Uma grande parte da nossa classe política, da classe política que tem desgovernado o país nas últimas décadas, é constituída por arrivistas destes.
Quem julga que os livros são um problema de editoras e gente ociosa é já um produto desta emancipação falhada. E há demasiada gente com responsabilidades a julgá-lo.

Não direi, para dialogar com a metáfora final do texto de Viegas, que «os bárbaros» já entraram na cidade, mas estamos certamente sitiados pelo glamour da indigência. Armemos as pessoas de vergonha.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rodrigues dos Santos* ou uma coboiada?

«Se as pessoas vão gastar dinheiro num livro têm de ter a garantia de que gostarão de o ler.» [diz José Rodrigues dos Santos, insinuando sem qualquer subtileza que as pessoas compram os seus livros porque garantidamente vão gostar. E decerto tem razão.]
Do mesmo modo que sou com demasiada frequência um consumidor de (mau) entretenimento cinematográfico, não me repugnaria, se tivesse o tempo e a vontade, ler um livro de José Rodrigues do Santos. Não tenho contra o entretenimento nada além do remorso de saber que poderia quase sempre utilizar melhor o tempo.
Se nunca senti esse impulso é porque se perde mais tempo com um (mau) livro do que com um (mau) filme e porque o entertainer das letras faz questão de me repelir. Uma coisa é sentirmos a nossa inteligência insultada nas duas horas de um blockbuster para lerdos (passe o pleonasmo), outra é sermos injuriados pelo realizador à entrada do cinema e mesmo assim entrarmos. Há limites.
As entrevistas a escritores, tal como as recensões, são o átrio dos livros. Ali decidimos se compramos ou não o bilhete para a leitura. O que Rodrigues dos Santos nos diz nas suas entrevistas é que, se não formos estúpidos que chegue para o admirar incondicionalmente, não devemos comprar um livro seu. Ora, isso já nós sabemos, mas, tal como no cinema, se não no-lo lembrarem, não é raro que o compremos à mesma.
Na mais recente edição do Jornal de Letras o escritor insiste no argumento habitual: a garantia da qualidade da sua obra é dada pela quantidade de exemplares vendidos. E, como de costume, essa vanglória, que Toni Carreira, um génio da música, usa com mais modéstia e discrição, não lhe chega. Alegando que a crítica o renega por não ser um “autor da linguagem”, acaba, na sua suprema vaidade, a qualificar de ineptos os “autores da linguagem” e na prática qualquer autor e qualquer género literário que não o seu. Por extensão, qualifica também de néscio todo o leitor que ouse apreciar livros diferentes dos que ele escreve.
Ora, que os seus leitores não se sintam insultados por isto significa que de facto só o lêem a ele (e não podem portanto ser garantia de qualidade, por falta de termo de comparação) ou que não têm amor-próprio (dificilmente tendo, pois, espírito crítico). (A hipótese de haver quem o leia descomplexadamente e se estar apenas nas tintas para a boçalidade que ele debita nas entrevistas não é para aqui chamada.)
Eu, que gostaria de ler mais um ou dois autores diferentes do José sem ser insultado por isso e que alimento a esperança de ter ainda um pouco de amor-próprio, decido, não exactamente sentir-me insultado de cada vez que o homem dá uma entrevista, mas sentir-me dispensado de o ler. E a seguir até vejo uma coboiada com menos remorsos.

* O autor é facultativo. Pode ler-se este texto substituindo o nome por Miguel Sousa Tavares ou mesmo Margarida Rebelo Pinto — Portugal é pródigo em autores que por despeito negam direito de cidade ao resto dos escribas.

As jotas

Uma parte da geração de direita que está hoje no poder ou o orbita teve formação intelectual. Não aderiu a um partido apenas como quem adere a um clube de futebol (embora muitas vezes aja como se o tivesse feito): casuisticamente, por inércia, seguidismo ou tradição familiar. Tratou de encontrar leituras filosóficas e políticas que fundamentassem a sua escolha ou inclinação natural.
Em muitos casos, deve dizer-se, a procura literária visou apaziguar a suspeita instintiva e embaraçosa de que há algo de errado com o privilégio que se tem ou ambiciona. O método consiste em soterrar a dúvida, o mal-estar, o escrúpulo ou o remorso com umas dezenas de volumes e autores. Ao fim de uma curta biblioteca, fica-se apto a considerar um bem universal a existência de ricos e classes favorecidas. Faz-se até equivaler o pragmatismo capitalista (que opera no pressuposto de que o homem é ambicioso por natureza e isso é inelutável) a uma legitimação das castas.
Alguns dos que percorreram com empenho a biblioteca acreditam genuinamente nela e desejam mesmo, com sinceridade e bons sentimentos, que ela funcione para o bem geral. Outros frequentaram-na apenas o suficiente para obterem o seu alibi. Se o ideário direitista se revelar um logro, tanto pior para a classe média, desde que eles o possam continuar a apresentar como bibliografia recomendada.

As jotas partidárias, contudo, funcionam numa lógica ainda mais mesquinha, mesmo quando se servem — geralmente em segunda mão — da mesma biblioteca. É por isso que a JS se pode equivaler, não só operacionalmente, à JSD e à JP: pela lógica da seita que acomoda os movimentos, as estratégias, as tácticas e os objectivos dos grupos. Aqui já não se trata de grupos ou classes socais tomados intemporal e universalmente, mas de um conjunto delimitado e identificado de elementos que se visa proteger e favorecer. A equivalência entre as jotas e as claques de futebol, no estilo, nos valores e nos métodos, não é fútil.

Quando Hugo Soares e os cinco anónimos deputados da JSD propõem um referendo sobre a co-adopção não estão a tentar ser irreverentes e ousados de uma forma moderna (na sociedade actual, o conservadorismo é mais irreverente do que o esquerdismo clássico e por isso alguns o adoptaram) — estão a ser solidários e a agir em articulação com os seus irmãos jotas hoje no poder. É uma espécie de maçonaria ou Opus Dei, ainda que sem transversalidade partidária, com circunscrição clubística. Os seus elementos devem mais lealdade à seita do que ao partido, e muito mais do que à sociedade.

Que a recusa da co-adopção seja também uma das bandeiras conservadoras é apenas uma coincidência feliz. O mais importante era a manobra dilatória — e captar as atenções, obter protagonismo. Os valores ou princípios são instrumentos, caprichos, ferramentas levantadas mais ou menos ao acaso do armário disponível na sede partidária. Exceptuando um punhado de idealistas geralmente sem expressão, os jotas apenas visam obter poder e privilégios dentro do sistema, contra o resto da comunidade — esta é a triste realidade.  

domingo, 19 de janeiro de 2014

1. JSD

Nos dias que correm custa-me citar alguém de direita, mas a carta de Carlos Reis dos Santos, ex-dirigente da JSD, no Público merece ser lida. Talvez sair da juventude partidária e, enfim, crescer torne as pessoas melhores, mesmo as da JSD. Enquanto Hugo Soares, a anémona do momento, não tiver cumprido o seu processo de crescimento (se algum dia o tiver), só podemos lamentar que os calduços do veterano Carlos Santos não tenham sido dados fisicamente na pessoa do imberbe deputado e com a violência, digamos, de uma praxe extrema do Colégio Militar, para invocar uma instituição do agrado da seita.

2. Democracia

Mas chamei para aqui o artigo de Carlos Reis do Santos (referido no post anterior) para destacar isto:

3. Da necessidade do carácter e das lições de história

Já esta noite tinha lido outra frase fundamental, que diz mais ou menos isto: a democracia não é sobre o poder das maiorias, mas sobre a protecção das minorias.

Convinha que os eleitos democraticamente, da câmara municipal ao governo da nação, tivessem o carácter, a grandeza (e umas quantas lições de história) para compreender isto.