No Blasfémias aproveitaram o rescaldo das eleições para verter mais cera na hagiografia de Vítor Gaspar (1 e 2). Já se sabe, os santos morrem para que a fé possa sobreviver.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
O civismo e a caça ao Raposo
«O civismo não nasce no coração dos homens e não está na genética de um povo. O civismo nasce na espada que protege a lei.» (Henrique Raposo, in "Uma cidade sem cães, s.f.f.", Expresso)
Por acaso, até concordo em boa parte com esta frase de Henrique Raposo. Não concordaria que fosse ele a decidir o que é “civismo” — o homúnculo é demasiado reaccionário (não misturar com conservador) e confunde demasiado os seus interesses e os do country club a que aspira ser membro com o interesse geral para que o deixemos ditar unilateralmente leis para a urbe. Como ele desejaria.
Raposo utilizou a frase num artigo onde revelou a sua utopia («pessoal,
intransmissível e impraticável», concedamos-lhe) de cidades sem cães. Eu, por exemplo, também tenho utopias
semelhantes, entre as quais as de cidades sem crianças. Parafraseando Henry Fox
(ele há-de gostar da versão british
do nome, não?, no seu fato de riscado e tudo), cidades onde um sujeito pode
estar no parque sem ser interrompido por um puto a rosnar, cidades onde um
sujeito não tem de aturar a petulância dos pais, ai, esteja descansado que ele (o
puto) não morde, nem lhe berra aos ouvidos, nem desperta em si o instinto
assassino da espécie.
Outra das utopias que tenho é a de cidades onde os fumadores não são
excepções e são decapitados de cada vez que deitam com o maior desplante a
beata ao chão, a enterram na areia da praia ou despejam os cinzeiros dos carros
nas bermas das estradas. Mas a maior e mais utópica utopia que tenho é a de
cidades sem teenagers e
universitários aos berros símios pelas ruas, a partirem garrafas e copos como
quem deita a beata por cima do ombro, com a mesma naturalidade dos gestos
comuns e aceites pela civitas, a
mijarem pela cidade inteira como se a humanidade de que com generosidade nossa ainda
os deixamos fazer parte não tivesse inventado a retrete e o recato da retrete,
a mijarem-me a porta do prédio com o mesmo à-vontade e conversas imbecis e
desprezo que têm nos balneários da escola pública que tanto custou a instituir
e que eles não merecem nem em bebés.
Os cães de Raposo são um problema na cidade, evidentemente. Há falta de
civismo por parte da uma grande parte dos donos de bichos (que, menos mal, já
não põem as suas crianças a cagar no espaço público, embora ainda as ponham a
mijar ali com irritante frequência). Há um desprezo egoísta desses mesmos donos
pelas pessoas que não simpatizam ou mesmo têm pavor dos bichos que para mim até
são geralmente amorosos. A trela ou o açaimo não são imposições da Inquisição,
são formas sensatas de procurar o equilíbrio entre quem quer passear os seus
bichos e quem a eles tem aversão ou medo. (Ainda que, se pegássemos nas ideias
neoliberais para a humanidade e as aplicássemos aos canídeos, devêssemos na
verdade soltar todos os animais da terra e deixá-los, como os rafeiros do Lemon
Brothers, competir livre e selvaticamente pelo território, pelo mercado, pelas
canelas do Raposo.)
Voltando à frase de abertura (até porque tenho de ir trabalhar, o Expresso não paga os meus devaneios), o
civismo não nasce, de facto, «no coração dos homens e não está na genética de
um povo». Não de todos os homens, não
por certo de todo o povo. O próprio Estado
de Direito é uma aberração histórica que apenas foi possível implantar porque
houve um tempo em que homens bons, cultos, inteligentes, intelectuais e, por um
acaso na história da humanidade, sensíveis
e solidários, houve um tempo, dizia, em que este género de homens tinha
acesso ao poder. Hoje, os partidos e os imbecis que lhes permitem a existência,
os mesmos imbecis que amanhã, 29 de Setembro, vão eleger dinossauros, seus delfins
ou siameses, não estão para aturar homens destes.
Não digo que o civismo «nasce na espada que protege a lei», mas em
certas alturas não passa sem ela, ou — vá lá, não sejamos tão raposisticamente medievais
na escolha das metáforas — não passa sem a multa ou o tribunal, versões extremas,
mas por vezes necessárias e ainda civilizadas, da hoje inexistente censura social
a comportamentos egoístas, cretinos e lesivos da liberdade alheia. O Estado de Direito e os seus tribunais são, aliás, o único obstáculo entre mim e o meu desejo selvático de anunciar ao
Bloco ou ao MRPP que a caça ao Raposo é legal durante todo o ano.
Dia de reflexão
1. Muitos acham ridícula a lei que impõe um dia de reflexão antes das eleições. Eu acho ridículo que a lei não imponha 15 dias de reflexão antes das eleições — incluindo o mesmo silêncio e pacatez dos sábados de véspera de urnas.
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Never mind the gap
Na altura, entre a província e a capital havia um gap um pouco maior do que aquele para que avisa intemporalmente a
voz do Metro de Londres. A admiração que a província tinha pela coreógrafa Olga
Roriz, por exemplo, era reflexa. Obediente aos media — no tempo em que os media
gastavam tempo com artistas como a Olga Roriz —, a província remetera-a para a
galeria dos notáveis da nação e tinha-lhe a vaga estima que se dedicava a influentes
estadistas estrangeiros, vivos e mortos, ou mesmo a um ou outro mais distante político
da pátria.
Um dia a coreógrafa trouxe a companhia à província e a província
acorreu engalanada ao recinto. Era a Olga Roriz! Ali chegada, a província não
conseguiu mais do que deixar cair desajeitadamente os queixos. Foi como se
alguém revelasse que afinal a Torre de Belém não era maior do que uma torre de xadrez.
Ou antes, como se fosse anunciado que o Tejo não era um rio, mas um laguito de
águas paradas e rasas. A província embasbacou. O que era aquilo? Que farsa era
aquela? Quem tinha mentido à província?
O problema era que a companhia de dança de Olga Roriz não dançava, não
nos termos em que a província se tinha habituado a imaginar a dança. Pensava-se
no folclore, no ballet ou no Fame e
nada daquilo encaixava, não sem grandes esforços da imaginação.
(O mito Pina Bausch durou porque a alemã teve o bom senso de não sair
de Lisboa sempre que veio a Portugal. E de morrer entretanto.)
Mas felizmente o desacerto entre a província e a capital foi já
bastante ultrapassado. Tirando uma ou outra distracção do jornal de Belmiro, os
media passaram basicamente a ignorar tanto
Roriz como Bausch e, muito adequadamente, inauguraram-se feiras e piqueniques
na Praça do Comércio. Suponho que a província esteja assaz satisfeita com a
aproximação que a capital lhe fez. Mas o melhor é que hoje já ninguém é
enganado, já não se fazem notáveis que não sejam transparentes à mais desarmada
vista e apresentáveis em qualquer romaria, de Unhais da Serra à TVI.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Time Out
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Deus não é um ET, bolas
Num questionário qualquer (sim, esse que no final faz de todos nós
nórdicos) fui confrontado com a questão de acreditar ou não em Deus. A pergunta,
com certa crueldade, não permitia nuances ou agnosticismos, não deixava espaço
para o conforto da neutralidade ou do adiamento. A reposta tinha de ser «sim»
ou «não». Acreditas ou não acreditas,
perguntei a mim mesmo, sentindo-me encurralado, confrontado, obrigado a
decidir-me. Disse que não, porque tudo à minha volta e dentro do meu cérebro
grita «não». Mas a dúvida permaneceu. Talvez por medo, medo católico de que os meus
modestos pecados mereçam ainda assim as chamas do Inferno. Talvez por uma
cautela de inspiração pascaliana. Certamente pela vergonha instintiva de me
mostrar crente num mundo pragmático. Respondi negativamente lamentando que não
houvesse a opção «não sabe/não responde» disponível em inquéritos mais
sensatos.
Entretanto vi um post a
informar que «Luzes no céu voltaram a ser observadas de Norte a Sul de Portugal»
e o meu coração acelerou, a minha alma excitou-se. Não como acontece aos peregrinos
que, a caminho de Fátima, desatam a cantar «a 13 de Maio…» sempre que à noite
os sobrevoam as luzes do helicóptero do INEM transportando mais uma vítima da
sua própria promessa. O post era do site
UFO Portugal e parece que as luzes não
eram balões de LEDs.
Suponho que um bispo da IURD me perguntaria o que há de errado em mim,
um tipo devidamente crismado que rejubila mais com notícias de nerds do que com as boas novas do Velho
Testamento. E alguma coisa deve haver, claro. A possibilidade de testemunhar um
milagre religioso deixa-me indiferente ou atento aos sinais de fraude,
disponível para rir e derramar paternalismo. A hipótese de um avistamento
extraterrestre, pelo contrário, põe-me a olhar discretamente os céus, a sonhar
com encontros imediatos, a correr para o clube de vídeo para alugar de novo Contacto. Embora não desaproveite a
oportunidade para rir e derramar paternalismo (nunca se deve perder uma).
Encontrar Deus é o susto de me ver desmascarado na minha hipocrisia, no
meu cinismo, na minha pusilanimidade, nos meus vícios. Encontrar um ET é tocar o
verdadeiro Mistério. Jamais senti uma epifania ou qualquer tipo de excitação da
alma ou do intelecto nos meus contactos com a Bíblia; mas senti-me inquietante
e maravilhosamente próximo do Inefável quando li Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke.
Suponho que isto diga também qualquer coisa sobre as tão propaladas virtudes
literárias da Bíblia, faça dos evangelistas autores menores, se comparados
com Isaac Azimov ou Philip K. Dick. Imagino que as coisas poderiam ser
diferentes se Marcos, Mateus, Lucas e João tivessem sabido deixar o rosto do
Senhor desconhecido, em vez de fazerem do simples acto de nos vermos ao espelho
um spoiler. Se tivessem inventado um 13.º
apóstolo tão fugaz e perturbante quanto o 8.º passageiro. Se, eles e os seus
continuadores, tivessem conseguido fazer uma narrativa menos autobiográfica,
recalcada e catártica (logo, amadora). E, claro, se não tivessem assinado os seus livros com nomes
de cantores pimba brasileiros.
sábado, 21 de setembro de 2013
Talvez divirta
Quem estiver interessado em acompanhar a saga do meu romancezinho pode fazer amizade no Facebook com o protagonista Lúcio (www.facebook.com/luciopeixao) ou clicar "Gosto" na página www.facebook.com/osidiotaslivro. Não custa nada, é útil e talvez divirta. Veja-se, por exemplo, a carta que Lúcio escreveu aos jornalistas:
«NOTÍCIA DE UM SEQUESTRO
O meu nome é Lúcio Peixe e fui sequestrado. Há uns meses enviei, sob pseudónimo, um manuscrito autobiográfico para a editora O Lado Esquerdo. Disseram-me que tinham gostado muito da obra, sobretudo pela sua tocante sinceridade, e gostariam de a publicar. Convocaram-me para um encontro onde acordaríamos os detalhes da edição. Na verdade, mal entrei nas instalações da editora, um dos raros edifícios no Alentejo com cave, bateram-me com um cão de louça na nuca e puseram-me a dormir por 48 horas. Quando acordei, estava amarrado a uma cadeira de vime, parece que produto do artesanato local, e com o verbo impedido por duas voltas de fita-adesiva castanha, da que se usa para embrulhos.
De lá para cá, conseguiram subtrair-me a password de acesso ao meu perfil do Facebook e têm-se feito passar por mim. O que pretendem exactamente não sei. Mas avançaram para a edição do livro com bizarras alterações factuais. Do autor, eu mesmo, fizeram apenas personagem da obra. O meu pseudónimo, “Rui Ângelo Araújo”, esse vitupério que em má hora resolvi inventar, surge agora como pessoa real, com um sorriso imbecil na badana que pede mesmo que o encham de alcatrão e penas, à boa maneira do farwest.
Achariam a história demasiado inverosímil para a apresentar como autobiografia? Podiam tê-lo dito, que eu tentaria adaptá-la ainda mais à realidade.
Tenho sido alimentado, felizmente, mas confesso que já estou farto de açorda e sopa de tomate. Em relação aos coentros, então, sinto uma fúria verdadeiramente pesticida.
Preciso de ajuda. Nas minhas idas à casa de banho tenho conseguido passar umas mensagens, mas os idiotas que a elas têm acesso não fazem mais do que publicá-las no Facebook, como se isso resolvesse algum problema na vida real. Na minha vida real.
Escrevo-vos porque, no debate que opõe o jornalismo clássico às novas tecnologias da comunicação, estou do vosso lado, do lado dos bons e velhos jornalistas um pouco obesos e alcoólicos. Se há uma esperança de a verdade vir ao de cima (e ser amplamente difundida) nesta crise despoletada pela edição do famigerado “romance” Os Idiotas, ela passa pelas redacções. Por favor desmascarem a cabala em que me envolveram. Ajam antes que Os Idiotas seja um bestseller pelas razões erradas: aquilo é um drama biográfico, não uma comédia ficcionada! (E muito menos uma pílula da felicidade, como já ouvi que iam anunciar. Ou um manual autárquico.)
Façam qualquer coisa em favor do livro e, já agora, chamem a merda da polícia, que já tenho as costas marcadas com um padrão de artesanato mediterrânico que não combina nada bem com a minha índole. Socorro, portanto.
Sinceramente vosso,
Lúcio Peixe
Informações úteis para a Judiciária:
www.osidiotas.pt
www.facebook.com/osidiotaslivro
http://www.revistadevinhos.pt/»
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
3* - O fim do romance
No que se refere ao romance em geral, há ainda quem vá mais longe e
vaticine a sua morte. Para já, que eu saiba, apenas um ou outro escritor
geronte (Roth), um ou outro guru das novas tendências ou tecnologias. No
primeiro caso é talvez uma questão de ego ou de mágoa: comigo morre o mundo ou o
mundo que me sobrevive nada terá que valha. No segundo caso é só uma
questão de patetice, infelizmente com o flanco coberto pelos media mais populares. Mas, de novo, há
que ter em conta a indústria e a televisão. O fim do romance pode tornar-se uma
militância, rapidamente apoiada pela matilha popular. Do mesmo modo que o fim da poesia
foi há poucos anos decretado por alguém com meios para o ajudar a tornar-se
realidade (um responsável da Porto Editora), a literatura que não inclua
vampiros, bruxos ou látex pode ver-se reduzida a samizdat de 300 exemplares
enquanto o Diabo (de Rodrigues dos Santos) esfrega um olho.
No mundo literário, importa não ignorar as diferenças — mas talvez convenha relativizá-las.
* Considerando que os posts anteriores foram os números 1 e 2 da série.
2* - Inimigos da literatura
Não é incomum as pessoas medirem o mundo pela sua própria bitola, também
se se trata do mundo o literário. Quando os escritores se arregimentam numa
escola, fazem-no quase sempre como se houvesse uma guerra e eles estivessem
numa trincheira. Fora do buraco que cavaram para si próprios, tudo deve ser
aniquilado, nada merece existência. Na versão benévola, tudo fora da trincheira
é medíocre ou inútil.
É bom que a espaços haja destes belicismos. Do confronto é que surgem
as coisas boas e novas. Almada estava provavelmente a exagerar no Manifesto Anti-Dantas,
mas foi bom que o escrevesse.
Mas passados os ardores da juventude e vencido o complexo de Édipo, é
um pouco estúpido permanecer entrincheirado.
A diversidade não deveria ser um termo restrito à ecologia.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
O romance convencional (Liberdade x A Piada Infinita)
Pessoa amiga conta-me que lhe ofereceram recentemente os romances Liberdade (de Jonathan Franzen) e A Piada Infinita (de David Foster
Wallace). Percebe-se a escolha: de forma mais ou menos assumida ou por
interpostos críticos, ambos os autores (e ambos os livros) foram candidatos à
categoria recorrente de o (novo) grande
romance americano. Quando a feliz aniversariante mostrou os presentes a um
outro amigo, ele teve uma compreensível reacção idiossincrática: «Lê muito a Piada; queimamos já aqui o Liberdade.»
É certo que Franzen competiria melhor com Wallace se o livro escolhido
fosse Correcções. Ou antes:
competiria um pouco mais no mesmo terreno de Wallace se o livro considerado
fosse este último. Contudo, Liberdade
continua a ser um grande livro, ainda que mais convencional.
Há várias razões para não se gostar de Franzen, e ser “mais convencional”
parece ser uma delas.
Um post de Nuno Costa Santos,
por exemplo, defende que «o romance convencional já não chega lá». E já não
chega lá porquê? Porque «não basta a historinhazinha, a trama branda, as
personagens bem desenhadas mas sem fogo». Porque «a realidade, contraditória e
conflituosa, está a reivindicar atenção». Porque «é necessário assumir o quase
sempre evitado "eu" — um "eu" que não é o ego tout court, é
um jogo literário arriscado entre a vida e a ficção».
Pelo meu lado, julgo excessivo presumir-se que o romance convencional
se define daquela maneira. Talvez aquilo defina um romance fraco, mas não exactamente um romance convencional. O romance
convencional terá uma história, uma trama, personagens bem desenhadas — os
diminutivos paternalistas e os qualificativos pejorativos excedem a definição.
Por outro lado, não seria descabida generosidade considerar que o romance convencional
tem tido os seus momentos de aggiornamento,
de sábia atenção à «realidade, contraditória e conflituosa», e de assumpção do
«eu».
Creio que Costa Santos, como se depreende do resto do seu texto, queria
na verdade dizer que, em sua opinião, o romance convencional não tem sabido chegar lá. Ou mesmo que o romance
convencional já não tem forma de chegar lá.
E aqui talvez entremos no domínio do estilo e das preferências.
Por ter crescido num tempo e num canto de Trás-os-Montes onde não havia tutores nem
escolas literárias ou figuras de referência, tornei-me, julgo que felizmente sem traumas,
num tipo ecléctico no que se refere a géneros e estilos. Ou talvez apenas
descomplexadamente generoso no que toca a leituras. A verdade é que se rejeito por
vezes certos livros não é porque os ache necessariamente maus. É apenas porque
estão desacertados comigo (ou, geralmente, eu com eles).
Tendo-me divertido mais com A
Piada Infinita e tendo sido mais estimulado por Wallace, não vejo contudo razões
para desconsiderar Liberdade ou temer
que o “romance convencional” já não sirva.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Praxe
Comentário de um paisano sobre a praxe ali perto: «Ainda nem os
deixaram ir ver a universidade e já os estão a foder.»
Ou de como a sageza popular é suficiente para deitar por terra qualquer
treta hipócrita sobre a praxe enquanto forma de introduzir os novos alunos na
vida universitária, de os guiar pelo campus, de os integrar na comunidade
académica.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Os Idiotas
O livro mais tonto e sagaz do ano (é assim paradoxal e humilde) lança-se hoje oficialmente na Sociedade Recreativa e Filarmónica 1.º de Janeiro, em Castro Verde. É um pulinho e há jantar.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Esperança
Leio que a «mensagem» de Índice Médio da Felicidade «é de esperança, associada ao amor aos outros e à solidariedade» e concluo que foi má ideia ter faltado às aulas de escrita criativa.
domingo, 8 de setembro de 2013
A literatura ou a vida
Há muitos anos, no secundário, acordei de um sono profundo a meio de
uma aula quando me encontrei com a Ode Triunfal. Tinha passado de batucar indolentemente
com os dedos na mesa a folhear com eles o livro do colega de carteira, como se
passando as páginas conseguisse fazer passar os minutos, os longos minutos que
demorava a passar a aula de Português.
Depois do longínquo ronronar das coisas abstractas, cuja anatomia indistinta
era dissecada na mesa de um jargão técnico estéril e cuja relação com a vida
neste planeta eu não lobrigava, o livro estava a oferecer-me um texto que
ligava as palavras a sensações, que descrevia com assinalável verosimilhança o
mundo e o relacionava com emoções que eu era capaz de identificar.
Havia uma discrepância entre o que eu estava a ler e o que tinham sido as
aulas de Português até àquele momento, fastidiosos lapsos de tempo onde, sem
que eu tivesse como o perceber (e de qualquer modo os professores, eles mesmos,
não o percebiam), o ensino da literatura se fazia distinto, quase antagónico,
da literatura. Imaginei que aquela ode de Álvaro de Campos seria um dos textos
que não iríamos abordar na aula,
porque tudo o que abordávamos na aula era chato e colossalmente destituído de
humanidade. Senti-me transgressor. A insuflar a alma de uma coisa que não era
grosseira, amarelada e, para mal das alergias, carregada de pó como velhos
in-fólios. (Anos mais tarde concluiria com naturalidade que o que me condenava
ao sono ou ao tédio não eram os textos, mas quem os ensinava e a forma como
eles eram ensinados.)
Creio que vem desse momento epifânico a minha aversão a romances que
tenham como protagonistas escritores em pleno exercício do ofício, que sejam
estudos psicológicos, existencialistas ou pós-modernos de escritores ou de leitores,
bibliotecários, editores, a minha aversão a romances que sequer ambientem vagamente
os enredos no métier literário, que
procurem piscar o olho ao leitor geek, profissional, ou que pura e simplesmente desconheçam a vida para lá da literatura. Há
bastantes destes livros, os escritores tendem a ser umbiguistas e a literatura de
alguns deles, com a conivência ou o deslumbramento de editores igualmente
autocentrados, francamente tautológica.
Receio sempre que os autores de obras assim sejam como os meus professores
do secundário, gente que tuteia a literatura mas a esvazia de vida. Salvo
excepções, quando quero ler sobre vidas de escritores ou sobre o escritor no
seu labirinto, procuro biografias, entrevistas, ensaios próprios ou de
terceiros. Dos romances, da literatura, espero que tratem da vida, até mesmo da
vidinha. Do roncar das máquinas aos «escrocs exageradamente bem vestidos».
*Este post cita de cor e dando-se
muita liberdade um texto que escrevi há talvez década e meia e foi espoletado,
o post, pela admirável versão da Ode
Triunfal que a Maria Filomena publicou no seu Ferramentas e Espelhos.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Quem são os idiotas (ou a pequena comédia humana)
Na senda da campanha alegre que O Lado Esquerdo Editora tem vindo a fazer, perguntam-me por vezes quem são os idiotas do meu livro, não diria que à espera de uma resposta que lhes poupe 12 euros. Julgo que procuram antecipar o gostinho de ver confirmada uma certa imagem do sistema político português, aliás não desmentida pela campanha (a da editora e a outra). O que me parece uma expectativa natural, e por si mesma uma evidência do crédito que o sistema merece. Ou do gosto das pessoas pelo vilipêndio.
O livro não desapontará quem o aborde por este ângulo bicudo e seja paciente. Mas trairia os meus idiotas se não viesse em sua defesa. O autor sente afecto por eles e isto não é síndroma de Estocolmo, mesmo que seja verdade que as personagens de um livro nosso possam sequestrar-nos a alma por tempo indeterminado. Alguns daqueles que venham a ler o romance fá-lo-ão com menor ou (decerto) maior ânimo de encontrar os seus idiotas, figuras grotescas e mal-intencionadas. E encontrá-las-ão. Mas quem sabe não descobrem também os meus idiotas. E, com as subtilezas da semântica, o espelho da rainha da Branca de Neve e a prolixidade que um dicionário de sinónimos pode conter: «O que quer que sejamos, somo-lo por oposição aos cretinos, que são o resto das pessoas.»
Mas depois de passada a campanha (a da editora e a eleitoral), e de vendidos os exemplares suficientes para que O Lado Esquerdo e eu possamos ir de férias deste país, poderemos falar do que mais Os Idiotas tem — ilusões, desapontamentos, frustrações, vícios, precipitações, raivas, equívocos, marginalidade, renúncia e afrontamento, memórias atraiçoadas ou fabricadas — e de como tudo isto, a pequena comédia humana, pode afinal ser divertido e dispor bem.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Notícias d'O Lado Esquerdo: «têm sido vistos cidadãos sorridentes»
«Leitura recomendada pela OPS», diz a editora:
«Apesar da crise que assola o país, têm sido vistos cidadãos sorridentes em algumas cidades portuguesas. Sociólogos que se debruçaram sobre o caso concluíram que, embora se trate de pessoas de diferentes índoles e classes sociais, há um traço que as une: o bom gosto. Estudos mais aprofundados revelaram que aqueles felizardos têm ainda em comum o facto de terem encomendado, possuírem e estarem a ler um mesmo livro: ‘Os Idiotas’. O romance de Rui Ângelo Araújo é, por isso, a partir desta data, uma leitura recomendada pela Ordem Portuguesa dos Sociólogos.
Entretanto, a OPS emitiu um comunicado onde indica, obscuramente, ser este livro também recomendado como manual nas eleições que se aproximam, mas sobre isto não quis adiantar mais informações.»
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Carne para canhão
Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como
afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de
estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de
general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e
o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para
ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo
de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia
de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que
apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas
tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que
punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando
num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à
distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele
bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi
necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos
usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.
Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não
saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga
que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é
que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no
sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos
superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos
Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que
tem de haver milhões de sacrificados.
Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados
na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o
milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos
Coelho, como outros que o precederam, apenas cumpre ordens.
sábado, 31 de agosto de 2013
«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»
Num episódio do Bartoon, a
tira do Público, lê-se: «As pegadas
de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha
feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que
sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que
tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao
admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que
os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a
crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa
também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos
locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates
pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da
conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império
Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»
Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda
fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo,
possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas
falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir
da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e
disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que
não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e
ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara
(chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá
com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado,
que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui,
entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha
querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por
perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por
causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para
esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre
aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em
diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couché
ou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão
anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado
para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda
a gente tem direito a ter um desgosto de amor».
Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num
momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou
estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a
reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das
novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e
um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe
operária?
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