quinta-feira, 15 de agosto de 2013

15 de Agosto do ano em que Portugal saiu da recessão (ou notas sobre A Piada Infinita)

Depois de por três vezes tergiversar (aqui, aqui e aqui) sobre A Piada Infinita, de David Foster Wallace, esperar-se-ia que agora dissesse alguma coisa sobre o livro. Bem, eu esperaria.

Lido no Verão e em férias, os problemas de pulsos e as ameaças à cana do nariz são bastante minimizados. Logo, estamos disponíveis para voltarmos aos prazeres infinitos (lá está) da adolescência. A Piada Infinita (API) tem um pouco de Júlio Verne e um pouco de Tarantino. O espírito do primeiro não está tanto na obra em si, mas na mesma sensação algo transgressora de termos, paradoxalmente, legais, autorizadas e estimuladas tardes intermináveis de ócio ao nosso dispor. Um livro como este ressuma o seu próprio respeito, tanto pelo volume como pela fama: quem se dedica a uma obra assim tem de ser admirado e deixado em paz no seu labor solitário e na sua dedicação metafísica. E a gente ri puberemente cá por dentro como se nos estivessem a dizer que Jules Verne é bom para o nosso desenvolvimento e sempre é melhor do que andar a jogar à bola com a canalhada vadia1.
Na verdade, embora tratados com reverência2 por transportarmos um volume destes, e este volume em particular, cá por dentro estamos a rebentar de prazer pueril, porque API é um livro para nerds, a sua inteligência, o seu carácter cerebral, intelectual, a sua complexidade enciclopédica estão orientados para o mesmo tipo de emoções que sente um adulto que recusa amadurecer e ainda alimenta a esperança de ser raptado por alienígenas. Ouçam, não lemos este tratado sobre a América e sobre a sociedade contemporânea com severidade filosófica ou académica, mas a rebentar de gozo e com a ironia traquinas de diabretes num panteão luciferino. Se um livro costuma fornecer a suave luz coada com que observamos o mundo vil dos humanos, um livro desta espessura (agora falo metaforicamente) é o filtro por excelência.
Acresce que lemos partes de API como a mesma incredulidade divertida e sentindo o mesmo desafio infantil com que abordámos As 20.000 Léguas Submarinas: o tio Júlio não ia parar nunca de nomear e descrever espécies oceânicas? Peixes? Quantas mais páginas ia ele continuar naquilo e quantas resistiríamos nós sem passar à frente? Para compreender a analogia, troque-se aqui a fauna atlântica por um catálogo de indústria farmacêutica legal e ilegal mas mantenha-se a mesma aderência assassina e apaixonada do leitor a uma obra literária.
E depois Tarantino, outro indivíduo adulto apenas no BI. A Piada Infinita é um compêndio de malformações (de corpo e carácter) resultantes do abuso de substâncias legais e ilegais e do abuso que é tentar viver nos dias que correm3. Tal como Tarantino, DFW diverte-se a fazer desfilar personagens de um circo de horrores, diverte-se a compor uma montra de freaks, e diverte-se a arranjar deixas e cenas e histórias para eles com o mesmo entusiasmo que o Quentin põe nos seus filmes marados. Talvez a grande diferença seja que Tarantino se descontrola e fica fascinado4 a ver o sangue a correr e Wallace talvez nos forneça a composição química desse sangue5.

NOTAS:
1 Bem, hoje a maioria dos pais não pensa assim, eles mesmos malformados e desejosos de ter uma caixa registadora CR7 em casa.
2 Não somos olhados com reverência, isto é uma liberdade literária; poética, mesmo. Somos é olhados com um certo nojo, com a condescendência que a aldeia dedica ao tolo (quando se permite dedicar-lhe tal coisa), com a jocosidade que a comunidade atira a um casal gay que passa de mão dada pela rua.
3 O mundo não mudou assim tanto de 1996 para hoje.
4 Deixando a câmara ligada.
5 Não necessariamente na secção reservada às notasi.
i A importância das notas em API não é reflectida por esta observação tautológica e pretensamente engraçadinha; o mesmo não se pode dizer sobre o quão é ridícula a nossa resistência ao ímpeto copycat depois de ler a obra, aqui total e vergonhosamente exposta.

Foder


A meio dos anos 90, Pedro Abrunhosa tinha uma canção cujo estribilho, por censura institucional ou dos media, por autocontenção ou puro marketing, ele deixava que fosse o público a cantar ou (acredito que por irrisão) sobrepunha-lhe uma nota estridente de saxofone. O estribilho dava aliás título à música, e era geralmente, se bem lembro, grafado apenas como “Talvez F”, deixando a imaginação do leitor completar o verbo.
O mais recente vídeo dos Mundo Cão, para o seu excelente tema “Anos de Bailado e Natação”, escolheu um processo inverso para disfarçar o mesmo verbo daninho. Na hora de se dizer que «o bandido solitário só faz folga para foder» a realização optou por mudar a cena para a entrada da tasca, onde música & letra ainda só se ouvem ao longe e baixinho. Em vez da estridência de um sax, a interposição de umas paredes. Diferentes técnicas para a mesma cautela.
Já o protagonista de Os Idiotas («É admirável a amplitude gramatical do verbo foder») não teve pelo autor qualquer consideração. O número de ocorrências de termos e verbos que no livro precisava de um instrumento agudo de sopro ou de umas barreiras sonoras é suficiente para que a família perca o que lhe resta de respeito por mim.

Ou talvez não, se nos lembrarmos que um dos grandes vultos da língua portuguesa é também um grande malcriado e não consta que a família o tenha deserdado. Confio, como Miguel Esteves Cardoso, que o amor (familiar) é fodido, mas não nos abandona.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Visitando buracos nas Pedras Salgadas


Enquanto no Palace Hotel de Vidago os velhos hóspedes ou os seus descendentes podem matar saudades fazendo à grande um check-in no novo velho Palace, nas Pedras Salgadas têm de se converter a um estilo mais moderno, minimalista e nórdico de veraneio, adaptando o velho esqueleto aristocrata a uma versão luxuosa do estilo Ikea: os bungalows ou eco houses que a Unicer providenciou para ali.
Não havia nas Pedras, dir-se-á, hotéis com o arcaboiço monumental do Palace de Vidago e as casas que a Unicer instalou são um exemplo de bom gosto e respeito pelo património ambiental. (Se não tivesse nascido a cinquenta metros do parque e ali não almoçasse aos domingos, decerto as minhas fantasias apocalípticas teriam já passado por fins-de-semana ecológicos acima das minhas posses no Nature Park das Pedras Salgadas.) Mas não se deve esconder que o saudosismo ou o ímpeto arqueológico de antigos hóspedes é ludibriado nas Pedras como o não é em Vidago.
O Universal, belíssimo exemplar, podia ser uma das jóias da coroa de qualquer empresa, mas definha, em parte irreversivelmente. O Grande Hotel está entaipado. O Avelames deu lugar a um embaraçoso morro de relva sob o qual se albergam os serviços de apoio às eco houses. No lugar do Hotel do Norte, onde havia até há pouco uma inverosímil clareira, há agora um court de ténis que Pires de Lima mandou concluir à pressa para Passos Coelho inaugurar. A Pensão do Parque desapareceu. O Bazar Fotográfico idem. Ali perto nas Romanas foi a Casa do Chá que se vaporizou subitamente (um domingo estava lá, no seguinte não estava).
O turismo de nostalgia nas Pedras faz-se, portanto, apontando buracos, clareiras, ocos. Como vi o neto de um velho hóspede, com uma criança pela mão, fazer há dias. «O bisavô dormiu ali em cima [Avelames] e o papá nos últimos anos dormiu aqui [Pensão do Parque]». “Aqui” é agora um parque infantil e a menina espreitou com suspeita ou ressentimento o pai: que direito tivera ele de pernoitar num baloiço que agora negava à filha?

O turista avisado mune-se de máquina fotográfica e acorre célere às Pedras. Quando volta, ou se se atrasa, já não encontra edifícios que antes pareciam fazer parte do ADN da terra, mesmo que em ruínas. Nem edifícios nem fundações, apenas vazios onde rapidamente cresce a erva.

A mim este confronto com inesperada arqueologia forneceu já matéria para um romance e em parte para outro. Mas o mundo passava melhor sem os meus livros do que sem as termas das Pedras Salgadas.

Esperar o fim no Palace Hotel de Vidago


Tenho definitivamente uma costela de velho aristocrata. Não é à toa que me encanta o ghost writer por detrás de Francisco José Viegas: o saudoso António Sousa Homem cujos escritos ortónimos ao que sei cessaram, embora ande algo deles n’O Coleccionador de Erva, do seu pseudónimo mais famoso. Passeando por Vidago, dou comigo a lamentar a decadência das famílias e dos costumes que deixa semideserto o parque em favor de um Algarve novo-rico, plebeu e dum sensualismo exibicionista, suado e pegajoso. Pessoalmente, não me desagrada que a afluência a Vidago seja baixa no dia em que ali me dirijo. Tomo-a até como um sinal de respeito, de consideração pelo meu olfacto sensível. É conceptualmente que me lamento. Imaginaria — com caduco romantismo e grande abnegação, bem se vê — que os calores de Agosto fariam recuar as pessoas de bom gosto às sombras frondosas de um parque termal e não avançar belicamente para as areias marroquinas do Andalus. Mas depois ponho-me no lugar do tuga hodierno: o que há para fazer no parque de Vidago? Passear à sombra de plátanos, tílias e quejanda vegetação? Sentar em bancos de jardim como que à espera de um transporte que não vem? Namoriscar de castas mãos dadas em homenagem à avozinha? O golfe é um aborrecimento de milionários. O ténis e a piscina são só para clientes do hotel. A terapêutica biliar faz-se hoje com químicos, e nunca no Verão.

Há uma saudade cor de amêndoa na maioria das epidermes lusas, prova de que a presença árabe ou berbere no nosso genoma é maior do que estamos dispostos a admitir. O português quer retomar no Verão o aspecto dos seus ancestrais mais carregadamente mediterrânicos, por isso se põe a tostar ao sol em vez de ir beber copinhos de água para as termas, à sombra, como faria o outro lado da família, com sangue mais asturiano.
No meu corpo, a reconquista começou há uns anos e, se não me devolveu a fé cristã, pelo menos devolveu-me o horror ao sol directo e o gosto por castelos e palácios. Sim, passaria bem o Verão no Palace de Vidago, andando descalço e transgressor pela relva do green de dezoito buracos que sobe a encosta e serpenteia deliciosamente pelos bosques e depois pelo pinhal, jogando ao final da tarde um ténis desastroso no court escondido como um recanto amoroso, tomando atrasado os meus pequenos-almoços sob um anacrónico guarda-sol às listas (já não há) no terraço com pernadas de hera à espreita na balaustrada, forçando-me a evitar a piscina por ter memória da antiga e não querer profaná-la mergulhando no enxerto de Sisa actual, lendo avolumadas e pacientes páginas nos tais bancos de Godot (ou, de novo transgredindo, de barriga para o ar na relva aparada e fresca do buraco 17) e, claro, jantando demoradamente no salão nobre como um orgulhoso conde austríaco com os turcos às portas de Viena.

Os meus momentos de pessimismo ou fatalismo não me deprimem. Como se viu naquele outro post (“Esperar o fim no Solar Bragançano”), apenas tornam efervescente o meu sangue azul e estimulam — para alegria moral da troika e seus apaniguados — a minha propensão perdulária. Sim, talvez um destes dias estoure o vencimento de meses num retiro palaciano. Era isto o que pensava enquanto bebia estilosamente, para afastar a crise, um caro branco alentejano na esplanada ocidental do Club House de Vidago.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

No prelo

Enquanto a tipografia faz o seu trabalho, eis uma antevisão do que será o livrinho.
Sendo o primeiro a ir ao prelo, Os Idiotas não é o meu primeiro romance. É o terceiro. Avançou em vez dos outros porque houve uma editora catalã que se deixou enganar e porque diz-se que uma parte da obra a torna particularmente adequada à saison.

A editora descreve-o assim:
«O Lúcio, o Luís, o Óscar, o Avelino, o Sérgio e o Vasco foram em tempos pessoas quase normais, projectos individuais de cidadania como outros quaisquer. O que hoje são e aquilo a que se dedicam não se resume tão facilmente, embora possamos tentar encontrar uma tímida explicação na trágica convergência de certos eus e de determinadas circunstâncias. Aos idiotas, ainda por cima, calhou-lhes Bồ Đào Nha como país, um pedaço de terra que lhes impõe uma visão do mundo apocalíptica e irada, a de um presente desértico a cavalgar para um futuro impossível, estilhaçado pela corrupção e por uma montanha compacta de sobreposições non sense. Os idiotas poderiam ter permanecido assim, em desequilíbrio perfeito, para sempre, mas a chegada de Helen, uma mulher misteriosa e dorida, vem catalisar o inevitável.
Romance futurista? Não... Os idiotas acontece hoje, aqui e agora. Os idiotas acontece-nos. ‘O que quer que sejamos, somo-lo por oposição aos cretinos, que são o resto das pessoas' diz, algures, o Lúcio. E, se calhar, diz bem.»
Mais informações em www.osidiotas.pt e www.facebook.com/osidiotaslivro.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Episódios televisivos (2)

No telejornal da RTP, a repórter consegue aguentar sem se rir (e sem se suicidar) durante todos os longos minutos que dura a premente reportagem sobre uma “praga” de mosquitos no Algarve. Entrevista barmen, clientes, transeuntes e banhistas com a mesma expressão severa dos colegas que são vistos à porta de ministérios ou de sedes de partidos tentando criar uma reportagem sem assunto sobre pessoas ausentes. Não se desfez nem quando pediu a um rapaz que exibisse perante a câmara o vermelhão de uma terrível e decerto fatal picadela de melga.
Se aos repórteres não lhes fixam os músculos faciais com um veneno paralisante antes de irem para o ar, é porque há nas televisões cursos sobre controlo do riso — e obliteração da auto-estima.

No estúdio, José Rodrigues dos Santos e os seus pavilhões auriculares lideravam a notícia com o entusiasmo do costume, mas dele sabemos ser capaz de transformar qualquer crepuscular e estival invasão de pernilongos numa ribombante Tempestade no Deserto. É do género emotivo e facilmente impressionável. Tome-se a forma como olha a sua obra literária. 

Episódios televisivos (1)

Na TVI, uma apresentadora de ar jovial e atitude picaresca, falando rápido demais e muito divertida com o seu trabalho numa qualquer feira ou romaria do país profundo, descobre com gritinhos histéricos que a vaca no curral por trás de si resolveu aliviar a bexiga. Tomando aquilo por um fenómeno do Entroncamento, a urbana e excitável menina resolve estar perante um momento alto televisivo e insiste no assunto, aos pulinhos e aos risinhos, mantendo o nível de histeria, chamando a atenção dos espectadores, puxando o braço do cameraman. Mais tarde no mesmo programa sobre os portugueses como eles são, a mesma extrovertida e agora ainda mais descontrolada rapariga fará semelhante cobertura televisiva do momento em que aquela ou outra vaca cumpre os seus ciclos biológicos aliviando em directo desta vez o intestino.

Sendo a vaca o único ser vivo com aspecto respeitável no recinto, suspeito que o olhar lacónico do animal escondia um espírito sarcástico, corrosivo, com talento para a metáfora endereçada — e sem receio da escatologia. Claro que a rapariga-apresentadora não estava familiarizada com tais subtilezas do intelecto, havia outro DNA nos seus cromossomas, estava noutro nível da evolução.


domingo, 4 de agosto de 2013

Os amigos de Lúcio (6): Vasco

«O Vasco é um perigo na estrada e mesmo fora desse elemento não é aconselhável estar por perto dele. Tem um carácter volátil e uns braços em autogestão. Não conheci ninguém capaz de fazer cair tanta louça. As garrafas e os copos alinhados em cima de um balcão são como pinos de bowling para ele, sente um impulso inconsciente mas irresistível de os derrubar. Se estão em cima de uma bandeja, com um empregado experiente a fazer um hábil slalom pela sala, o desafio é maior, mas ele está à altura.»

Lúcio in Os Idiotas

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Os amigos de Lúcio (5): Sérgio

«O Sérgio usa umas barbas de tamanho considerável. Aliás, nele tudo tem tamanho considerável, e quando digo tudo quero dizer tudo. É altíssimo, usa também o cabelo comprido, calça 47, tem longos dedos de pianista e deixa as mulheres a sonhar, quando informadas do resto da anatomia. Infelizmente para as senhoras, ele está mais interessado nas causas ambientalistas do que no sexo. E, de qualquer modo, mesmo que lhe interessasse a fornicação, a alegria não seria delas, porque o Sérgio, embora nunca tenha pensado no assunto, é gay.»

Lúcio in Os Idiotas

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os amigos de Lúcio (4): Avelino

«O Avelino sacrificou a mulher. Era o seu primeiro casamento e o segundo dela. Quando se conheceram, ela apaixonou-se logo pela sua capacidade de pacientemente a ouvir listar os defeitos do primeiro marido. No jantar inaugural, que o Avelino planeou escrupulosamente, ficaram algumas horas no restaurante a analisar as causas da bancarrota do seu antecessor, um tema central para ela. O momento em que ela se deixou acariciar na face coincidiu com uma observação particularmente sagaz dele a propósito de um investimento mal calculado do ex dela. O Avelino era bancário e lia os suplementos de economia dos jornais, mas sobretudo estava decidido a tomar o partido da sua futura mulher.»

in Os Idiotas

Os amigos de Lúcio (3): Óscar

«O Óscar é um rústico com os trajes de um dandy. Tem o rosto e os braços morenos de um trabalhador do campo — um daqueles antigos e feios criados de quinta, com genes e dentição imperfeitos, olhos escuros, desconfiados —, mas veste belos casacos e blusões, em tons por vezes improváveis. Na Suíça, onde viveu e trabalhou, reformaram-no compulsivamente e asseguraram-se que ele entrava no comboio. Um distúrbio qualquer, uma incapacidade permanente. Preferiram ficar a pagar para o ver longe. Ainda assim, esteve lá tempo que chegasse para adquirir modos e tiques urbanos, para copiar posturas e requebros que o seu escanzelado couro de servo da gleba interpreta como pode. Fuma como um actor da idade de ouro de Hollywood, encostado de mão no bolso aos umbrais das portas, à mobília das salas, mas ri, nas raras vezes que o faz, como todos os seus boçais antepassados — e as mulas que montavam.»

terça-feira, 30 de julho de 2013

Os amigos de Lúcio (2): Luís

«O Luís é bispo das Testemunhas de Jeová. Ou era, foi expulso. O problema dele é que amava a Deus mas também amava ao vinho. Durante anos conseguiu resistir às tentações e fez uma bela carreira. Nos últimos tempos questionou a sua fé e descobriu que ainda se mantinha viva: era ela a certeza de que há muitas formas de exultar, mas só o álcool embriaga realmente. Pode ter que ver com reacções químicas, mera biologia, mas de alguma forma a alma deixa-se tocar. De resto, a degradação do fígado é só uma forma de apressar o encontro com o Senhor, aspiração última de todos os fiéis.»

Lúcio in ‘Os Idiotas’

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Carpe aestivum

— Por vezes — disse Mário — penso que o Verão, aquela altura do ano em que vamos definitivamente ser felizes, é um mito, uma projecção dos nossos desejos mais íntimos. Ou talvez uma evocação. Sim, definitivamente uma evocação. Vejamos: o Verão existiu, um dia houve Verão. Não é como Deus ou os santos, nos quais temos de acreditar sem evidências nem testemunhos, cegamente. Não é uma questão de fé — mas está imbuído da mesma intangibilidade. Temos as nossas memórias dele, sem dúvida que temos. A felicidade estava ali, por todo o lado, inundando tudo naqueles fins-de-tarde intermináveis, como uma cornucópia generosa que não parasse de jorrar luz e prazer e boas coisas a todo o momento, um regador gigante manuseado pela mão de Deus, aspergindo com uma nuvem de vapor inebriante, muito fina e suave e fresca, os nossos dias incontáveis e incontados.
— Mas o Verão — continuou Mário — não tem existência senão no passado, por isso o seu carácter mitológico. Ano após ano alimentamos a esperança de que agora é que vai ser, vamos repetir tudo a que temos direito, o ócio, as sestas depois de almoço, os planos para as diferentes partes do dia que se não se cumprirem não importa pois há tantos dias à escolha, as manhãs sem fim, os almoços longos, com sobremesa, as tardes a perder de vista, os jantares com guitarras e cantorias eufóricas, as noites também habitáveis, usufruíveis (a uma da manhã à distância da Namíbia, se não mais longe ainda, de qualquer modo sempre para lá do Bojador).
— Depois eles acabaram com o Verão. A humanidade prestes a cumprir-se (as máquinas farão as coisas chatas, dizia-se em 1900 — em 1900!) e eles a acabar com o Verão. A tecnologia de ponta, a riqueza, o voto universal, a igualdade, o amor livre, o homem na Lua, tantas evoluções — e eles a acabar com o Verão.
— Em 1967 eu ainda não sabia que eles estavam a acabar com o Verão. Quer dizer, eu estava a nascer, não é?, não podia reparar logo nisso, tinha as minhas próprias prioridades. Durante os primeiros anos e os seguintes, tudo o que fiz foi aproveitar o Verão, carpe aestivum. Não de uma forma táctica, oportunista, reflectida, filosófica, ideológica. Não. Nada disso. No sentido menos consciente da expressão. Apenas mergulhando plenamente nele, de trombas, de barriga, de costas, lançando-me para ele como pudesse e a todo o momento. O Verão estava ali à mão de semear, era gratuito, para todos, cada um que fizesse dele o que quisesse. Não havia um minuto a perder (embora houvesse imensos minutos para perder), tudo o que tínhamos a fazer era dar uma corridinha rápida, um saltinho para o ar na beira e, zás, cair nele de cabeça, formosamente, atleticamente, imensamente, para sempre.
— Sim, para sempre. Aqueles que mergulharam no Verão naqueles anos sabem do que falo. São, como eu, os despojados do Verão. O cume da raça humana, a quem subitamente tiraram o tapete de debaixo dos pés. O tapete não, a prancha, o trampolim. Íamos nós para mais um salto, joelhos ligeiramente flectidos para o impulso que nos lançaria nos céus como um Ícaro sem percalços e de repente também nós temos um percalço. O maior deles todos. Não há prancha. Não há trampolim. Não há Verão. De todo. Há apenas a queda. A longa e interminável queda. O lado simétrico do Verão. Algo que nos puxava para baixo onde antes nos sentíamos enlevados. Para baixo, sempre para baixo, Alice caindo pelo buraco mas sem nunca chegar ao País das Maravilhas. Nem a lado nenhum. Nem sequer ao Inferno, que poderia ser um sucedâneo do Verão, com o seu próprio calorzinho. Não. Nada. Apenas a queda. A Queda e o Tempo. Tempo para ponderar a perda. Para gravar mais profundamente na nossa pele o que estávamos a perder. Não como o Verão gravava na pele a sua infinita bondade, com uma cor, um tom, o bronze, nalguns casos o ébano puro — sem escaldões nem melanomas.
— Depois de alguma vez se ter entrado no Verão, como eu entrei, como nós entrámos, a vida torna-se muito difícil. Há a Queda, claro — aguardamos a todo o momento ficarmos esborrachados, como um poio a cair do cu de uma vaca lacónica —, há a queda, mas houve o Verão. Estamos para aqui a cair, sempre a cair, mas temos uma memória, algures no nosso cérebro temos registos de que houve um Verão. Um não, dez ou vinte, a eterna repetição, a terna repetição da melhor coisa que o mundo teve. Haverá castigo maior do que esse? Conhecer o Paraíso e perdê-lo? Saber como as coisas podem ser e depois sermos informados de que nunca mais as coisas serão assim? Que daqui para a frente o que nos resta é lembrar, lembrar e chorar a perda até à neurose? Freud, Freud, onde andas? Era isto que tu querias, não era, meu sacana? A humanidade a remoer as suas neuroses e a comprar os excitantes, os calmantes, os soníferos que gajos como eu prescrevem aos outros e a si mesmos. Que bela ideia de negócio, a tua, ó sócio.
— Quer dizer, se ao menos as férias não fossem apenas um mês, se pudéssemos ir três meses para França, para o Loire, alugar um castelo com piscina até nos aborrecermos… Deliro, bem sei. Fico sempre assim quando chega o Verão — concluiu Mário.

*in Aranda

sábado, 27 de julho de 2013

Lyre Bird

Os vizinhos da esquerda e da direita têm as televisões sintonizadas no mesmo canal merdoso que entretém e lava o cérebro dos reformados deste país, um dos três canais merdosos que Rangel, Moniz & C. Lda. nos legaram. Como são bastante surdos (os vizinhos), têm geralmente o volume dos aparelhos no vermelho, e a essa circunstância irritante junta-se o delay, o atraso na recepção do sinal entre a TV à esquerda e a TV à direita. Resulta que se não me distraio o suficiente ouço a Júlia Pinheiro, a Fátima Lopes e as novelas em cânone, estão a imaginar o pesadelo.
Hoje apenas uma das televisões estava ligada e, talvez resultado da boa combinação entre Foster Wallace e um tinto carregado alentejano, de repente pareceu-me que o vizinho sul (o outro dormia a sesta) ouvia ‘Elephant’, das Warpaint.  Apurei o ouvido e foi difícil convencerem-me que era apenas mais uma pimbalhice que o vento distorcia ao ponto de fazer parecer música o que era apenas gargarejos de um cérebro aditivado com botox.

Liguei o portátil para vos dar conta deste fenómeno alentejano e acabei a pôr as meninas de Los Angeles a cantar. Para meu espanto, o vizinho acordado (o outro ressonava), que eu julgava surdo como um portão de quinta, no final da música continuou com o assobio do outro lado do muro a melodia principal de ‘Elephant’, como se fosse um conhecedor profundo da obra das Warpaint. Repeti a experiência com o mesmo resultado e concluí que, ao contrário do propagado por Moniz, Rangel & Sons, o povo não têm necessariamente mau gosto — ou que o vizinho tem alma de Lyre Bird.  

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Insuficiências da juventude

Eles estão nos quarentas. Duas delas andam pelos trinta e a outra ainda não sabe o que é isso. As despesas da conversa correm sobretudo por conta deles e abordam dois tópicos: desporto e saúde. Eles fazem jogging, vão ao ginásio. Estão elegantes, planeiam maratonas. Já pesaram mais do que deviam e tiveram a respectiva ameaça de remédios para o colesterol. Agora fazem desporto e tomam atenção ao que comem. Falam durante um bocado de hambúrgueres, mas só pejorativamente, com detalhe de antigo agarrado. Comparam dietas de diferentes países, concluindo que por aqui se come mal (não exactamente do ponto de vista do paladar). Um deles exibe, como bilhete de lotaria premiado, o ticket de uma daquelas máquinas que medem tudo: massa corporal, peso, altura, pulsação, tensão arterial. Trocam informações sobre os últimos valores do colesterol. Falam de dores nos joelhos e nos tornozelos. E de exames, feitos e agendados. Banais TACs, mas também endoscopias e colonoscopias. Aqui começa a ser difícil distingui-los de reformados na sala de espera do centro de saúde. Discutem se dói, se não dói. Se a anestesia, que se paga à parte, mesmo estando isento, é uma necessidade ou uma mariquice. Falam da impressão ou emoção (nisto divergem) de ver no ecrã o interior das próprias entranhas, da dificuldade e do suor da médica nas manobras de aproximação ao intestino delgado, da limpeza que o exame revelou (resultado de uma preparação bem feita).

Os elementos femininos vão intervindo a espaços, tentando fazer humor, aduzindo testemunhos de pais ou tios, experiências de que ouviram falar. A mulher mais nova há muito que mudou de cadeira e se recostou à sombra de uma sebe, com ar melancólico, observando o voo dos insectos à luz dos candeeiros. Quando finalmente dão por isso, as outras metem-se com ela, perguntam-lhe o que se passa. Ela sai do silêncio e do torpor com ânsia de palrar: está farta desta conversa, só falam de coisas de que ela não sabe, de que não percebe nada. Di-lo com uma expressão sinceramente desolada, de quem queria participar no convívio e se sente frustrado por não ter as ferramentas, os argumentos — e não, como podia, a vangloriar-se da sua juventude.

Quim Barreiros dirige JN por um dia

Ao que parece, o 'Jornal de Notícias' apresentará uma excelente prova de bom gosto como manchete de amanhã (hoje, para a maior parte de vocês). A tentação é culpar o jornal, mas um jornal não existe sem leitores. O Norte, e não só o Norte boçal, tem defendido teimosamente o JN como o “seu” jornal, apenas porque o pasquim inclui mais páginas de noticiário regional, mesmo que irrelevante. Os empresários e as luminárias do Norte sempre preferiram a noticiazinha paroquial, ainda que medíocre, a uma informação decente. As mesas de café, os consultórios de dentista e todos os velhos solares acima do Mondego revestem-se de JN. Não sei porque se queixam de o Norte ter perdido influência. Parece-me que disputamos bem o primeiro lugar ao 'Correio da Manhã' no que toca a irrelevância ruidosa e grotesca.

(Isto faz-me lembrar como, à escala provincial, os transmontanos preferiram deixar morrer o 'Semanário Transmontano', o único jornal digno de prelo que aqui conheci.)



terça-feira, 16 de julho de 2013

Notícias d'O Lado Esquerdo

A campanha alegre de Os Idiotas continua: progressos na ilustração da capa, ISBN, amigos facebookianos do Lúcio (que por sinal está agora a começar a apresentar os seus amigos reais...).
Tudo aqui: www.osidiotas.pt, aqui: www.facebook.com/osidiotaslivro e aqui: www.facebook.com/luciopeixao.

«Somos seis no grupo e não é fácil dizer qual de nós é o mais alienado. Se fôssemos adolescentes, suponho que nos chamariam freaks, nerds, ou coisa assim, mas com esta idade a palavra é outra, embora resulte de prospecção no mesmo campo semântico. O que quer que sejamos, somo-lo por oposição aos cretinos, que são o resto das pessoas.
Os outros são o Luís, o Óscar, o Avelino, o Sérgio e o Vasco. Eu sou o Lúcio (o prazer é todo vosso).»

sábado, 13 de julho de 2013

Remexer no lixo

[Outros parágrafos de um falhanço dos idos de Março. Os primeiros estão aqui.]

«Decerto alguns de vocês pensaram que é preciso um tipo descer muito na vida para se passear pelas ruas nu e com a barba por fazer, os ossos mal seguros por umas pelicas de frango depenado. Outros, pelo contrário, ficaram encantados com a publicidade que eu tive, aquilo era uma coisa que vocês podiam fazer. Afinal, toda a gente anda a tentar dar nas vistas, a desenvolver uma nova metafísica da existência: apareço, logo existo. Mas não escondo que tinha descido na vida. Tinha descido às profundezas do Inferno e não foi porque me enganasse no caminho quando tentava vernianamente descobrir o centro da Terra — não tenho a sorte nem o espírito aventureiro, ou a astúcia, de um Pedro Álvares Cabral. Se fui parar ao Inferno foi porque meti no GPS essas exactas coordenadas e obedeci com satisfação a cada directiva dada pela menina concupiscente do TomTom.

Tudo começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento, era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias, quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente erradas.
A mim a tropa trazia-me entre o divertido e o entediado, mas frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no mármore oxidado dos lavatórios dava graças aos céus por ter sido brindado com um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados. Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde apetecia assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me um calduço. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à hierarquia.
Depois de sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona, incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de suor, e as botas, pretas como pneus novos de chaimite parafinados). Ao contrário da maioria das lojas, ali não se aceitavam trocas, pelo que éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que, numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa, tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada a atmosfera empestada da caserna.
(...)
De resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora disso não me preocupava demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes. Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica (como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a violência da G3). Enfim, um rol de limitações e exigências que poderia baralhar um tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em que apareci na parada, com o atraso do costume, embrulhado em branco-noiva quando todos estavam de verde-oliva ou vestido para ir às putas quando havia ordem de permanência de fim-de-semana.» 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Shoplifters Of The World Unite*

Conheci-o nos anos oitenta. Tinha o queixo afiado e insolente de Morrissey e dançava como ele. A teatralidade do cantor britânico era para a terra uma estranheza — vagamente sedutora para alguns, repulsiva ou embaraçosa para os outros. Para Pierre era uma segunda pele, mexia-se nela com o à-vontade do original que emulava e a quem servia de arauto nas berças. O facto de ter estado emigrado numa grande metrópole europeia e de ser, ao contrário dos demais, ainda que circunstancialmente, de origens urbanas, facilitava-lhe, claro, a apropriação do imaginário e do guarda-roupa pop. Parecia um excêntrico, mas era apenas alguém que adoptara um estilo. De uma sofisticação vulgar noutras paragens, assaz extravagante na província.
Na pista de dança dir-se-ia exibicionista, mas só porque o resto dos noctâmbulos dançávamos como tímidos e artríticos. Ele entregava-se à música com o mesmo ar compungido ou desesperado de Morrisey, agarrando os próprios ombros, colocando dramaticamente as costas da mão na testa, virando os olhos aos céus, vivendo emocionalmente o que ouvia nas colunas da discoteca, sobretudo se o que ouvia era The Smiths.
A amizade com os autóctones teria de ocorrer, porque Pierre, agora domiciliado na terra, era ali inusitado mas não tinha perfil de solitário. Contrastava nos grupos, mas acabaria por frequentar os mesmos sítios e seguir as rotinas clássicas do burgo. Trazia hábitos de consumo de marijuana cosmopolitas, e os posteriores problemas com as drogas que partilhou com parte da juventude indígena pareciam nele mais charmosos e românticos. Quando teve de trabalhar, já numa fase descendente, parecia uma estrela de TV a cumprir uma pena de serviço cívico. Era o único servente de trolha que chegava já de manhã com os jeans arregaçados, e usava o boné com a maior pala de todo o sector local da construção civil. Era dos poucos, na altura, que tomava banho e acertava o penteado entre o final do expediente e as primeiras cervejas da noite.
Algures na viragem do século perdi-lhe o rasto. Já só o via ocasionalmente, à boleia, diziam-me que a caminho do dealer. Chegaram-me rumores, que cobardemente não refutei, que o davam como internado em centros de desintoxicação — como tantos outros, nisto não seria original.
Quando o voltei a ver, de novo magro como o Morrisey de 82, mas agora talvez mais parecido com o Michael Stipe dos anos 2000, careca e consumido como ele, a primeira coisa que notei foi a franqueza do aperto de mão. Delicado mas envolvente. Falámos de música, claro, que ele amava com a mesma intensidade mas com um gosto mais ecléctico. Tinha um programa de rádio e uma mágoa por não ter dinheiro para ir ver todos os concertos de que gostava. Disse isto sem ressentimento, com uma certa humildade, sem o ar desafiante ou provocador que ser pós-punk nos oitenta lhe dava. (Não, não era humildade, era melancolia, realismo dorido.)
Não sei se a minha amizade com Pierre poderia ser agora mais intensa e franca do que há vinte e cinco anos, mas sei que a lembrança do nosso encontro acabou de me comover. Não confundam isto com condescendência ou piedade, nem ele precisa disso nem eu estou em posição de tais sentimentos, seria pretensioso e patético. É talvez um reconhecimento, o ver nele os meus próprios sonhos irrealizados. Ou uma premonição.


* The Smiths, single de 1987

terça-feira, 9 de julho de 2013

Estou lixado

Depois de trabalharem e de cumprirem os seus ritos comunitários pós-prandiais, que nas noites quentes de Verão se alargam, as pessoas vão para casa. Eu vou para a varanda. As ondas de calor fazem de mim um sem-abrigo, porque tornam os compartimentos do T3 território inóspito para a humanidade. Leio e dormito na cadeira de plástico da varanda até ser demasiado doloroso segurar a cabeça e então, alta madrugada, arrasto-me para a cama, sabendo que vou suar as estopinhas cada hora de sono mal dormido.
Hoje, depois de há muito escancarar todos os vãos nas duas fachadas do prédio, a aproveitar como náufrago a brisa que se levantou, consegui finalmente, às quatro da manhã, baixar em dois graus a temperatura cá em casa (de 32 para 30). Significa que sentar-me ao computador é um exercício de masoquismo um pouco menos clamoroso.
Se tivesse um jardim com plantas arbustivas, poderia preencher estas madrugadas de canícula esculpindo ou fazendo a poda, como uma das vizinhas da rua de trás. Não é a primeira vez que ouço a velha senhora atarefar-se alta noite, mas geralmente apenas trata de despejar o lixo no contentor ao fundo da rua ou de arrumar o pátio a horas inesperadas. Ontem muniu-se de escadote e, em bata sobre camisa de dormir, tesourou durante hora e meia, varrendo de seguida minuciosamente o passeio.  Não a podemos censurar: fazer aquele trabalho de dia teria sido suicídio e as insónias não têm de ser meros períodos de desespero, podem ser rentabilizadas.
É o que tenho tentado fazer, com menos sucesso do que a minha vizinha. Havia, teoricamente, uma certa correspondência entre o labor dela e o meu. Ambos decidíramos podar, ela os seus ciprestes, loureiros, carpa europeia ou o que quer que lhe nasceu no jardim, eu as provas do meu Os idiotas. Acontece que, ao contrário dela, eu não me consigo livrar dos ramos secos, desordenados, murchos, apodrecidos, porque nesse caso teria de me livrar de toda a obra.
O que escrevi atrás não é falsa modéstia, autodepreciação pedante. Explico-me melhor: eu estava apenas a tentar imaginar uma versão do romance que pudesse apresentar ao meu pai. E concluí que ela não existe. Se pusesse de lado a linguagem obscena, a sátira, a incompassiva crónica de costumes, ficaria talvez com uma novela amorosa ou psicológica nas mãos — negra, desesperançada, dispensável ou igualmente inapresentável. Estou lixado. Escrevi uma comédia, mas levá-la lá para casa será como contar uma anedota porca à mesa de jantar. Impensável.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

'Os Idiotas'

Para os devidos efeitos, faço constar:

«Uma campanha alegre: edição do romance ‘Os Idiotas’
Com o Governo em frangalhos e o país pouco mais ou menos, poderia parecer de mau tom vir agora anunciar a edição de um livro com o título ‘Os Idiotas’. Outra forma de ver a coisa é que não há momento tão adequado como este. Seja como for. O Lado Esquerdo Editora tem o prazer de informar que prepara a publicação em Setembro do romance ‘Os Idiotas’, de Rui Ângelo Araújo. Em período de eleições autárquicas (e quem sabe legislativas), estamos em campanha. Uma campanha alegre.
Acompanhe-nos no site www.osidiotas.pt ou em www.facebook.com/osidiotaslivro.
(Numa definição arriscadamente redutora, Os Idiotas é uma sátira divertida que junta o declínio de um país ao declínio de um homem.)»

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Este livro não é para si, não compre

«Mansfield Park é seguramente a obra mais controversa e menos amada pelos apreciadores da escrita de Jane Austen. (…) Por estas e outras razões, Mansfield Park (…) é um romance complexo e de alguma forma estranho para os leitores assíduos de Jane Austen.»

As frases anteriores abrem e fecham, respectivamente, a sinopse da edição de Mansfield Park pela Book.it. Quando a editora do grupo Sonae decidiu publicar o livro, fê-lo naturalmente achando que «Jane Austen permanece até hoje como uma das mais lidas e amadas romancistas de língua inglesa de sempre», como afirma na badana. Mas na hora de escolher uma sinopse para a contracapa, uma de duas coisas aconteceu:
i) o editor foi a net e traduziu sem ler ou perceber o primeiro trecho que encontrou a falar sobre o livro;
ii) o editor estava chateado com a ideias de Belmiro de Azevedo quanto ao que é um ordenado e resolveu, por vingança, espantar os leitores previsíveis do romance. É bom ver um indignado em acção onde menos se espera.

Claro que o textito pode atrair um outro tipo de clientela. Gente que não aprecia Jane Austen. Ou gente que, distraída, se entusiasme com a possibilidade de aquele ser um romance complexo. Mas desconfio que, para os padrões de Belmiro, estas vendas não chegarão para eleger o editor como funcionário do mês na Sonae.

Também não é seguro que a exportação seja uma saída. Afirmar na ficha técnica que «Este livro foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico» dificilmente convencerá o público brasileiro de que Jane Austen é um potencial novo Prémio Portugal Telecom.

Talvez por isso os meus amigos o tenham comprado por um euro. 

Tea Party Portugal

Um dos colaboradores do Blasfémias reclama um «Tea Party Brasil». Faz sentido. Poderia aproveitar e pedir a mudança do nome do blogue onde escreve. Tea Party Portugal assentava melhor e era mais honesto para um sítio como aquele.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Menos Estado (2)

Se a transacção para uma sociedade com menos Estado feita à maneira da troika é dolorosa em todo o lado, para muitas localidades do interior do país ela será fatal. Há concelhos inteiros que não sobreviverão sem função pública. Toda a sua economia está centrada nas instituições públicas e no emprego público. É isto saudável? Provavelmente não. Mas conviria que o Governo e os seus arautos se detivessem um minuto no assunto. Que assumissem publicamente que um brutal aceleramento da desertificação do interior é um dano colateral aceitável na demanda da sociedade perfeita. Porque é isso que vai acontecer. Um cenário de western com ossadas a assomar do pó. Só que as ossadas não serão de búfalos, mas as dos velhos e de todos os que não terão como cumprir o êxodo rural ou a proverbial emigração lusa.

Menos Estado (1)

Já se percebeu que os defensores de menos Estado não têm capacidade para pensar em mais nada. São monomaníacos. Perigosos. Porque nas actuais circunstâncias menos Estado é apenas igual a mais desemprego e menos economia. Uma abordagem sensata da crise pela União Europeia e pelo FMI teria implicado uma estratégia de fortalecimento do sector privado como alavanca para o emagrecimento do Estado. Porém, como os inconsequentes actos de contrição do FMI provam, as instituições da troika não são constituídas por gente sensata, mas por ideologia em estado puro. O objectivo daquelas instituições não parece ser uma sociedade melhor — mas uma sociedade, adivinharam, com menos Estado. Para alcançar o objectivo não se constroem estratégias razoáveis e praticáveis — avança-se a eito e à bruta, por decreto ou ultimato.
Argumentarão que a troca das premissas não era condição para o fracasso. Que, pelo contrário, começar por emagrecer o Estado é que era condição para fortalecer o sector privado. Talvez uns anos antes pudesse ter sido assim. Talvez daqui a uns anos possa ser assim.
Neste período, emagrecer o Estado implicará emagrecer uma parte substancial da população.

Talvez em certos sistemas filosóficos ou ideológicos seja legítimo sacrificar uma parte da sociedade para que a outra sobreviva com menos Estado. Já se sabe: onde uns vêm distopias, outros vêem utopias. É tudo uma questão de perspectiva — e de ter ou não ter almoçado. 

Um país às direitas

Certos comentadores de direita, apesar de quotidianamente afirmarem que este Governo é incompetente, de passarem o tempo a irritar-se com este Governo, de não hesitarem em chamar “socialistas” a ministros deste Governo, não cessam de o apoiar. E porquê? Porque na verdade o Governo expira o mesmo ar pesado desta direita mais ideológica e contamina com ele a atmosfera geral — e isso é a única coisa que importa. Não importa que o Governo não tenha mudado nada do que estava realmente mal em Portugal. Boys? Aumentaram. Favorecimentos? Mantiveram-se. Instituições e gestores incompetentes? Certamente aquelas não diminuíram ou diminuíram por acaso, apanhadas na avalanche demolidora, e poucos destes foram demitidos (sendo, aliás, logo compensados com outros de igual calibre mas da ideologia certa). Pelo caminho foi dispensada gente competente, mas que vota mal, e destruídas instituições que não envergonhavam o Estado.
Importa é que de dia para dia se abre o caminho à Besta de certa direita (ou ao Caos, logo veremos).
O que o Governo fez foi munir-se de bulldozers para derrubar todo o bosque onde supostamente estavam as árvores más — e nós sabemos como a direita thatcheriana adora bulldozers. Entrar simplesmente nos antros de incompetência e nepotismo e identificar os elementos podres, como faziam os regedores florestais, nem sequer passou pela cabeça destes bacharéis. Cria-se o estigma, prepara-se a opinião pública (e há uma quantidade incrível de tipos auto-iludidos com o seu suposto conhecimento do país prontos a segurar este tipo de bandeiras) e leva-se tudo à frente. Para fazer o que tem feito, o Governo não precisava de contratar assessores nem de encomendar estudos (e no entanto contratou e encomendou sem constrangimentos). Bastava-lhe deitar sortes, com dados ou outro instrumento do mesmo rigor e critério. O resultado não teria sido diferente. Haverá alguém no meio deste excitadiço circo neoliberal que acredite ter-se melhorado o que quer que fosse no que se refere a corrupção, oportunismo, nepotismo, má gestão e incompetência em geral? Que isso foi sequer preocupação do Governo? Se não abundassem respostas a estas perguntas, bastaria olhar para a forma como os partidos da maioria estão a lidar com as autárquicas — que decorrerão como se não houvesse crise e como se Portugal não tivesse nada a aprender com as últimas décadas. Vários dos mesmos comentadores de direita que enchem as bochechas de moral e ética contra o Estado estão no terreno a posicionar-se ou a posicionar os seus peões, as suas brigadas jotas e os seus dinossauros escleróticos para o grande banquete da cacicagem.

A única coisa que mudará em Portugal depois deste Governo será o número de desempregados e de instituições entaipadas.*


*E a posição relativa do Borda d´Água em relação ao Excel no ranking.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Casais vice-versa

Há casais onde o homem é a versão masculina da mulher e ela a versão feminina dele. Na fisionomia, nas posturas, por vezes também em certos traços do carácter. Talvez essa correspondência, essa simetria de espelho, tenha sido o que os atraiu desde o primeiro momento. Ou talvez os anos de vida em comum os tenham moldado à imagem um do outro. Velhos casais que nos parecem incestuosos, constituídos por ignotos irmãos gémeos. Senhores de meia-idade de modos suaves e cara imberbe que copia a da mulher, ou mulheres rudes e viris a quem só falta o bigode do marido.
O casal de hoje ainda não tinha idade para se ter moldado pelo convívio dos anos, mas estava já adiantado no processo de osmose: de mão dada, exibiam a mesma barriga de cerveja, as mesmas pernas roliças, a mesma roupa branca, o mesmo cabelo castanho curto e o mesmo rosto levantado e avançado, como se a tentar evitar que os grandes óculos de sol, um pouco mais apressados, os deixassem para trás. Não pode haver mais identificação entre dois amantes do que aquele jeito partilhado de equilibrista de circo esforçando-se por tentear qualquer coisa na testa que ameaça escapar-lhe e o faz dar passos em frente e para o lado, num bailado sem coreografia rígida. Ambos tinham narizes pequenos para os óculos que adquiriram, e isso não foi um simples equívoco da vaidade — foi um equívoco partilhado, certamente na mesma sessão de compras.

A hora dos papagaios

Três mulheres, um petiz. Chegam e a mais velha instala-se com o rapaz num dos bancos de balouço. A mulher tem um ar apatetado e o timbre instável de um adolescente na mudança de voz. O miúdo utiliza frequentemente a expressão «credo» com uma entoação e uns trejeitos que parecem trair
a) excesso de convívio com a mulher mais velha (a quem a expressão assenta perfeitamente)
b) uma precoce postura irónica, zombeteira.
Olhamos-lhe para a cara, da mesma linhagem da dela, e inclinamo-nos para a hipótese do convívio, o puto como papagaio inconsciente e sem dolo da tia ou avó.
Depois as outras duas mulheres sentam-se nas imediações e ela, dando às pernas no balouço, enche o peito de ar a despropósito:
— Se fosse eu, punha os desempregados a semear batatas ali naquele campo. Se recusassem, não recebiam um tostão. Os desempregados e os do rendimento mínimo. Haviam de ver.
As correntes gemem com o vaivém e a sua voz concorre com elas na mesma frequência de agudos oxidados.
— Se fosse eu que mandasse, era assim. Eles não iam gostar, pois está claro, mas comigo trabalhavam, se queriam.
As outras, como se a levassem a sério, falam entre si de agricultura, naquele tom vago e ocioso de domingo à tarde. Fazem cálculos por alto a despesas e lucros com certa hipótese de lavoura e parecem concluir pela inutilidade da empreitada.
Ela não as ouve ou não desarma.
— Eu dava-lhes o desemprego! Se fosse eu que mandasse?
O miúdo tornou-se irrequieto e exigiu atenção. A diatribe da mulher interrompeu-se quando ela se ia referir aos funcionários públicos. Não pudemos ouvir que impropérios teria no seu repertório para esta outra espécie.
Podemos conjecturar que se tratava de uma seguidora atenta do Governo, possivelmente uma empreendedora de sucesso, ou alguém cujo mérito no trabalho deixa longe o espectro do desemprego.
Ou podemos correr o risco do preconceito (quem vê caras não vê corações?) e não pôr de parte a possibilidade de se tratar de uma reformada, quiçá da função pública, fascinada pela retórica tribal e o olhito azul de Passos Coelho. As mentes simples tendem a papaguear o que ouvem. Não é, rapaz?
— Credo!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jantando com Martin Amis, Casanova e Geoff Dyer

Assistir (é este o termo) à entrevista de Rogério Casanova a Geoff Dyer na Ler é um exercício de masoquismo. A erudição e o escrúpulo literário do português vergastam-nos e deixam o próprio entrevistado entre o intelectualmente embevecido (quando o cérebro geek e coleccionador de autógrafos de Casanova está ao serviço de uma espécie de private flattery) e o ligeiramente claudicante (quando Rogério e a sua inteligência ficam à solta e resolvem eles mesmos discorrer sobre os assuntos que previamente propuseram a Dyer). Numa conversa destas sobra para nós o lugar de espectador perdido — e para os nossos queixos a função natural de caírem bovinamente.
Claro que podemos adoptar uma atitude revanchista, a de avançar pelo mato das citações e das referências empunhando como catana a nossa própria e miserável experiência. Martin Amis é ali previsivelmente tido como um Deus do Olimpo? Bem, sempre podemos defender-nos dizendo que não se aguenta um London Fields a seguir a um Money. A bem da nossa própria idolatração, aconselha-se entremear um breve Night Train ou um diverso The Pregnant Widow, talvez um The Information, se o stock de vinho estiver em níveis razoáveis. Não podemos decerto dizer, como Geoff, que Amis um dia jantou em nossa casa, mas podemos sempre jurar que o regurgitaríamos (ao jantar) (e ao escritor) se ele aparecesse sem respeitar o tempo de digestão e a variedade na dieta aconselhados pelo endocrinologista.
Quanto à assertiva harmonia entre os interlocutores na entrevista, podemos ser pícaros e enviar para o consultório de Casanova na Ler uma pergunta sobre As Correcções, de Jonathan Franzen. Ficou ele ou não deprimido por saber que o desistente precoce* e muito casanoviano enjoado autor de Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga tinha passado três semanas «muito felizes» a ler até ao fim a obra do tipo que fez capa da Time como o novo grande romancista americano?**


* Geoff Dyer, precocemente schopenhaueriano, diz que a sua «capacidade de desistir de um livro não tem paralelo»1.

** Depois desta frase não levo a mal que o leitor use o inalador para a asma.

1 O escritor também diz que há uma «progressão neutral» que reduz um dia os leitores masculinos à «vontade de não ler mais nada a não ser história militar». Na minha neurologia de bolso, eu imaginava que a isto se chamava regressão, regresso à adolescência e aos soldadinhos de chumbo.(a)

(a) Esta sucessão de notas foi o meu ocioso momento wallaciano.i

Franzen diz que ele e David Foster Wallace eram amigos. Não tive ainda oportunidade de saber o que pensa sobre isto Casanova.

sábado, 8 de junho de 2013

O Fim da Feira

Para poupar um clique, eis na íntegra o texto de J. Rentes de Carvalho:

«Este ano não há, mas
O FIM DA FEIRA NÃO É O FIM DA FESTA                                                                                                                                
Concordem: um aviãozinho a fazer piruetas e a deitar fumo colorido, um futebol, uma corrida de atletas, um comício, uma noite de São João, tudo isso conta para distrair e repousar.Sabemo-lo nós, sabem-no os autarcas do Porto que, diligentes no descanso do espírito e na necessidade de divertimento dos portuenses, se mostram fiéis seguidores do Panem et Circenses dos imperadores romanos. O pão, infelizmente, terá cada um de ganhar o seu, mas jogos, festas, divertimentos, é com eles.E assim, embora de mau grado, me vejo a concordar que a Câmara do Porto não apoie a Feira do Livro.Raro anda ali multidão para encher uma bancada. Não se ouvem tambores, trombetas, castanholas ou apitos, foguete nenhum. Em vez de se agitar em festa, aquela gente ora caminha com o nariz em livros, ora demora nos escaparates, olhando como em transe. É povo que parece não ter aprendido a dar vivas, nem a agitar bandeiras, em vez de dar patadas de entusiasmo move-se com a calma de quem visita a igreja.Será boato, mas já ouvi que boa porção dos que a visitam são atreitos a pensar pela própria cabeça e gostam de aprender, qualidades que levam à inquietação e daí ao descontentamento,  à rebeldia.
Este era o começo. Ia-me inclinando para o jocoso, mas há risco em ser tomado à letra,  melhor é entrar no assunto e, com simplicidade e respeito, inquirir dos senhores autarcas se, de facto, os cofres da edilidade portuense se encontram depenados a ponto de não haver neles a "migalha" com que contribuíam para Feira.Acho duvidoso que assim seja. Antes quero crer que os livros, a leitura, a escrita, nem peso-pluma são nas decisões do município, devem-lhe parecer carolice de uns quantos, e que esses quantos melhor emprego dariam ao tempo indo ver aviõezinhos a fumegar.Tanto como desprezo pela legítima vontade, e o direito dos cidadãos, em prosseguir actividades que lhes aumentem o conhecimento e enriqueçam o intelecto, semelhante atitude denota uma soberba de mandões à moda antiga, a do tempo em que uns poucos riscavam e o resto calava.Calados já não ficamos, mas no mais pouco mudou, que para mal nosso a democracia ainda vai de muletas e a prepotência continua enraizada. Com o estafado argumento de que não há dinheiro, decide o autarca que a Feira do Livro não se realiza. Mas mostra ele as contas? Os cálculos que fez? Prova aos cidadãos a justeza do que decidiu?Não mostra nem prova. Decide com arrogância ao gosto da própria vontade, ignorando o tempo em que vive. Porque poderá ter sido eleito pela maioria de uns, mas é sua obrigação atender ao interesse geral. E as Feiras do Livro não interessam apenas a uns quantos carolas que gostam de ler, mas a todos os que anseiam por algo mais que o superficial, o passageiro.  Interessam sobretudo aos jovens, para quem os livros são janela aberta para o conhecimento, a cidadania, a esperança de viverem numa sociedade harmoniosa nos direitos, nos deveres, no respeito do que contribui para o bem comum. Não se vê de imediato, mas as Feiras do Livro contribuem.»

É isto, totalmente isto

«A Feira do Livro no Porto em 2013»
(clique para ler)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

[Intervalo]

Quem se tem dado ao trabalho de vir a este blogue nos últimos tempos já se deve ter apercebido que há tipos que não sabem respeitar o célebre bloqueio de escritor e a dignidade da página em branco.

Calhamaços

A Quetzal merece ser mil vezes louvada por ter editado A Piada Infinita, mas merece também um par de chicotadas por ter editado a obra num só volume e tê-lo feito antes de dar oportunidade ao revisor para uma segunda leitura.
O prazer de ler o livro é infelizmente a cada passo contrariado pela dificuldade em o manusear e pelas vezes em que temos de nos deter a avaliar se estamos perante uma gralha ou um escrúpulo do tradutor. Sabemos que o livro tem diferentes registos, diferentes construções frásicas e formas de observar a gramática, mas não raro confirmamos, depois de forçados a reler uma oração (ou uma passagem inteira), que, ainda assim, também tem gralhas e infelicidades tradutivas.
Esperámos 15 anos pela tradução — tínhamos esperado mais um para que ela fosse impoluta. E também tínhamos pago mais um euro ou dois para adquirir uma coisa com capas duras que nos evitasse luxações nos pulsos.
(Bem, quanto a este segundo aspecto, posso ser só eu ou o início da osteoporose a embirrar. Lembro-me que li o Ulysses em edição de capas moles e A Montanha Mágica num exemplar já sem capas e não me lembro de me ter queixado. No caso do primeiro, e tirando o monólogo interior da Molly Bloom, é certo que também já não me lembro do que nele li. Do segundo lembro-me de o ter lido de Inverno e de ele me ter aquecido sem ter de lhe chegar fogo. Tomem isto como uma boa crítica, por favor.)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Thin tank

No meu rotineiro exercício de masoquismo (a versão oficial defende que é abertura de espírito), passo os olhos pelo Blasfémias e, atendendo à assertividade do sítio, frequentemente me pergunto se não deveríamos entregar o governo do país à direita de Vítor Cunha, João Miranda, Rui A. e Gabriel Silva. Mas depois uma voz me diz: «Mas essa direita está no Governo e tem dado no que se vê!» E logo outra voz corrige: «Essa direita, ponto e vírgula: os rapazes não se entendem o suficiente entre si para que se possa dizer que há uma solução de direita para a crise ou para o que quer que seja.» O que não impede nenhum deles de ser 100% categórico, de estar 100% cheio de razão, 100% discordante de qualquer ideia de esquerda ou meramente dubitativa. Some-se a isso o histerismo fóbico de Helena Matos, a contribuição zelota de José Manuel Fernandes e a pegada deixada pelo hilário (e muito sintomático) Carlos Abreu Amorim* e temos ali um think tank de luxo.

* Estarão à espera de quê para contratar o ex-ministro e dr. Relvas para o lugar deixado vago na chafarica? 

domingo, 26 de maio de 2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A propósito de Wagner (ou não)

Há Wagner há duzentos anos, é claro, e toda uma galeria de compositores antes e depois dele. Mas, embora ame e rejubile com a música clássica (ou erudita ou o que quiserem), temo ser demasiado plebeu para encarnar um verdadeiro amante do género. E talvez a pop seja uma sina dos que formam o carácter nos anos oitenta do século XX.
Nunca nenhum disco tocou tanto nas minhas orelhas como Snow Borne Sorrow, dos Nine Horses (David Sylvian). Há certamente aberturas mais respeitáveis nos anais da música, mas o falso optimismo ou alegria melancólica de “Wonderful World”, primeiro tema do álbum, é que põe os altifalantes do Chevrolet a vibrar, dando um sentido ao Inverno ou, se nos permitirmos certa indulgência, um slogan à Primavera.

E depois há o terceiro tema, com o contrabaixo a marcar-nos a pulsação — cujo título, “The Banality of Evil”, nos pode afinal remeter para Bayreuth. 

Esqueci-me de perguntar

O Blasfémias já excomungou o camarada Carlos Abreu Amorim, CAA para os amigos, depois de este ter traído São Vítor Gaspar?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Frase do dia 2

«Pai de Passos Coelho aconselha o filho a demitir-se. ‘Isto não tem conserto. Entrega isto.’»*

A argumentação é mais de avô, mas certos pais conseguem também este grau de indulgência e cumplicidade, tomando sempre o partido da prole. Como se depois de o estouvado do rapaz se ter mandado contra o louceiro, deixando tudo em cacos, o avô (no caso, o pai) fizesse a proverbial vista grossa e, tipicamente, com infinito amor, admoestando o móvel em vez do fedelho, sentenciasse: «Deixa lá, a louça não prestava.»

Para aplicar um correctivo à criatura teríamos de invocar uma perceptora. Ou uma governanta mais afeiçoada à louça do que ao pequeno lorde. Não se põe de parte que ande por aí alguma.

* Jornal I

Frase do dia 1

Jogos de palavras orwellianos são tão habituais neste Governo como respirar. E ele está ofegante.

A frase, bela e lapidar, é de Pacheco Pereira, a propósito da novilíngua do Governo, onde “requalificar” significa despedir.

P.S. Pacheco não a escreveu bem assim; retoquei-lhe um pouco estilo, mas não o sentido.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Livros excessivos

Recomecei finalmente a ler as mil páginas de A Piada Infinita e reencontrei um dos meus marcadores preferidos, comprado na Casa de Sefarad, em Córdova. Quando no Inverno tentei ler pela primeira vez o tijolo de David Foster Wallace (como referido aqui) devo ter usado aquele marcador e nunca mais o encontrei, mesmo depois de o procurar naquele mesmo volume. E agora não apareceu na primeira sessão de leitura, só à terceira, juntando-se ao de Carcassone a que tinha entretanto recorrido. Na segunda sessão aparecera um que o livro trazia de origem, verde, com umas raquetes de ténis.
Hoje à tarde, enquanto exercitava os bíceps com o calhamaço (minto, enquanto o tentava encaixar no Skype), um novo marcador verde se revelou. Foi aí que me lembrei de alguém ter dito que o livro vinha com dois, um para as páginas principais, outro para as notas.
Há bocado não dava com as chaves de casa e ocorreu-me logo que poderiam estar dentro da Piada Infinita. Não estavam. Mas encontrei lá o corta-unhas que usei depois do banho. E o suplemento de emprego do Expresso.
É por estas coisas que o livro se torna pesado e difícil de ler, não pela escrita do autor. A Quetzal não podia tê-lo dividido em volumes? Ou pelo menos arranjado uma capa dura? É que daqui a pouco vou-me deitar e já tremo só de pensar no esforço para segurar o livro. No meu último pesadelo ele caiu-me na cara. Ainda vou ter de tirar preventivamente a cana do nariz, como diz que fazem os boxeurs. Apre.  

Personagens incríveis: Maria Teixeira Alves

Há pessoas que pensamos que não existem, são mera ficção hilária. Maria Teixeira Alves, jornalista, blogger e depósito de preconceitos, é uma delas. Pela forma como escreve e argumenta, é um permanente atentado à língua e à inteligência. Mas isso não a coíbe de dividir os jornalistas em duas classes para criar o seu próprio pedestal: os engajados e os que têm «muito» mérito. «Acho que é fácil perceberem porque continuo a ser jornalista», diz ela sem rebuço.
Leia-se esta pérola:
«Os ignóbeis socialistas e bloquistas vão levar amanhã mais uma vez a adopção de crianças por duas pessoas homossexuais do mesmo sexo que vivam juntas, ao Parlamento. Não se enganem, todas as manifs, todos os Grandolas Vilas Morenas, todos os Galambas e Dragos, todos os actos de terrorismo de interrupção de membros do Governo em actos públicos, têm um único objectivo "dar crianças aos homossexuais".»
A senhora não é uma figura patusca do Portugal profundo, é jornalista do Diário Económico e escreve no Corta-Fitas. Para uma risada mais cómoda, pode ser lida no seu próprio blogue, humildemente intitulado Farpas. Mas atenção: Maria Alves avisa que escusam de ir lá insultá-la, porque ela não dá cobertura a insultos. Não precisa. Como alguém comentou algures, a sua retórica insulta-se a si própria.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Reinterpretando as profecias

Não devia ter-se rido quando lhe disseram que ainda havia de mingar na vida. Não era falta de vocabulário. Não era dislalia. Não era para rir.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A farsa de Inês (Teotónio) Pereira

Um artigo de Inês Teotonio Pereira no I tem sido vergastado na rede, e não se pode dizer que o não mereça. Merece-o sobretudo pela inoportunidade e pelo maniqueísmo.
Em tempos melhores do que este, até poderíamos defender a autora na parte que diz respeito à educação dos seus filhos. Ela é acusada de não os saber educar e essa acusação é injusta. A maioria dos que a acusam (apegando-se à irrelevante fábula que ela escreveu em vez de à moral da história nela implícita) não pode reivindicar para si mesma um trabalho melhor do que o dela. Se o pudesse, o mundo adolescente não era a barbárie fútil e assustadora que sabemos ser esmagadoramente.
Os problemas da farsa de Inês Pereira são outros, os que referi.
A inoportunidade. Por mais críticas que haja a fazer ao socialismo (ou melhor, ao PS, não temos de partilhar do preconceito da senhora quanto à ideologia), parece um anacronismo ou uma desfaçatez insistir no exercício depois de dois anos de despautério PSD/CDS. No mínimo, a incompetência e a vilania de Passos e Portas deveriam moderar-lhe o discurso.
O maniqueísmo. No universo a preto e branco da senhora Teotónio Pereira o adolescente típico que ela no fundo descreve é “socialista” porque ela odeia o socialismo. Mas na verdade, não só são também assim “socialistas” os adolescentes PP e PSD como o têm igualmente sido os políticos desses dois partidos.
O problema português foi (e é) comportamental (e transversal) e a senhora quer fazer-nos crer que é ideológico. Que os defeitos não são de carácter mas de filiação partidária. Que não foram a corrupção, o nepotismo, a irresponsabilidade, o oportunismo e outros vícios da índole lusa a trazer-nos aqui, mas as convicções políticas de alguns. Que se a ideia de Passos de criminalizar os governantes nocivos fosse avante se deveriam prender todos os que professam o socialismo, não os que cometeram crimes ou esbanjaram dinheiro. No fundo, Inês Teotónio Pereira quer que a esquerda seja não uma posição política, mas um estigma social, talvez o cadastro policial de uma agremiação criminosa.
Na sua concepção maniqueísta do mundo, Inês Teotónio Pereira não se coíbe de implicitamente defender que do outro lado da barricada, do seu lado, as pessoas são justas por natureza, e se têm dinheiro é porque é delas por direito. O seu penúltimo parágrafo é uma defesa pungente desta ideia. Reparem que não há lugar no argumentário da senhora para questionar quem tem o dinheiro. Os socialistas são quem arruína as nações. Os ricos, se têm o que têm, foi porque, justa e impolutamente, o mereceram. É feio invejá-los. Proibido questioná-los. E isso que ela diz aos seus filhos e ao país.