sexta-feira, 13 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Esperança
Leio que a «mensagem» de Índice Médio da Felicidade «é de esperança, associada ao amor aos outros e à solidariedade» e concluo que foi má ideia ter faltado às aulas de escrita criativa.
domingo, 8 de setembro de 2013
A literatura ou a vida
Há muitos anos, no secundário, acordei de um sono profundo a meio de
uma aula quando me encontrei com a Ode Triunfal. Tinha passado de batucar indolentemente
com os dedos na mesa a folhear com eles o livro do colega de carteira, como se
passando as páginas conseguisse fazer passar os minutos, os longos minutos que
demorava a passar a aula de Português.
Depois do longínquo ronronar das coisas abstractas, cuja anatomia indistinta
era dissecada na mesa de um jargão técnico estéril e cuja relação com a vida
neste planeta eu não lobrigava, o livro estava a oferecer-me um texto que
ligava as palavras a sensações, que descrevia com assinalável verosimilhança o
mundo e o relacionava com emoções que eu era capaz de identificar.
Havia uma discrepância entre o que eu estava a ler e o que tinham sido as
aulas de Português até àquele momento, fastidiosos lapsos de tempo onde, sem
que eu tivesse como o perceber (e de qualquer modo os professores, eles mesmos,
não o percebiam), o ensino da literatura se fazia distinto, quase antagónico,
da literatura. Imaginei que aquela ode de Álvaro de Campos seria um dos textos
que não iríamos abordar na aula,
porque tudo o que abordávamos na aula era chato e colossalmente destituído de
humanidade. Senti-me transgressor. A insuflar a alma de uma coisa que não era
grosseira, amarelada e, para mal das alergias, carregada de pó como velhos
in-fólios. (Anos mais tarde concluiria com naturalidade que o que me condenava
ao sono ou ao tédio não eram os textos, mas quem os ensinava e a forma como
eles eram ensinados.)
Creio que vem desse momento epifânico a minha aversão a romances que
tenham como protagonistas escritores em pleno exercício do ofício, que sejam
estudos psicológicos, existencialistas ou pós-modernos de escritores ou de leitores,
bibliotecários, editores, a minha aversão a romances que sequer ambientem vagamente
os enredos no métier literário, que
procurem piscar o olho ao leitor geek, profissional, ou que pura e simplesmente desconheçam a vida para lá da literatura. Há
bastantes destes livros, os escritores tendem a ser umbiguistas e a literatura de
alguns deles, com a conivência ou o deslumbramento de editores igualmente
autocentrados, francamente tautológica.
Receio sempre que os autores de obras assim sejam como os meus professores
do secundário, gente que tuteia a literatura mas a esvazia de vida. Salvo
excepções, quando quero ler sobre vidas de escritores ou sobre o escritor no
seu labirinto, procuro biografias, entrevistas, ensaios próprios ou de
terceiros. Dos romances, da literatura, espero que tratem da vida, até mesmo da
vidinha. Do roncar das máquinas aos «escrocs exageradamente bem vestidos».
*Este post cita de cor e dando-se
muita liberdade um texto que escrevi há talvez década e meia e foi espoletado,
o post, pela admirável versão da Ode
Triunfal que a Maria Filomena publicou no seu Ferramentas e Espelhos.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Quem são os idiotas (ou a pequena comédia humana)
Na senda da campanha alegre que O Lado Esquerdo Editora tem vindo a fazer, perguntam-me por vezes quem são os idiotas do meu livro, não diria que à espera de uma resposta que lhes poupe 12 euros. Julgo que procuram antecipar o gostinho de ver confirmada uma certa imagem do sistema político português, aliás não desmentida pela campanha (a da editora e a outra). O que me parece uma expectativa natural, e por si mesma uma evidência do crédito que o sistema merece. Ou do gosto das pessoas pelo vilipêndio.
O livro não desapontará quem o aborde por este ângulo bicudo e seja paciente. Mas trairia os meus idiotas se não viesse em sua defesa. O autor sente afecto por eles e isto não é síndroma de Estocolmo, mesmo que seja verdade que as personagens de um livro nosso possam sequestrar-nos a alma por tempo indeterminado. Alguns daqueles que venham a ler o romance fá-lo-ão com menor ou (decerto) maior ânimo de encontrar os seus idiotas, figuras grotescas e mal-intencionadas. E encontrá-las-ão. Mas quem sabe não descobrem também os meus idiotas. E, com as subtilezas da semântica, o espelho da rainha da Branca de Neve e a prolixidade que um dicionário de sinónimos pode conter: «O que quer que sejamos, somo-lo por oposição aos cretinos, que são o resto das pessoas.»
Mas depois de passada a campanha (a da editora e a eleitoral), e de vendidos os exemplares suficientes para que O Lado Esquerdo e eu possamos ir de férias deste país, poderemos falar do que mais Os Idiotas tem — ilusões, desapontamentos, frustrações, vícios, precipitações, raivas, equívocos, marginalidade, renúncia e afrontamento, memórias atraiçoadas ou fabricadas — e de como tudo isto, a pequena comédia humana, pode afinal ser divertido e dispor bem.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Notícias d'O Lado Esquerdo: «têm sido vistos cidadãos sorridentes»
«Leitura recomendada pela OPS», diz a editora:
«Apesar da crise que assola o país, têm sido vistos cidadãos sorridentes em algumas cidades portuguesas. Sociólogos que se debruçaram sobre o caso concluíram que, embora se trate de pessoas de diferentes índoles e classes sociais, há um traço que as une: o bom gosto. Estudos mais aprofundados revelaram que aqueles felizardos têm ainda em comum o facto de terem encomendado, possuírem e estarem a ler um mesmo livro: ‘Os Idiotas’. O romance de Rui Ângelo Araújo é, por isso, a partir desta data, uma leitura recomendada pela Ordem Portuguesa dos Sociólogos.
Entretanto, a OPS emitiu um comunicado onde indica, obscuramente, ser este livro também recomendado como manual nas eleições que se aproximam, mas sobre isto não quis adiantar mais informações.»
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Carne para canhão
Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como
afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de
estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de
general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e
o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para
ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo
de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia
de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que
apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas
tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que
punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando
num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à
distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele
bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi
necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos
usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.
Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não
saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga
que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é
que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no
sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos
superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos
Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que
tem de haver milhões de sacrificados.
Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados
na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o
milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos
Coelho, como outros que o precederam, apenas cumpre ordens.
sábado, 31 de agosto de 2013
«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»
Num episódio do Bartoon, a
tira do Público, lê-se: «As pegadas
de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha
feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que
sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que
tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao
admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que
os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a
crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa
também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos
locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates
pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da
conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império
Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»
Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda
fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo,
possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas
falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir
da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e
disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que
não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e
ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara
(chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá
com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado,
que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui,
entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha
querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por
perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por
causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para
esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre
aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em
diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couché
ou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão
anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado
para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda
a gente tem direito a ter um desgosto de amor».
Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num
momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou
estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a
reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das
novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e
um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe
operária?
domingo, 25 de agosto de 2013
Baile copular
A churrasqueira no Verão põe uma esplanada e música em colunas. A música que as colunas debitam é muito obviamente destinada a atrair ouvidos emigrantes, convidando-os a gastar parte das suas economias do ano nuns grelhados à maneira. No entanto, de forma menos óbvia, a música que se ouve não está acertada com o repertório pimba actual, há uma décalage, ou talvez uma nostalgia de quem foi emigrante no seu tempo. A estética dominante é a de Linda de Suza, o nacional cançonetismo da diáspora dos setenta, uma ou outra música tradicional. A emoção em vez do trocadilho e da alusão sexual obsessiva. E isso é quase comovente, quase desclassificamos como foleira a música que da esplanada abaixo da janela vem trazer ao nosso próprio jantar pequeno-burguês memórias de romarias e bailaricos, de quando disfarçávamos de subversão a afinal indisfarçável adesão ao ímpeto bailador, o de colar ao nosso um ritmado corpo feminino, na evocação ou antecâmara dos prazeres sensuais que é na realidade o baile*.
*E, no sentido desta exegese, o slow era a antecâmara do sexo tântrico.
Titanic
Há uma nuvem de fuligem a cobrir tudo, encostas e aldeias. Cinzas
caem do céu. A lua vê-se cor-de-laranja, cor-de-fogo, através deste nevoeiro febril,
lúgubre. Ouvem-se sons de romaria feroz de onde sopra o vento e vem o fumo e
ardem os montes — e algo nisso lembra a orquestra do Titanic.
*Inspirado por C. Chaves
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara ou A curiosidade no processo evolutivo
Depois dos casais vice-versa (registados aqui), temos os casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara.
O seu amor e a sua identificação cumprem-se na forma como se inclinam para as
mesmas curiosidades, soprados pela mesma brisa. Como olham levando a cabeça, o
pescoço e os ombros atrás do olhar. Como parecem atravessar o vidro da montra
que espreitam, esticar a cabeça e o corpo para entrar nas portas dos
estabelecimentos que cruzam sem no entanto abandonar o passeio diletante pelas
ruas da cidade. São a versão transeunte do fab
four homem-elástico, a sua versão casal-em-passeio-nocturno-pós-prandial.
Vemo-los esticar o pescoço para os pratos e os menus de quem ainda come nas
esplanadas que eles cruzam; virar em sincronia aquática as cabeças para a gente
que passa.
Dir-se-ia que a característica que os define e une mais enquanto casal
é a elasticidade, síncrona e por vezes quase frenética, que exibem do torso para cima, mas
há quem defenda que é apenas a curiosidade.
A curiosidade moldando o corpo. Os seus descendentes, se eles legarem também o
gene indiscreto per saecula, serão
como pequenas girafas balanceando na ponta de um longo pescoço uma pequena
cabeça de olhos protuberantes que não perdem pitada da vida na savana.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Considerações sobre o meu nariz
Observa os resultados da TAC e volta a espreitar-me pelas narinas. Pondera.
Consulta o interior das suas próprias pálpebras, com dois sapientes dedos na
têmpora. Tossica e conclui que é conveniente mas não é urgente. Podemos
reavaliar daqui a um ano. Por outro lado, se eu preferir, podemos marcar já. A
operação. Sinusite. Porque se pode aproveitar e fazer a rinoplastia. Estética.
Se estiver interessado, claro.
Talvez se referisse à questão do tamanho, que os subdotados sempre
fingem menosprezar.
Para uma história dos penteados
Uma das coisas mais difíceis de abandonar no final da adolescência é o
penteado. Demoram-se anos, laboriosos anos, a atingir aquele insatisfatório resultado
complexo e quando finalmente nos resignamos a ele chega a tropa ou a idade
adulta, com as suas convenções, embaraços e barbeiros. Alguns adultos em particular,
tendo atingido o estrelato nos anos setenta, quando eram meros pós-adolescentes,
sentiram-se dispensados de fazer a transição capilar. Um pouco por coerência
com a postura irreverente da época, um pouco por receio de ficarem
irreconhecíveis perante os fãs se uma tesoura lhes passeasse sibilando pela
cabeça.
Na verdade, o estatuto de rocker dos setenta, invocado igualmente por
tanto roadie e fã ignoto, apenas serviu como desculpa para não enfrentar no espelho
a angústia e as indagações hamletianas suscitadas por um crânio nu. É certo que
os fãs reconhecem uma cabeleira de 1975 quando vêem uma, mas acontece frequente
e jocosamente perguntarem: «quem diabo é aquele gajo barrigudo debaixo da trufa
do Robert Plant?» Donde os hoje engravatados descendentes do flower power poderiam aprofundar a
exegese e inferir que a força de Sansão não vinha dos seus longos cabelos.
Por mim, nada tenho contra quem decide ser contabilista, agente
funerário ou pai de família das raízes do cabelo para baixo e manter-se dali
para cima nostálgico de certos riffs de guitarra e torsos nus (tenho até
ternura). A minha preocupação é estética. É que muitos destes homens
esquecem-se também da calvície e a certa altura já nem a barriga nem os três raros
embora longos cabelos que lhes restam evocam algo mais do que uma personagem mal
desenhada de Tim Burton.
Por falar nisso, temos de conceder que é ainda mais embaraçoso ser-se
um gajo barrigudo debaixo de um penteado dos anos oitenta. Bem, sempre foi embaraçoso estar-se debaixo de um penteado
dos anos oitenta, mas é um pouco sádico que continuem a esconder isso do Robert
Smith.
Já os Duran Duran seguiram o caminho sensato que a maioria de nós
seguiu logo nos noventa: aparar as pontas de modo que ainda sobrasse uma ideia
do que tinha sido o nosso penteado e, para combater o sentimento de perda, coleccionar
espanadores exóticos e coloridos.quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Espanha ou teclando ao acaso palavras vãs
Agora que a crise nos cortou as asas, visitar Espanha, antes a coisa banal, volta
a ser uma aspiração ambiciosa e cara. Aliás, qualquer viagem, mesmo no
rectângulo ridículo a que chamamos pátria, é uma aspiração ambiciosa e cara.
Sair de casa para um trabalho a mais de vinte quilómetros é caro — e, para um
quinto dos portugueses (and counting,
deixem passar o Verão e o emprego sazonal), uma ambição. Circular no dia-a-dia
dentro da própria cidade onde se vive é caro. Não tarda, concluiremos que ser
cidadão português é caro. Ou apenas ser cidadão. Caro e, evidentemente, uma aspiração
acima das nossas possibilidades. Podemos argumentar que temos cidadania há nove
séculos, mas isso é coisa com que nos iludimos desde o infame, pretensioso, impune e delirante bofetão henriquesiano na nobre mãe.
O que queria dizer, contudo, é que não me incomoda assim
tanto recentrar a ambição viandante em Espanha. O país vizinho é
suficientemente variado no que se refere a arquitectura, tradições, cultura e,
sobretudo, paisagem, natureza e clima para preencher planos de viagem por uns
bons anos. Seria até legítimo suspeitar que a crise é uma invenção espanhola
para que os portugueses descubram o que existe para lá do Bojador de Pontevedra,
Zamora, Badajoz ou Huelva e aquém dos Pirinéus. O Turismo de Portugal pode ser
imune a subornos (duvido, é uma instituição com gestores escolhidos por
partidos portugueses), mas eu não sou. Daí, a chamada de atenção para este post (cada clique, um euro para mim,
cortesia de várias Juntas Hermanas), que li com inveja suficiente para um relatozinho
de viagem que hei-de fazer sobre a estrada que une Trujillo a Placência, partindo
de Mérida e talvez passando por Cuenca (esqueçam a Geografia convencional que
vos impingiram).
Se porventura o relato não acontecer, lembrem-se que não
seria a primeira vez que aqui se prometem textos que não se cumprem. É o que
acontece quando por profilaxia e receita médica um tipo tem de enfrentar as
artroses teclando ao acaso palavras vãs.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
A ler
...os belíssimos textos que a Maria Filomena, amiga e colega no Iniciação ao Tédio, tem publicado naquele nosso blogue colectivo e no seu Ferramentas e Espelhos.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
A perversão secreta de um inspector da ASAE
Não li e, por falta de tempo, não tenciono ler as sequelas d’Os Maias publicadas pelo Expresso (excepto a de Rentes de
Carvalho, por interesse particular). Mas li com um sorrisito a crítica de sábado
de Vasco Pulido Valente. O cronista do Público
até pode ter razão na análise e na substância da sua crítica à iniciativa
estival do semanário de Balsemão, mas tem forçosamente de se lhe notar um ânimo
de virgem ofendida: tocaram no seu Eça e na sua História de Portugal: aqui d’El
Rei!
Desconfio, com suficientes motivos, que VPV escreveria catilinária
semelhante mesmo que os livrinhos do Expresso
fossem todos de inequívoco acerto e interesse.
De resto, quando VPV se mostra tão possessivo em relação a Eça de
Queirós está a cometer o pecado da soberba. Ao contrário do que lhe dizem e ele
na sua ilusão acredita, Valente não é Eça reincarnado. Desde logo porque não há
uma linhagem tibetana do escritor do monóculo que permita reivindicações do
género guru alfacinha. Mas sobretudo porque, ainda que VPV tenha um bom domínio
da língua e da verrina, falta-lhe humor.
Eça não era talvez menos corrosivo e maldoso do que VPV, mas era mais
alegre. Quando embarcava numa prosa demolidora fazia-o com o espírito jovial de
quem sai de casa para se divertir. VPV derrama a sua verve como a agoniada criatura
da série Alien (que derretia muito
metal mas não
parecia nada divertida ao fazê-lo).
A verdade é que onde Eça usava a ironia VPV usa o sarcasmo, ou, como
reza o dicionário, a ironia acerba, amarga, azeda. Quando lemos Eça de Queirós damos
por nós a olhar em volta à procura de quem soltou as gargalhadas que ouvimos (é
o nosso momento, breve, de acreditarmos em encarnações), mas depois percebemos
que elas emanam do próprio texto, são manifestações do autor, metempsicose entre
um espírito oitocentista e o chumbo da mesa de composição na tipografia. Já a
última página do Público ao fim-de-semana
induz outra mística: lemo-la com o embaraço de quem dá por si a espreitar pela
janela a perversão secreta de um feroz inspector da ASAE.
Eça não deixava que a necessidade de arrasar perturbasse a ocasião de
rir — VPV age com a incumbência e o humor de um mangas-de-alpaca da corrosão. Eça
ria-se como um diabrete — Vasco, se é que ri, ri como um velho diabo.
sábado, 17 de agosto de 2013
Não haverá borlas
Agora que o livrito está a sair da tipografia, impõe-se o
aviso: atendendo ao meu compromisso com a editora (o de enriquecermos ambos
rapidamente), não haverá borlas na distribuição de Os Idiotas. Sendo em parte catalogável como um divertimento, o livro é para ser levado tão a sério quanto os
divertimentos de Mozart (embora o leitor possa tossir e, sobretudo, bater palmas a meio
dos capítulos). Ninguém precisa de smoking para assistir a Os Idiotas — mas precisa de comprar bilhete. Vá, vão lá juntando os
trocos até somar 12 euritos e fazendo a pré-encomenda (osidiotaslivro@gmail.com*). Depois
do lançamento oficial, em Setembro, a coisa sobe para 15 euros.
P.S. As abordagens directas na rua, por mais lancinantes que sejam, serão igualmente portajadas a
12 euros.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
15 de Agosto do ano em que Portugal saiu da recessão (ou notas sobre A Piada Infinita)
Depois de por três vezes tergiversar
(aqui, aqui e aqui) sobre A Piada
Infinita, de David Foster Wallace, esperar-se-ia que agora dissesse alguma
coisa sobre o livro. Bem, eu esperaria.
Lido no Verão e em férias, os
problemas de pulsos e as ameaças à cana do nariz são bastante minimizados. Logo,
estamos disponíveis para voltarmos aos prazeres infinitos (lá está) da
adolescência. A Piada Infinita (API) tem
um pouco de Júlio Verne e um pouco de Tarantino. O espírito do primeiro não
está tanto na obra em si, mas na mesma sensação algo transgressora de termos,
paradoxalmente, legais, autorizadas e
estimuladas tardes intermináveis de ócio ao nosso dispor. Um livro como este
ressuma o seu próprio respeito, tanto pelo volume como pela fama: quem se
dedica a uma obra assim tem de ser admirado e deixado em paz no seu labor solitário
e na sua dedicação metafísica. E a gente ri puberemente cá por dentro como se nos
estivessem a dizer que Jules Verne é bom para o nosso desenvolvimento e sempre
é melhor do que andar a jogar à bola com a canalhada vadia1.
Na verdade, embora tratados
com reverência2 por transportarmos um volume destes, e este volume em particular, cá por dentro
estamos a rebentar de prazer pueril, porque API é um livro para nerds, a sua inteligência, o seu carácter
cerebral, intelectual, a sua complexidade enciclopédica estão orientados para o
mesmo tipo de emoções que sente um adulto que recusa amadurecer e ainda
alimenta a esperança de ser raptado por alienígenas. Ouçam, não lemos este
tratado sobre a América e sobre a sociedade contemporânea com severidade filosófica
ou académica, mas a rebentar de gozo e com a ironia traquinas de diabretes num panteão
luciferino. Se um livro costuma fornecer a suave luz coada com que observamos o
mundo vil dos humanos, um livro desta espessura (agora falo metaforicamente) é
o filtro por excelência.
Acresce que lemos partes de
API como a mesma incredulidade divertida e sentindo o mesmo desafio infantil com que abordámos As 20.000 Léguas Submarinas: o tio
Júlio não ia parar nunca de nomear e descrever espécies oceânicas? Peixes? Quantas mais páginas ia ele
continuar naquilo e quantas resistiríamos nós sem passar à frente? Para
compreender a analogia, troque-se aqui a fauna atlântica por um catálogo de indústria
farmacêutica legal e ilegal mas mantenha-se a mesma aderência assassina e
apaixonada do leitor a uma obra literária.
E depois Tarantino, outro indivíduo
adulto apenas no BI. A Piada Infinita
é um compêndio de malformações (de corpo e carácter) resultantes do abuso de
substâncias legais e ilegais e do abuso que é tentar viver nos dias que correm3.
Tal como Tarantino, DFW diverte-se a fazer desfilar personagens de um circo de
horrores, diverte-se a compor uma montra de freaks,
e diverte-se a arranjar deixas e cenas e histórias para eles com o mesmo
entusiasmo que o Quentin põe nos seus filmes marados. Talvez a grande diferença
seja que Tarantino se descontrola e fica fascinado4 a ver o sangue a
correr e Wallace talvez nos forneça a composição química desse sangue5.
NOTAS:
1 Bem, hoje a maioria dos pais não pensa
assim, eles mesmos malformados e desejosos de ter uma caixa registadora CR7 em
casa.
2 Não somos olhados com reverência, isto é
uma liberdade literária; poética, mesmo. Somos é olhados com um certo nojo, com
a condescendência que a aldeia dedica ao tolo (quando se permite dedicar-lhe
tal coisa), com a jocosidade que a comunidade atira a um casal gay que passa de mão dada pela rua.
3 O mundo não mudou assim tanto de 1996 para
hoje.
4 Deixando a câmara ligada.
5 Não necessariamente na secção reservada às notasi.
i A importância das notas em API não é reflectida
por esta observação tautológica e pretensamente engraçadinha; o mesmo não se pode dizer sobre o quão é ridícula a nossa resistência ao ímpeto copycat depois
de ler a obra, aqui total e vergonhosamente exposta.
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