O José Mário Silva diz na sua página de Facebook que «a edição desta semana do 'Actual' é capaz de dar polémica», e acrescenta um link para um post do blogue Bibliotecário de Babel que, dá para perceber, lista os temas da secção de livros do dito suplemento. O problema é que chegamos ao blogue e deparamo-nos com um artigo sobre Viagra.
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
sábado, 12 de outubro de 2013
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Tontarias
Como posso aspirar a tornar-me um escritor respeitável se ultimamente etiqueto a
maioria dos meus posts como
«tontarias»?
Entusiamo
O corrector ortográfico do meu Word não está acertado pelo Acordo
Ortográfico — está acertado pelo Mia Couto. Quero escrever «entusiasmo» e
sai-me «entusiamo», com uma estratégica elisão do segundo «s». Aos outros
desacertos o corrector reage sublinhando-os a vermelho. Este deixa-o
laconicamente sem marca, esperando que eu dê pelo caso e sobre ele pondere
etimologicamente.
«Entusiamo» será assim a fusão de dois termos: «entusiasmo» e «amo».
«Amo com entusiasmo», quer certamente o corrector que eu conclua, com romântico
exacerbamento.
Moldando o entusiasmo
Senti um entusiasmo inadequado e embaraçoso ao ler que Pedro Mexia escolheria Javier Marias como um dos seus dois favoritos para o Nobel deste ano. O entusiasmo foi inadequado porque o senti de um modo
pessoal, como se fosse eu o nomeado. E foi embaraçoso porque pueril, ou melhor,
servilmente penhorado. Não que sonhe ombrear com Mexia em cultura e sabedoria literárias,
mas escusava de ter acessos de entusiasmo tão obnóxios, tão avassalados por uma
lisonja dirigida a um objecto de estima mútua.
Compreendo porém o meu próprio entusiasmo. Não tendo lido muitos
títulos de Marias, entre as leituras que fiz estão os três volumes de O Teu Rosto Amanhã, uma obra que só por
si vale um Nobel. E a minha satisfação com essa magna leitura tem equivalência em
grau à perplexidade de ver os anos passar sem que a tradução portuguesa seja
retomada (a Dom Quixote editou o primeiro volume em 2005 e ficou-se por ali).
A relativa ignorância a que obra de Marias é votada em Portugal concede-lhe
aos meus olhos (ou aos olhos do meu entusiasmo) uma certa aura de autor de
culto. A simpatia pela obra e a sensação de injustiça traduzem-se numa identificação
com as suas tribulações e os seus sucessos. Admiração semelhante de outros é sentimento
de união, irmana.
Por isso, se o meu entusiasmo não fosse tão voluntarista, perante a referência
de Mexia a Marias ter-se-ia manifestado mais dignamente na forma de mero regozijo
pelo reconhecimento de um igual. Se as minhas emoções se dessem ao trabalho de
se intelectualizarem um pouco, a nomeação de Javier Marias por Mexia seria
recebida, adequadamente, com um entusiasmo
de classe, de membro de um clube restrito, exclusivo, reagindo ao nome do
escritor como ao santo-e-senha do clube. Talvez permitindo-se (o entusiasmo) um
sorriso irónico e levar dois dedos ritualizados ao Borsalino.
Mas temo que se derem o Nobel a Javier Marias, Pedro, o meu entusiasmo celebre
plebeiamente dedicando aos editores portugueses um daqueles gestos revanchistas
de jogador de futebol.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
José Rodrigues dos Santos ou Educação para a modéstia
Educado para a modéstia (a soberba descobri-a por mim mesmo mais tarde,
junto com a ironia), fascina-me a forma despudorada como José Rodrigues dos
Santos fala dos seus próprios livros. No meu quadro educacional, e se descontarmos
as conversas de balneário, a hipérbole reservava-se para os feitos dos outros,
se tínhamos a generosidade de os admirar; os nossos tratávamo-los com reserva,
rubor e olhos baixos. Por isso, quando leio entrevistas do autor de A Mão do Diabo — presumindo sempre que
são registadas fora dos locais onde tradicionalmente os rapazes cotejam as suas
galgas —, uma parte antiquada de mim pensa que ele está a falar de livros
escritos por outros. Depois lembro-me de certas teorias da conspiração, que
metem cálculos de tempo e ghost writers,
e por instantes dou-lhes crédito: se
calhar está. E assim se compreenderia a enfatuação.
Mas se considerarmos que o entusiasmo de Rodrigues do Santos não
resulta de ele se distrair e involuntariamente revelar o seu apreço pelo
trabalho dos colaboradores (o que até seria bonito); se considerarmos que ele
escreve os seus próprios livros, todos eles, temos então de perceber se a sua
arrogância tem a legitimidade da de um Mourinho, por exemplo.
No caso do futebol, estamos dispostos a engolir a bazófia de Mourinho
se depois ele ganhar os jogos e conquistar os títulos. Podemos achá-lo um
parvalhão emproado, mas é um parvalhão emproado que no fim leva a taça e
milhões de euros.
Deste ponto de vista, e embora custe equiparar a literatura a um campeonato
de gajos depilados em calças curtas, Rodrigues do Santos está também autorizado
a ser um parvalhão emproado — afinal, a sua equipa ganha fortunas e tem já uma
série de internacionalizações. E se não conquista as taças literárias é porque
elas, anacronicamente, ainda são atribuídas por críticos e júris, não pelo
terceiro anel da Luz. (Eis algo que urge alterar.)
Claro que se pode dizer que José não tem um jogo bonito, o seu futebol
é tosco, ganha muitos jogos recorrendo à mão
de Deus, para baixo todos os santos ajudam, etc., mas no fim do mês lá está
ele nos tops e as suas filas para
autógrafos, di-lo ele mesmo, dobram esquinas.
Os historiadores do futebol podem argumentar que houve noutras épocas
treinadores melhores do que Mourinho e talvez a contabilidade de títulos ainda
nem lhe seja inequivocamente favorável, não sei, mas isso importa pouco aos
adeptos actuais se ele continuar a vencer. O mesmo se passa com os rodriguinhos
de dos Santos: críticos e historiadores (como Rui Bebiano, neste post) podem defender, com razões de sobra, que a entrevista
do escritor ao I no sábado foi um «vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil», mas a sua massa
associativa (e mesmo hooligans de
outros ramos) continuará a dedicar-lhe olas e cânticos épicos.
Para além disso, na mesma entrevista de sábado e antes que a História
se pusesse com coisas, Rodrigues dos Santos tratou de a arrumar num só
parágrafo. Falando de Equador como
espécie de profeta que anunciou os seus livros messiânicos, o jornalista disse:
«Demonstrou várias coisas. Que os portugueses tinham disposição para ler um
autor português, o que até aí era como o cinema português, de que se fugia. (…)
Porque não entendiam, o que era escrito, é a terrível verdade. Os nossos
autores eram ilegíveis.»
Diria que nem Mourinho seria farofeiro o suficiente para defender que
antes dele não havia futebol, mas talvez Rodrigues dos Santos tenha evocado na sua mente o panteão das letras portuguesas e
concluído melancolicamente que não tinha de facto razões para humildade.
Espantou-me, por isso, que noutra passagem da entrevista ele
concedesse, acerca de diferentes atitudes literárias, que «umas são tão válidas
como as outras». Havia, afinal, uma reserva de modéstia no bravo best-seller. Ou então ocorreu-lhe que
também ele poderia um dia querer levar «duas páginas a descrever um armário»,
como o sádico James Joyce em Ulysses,
e mais valia sancionar preventivamente o recurso. Just for the record.
Ou será que temia incomodar uma importante facção dos seus leitores censurando
o «exercício de masoquismo» que disse ser ler o calhamaço de Joyce?
Além disso, depois de Dan Brown, o seu catavento literário pode muito bem
estar a sintonizar-se nas cinquenta sombras sadomasoquistas de E. L. James. Rodrigues
dos Santos tendo prazer a infligir sofrimento literário? Não é impossível.
sábado, 5 de outubro de 2013
Machetada
Provavelmente — e decerto com particular incidência nas últimas
legislaturas —, sempre houve gente nos governos com alguma incapacidade para
defender os seus currículos. Quer porque eles (os currículos) eram má ficção, quer
porque eram facilmente confundidos com cadastros. Mas no governo de Passos
Coelho isso parece uma especialidade, uma cláusula.
Um tipo põe-se a pensar que, se os lugares de ministro e secretário de estado
(ou assessor) fossem a concurso, Coelho mandaria lavrar anúncio no Diário da República com a alínea: «Dá-se
preferência a quem tenha rabos-de-palha; da sua elisão trata-se a seguir, com
corrector Bic ou Pelikan, depende de quem patrocinar.»
Os currículos de Gaspar e Santos Pereira, bons rapazes e sem mácula no carácter,
pertenciam ao lote da ficção, poderiam ter sido escritos por José Rodrigues dos
Santos num dia inspirado. O de Relvas também, mas acumulava vilanias. Agora, a
ministra das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros são o topo hierárquico de
uma lista de governantes cujos currículos os habilitam com distinção ao governo
passista mas logo depois têm de passar pela lavandaria para serem apresentáveis
ao resto do país.
Desde Junho de 2011 há um campeonato para ver quem mente-mais-e-pior e,
em simultâneo, tem o raio-de-uma-lata. Os melhores nestas duas disciplinas
mantêm-se no governo ad nauseam, até
aparecerem cartazes no tour de França
e na Estação Espacial Internacional. Só saem quando a sua reputação não se distingue
da lama onde nadam.
«Machete: s. m. sabre de artilheiro com dois gumes, faca de mato, viola pequena, cavaquinho.»
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
A fé nunca morre
No Blasfémias aproveitaram o rescaldo das eleições para verter mais cera na hagiografia de Vítor Gaspar (1 e 2). Já se sabe, os santos morrem para que a fé possa sobreviver.
sábado, 28 de setembro de 2013
O civismo e a caça ao Raposo
«O civismo não nasce no coração dos homens e não está na genética de um povo. O civismo nasce na espada que protege a lei.» (Henrique Raposo, in "Uma cidade sem cães, s.f.f.", Expresso)
Por acaso, até concordo em boa parte com esta frase de Henrique Raposo. Não concordaria que fosse ele a decidir o que é “civismo” — o homúnculo é demasiado reaccionário (não misturar com conservador) e confunde demasiado os seus interesses e os do country club a que aspira ser membro com o interesse geral para que o deixemos ditar unilateralmente leis para a urbe. Como ele desejaria.
Raposo utilizou a frase num artigo onde revelou a sua utopia («pessoal,
intransmissível e impraticável», concedamos-lhe) de cidades sem cães. Eu, por exemplo, também tenho utopias
semelhantes, entre as quais as de cidades sem crianças. Parafraseando Henry Fox
(ele há-de gostar da versão british
do nome, não?, no seu fato de riscado e tudo), cidades onde um sujeito pode
estar no parque sem ser interrompido por um puto a rosnar, cidades onde um
sujeito não tem de aturar a petulância dos pais, ai, esteja descansado que ele (o
puto) não morde, nem lhe berra aos ouvidos, nem desperta em si o instinto
assassino da espécie.
Outra das utopias que tenho é a de cidades onde os fumadores não são
excepções e são decapitados de cada vez que deitam com o maior desplante a
beata ao chão, a enterram na areia da praia ou despejam os cinzeiros dos carros
nas bermas das estradas. Mas a maior e mais utópica utopia que tenho é a de
cidades sem teenagers e
universitários aos berros símios pelas ruas, a partirem garrafas e copos como
quem deita a beata por cima do ombro, com a mesma naturalidade dos gestos
comuns e aceites pela civitas, a
mijarem pela cidade inteira como se a humanidade de que com generosidade nossa ainda
os deixamos fazer parte não tivesse inventado a retrete e o recato da retrete,
a mijarem-me a porta do prédio com o mesmo à-vontade e conversas imbecis e
desprezo que têm nos balneários da escola pública que tanto custou a instituir
e que eles não merecem nem em bebés.
Os cães de Raposo são um problema na cidade, evidentemente. Há falta de
civismo por parte da uma grande parte dos donos de bichos (que, menos mal, já
não põem as suas crianças a cagar no espaço público, embora ainda as ponham a
mijar ali com irritante frequência). Há um desprezo egoísta desses mesmos donos
pelas pessoas que não simpatizam ou mesmo têm pavor dos bichos que para mim até
são geralmente amorosos. A trela ou o açaimo não são imposições da Inquisição,
são formas sensatas de procurar o equilíbrio entre quem quer passear os seus
bichos e quem a eles tem aversão ou medo. (Ainda que, se pegássemos nas ideias
neoliberais para a humanidade e as aplicássemos aos canídeos, devêssemos na
verdade soltar todos os animais da terra e deixá-los, como os rafeiros do Lemon
Brothers, competir livre e selvaticamente pelo território, pelo mercado, pelas
canelas do Raposo.)
Voltando à frase de abertura (até porque tenho de ir trabalhar, o Expresso não paga os meus devaneios), o
civismo não nasce, de facto, «no coração dos homens e não está na genética de
um povo». Não de todos os homens, não
por certo de todo o povo. O próprio Estado
de Direito é uma aberração histórica que apenas foi possível implantar porque
houve um tempo em que homens bons, cultos, inteligentes, intelectuais e, por um
acaso na história da humanidade, sensíveis
e solidários, houve um tempo, dizia, em que este género de homens tinha
acesso ao poder. Hoje, os partidos e os imbecis que lhes permitem a existência,
os mesmos imbecis que amanhã, 29 de Setembro, vão eleger dinossauros, seus delfins
ou siameses, não estão para aturar homens destes.
Não digo que o civismo «nasce na espada que protege a lei», mas em
certas alturas não passa sem ela, ou — vá lá, não sejamos tão raposisticamente medievais
na escolha das metáforas — não passa sem a multa ou o tribunal, versões extremas,
mas por vezes necessárias e ainda civilizadas, da hoje inexistente censura social
a comportamentos egoístas, cretinos e lesivos da liberdade alheia. O Estado de Direito e os seus tribunais são, aliás, o único obstáculo entre mim e o meu desejo selvático de anunciar ao
Bloco ou ao MRPP que a caça ao Raposo é legal durante todo o ano.
Dia de reflexão
1. Muitos acham ridícula a lei que impõe um dia de reflexão antes das eleições. Eu acho ridículo que a lei não imponha 15 dias de reflexão antes das eleições — incluindo o mesmo silêncio e pacatez dos sábados de véspera de urnas.
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Never mind the gap
Na altura, entre a província e a capital havia um gap um pouco maior do que aquele para que avisa intemporalmente a
voz do Metro de Londres. A admiração que a província tinha pela coreógrafa Olga
Roriz, por exemplo, era reflexa. Obediente aos media — no tempo em que os media
gastavam tempo com artistas como a Olga Roriz —, a província remetera-a para a
galeria dos notáveis da nação e tinha-lhe a vaga estima que se dedicava a influentes
estadistas estrangeiros, vivos e mortos, ou mesmo a um ou outro mais distante político
da pátria.
Um dia a coreógrafa trouxe a companhia à província e a província
acorreu engalanada ao recinto. Era a Olga Roriz! Ali chegada, a província não
conseguiu mais do que deixar cair desajeitadamente os queixos. Foi como se
alguém revelasse que afinal a Torre de Belém não era maior do que uma torre de xadrez.
Ou antes, como se fosse anunciado que o Tejo não era um rio, mas um laguito de
águas paradas e rasas. A província embasbacou. O que era aquilo? Que farsa era
aquela? Quem tinha mentido à província?
O problema era que a companhia de dança de Olga Roriz não dançava, não
nos termos em que a província se tinha habituado a imaginar a dança. Pensava-se
no folclore, no ballet ou no Fame e
nada daquilo encaixava, não sem grandes esforços da imaginação.
(O mito Pina Bausch durou porque a alemã teve o bom senso de não sair
de Lisboa sempre que veio a Portugal. E de morrer entretanto.)
Mas felizmente o desacerto entre a província e a capital foi já
bastante ultrapassado. Tirando uma ou outra distracção do jornal de Belmiro, os
media passaram basicamente a ignorar tanto
Roriz como Bausch e, muito adequadamente, inauguraram-se feiras e piqueniques
na Praça do Comércio. Suponho que a província esteja assaz satisfeita com a
aproximação que a capital lhe fez. Mas o melhor é que hoje já ninguém é
enganado, já não se fazem notáveis que não sejam transparentes à mais desarmada
vista e apresentáveis em qualquer romaria, de Unhais da Serra à TVI.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Time Out
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Deus não é um ET, bolas
Num questionário qualquer (sim, esse que no final faz de todos nós
nórdicos) fui confrontado com a questão de acreditar ou não em Deus. A pergunta,
com certa crueldade, não permitia nuances ou agnosticismos, não deixava espaço
para o conforto da neutralidade ou do adiamento. A reposta tinha de ser «sim»
ou «não». Acreditas ou não acreditas,
perguntei a mim mesmo, sentindo-me encurralado, confrontado, obrigado a
decidir-me. Disse que não, porque tudo à minha volta e dentro do meu cérebro
grita «não». Mas a dúvida permaneceu. Talvez por medo, medo católico de que os meus
modestos pecados mereçam ainda assim as chamas do Inferno. Talvez por uma
cautela de inspiração pascaliana. Certamente pela vergonha instintiva de me
mostrar crente num mundo pragmático. Respondi negativamente lamentando que não
houvesse a opção «não sabe/não responde» disponível em inquéritos mais
sensatos.
Entretanto vi um post a
informar que «Luzes no céu voltaram a ser observadas de Norte a Sul de Portugal»
e o meu coração acelerou, a minha alma excitou-se. Não como acontece aos peregrinos
que, a caminho de Fátima, desatam a cantar «a 13 de Maio…» sempre que à noite
os sobrevoam as luzes do helicóptero do INEM transportando mais uma vítima da
sua própria promessa. O post era do site
UFO Portugal e parece que as luzes não
eram balões de LEDs.
Suponho que um bispo da IURD me perguntaria o que há de errado em mim,
um tipo devidamente crismado que rejubila mais com notícias de nerds do que com as boas novas do Velho
Testamento. E alguma coisa deve haver, claro. A possibilidade de testemunhar um
milagre religioso deixa-me indiferente ou atento aos sinais de fraude,
disponível para rir e derramar paternalismo. A hipótese de um avistamento
extraterrestre, pelo contrário, põe-me a olhar discretamente os céus, a sonhar
com encontros imediatos, a correr para o clube de vídeo para alugar de novo Contacto. Embora não desaproveite a
oportunidade para rir e derramar paternalismo (nunca se deve perder uma).
Encontrar Deus é o susto de me ver desmascarado na minha hipocrisia, no
meu cinismo, na minha pusilanimidade, nos meus vícios. Encontrar um ET é tocar o
verdadeiro Mistério. Jamais senti uma epifania ou qualquer tipo de excitação da
alma ou do intelecto nos meus contactos com a Bíblia; mas senti-me inquietante
e maravilhosamente próximo do Inefável quando li Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke.
Suponho que isto diga também qualquer coisa sobre as tão propaladas virtudes
literárias da Bíblia, faça dos evangelistas autores menores, se comparados
com Isaac Azimov ou Philip K. Dick. Imagino que as coisas poderiam ser
diferentes se Marcos, Mateus, Lucas e João tivessem sabido deixar o rosto do
Senhor desconhecido, em vez de fazerem do simples acto de nos vermos ao espelho
um spoiler. Se tivessem inventado um 13.º
apóstolo tão fugaz e perturbante quanto o 8.º passageiro. Se, eles e os seus
continuadores, tivessem conseguido fazer uma narrativa menos autobiográfica,
recalcada e catártica (logo, amadora). E, claro, se não tivessem assinado os seus livros com nomes
de cantores pimba brasileiros.
sábado, 21 de setembro de 2013
Talvez divirta
Quem estiver interessado em acompanhar a saga do meu romancezinho pode fazer amizade no Facebook com o protagonista Lúcio (www.facebook.com/luciopeixao) ou clicar "Gosto" na página www.facebook.com/osidiotaslivro. Não custa nada, é útil e talvez divirta. Veja-se, por exemplo, a carta que Lúcio escreveu aos jornalistas:
«NOTÍCIA DE UM SEQUESTRO
O meu nome é Lúcio Peixe e fui sequestrado. Há uns meses enviei, sob pseudónimo, um manuscrito autobiográfico para a editora O Lado Esquerdo. Disseram-me que tinham gostado muito da obra, sobretudo pela sua tocante sinceridade, e gostariam de a publicar. Convocaram-me para um encontro onde acordaríamos os detalhes da edição. Na verdade, mal entrei nas instalações da editora, um dos raros edifícios no Alentejo com cave, bateram-me com um cão de louça na nuca e puseram-me a dormir por 48 horas. Quando acordei, estava amarrado a uma cadeira de vime, parece que produto do artesanato local, e com o verbo impedido por duas voltas de fita-adesiva castanha, da que se usa para embrulhos.
De lá para cá, conseguiram subtrair-me a password de acesso ao meu perfil do Facebook e têm-se feito passar por mim. O que pretendem exactamente não sei. Mas avançaram para a edição do livro com bizarras alterações factuais. Do autor, eu mesmo, fizeram apenas personagem da obra. O meu pseudónimo, “Rui Ângelo Araújo”, esse vitupério que em má hora resolvi inventar, surge agora como pessoa real, com um sorriso imbecil na badana que pede mesmo que o encham de alcatrão e penas, à boa maneira do farwest.
Achariam a história demasiado inverosímil para a apresentar como autobiografia? Podiam tê-lo dito, que eu tentaria adaptá-la ainda mais à realidade.
Tenho sido alimentado, felizmente, mas confesso que já estou farto de açorda e sopa de tomate. Em relação aos coentros, então, sinto uma fúria verdadeiramente pesticida.
Preciso de ajuda. Nas minhas idas à casa de banho tenho conseguido passar umas mensagens, mas os idiotas que a elas têm acesso não fazem mais do que publicá-las no Facebook, como se isso resolvesse algum problema na vida real. Na minha vida real.
Escrevo-vos porque, no debate que opõe o jornalismo clássico às novas tecnologias da comunicação, estou do vosso lado, do lado dos bons e velhos jornalistas um pouco obesos e alcoólicos. Se há uma esperança de a verdade vir ao de cima (e ser amplamente difundida) nesta crise despoletada pela edição do famigerado “romance” Os Idiotas, ela passa pelas redacções. Por favor desmascarem a cabala em que me envolveram. Ajam antes que Os Idiotas seja um bestseller pelas razões erradas: aquilo é um drama biográfico, não uma comédia ficcionada! (E muito menos uma pílula da felicidade, como já ouvi que iam anunciar. Ou um manual autárquico.)
Façam qualquer coisa em favor do livro e, já agora, chamem a merda da polícia, que já tenho as costas marcadas com um padrão de artesanato mediterrânico que não combina nada bem com a minha índole. Socorro, portanto.
Sinceramente vosso,
Lúcio Peixe
Informações úteis para a Judiciária:
www.osidiotas.pt
www.facebook.com/osidiotaslivro
http://www.revistadevinhos.pt/»
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
3* - O fim do romance
No que se refere ao romance em geral, há ainda quem vá mais longe e
vaticine a sua morte. Para já, que eu saiba, apenas um ou outro escritor
geronte (Roth), um ou outro guru das novas tendências ou tecnologias. No
primeiro caso é talvez uma questão de ego ou de mágoa: comigo morre o mundo ou o
mundo que me sobrevive nada terá que valha. No segundo caso é só uma
questão de patetice, infelizmente com o flanco coberto pelos media mais populares. Mas, de novo, há
que ter em conta a indústria e a televisão. O fim do romance pode tornar-se uma
militância, rapidamente apoiada pela matilha popular. Do mesmo modo que o fim da poesia
foi há poucos anos decretado por alguém com meios para o ajudar a tornar-se
realidade (um responsável da Porto Editora), a literatura que não inclua
vampiros, bruxos ou látex pode ver-se reduzida a samizdat de 300 exemplares
enquanto o Diabo (de Rodrigues dos Santos) esfrega um olho.
No mundo literário, importa não ignorar as diferenças — mas talvez convenha relativizá-las.
* Considerando que os posts anteriores foram os números 1 e 2 da série.
2* - Inimigos da literatura
Não é incomum as pessoas medirem o mundo pela sua própria bitola, também
se se trata do mundo o literário. Quando os escritores se arregimentam numa
escola, fazem-no quase sempre como se houvesse uma guerra e eles estivessem
numa trincheira. Fora do buraco que cavaram para si próprios, tudo deve ser
aniquilado, nada merece existência. Na versão benévola, tudo fora da trincheira
é medíocre ou inútil.
É bom que a espaços haja destes belicismos. Do confronto é que surgem
as coisas boas e novas. Almada estava provavelmente a exagerar no Manifesto Anti-Dantas,
mas foi bom que o escrevesse.
Mas passados os ardores da juventude e vencido o complexo de Édipo, é
um pouco estúpido permanecer entrincheirado.
A diversidade não deveria ser um termo restrito à ecologia.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
O romance convencional (Liberdade x A Piada Infinita)
Pessoa amiga conta-me que lhe ofereceram recentemente os romances Liberdade (de Jonathan Franzen) e A Piada Infinita (de David Foster
Wallace). Percebe-se a escolha: de forma mais ou menos assumida ou por
interpostos críticos, ambos os autores (e ambos os livros) foram candidatos à
categoria recorrente de o (novo) grande
romance americano. Quando a feliz aniversariante mostrou os presentes a um
outro amigo, ele teve uma compreensível reacção idiossincrática: «Lê muito a Piada; queimamos já aqui o Liberdade.»
É certo que Franzen competiria melhor com Wallace se o livro escolhido
fosse Correcções. Ou antes:
competiria um pouco mais no mesmo terreno de Wallace se o livro considerado
fosse este último. Contudo, Liberdade
continua a ser um grande livro, ainda que mais convencional.
Há várias razões para não se gostar de Franzen, e ser “mais convencional”
parece ser uma delas.
Um post de Nuno Costa Santos,
por exemplo, defende que «o romance convencional já não chega lá». E já não
chega lá porquê? Porque «não basta a historinhazinha, a trama branda, as
personagens bem desenhadas mas sem fogo». Porque «a realidade, contraditória e
conflituosa, está a reivindicar atenção». Porque «é necessário assumir o quase
sempre evitado "eu" — um "eu" que não é o ego tout court, é
um jogo literário arriscado entre a vida e a ficção».
Pelo meu lado, julgo excessivo presumir-se que o romance convencional
se define daquela maneira. Talvez aquilo defina um romance fraco, mas não exactamente um romance convencional. O romance
convencional terá uma história, uma trama, personagens bem desenhadas — os
diminutivos paternalistas e os qualificativos pejorativos excedem a definição.
Por outro lado, não seria descabida generosidade considerar que o romance convencional
tem tido os seus momentos de aggiornamento,
de sábia atenção à «realidade, contraditória e conflituosa», e de assumpção do
«eu».
Creio que Costa Santos, como se depreende do resto do seu texto, queria
na verdade dizer que, em sua opinião, o romance convencional não tem sabido chegar lá. Ou mesmo que o romance
convencional já não tem forma de chegar lá.
E aqui talvez entremos no domínio do estilo e das preferências.
Por ter crescido num tempo e num canto de Trás-os-Montes onde não havia tutores nem
escolas literárias ou figuras de referência, tornei-me, julgo que felizmente sem traumas,
num tipo ecléctico no que se refere a géneros e estilos. Ou talvez apenas
descomplexadamente generoso no que toca a leituras. A verdade é que se rejeito por
vezes certos livros não é porque os ache necessariamente maus. É apenas porque
estão desacertados comigo (ou, geralmente, eu com eles).
Tendo-me divertido mais com A
Piada Infinita e tendo sido mais estimulado por Wallace, não vejo contudo razões
para desconsiderar Liberdade ou temer
que o “romance convencional” já não sirva.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Praxe
Comentário de um paisano sobre a praxe ali perto: «Ainda nem os
deixaram ir ver a universidade e já os estão a foder.»
Ou de como a sageza popular é suficiente para deitar por terra qualquer
treta hipócrita sobre a praxe enquanto forma de introduzir os novos alunos na
vida universitária, de os guiar pelo campus, de os integrar na comunidade
académica.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Os Idiotas
O livro mais tonto e sagaz do ano (é assim paradoxal e humilde) lança-se hoje oficialmente na Sociedade Recreativa e Filarmónica 1.º de Janeiro, em Castro Verde. É um pulinho e há jantar.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Esperança
Leio que a «mensagem» de Índice Médio da Felicidade «é de esperança, associada ao amor aos outros e à solidariedade» e concluo que foi má ideia ter faltado às aulas de escrita criativa.
domingo, 8 de setembro de 2013
A literatura ou a vida
Há muitos anos, no secundário, acordei de um sono profundo a meio de
uma aula quando me encontrei com a Ode Triunfal. Tinha passado de batucar indolentemente
com os dedos na mesa a folhear com eles o livro do colega de carteira, como se
passando as páginas conseguisse fazer passar os minutos, os longos minutos que
demorava a passar a aula de Português.
Depois do longínquo ronronar das coisas abstractas, cuja anatomia indistinta
era dissecada na mesa de um jargão técnico estéril e cuja relação com a vida
neste planeta eu não lobrigava, o livro estava a oferecer-me um texto que
ligava as palavras a sensações, que descrevia com assinalável verosimilhança o
mundo e o relacionava com emoções que eu era capaz de identificar.
Havia uma discrepância entre o que eu estava a ler e o que tinham sido as
aulas de Português até àquele momento, fastidiosos lapsos de tempo onde, sem
que eu tivesse como o perceber (e de qualquer modo os professores, eles mesmos,
não o percebiam), o ensino da literatura se fazia distinto, quase antagónico,
da literatura. Imaginei que aquela ode de Álvaro de Campos seria um dos textos
que não iríamos abordar na aula,
porque tudo o que abordávamos na aula era chato e colossalmente destituído de
humanidade. Senti-me transgressor. A insuflar a alma de uma coisa que não era
grosseira, amarelada e, para mal das alergias, carregada de pó como velhos
in-fólios. (Anos mais tarde concluiria com naturalidade que o que me condenava
ao sono ou ao tédio não eram os textos, mas quem os ensinava e a forma como
eles eram ensinados.)
Creio que vem desse momento epifânico a minha aversão a romances que
tenham como protagonistas escritores em pleno exercício do ofício, que sejam
estudos psicológicos, existencialistas ou pós-modernos de escritores ou de leitores,
bibliotecários, editores, a minha aversão a romances que sequer ambientem vagamente
os enredos no métier literário, que
procurem piscar o olho ao leitor geek, profissional, ou que pura e simplesmente desconheçam a vida para lá da literatura. Há
bastantes destes livros, os escritores tendem a ser umbiguistas e a literatura de
alguns deles, com a conivência ou o deslumbramento de editores igualmente
autocentrados, francamente tautológica.
Receio sempre que os autores de obras assim sejam como os meus professores
do secundário, gente que tuteia a literatura mas a esvazia de vida. Salvo
excepções, quando quero ler sobre vidas de escritores ou sobre o escritor no
seu labirinto, procuro biografias, entrevistas, ensaios próprios ou de
terceiros. Dos romances, da literatura, espero que tratem da vida, até mesmo da
vidinha. Do roncar das máquinas aos «escrocs exageradamente bem vestidos».
*Este post cita de cor e dando-se
muita liberdade um texto que escrevi há talvez década e meia e foi espoletado,
o post, pela admirável versão da Ode
Triunfal que a Maria Filomena publicou no seu Ferramentas e Espelhos.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Quem são os idiotas (ou a pequena comédia humana)
Na senda da campanha alegre que O Lado Esquerdo Editora tem vindo a fazer, perguntam-me por vezes quem são os idiotas do meu livro, não diria que à espera de uma resposta que lhes poupe 12 euros. Julgo que procuram antecipar o gostinho de ver confirmada uma certa imagem do sistema político português, aliás não desmentida pela campanha (a da editora e a outra). O que me parece uma expectativa natural, e por si mesma uma evidência do crédito que o sistema merece. Ou do gosto das pessoas pelo vilipêndio.
O livro não desapontará quem o aborde por este ângulo bicudo e seja paciente. Mas trairia os meus idiotas se não viesse em sua defesa. O autor sente afecto por eles e isto não é síndroma de Estocolmo, mesmo que seja verdade que as personagens de um livro nosso possam sequestrar-nos a alma por tempo indeterminado. Alguns daqueles que venham a ler o romance fá-lo-ão com menor ou (decerto) maior ânimo de encontrar os seus idiotas, figuras grotescas e mal-intencionadas. E encontrá-las-ão. Mas quem sabe não descobrem também os meus idiotas. E, com as subtilezas da semântica, o espelho da rainha da Branca de Neve e a prolixidade que um dicionário de sinónimos pode conter: «O que quer que sejamos, somo-lo por oposição aos cretinos, que são o resto das pessoas.»
Mas depois de passada a campanha (a da editora e a eleitoral), e de vendidos os exemplares suficientes para que O Lado Esquerdo e eu possamos ir de férias deste país, poderemos falar do que mais Os Idiotas tem — ilusões, desapontamentos, frustrações, vícios, precipitações, raivas, equívocos, marginalidade, renúncia e afrontamento, memórias atraiçoadas ou fabricadas — e de como tudo isto, a pequena comédia humana, pode afinal ser divertido e dispor bem.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Notícias d'O Lado Esquerdo: «têm sido vistos cidadãos sorridentes»
«Leitura recomendada pela OPS», diz a editora:
«Apesar da crise que assola o país, têm sido vistos cidadãos sorridentes em algumas cidades portuguesas. Sociólogos que se debruçaram sobre o caso concluíram que, embora se trate de pessoas de diferentes índoles e classes sociais, há um traço que as une: o bom gosto. Estudos mais aprofundados revelaram que aqueles felizardos têm ainda em comum o facto de terem encomendado, possuírem e estarem a ler um mesmo livro: ‘Os Idiotas’. O romance de Rui Ângelo Araújo é, por isso, a partir desta data, uma leitura recomendada pela Ordem Portuguesa dos Sociólogos.
Entretanto, a OPS emitiu um comunicado onde indica, obscuramente, ser este livro também recomendado como manual nas eleições que se aproximam, mas sobre isto não quis adiantar mais informações.»
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Carne para canhão
Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como
afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de
estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de
general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e
o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para
ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo
de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia
de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que
apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas
tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que
punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando
num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à
distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele
bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi
necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos
usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.
Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não
saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga
que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é
que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no
sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos
superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos
Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que
tem de haver milhões de sacrificados.
Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados
na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o
milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos
Coelho, como outros que o precederam, apenas cumpre ordens.
sábado, 31 de agosto de 2013
«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»
Num episódio do Bartoon, a
tira do Público, lê-se: «As pegadas
de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha
feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que
sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que
tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao
admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que
os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a
crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa
também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos
locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates
pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da
conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império
Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»
Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda
fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo,
possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas
falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir
da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e
disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que
não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e
ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara
(chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá
com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado,
que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui,
entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha
querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por
perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por
causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para
esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre
aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em
diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couché
ou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão
anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado
para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda
a gente tem direito a ter um desgosto de amor».
Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num
momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou
estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a
reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das
novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e
um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe
operária?
domingo, 25 de agosto de 2013
Baile copular
A churrasqueira no Verão põe uma esplanada e música em colunas. A música que as colunas debitam é muito obviamente destinada a atrair ouvidos emigrantes, convidando-os a gastar parte das suas economias do ano nuns grelhados à maneira. No entanto, de forma menos óbvia, a música que se ouve não está acertada com o repertório pimba actual, há uma décalage, ou talvez uma nostalgia de quem foi emigrante no seu tempo. A estética dominante é a de Linda de Suza, o nacional cançonetismo da diáspora dos setenta, uma ou outra música tradicional. A emoção em vez do trocadilho e da alusão sexual obsessiva. E isso é quase comovente, quase desclassificamos como foleira a música que da esplanada abaixo da janela vem trazer ao nosso próprio jantar pequeno-burguês memórias de romarias e bailaricos, de quando disfarçávamos de subversão a afinal indisfarçável adesão ao ímpeto bailador, o de colar ao nosso um ritmado corpo feminino, na evocação ou antecâmara dos prazeres sensuais que é na realidade o baile*.
*E, no sentido desta exegese, o slow era a antecâmara do sexo tântrico.
Titanic
Há uma nuvem de fuligem a cobrir tudo, encostas e aldeias. Cinzas
caem do céu. A lua vê-se cor-de-laranja, cor-de-fogo, através deste nevoeiro febril,
lúgubre. Ouvem-se sons de romaria feroz de onde sopra o vento e vem o fumo e
ardem os montes — e algo nisso lembra a orquestra do Titanic.
*Inspirado por C. Chaves
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara ou A curiosidade no processo evolutivo
Depois dos casais vice-versa (registados aqui), temos os casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara.
O seu amor e a sua identificação cumprem-se na forma como se inclinam para as
mesmas curiosidades, soprados pela mesma brisa. Como olham levando a cabeça, o
pescoço e os ombros atrás do olhar. Como parecem atravessar o vidro da montra
que espreitam, esticar a cabeça e o corpo para entrar nas portas dos
estabelecimentos que cruzam sem no entanto abandonar o passeio diletante pelas
ruas da cidade. São a versão transeunte do fab
four homem-elástico, a sua versão casal-em-passeio-nocturno-pós-prandial.
Vemo-los esticar o pescoço para os pratos e os menus de quem ainda come nas
esplanadas que eles cruzam; virar em sincronia aquática as cabeças para a gente
que passa.
Dir-se-ia que a característica que os define e une mais enquanto casal
é a elasticidade, síncrona e por vezes quase frenética, que exibem do torso para cima, mas
há quem defenda que é apenas a curiosidade.
A curiosidade moldando o corpo. Os seus descendentes, se eles legarem também o
gene indiscreto per saecula, serão
como pequenas girafas balanceando na ponta de um longo pescoço uma pequena
cabeça de olhos protuberantes que não perdem pitada da vida na savana.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Considerações sobre o meu nariz
Observa os resultados da TAC e volta a espreitar-me pelas narinas. Pondera.
Consulta o interior das suas próprias pálpebras, com dois sapientes dedos na
têmpora. Tossica e conclui que é conveniente mas não é urgente. Podemos
reavaliar daqui a um ano. Por outro lado, se eu preferir, podemos marcar já. A
operação. Sinusite. Porque se pode aproveitar e fazer a rinoplastia. Estética.
Se estiver interessado, claro.
Talvez se referisse à questão do tamanho, que os subdotados sempre
fingem menosprezar.
Para uma história dos penteados
Uma das coisas mais difíceis de abandonar no final da adolescência é o
penteado. Demoram-se anos, laboriosos anos, a atingir aquele insatisfatório resultado
complexo e quando finalmente nos resignamos a ele chega a tropa ou a idade
adulta, com as suas convenções, embaraços e barbeiros. Alguns adultos em particular,
tendo atingido o estrelato nos anos setenta, quando eram meros pós-adolescentes,
sentiram-se dispensados de fazer a transição capilar. Um pouco por coerência
com a postura irreverente da época, um pouco por receio de ficarem
irreconhecíveis perante os fãs se uma tesoura lhes passeasse sibilando pela
cabeça.
Na verdade, o estatuto de rocker dos setenta, invocado igualmente por
tanto roadie e fã ignoto, apenas serviu como desculpa para não enfrentar no espelho
a angústia e as indagações hamletianas suscitadas por um crânio nu. É certo que
os fãs reconhecem uma cabeleira de 1975 quando vêem uma, mas acontece frequente
e jocosamente perguntarem: «quem diabo é aquele gajo barrigudo debaixo da trufa
do Robert Plant?» Donde os hoje engravatados descendentes do flower power poderiam aprofundar a
exegese e inferir que a força de Sansão não vinha dos seus longos cabelos.
Por mim, nada tenho contra quem decide ser contabilista, agente
funerário ou pai de família das raízes do cabelo para baixo e manter-se dali
para cima nostálgico de certos riffs de guitarra e torsos nus (tenho até
ternura). A minha preocupação é estética. É que muitos destes homens
esquecem-se também da calvície e a certa altura já nem a barriga nem os três raros
embora longos cabelos que lhes restam evocam algo mais do que uma personagem mal
desenhada de Tim Burton.
Por falar nisso, temos de conceder que é ainda mais embaraçoso ser-se
um gajo barrigudo debaixo de um penteado dos anos oitenta. Bem, sempre foi embaraçoso estar-se debaixo de um penteado
dos anos oitenta, mas é um pouco sádico que continuem a esconder isso do Robert
Smith.
Já os Duran Duran seguiram o caminho sensato que a maioria de nós
seguiu logo nos noventa: aparar as pontas de modo que ainda sobrasse uma ideia
do que tinha sido o nosso penteado e, para combater o sentimento de perda, coleccionar
espanadores exóticos e coloridos.quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Espanha ou teclando ao acaso palavras vãs
Agora que a crise nos cortou as asas, visitar Espanha, antes a coisa banal, volta
a ser uma aspiração ambiciosa e cara. Aliás, qualquer viagem, mesmo no
rectângulo ridículo a que chamamos pátria, é uma aspiração ambiciosa e cara.
Sair de casa para um trabalho a mais de vinte quilómetros é caro — e, para um
quinto dos portugueses (and counting,
deixem passar o Verão e o emprego sazonal), uma ambição. Circular no dia-a-dia
dentro da própria cidade onde se vive é caro. Não tarda, concluiremos que ser
cidadão português é caro. Ou apenas ser cidadão. Caro e, evidentemente, uma aspiração
acima das nossas possibilidades. Podemos argumentar que temos cidadania há nove
séculos, mas isso é coisa com que nos iludimos desde o infame, pretensioso, impune e delirante bofetão henriquesiano na nobre mãe.
O que queria dizer, contudo, é que não me incomoda assim
tanto recentrar a ambição viandante em Espanha. O país vizinho é
suficientemente variado no que se refere a arquitectura, tradições, cultura e,
sobretudo, paisagem, natureza e clima para preencher planos de viagem por uns
bons anos. Seria até legítimo suspeitar que a crise é uma invenção espanhola
para que os portugueses descubram o que existe para lá do Bojador de Pontevedra,
Zamora, Badajoz ou Huelva e aquém dos Pirinéus. O Turismo de Portugal pode ser
imune a subornos (duvido, é uma instituição com gestores escolhidos por
partidos portugueses), mas eu não sou. Daí, a chamada de atenção para este post (cada clique, um euro para mim,
cortesia de várias Juntas Hermanas), que li com inveja suficiente para um relatozinho
de viagem que hei-de fazer sobre a estrada que une Trujillo a Placência, partindo
de Mérida e talvez passando por Cuenca (esqueçam a Geografia convencional que
vos impingiram).
Se porventura o relato não acontecer, lembrem-se que não
seria a primeira vez que aqui se prometem textos que não se cumprem. É o que
acontece quando por profilaxia e receita médica um tipo tem de enfrentar as
artroses teclando ao acaso palavras vãs.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
A ler
...os belíssimos textos que a Maria Filomena, amiga e colega no Iniciação ao Tédio, tem publicado naquele nosso blogue colectivo e no seu Ferramentas e Espelhos.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
A perversão secreta de um inspector da ASAE
Não li e, por falta de tempo, não tenciono ler as sequelas d’Os Maias publicadas pelo Expresso (excepto a de Rentes de
Carvalho, por interesse particular). Mas li com um sorrisito a crítica de sábado
de Vasco Pulido Valente. O cronista do Público
até pode ter razão na análise e na substância da sua crítica à iniciativa
estival do semanário de Balsemão, mas tem forçosamente de se lhe notar um ânimo
de virgem ofendida: tocaram no seu Eça e na sua História de Portugal: aqui d’El
Rei!
Desconfio, com suficientes motivos, que VPV escreveria catilinária
semelhante mesmo que os livrinhos do Expresso
fossem todos de inequívoco acerto e interesse.
De resto, quando VPV se mostra tão possessivo em relação a Eça de
Queirós está a cometer o pecado da soberba. Ao contrário do que lhe dizem e ele
na sua ilusão acredita, Valente não é Eça reincarnado. Desde logo porque não há
uma linhagem tibetana do escritor do monóculo que permita reivindicações do
género guru alfacinha. Mas sobretudo porque, ainda que VPV tenha um bom domínio
da língua e da verrina, falta-lhe humor.
Eça não era talvez menos corrosivo e maldoso do que VPV, mas era mais
alegre. Quando embarcava numa prosa demolidora fazia-o com o espírito jovial de
quem sai de casa para se divertir. VPV derrama a sua verve como a agoniada criatura
da série Alien (que derretia muito
metal mas não
parecia nada divertida ao fazê-lo).
A verdade é que onde Eça usava a ironia VPV usa o sarcasmo, ou, como
reza o dicionário, a ironia acerba, amarga, azeda. Quando lemos Eça de Queirós damos
por nós a olhar em volta à procura de quem soltou as gargalhadas que ouvimos (é
o nosso momento, breve, de acreditarmos em encarnações), mas depois percebemos
que elas emanam do próprio texto, são manifestações do autor, metempsicose entre
um espírito oitocentista e o chumbo da mesa de composição na tipografia. Já a
última página do Público ao fim-de-semana
induz outra mística: lemo-la com o embaraço de quem dá por si a espreitar pela
janela a perversão secreta de um feroz inspector da ASAE.
Eça não deixava que a necessidade de arrasar perturbasse a ocasião de
rir — VPV age com a incumbência e o humor de um mangas-de-alpaca da corrosão. Eça
ria-se como um diabrete — Vasco, se é que ri, ri como um velho diabo.
sábado, 17 de agosto de 2013
Não haverá borlas
Agora que o livrito está a sair da tipografia, impõe-se o
aviso: atendendo ao meu compromisso com a editora (o de enriquecermos ambos
rapidamente), não haverá borlas na distribuição de Os Idiotas. Sendo em parte catalogável como um divertimento, o livro é para ser levado tão a sério quanto os
divertimentos de Mozart (embora o leitor possa tossir e, sobretudo, bater palmas a meio
dos capítulos). Ninguém precisa de smoking para assistir a Os Idiotas — mas precisa de comprar bilhete. Vá, vão lá juntando os
trocos até somar 12 euritos e fazendo a pré-encomenda (osidiotaslivro@gmail.com*). Depois
do lançamento oficial, em Setembro, a coisa sobe para 15 euros.
P.S. As abordagens directas na rua, por mais lancinantes que sejam, serão igualmente portajadas a
12 euros.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
15 de Agosto do ano em que Portugal saiu da recessão (ou notas sobre A Piada Infinita)
Depois de por três vezes tergiversar
(aqui, aqui e aqui) sobre A Piada
Infinita, de David Foster Wallace, esperar-se-ia que agora dissesse alguma
coisa sobre o livro. Bem, eu esperaria.
Lido no Verão e em férias, os
problemas de pulsos e as ameaças à cana do nariz são bastante minimizados. Logo,
estamos disponíveis para voltarmos aos prazeres infinitos (lá está) da
adolescência. A Piada Infinita (API) tem
um pouco de Júlio Verne e um pouco de Tarantino. O espírito do primeiro não
está tanto na obra em si, mas na mesma sensação algo transgressora de termos,
paradoxalmente, legais, autorizadas e
estimuladas tardes intermináveis de ócio ao nosso dispor. Um livro como este
ressuma o seu próprio respeito, tanto pelo volume como pela fama: quem se
dedica a uma obra assim tem de ser admirado e deixado em paz no seu labor solitário
e na sua dedicação metafísica. E a gente ri puberemente cá por dentro como se nos
estivessem a dizer que Jules Verne é bom para o nosso desenvolvimento e sempre
é melhor do que andar a jogar à bola com a canalhada vadia1.
Na verdade, embora tratados
com reverência2 por transportarmos um volume destes, e este volume em particular, cá por dentro
estamos a rebentar de prazer pueril, porque API é um livro para nerds, a sua inteligência, o seu carácter
cerebral, intelectual, a sua complexidade enciclopédica estão orientados para o
mesmo tipo de emoções que sente um adulto que recusa amadurecer e ainda
alimenta a esperança de ser raptado por alienígenas. Ouçam, não lemos este
tratado sobre a América e sobre a sociedade contemporânea com severidade filosófica
ou académica, mas a rebentar de gozo e com a ironia traquinas de diabretes num panteão
luciferino. Se um livro costuma fornecer a suave luz coada com que observamos o
mundo vil dos humanos, um livro desta espessura (agora falo metaforicamente) é
o filtro por excelência.
Acresce que lemos partes de
API como a mesma incredulidade divertida e sentindo o mesmo desafio infantil com que abordámos As 20.000 Léguas Submarinas: o tio
Júlio não ia parar nunca de nomear e descrever espécies oceânicas? Peixes? Quantas mais páginas ia ele
continuar naquilo e quantas resistiríamos nós sem passar à frente? Para
compreender a analogia, troque-se aqui a fauna atlântica por um catálogo de indústria
farmacêutica legal e ilegal mas mantenha-se a mesma aderência assassina e
apaixonada do leitor a uma obra literária.
E depois Tarantino, outro indivíduo
adulto apenas no BI. A Piada Infinita
é um compêndio de malformações (de corpo e carácter) resultantes do abuso de
substâncias legais e ilegais e do abuso que é tentar viver nos dias que correm3.
Tal como Tarantino, DFW diverte-se a fazer desfilar personagens de um circo de
horrores, diverte-se a compor uma montra de freaks,
e diverte-se a arranjar deixas e cenas e histórias para eles com o mesmo
entusiasmo que o Quentin põe nos seus filmes marados. Talvez a grande diferença
seja que Tarantino se descontrola e fica fascinado4 a ver o sangue a
correr e Wallace talvez nos forneça a composição química desse sangue5.
NOTAS:
1 Bem, hoje a maioria dos pais não pensa
assim, eles mesmos malformados e desejosos de ter uma caixa registadora CR7 em
casa.
2 Não somos olhados com reverência, isto é
uma liberdade literária; poética, mesmo. Somos é olhados com um certo nojo, com
a condescendência que a aldeia dedica ao tolo (quando se permite dedicar-lhe
tal coisa), com a jocosidade que a comunidade atira a um casal gay que passa de mão dada pela rua.
3 O mundo não mudou assim tanto de 1996 para
hoje.
4 Deixando a câmara ligada.
5 Não necessariamente na secção reservada às notasi.
i A importância das notas em API não é reflectida
por esta observação tautológica e pretensamente engraçadinha; o mesmo não se pode dizer sobre o quão é ridícula a nossa resistência ao ímpeto copycat depois
de ler a obra, aqui total e vergonhosamente exposta.Foder
A meio dos anos 90, Pedro Abrunhosa tinha uma canção cujo estribilho, por censura institucional ou dos media, por autocontenção ou puro marketing, ele deixava que fosse o público a cantar ou (acredito que por irrisão) sobrepunha-lhe uma nota estridente de saxofone. O estribilho dava aliás título à música, e era geralmente, se bem lembro, grafado apenas como “Talvez F”, deixando a imaginação do leitor completar o verbo.
O mais recente vídeo dos Mundo Cão, para o seu excelente tema “Anos de
Bailado e Natação”, escolheu um processo inverso para disfarçar o mesmo verbo
daninho. Na hora de se dizer que «o bandido solitário só faz folga para foder»
a realização optou por mudar a cena para a entrada da tasca, onde música &
letra ainda só se ouvem ao longe e baixinho. Em vez da estridência de um sax, a
interposição de umas paredes. Diferentes técnicas para a mesma cautela.
Já o protagonista de Os Idiotas
(«É
admirável a amplitude gramatical do verbo foder»)
não teve pelo autor qualquer consideração. O número de ocorrências de termos e
verbos que no livro precisava de um instrumento agudo de sopro ou de umas
barreiras sonoras é suficiente para que a família perca o que lhe resta de
respeito por mim.
Ou talvez não, se nos lembrarmos que um dos grandes vultos da língua
portuguesa é também um grande malcriado e não consta que a família o tenha deserdado.
Confio, como Miguel Esteves Cardoso, que o amor (familiar) é fodido, mas não nos
abandona.
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Visitando buracos nas Pedras Salgadas
Enquanto no Palace Hotel de Vidago os velhos hóspedes ou os seus
descendentes podem matar saudades fazendo à grande um check-in no novo velho
Palace, nas Pedras Salgadas têm de se converter a um estilo mais moderno,
minimalista e nórdico de veraneio, adaptando o velho esqueleto aristocrata a
uma versão luxuosa do estilo Ikea: os bungalows ou eco houses que a Unicer providenciou para ali.
Não havia nas Pedras, dir-se-á, hotéis com o arcaboiço monumental do
Palace de Vidago e as casas que a Unicer instalou são um exemplo de bom
gosto e respeito pelo património ambiental. (Se não tivesse nascido a cinquenta
metros do parque e ali não almoçasse aos domingos, decerto as minhas fantasias
apocalípticas teriam já passado por fins-de-semana ecológicos acima das minhas posses no Nature Park
das Pedras Salgadas.) Mas não se deve esconder que o saudosismo ou o ímpeto
arqueológico de antigos hóspedes é ludibriado nas Pedras como o não é em
Vidago.
O Universal, belíssimo exemplar, podia ser uma das jóias da coroa de
qualquer empresa, mas definha, em parte irreversivelmente. O Grande Hotel está
entaipado. O Avelames deu lugar a um embaraçoso morro de relva sob o qual se
albergam os serviços de apoio às eco
houses. No lugar do Hotel do Norte, onde havia até há pouco uma inverosímil
clareira, há agora um court de ténis que Pires de Lima mandou concluir à pressa
para Passos Coelho inaugurar. A Pensão do Parque desapareceu. O Bazar Fotográfico idem. Ali perto nas Romanas foi a Casa do Chá que se vaporizou
subitamente (um domingo estava lá, no seguinte não estava).
O turismo de nostalgia nas Pedras faz-se, portanto, apontando buracos,
clareiras, ocos. Como vi o neto de um velho hóspede, com uma criança pela mão,
fazer há dias. «O bisavô dormiu ali em cima [Avelames] e o papá nos últimos
anos dormiu aqui [Pensão do Parque]». “Aqui” é agora um parque infantil e a
menina espreitou com suspeita ou ressentimento o pai: que direito tivera ele de
pernoitar num baloiço que agora negava à filha?
O turista avisado mune-se de máquina fotográfica e acorre célere às
Pedras. Quando volta, ou se se atrasa, já não encontra edifícios que antes
pareciam fazer parte do ADN da terra, mesmo que em ruínas. Nem edifícios nem
fundações, apenas vazios onde rapidamente cresce a erva.
Esperar o fim no Palace Hotel de Vidago
Tenho definitivamente uma costela de velho aristocrata. Não é à toa que me encanta o ghost writer por detrás de Francisco José Viegas: o saudoso António Sousa Homem cujos escritos ortónimos ao que sei cessaram, embora ande algo deles n’O Coleccionador de Erva, do seu pseudónimo mais famoso. Passeando por Vidago, dou comigo a lamentar a decadência das famílias e dos costumes que deixa semideserto o parque em favor de um Algarve novo-rico, plebeu e dum sensualismo exibicionista, suado e pegajoso. Pessoalmente, não me desagrada que a afluência a Vidago seja baixa no dia em que ali me dirijo. Tomo-a até como um sinal de respeito, de consideração pelo meu olfacto sensível. É conceptualmente que me lamento. Imaginaria — com caduco romantismo e grande abnegação, bem se vê — que os calores de Agosto fariam recuar as pessoas de bom gosto às sombras frondosas de um parque termal e não avançar belicamente para as areias marroquinas do Andalus. Mas depois ponho-me no lugar do tuga hodierno: o que há para fazer no parque de Vidago? Passear à sombra de plátanos, tílias e quejanda vegetação? Sentar em bancos de jardim como que à espera de um transporte que não vem? Namoriscar de castas mãos dadas em homenagem à avozinha? O golfe é um aborrecimento de milionários. O ténis e a piscina são só para clientes do hotel. A terapêutica biliar faz-se hoje com químicos, e nunca no Verão.
Há uma saudade cor de amêndoa na maioria das epidermes lusas, prova de
que a presença árabe ou berbere no nosso genoma é maior do que estamos
dispostos a admitir. O português quer retomar no Verão o aspecto dos seus
ancestrais mais carregadamente mediterrânicos, por isso se põe a tostar ao sol
em vez de ir beber copinhos de água para as termas, à sombra, como faria o outro
lado da família, com sangue mais asturiano.
No meu corpo, a reconquista começou há uns anos e, se não me devolveu a
fé cristã, pelo menos devolveu-me o horror ao sol directo e o gosto por
castelos e palácios. Sim, passaria bem o Verão no Palace de Vidago, andando
descalço e transgressor pela relva do green
de dezoito buracos que sobe a encosta e serpenteia deliciosamente pelos bosques
e depois pelo pinhal, jogando ao final da tarde um ténis desastroso no court escondido como um recanto amoroso,
tomando atrasado os meus pequenos-almoços sob um anacrónico guarda-sol às
listas (já não há) no terraço com pernadas de hera à espreita na balaustrada,
forçando-me a evitar a piscina por ter memória da antiga e não querer
profaná-la mergulhando no enxerto de Sisa actual, lendo avolumadas e pacientes páginas
nos tais bancos de Godot (ou, de novo transgredindo, de barriga para o ar na
relva aparada e fresca do buraco 17) e, claro, jantando demoradamente no salão nobre
como um orgulhoso conde austríaco com os turcos às portas de Viena.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
No prelo
Enquanto a tipografia faz o seu trabalho, eis uma antevisão do que será
o livrinho.
Sendo o primeiro a ir ao prelo, Os
Idiotas não é o meu primeiro romance. É o terceiro. Avançou em vez dos
outros porque houve uma editora catalã que se deixou enganar e porque diz-se que uma parte
da obra a torna particularmente adequada à saison.
A editora descreve-o assim:
«O Lúcio, o Luís, o Óscar, o Avelino, o Sérgio e o Vasco foram em tempos pessoas quase normais, projectos individuais de cidadania como outros quaisquer. O que hoje são e aquilo a que se dedicam não se resume tão facilmente, embora possamos tentar encontrar uma tímida explicação na trágica convergência de certos eus e de determinadas circunstâncias. Aos idiotas, ainda por cima, calhou-lhes Bồ Đào Nha como país, um pedaço de terra que lhes impõe uma visão do mundo apocalíptica e irada, a de um presente desértico a cavalgar para um futuro impossível, estilhaçado pela corrupção e por uma montanha compacta de sobreposições non sense. Os idiotas poderiam ter permanecido assim, em desequilíbrio perfeito, para sempre, mas a chegada de Helen, uma mulher misteriosa e dorida, vem catalisar o inevitável.
Romance futurista? Não... Os idiotas acontece hoje, aqui e agora. Os idiotas acontece-nos. ‘O que quer que sejamos, somo-lo por oposição aos cretinos, que são o resto das pessoas' diz, algures, o Lúcio. E, se calhar, diz bem.»
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Episódios televisivos (2)
No telejornal da RTP, a repórter consegue aguentar sem se rir (e sem
se suicidar) durante todos os longos minutos que dura a premente reportagem
sobre uma “praga” de mosquitos no Algarve. Entrevista barmen, clientes, transeuntes e banhistas com a mesma expressão severa dos
colegas que são vistos à porta de ministérios ou de sedes de partidos tentando criar
uma reportagem sem assunto sobre pessoas ausentes. Não se desfez nem quando
pediu a um rapaz que exibisse perante a câmara o vermelhão de uma terrível e
decerto fatal picadela de melga.
Se aos repórteres não lhes fixam os músculos faciais com um veneno
paralisante antes de irem para o ar, é porque há nas televisões cursos sobre
controlo do riso — e obliteração da auto-estima.
No estúdio, José Rodrigues dos Santos e os seus pavilhões auriculares lideravam
a notícia com o entusiasmo do costume, mas dele sabemos ser capaz de
transformar qualquer crepuscular e estival invasão de pernilongos numa ribombante
Tempestade no Deserto. É do género emotivo e facilmente impressionável. Tome-se
a forma como olha a sua obra literária.
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