«Em termos de distribuição dos custos políticos, o Governo não foi muito inteligente», disse há dias o novel ministro Miguel Poiares Maduro. O problema foi o Governo ter optado por reduzir os salários no sector público em vez de ter seguido a via dos despedimentos. É que assim «acabou por alargar o leque dos descontentes».
Não interessa, portanto, se a opção do Governo era mais justa ou não. Nem sequer interessa, afinal, se a opção do Governo era mais justa do que a interpretação do Tribunal Constitucional. E não interessa, claro, a dureza dos custos sociais face à soberana importância dos custos políticos. Interessa é que o Governo foi estúpido. Se tivesse sacrificado sem hesitação algumas dezenas de milhares em vez de ter prejudicado um pouco umas centenas de milhares teria circunscrito o descontentamento. Maquiavel não diria melhor. E agora Maquiavel está no Governo.
sábado, 13 de abril de 2013
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Justiça
Apesar de todos os erros e mistificações do Governo, há um ponto onde,
por justiça, ele tem de ser louvado: a demissão de Relvas. É certo que pecou
por tardia, absurdamente tardia; é certo que outros ministros de outros
governos se demitiram ou foram demitidos por bem menos; é certo que o ministro
não foi demitido, demitiu-se (permitiram-lhe essa última honra); é certo que a pressão
pública foi inaudita; é certo que o ministro da educação é Nuno Crato. Tudo
isto e mais umas coisas é certo, mas um governo avançar com um processo de
averiguação sobre um seu ministro e não adiar ad aeternum ou esconder os resultados, nem recusar assumir as
consequências da averiguação, é novidade que deve ser saudada. Por vezes
neste país o cumprimento de deveres e a coerência de decisões, de pessoas e instituições,
têm de ser saudados, porque raros.
(E pronto, agora podemos voltar a vituperar o mau governo que nos calhou
em sorte nestes dias de chumbo.)
O mecânico
Como antes dele o gerente de uma churrasqueira e o escriturário de uma empresa, o mecânico, com apenas um pouco mais de vernáculo do que os grandes liberais dos blogues, declara que não se pode adiar mais, é preciso despedir funcionários públicos, essa corja. Não uma pequena quantidade para troika ver. Milhares, centenas de milhares. Talvez isso não resolva o problema do país de imediato, concede, mas resolve-o a médio prazo. Não diz se por milagre.
O mecânico não se lembra de que grande parte dos seus clientes são funcionários públicos e que o negócio pode afundar se os seus funcionários públicos deixarem de conduzir carros por muito tempo. Ou para sempre. O mecânico não se lembra de que funcionários públicos são os professores dos seus filhos, os médicos e os enfermeiros que mantêm a sua mãe viva e lhe permitem continuar a receber a reforma dela. São os tipos que lhe apanham à porta o lixo que ele deixa espalhar-se pelo passeio. E são aqueles gajos que conduzem a frota cuja manutenção lhe foi entregue por amigo bem colocado na câmara. O mecânico esquece-se, a bem dizer, de que o bem-estar e a economia do concelho estão por enquanto, para o mal e para o bem, dependentes do funcionalismo público. E, na sua precipitação, o mecânico esquece-se de que a própria esposa é funcionária pública (sem formação, desqualificada, na primeira linha dos despedimentos).
O mecânico não o sabe, não pensou a sério no assunto, mas fala dos funcionários públicos como de uma abstracção. Muito à anos vinte do século passado, fala dos funcionários públicos como de "os outros", como de uma raça expiatória.
Ainda bem que, à escala nacional, o Governo e os seus liberalíssimos e cultíssimos bloggers não são deste aziago jaez.
O mecânico não se lembra de que grande parte dos seus clientes são funcionários públicos e que o negócio pode afundar se os seus funcionários públicos deixarem de conduzir carros por muito tempo. Ou para sempre. O mecânico não se lembra de que funcionários públicos são os professores dos seus filhos, os médicos e os enfermeiros que mantêm a sua mãe viva e lhe permitem continuar a receber a reforma dela. São os tipos que lhe apanham à porta o lixo que ele deixa espalhar-se pelo passeio. E são aqueles gajos que conduzem a frota cuja manutenção lhe foi entregue por amigo bem colocado na câmara. O mecânico esquece-se, a bem dizer, de que o bem-estar e a economia do concelho estão por enquanto, para o mal e para o bem, dependentes do funcionalismo público. E, na sua precipitação, o mecânico esquece-se de que a própria esposa é funcionária pública (sem formação, desqualificada, na primeira linha dos despedimentos).
O mecânico não o sabe, não pensou a sério no assunto, mas fala dos funcionários públicos como de uma abstracção. Muito à anos vinte do século passado, fala dos funcionários públicos como de "os outros", como de uma raça expiatória.
Ainda bem que, à escala nacional, o Governo e os seus liberalíssimos e cultíssimos bloggers não são deste aziago jaez.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
O cartomante Quim Zé
Nos últimos dois dias vi propostas de ajuda de um cartomante coladas
com fita-cola em caixas automáticas e portas de bancos. Num primeiro momento,
pensei que a oferta se dirigia ao próprio sistema financeiro, interpelando-o nos
seus santuários ou pontos onde ele se insinua junto dos mortais. Depois
lembrei-me que cartomantes são espíritos apenas dedicados a previsões, e suspeitei
que a ajuda era afinal proposta a Vítor Gaspar (com o cartomante, pobre
info-excluído, a imaginar que um multibanco é um terminal com ligação directa
ao ministro das finanças). A certa altura soube que o TC chumbara o
orçamento e concluí que aquilo eram já papéis de Gaspar à procura de emprego. Que
o cartomante assinasse Quim Zé não me
espantou: era a ultima tentativa do ministro de se distinguir de um Zé
qualquer.
P.S. Não podemos pôr de parte a possibilidade de o cartomante Quim Zé
estar na verdade a informar os empreendedores necessitados de financiamento de que,
entre os bancos e o euromilhões, mais valia arriscarem no jogo, onde a ajuda de
um cartomante pode ser realmente útil.
O teu rosto será o último
Li esta tarde metade de O teu
rosto será o último, prémio Leya 2011, e senti-me apaziguado. Um
grossista do papel impresso pode ter um prémio que cria um bestseller em vez de premiar um livro que foi escrito para ser um bestseller. O livro de João Ricardo
Pedro, tanto quanto posso julgar, é bom e honesto. Alimenta-se de contos para
ser um romance e, na parte que li, tem pelo menos dois excelentes momentos: O Índio e O barbeiro Alcino.
(Para relativizar e armar um pouco, ia dizer que não conheço os
restantes livros concorrentes e perdedores, mas não é totalmente verdade: escrevi
um deles, mais perdedor do que concorrente.)
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Causa e efeito
Na contracapa: «A colaboração entre os Ministérios da Justiça e da
Saúde permitiu já detectar fraudes (…) que ascendem a 25 milhões de euros.»
Na capa: «Paula Teixeira da Cruz e Paulo Macedo de saída do Governo?»
No interior, pág. 6: «Miguel Relvas contrata comunicador que conheceu
no Youtube» e, pág. 4: gabinete de Miguel Relvas diz que é «falsa» a informação
sobre a sua saída do Governo.
Talvez tenhamos de esperar, pobres de nós, que Relvas faça alguma coisa
bem para se cansar e se demitir ou ser demitido.
Público e notório
1.
Uma apologia: «auto-suficientes no vinho e na cerveja.»
2.
Um epitáfio: «apenas
auto-suficientes no vinho e na cerveja.»
3.
Um jornal cujo problema talvez já não seja apenas a falta de revisores:
«Auto-suficientes no vinho e cerveja, ao contrário dos cereais.*»
4.
Se o Público queria dizer que
os cereais produzem pouco ou bebem mais do que produzem, a frase está certa — e sejamos um pouco solidários com eles, com os cereais: ninguém devia ter
de importar para beber (a não ser por desejo de experimentar beberagens finas
ou exóticas).
5.
Se o Público queria dizer
outra coisa, devia ter escrito: «Auto-suficientes no vinho e na cerveja, ao contrário de nos cereais.»
6.
Talvez o Público quisesse na
verdade dizer que passou de um jornal de referência a um jornal de referência
de Belmiro de Azevedo: baixos salários, baixo QI, muita auto-insuficiência.
* Destaque na última página do Público de hoje.
* Destaque na última página do Público de hoje.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Warpaint
Ouço-as e lembram-me coros adolescentes em grupos religiosos ou de escuteiros, meninas de saia rodada cantando a várias vozes, por vezes num só
tom, a mesma melodia de thriller enquanto
abanam as tranças. Ouço-as e as suas músicas parecem-me imperfeitas, inacabadas,
jam sessions insistentes à procura da
forma final de uma canção, várias canções à luta na mesma música, algumas boas
ideias reunidas a outras estranhezas. Ouço-as e lembro-me das minhas próprias jam sessions adolescentes, a obsessão com
uma frase, uma melodia, um som, uma malha, uma sequência de acordes, um ritmo, obsessão
não raro cruzada com certa embriaguez movida a Super Bock. Ouço-as e vejo-as como
me vi a descobrir um instrumento, deslumbradas com os sons, o minimalismo repetitivo
resultante do domínio incipiente da guitarra e do fascínio da descoberta, da
necessidade de ouvir e reouvir um truque recém-aprendido, um acorde encontrado,
uma harmonia conseguida. Ouço-as e julgo reconhecer amostragens de diferentes
camadas geológicas de uma parte do meu próprio território, punk de setenta, underground depressivo dos eighties, os anos de Seattle, alternativos
90s e seguintes. Ouço-as e por vezes não consigo parar de as ouvir, também eu
preso na espiral obsessiva que se inicia em “Exquisite Corpse” (EP) e continua
por “The Fool” (álbum).
Certa música imperfeita tem uma acção hipnótica sobre mim. Se eu fosse
uma serpente, o indiano que me quisesse encantar teria de ler a história do
rock alternativo e não ser um virtuoso no
seu instrumento.
terça-feira, 2 de abril de 2013
Sinto, com certa alegria, que vamos dar um estoiro com esta austeridade
Tenho um amigo que, há um ano, para minha ilustração e conversão, me abastecia
de vídeos e artigos de Medina Carreira. Chegou a oferecer-me um livro do
ex-ministro, por escárnio (e mania de gastar acima das suas e, no caso, minhas necessidades).
Sempre que nos encontrávamos, entre o glorioso 5 de Junho de 2011 e a evidência-até-para-totós
do descalabro passista, as nossas conversas redundavam em histeria e cólera,
com a parte patética deste género de debates a ser assegurada por mim (tenho um
dom).
Na verdade, o meu amigo e eu concordávamos na grande maioria dos
argumentos. Era aliás ele quem mais pessimista estava em relação às políticas
de Passos Coelho, na medida em que é por natureza pessimista quanto ao futuro
da Europa e do Ocidente. De Medina Carreira, apreciava, mais do que tudo (percebe-se
porquê), o tom tremendista e apocalíptico — les
beaux esprits se rencontrent.
Pelo meu lado, se via pertinência em afrontar o meu amigo e o governo
PSD/CDS não era porque acreditasse sem hesitações em alternativas, ou numa
solução indolor. Era também, reconheço, para me confortar, escolhendo como os
religiosos o diáfano para apaziguar os dias.
Mas fosse como fosse, tinha as minhas ideias. Não acreditava que um
plano de reforma radical funcionasse num prazo tão curto. Como todas as pessoas
sensatas postas perante a verdadeira dimensão do problema (que curiosamente as instituições
financeiras e políticas, com raras e individuais excepções, foram estimulando e
ocultando nos anos anteriores), estava disponível e sabia que eram inevitáveis
sacrifícios, perdas de rendimentos. Mas achava que uma reforma do Estado capaz
de enfrentar eficazmente a dívida e o défice precisaria de uns dez anos e que a
Europa tinha sido mesquinha e estúpida em não criar condições para isso.
Foi pois com um ar trocista e de vanglória que enviei hoje ao meu amigo
a notícia que cita Medina Carreira defendendo que «o tempo de aplicação do memorando deveria ser estendido a seis anos»,
caso contrário vamos «dar um estoiro com esta austeridade». Digo que o meu ar
era de vanglória porque conheço
o meu amigo: não concederá mérito à minha antiga intuição nem acreditará numa
extensão do prazo — vai é rejubilar com a expressão do jurista. «Dar um estoiro»
é também uma expressão sua frequente em relação ao país, e vê-la elevada a
título premonitório é algo que decerto vai excitar a sua morbidez.
E isto leva-me a desconfiar que morbidez é também patologia de Vítor Gaspar.
E isto leva-me a desconfiar que morbidez é também patologia de Vítor Gaspar.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
«Os portugueses não estão preparados para isto»
Na peça “Três dedos abaixo do joelho” os censores de teatro do Estado
Novo foram convidados por Tiago Rodrigues a serem co-autores do texto. Na
verdade, eles são praticamente os únicos autores, o dramaturgo e encenador limitou-se
a copiar e colar inteligentemente frases dos seus relatórios e com isso
construir o guião da peça e os diálogos dos actores. Mais de quarenta anos
depois, testemunhamos como a liberdade criativa era cerceada e,
simultaneamente, como uma elite no poder se achava no direito de interpretar os
interesses dos portugueses, ou, pior, como se achava no direito de decidir o
que os portugueses conseguiam ou não perceber. A inteligência dos nossos pais e
mães, tios e avós, a que se referem vários relatórios, era ofendida com decretos
do género: «os portugueses não estão preparados para isto»; «os portugueses
quando vão ao teatro querem apenas divertir-se»; «os portugueses não querem
estas inquietações, estas perturbações do espírito».
Hoje, quando nos sentamos livremente numa plateia, estaremos a precipitar-nos se sentirmos que isso vinga os nossos antepassados. O facto de ocasionalmente nos permitirmos e nos permitirem entrar numa sala de teatro para sermos inquietados ou perturbados é uma vingança provisória, efémera, sem grande alcance e certamente não garantida.
Hoje, quando nos sentamos livremente numa plateia, estaremos a precipitar-nos se sentirmos que isso vinga os nossos antepassados. O facto de ocasionalmente nos permitirmos e nos permitirem entrar numa sala de teatro para sermos inquietados ou perturbados é uma vingança provisória, efémera, sem grande alcance e certamente não garantida.
O país já não dispõe daquelas figuras de lápis
azul e mangas-de-alpaca laboriosamente encerradas em gabinetes do Secretariado Nacional
de Informação para determinarem ao que o país pode ou não pode assistir. Dispõe
de outras: sentadas nas direcções de programação das televisões (pública e privadas)
e sentadas na vereação de cultura de uma enorme quantidade de câmaras municipais
no país. Não usam o lápis azul porque hoje os amanuenses não escrevem com lápis,
nem têm um regime ou uma moral de estado para defender.
Mas têm a mesma ignorância despótica ou a mesma aversão à diversidade e ao livre arbítrio que tinha o Estado Novo. Cidadãos que pensem e
escolham livremente são um empecilho na luta pelas audiências e uma dificuldade
evitável para uma gestão autárquica que se quer simples como umas férias de Verão.
É verdade que, ao contrário das instituições do Estado Novo, as
televisões e as vereações não visam defender um regime nacional ou uma moral pública quando exercem a sua política de estrangulamento ou afunilamento do gosto — mas
está na sua natureza defender o statu quo,
e, se a moral ganhou em muitos campos uma considerável elasticidade, não foi em geral a
suficiente para suportar interesses divergentes.
Um e outro sistema, o das ondas hertzianas e o do feudo provincial,
precisam de uniformidade para exerceram a sua influência, as televisões para
venderem os seus sabonetes, certo poder autárquico para poder manter-se com os
mesmos fracos protagonistas e a mesma atávica incompetência.
Acresce que atávica é também a relação de muitos portugueses com a
diversidade e com as coisas que inquietam o espírito. Se não houvesse tiranetes
do gosto nas TVs e numa grande quantidade de câmaras, muito povo estaria ele próprio
disposto a sair à rua a gritar que «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas
divertir-se».
Na verdade, fá-lo frequentemente, desdenhando ou considerando uma
veleidade insustentável haver concidadãos que queiram ir ao teatro por outras
razões.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Tropa
Há pouco mais de vinte anos, estacionado em Elvas, fui mandado com um
cabo e dois soldados para o Forte da Graça. O Forte e eu estávamos sob a alçada
do Regimento de Infantaria n.º 8 e havia um destacamento em permanência lá em
cima. As ordens, se bem as recordo, eram proteger o sítio do assédio dos
ciganos, que por compreensíveis razões o achavam perfeito para se instalarem.
Corria o Verão e subir ao Monte da Graça era um bónus de ar fresco que se
agradecia. Os soldados que me acompanhavam conheciam a rotina e, mal chegados,
ao final da tarde, perante a minha mal disfarçada perplexidade, trataram de
escolher os melhores colchões, que arrastaram da casa da guarda para o ar
livre. A noite ia ser quente e suportava-se lindamente no pátio a seguir à
porta de armas. Nenhum deles tinha a menor intenção de fazer uma ronda ao Forte,
e eu, pobre e contrariado miliciano, não me imaginava capaz de alterar as
tradições do quartel aonde fora parar.
De resto, toda a veleidade castrense que pudesse ter tido quando
cheguei a Elvas se esgotara no momento em que, na primeira ronda nocturna enquanto
sargento de dia, me deparei com um algarvio em alvos calções e alva camisola de
alças a dormitar no seu posto, encostado à G3. Eu tinha acabado de chegar de
Mafra, devidamente formatado, e senti um ligeiro escândalo com aquilo. Na
Escola Prática de Infantaria — EPI, mais conhecida como “Entrada Para o
Inferno” ou “O Calhau”, atendendo a toda a quantidade de pedra que ali se
juntou por ordem de D. João V — tínhamos sido ensinados que jamais se pegava
numa arma quando em trajes de ginástica (ou de ballet, na delicada gíria militar), pelo que antes de me interrogar
porque estava uma sentinela vestida daquela maneira pensei em admoestar o
soldado por ter trazido a G3. Na minha hierárquica concepção da etiqueta militar,
a combinação dos adereços parecia-me mais importante do que a adequação do
traje.
O militar, com sonolência de veterano, ofereceu-me uma passa do seu
charro e explicou-me duas coisas, ali no jardim sob o luar e as janelas da
messe de oficias: o calor alentejano não contemporizava com o código de
vestuário do Exército e um pescador como ele não estava propriamente
desesperado para regressar à faina, aguentava bem os meses extra que, como
paga da sua conduta, lhe
quisessem oferecer na paz suave das muralhas de Elvas, assegurada que estivesse
a comida, a cama lavada e, claro, o comércio com Badajoz.
Na tropa aprendia-se com os mais velhos e, se não passei a fazer as
minhas rondas em calção, chinelo e Walter à cinta, foi porque descobri que
aquelas horas de serviço se passavam melhor a dormitar no imponente cadeirão de
alto espaldar e couro, quase um trono, que havia na casa da guarda. Por outro
lado, se não aprendi a apreciar as prorrogações do serviço militar tal como ele
se desenrolava em Elvas foi porque era jovem e estúpido e achava que a vida
tinha muito mais para me oferecer.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Ó mãe, o intelectual é mau!
«Há uns ditos intelectuais que acham que só eles é que sabem o que é bom.»
Esta frase de Tony Carreira (mas podia ser de tantos outros, cançonetistas
e escritores de sucesso), publicada no sempre prestimoso JN, revela
como lá no fundinho a personagem sente mágoa por não ter a admiração dos
intelectuais. Um Pavilhão Atlântico cheio de povo ou uma tiragem à Dan Brown
podem confortar a alma e alimentar a megalomania, mas não compensam o desprezo
dos intelectuais.
É uma conhecida técnica infantil odiar o que não se compreende ou o que
não nos satisfaz os caprichos. A criança que se magoa numa esquina, por natureza
estática, inerme e sem intenções, reage batendo na esquina e declarando que não
gosta da esquina, a esquina é má.
Por vezes, é também um tique de déspota acossado: desejar matar o portador
das más notícias, como se isso afastasse as más notícias, as tornasse falsas.
Deve ainda ter-se em conta que o ódio aos intelectuais é a forma que
alguns best-sellers encontram para moldar a sua arte ou,
mais vulgarmente, para desculpar a sua incapacidade de a tornar melhor.
Ao determinarem que «se inúmeros gostam é bom», estão a autoconvencerem-se
que o que fazem é bom. Atribuem à massa que os ama a condição de árbitro da
beleza, como Nero fazia a Petrónio enquanto este o bajulava (pronto para o
mandar decapitar se fizesse o contrário).
E ao desclassificarem os intelectuais, apondo-lhes aspas ou o prefixo
“pseudo” (que usam como insulto), ao dizerem que se os intelectuais não gostam
é porque não alcançam a simplicidade da beleza, estão a traçar um caminho que
os afasta irremediavelmente da possibilidade de melhorarem o seu próprio
trabalho, impõem-se uma bitola superior que juram não ultrapassar.
É verdade que na maioria dos casos não teriam meios para a ultrapassar — e
o ódio aos intelectuais é então também a mão com que afagam o rosto, a mão que
os conforta na sua impotência. «Ó mãe, o intelectual é mau! Bate no
intelectual!»
Fim da linhagem
«Ele punha-se a dizer que não
havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele
se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero
mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar
para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e
independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um
problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse
assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem
as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em
cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho,
insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua
deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava
matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e
o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa
latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de
um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para
coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado,
onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas
folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão
de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me
ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos
para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas
metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no
filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um
minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da
vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo,
via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido
em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça
sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E
a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a
vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes
torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente
irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de
delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois
arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a
mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas.
Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de
tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para
mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou
uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que
fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim
para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque
não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe
tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha.
Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa
cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das
bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal
que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me
por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida
que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres
que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira
pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua
mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver
e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis
haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos
que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da
fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe
que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me
deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na
realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações
para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um
gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada
de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma
sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto,
que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes,
vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida
por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas
deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um
dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se
perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma
das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava
muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que
havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar,
lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa
cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar
de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer
fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e
quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me
tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria
evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam
ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de
membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de
terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao
sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo
no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse
numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a
certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu
piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento
e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos
de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de
vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não
nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma
benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender
dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me
tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse
regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer
subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa
uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha
docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a
contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não
me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto,
vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase
tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele,
abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte,
recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para
o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me
parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era
passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de
abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar.
Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era
verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou
não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que
fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução,
a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado
no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu
apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me
parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós,
os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem
tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o
último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do
futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com
vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança,
em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de
parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com
a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que
naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por
mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso
é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda,
retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes
que quiseres, com a condição que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele
dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a
atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro
era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na
verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na
minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos
que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me
pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo
não fora uma necessidade de última hora derivada de uma avaria no carro, era
uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo
com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes
de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia
tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua
mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar
no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu
a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer
companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade
dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os
fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se
com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que
ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua
deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o
encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe
emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava
disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se
propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo
estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de
todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo
lograria conceber naquela noite.
Havia ainda, talvez, outras
razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela
e não pensar no assunto.»
Vila Real, Novembro de 2008
sexta-feira, 22 de março de 2013
Passarões
No supermercado onde me aprovisiono de atum, salsichas, sardinhas e
demais enlatados de guerra entram por vezes pássaros que passam a noite a
chilrear em busca da saída. Mas não são eles que depenicam os cachos de uvas
que ali se vendem. Quando decido comprar fruta desta, tento acreditar que os
bagos em falta foram retirados por diligentes funcionários à cata de uvas
apodrecidas (ou, pronto, vá lá, bicadas pelos pássaros). Mas não se é
misantropo por razão nenhuma: acabo sempre a desconfiar que quem depena os
cachos é a restante clientela, que acredita ser Democracia o estender as
patorras e tirar um bago ou dois ao passar e Liberdade o abrir um iogurte para
confirmar se é aquela a escolha acertada. Uma clientela ciosa dos seus
direitos, que responde a quem olha estupefactamente para a embalagem aberta e
devolvida à prateleira vociferando com ar de escândalo: «Que foi? Meta-se na sua vida!»
Suponho que a cadeia de supermercados terá uma verba para cobrir este exercício
de cidadania dos seus clientes. Do mesmo modo que tem uma verba para processar os
tipos de casta inferior que por vezes roubam um euro ou dois de hortaliça.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Também tu?
Houve
um tempo em que a revolução me parecia acessível. Eram os anos oitenta e a
professora de inglês dava-se ao trabalho de arranjar um leitor de cassetes para
passar A sort of homecoming dos U2 e falar da poesia. Mais
tarde nesse dia ou no fim-de-semana seguinte o DJ (era o tempo em que haviamesmo DJs
nas discotecas) propunha Sunday, Bloody Sunday e não era
improvável que a rádio passasse entretanto Pride (In the name of love) ou New
Years Day, The Electric Co., Running to stand still.
Tudo isto nas versões ao vivo, claro, a electricidade era realmente importante
e despertava o epiléptico que há em mim. Depois disso a professora de inglês
entrou num imerecido esquecimento, o Bono deixou de ser um rufia de Temple Bar
e eu digo burguesamente que sim, li Dubliners — sem recordar
uma única história.
Imaginemos agora por um momento que os quatro de Dublin não tinham as
poupançazitas em offshores e se viam obrigados pela crise a
fazer de novo boa música: talvez eu pudesse voltar a conspirar com eles para
derrubar o governo. Nada era impossível para um proletário simplório durante os
três minutos de uma música e os trinta e três centilitros de uma Super Bock.
Mantra
O ministro espanhol da economia diz que os depósitos dos espanhóis «são sagrados». Vítor Gaspar afirma que uma taxa sobre os depósitos «está totalmente fora de questão». Não somos a Grécia. Não somos o Chipre. Até à derrota final.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Banha-da-cobra
Se um amigo nos diz que há oportunidades na adversidade, está a tentar animar-nos. Mesmo que nos minta (e, estatisticamente, mente-nos), sabemos que a mentira é piedosa, bem-intencionada. Agradecemos-lhe e, havendo forças, assobiamos de bom grado com ele Always look at the bright side of life.
Se um tipo como Passos Coelho não se cansa de nos repetir esse mantra de cada vez que nos dá más notícias, não devemos cair na confusão de o tomar por amigo. Há outra espécie de pessoas que se esforça por revelar o lado bom das coisas, mesmo quando elas o não têm. Sobretudo quando elas o não têm. São os charlatães.
Nunca compre um carro em segunda mão a Passos Coelho — descobrirá que não tem motor, embora o chassis seja alemão.
Adágio popular
A direita não suporta a classe média, a insolente ambição da classe
média. Por isso a direita é geralmente tão amiga do povo — do povo tal como ele
se vê em estampas antigas a sépia. Se um destes partidos de direita se propõe
ajudá-lo, tome cautelas. Caso não esteja num casting para séries televisivas do género “Conta-me como foi”, o
mais certo é que o queiram tornar figurante do reality show com o mesmo nome.
Tempestade sem bonança
O Professor Zandinga, magoado com as comparações, acha que Vítor Gaspar
não passa de um simples meteorologista, e sugere que o recambiemos para o
respectivo Instituto. A Nação discorda. Gaspar nas vezes de Anthímio de
Azevedo, mais do que falhar as previsões, haveria de trazer sempre mau tempo.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Distopia, mas pouco
Entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012 escrevi alguns episódios de A Vida de K., uma crónica do futuro
próximo. Lembro-me de um ou outro leitor censurar o pessimismo ou o exagero das
narrativas. Tolos. Ignoram que a realidade costuma ultrapassar a literatura. Quando
se derem conta e eu retomar a série, perceberão que não estarei já a escrever
ficção, mas a fazer a crónica dos dias presentes.
domingo, 17 de março de 2013
O bug das finanças
Se, como
parece, a política do governo assenta numas páginas de Excel, teremos de
concluir, tendo em conta a forma como as suas contas falham, que não temos um
ministro nas finanças — temos um dos famosos bugs da Microsoft.
Desapontamento
O ministro das finanças está desapontado. E o caso não é para
menos: que desfaçatez intolerável este comportamento das coisas reais face à irrepreensível
acomodação das células de Excel!
Perante os sentimentos exacerbados dos portugueses (frustração,
depressão, angústia, inquietação, raiva, desespero) o nosso ministro das
finanças não sente mais do que um desapontamento. Já sabíamos que era suspeita
aquela maneira de falar (e de pensar), mas agora temos a certeza de que Gaspar
é, ele próprio, um simples conjunto de zeros e uns, um aglomerado de bytes que
fazem um belo holograma de testa enrugada.
terça-feira, 12 de março de 2013
Janela indiscreta
Tenho uma tendência para humanizar coisas e bichos. Até pessoas, por
vezes.
Hoje pousou-me uma pomba no peitoril da janela e, como eu tinha acabado
de sair do duche, suspeitei que o fez intencionalmente. Imaginei-a, lubrica, a
espreitar-me enquanto me vestia. Ao dar com ela, encolhi a barriga e tentei
mexer-me pouco — mas ela resistiu, não se mandou contra o vidro na ânsia de
entrar. Também não se mandou abaixo do parapeito, o que me confortou o ego,
antes um pouco melindrado com a sua resistência.
De seguida estiquei-me cuidadosamente para apanhar o cinto e ela abriu
as asas e lançou-se atabalhoadamente nos céus. Ainda considerei aquilo muito
humano, mas de uma humanidade diferente: de criança antiga, traumatizada com
sovas paternas pré-revolução. Ou de jovem mulher que não lê As 50 Sombras de Gray e desdenha por
isso os prazeres sado-masoch.
Devia ter considerado não usar cinto hoje.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Primeiros parágrafos
Roubando a rubrica de José Mário Silva: primeiros parágrafos. Neste caso,
da minha opus IV.
(Talvez seja melhor
dizer, preparando já um alibi para mais do que certas mudanças de opinião ou
para assegurar a indulgência do juiz, primeiros parágrafos na forma tentada. Na verdade, é a descrição mais justa, já que falhei este trabalhinho encomendado a mim próprio.)
«Lembram-se do esqueleto que há uns seis meses alvoroçou a cidade? Era
eu. Sei que é difícil de acreditar, até porque o esqueleto usava barba. Mas era
eu. Hoje estou muito melhor, comi qualquer coisa entretanto e barbeei-me,
voltei a usar roupa. Mas as fotos que viram nos jornais eram minhas. As tíbias,
os fémures, os rádios, as falanges, todo o chocalhante conjunto era meu. Até o
chapéu era meu. Sim, reconheço, podia ser de um cigano. Porém, era meu.
Tomaram-me por um junkie, mas isso era uma acusação sem cabimento. Naquela
altura eu já tinha deixado de me injectar, as agulhas partiam-se-me nos ossos.
Bebia, de facto, mas não muito. Um pouco menos do que o Rasputine. Eu sei que ele era ligeiramente maior do que eu e isso faz diferença. Ok, umas três vezes maior do que eu. Sou um tipo baixo.
Um baixote. Um minorca. E magro (agora já nem tanto). E louro. Se fosse moreno,
teria sido mais difícil ser baixo. Era demasiado azar para se continuar vivo.
Um gajo louro tem outro lustro. E depois há os olhos azuis. As mulheres quando
olhavam para mim não viam um gajo baixo, estavam demasiado ocupadas a
derreterem-se com o lourinho de olhos azuis. Quando finalmente se dispunham a
medir-me a altura, faziam-no aos palmos e era raro passarem dos tomates. De
resto, eu tinha ali uma surpresa para elas, uma a que se agarravam de mãos e
dentes. Um tipo pode ser baixo e ter um pau comprido. As leis da física não o
impedem. Fizeram-se testes. Eu fiz testes, na adolescência. No
início, quando percebi que tinha uma coisa telescópica entre as pernas que em
certas alturas não parava de crescer, assustei-me. Achei que aquilo me podia
desequilibrar. Nunca a deixava crescer sem me encostar com uma mão a uma
parede. Não é incomum que os putos o façam, embora nem todos limpem a parede
depois. Mas fui ganhando confiança, como os funâmbulos se adaptam à vara que os
equilibra no arame. Se pensam em termos gráficos, talvez estejam com dúvidas
sobre a funcionalidade do sistema, mas a representação não esclarece tudo. Há
os glúteos, que se desenvolvem com o crescimento. Imaginem isto: as mamalhudas
não passam o tempo a cair de queixos, pois não? Bem, algumas passam, é verdade.
O que quero dizer é que o nosso sistema muscular se adapta à carga com que tem
de lidar. Não era um daqueles tipos com bíceps hiperdesenvolvidos porque não
precisava assim muito dos braços. Isto pode deixar confuso um alferes, quando
se vai para a tropa e se fracassa nas flexões na barra, mas não as mulheres.
Pelo menos há vinte anos não. Entretanto tive de me adaptar, frequentar ginásios,
arranjar-lhes uns bíceps que pudessem apalpar. O centro gravitacional de um
corpo não muda com as épocas e os gostos, mas por vezes tem de se arranjar uns
pontos de apoio para as mãos.»
O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice
«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta
João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças,
ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de
Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto
do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo
tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler
punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto
ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe
média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar
desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu
no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para
sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha
condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente
em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem
todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao
cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha
aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro
não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada
à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria,
se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças
irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se
se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum)
justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos
de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam
existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária
(a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão
reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma
maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas
empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes
superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em
qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que
vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta
sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se
trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens
couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse
conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a
Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem
sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia geral ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.
domingo, 10 de março de 2013
Lugares-comuns da nacionalidade
À entrada do supermercado, um junkie
que por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental,
substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá
partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas
ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que
tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas
palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de
bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos,
masculinos: os croissants como jóia possível
para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos
da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou
misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente
e futura.
Ganhar asas
Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio
Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele,
achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que
não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a
moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me
garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava
os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma
rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio
da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez
matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar
no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já aqui falei. Entre
ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco
atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não
havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos
mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas
ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis
e do Continente, talvez a Adília faça.)
Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela
distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope
cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita
criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem
sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem
tanto nas pernas.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Delfina (3)
[Uma personagem feminina no Dia
Internacional da Mulher – 3.ª parte]
«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas.
Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair
por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos
copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia
da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e
touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela
cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a
senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma
balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a
ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado
momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca
tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no
seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas
da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem
enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas
descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão
em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas
voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as
maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles
circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e
o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas
pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca
doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir
que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde
particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira
demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom
acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de
serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a
intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função
de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das
necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se
encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo
debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira.
Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no
peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se
involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou
vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua
tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida
tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o
primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências,
por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas
quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam
em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa
só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas
não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se
transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma
alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma
transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e
depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a,
entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse
na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um
anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os
braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»
in Hotel
do Norte
Delfina (2)
[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]
«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao
mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de
consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um
patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela
família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com
características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais
em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os
dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o
sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem
desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era
uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem
censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o
comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar
a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o
perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas
sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se
apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos
afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham
deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam
o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a
um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a
corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento,
como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho
hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma
artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas,
previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e
envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a
razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem
pretas.»
in Hotel do Norte
Delfina (1)
[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]
«Todas as roupas de Delfina eram
de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa
curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das
peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume
se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles
que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o
embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali
perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em
cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se
avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por
trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não
havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um
bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano
claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito
longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos
exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa
clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas
nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o
Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só
copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os
canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que
faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de
um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol
matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros,
convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se
retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em
terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se
ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o
peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só
seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que
cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do
destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos
trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o
passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem
dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o
passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e
dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha
que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas
feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não
havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a
África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava
a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores
incertas.»
in Hotel do Norte
Tomando nota
Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como
diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los
por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes
fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por
exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta,
porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o
desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que
o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde
toma nota dos negócios da marijuana e do resto.
Os corredores e os melancólicos
Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso
de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto
mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os
que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque
não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro
exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um
ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo
isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os
seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as
memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram.
Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma
longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali
gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre
que posso acumulo em mim os dois.
quinta-feira, 7 de março de 2013
A capital do México
À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários
debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas
histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após
os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos
de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele,
gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa
sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova,
pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não
com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e
latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos.
Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao
pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito
alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para
ela a capital do México é
— Cabu… Cabu…
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu… Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu… Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa
concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis,
comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro.
Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e,
mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete,
lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se
mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa,
afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia
feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador.
Entre o terem-se abastecido no dealer
dela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo
apenas existe como décor da sua deambulação.
Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo
romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou
a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada
há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo. Não é impossível que ela termine, como noutras
noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a
insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode
haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio.
Um rendez-vous entre junkies não tem
de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra
uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela
noite.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Terceira Lei de Newton
Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma
multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes
e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela
massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal,
e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de
partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e
outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua
primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante,
treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais
resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão
menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se
nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem
antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência
natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista,
que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao
desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de
atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos
destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do
município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o
derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada
para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela
entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto
de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não
avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois
alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de
profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou
caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos,
vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque,
contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o
desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros
(pelo menos entre as primeiras). É a
única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr.
Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço
de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na
praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos,
curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não
muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu
escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas
batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe
palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente
orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com
o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação
de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua
felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a
meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da
terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.
P.S. Terceira parte de uma
narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar
“Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.
A origem do mito
As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da
Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho
envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói
ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta
branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação
estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se
há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de
novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola,
se para fundar um novo culto religioso.
domingo, 3 de março de 2013
A semântica do capitalismo (2)
«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente
abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Público
apenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser
involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir
acertadamente a semântica do capitalismo?
A semântica do capitalismo
A crer na sintaxe do Público,
se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das "remunerações abusivas" dos "patrões" de grandes empresas». Limitação?
Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à
terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em
vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações
suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para
ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.
Amor de mãe
Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal;
perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um
pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão.
Tinha optado por aquele look e apenas
se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos
adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que
olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a
flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório.
Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a
sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a
caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são
capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias
de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de
campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu
rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio
e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma
engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada
passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se
se devia sentir orgulho no engenho do filho.
sexta-feira, 1 de março de 2013
A angústia de medir pilinhas
Depois de muito adiar, li recentemente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. É um excelente romance,
merecedor dos elogios que recebeu.
Por variadas razões, não tenho sido leitor habitual dos novos autores
portugueses. O orçamento é escasso e na hora de seleccionar as aquisições
raramente me parecem urgentes estas novidades tugas. Os livros pretos de
Gonçalo M. Tavares, em tempos, os de Rui Cardoso Martins e um ou outro mais têm
sido, se bem me lembro, excepções. Suponho também que andar em quezília com a literatura
me tem levado a manter a minha geração à distância. Ou talvez seja a eterna condição
de aprendiz que determina atenção particular aos mestres. Um pouco disto tudo,
certamente.
Com O Retorno havia, no
entanto, mais do que com qualquer outro, a angústia do cotejamento. Um ano
antes de o livro sair eu tinha terminado o meu próprio romance sobre retornados.
Não exactamente uma crónica literária sobre aquele período conturbado de 1975. Hotel do Norte, o meu livro, é, algo
diferentemente, uma ficção que se apropria de memórias. Se dele resulta também
um retrato de época é uma inevitabilidade, não tanto um objectivo.
Em todo o caso, O Retorno
preocupava-me. Temia o confronto. Permanecer-se um autor inédito tem as suas
vantagens: a ilusão é permitida, está-se ao abrigo da crítica profissional. A
nossa carreira depende apenas do nosso juízo e do afecto dos amigos. Está
garantida, portanto. O problema é se nos pomos a medir talentos, como
adolescentes inseguros da sua virilidade. Pode dar-se o caso de concluirmos,
com horror, sermos menos dotados do que o rapaz do lado. Saber que a Dulce
Maria Cardoso era uma rapariga não me deixava descansado. Pelo contrário: a
minha opinião sobre as raparigas, na literatura como em outros campos, só
agudizava a angústia. Manter a obra à distância era uma precaução, profilaxia
contra o baixo astral.
Entretanto li o livro, como disse, e a par do entusiasmo que ele me
suscitou senti também um certo alívio. Não porque o achasse menos bom do que a
crítica dizia (no futebol é que se alegram com as derrotas alheias), mas porque
o meu escrito não saía completamente humilhado da comparação. Saía até
autorizado a levantar uma orelhita. Fiquei a achar — com inédita pretensão —
que na cabeça de um leitor O Retorno
e o Hotel do Norte não competem,
conversam. Não se anulam, estimulam-se. Senti por um bocadinho que não fui
autor de um desastre sem lugar nas prateleiras. Mas felizmente estão aí os
editores para me devolver à Terra.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Trash lovers
De vezes em quando, o Jumbo põe DVDs de filmes em promoção e desperta o
adolescente que há em mim. E o consumidor. (E o idiota.) Aparentemente, filmes
a um euro são boas aquisições, mas tendo em conta que a maioria deles não vale
um chavo, um euro é na realidade um preço exorbitante. Claro que o puto estúpido
que eu consigo ser não se importa nada com isso. Um contentor a transbordar de
DVDs é uma visão irresistível. Atiro-me a ele como Ali Babá ao tesouro dos
quarenta ladrões (o que, como metáfora, nem é assim tão desajustado, se considerarmos
a verdadeira natureza do capitalismo e a quantidade de vezes que já murmurei Abre-te Sésamo em frente às portas
automáticas do estabelecimento).
Partilho com Vasco Pulido Valente um vício ou um defeito (apenas um dos
muitos que ele tem, ok?): tenho demasiadas vezes uma necessidade inelutável de
consumir policiais como narcótico, para distracção da vidinha medíocre. O
cronista do Público lê policiais eu vejo policias, se os apanho. E filmes de
ETs.
Sempre que o Jumbo faz as suas feiras de um euro, eu encho uma cesta de
DVDs. Depois passeio-os pela loja com a alegria de um adolescente ou de um titular
de cartão de crédito da década passada, e de seguida, mais responsavelmente do
que estes, devolvo a maior parte dos filmes à proveniência (faço uma triagem
mental enquanto me abasteço de mercearia). Saio de lá, ainda assim, com meia
dúzia deles, geralmente mais seis do que aconselhariam o bom-gosto e o
bom-senso.
Nem sempre reconheço para mim próprio o quanto isto é patético. Por
vezes trago um Hitchcock ou um galardoado de Cannes para ludibriar a
consciência. A comparação com outros prospectores de lixo também me serve de alibi.
Ao contrário de alguns tipos que mergulham no contentor como porcos numa
manjedoura, numa ânsia de encontrar pérolas que faz transbordar o recipiente,
eu vou fazendo a selecção com pinças e torcidelas de nariz, e chego a arrumar o
que os outros desarrumam, como se o lixo em montinhos fosse menos asqueroso.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
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