É claro que um investigador sem bolsa tem mais tempo e apetite para
emborcar cervejolas nas esplanadas.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Esperar sentado no Banco de Portugal
O post que publiquei anteontem lembrou-me porque é que o Banco de Portugal não tem
condições para funcionar bem: o seu quadro de pessoal nunca está completo. Há
ali sempre uma vaga a precisar de ser preenchida por ex-governantes.
Creio que seria muito mais simples para a instituição
e para o país se o BdP, em vez de estar sempre à espera que mais alguém se
demita ou seja demitido, pusesse anúncios de emprego.
A não ser, claro, que aquelas vagas sejam
apenas para os estagiários de São Bento que aguardam entrada na Goldman Sachs ou
filiais. É justo que o Banco tenha permanentemente no orçamento uma verba para
entreter a espera de Suas tirocinantes Excelências.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Dos honorários do políticos
As opiniões que se lamentam sobre os parcos vencimentos dos políticos dividem-se em pouco mais de três géneros: as hipócritas (ou cínicas), as ingénuas (mas cultíssimas e seguríssimas da verdade) e as simplesmente patetas, de adolescentes esperançosos e ambiciosos que ensaiam todos os dias ao espelho a célebre proclamação «mãe, sou ministro!».
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.
Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.
Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.
Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.
Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)
Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.
Diz esta tríade que só pagando bem a democracia conseguirá atrair os melhores e reformar-se (talvez evoluindo de 'representativa' para 'mercenária').
O que é curioso é que não ouvimos estas pessoas concluírem, logicamente, que hoje estamos mal servidos de governantes e políticos. (Pagamos mal, logo não temos os melhores, certo?) Várias delas não o concluem porque são governantes e políticos no activo e seria embaraçoso, digamos, confessarem-se da ralé, profissionais de terceira que aceitam quaisquer trocos. Os que não são governantes ou dirigentes são acólitos ou pauzinhos de bandeira: perderiam a possibilidade de uma carreira no partido se levassem o seu próprio raciocínio até ao fim e deste modo menorizassem os chefes. Uns poucos estão fora dos partidos mas são ainda assim demasiado ligados ao sistema para se atreverem à inconveniência pouco burguesa de unir as pontas: 'pagamos mal, temos merda'. Sobra talvez um ou outro Vasco Pulido Valente, mas estes diriam sempre que temos merda, mesmo que pagássemos à merda o seu peso em ouro.
Na verdade, tirando o supracitado e estatisticamente irrelevante VPV, ninguém dos que se queixam da exiguidade de honorários da República parece considerar de facto que estamos mal servidos de políticos. Veja-se a forma como defenderam Relvas e defendem qualquer idiota, irrevogável ou não, que esteja lá a representar os seus interesses ou ideias.
Por outro lado, eles não acham o valor do salário assim tão relevante, porque na primeira oportunidade saltam para o governo ou para o parlamento. Quantos secretários de estado estão neste executivo que não tenham antes chorado num jornal ou num blogue a miserável folha de pagamentos dos cargos políticos? Não me venham dizer que, muito humildes e coerentes, só aceitaram o convite porque não se consideram dos melhores. Isso não seria humildade, mas imbecilidade. Dispensamos gente a ocupar cargos só porque eles existem. Dispensamos gestos absurdamente francos e eloquentes («o vencimento é suficientemente mau para o que eu valho»). Se não queremos maus gestores da coisa pública, talvez não devamos abrir excepções para nós mesmos, não acham? Não se martirizem, queremos pessoas competentes. Fiquem de fora a reivindicar melhor salários.
Eu ouço-os dizer que temos de pagar mais para atrair os melhores mas nunca os ouço dizer quem são os melhores. Quem são esses titãs que apenas aguardam a subida dos vencimentos para virem ocupar São Bento com a eficiência de deuses no Olimpo.
Por outro lado, vendo a forma como os dirigentes políticos portugueses saltam dos governos para empresas nacionais ou internacionais “de prestígio”, quase somos levados a acreditar que, apesar das condições adversas, temos tido por cá dos melhores dirigentes. (Ou acreditamos nisto ou reavaliamos a nossa noção de prestígio.)
Talvez haja uma terceira via de pensamento: considerarmos o governo português como um tirocínio, um estágio para mais altos voos, como parece ser. Mas nesse caso, meus amigos, temos de concluir que, para meros estagiários, os dirigentes portugueses não estão nada mal pagos.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Orgulho e preconceito
No concurso televisivo “Quem quer ser milionário”, um rapaz estudante
de Jornalismo tinha de escolher, entre quatro possibilidades, o nome do autor
de Frankenstein. Minutos antes,
amigas na plateia diziam apostar nele pela sua cultura geral. Ele definia-se
como pessoa que lê.
As opções eram Arthur C. Clarke, Bram Stoker, Mary Shelley e H.
G. Wells. O rapaz não teve a tradicional hesitação entre Shelley e Stoker —
rejeitou de imediato a escritora porque, palavras suas, não lhe parecia que uma
mulher pudesse escrever um livro daqueles.
Depois de ter recorrido a uma ajuda que reduziu as escolhas a dois nomes (precisamente
Shelley e Stoker), manteve-se na rejeição de Mary, ainda que não fizesse ideia
de quem era o outro.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Depois da freira, os élderes e os reis
Depois da minha boa acção com a freira de ontem, tocaram-me à porta
dois simpáticos élderes (por estes dias as pessoas são todas simpáticas para
mim, coração de queijo amanteigado). Para quem não saiba, elder não é nome, é cargo, função; os rapazes da gabardina e da
gravata com ar anglo-saxónico, mesmo quando escuros de pele, são presbíteros de
um dos ramos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a IJCSUD
para os amigos. Tocarem-nos à porta para falar de Cristo é tão legítimo (ou
mais) quanto os bispos católicos terem freiras que lhes fazem as compras.
Adiante.
Eu queria ignorar os sinais, mas hoje tocaram de novo à campainha e
eram os Reis Magos. Ou alguém em seu nome. No caso, uma anciã com ar de pedinte
e voz de grafonola enferrujada. Não percebi a letra, mas a toada era vagamente
típica das janeiras. Também podia ser uma canção de embalar — a senhora
encostava-se de olhos fechados à parede, reparei enquanto espeitava pelo
olho-de-peixe. E só não dormia porque a pandeireta que abanava nas mãos não
deixava dormir ninguém, nem a própria. Cínicos dirão que se pode ser indigente
mas não tem de se ser estúpido. A senhora terá percebido nas tradições cristãs
uma forma de variar a sua abordagem à clientela piedosa. Ou então era apenas
alguém com idade suficiente para ter saudades de ir por esses quintais adentro
e, não tendo companhia para o caminho, resolveu tirar a pandeireta do prego
(sem metáforas) e aclarar sozinha a garganta. Sem sucesso, nesta última parte.
Para mim, contudo, ela faz talvez parte de um teste ou é sintomática da
forma trôpega que o altíssimo tem de abordar as pessoas. E, se foi teste, eu
falhei. Aos élderes ainda retorqui simpaticamente que compreendia o ímpeto
missionário deles (de resto, premissa cristã que os católicos não cumprem), mas
me considerava servido no que tocava à palavra de Deus. Se estivessem a fazer
entrega de hambúrgueres, talvez pudesse ficar com um para mais tarde. A ela, à
janeireira, não abri a porta, considerando cobarde e abusivamente que a caridade
da vizinha da frente representava todo o condomínio.
Deve haver uma lógica nisto. Enviesada, claro, mas sabemos que Deus
escreve direito por linhas tortas. Ou vice-versa, já não sei. Freiras,
presbíteros, reis magos… Alguém lá em cima quer falar comigo e não tem o meu
número? Falem com a NSA, caramba. Estou no Skype, se for preciso olhar nos
olhos.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Blasfemando no fim do jogging
No fim da corrida, quando a estrada se ergue em rampa, uma freira pousa
o saco das compras para tomar fôlego e enfrentar o pequeno calvário que se lhe
apresenta. No último instante, tenho a minha epifania, caio do cavalo e ofereço-me
para lhe carregar o saco. Ela aceita e eu, talvez deixando-a a reconsiderar a possibilidade
ontológica da bondade, saio a correr rampa acima com o saco na mão. Sinto-me
revigorado, capaz de correr a maratona, mas o meu gesto (e o meu fôlego)
termina logo ao cimo do outeiro, no paço episcopal. (Talvez não se chame assim,
mas de todo o modo, é a casa onde mora o bispo.)
Se fosse escuteiro, suponho que consideraria, inspirado pela doutrina,
que a boa acção me garantia uns pontos no ranking
celeste, mas na verdade os meus ganhos são desbaratados no imediato. Não evito
blasfemar logo ali perguntando-me por que raio o bispo, no seu metafisicamente supérfluo
automóvel de luxo, não faz as suas próprias compras. E, já agora, reincido, por
que raio tem de morar numa casa apalaçada, servido por um conjunto de obedientes
freiras. Ele é o quê? Um novo-rico com tara por serviçais fardadas? Um padrinho
da máfia com respeitáveis códigos de honra e de vestuário? Um conservador de
velha casta que se passeia no solar de estola pelos ombros, dando palmadinhas nas
criadas uniformizadas quando ninguém vê?
Bom, só não atiro com as compras porque suspeito que a pobre e esbaforida
freira ficaria chateada (talvez aquilo seja o
seu jantar). E porque, na verdade, me sinto verdadeiramente, cristãmente, satisfeito por a ter ajudado.
Talvez Deus me perdoe a heresia — mesmo que a sua classista e machista
Igreja não o faça. Em todo o caso, o prazer foi todo meu e da simpática
freirinha que, calhando, ainda me reserva uma oração esta noite, tão precisado
que ando delas. Saravá.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Notas de viagem
Não sendo, nem em sonhos, um viajante imparável, tenho ainda
assim no cadastro um número simpático de milhas aéreas e muitos quilómetros de alcatrão
peninsular.
E contudo são insuficientes. Não me arrependo da
eventualidade de ter vivido nos últimos anos acima das minhas possibilidades, mas
arrependo-me (um pouco retoricamente, concedo) de não ter tentado poupar para estourar
em mais viagens.
Até há um mês arrependia-me também de não ter levado um
Moleskine nas expedições que fiz. Achava que as notas me seriam úteis nos posts e livros que ambicionava escrever.
Estava errado. As viagens são úteis — as notas não.
Em primeiro lugar, o mesmo carácter pudendo que me impede de
sociabilizar com facilidade inibe-me de escrever sobre as minhas viagens. Pelo
menos de escrever textos especificamente sobre as viagens.
O único Moleskine que tive (e tenho) foi-me oferecido há mais
de três anos e tem três quartos das páginas intactas. Recentemente levei-o para
Paris, mas foi inútil. Em nenhum momento dos dias que entretanto passaram senti
qualquer vontade (ou senti o à-vontade)
de o abrir para escrever fosse que género de texto fosse.
Em todo o caso, não seria de muita utilidade: apontei escassas
observações e mesmo essas me parecem fúteis.
Na verdade, o que aproveito literariamente das viagens não
surge por invocação e não poderia ficaria registado no período em que acontece.
A identificação (e gradação) da importância das coisas é um exercício
posterior. É mais tarde, por vezes bastante mais tarde — e involuntariamente,
quase inconscientemente —, que as experiências das viagens surgem e se revelam
úteis.
É como a vida: não sabemos que parte dela pode mais tarde ser
romanceada, caso contrário vivê-la-íamos como uma ficção vigiada e seria
portanto depois inverosímil, inutilizável, falsa, rebuscada, artificial, sem
proveito. Não é durante a viagem que detecto o material literário (ou apenas com
interesse narrativo): ele atropela-me um dia, no jogging, na caixa do supermercado, no trânsito, no duche. E então,
sim, deveria correr para o Moleskine, para que à noite, iluminado pelo ecrã,
não perdesse nada da ideia.
Creio que as notas tomadas durante uma viagem me seriam úteis
se as pudesse tomar em modo inspirado, se pudesse viajar como um paciente Cézanne
em frente a uma paisagem. Infelizmente, as minhas excursões são demasiado
curtas (orçamento oblige) para que me
possa dar ao luxo de agir como um escritor em viagem, sorvendo demoradamente. A
única coisa que posso fazer —
e isso é mais útil do que notas — é manter olhos e ouvidos bem abertos o tempo
todo. Passar pelos sítios e pelas pessoas como um aspirador diligente, com
grande poder de sucção. Um Hoover topo
de gama ao serviço do detalhe e das sensações. E depois confiar na memória,
esse departamento de arquivo e síntese de fábulas do cérebro humano.
É verdade. As sociedades de partido único resolvem-nos melhor.
«Os pequenos partidos são um sintoma de sociedades que não conseguem resolver os seus problemas.»
Vasco Pulido Valente, Público
sábado, 28 de dezembro de 2013
Quim Roscas e Zeca Estacionâncio
A dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio parece provar que a ascensão
social é possível nesta egrégia nação. Dois moços dados às anedotas, aparentemente
condenados, como noutros tempos, a animarem os serões de tascas de província,
conseguem um programa de televisão em horário nobre — o “Telerural”, emitido a partir
de Curral das Moinas. Um deles vai mais longe e, qual sapo beijado por princesa
do Lumiar (ou de lá onde a RTP tem os estúdios), não tarda é transformado em
apresentador de concursos. Num terceiro momento da sua ascensão, ambos têm o venerável
Nicolau Breyner a fazê-los protagonistas de “7 pecados rurais”, um filme
seminal (eles haveriam de apreciar o potencial javardo desta qualificação).
Todo este sucesso parece provar, dizia, que Portugal não tem o ascensor
social avariado. Os pobres e os indigentes, sobretudo estes, conseguem chegar
ao topo. Mas se analisarmos bem o fenómeno percebemos que é tudo um problema de
fundações: o duo não saiu do rés-do-chão: o edifício nacional é que se afundou
mais no solo em algumas décadas do que a Torre de Pisa em séculos.
No cinema 2: M’espanto às vezes
Antes de iniciar o filme, a ZON oferece-nos um sketch ou um trailer ou uma coisa qualquer com a dupla Quim Roscas
e Zeca Estacionâncio. Ao contrário do que eu esperava, a audiência não reage entusiasticamente.
Não reage, sequer. Espreito a sala para ver se atrás de mim está toda a gente distraída
com o iPhone ou a lamber no escurinho, à moda antiga, o parceiro do lado, mas
na verdade cerca de dois quintos do público olha para a tela, sorumbaticamente.
Não sei que ilações tirar disto. As probabilidades de se encontrar numa
sala da ZON trinta pessoas com bom gosto e sentido de humor sofisticado não são
grandes. São maiores as de encontrar trinta pessoas que compraram um bilhete
por recomendação clínica, para subirem o astral com um pouco de entretenimento.
Mas, por outro lado, e atendendo ao efeito que o sketch tem no meu próprio estado de espírito, sei que não é preciso
ter-se um diagnóstico médico de depressão para se desejar cortar os pulsos logo
ali nos preliminares da noite.
No cinema 1: Panem et circenses
Atento à arena, no filme The Hunger
Games o público do pós-apocalíptico Capitólio espelha o povo de Roma na sua
infantil necessidade de entretenimento e sede de sangue. Entre o passado e o
futuro, a civilizada plateia de um cinema mastiga furiosamente pipocas e aborrece-se
enquanto o enredo atrasa o ambicionado início da acção. Ao som de «let the games begin» a massa no ecrã
parece ulular por ventriloquismo o alívio e o entusiasmo da audiência do filme.
A quem escapa que The Hunger Games é
talvez mais um momento tautológico da indústria do entretenimento do que um
filme sobre a insubmissão.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Regressar a casa
(clique)
Escrevi anteontem para uma apresentação de Os Idiotas em Vila Pouca de Aguiar um texto a que chamei erradamente “Regresso a casa”. Erradamente porque para regressar a casa tinha na verdade de recuar 25 anos e não dez, 33 quilómetros e não 27. Não li o texto, mas insisti nos equívocos passando uma boa parte do tempo a falar do livro errado, do Hotel do Norte. Talvez seja da época, do toque de recolher à família que se ouve entre os jingles do comércio natalício. Por isso, ou por outras razões igualmente (con)sanguíneas, devo ter achado que esta era a altura de apresentar a minha obra sobre as Pedras Salgadas e não a minha obra sobre Portugal.
E assim não hesitei em alimentar mais equívocos, reduzindo ambos os livros
(como voltei agora a fazer) a meros postais ou crónicas de territórios delimitados,
regiões demarcadas do autor. A catalã residente no Alentejo Natàlia Tost a
pretender que Os Idiotas se traduza
para outras línguas, e eu a confundir a minha cartografia mental com a minha
cartografia geográfica.
Parece-me que não há mal nenhum em publicar crónicas territoriais ou de
época, mas devia ter-me lembrado que não escrevi monografias. Suponho que, por
exemplo, o livro de Bruno Vieira Amaral As
primeiras coisas não é bom por ser um levantamento sociológico de um bairro,
mas por ter criado o Bairro Amélia a
partir de matéria humana não exactamente circunscrita. Analogamente, o Hotel do Norte nunca existiu senão na minha imaginação (alimentada,
naturalmente, de memórias, experiências, testemunhos, mas também da filmografia
e da biblioteca eclécticas que fui instalando nas dobras do meu cérebro — e
mais fundo, nos interstícios da alma, considerando a eventualidade de ter uma).
Não precisavam de ter demolido o verdadeiro Hotel do Norte, como
fizeram, para que eu pudesse defender que ele é a minha fantasia. Um escritor
não precisa de álibi nem de apagar impressões digitais, ou de fazer desaparecer
provas, para cometer os seus crimes literários. O edifício podia permanecer que
o livro continuaria a existir numa realidade alternativa e com fundações mais
devedoras à mecânica quântica do que à velhinha, previsível e mensurável física
de engenheiros civis, arquitectos e pedreiros.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
Bruteza
No dia em que o JN noticiou a morte de Nadir Afonso, a sua manchete
cumpria a rotina de informar em letras garrafais sobre um novo assalto ou um
novo crime. Para o pintor ficou um quadradinho. Sendo inadequado ter vergonha
do JN (porque não sou seu comprador nem seu accionista), tenho vergonha do país
que o engendra. E quero que se foda a conversa sobre o país real. Um país, seja
ele real ou imaginário, devia ter limites para a bruteza.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
O fosso entre o cais e a viagem
1. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. Uma lê, a outra lê-se. A primeira segura um
espelho, a segunda, um livro. É legítima a confusão sobre quem faz o quê.
2. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. Um espelho e um livro. Ambas lêem, mas só
uma avança para lá do frontispício, e não é seguro afirmar qual delas o faz.
3. Numa estação de metro duas mulheres seguram um objecto à frente da cara
e dedicam-lhe olhares penetrantes. A do espelho reforça o rouge, a outra enrubesce numa passagem de As Cinquenta Sombras de Grey.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
«Who gave you this number?»
Há uns anos alguém achou que me podia confiar o número de telefone de
Paul Auster e eu liguei para esse número. Na altura eu tinha acessos, por vezes
bem-sucedidos, de megalomania, mas atendeu-me uma voz feminina e o castelo de
autoconfiança que eu tinha erigido desmoronou. «Mr. Paul Auster?», balbuciei cá
de baixo, das masmorras. E ela, da sua torre de menagem: «Who gave you this
number?» Ainda tentei explicar ao que vinha, procurando recuperar um pouco da
compostura e da assertividade (da lata, na verdade) que usava em ocasiões análogas.
Mas ela não se comoveu demasiado, retorquiu com uma cordialidade evasiva, e estava
particularmente obcecada com a pergunta «who gave you this number». Não delatei
a minha fonte — tive esse resto de dignidade —, mas o inglês que treinara
saiu dos carris e a auto-estima deitou-se neles à espera do próximo comboio. Desesperado,
pedi-lhe um endereço de e-mail ou um número
de fax (ainda se usavam) e a voz deu-me uma sequência de algarismos. Terminou
ali a conversa e a campanha de Brooklyn. Mandei o meu fax e nunca tive
resposta.
Na hora e nos anos que se seguiram fiquei convencido de que falara com
a esposa do escritor. A voz era demasiado madura para ser da filha, então adolescente,
e, talvez para salvar o que me restava de ego, decidi que não falara com
nenhuma secretária, agente ou relações públicas. Não conseguira nada de Auster
— mas falara com a mulher dele. Assim se constroem os mitos.
Mais tarde cheguei a um primeiro livro de Siri Hustvedt (Aquilo que eu amava) e o meu trauma
transformou-se. Já não era a questão de ter falhado a operação Paul Auster, era
a de ter levado o meu embaraço para um novo nível. O livro de Hustvedt era
fascinante, mas ela era casada com o autor da Trilogia de Nova Iorque e isso fazia com que ao longo da leitura
soasse regularmente nos meus ouvidos aquela admoestação antiga: «Who gave you
this number?» Eu tinha descoberto uma escritora interessante, mas simultaneamente
descobrira que os seus livros estavam assombrados. «Who gave you this number?»
não era uma pergunta com que eu não soubera lidar: era um mantra
fantasmagórico. Olhava para a fotografia na badana e o seu rosto norueguês mas
tão ariano intimidava-me, remetia-me para o gueto. Hesitei em comprar o meu
terceiro livro dela porque temi que o título fosse uma insinuação, um aviso
críptico para mim: Verão sem homens. Aquele
homens era comigo. Eu estava impedido
de entrar no Verão de Siri Hustvedt, como anos antes fora impedido por ela de
entrar na casa do marido.
Tudo teria sido mais simples se a minha vaidade tivesse desde o início aceitado
que a secretária ou a mulher-a-dias do escritor ficara simplesmente
espantada com o facto de um desconhecido pouco fluente em inglês do outro lado
do Atlântico estar de posse do número do patrão. Porém, considerando que talvez
os livros de Siri Hustvedt sejam mais interessantes do que os de Paul Auster,
vou ali alimentar mais um bocadinho o mito de que um dia falei com ela ao
telefone e já venho.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Melancolia
Diz a Wikipédia que é «um estado psíquico
de depressão com ou sem causa específica» e se caracteriza «pela falta de entusiasmo e
predisposição para actividades em geral». Não parece a descrição da minha
patologia. Se é certo que a maioria das actividades em geral me parece repulsiva quando me inclino para ouvir “Gallows” em loop, a verdade é
que nestes momentos sinto um grande entusiasmo literário.
Os frívolos dirão que literatura não é actividade, e terão a sua razão terrena.
Mas quem se interessa por actividades quando tem as CocoRosie a sussurrar-lhe
ao ouvido canções de assombramento, uma pilha de livros à distância de um braço
e disposição para reescrever o mundo em vários tomos? Quem se interessaria por
um emprego, uma comunidade, um país ou um planeta se pudesse simplesmente permanecer
arrebatado?
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
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