Pessoa amiga conta-me que lhe ofereceram recentemente os romances Liberdade (de Jonathan Franzen) e A Piada Infinita (de David Foster
Wallace). Percebe-se a escolha: de forma mais ou menos assumida ou por
interpostos críticos, ambos os autores (e ambos os livros) foram candidatos à
categoria recorrente de o (novo) grande
romance americano. Quando a feliz aniversariante mostrou os presentes a um
outro amigo, ele teve uma compreensível reacção idiossincrática: «Lê muito a Piada; queimamos já aqui o Liberdade.»
É certo que Franzen competiria melhor com Wallace se o livro escolhido
fosse Correcções. Ou antes:
competiria um pouco mais no mesmo terreno de Wallace se o livro considerado
fosse este último. Contudo, Liberdade
continua a ser um grande livro, ainda que mais convencional.
Há várias razões para não se gostar de Franzen, e ser “mais convencional”
parece ser uma delas.
Um post de Nuno Costa Santos,
por exemplo, defende que «o romance convencional já não chega lá». E já não
chega lá porquê? Porque «não basta a historinhazinha, a trama branda, as
personagens bem desenhadas mas sem fogo». Porque «a realidade, contraditória e
conflituosa, está a reivindicar atenção». Porque «é necessário assumir o quase
sempre evitado "eu" — um "eu" que não é o ego tout court, é
um jogo literário arriscado entre a vida e a ficção».
Pelo meu lado, julgo excessivo presumir-se que o romance convencional
se define daquela maneira. Talvez aquilo defina um romance fraco, mas não exactamente um romance convencional. O romance
convencional terá uma história, uma trama, personagens bem desenhadas — os
diminutivos paternalistas e os qualificativos pejorativos excedem a definição.
Por outro lado, não seria descabida generosidade considerar que o romance convencional
tem tido os seus momentos de aggiornamento,
de sábia atenção à «realidade, contraditória e conflituosa», e de assumpção do
«eu».
Creio que Costa Santos, como se depreende do resto do seu texto, queria
na verdade dizer que, em sua opinião, o romance convencional não tem sabido chegar lá. Ou mesmo que o romance
convencional já não tem forma de chegar lá.
E aqui talvez entremos no domínio do estilo e das preferências.
Por ter crescido num tempo e num canto de Trás-os-Montes onde não havia tutores nem
escolas literárias ou figuras de referência, tornei-me, julgo que felizmente sem traumas,
num tipo ecléctico no que se refere a géneros e estilos. Ou talvez apenas
descomplexadamente generoso no que toca a leituras. A verdade é que se rejeito por
vezes certos livros não é porque os ache necessariamente maus. É apenas porque
estão desacertados comigo (ou, geralmente, eu com eles).
Tendo-me divertido mais com A
Piada Infinita e tendo sido mais estimulado por Wallace, não vejo contudo razões
para desconsiderar Liberdade ou temer
que o “romance convencional” já não sirva.








