Recensão de Os Idiotas na revista online Rua de Baixo:
http://www.ruadebaixo.com/os-idiotas-rui-angelo-araujo-10-10-2013.html
terça-feira, 15 de outubro de 2013
sábado, 12 de outubro de 2013
Lobbies e doping na genitália alheia
O José Mário Silva diz na sua página de Facebook que «a edição desta semana do 'Actual' é capaz de dar polémica», e acrescenta um link para um post do blogue Bibliotecário de Babel que, dá para perceber, lista os temas da secção de livros do dito suplemento. O problema é que chegamos ao blogue e deparamo-nos com um artigo sobre Viagra.
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.
Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:
a) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
b) o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.
(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Tontarias
Como posso aspirar a tornar-me um escritor respeitável se ultimamente etiqueto a
maioria dos meus posts como
«tontarias»?
Entusiamo
O corrector ortográfico do meu Word não está acertado pelo Acordo
Ortográfico — está acertado pelo Mia Couto. Quero escrever «entusiasmo» e
sai-me «entusiamo», com uma estratégica elisão do segundo «s». Aos outros
desacertos o corrector reage sublinhando-os a vermelho. Este deixa-o
laconicamente sem marca, esperando que eu dê pelo caso e sobre ele pondere
etimologicamente.
«Entusiamo» será assim a fusão de dois termos: «entusiasmo» e «amo».
«Amo com entusiasmo», quer certamente o corrector que eu conclua, com romântico
exacerbamento.
Moldando o entusiasmo
Senti um entusiasmo inadequado e embaraçoso ao ler que Pedro Mexia escolheria Javier Marias como um dos seus dois favoritos para o Nobel deste ano. O entusiasmo foi inadequado porque o senti de um modo
pessoal, como se fosse eu o nomeado. E foi embaraçoso porque pueril, ou melhor,
servilmente penhorado. Não que sonhe ombrear com Mexia em cultura e sabedoria literárias,
mas escusava de ter acessos de entusiasmo tão obnóxios, tão avassalados por uma
lisonja dirigida a um objecto de estima mútua.
Compreendo porém o meu próprio entusiasmo. Não tendo lido muitos
títulos de Marias, entre as leituras que fiz estão os três volumes de O Teu Rosto Amanhã, uma obra que só por
si vale um Nobel. E a minha satisfação com essa magna leitura tem equivalência em
grau à perplexidade de ver os anos passar sem que a tradução portuguesa seja
retomada (a Dom Quixote editou o primeiro volume em 2005 e ficou-se por ali).
A relativa ignorância a que obra de Marias é votada em Portugal concede-lhe
aos meus olhos (ou aos olhos do meu entusiasmo) uma certa aura de autor de
culto. A simpatia pela obra e a sensação de injustiça traduzem-se numa identificação
com as suas tribulações e os seus sucessos. Admiração semelhante de outros é sentimento
de união, irmana.
Por isso, se o meu entusiasmo não fosse tão voluntarista, perante a referência
de Mexia a Marias ter-se-ia manifestado mais dignamente na forma de mero regozijo
pelo reconhecimento de um igual. Se as minhas emoções se dessem ao trabalho de
se intelectualizarem um pouco, a nomeação de Javier Marias por Mexia seria
recebida, adequadamente, com um entusiasmo
de classe, de membro de um clube restrito, exclusivo, reagindo ao nome do
escritor como ao santo-e-senha do clube. Talvez permitindo-se (o entusiasmo) um
sorriso irónico e levar dois dedos ritualizados ao Borsalino.
Mas temo que se derem o Nobel a Javier Marias, Pedro, o meu entusiasmo celebre
plebeiamente dedicando aos editores portugueses um daqueles gestos revanchistas
de jogador de futebol.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
José Rodrigues dos Santos ou Educação para a modéstia
Educado para a modéstia (a soberba descobri-a por mim mesmo mais tarde,
junto com a ironia), fascina-me a forma despudorada como José Rodrigues dos
Santos fala dos seus próprios livros. No meu quadro educacional, e se descontarmos
as conversas de balneário, a hipérbole reservava-se para os feitos dos outros,
se tínhamos a generosidade de os admirar; os nossos tratávamo-los com reserva,
rubor e olhos baixos. Por isso, quando leio entrevistas do autor de A Mão do Diabo — presumindo sempre que
são registadas fora dos locais onde tradicionalmente os rapazes cotejam as suas
galgas —, uma parte antiquada de mim pensa que ele está a falar de livros
escritos por outros. Depois lembro-me de certas teorias da conspiração, que
metem cálculos de tempo e ghost writers,
e por instantes dou-lhes crédito: se
calhar está. E assim se compreenderia a enfatuação.
Mas se considerarmos que o entusiasmo de Rodrigues do Santos não
resulta de ele se distrair e involuntariamente revelar o seu apreço pelo
trabalho dos colaboradores (o que até seria bonito); se considerarmos que ele
escreve os seus próprios livros, todos eles, temos então de perceber se a sua
arrogância tem a legitimidade da de um Mourinho, por exemplo.
No caso do futebol, estamos dispostos a engolir a bazófia de Mourinho
se depois ele ganhar os jogos e conquistar os títulos. Podemos achá-lo um
parvalhão emproado, mas é um parvalhão emproado que no fim leva a taça e
milhões de euros.
Deste ponto de vista, e embora custe equiparar a literatura a um campeonato
de gajos depilados em calças curtas, Rodrigues do Santos está também autorizado
a ser um parvalhão emproado — afinal, a sua equipa ganha fortunas e tem já uma
série de internacionalizações. E se não conquista as taças literárias é porque
elas, anacronicamente, ainda são atribuídas por críticos e júris, não pelo
terceiro anel da Luz. (Eis algo que urge alterar.)
Claro que se pode dizer que José não tem um jogo bonito, o seu futebol
é tosco, ganha muitos jogos recorrendo à mão
de Deus, para baixo todos os santos ajudam, etc., mas no fim do mês lá está
ele nos tops e as suas filas para
autógrafos, di-lo ele mesmo, dobram esquinas.
Os historiadores do futebol podem argumentar que houve noutras épocas
treinadores melhores do que Mourinho e talvez a contabilidade de títulos ainda
nem lhe seja inequivocamente favorável, não sei, mas isso importa pouco aos
adeptos actuais se ele continuar a vencer. O mesmo se passa com os rodriguinhos
de dos Santos: críticos e historiadores (como Rui Bebiano, neste post) podem defender, com razões de sobra, que a entrevista
do escritor ao I no sábado foi um «vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil», mas a sua massa
associativa (e mesmo hooligans de
outros ramos) continuará a dedicar-lhe olas e cânticos épicos.
Para além disso, na mesma entrevista de sábado e antes que a História
se pusesse com coisas, Rodrigues dos Santos tratou de a arrumar num só
parágrafo. Falando de Equador como
espécie de profeta que anunciou os seus livros messiânicos, o jornalista disse:
«Demonstrou várias coisas. Que os portugueses tinham disposição para ler um
autor português, o que até aí era como o cinema português, de que se fugia. (…)
Porque não entendiam, o que era escrito, é a terrível verdade. Os nossos
autores eram ilegíveis.»
Diria que nem Mourinho seria farofeiro o suficiente para defender que
antes dele não havia futebol, mas talvez Rodrigues dos Santos tenha evocado na sua mente o panteão das letras portuguesas e
concluído melancolicamente que não tinha de facto razões para humildade.
Espantou-me, por isso, que noutra passagem da entrevista ele
concedesse, acerca de diferentes atitudes literárias, que «umas são tão válidas
como as outras». Havia, afinal, uma reserva de modéstia no bravo best-seller. Ou então ocorreu-lhe que
também ele poderia um dia querer levar «duas páginas a descrever um armário»,
como o sádico James Joyce em Ulysses,
e mais valia sancionar preventivamente o recurso. Just for the record.
Ou será que temia incomodar uma importante facção dos seus leitores censurando
o «exercício de masoquismo» que disse ser ler o calhamaço de Joyce?
Além disso, depois de Dan Brown, o seu catavento literário pode muito bem
estar a sintonizar-se nas cinquenta sombras sadomasoquistas de E. L. James. Rodrigues
dos Santos tendo prazer a infligir sofrimento literário? Não é impossível.
sábado, 5 de outubro de 2013
Machetada
Provavelmente — e decerto com particular incidência nas últimas
legislaturas —, sempre houve gente nos governos com alguma incapacidade para
defender os seus currículos. Quer porque eles (os currículos) eram má ficção, quer
porque eram facilmente confundidos com cadastros. Mas no governo de Passos
Coelho isso parece uma especialidade, uma cláusula.
Um tipo põe-se a pensar que, se os lugares de ministro e secretário de estado
(ou assessor) fossem a concurso, Coelho mandaria lavrar anúncio no Diário da República com a alínea: «Dá-se
preferência a quem tenha rabos-de-palha; da sua elisão trata-se a seguir, com
corrector Bic ou Pelikan, depende de quem patrocinar.»
Os currículos de Gaspar e Santos Pereira, bons rapazes e sem mácula no carácter,
pertenciam ao lote da ficção, poderiam ter sido escritos por José Rodrigues dos
Santos num dia inspirado. O de Relvas também, mas acumulava vilanias. Agora, a
ministra das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros são o topo hierárquico de
uma lista de governantes cujos currículos os habilitam com distinção ao governo
passista mas logo depois têm de passar pela lavandaria para serem apresentáveis
ao resto do país.
Desde Junho de 2011 há um campeonato para ver quem mente-mais-e-pior e,
em simultâneo, tem o raio-de-uma-lata. Os melhores nestas duas disciplinas
mantêm-se no governo ad nauseam, até
aparecerem cartazes no tour de França
e na Estação Espacial Internacional. Só saem quando a sua reputação não se distingue
da lama onde nadam.
«Machete: s. m. sabre de artilheiro com dois gumes, faca de mato, viola pequena, cavaquinho.»
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
A fé nunca morre
No Blasfémias aproveitaram o rescaldo das eleições para verter mais cera na hagiografia de Vítor Gaspar (1 e 2). Já se sabe, os santos morrem para que a fé possa sobreviver.
sábado, 28 de setembro de 2013
O civismo e a caça ao Raposo
«O civismo não nasce no coração dos homens e não está na genética de um povo. O civismo nasce na espada que protege a lei.» (Henrique Raposo, in "Uma cidade sem cães, s.f.f.", Expresso)
Por acaso, até concordo em boa parte com esta frase de Henrique Raposo. Não concordaria que fosse ele a decidir o que é “civismo” — o homúnculo é demasiado reaccionário (não misturar com conservador) e confunde demasiado os seus interesses e os do country club a que aspira ser membro com o interesse geral para que o deixemos ditar unilateralmente leis para a urbe. Como ele desejaria.
Raposo utilizou a frase num artigo onde revelou a sua utopia («pessoal,
intransmissível e impraticável», concedamos-lhe) de cidades sem cães. Eu, por exemplo, também tenho utopias
semelhantes, entre as quais as de cidades sem crianças. Parafraseando Henry Fox
(ele há-de gostar da versão british
do nome, não?, no seu fato de riscado e tudo), cidades onde um sujeito pode
estar no parque sem ser interrompido por um puto a rosnar, cidades onde um
sujeito não tem de aturar a petulância dos pais, ai, esteja descansado que ele (o
puto) não morde, nem lhe berra aos ouvidos, nem desperta em si o instinto
assassino da espécie.
Outra das utopias que tenho é a de cidades onde os fumadores não são
excepções e são decapitados de cada vez que deitam com o maior desplante a
beata ao chão, a enterram na areia da praia ou despejam os cinzeiros dos carros
nas bermas das estradas. Mas a maior e mais utópica utopia que tenho é a de
cidades sem teenagers e
universitários aos berros símios pelas ruas, a partirem garrafas e copos como
quem deita a beata por cima do ombro, com a mesma naturalidade dos gestos
comuns e aceites pela civitas, a
mijarem pela cidade inteira como se a humanidade de que com generosidade nossa ainda
os deixamos fazer parte não tivesse inventado a retrete e o recato da retrete,
a mijarem-me a porta do prédio com o mesmo à-vontade e conversas imbecis e
desprezo que têm nos balneários da escola pública que tanto custou a instituir
e que eles não merecem nem em bebés.
Os cães de Raposo são um problema na cidade, evidentemente. Há falta de
civismo por parte da uma grande parte dos donos de bichos (que, menos mal, já
não põem as suas crianças a cagar no espaço público, embora ainda as ponham a
mijar ali com irritante frequência). Há um desprezo egoísta desses mesmos donos
pelas pessoas que não simpatizam ou mesmo têm pavor dos bichos que para mim até
são geralmente amorosos. A trela ou o açaimo não são imposições da Inquisição,
são formas sensatas de procurar o equilíbrio entre quem quer passear os seus
bichos e quem a eles tem aversão ou medo. (Ainda que, se pegássemos nas ideias
neoliberais para a humanidade e as aplicássemos aos canídeos, devêssemos na
verdade soltar todos os animais da terra e deixá-los, como os rafeiros do Lemon
Brothers, competir livre e selvaticamente pelo território, pelo mercado, pelas
canelas do Raposo.)
Voltando à frase de abertura (até porque tenho de ir trabalhar, o Expresso não paga os meus devaneios), o
civismo não nasce, de facto, «no coração dos homens e não está na genética de
um povo». Não de todos os homens, não
por certo de todo o povo. O próprio Estado
de Direito é uma aberração histórica que apenas foi possível implantar porque
houve um tempo em que homens bons, cultos, inteligentes, intelectuais e, por um
acaso na história da humanidade, sensíveis
e solidários, houve um tempo, dizia, em que este género de homens tinha
acesso ao poder. Hoje, os partidos e os imbecis que lhes permitem a existência,
os mesmos imbecis que amanhã, 29 de Setembro, vão eleger dinossauros, seus delfins
ou siameses, não estão para aturar homens destes.
Não digo que o civismo «nasce na espada que protege a lei», mas em
certas alturas não passa sem ela, ou — vá lá, não sejamos tão raposisticamente medievais
na escolha das metáforas — não passa sem a multa ou o tribunal, versões extremas,
mas por vezes necessárias e ainda civilizadas, da hoje inexistente censura social
a comportamentos egoístas, cretinos e lesivos da liberdade alheia. O Estado de Direito e os seus tribunais são, aliás, o único obstáculo entre mim e o meu desejo selvático de anunciar ao
Bloco ou ao MRPP que a caça ao Raposo é legal durante todo o ano.
Dia de reflexão
1. Muitos acham ridícula a lei que impõe um dia de reflexão antes das eleições. Eu acho ridículo que a lei não imponha 15 dias de reflexão antes das eleições — incluindo o mesmo silêncio e pacatez dos sábados de véspera de urnas.
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Never mind the gap
Na altura, entre a província e a capital havia um gap um pouco maior do que aquele para que avisa intemporalmente a
voz do Metro de Londres. A admiração que a província tinha pela coreógrafa Olga
Roriz, por exemplo, era reflexa. Obediente aos media — no tempo em que os media
gastavam tempo com artistas como a Olga Roriz —, a província remetera-a para a
galeria dos notáveis da nação e tinha-lhe a vaga estima que se dedicava a influentes
estadistas estrangeiros, vivos e mortos, ou mesmo a um ou outro mais distante político
da pátria.
Um dia a coreógrafa trouxe a companhia à província e a província
acorreu engalanada ao recinto. Era a Olga Roriz! Ali chegada, a província não
conseguiu mais do que deixar cair desajeitadamente os queixos. Foi como se
alguém revelasse que afinal a Torre de Belém não era maior do que uma torre de xadrez.
Ou antes, como se fosse anunciado que o Tejo não era um rio, mas um laguito de
águas paradas e rasas. A província embasbacou. O que era aquilo? Que farsa era
aquela? Quem tinha mentido à província?
O problema era que a companhia de dança de Olga Roriz não dançava, não
nos termos em que a província se tinha habituado a imaginar a dança. Pensava-se
no folclore, no ballet ou no Fame e
nada daquilo encaixava, não sem grandes esforços da imaginação.
(O mito Pina Bausch durou porque a alemã teve o bom senso de não sair
de Lisboa sempre que veio a Portugal. E de morrer entretanto.)
Mas felizmente o desacerto entre a província e a capital foi já
bastante ultrapassado. Tirando uma ou outra distracção do jornal de Belmiro, os
media passaram basicamente a ignorar tanto
Roriz como Bausch e, muito adequadamente, inauguraram-se feiras e piqueniques
na Praça do Comércio. Suponho que a província esteja assaz satisfeita com a
aproximação que a capital lhe fez. Mas o melhor é que hoje já ninguém é
enganado, já não se fazem notáveis que não sejam transparentes à mais desarmada
vista e apresentáveis em qualquer romaria, de Unhais da Serra à TVI.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Time Out
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Deus não é um ET, bolas
Num questionário qualquer (sim, esse que no final faz de todos nós
nórdicos) fui confrontado com a questão de acreditar ou não em Deus. A pergunta,
com certa crueldade, não permitia nuances ou agnosticismos, não deixava espaço
para o conforto da neutralidade ou do adiamento. A reposta tinha de ser «sim»
ou «não». Acreditas ou não acreditas,
perguntei a mim mesmo, sentindo-me encurralado, confrontado, obrigado a
decidir-me. Disse que não, porque tudo à minha volta e dentro do meu cérebro
grita «não». Mas a dúvida permaneceu. Talvez por medo, medo católico de que os meus
modestos pecados mereçam ainda assim as chamas do Inferno. Talvez por uma
cautela de inspiração pascaliana. Certamente pela vergonha instintiva de me
mostrar crente num mundo pragmático. Respondi negativamente lamentando que não
houvesse a opção «não sabe/não responde» disponível em inquéritos mais
sensatos.
Entretanto vi um post a
informar que «Luzes no céu voltaram a ser observadas de Norte a Sul de Portugal»
e o meu coração acelerou, a minha alma excitou-se. Não como acontece aos peregrinos
que, a caminho de Fátima, desatam a cantar «a 13 de Maio…» sempre que à noite
os sobrevoam as luzes do helicóptero do INEM transportando mais uma vítima da
sua própria promessa. O post era do site
UFO Portugal e parece que as luzes não
eram balões de LEDs.
Suponho que um bispo da IURD me perguntaria o que há de errado em mim,
um tipo devidamente crismado que rejubila mais com notícias de nerds do que com as boas novas do Velho
Testamento. E alguma coisa deve haver, claro. A possibilidade de testemunhar um
milagre religioso deixa-me indiferente ou atento aos sinais de fraude,
disponível para rir e derramar paternalismo. A hipótese de um avistamento
extraterrestre, pelo contrário, põe-me a olhar discretamente os céus, a sonhar
com encontros imediatos, a correr para o clube de vídeo para alugar de novo Contacto. Embora não desaproveite a
oportunidade para rir e derramar paternalismo (nunca se deve perder uma).
Encontrar Deus é o susto de me ver desmascarado na minha hipocrisia, no
meu cinismo, na minha pusilanimidade, nos meus vícios. Encontrar um ET é tocar o
verdadeiro Mistério. Jamais senti uma epifania ou qualquer tipo de excitação da
alma ou do intelecto nos meus contactos com a Bíblia; mas senti-me inquietante
e maravilhosamente próximo do Inefável quando li Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke.
Suponho que isto diga também qualquer coisa sobre as tão propaladas virtudes
literárias da Bíblia, faça dos evangelistas autores menores, se comparados
com Isaac Azimov ou Philip K. Dick. Imagino que as coisas poderiam ser
diferentes se Marcos, Mateus, Lucas e João tivessem sabido deixar o rosto do
Senhor desconhecido, em vez de fazerem do simples acto de nos vermos ao espelho
um spoiler. Se tivessem inventado um 13.º
apóstolo tão fugaz e perturbante quanto o 8.º passageiro. Se, eles e os seus
continuadores, tivessem conseguido fazer uma narrativa menos autobiográfica,
recalcada e catártica (logo, amadora). E, claro, se não tivessem assinado os seus livros com nomes
de cantores pimba brasileiros.
sábado, 21 de setembro de 2013
Talvez divirta
Quem estiver interessado em acompanhar a saga do meu romancezinho pode fazer amizade no Facebook com o protagonista Lúcio (www.facebook.com/luciopeixao) ou clicar "Gosto" na página www.facebook.com/osidiotaslivro. Não custa nada, é útil e talvez divirta. Veja-se, por exemplo, a carta que Lúcio escreveu aos jornalistas:
«NOTÍCIA DE UM SEQUESTRO
O meu nome é Lúcio Peixe e fui sequestrado. Há uns meses enviei, sob pseudónimo, um manuscrito autobiográfico para a editora O Lado Esquerdo. Disseram-me que tinham gostado muito da obra, sobretudo pela sua tocante sinceridade, e gostariam de a publicar. Convocaram-me para um encontro onde acordaríamos os detalhes da edição. Na verdade, mal entrei nas instalações da editora, um dos raros edifícios no Alentejo com cave, bateram-me com um cão de louça na nuca e puseram-me a dormir por 48 horas. Quando acordei, estava amarrado a uma cadeira de vime, parece que produto do artesanato local, e com o verbo impedido por duas voltas de fita-adesiva castanha, da que se usa para embrulhos.
De lá para cá, conseguiram subtrair-me a password de acesso ao meu perfil do Facebook e têm-se feito passar por mim. O que pretendem exactamente não sei. Mas avançaram para a edição do livro com bizarras alterações factuais. Do autor, eu mesmo, fizeram apenas personagem da obra. O meu pseudónimo, “Rui Ângelo Araújo”, esse vitupério que em má hora resolvi inventar, surge agora como pessoa real, com um sorriso imbecil na badana que pede mesmo que o encham de alcatrão e penas, à boa maneira do farwest.
Achariam a história demasiado inverosímil para a apresentar como autobiografia? Podiam tê-lo dito, que eu tentaria adaptá-la ainda mais à realidade.
Tenho sido alimentado, felizmente, mas confesso que já estou farto de açorda e sopa de tomate. Em relação aos coentros, então, sinto uma fúria verdadeiramente pesticida.
Preciso de ajuda. Nas minhas idas à casa de banho tenho conseguido passar umas mensagens, mas os idiotas que a elas têm acesso não fazem mais do que publicá-las no Facebook, como se isso resolvesse algum problema na vida real. Na minha vida real.
Escrevo-vos porque, no debate que opõe o jornalismo clássico às novas tecnologias da comunicação, estou do vosso lado, do lado dos bons e velhos jornalistas um pouco obesos e alcoólicos. Se há uma esperança de a verdade vir ao de cima (e ser amplamente difundida) nesta crise despoletada pela edição do famigerado “romance” Os Idiotas, ela passa pelas redacções. Por favor desmascarem a cabala em que me envolveram. Ajam antes que Os Idiotas seja um bestseller pelas razões erradas: aquilo é um drama biográfico, não uma comédia ficcionada! (E muito menos uma pílula da felicidade, como já ouvi que iam anunciar. Ou um manual autárquico.)
Façam qualquer coisa em favor do livro e, já agora, chamem a merda da polícia, que já tenho as costas marcadas com um padrão de artesanato mediterrânico que não combina nada bem com a minha índole. Socorro, portanto.
Sinceramente vosso,
Lúcio Peixe
Informações úteis para a Judiciária:
www.osidiotas.pt
www.facebook.com/osidiotaslivro
http://www.revistadevinhos.pt/»
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
3* - O fim do romance
No que se refere ao romance em geral, há ainda quem vá mais longe e
vaticine a sua morte. Para já, que eu saiba, apenas um ou outro escritor
geronte (Roth), um ou outro guru das novas tendências ou tecnologias. No
primeiro caso é talvez uma questão de ego ou de mágoa: comigo morre o mundo ou o
mundo que me sobrevive nada terá que valha. No segundo caso é só uma
questão de patetice, infelizmente com o flanco coberto pelos media mais populares. Mas, de novo, há
que ter em conta a indústria e a televisão. O fim do romance pode tornar-se uma
militância, rapidamente apoiada pela matilha popular. Do mesmo modo que o fim da poesia
foi há poucos anos decretado por alguém com meios para o ajudar a tornar-se
realidade (um responsável da Porto Editora), a literatura que não inclua
vampiros, bruxos ou látex pode ver-se reduzida a samizdat de 300 exemplares
enquanto o Diabo (de Rodrigues dos Santos) esfrega um olho.
No mundo literário, importa não ignorar as diferenças — mas talvez convenha relativizá-las.
* Considerando que os posts anteriores foram os números 1 e 2 da série.
2* - Inimigos da literatura
Não é incomum as pessoas medirem o mundo pela sua própria bitola, também
se se trata do mundo o literário. Quando os escritores se arregimentam numa
escola, fazem-no quase sempre como se houvesse uma guerra e eles estivessem
numa trincheira. Fora do buraco que cavaram para si próprios, tudo deve ser
aniquilado, nada merece existência. Na versão benévola, tudo fora da trincheira
é medíocre ou inútil.
É bom que a espaços haja destes belicismos. Do confronto é que surgem
as coisas boas e novas. Almada estava provavelmente a exagerar no Manifesto Anti-Dantas,
mas foi bom que o escrevesse.
Mas passados os ardores da juventude e vencido o complexo de Édipo, é
um pouco estúpido permanecer entrincheirado.
A diversidade não deveria ser um termo restrito à ecologia.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
O romance convencional (Liberdade x A Piada Infinita)
Pessoa amiga conta-me que lhe ofereceram recentemente os romances Liberdade (de Jonathan Franzen) e A Piada Infinita (de David Foster
Wallace). Percebe-se a escolha: de forma mais ou menos assumida ou por
interpostos críticos, ambos os autores (e ambos os livros) foram candidatos à
categoria recorrente de o (novo) grande
romance americano. Quando a feliz aniversariante mostrou os presentes a um
outro amigo, ele teve uma compreensível reacção idiossincrática: «Lê muito a Piada; queimamos já aqui o Liberdade.»
É certo que Franzen competiria melhor com Wallace se o livro escolhido
fosse Correcções. Ou antes:
competiria um pouco mais no mesmo terreno de Wallace se o livro considerado
fosse este último. Contudo, Liberdade
continua a ser um grande livro, ainda que mais convencional.
Há várias razões para não se gostar de Franzen, e ser “mais convencional”
parece ser uma delas.
Um post de Nuno Costa Santos,
por exemplo, defende que «o romance convencional já não chega lá». E já não
chega lá porquê? Porque «não basta a historinhazinha, a trama branda, as
personagens bem desenhadas mas sem fogo». Porque «a realidade, contraditória e
conflituosa, está a reivindicar atenção». Porque «é necessário assumir o quase
sempre evitado "eu" — um "eu" que não é o ego tout court, é
um jogo literário arriscado entre a vida e a ficção».
Pelo meu lado, julgo excessivo presumir-se que o romance convencional
se define daquela maneira. Talvez aquilo defina um romance fraco, mas não exactamente um romance convencional. O romance
convencional terá uma história, uma trama, personagens bem desenhadas — os
diminutivos paternalistas e os qualificativos pejorativos excedem a definição.
Por outro lado, não seria descabida generosidade considerar que o romance convencional
tem tido os seus momentos de aggiornamento,
de sábia atenção à «realidade, contraditória e conflituosa», e de assumpção do
«eu».
Creio que Costa Santos, como se depreende do resto do seu texto, queria
na verdade dizer que, em sua opinião, o romance convencional não tem sabido chegar lá. Ou mesmo que o romance
convencional já não tem forma de chegar lá.
E aqui talvez entremos no domínio do estilo e das preferências.
Por ter crescido num tempo e num canto de Trás-os-Montes onde não havia tutores nem
escolas literárias ou figuras de referência, tornei-me, julgo que felizmente sem traumas,
num tipo ecléctico no que se refere a géneros e estilos. Ou talvez apenas
descomplexadamente generoso no que toca a leituras. A verdade é que se rejeito por
vezes certos livros não é porque os ache necessariamente maus. É apenas porque
estão desacertados comigo (ou, geralmente, eu com eles).
Tendo-me divertido mais com A
Piada Infinita e tendo sido mais estimulado por Wallace, não vejo contudo razões
para desconsiderar Liberdade ou temer
que o “romance convencional” já não sirva.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Praxe
Comentário de um paisano sobre a praxe ali perto: «Ainda nem os
deixaram ir ver a universidade e já os estão a foder.»
Ou de como a sageza popular é suficiente para deitar por terra qualquer
treta hipócrita sobre a praxe enquanto forma de introduzir os novos alunos na
vida universitária, de os guiar pelo campus, de os integrar na comunidade
académica.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


