segunda-feira, 20 de maio de 2013

Personagens incríveis: Maria Teixeira Alves

Há pessoas que pensamos que não existem, são mera ficção hilária. Maria Teixeira Alves, jornalista, blogger e depósito de preconceitos, é uma delas. Pela forma como escreve e argumenta, é um permanente atentado à língua e à inteligência. Mas isso não a coíbe de dividir os jornalistas em duas classes para criar o seu próprio pedestal: os engajados e os que têm «muito» mérito. «Acho que é fácil perceberem porque continuo a ser jornalista», diz ela sem rebuço.
Leia-se esta pérola:
«Os ignóbeis socialistas e bloquistas vão levar amanhã mais uma vez a adopção de crianças por duas pessoas homossexuais do mesmo sexo que vivam juntas, ao Parlamento. Não se enganem, todas as manifs, todos os Grandolas Vilas Morenas, todos os Galambas e Dragos, todos os actos de terrorismo de interrupção de membros do Governo em actos públicos, têm um único objectivo "dar crianças aos homossexuais".»
A senhora não é uma figura patusca do Portugal profundo, é jornalista do Diário Económico e escreve no Corta-Fitas. Para uma risada mais cómoda, pode ser lida no seu próprio blogue, humildemente intitulado Farpas. Mas atenção: Maria Alves avisa que escusam de ir lá insultá-la, porque ela não dá cobertura a insultos. Não precisa. Como alguém comentou algures, a sua retórica insulta-se a si própria.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Reinterpretando as profecias

Não devia ter-se rido quando lhe disseram que ainda havia de mingar na vida. Não era falta de vocabulário. Não era dislalia. Não era para rir.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A farsa de Inês (Teotónio) Pereira

Um artigo de Inês Teotonio Pereira no I tem sido vergastado na rede, e não se pode dizer que o não mereça. Merece-o sobretudo pela inoportunidade e pelo maniqueísmo.
Em tempos melhores do que este, até poderíamos defender a autora na parte que diz respeito à educação dos seus filhos. Ela é acusada de não os saber educar e essa acusação é injusta. A maioria dos que a acusam (apegando-se à irrelevante fábula que ela escreveu em vez de à moral da história nela implícita) não pode reivindicar para si mesma um trabalho melhor do que o dela. Se o pudesse, o mundo adolescente não era a barbárie fútil e assustadora que sabemos ser esmagadoramente.
Os problemas da farsa de Inês Pereira são outros, os que referi.
A inoportunidade. Por mais críticas que haja a fazer ao socialismo (ou melhor, ao PS, não temos de partilhar do preconceito da senhora quanto à ideologia), parece um anacronismo ou uma desfaçatez insistir no exercício depois de dois anos de despautério PSD/CDS. No mínimo, a incompetência e a vilania de Passos e Portas deveriam moderar-lhe o discurso.
O maniqueísmo. No universo a preto e branco da senhora Teotónio Pereira o adolescente típico que ela no fundo descreve é “socialista” porque ela odeia o socialismo. Mas na verdade, não só são também assim “socialistas” os adolescentes PP e PSD como o têm igualmente sido os políticos desses dois partidos.
O problema português foi (e é) comportamental (e transversal) e a senhora quer fazer-nos crer que é ideológico. Que os defeitos não são de carácter mas de filiação partidária. Que não foram a corrupção, o nepotismo, a irresponsabilidade, o oportunismo e outros vícios da índole lusa a trazer-nos aqui, mas as convicções políticas de alguns. Que se a ideia de Passos de criminalizar os governantes nocivos fosse avante se deveriam prender todos os que professam o socialismo, não os que cometeram crimes ou esbanjaram dinheiro. No fundo, Inês Teotónio Pereira quer que a esquerda seja não uma posição política, mas um estigma social, talvez o cadastro policial de uma agremiação criminosa.
Na sua concepção maniqueísta do mundo, Inês Teotónio Pereira não se coíbe de implicitamente defender que do outro lado da barricada, do seu lado, as pessoas são justas por natureza, e se têm dinheiro é porque é delas por direito. O seu penúltimo parágrafo é uma defesa pungente desta ideia. Reparem que não há lugar no argumentário da senhora para questionar quem tem o dinheiro. Os socialistas são quem arruína as nações. Os ricos, se têm o que têm, foi porque, justa e impolutamente, o mereceram. É feio invejá-los. Proibido questioná-los. E isso que ela diz aos seus filhos e ao país. 

Não acabem com a crise

Os meus domingos, sempre que possível dias de retiro, de devaneios bucólicos, são frequentemente assolados pela perplexidade. Não é apenas o ciclo da Natureza, o seu definhamento belo no Outono, ou o milagre biológico e estético da renovação primaveril. Surpreendem-me sempre o amarelo e o lilás de hectares de giestas e urzes floridas, e nunca fico imune a um bosque renovado de verde.
Mas a verdadeira perplexidade vem quando me encontro sozinho no meio de certa propriedade onde a beleza outonal ou primaveril dos bosques ocorre como num privativo jardim edénico. A verdadeira perplexidade e a verdadeira alegria.
Em tempos usada para lazer da classe alta, esta propriedade, privada mas de (potencial) uso público, foi abandonada devido à mudança dos hábitos de ócio, à substituição dos destinos turísticos. Na minha infância e adolescência, o sítio era usado por alguns autóctones para piqueniques, para tardes de lazer. Hoje, salvo raras e fugazes visitas de um ou outro nostálgico que vem num relance conferir o estado das coisas, não se vê por ali vivalma, e eu e os meus livros agradecemos.
Faz-lhe uma tangente um rio, com a sua ponte românica e os seus moinhos em ruínas, invadidos pela vegetação. Tem no perímetro e nas imediações pinhais e carvalhais. Dentro de muros há uma grande variedade de árvores que para minha vergonha não sei nomear. Tem diferentes zonas de sombra (densa ou apenas de sol coado) e prados onde estender largamente o corpo ao sol. Tem memórias em velhas paredes e telhados abaulados. Não tem gente. Porque, dir-se-ia, este género de bucolismo já não faz a alegria das pessoas.

Enquanto eu por ali sonho com uma herança que me permita tomar posse daquele território e proteger o paraíso, outros em gabinetes municipais sonham com revitalizar a propriedade. Um dos poucos visitantes com quem me cruzo um dia, informa-me que a Câmara local ficou com a concessão do sítio e pretende resgatá-lo para uso turístico, construir um restaurante, coisas dessas. Como que a adivinhar os meus pensamentos (os meus receios, o meu justificado preconceito em relação aos poderes municipais), a pessoa informa-me também que o primeiro passo daquela “revitalização”, segundo fonte oficiosa, poderá ser o abate de pinheiros. Até já estarão marcados. Despeço-me com um nó na garganta a fingir deambulação sem norte, mas com o pânico instalado de ver com os meus olhos as famigeradas marcações. Não as vi, mas não fiquei descansado. A ideia, infelizmente, não é absurda.

Obrigo-me agora portanto a adicionar ao meu sonho de herdeiro um que prolongue a crise, que inclua o fim do QREN, o fim das ajudas comunitárias a projectos de revitalização. Um sobre bancarrotas municipais que durem até uma geração mais verde tomar o poder. (Sim, bem sei que faria melhor em apostar apenas na quimérica herança ou no desconchavar europeu.)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

De regresso ao folclore

Nem todos perdem com a crise. A cultura pimba verifica um recrudescimento. No interior do país esta curiosa forma de vida rejubilará. Rejubila já.
Os últimos dez anos estiveram ao serviço de uma particular forma de crueldade: mostraram como Portugal poderia ser culturalmente descentralizado e como as berças poderiam ser um pouco sofisticadas, cosmopolitas. Em vão. Brevemente sofreremos não só com o que poderíamos ser mas também com o que por instantes fomos. Há uns anos só tínhamos saudades do futuro — agora teremos também saudades do passado recente.
Nada que aflija os nossos conterrâneos que estão no Governo ou que por lá passaram: cumprindo o seu dever de anjos camilianos, não os ocupa a decência, quanto mais a província. Mas também seriam de pouca utilidade: a província dispensa mais fãs do Politeama.
Há os outros, claro, os que vão à Bertrand do Chiado sem ser em turismo. Mas nem estes evitam a condescendência: se regressam quotidianamente à terra, fazem-no em safari, embevecidos com o pitoresco.
Não os censuremos, contudo. Se nós próprios temos tanto jeito para fazer de castiços e saltitantes pigmeus.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Cortinas de fumo

No que toca a direita fanática, o blogue Blasfémias, de José Manuel Fernandes, Helena Matos, Carlos Abreu Amorim e eminências afins, é outra louça. Ali, mesmo que não haja cortinas de fumo, assobia-se frequentemente para o lado. No caso Relvas, já não havia vigarista em Portugal que não se escandalizasse com o ex-ministro quando no blogue se começou, timidamente, a achar indigna a presença do homem no Governo.  Agora tenho espreitado, mas ainda não vi uma pálida reacção ao affaire Rogoff. Vi, como de costume, muitas anedotas sobre o PS (e achei bem), mas isso talvez sejam afinal cortinas de fumo.

Tavares, Reinhart e Rogoff

Não voltei a ler artigos de João Miguel Tavares, essa irritante representação do neoliberalismo tuga e da direita economicamente fanática, mas tenho curiosidade. Tenho curiosidade porque entretanto Kenneth Rogoff, o ás da economia que os neoliberais elegeram como papa (ou branca cortina de fumo, não sei bem), veio dizer num artigo no The New York Times que, afinal, defende desde há muito o perdão parcial das dívidas de países da periferia. Também disse que ele e Carmen Reinhart (que co-assina o artigo) sempre aconselharam que se evitasse a retirada demasiado rápida dos estímulos orçamentais à economia. Disse isto e mais umas coisas que deitam por terra a cientificidade de Gaspar, Tavares e C.ª e provavelmente merecerão de João Miguel insultos que ele em geral reserva à esquerda.

É claro que o diz-que-sempre-disse de Rogoff é a sua tentativa de se demitir de pai de uma austeridade cega que entretanto falhou. E é um diz-que-sempre-disse carente de comprovação cronológica.  Mas, ainda que estas sejam na realidade afirmações pós-fracasso, prognósticos de fim de jogo, não deixam de ser uma posição interessante que nos põe expectantes quanto à reacção de discípulos beatos como João Miguel Tavares. Será que o cronista do Público vai descobrir um tijolo ainda maior do que This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly para nos arremessar? Ou é desta que desiste do bullying e modera a ferocidade de zelota do templo? 


P.S. Sobre este assunto, leia-se este texto de um blogue da New Yorker.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

3. (Ainda o João Miguel Tavares)

Afinal a saída de Pedro Lomba da última página do Público não devolveu um moderado de direita àquela secção do jornal, oportunidade que referi há dias por ironia descrente ou cinismo. Pelo contrário. Desconfio que a mudança até fará empalidecer Vasco Pulido Valente (colunista que, embora por conveniência a uma velha historiografia in progress, até já aceita haver no aprofundar da crise europeia um dedo ou pelo menos uma alegria alemães; que talvez a Deutschland não seja sempre apenas um território de dignos e inquestionáveis credores).

2. Prestidigitadores

O post anterior não rouba toda a razão a João Miguel Tavares na sua defesa da austeridade. Não é essa a questão. Contesta é o seu precipitado argumento de autoridade.
No que toca à austeridade, não adianta muito estar contra ou a favor: ela impõe-se se o dinheiro escasseia. E ninguém em rigor pode negar pertinência a Tavares quando afirma que «sim, foi a imprudência em tempos de vacas gordas […] que nos trouxe até aqui». De resto, outra sua afirmação no mesmo artigo é também verdadeira, embora no seu facciosismo ele restrinja um defeito nacional apenas à esquerda: «Boa parte da nossa esquerda ainda acredita que o verdadeiro líder político é aquele que consegue dobrar a matemática e a economia com a força da sua vontade.» Infelizmente, esta é uma característica geral lusitana, entre outras coisas responsável por termos Passos Coelho como primeiro-ministro — e Vítor Gaspar como ministro das finanças. A promessa do prestidigitador é o salvo-conduto para ganhar eleições (vide Junho de 2011), mas é igualmente o que tem sido vendido para sair da crise. A matemática e a economia não se têm mostrado mais dúcteis perante os passes de Gaspar do que perante os truques da esquerda antes dele. Isto e o erro de Reinhart & Rogoff deveriam ser suficientes para um pouco mais de humildade da direita ultramontana. Antes de nos prescreverem os calhamaços e as sangrias desatadas deviam talvez ir rever contas e conclusões. É que aqueles de nós que não são da esquerda esbanjadora nem da direita impiedosa gostariam de cair no abismo sabendo que tal não aconteceu apenas porque alguém no poder ou nos jornais achou aceitável o sacrifício e desnecessário rever dogmas.

1. O argumento do tijolo

João Miguel Tavares é um conhecido e enérgico defensor da austeridade. No seu artigo desta terça-feira no Público pretendeu arrefecer os ânimos dos que se alegraram por ter sido descoberto um erro no célebre ficheiro Excel de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, frequentemente citado pelos promotores da austeridade. E que argumentação usou Tavares? Uma de peso. Ou de volume. De número de páginas. É que, diz o jornalista, ao contrário do que pensa a massa ignara, aquela dupla de economistas não se tornou famosa pelas «26 páginas de Growth in a Time of Debt», o artigo que continha o erro, mas sim pelas 512 páginas de This Time Is Different — Eight Centuries of Financial Folly, «um tijolo que se distingue precisamente pela avassaladora quantidade de dados que os autores foram capazes de coligir».

Ora, isto parece mais bullying do que argumentação. Como se alguém dissesse: «Não levam a sério as minhas palavras? Experimentem o meu peso», sentando de seguida os seus 120 quilos de hambúrgueres sobre o adversário para o calar.

A lógica de João Miguel Tavares pretende que o leitor, conhecido o erro de um artigo, ceda com alegria ao argumento da quantidade de informação em vez de, preventivamente, precavidamente, alertado pelo exemplo, se perguntar como e que informação foi coligida, e que influência isso teve nas conclusões alcançadas pelo cartapácio. Como se um erro em 26 páginas, e a interpretação fragilizada dele resultante, fosse mais improvável em meio milhar delas.

João Miguel Tavares quer enfim que nos verguemos perante a autoridade do calhamaço. É muito comum nos dogmáticos. Tome-se a Bíblia, por exemplo.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Agora a cultura será efervescente

«Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2» (DN)
Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao sonho de uma menina.

Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.

A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise», mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível, directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».

Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?


P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa» implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo segundo os padrões de um público “efervescente”.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Ghostwriting

Depois de muitos anos a escrever para a gaveta a horas mortas, como o fantasma do bloco de apartamentos onde vivia, decidiu que chegara a altura de começar a ganhar algum dinheiro com o seu trabalho. Publicou um anúncio no jornal. Dizia: «Escritor inédito procura assinatura mediática para livro. Sigilo garantido.»

Na acepção de ghostwriting que a sua aversão a escrever os livros dos outros assim inaugurava, não eram as celebridades que procuravam competentes escritores-fantasma, mas escritores espectrais que procuravam nomes corpóreos aos olhos de editores e público. Os mercenários da escrita eram substituídos por mercenários da Parker ou da Montblanc dispostos a vender o seu autógrafo. Havia nisto um claro benefício para os leitores, afirmou desassombradamente alguma (rara) crítica. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

BD, literatura, fantasia e sexo

«Suponho que em algum momento da minha vida deveria ter acontecido uma evolução do meu interesse da BD para a literatura. Não necessariamente uma evolução que rejeitasse as anteriores etapas; um progresso com alargamento de horizontes, acumulação de interesses e curiosidades. Estava claro para mim que a ficção iria ser sempre um suporte de que não me separaria, como se na infância me tivesse sido diagnosticada uma deficiência num dos membros inferiores e aquela fosse a bengala adequada para me deslocar. Mas, com o crescimento, esperar-se-ia que reivindicasse uma bengala maior, proporcional à altura que entretanto adquirira. Não o fiz, porém, e talvez me devesse perguntar se a isso se atribui a forma desequilibrada como avancei na vida.
Não me fiquei pelas revistas juvenis, embora nunca as abandonasse; ganhei também interesse por álbuns de maior erudição e exigência, com um humor adulto e subtil, desenhos sofisticados, artisticamente relevantes, histórias mais complexas e personagens mais densas, com narrativas de maior profundidade dramática. Ganhei interesse, em suma, por muito do que a literatura representa, mas a leitura de romances foi prática a que me dediquei com pouca frequência e, quando ocorria pegar num livro, na maior parte das vezes preferia a ficção científica. Um sintoma, terei de dizer, de que mais do que a ficção me interessava a fantasia.
A capacidade de sonhar é tida como um dom, aquilo que nos permite superar as limitações, encontrar alegria onde ela não existe. O sonho compensa a vida. Pelo que se podia inferir que um livro — um livro de BD, no meu caso — seria uma extensão do sonho, ou algo que substituía o sonho, se essa nossa faculdade estivesse atrofiada. Mas talvez sonho seja também, ou sobretudo, sinónimo de refúgio. Ler revelar-se-ia, então, menos uma forma de sonhar do que de nos escondermos, nos pormos a salvo da vida. A leitura não como entretenimento mas como suspensão do tempo, da existência. Trazer uma revista de BD no bolso de trás das calças era como, para utilizar imagens adequadas, transportar tecnologia avançada, um aparelho onde poderia digitar a ordem de teleportação quando estavam iminentes ocorrências ameaçadoras.
(…)
Era previsível que um espírito tão prolongadamente ancorado na fantasia como o meu adquirisse vícios e posteriormente não soubesse muito bem como viver sem a bengala da ficção. Quando comecei a frequentar prostitutas fi-lo não tanto por incapacidade de arranjar outro tipo de parceiras sexuais, mas porque apenas elas, algumas delas, aceitavam, sem questionar, pôr a cabeleira ruiva que eu levava comigo. Isso aconteceu numa altura em que eu já consumia regularmente drogas (outra forma de viver em fantasia) e não era evidente para mim se o fazia para consumar através de terceiras o meu flirt gorado com Rita ou se porque não encontrava outra maneira de manter uma erecção por um tempo razoável.»

Pedro, in Aranda

sábado, 13 de abril de 2013

Custos políticos

«Em termos de distribuição dos custos políticos, o Governo não foi muito inteligente», disse há dias o novel ministro Miguel Poiares Maduro. O problema foi o Governo ter optado por reduzir os salários no sector público em vez de ter seguido a via dos despedimentos. É que assim «acabou por alargar o leque dos descontentes».
Não interessa, portanto, se a opção do Governo era mais justa ou não. Nem sequer interessa, afinal, se a opção do Governo era mais justa do que a interpretação do Tribunal Constitucional. E não interessa, claro, a dureza dos custos sociais face à soberana importância dos custos políticos. Interessa é que o Governo foi estúpido. Se tivesse sacrificado sem hesitação algumas dezenas de milhares em vez de ter prejudicado um pouco umas centenas de milhares teria circunscrito o descontentamento. Maquiavel não diria melhor. E agora Maquiavel está no Governo.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Justiça

Apesar de todos os erros e mistificações do Governo, há um ponto onde, por justiça, ele tem de ser louvado: a demissão de Relvas. É certo que pecou por tardia, absurdamente tardia; é certo que outros ministros de outros governos se demitiram ou foram demitidos por bem menos; é certo que o ministro não foi demitido, demitiu-se (permitiram-lhe essa última honra); é certo que a pressão pública foi inaudita; é certo que o ministro da educação é Nuno Crato. Tudo isto e mais umas coisas é certo, mas um governo avançar com um processo de averiguação sobre um seu ministro e não adiar ad aeternum ou esconder os resultados, nem recusar assumir as consequências da averiguação, é novidade que deve ser saudada. Por vezes neste país o cumprimento de deveres e a coerência de decisões, de pessoas e instituições, têm de ser saudados, porque raros.

(E pronto, agora podemos voltar a vituperar o mau governo que nos calhou em sorte nestes dias de chumbo.)

O mecânico

Como antes dele o gerente de uma churrasqueira e o escriturário de uma empresa, o mecânico, com apenas um pouco mais de vernáculo do que os grandes liberais dos blogues, declara que não se pode adiar mais, é preciso despedir funcionários públicos, essa corja. Não uma pequena quantidade para troika ver. Milhares, centenas de milhares. Talvez isso não resolva o problema do país de imediato, concede, mas resolve-o a médio prazo. Não diz se por milagre. 
O mecânico não se lembra de que grande parte dos seus clientes são funcionários públicos e que o negócio pode afundar se os seus funcionários públicos deixarem de conduzir carros por muito tempo. Ou para sempre. O mecânico não se lembra de que funcionários públicos são os professores dos seus filhos, os médicos e os enfermeiros que mantêm a sua mãe viva e lhe permitem continuar a receber a reforma dela. São os tipos que lhe apanham à porta o lixo que ele deixa espalhar-se pelo passeio. E são aqueles gajos que conduzem a frota cuja manutenção lhe foi entregue por amigo bem colocado na câmara. O mecânico esquece-se, a bem dizer, de que o bem-estar e a economia do concelho estão por enquanto, para o mal e para o bem, dependentes do funcionalismo público. E, na sua precipitação, o mecânico esquece-se de que a própria esposa é funcionária pública (sem formação, desqualificada, na primeira linha dos despedimentos).
O mecânico não o sabe, não pensou a sério no assunto, mas fala dos funcionários públicos como de uma abstracção. Muito à anos vinte do século passado, fala dos funcionários públicos como de "os outros", como de uma raça expiatória.

Ainda bem que, à escala nacional, o Governo e os seus liberalíssimos e cultíssimos bloggers não são deste aziago jaez.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O cartomante Quim Zé

Nos últimos dois dias vi propostas de ajuda de um cartomante coladas com fita-cola em caixas automáticas e portas de bancos. Num primeiro momento, pensei que a oferta se dirigia ao próprio sistema financeiro, interpelando-o nos seus santuários ou pontos onde ele se insinua junto dos mortais. Depois lembrei-me que cartomantes são espíritos apenas dedicados a previsões, e suspeitei que a ajuda era afinal proposta a Vítor Gaspar (com o cartomante, pobre info-excluído, a imaginar que um multibanco é um terminal com ligação directa ao ministro das finanças). A certa altura soube que o TC chumbara o orçamento e concluí que aquilo eram já papéis de Gaspar à procura de emprego. Que o cartomante assinasse Quim Zé não me espantou: era a ultima tentativa do ministro de se distinguir de um Zé qualquer.

P.S. Não podemos pôr de parte a possibilidade de o cartomante Quim Zé estar na verdade a informar os empreendedores necessitados de financiamento de que, entre os bancos e o euromilhões, mais valia arriscarem no jogo, onde a ajuda de um cartomante pode ser realmente útil.

O teu rosto será o último

Li esta tarde metade de O teu rosto será o último, prémio Leya 2011, e senti-me apaziguado. Um grossista do papel impresso pode ter um prémio que cria um bestseller em vez de premiar um livro que foi escrito para ser um bestseller. O livro de João Ricardo Pedro, tanto quanto posso julgar, é bom e honesto. Alimenta-se de contos para ser um romance e, na parte que li, tem pelo menos dois excelentes momentos: O Índio e O barbeiro Alcino.
(Para relativizar e armar um pouco, ia dizer que não conheço os restantes livros concorrentes e perdedores, mas não é totalmente verdade: escrevi um deles, mais perdedor do que concorrente.)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Causa e efeito

Na contracapa: «A colaboração entre os Ministérios da Justiça e da Saúde permitiu já detectar fraudes (…) que ascendem a 25 milhões de euros.»
Na capa: «Paula Teixeira da Cruz e Paulo Macedo de saída do Governo?»

No interior, pág. 6: «Miguel Relvas contrata comunicador que conheceu no Youtube» e, pág. 4: gabinete de Miguel Relvas diz que é «falsa» a informação sobre a sua saída do Governo.

Talvez tenhamos de esperar, pobres de nós, que Relvas faça alguma coisa bem para se cansar e se demitir ou ser demitido.

Público e notório

1.
Uma apologia: «auto-suficientes no vinho e na cerveja.»

2.
Um epitáfio: «apenas auto-suficientes no vinho e na cerveja.»

3.
Um jornal cujo problema talvez já não seja apenas a falta de revisores: «Auto-suficientes no vinho e cerveja, ao contrário dos cereais.*»

4.
Se o Público queria dizer que os cereais produzem pouco ou bebem mais do que produzem, a frase está certa — e sejamos um pouco solidários com eles, com os cereais: ninguém devia ter de importar para beber (a não ser por desejo de experimentar beberagens finas ou exóticas).

5.
Se o Público queria dizer outra coisa, devia ter escrito: «Auto-suficientes no vinho e na cerveja, ao contrário de nos cereais.»

6.
Talvez o Público quisesse na verdade dizer que passou de um jornal de referência a um jornal de referência de Belmiro de Azevedo: baixos salários, baixo QI, muita auto-insuficiência.

* Destaque na última página do Público de hoje.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Warpaint

Ouço-as e lembram-me coros adolescentes em grupos religiosos ou de escuteiros, meninas de saia rodada cantando a várias vozes, por vezes num só tom, a mesma melodia de thriller enquanto abanam as tranças. Ouço-as e as suas músicas parecem-me imperfeitas, inacabadas, jam sessions insistentes à procura da forma final de uma canção, várias canções à luta na mesma música, algumas boas ideias reunidas a outras estranhezas. Ouço-as e lembro-me das minhas próprias jam sessions adolescentes, a obsessão com uma frase, uma melodia, um som, uma malha, uma sequência de acordes, um ritmo, obsessão não raro cruzada com certa embriaguez movida a Super Bock. Ouço-as e vejo-as como me vi a descobrir um instrumento, deslumbradas com os sons, o minimalismo repetitivo resultante do domínio incipiente da guitarra e do fascínio da descoberta, da necessidade de ouvir e reouvir um truque recém-aprendido, um acorde encontrado, uma harmonia conseguida. Ouço-as e julgo reconhecer amostragens de diferentes camadas geológicas de uma parte do meu próprio território, punk de setenta, underground depressivo dos eighties, os anos de Seattle, alternativos 90s e seguintes. Ouço-as e por vezes não consigo parar de as ouvir, também eu preso na espiral obsessiva que se inicia em “Exquisite Corpse” (EP) e continua por “The Fool” (álbum).
Certa música imperfeita tem uma acção hipnótica sobre mim. Se eu fosse uma serpente, o indiano que me quisesse encantar teria de ler a história do rock alternativo e não ser um virtuoso no seu instrumento.


terça-feira, 2 de abril de 2013

Sinto, com certa alegria, que vamos dar um estoiro com esta austeridade

Tenho um amigo que, há um ano, para minha ilustração e conversão, me abastecia de vídeos e artigos de Medina Carreira. Chegou a oferecer-me um livro do ex-ministro, por escárnio (e mania de gastar acima das suas e, no caso, minhas necessidades). Sempre que nos encontrávamos, entre o glorioso 5 de Junho de 2011 e a evidência-até-para-totós do descalabro passista, as nossas conversas redundavam em histeria e cólera, com a parte patética deste género de debates a ser assegurada por mim (tenho um dom).
Na verdade, o meu amigo e eu concordávamos na grande maioria dos argumentos. Era aliás ele quem mais pessimista estava em relação às políticas de Passos Coelho, na medida em que é por natureza pessimista quanto ao futuro da Europa e do Ocidente. De Medina Carreira, apreciava, mais do que tudo (percebe-se porquê), o tom tremendista e apocalíptico — les beaux esprits se rencontrent.

Pelo meu lado, se via pertinência em afrontar o meu amigo e o governo PSD/CDS não era porque acreditasse sem hesitações em alternativas, ou numa solução indolor. Era também, reconheço, para me confortar, escolhendo como os religiosos o diáfano para apaziguar os dias.
Mas fosse como fosse, tinha as minhas ideias. Não acreditava que um plano de reforma radical funcionasse num prazo tão curto. Como todas as pessoas sensatas postas perante a verdadeira dimensão do problema (que curiosamente as instituições financeiras e políticas, com raras e individuais excepções, foram estimulando e ocultando nos anos anteriores), estava disponível e sabia que eram inevitáveis sacrifícios, perdas de rendimentos. Mas achava que uma reforma do Estado capaz de enfrentar eficazmente a dívida e o défice precisaria de uns dez anos e que a Europa tinha sido mesquinha e estúpida em não criar condições para isso.

Foi pois com um ar trocista e de vanglória que enviei hoje ao meu amigo a notícia que cita Medina Carreira defendendo que «o tempo de aplicação do memorando deveria ser estendido a seis anos», caso contrário vamos «dar um estoiro com esta austeridade». Digo que o meu ar era de vanglória porque conheço o meu amigo: não concederá mérito à minha antiga intuição nem acreditará numa extensão do prazo — vai é rejubilar com a expressão do jurista. «Dar um estoiro» é também uma expressão sua frequente em relação ao país, e vê-la elevada a título premonitório é algo que decerto vai excitar a sua morbidez.
E isto leva-me a desconfiar que morbidez é também patologia de Vítor Gaspar.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

«Os portugueses não estão preparados para isto»

Na peça “Três dedos abaixo do joelho” os censores de teatro do Estado Novo foram convidados por Tiago Rodrigues a serem co-autores do texto. Na verdade, eles são praticamente os únicos autores, o dramaturgo e encenador limitou-se a copiar e colar inteligentemente frases dos seus relatórios e com isso construir o guião da peça e os diálogos dos actores. Mais de quarenta anos depois, testemunhamos como a liberdade criativa era cerceada e, simultaneamente, como uma elite no poder se achava no direito de interpretar os interesses dos portugueses, ou, pior, como se achava no direito de decidir o que os portugueses conseguiam ou não perceber. A inteligência dos nossos pais e mães, tios e avós, a que se referem vários relatórios, era ofendida com decretos do género: «os portugueses não estão preparados para isto»; «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas divertir-se»; «os portugueses não querem estas inquietações, estas perturbações do espírito».

Hoje, quando nos sentamos livremente numa plateia, estaremos a precipitar-nos se sentirmos que isso vinga os nossos antepassados. O facto de ocasionalmente nos permitirmos e nos permitirem entrar numa sala de teatro para sermos inquietados ou perturbados é uma vingança provisória, efémera, sem grande alcance e certamente não garantida.

O país já não dispõe daquelas figuras de lápis azul e mangas-de-alpaca laboriosamente encerradas em gabinetes do Secretariado Nacional de Informação para determinarem ao que o país pode ou não pode assistir. Dispõe de outras: sentadas nas direcções de programação das televisões (pública e privadas) e sentadas na vereação de cultura de uma enorme quantidade de câmaras municipais no país. Não usam o lápis azul porque hoje os amanuenses não escrevem com lápis, nem têm um regime ou uma moral de estado para defender.
Mas têm a mesma ignorância despótica ou a mesma aversão à diversidade e ao livre arbítrio que tinha o Estado Novo. Cidadãos que pensem e escolham livremente são um empecilho na luta pelas audiências e uma dificuldade evitável para uma gestão autárquica que se quer simples como umas férias de Verão.
É verdade que, ao contrário das instituições do Estado Novo, as televisões e as vereações não visam defender um regime nacional ou uma moral pública quando exercem a sua política de estrangulamento ou afunilamento do gosto — mas está na sua natureza defender o statu quo, e, se a moral ganhou em muitos campos uma considerável elasticidade, não foi em geral a suficiente para suportar interesses divergentes.
Um e outro sistema, o das ondas hertzianas e o do feudo provincial, precisam de uniformidade para exerceram a sua influência, as televisões para venderem os seus sabonetes, certo poder autárquico para poder manter-se com os mesmos fracos protagonistas e a mesma atávica incompetência.

Acresce que atávica é também a relação de muitos portugueses com a diversidade e com as coisas que inquietam o espírito. Se não houvesse tiranetes do gosto nas TVs e numa grande quantidade de câmaras, muito povo estaria ele próprio disposto a sair à rua a gritar que «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas divertir-se».
Na verdade, fá-lo frequentemente, desdenhando ou considerando uma veleidade insustentável haver concidadãos que queiram ir ao teatro por outras razões. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

Tropa

Há pouco mais de vinte anos, estacionado em Elvas, fui mandado com um cabo e dois soldados para o Forte da Graça. O Forte e eu estávamos sob a alçada do Regimento de Infantaria n.º 8 e havia um destacamento em permanência lá em cima. As ordens, se bem as recordo, eram proteger o sítio do assédio dos ciganos, que por compreensíveis razões o achavam perfeito para se instalarem. Corria o Verão e subir ao Monte da Graça era um bónus de ar fresco que se agradecia. Os soldados que me acompanhavam conheciam a rotina e, mal chegados, ao final da tarde, perante a minha mal disfarçada perplexidade, trataram de escolher os melhores colchões, que arrastaram da casa da guarda para o ar livre. A noite ia ser quente e suportava-se lindamente no pátio a seguir à porta de armas. Nenhum deles tinha a menor intenção de fazer uma ronda ao Forte, e eu, pobre e contrariado miliciano, não me imaginava capaz de alterar as tradições do quartel aonde fora parar.
De resto, toda a veleidade castrense que pudesse ter tido quando cheguei a Elvas se esgotara no momento em que, na primeira ronda nocturna enquanto sargento de dia, me deparei com um algarvio em alvos calções e alva camisola de alças a dormitar no seu posto, encostado à G3. Eu tinha acabado de chegar de Mafra, devidamente formatado, e senti um ligeiro escândalo com aquilo. Na Escola Prática de Infantaria — EPI, mais conhecida como “Entrada Para o Inferno” ou “O Calhau”, atendendo a toda a quantidade de pedra que ali se juntou por ordem de D. João V — tínhamos sido ensinados que jamais se pegava numa arma quando em trajes de ginástica (ou de ballet, na delicada gíria militar), pelo que antes de me interrogar porque estava uma sentinela vestida daquela maneira pensei em admoestar o soldado por ter trazido a G3. Na minha hierárquica concepção da etiqueta militar, a combinação dos adereços parecia-me mais importante do que a adequação do traje.
O militar, com sonolência de veterano, ofereceu-me uma passa do seu charro e explicou-me duas coisas, ali no jardim sob o luar e as janelas da messe de oficias: o calor alentejano não contemporizava com o código de vestuário do Exército e um pescador como ele não estava propriamente desesperado para regressar à faina, aguentava bem os meses extra que, como paga da sua conduta, lhe quisessem oferecer na paz suave das muralhas de Elvas, assegurada que estivesse a comida, a cama lavada e, claro, o comércio com Badajoz.
Na tropa aprendia-se com os mais velhos e, se não passei a fazer as minhas rondas em calção, chinelo e Walter à cinta, foi porque descobri que aquelas horas de serviço se passavam melhor a dormitar no imponente cadeirão de alto espaldar e couro, quase um trono, que havia na casa da guarda. Por outro lado, se não aprendi a apreciar as prorrogações do serviço militar tal como ele se desenrolava em Elvas foi porque era jovem e estúpido e achava que a vida tinha muito mais para me oferecer.  

quarta-feira, 27 de março de 2013

Ó mãe, o intelectual é mau!

«Há uns ditos intelectuais que acham que só eles é que sabem o que é bom.»

Esta frase de Tony Carreira (mas podia ser de tantos outros, cançonetistas e escritores de sucesso), publicada no sempre prestimoso JN, revela como lá no fundinho a personagem sente mágoa por não ter a admiração dos intelectuais. Um Pavilhão Atlântico cheio de povo ou uma tiragem à Dan Brown podem confortar a alma e alimentar a megalomania, mas não compensam o desprezo dos intelectuais.
É uma conhecida técnica infantil odiar o que não se compreende ou o que não nos satisfaz os caprichos. A criança que se magoa numa esquina, por natureza estática, inerme e sem intenções, reage batendo na esquina e declarando que não gosta da esquina, a esquina é má.
Por vezes, é também um tique de déspota acossado: desejar matar o portador das más notícias, como se isso afastasse as más notícias, as tornasse falsas.

Deve ainda ter-se em conta que o ódio aos intelectuais é a forma que alguns best-sellers encontram para moldar a sua arte ou, mais vulgarmente, para desculpar a sua incapacidade de a tornar melhor.
Ao determinarem que «se inúmeros gostam é bom», estão a autoconvencerem-se que o que fazem é bom. Atribuem à massa que os ama a condição de árbitro da beleza, como Nero fazia a Petrónio enquanto este o bajulava (pronto para o mandar decapitar se fizesse o contrário).
E ao desclassificarem os intelectuais, apondo-lhes aspas ou o prefixo “pseudo” (que usam como insulto), ao dizerem que se os intelectuais não gostam é porque não alcançam a simplicidade da beleza, estão a traçar um caminho que os afasta irremediavelmente da possibilidade de melhorarem o seu próprio trabalho, impõem-se uma bitola superior que juram não ultrapassar.
É verdade que na maioria dos casos não teriam meios para a ultrapassar — e o ódio aos intelectuais é então também a mão com que afagam o rosto, a mão que os conforta na sua impotência. «Ó mãe, o intelectual é mau! Bate no intelectual!»

Fim da linhagem

«Ele punha-se a dizer que não havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho, insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado, onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora derivada de uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite.
Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»

Vila Real, Novembro de 2008

sexta-feira, 22 de março de 2013

Passarões

No supermercado onde me aprovisiono de atum, salsichas, sardinhas e demais enlatados de guerra entram por vezes pássaros que passam a noite a chilrear em busca da saída. Mas não são eles que depenicam os cachos de uvas que ali se vendem. Quando decido comprar fruta desta, tento acreditar que os bagos em falta foram retirados por diligentes funcionários à cata de uvas apodrecidas (ou, pronto, vá lá, bicadas pelos pássaros). Mas não se é misantropo por razão nenhuma: acabo sempre a desconfiar que quem depena os cachos é a restante clientela, que acredita ser Democracia o estender as patorras e tirar um bago ou dois ao passar e Liberdade o abrir um iogurte para confirmar se é aquela a escolha acertada. Uma clientela ciosa dos seus direitos, que responde a quem olha estupefactamente para a embalagem aberta e devolvida à prateleira vociferando com ar de escândalo: «Que foi? Meta-se na sua vida!»
Suponho que a cadeia de supermercados terá uma verba para cobrir este exercício de cidadania dos seus clientes. Do mesmo modo que tem uma verba para processar os tipos de casta inferior que por vezes roubam um euro ou dois de hortaliça.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Também tu?

Houve um tempo em que a revolução me parecia acessível. Eram os anos oitenta e a professora de inglês dava-se ao trabalho de arranjar um leitor de cassetes para passar A sort of homecoming dos U2 e falar da poesia. Mais tarde nesse dia ou no fim-de-semana seguinte o DJ (era o tempo em que haviamesmo DJs nas discotecas) propunha Sunday, Bloody Sunday e não era improvável que a rádio passasse entretanto Pride (In the name of love) ou New Years DayThe Electric Co.Running to stand still. Tudo isto nas versões ao vivo, claro, a electricidade era realmente importante e despertava o epiléptico que há em mim. Depois disso a professora de inglês entrou num imerecido esquecimento, o Bono deixou de ser um rufia de Temple Bar e eu digo burguesamente que sim, li Dubliners — sem recordar uma única história.
Imaginemos agora por um momento que os quatro de Dublin não tinham as poupançazitas em offshores e se viam obrigados pela crise a fazer de novo boa música: talvez eu pudesse voltar a conspirar com eles para derrubar o governo. Nada era impossível para um proletário simplório durante os três minutos de uma música e os trinta e três centilitros de uma Super Bock.

Mantra

O ministro espanhol da economia diz que os depósitos dos espanhóis «são sagrados». Vítor Gaspar afirma que uma taxa sobre os depósitos «está totalmente fora de questão». Não somos a Grécia. Não somos o Chipre. Até à derrota final.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Banha-da-cobra

Se um amigo nos diz que há oportunidades na adversidade, está a tentar animar-nos. Mesmo que nos minta (e, estatisticamente, mente-nos), sabemos que a mentira é piedosa, bem-intencionada. Agradecemos-lhe e, havendo forças, assobiamos de bom grado com ele Always look at the bright side of life.
Se um tipo como Passos Coelho não se cansa de nos repetir esse mantra de cada vez que nos dá más notícias, não devemos cair na confusão de o tomar por amigo. Há outra espécie de pessoas que se esforça por revelar o lado bom das coisas, mesmo quando elas o não têm. Sobretudo quando elas o não têm. São os charlatães.

Nunca compre um carro em segunda mão a Passos Coelho — descobrirá que não tem motor, embora o chassis seja alemão.

Adágio popular

A direita não suporta a classe média, a insolente ambição da classe média. Por isso a direita é geralmente tão amiga do povo — do povo tal como ele se vê em estampas antigas a sépia. Se um destes partidos de direita se propõe ajudá-lo, tome cautelas. Caso não esteja num casting para séries televisivas do género “Conta-me como foi”, o mais certo é que o queiram tornar figurante do reality show com o mesmo nome.

Tempestade sem bonança

O Professor Zandinga, magoado com as comparações, acha que Vítor Gaspar não passa de um simples meteorologista, e sugere que o recambiemos para o respectivo Instituto. A Nação discorda. Gaspar nas vezes de Anthímio de Azevedo, mais do que falhar as previsões, haveria de trazer sempre mau tempo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Distopia, mas pouco

Entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012 escrevi alguns episódios de A Vida de K., uma crónica do futuro próximo. Lembro-me de um ou outro leitor censurar o pessimismo ou o exagero das narrativas. Tolos. Ignoram que a realidade costuma ultrapassar a literatura. Quando se derem conta e eu retomar a série, perceberão que não estarei já a escrever ficção, mas a fazer a crónica dos dias presentes.

[A Vida de K.1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7.]

domingo, 17 de março de 2013

O bug das finanças

Se, como parece, a política do governo assenta numas páginas de Excel, teremos de concluir, tendo em conta a forma como as suas contas falham, que não temos um ministro nas finanças — temos um dos famosos bugs da Microsoft.

Desapontamento

O ministro das finanças está desapontado. E o caso não é para menos: que desfaçatez intolerável este comportamento das coisas reais face à irrepreensível acomodação das células de Excel!

Perante os sentimentos exacerbados dos portugueses (frustração, depressão, angústia, inquietação, raiva, desespero) o nosso ministro das finanças não sente mais do que um desapontamento. Já sabíamos que era suspeita aquela maneira de falar (e de pensar), mas agora temos a certeza de que Gaspar é, ele próprio, um simples conjunto de zeros e uns, um aglomerado de bytes que fazem um belo holograma de testa enrugada.

terça-feira, 12 de março de 2013

Janela indiscreta

Tenho uma tendência para humanizar coisas e bichos. Até pessoas, por vezes.
Hoje pousou-me uma pomba no peitoril da janela e, como eu tinha acabado de sair do duche, suspeitei que o fez intencionalmente. Imaginei-a, lubrica, a espreitar-me enquanto me vestia. Ao dar com ela, encolhi a barriga e tentei mexer-me pouco — mas ela resistiu, não se mandou contra o vidro na ânsia de entrar. Também não se mandou abaixo do parapeito, o que me confortou o ego, antes um pouco melindrado com a sua resistência.
De seguida estiquei-me cuidadosamente para apanhar o cinto e ela abriu as asas e lançou-se atabalhoadamente nos céus. Ainda considerei aquilo muito humano, mas de uma humanidade diferente: de criança antiga, traumatizada com sovas paternas pré-revolução. Ou de jovem mulher que não lê As 50 Sombras de Gray e desdenha por isso os prazeres sado-masoch.
Devia ter considerado não usar cinto hoje.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Primeiros parágrafos

Roubando a rubrica de José Mário Silva: primeiros parágrafos. Neste caso, da minha opus IV.
(Talvez seja melhor dizer, preparando já um alibi para mais do que certas mudanças de opinião ou para assegurar a indulgência do juiz, primeiros parágrafos na forma tentada. Na verdade, é a descrição mais justa, já que falhei este trabalhinho encomendado a mim próprio.)

«Lembram-se do esqueleto que há uns seis meses alvoroçou a cidade? Era eu. Sei que é difícil de acreditar, até porque o esqueleto usava barba. Mas era eu. Hoje estou muito melhor, comi qualquer coisa entretanto e barbeei-me, voltei a usar roupa. Mas as fotos que viram nos jornais eram minhas. As tíbias, os fémures, os rádios, as falanges, todo o chocalhante conjunto era meu. Até o chapéu era meu. Sim, reconheço, podia ser de um cigano. Porém, era meu. Tomaram-me por um junkie, mas isso era uma acusação sem cabimento. Naquela altura eu já tinha deixado de me injectar, as agulhas partiam-se-me nos ossos. Bebia, de facto, mas não muito. Um pouco menos do que o Rasputine. Eu sei que ele era ligeiramente maior do que eu e isso faz diferença. Ok, umas três vezes maior do que eu. Sou um tipo baixo. Um baixote. Um minorca. E magro (agora já nem tanto). E louro. Se fosse moreno, teria sido mais difícil ser baixo. Era demasiado azar para se continuar vivo. Um gajo louro tem outro lustro. E depois há os olhos azuis. As mulheres quando olhavam para mim não viam um gajo baixo, estavam demasiado ocupadas a derreterem-se com o lourinho de olhos azuis. Quando finalmente se dispunham a medir-me a altura, faziam-no aos palmos e era raro passarem dos tomates. De resto, eu tinha ali uma surpresa para elas, uma a que se agarravam de mãos e dentes. Um tipo pode ser baixo e ter um pau comprido. As leis da física não o impedem. Fizeram-se testes. Eu fiz testes, na adolescência. No início, quando percebi que tinha uma coisa telescópica entre as pernas que em certas alturas não parava de crescer, assustei-me. Achei que aquilo me podia desequilibrar. Nunca a deixava crescer sem me encostar com uma mão a uma parede. Não é incomum que os putos o façam, embora nem todos limpem a parede depois. Mas fui ganhando confiança, como os funâmbulos se adaptam à vara que os equilibra no arame. Se pensam em termos gráficos, talvez estejam com dúvidas sobre a funcionalidade do sistema, mas a representação não esclarece tudo. Há os glúteos, que se desenvolvem com o crescimento. Imaginem isto: as mamalhudas não passam o tempo a cair de queixos, pois não? Bem, algumas passam, é verdade. O que quero dizer é que o nosso sistema muscular se adapta à carga com que tem de lidar. Não era um daqueles tipos com bíceps hiperdesenvolvidos porque não precisava assim muito dos braços. Isto pode deixar confuso um alferes, quando se vai para a tropa e se fracassa nas flexões na barra, mas não as mulheres. Pelo menos há vinte anos não. Entretanto tive de me adaptar, frequentar ginásios, arranjar-lhes uns bíceps que pudessem apalpar. O centro gravitacional de um corpo não muda com as épocas e os gostos, mas por vezes tem de se arranjar uns pontos de apoio para as mãos.»

O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice

«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças, ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria, se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum) justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária (a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia geral ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.

domingo, 10 de março de 2013

Lugares-comuns da nacionalidade

À entrada do supermercado, um junkie que por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental, substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos, masculinos: os croissants como jóia possível para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente e futura.

Ganhar asas

Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele, achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já aqui falei. Entre ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis e do Continente, talvez a Adília faça.)
Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem tanto nas pernas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Delfina (3)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 3.ª parte]

«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas. Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira. Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências, por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a, entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»

in Hotel do Norte

Delfina (2)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]

«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento, como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas, previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem pretas.»

in Hotel do Norte