— Não ficavas feliz se te saísse [o euromilhões]?
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.
Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Hermenêutica futebolística
O amigo chegou, encomendou a sandes e a mini ao balcão e virou-se para
a TV, onde passava um jogo de campeonato estrangeiro. O outro, quando se deu
conta, arrastou-se lá do fundo e, depois do cumprimento, atirou:
— O árbitro está a ser tendencioso a favor dos azuis.
O tom era neutro, indiferente, de quem invoca as condições climatéricas
para início de conversa.
Reflectindo nas palavras, fiquei na dúvida se aquela observação de circunstância
significava que:
a) É possível dedicar-se uma atenção mecânica mas minuciosa a um jogo de
futebol mesmo que se desconheça os clubes ou eles não sejam suficientemente importantes
para merecerem ser fixados;
b) A parcialidade da arbitragem ou a crença de que há parcialidade na
arbitragem são tão inerentes aos jogos quanto a rotundidade da bola;
c) Os rituais de desculpabilização e a hermenêutica televisiva mudaram
o foco do jogo para a incidentalidade.
d) O autor da observação era um irredimível benfiquista.
Mas, pensando bem, talvez fosse apenas verdade que o árbitro estava a ser tendencioso
a favor dos estrunfes.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Perder tempo
Uns vinte anos depois de ter pousado a viola-baixo, dei por mim na
última madrugada a assistir online a
lições sobre matérias prementes como walking
bass lines, slap e the secret triplet (admirável técnica),
ministradas por um tal Scott Devine. Não tenho qualquer intenção (ou
esperança?) de voltar a pegar na guitarra e as tarefas que nos próximos tempos me
esperam não convivem bem com este diletantismo fora de horas. Acresce que,
tirando certas facetas parvas do emprego, todas as tarefas que me esperam têm a
particularidade de serem prazerosas — ou necessárias, úteis e prazerosas — e envolvem livros.
Porquê então esta tendência para a perda de tempo? Racionalmente, não comungo
da definição de liberdade expressa no poema de Fernando Pessoa (Ai que prazer / não cumprir um dever.
/ Ter um livro para ler / e não o fazer! / Ler é maçada, /
estudar é nada. / O sol doira sem literatura.)
Emocionalmente, também não, já que o meu prazer mistura o sol, a brisa, o rio, a
bruma, danças, flores, música e luar (passo as crianças) com livros.
É isto uma manifestação de irreprimível curiosidade? De fome de
conhecimento? Ou uma forma velada de descer à franca humanidade dos que passam os
serões e as décadas vendo novelas, futebol ou reality shows como se não houvesse outro sentido para a vida?
Vou por esta prova de fraqueza, da minha iniludível pertença ao género
humano. Uma parte de mim também desiste a espaços perante o absurdo de uma
existência efémera. Para quê fazer um gesto que nada muda se podemos ficar
simplesmente à espera?
Ou talvez não, talvez isto seja apenas um problema de gestão da
curiosidade. Lembro-me agora que depois dos vídeos, já se descarregavam as hortaliças
no mercado, ainda fui perceber a razão por que o baixista Devine tocava com luvas. Distonia Focal, descobri, uma doença
neurológica que afecta um músculo ou conjuntos de músculos e causa espasmos
involuntários. O uso de luvas de seda (terapêutica chique, de ambivalente
delicadeza) altera a sensibilidade e engana os neurónios avariados, bloqueando as
contracções.
Descoberta útil, não? Não?
terça-feira, 29 de outubro de 2013
O Padrinho
Na Periférica, a coluna de J.
Rentes de Carvalho tinha o título deste post. Todas as rubricas eram na revista
nomeadas a partir de filmes e a sugestão de O Padrinho para a crónica dele foi absolutamente incontroversa — não sendo a boutade o argumento principal, já que em
rigor não havia uma boutade no título.
Mais de uma dezena de anos depois, aquilo de sábado na Traga-Mundos não
foi bem um debute, uma entronização que JRC apadrinhasse. Foi um reencontro
afectivo. De vez em quando, para revermos amigos, para podermos ter aquele
abraço reconfortante, para recebermos a bênção balsâmica de um patrinu, de um pater, temos de trocar as voltas à vida, criar situações onde tal
possa ocorrer. No sábado, todos (até eu) exagerámos dizendo que estávamos ali a
propósito d’Os Idiotas — mas ninguém escondia
com muita convicção que estávamos ali para recebermos afecto e um pouco daquela
espantosa energia vital de Rentes de Carvalho.
Il padrino, pelo seu lado, não
foi avaro, foi aliás desmedido — para meu embaraço. O texto com que se prontificou a participar na instrumental apresentação do livro, o trecho que se
me refere, deve por isso ser lido apenas como uma enorme e paternal demonstração de
generosidade.segunda-feira, 28 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
Diz que há vinho
E pronto, é hoje. Quem quiser conversar sobre idiotas comigo e com Rentes de Carvalho, apareça às 21h30 na Traga-Mundos. Diz que há vinho.
(Os que estão longe, não se impacientem, novas apresentações serão anunciadas já, já.)
(Os que estão longe, não se impacientem, novas apresentações serão anunciadas já, já.)
(clique para ampliar)
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Da praxe no parque à escatologia: ensaio taxonómico sobre a academia
A propósito de uma sucessão de casos, ou antes, da cobertura jornalística
de casos de francos excessos nas praxes académicas, e em sequência de uma débil
pressão social ou de uma réstia de escrúpulos, algumas universidades lá assumiram
que lhes cabiam desempenhar um papel, não exactamente na formação de carácter
dos seus alunos (não exageremos), mas de moderação da selvajaria. Passaram a
existir regras um pouco mais restritivas para a praxe em alguns campus. Como em
certas cidades mais progressivas do farwest,
os alunos foram convidados a deixar as armas no portão. Se querem brincar aos
índios e cowboys, que o façam lá fora.
A academia nada tem contra os tiroteios e a caça ao escalpe — desde que essas românticas
actividades ocorram extramuros.
E também assim a academia volta as costas à comunidade, ao mesmo tempo
que renega as suas incumbências fingindo que a sua jurisdição sobre o estudante
é limitada pela vedação do campus.
Os grupos de praxe, aliás, parecem não caber no âmbito jurisdicional de
nenhuma instituição, civil ou uniformizada. Desde que notoriamente envolvidos —
quer como vítimas, quer como algozes — nessa fundamental ocupação dos vinte
anos que é a praxe, é-lhes passado um livre-trânsito, uma espécie de carta de
alforria para a ignomínia e o vandalismo, sem limitação de decibéis.
Se você, caro cidadão, dando-lhe
na veneta, resolvesse, como por aqui se faz, chafurdar ou fazer bodyboard na relva húmida de um parque até
transformar o círculo do seu enchafurdamento num lamaçal, ou arrancar, com
sequelas para o futuro botânico do sítio, qualquer vestígio de relva no
percurso do seu reiterado deslizamento, provavelmente teria um funcionário
municipal ou um agente da autoridade a censurar-lhe o comportamento (por mais genuinamente
divertido que você estivesse) e a sacar do bloco de multas para lhe pedir contas.
Tratando-se de grupos de praxe, as instituições do Estado quando muito abanam a
cabeça com aquela indulgência que se oferece às crianças e aos malucos da
terra.
Tempos houve em que as cidades médias viam no estudante universitário a
galinha-dos-ovos-de-ouro e temiam incomodar a debicante espécie com os seus
escrúpulos e as suas preocupações cívicas (se as tinham). Galinhas desta estirpe,
achava a mentalidade mercantil dos burgos, deviam ser deixadas a cacarejar estridentemente
antes de cada postura. A caca de galinha com que revestiam abundantemente as
calçadas da urbe não devia ser censurada, pois saía do mesmo sítio de onde
saíam os áureos ovos. A escatologia era
assim preocupação dominante nestas pequenas ou médias comunidades, quer na sua
acepção científica (relacionando a merda estudantil com a saúde económica do
condado), quer na sua dimensão filosófica (o fim dos universitários era o fim
do mundo).
Claro que da ignara e vil burguesia mercantil e das instituições dos
burgos, constituídas tantas vezes por meros perus emproados ou galináceos da
mesma cepa estudantil, não se esperariam conhecimentos zootécnicos. Era natural
que desconhecessem serem inúteis as asas das aves poedeiras e, por isso,
desadequado o temor melodramático quanto à fuga das galinhas. Seria talvez uma iconoclastia
humilhante e traumática alguém informar as comunidades que os Gallus gallus aureos, vulgo estudantes
universitários, arrendariam igualmente casas, se alimentariam quotidianamente e
quotidianamente apanhariam pifos mesmo que algumas regras da civitas lhes fossem impostas.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Embirrando com a leitura
Na forma como cita parece revelar-se algo do carácter (ou da formação) de
um autor. Leio um ensaio onde as fontes francesas são citadas em francês e as
italianas, russas, alemãs e mesmo as anglo-saxónicas são-no em português
(quando não também em francês).
Talvez o autor tenha optado por citar as suas fontes na língua em que
as leu, é um critério. E, nesse caso, estamos perante um afrancesado, por
formação e/ou por afinidade cultural.
Com a minha mania de imaginar biografias, decidi tratar-se de um pavão
vaidoso do seu francesismo, do seu domínio da língua de Sartre. Como não tem
idade para ser um ex-expatriado ou para se ter formado no tempo em que quase
toda a gente em Portugal era culturalmente afrancesada, decido também que viveu
em França, nasceu ali, talvez filho de emigrantes orgulhosos da sua (dele)
carreira académica.
Assim tomado por esta animosidade ficcionalmente refocalizada, decido
que os livros citados no ensaio têm edições portuguesas, que o autor não aplica
às fontes francesas o critério que geralmente aplica às russas e às alemãs (citando-as
em português) por presunção, gosto ostentatório. E encontro então explicação
para a forma arrevesada como escreve o seu ensaio, num português engalanado e
hirto: é prosa de calça vincada e gola alta, ou enrolada num cachecol parisiense.
Não exactamente elegante — apenas afectada.
Ideologia e competências autárquicas
Já se sabe que para os contribuidores do Blasfémias o Estado devia desaparecer, e nesse sentido é esclarecedora
a visão caricatural das competências autárquicas que Rui A. (nome artístico ou
timidez juvenil?) apresenta neste post:
«Em vez de tapar os buracos das ruas, licenciar novos prédios*, dar um destino decente ao Bolhão e resolver os problemas do trânsito, o programa da coligação municipal Rui Moreira/PS tem por objectivos “as prioridades que foram amplamente sufragadas pelos portuenses: Coesão Social, Economia e Cultura”. “Coesão Social, Economia e Cultura”? E nas mãos do PS? Tremam, portuenses!»
É generoso da parte do blogger
blasfemo confiar os buracos e o trânsito às câmaras (quando lá no íntimo
acredita que a iniciativa privada é melhor a repor paralelepípedos e a
programar semáforos), mas conceder que sejam necessárias licenças de construção é uma absoluta extravagância da sua parte. E
a livre iniciativa? O empreendedorismo sem burocracias? Mais um pouco e Rui A. ainda
acha que os mercados devem ser regulados.
* Já agora, num país onde se construiu demais e onde as empresas de
construção estão falidas, «licenciar novos prédios» parece estupidez ou utopia
— raio de lapso num blogue tão seguro da sua clarividência.
Crueldade instrumental
Eis como numa frase (longa, é certo) se condena a crítica à irrelevância
(implícita, mesmo que não conscientemente, fazendo o elogio do marketing):
«(…) embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (…)»*
*Maria do Rosário Pedreira, editora, referindo-se ao célebre dossier do Actual sobre autores sobrevalorizados e subvalorizados.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Propaganda
Livro do dia na TSF
Os Idiotas foi hoje o livro do dia na TSF. Ouça o programa de Carlos Vaz Marques clicando neste link:
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=3475854
«Um romance que surge como a confirmação de um talento já adivinhado por quem o lia na Periférica e como uma revelação para quem só agora venha a descobrir o autor.»
Os Idiotas foi hoje o livro do dia na TSF. Ouça o programa de Carlos Vaz Marques clicando neste link:
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=2316097&audio_id=3475854
«Um romance que surge como a confirmação de um talento já adivinhado por quem o lia na Periférica e como uma revelação para quem só agora venha a descobrir o autor.»
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Más notícias
É injusto para os autores terem o azar de surgir na minha
lista depois de Foster Wallace.
Meio enganado por uma qualquer referência que li, avancei a
certa altura para Cinerama Peruana,
convencido que havia ali ecos de A Piada
Infinita. Como se usar notas de rodapé fosse suficiente para aproximar os
dois livros. Não são próximos. Talvez haja ecos de Bolaño no livro de Rodrigo
Magalhães, mas não vi nada de Wallace. E, lamento dizê-lo, a despeito do
talento do autor, aborreci-me. Certamente pela enorme sombra que lhe fez a
leitura anterior. Mas também um pouco pelo género: aquelas espécie de fábulas
eminentemente literárias e literariamente tautológicas não me apaixonam, mesmo
quando são assinadas por Borges. Foi para arquivo, a um terço do fim. Decidi
ser condescendente comigo mesmo, poupar-me o esforço.
Hoje fui buscar Uma
coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer — o que me parece más
notícias para os restantes autores da pilha.
«Todos os meninos do papá chegam a presidentes»?
Recensão de Os Idiotas na revista online Rua de Baixo:
http://www.ruadebaixo.com/os-idiotas-rui-angelo-araujo-10-10-2013.html
http://www.ruadebaixo.com/os-idiotas-rui-angelo-araujo-10-10-2013.html
sábado, 12 de outubro de 2013
Lobbies e doping na genitália alheia
O José Mário Silva diz na sua página de Facebook que «a edição desta semana do 'Actual' é capaz de dar polémica», e acrescenta um link para um post do blogue Bibliotecário de Babel que, dá para perceber, lista os temas da secção de livros do dito suplemento. O problema é que chegamos ao blogue e deparamo-nos com um artigo sobre Viagra.
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Tontarias
Como posso aspirar a tornar-me um escritor respeitável se ultimamente etiqueto a
maioria dos meus posts como
«tontarias»?
Entusiamo
O corrector ortográfico do meu Word não está acertado pelo Acordo
Ortográfico — está acertado pelo Mia Couto. Quero escrever «entusiasmo» e
sai-me «entusiamo», com uma estratégica elisão do segundo «s». Aos outros
desacertos o corrector reage sublinhando-os a vermelho. Este deixa-o
laconicamente sem marca, esperando que eu dê pelo caso e sobre ele pondere
etimologicamente.
«Entusiamo» será assim a fusão de dois termos: «entusiasmo» e «amo».
«Amo com entusiasmo», quer certamente o corrector que eu conclua, com romântico
exacerbamento.
Moldando o entusiasmo
Senti um entusiasmo inadequado e embaraçoso ao ler que Pedro Mexia escolheria Javier Marias como um dos seus dois favoritos para o Nobel deste ano. O entusiasmo foi inadequado porque o senti de um modo
pessoal, como se fosse eu o nomeado. E foi embaraçoso porque pueril, ou melhor,
servilmente penhorado. Não que sonhe ombrear com Mexia em cultura e sabedoria literárias,
mas escusava de ter acessos de entusiasmo tão obnóxios, tão avassalados por uma
lisonja dirigida a um objecto de estima mútua.
Compreendo porém o meu próprio entusiasmo. Não tendo lido muitos
títulos de Marias, entre as leituras que fiz estão os três volumes de O Teu Rosto Amanhã, uma obra que só por
si vale um Nobel. E a minha satisfação com essa magna leitura tem equivalência em
grau à perplexidade de ver os anos passar sem que a tradução portuguesa seja
retomada (a Dom Quixote editou o primeiro volume em 2005 e ficou-se por ali).
A relativa ignorância a que obra de Marias é votada em Portugal concede-lhe
aos meus olhos (ou aos olhos do meu entusiasmo) uma certa aura de autor de
culto. A simpatia pela obra e a sensação de injustiça traduzem-se numa identificação
com as suas tribulações e os seus sucessos. Admiração semelhante de outros é sentimento
de união, irmana.
Por isso, se o meu entusiasmo não fosse tão voluntarista, perante a referência
de Mexia a Marias ter-se-ia manifestado mais dignamente na forma de mero regozijo
pelo reconhecimento de um igual. Se as minhas emoções se dessem ao trabalho de
se intelectualizarem um pouco, a nomeação de Javier Marias por Mexia seria
recebida, adequadamente, com um entusiasmo
de classe, de membro de um clube restrito, exclusivo, reagindo ao nome do
escritor como ao santo-e-senha do clube. Talvez permitindo-se (o entusiasmo) um
sorriso irónico e levar dois dedos ritualizados ao Borsalino.
Mas temo que se derem o Nobel a Javier Marias, Pedro, o meu entusiasmo celebre
plebeiamente dedicando aos editores portugueses um daqueles gestos revanchistas
de jogador de futebol.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
José Rodrigues dos Santos ou Educação para a modéstia
Educado para a modéstia (a soberba descobri-a por mim mesmo mais tarde,
junto com a ironia), fascina-me a forma despudorada como José Rodrigues dos
Santos fala dos seus próprios livros. No meu quadro educacional, e se descontarmos
as conversas de balneário, a hipérbole reservava-se para os feitos dos outros,
se tínhamos a generosidade de os admirar; os nossos tratávamo-los com reserva,
rubor e olhos baixos. Por isso, quando leio entrevistas do autor de A Mão do Diabo — presumindo sempre que
são registadas fora dos locais onde tradicionalmente os rapazes cotejam as suas
galgas —, uma parte antiquada de mim pensa que ele está a falar de livros
escritos por outros. Depois lembro-me de certas teorias da conspiração, que
metem cálculos de tempo e ghost writers,
e por instantes dou-lhes crédito: se
calhar está. E assim se compreenderia a enfatuação.
Mas se considerarmos que o entusiasmo de Rodrigues do Santos não
resulta de ele se distrair e involuntariamente revelar o seu apreço pelo
trabalho dos colaboradores (o que até seria bonito); se considerarmos que ele
escreve os seus próprios livros, todos eles, temos então de perceber se a sua
arrogância tem a legitimidade da de um Mourinho, por exemplo.
No caso do futebol, estamos dispostos a engolir a bazófia de Mourinho
se depois ele ganhar os jogos e conquistar os títulos. Podemos achá-lo um
parvalhão emproado, mas é um parvalhão emproado que no fim leva a taça e
milhões de euros.
Deste ponto de vista, e embora custe equiparar a literatura a um campeonato
de gajos depilados em calças curtas, Rodrigues do Santos está também autorizado
a ser um parvalhão emproado — afinal, a sua equipa ganha fortunas e tem já uma
série de internacionalizações. E se não conquista as taças literárias é porque
elas, anacronicamente, ainda são atribuídas por críticos e júris, não pelo
terceiro anel da Luz. (Eis algo que urge alterar.)
Claro que se pode dizer que José não tem um jogo bonito, o seu futebol
é tosco, ganha muitos jogos recorrendo à mão
de Deus, para baixo todos os santos ajudam, etc., mas no fim do mês lá está
ele nos tops e as suas filas para
autógrafos, di-lo ele mesmo, dobram esquinas.
Os historiadores do futebol podem argumentar que houve noutras épocas
treinadores melhores do que Mourinho e talvez a contabilidade de títulos ainda
nem lhe seja inequivocamente favorável, não sei, mas isso importa pouco aos
adeptos actuais se ele continuar a vencer. O mesmo se passa com os rodriguinhos
de dos Santos: críticos e historiadores (como Rui Bebiano, neste post) podem defender, com razões de sobra, que a entrevista
do escritor ao I no sábado foi um «vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil», mas a sua massa
associativa (e mesmo hooligans de
outros ramos) continuará a dedicar-lhe olas e cânticos épicos.
Para além disso, na mesma entrevista de sábado e antes que a História
se pusesse com coisas, Rodrigues dos Santos tratou de a arrumar num só
parágrafo. Falando de Equador como
espécie de profeta que anunciou os seus livros messiânicos, o jornalista disse:
«Demonstrou várias coisas. Que os portugueses tinham disposição para ler um
autor português, o que até aí era como o cinema português, de que se fugia. (…)
Porque não entendiam, o que era escrito, é a terrível verdade. Os nossos
autores eram ilegíveis.»
Diria que nem Mourinho seria farofeiro o suficiente para defender que
antes dele não havia futebol, mas talvez Rodrigues dos Santos tenha evocado na sua mente o panteão das letras portuguesas e
concluído melancolicamente que não tinha de facto razões para humildade.
Espantou-me, por isso, que noutra passagem da entrevista ele
concedesse, acerca de diferentes atitudes literárias, que «umas são tão válidas
como as outras». Havia, afinal, uma reserva de modéstia no bravo best-seller. Ou então ocorreu-lhe que
também ele poderia um dia querer levar «duas páginas a descrever um armário»,
como o sádico James Joyce em Ulysses,
e mais valia sancionar preventivamente o recurso. Just for the record.
Ou será que temia incomodar uma importante facção dos seus leitores censurando
o «exercício de masoquismo» que disse ser ler o calhamaço de Joyce?
Além disso, depois de Dan Brown, o seu catavento literário pode muito bem
estar a sintonizar-se nas cinquenta sombras sadomasoquistas de E. L. James. Rodrigues
dos Santos tendo prazer a infligir sofrimento literário? Não é impossível.
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