quarta-feira, 27 de março de 2013

Fim da linhagem

«Ele punha-se a dizer que não havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho, insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado, onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora derivada de uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite.
Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»

Vila Real, Novembro de 2008

sexta-feira, 22 de março de 2013

Passarões

No supermercado onde me aprovisiono de atum, salsichas, sardinhas e demais enlatados de guerra entram por vezes pássaros que passam a noite a chilrear em busca da saída. Mas não são eles que depenicam os cachos de uvas que ali se vendem. Quando decido comprar fruta desta, tento acreditar que os bagos em falta foram retirados por diligentes funcionários à cata de uvas apodrecidas (ou, pronto, vá lá, bicadas pelos pássaros). Mas não se é misantropo por razão nenhuma: acabo sempre a desconfiar que quem depena os cachos é a restante clientela, que acredita ser Democracia o estender as patorras e tirar um bago ou dois ao passar e Liberdade o abrir um iogurte para confirmar se é aquela a escolha acertada. Uma clientela ciosa dos seus direitos, que responde a quem olha estupefactamente para a embalagem aberta e devolvida à prateleira vociferando com ar de escândalo: «Que foi? Meta-se na sua vida!»
Suponho que a cadeia de supermercados terá uma verba para cobrir este exercício de cidadania dos seus clientes. Do mesmo modo que tem uma verba para processar os tipos de casta inferior que por vezes roubam um euro ou dois de hortaliça.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Também tu?

Houve um tempo em que a revolução me parecia acessível. Eram os anos oitenta e a professora de inglês dava-se ao trabalho de arranjar um leitor de cassetes para passar A sort of homecoming dos U2 e falar da poesia. Mais tarde nesse dia ou no fim-de-semana seguinte o DJ (era o tempo em que haviamesmo DJs nas discotecas) propunha Sunday, Bloody Sunday e não era improvável que a rádio passasse entretanto Pride (In the name of love) ou New Years DayThe Electric Co.Running to stand still. Tudo isto nas versões ao vivo, claro, a electricidade era realmente importante e despertava o epiléptico que há em mim. Depois disso a professora de inglês entrou num imerecido esquecimento, o Bono deixou de ser um rufia de Temple Bar e eu digo burguesamente que sim, li Dubliners — sem recordar uma única história.
Imaginemos agora por um momento que os quatro de Dublin não tinham as poupançazitas em offshores e se viam obrigados pela crise a fazer de novo boa música: talvez eu pudesse voltar a conspirar com eles para derrubar o governo. Nada era impossível para um proletário simplório durante os três minutos de uma música e os trinta e três centilitros de uma Super Bock.

Mantra

O ministro espanhol da economia diz que os depósitos dos espanhóis «são sagrados». Vítor Gaspar afirma que uma taxa sobre os depósitos «está totalmente fora de questão». Não somos a Grécia. Não somos o Chipre. Até à derrota final.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Banha-da-cobra

Se um amigo nos diz que há oportunidades na adversidade, está a tentar animar-nos. Mesmo que nos minta (e, estatisticamente, mente-nos), sabemos que a mentira é piedosa, bem-intencionada. Agradecemos-lhe e, havendo forças, assobiamos de bom grado com ele Always look at the bright side of life.
Se um tipo como Passos Coelho não se cansa de nos repetir esse mantra de cada vez que nos dá más notícias, não devemos cair na confusão de o tomar por amigo. Há outra espécie de pessoas que se esforça por revelar o lado bom das coisas, mesmo quando elas o não têm. Sobretudo quando elas o não têm. São os charlatães.

Nunca compre um carro em segunda mão a Passos Coelho — descobrirá que não tem motor, embora o chassis seja alemão.

Adágio popular

A direita não suporta a classe média, a insolente ambição da classe média. Por isso a direita é geralmente tão amiga do povo — do povo tal como ele se vê em estampas antigas a sépia. Se um destes partidos de direita se propõe ajudá-lo, tome cautelas. Caso não esteja num casting para séries televisivas do género “Conta-me como foi”, o mais certo é que o queiram tornar figurante do reality show com o mesmo nome.

Tempestade sem bonança

O Professor Zandinga, magoado com as comparações, acha que Vítor Gaspar não passa de um simples meteorologista, e sugere que o recambiemos para o respectivo Instituto. A Nação discorda. Gaspar nas vezes de Anthímio de Azevedo, mais do que falhar as previsões, haveria de trazer sempre mau tempo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Distopia, mas pouco

Entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012 escrevi alguns episódios de A Vida de K., uma crónica do futuro próximo. Lembro-me de um ou outro leitor censurar o pessimismo ou o exagero das narrativas. Tolos. Ignoram que a realidade costuma ultrapassar a literatura. Quando se derem conta e eu retomar a série, perceberão que não estarei já a escrever ficção, mas a fazer a crónica dos dias presentes.

[A Vida de K.1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7.]

domingo, 17 de março de 2013

O bug das finanças

Se, como parece, a política do governo assenta numas páginas de Excel, teremos de concluir, tendo em conta a forma como as suas contas falham, que não temos um ministro nas finanças — temos um dos famosos bugs da Microsoft.

Desapontamento

O ministro das finanças está desapontado. E o caso não é para menos: que desfaçatez intolerável este comportamento das coisas reais face à irrepreensível acomodação das células de Excel!

Perante os sentimentos exacerbados dos portugueses (frustração, depressão, angústia, inquietação, raiva, desespero) o nosso ministro das finanças não sente mais do que um desapontamento. Já sabíamos que era suspeita aquela maneira de falar (e de pensar), mas agora temos a certeza de que Gaspar é, ele próprio, um simples conjunto de zeros e uns, um aglomerado de bytes que fazem um belo holograma de testa enrugada.

terça-feira, 12 de março de 2013

Janela indiscreta

Tenho uma tendência para humanizar coisas e bichos. Até pessoas, por vezes.
Hoje pousou-me uma pomba no peitoril da janela e, como eu tinha acabado de sair do duche, suspeitei que o fez intencionalmente. Imaginei-a, lubrica, a espreitar-me enquanto me vestia. Ao dar com ela, encolhi a barriga e tentei mexer-me pouco — mas ela resistiu, não se mandou contra o vidro na ânsia de entrar. Também não se mandou abaixo do parapeito, o que me confortou o ego, antes um pouco melindrado com a sua resistência.
De seguida estiquei-me cuidadosamente para apanhar o cinto e ela abriu as asas e lançou-se atabalhoadamente nos céus. Ainda considerei aquilo muito humano, mas de uma humanidade diferente: de criança antiga, traumatizada com sovas paternas pré-revolução. Ou de jovem mulher que não lê As 50 Sombras de Gray e desdenha por isso os prazeres sado-masoch.
Devia ter considerado não usar cinto hoje.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Primeiros parágrafos

Roubando a rubrica de José Mário Silva: primeiros parágrafos. Neste caso, da minha opus IV.
(Talvez seja melhor dizer, preparando já um alibi para mais do que certas mudanças de opinião ou para assegurar a indulgência do juiz, primeiros parágrafos na forma tentada. Na verdade, é a descrição mais justa, já que falhei este trabalhinho encomendado a mim próprio.)

«Lembram-se do esqueleto que há uns seis meses alvoroçou a cidade? Era eu. Sei que é difícil de acreditar, até porque o esqueleto usava barba. Mas era eu. Hoje estou muito melhor, comi qualquer coisa entretanto e barbeei-me, voltei a usar roupa. Mas as fotos que viram nos jornais eram minhas. As tíbias, os fémures, os rádios, as falanges, todo o chocalhante conjunto era meu. Até o chapéu era meu. Sim, reconheço, podia ser de um cigano. Porém, era meu. Tomaram-me por um junkie, mas isso era uma acusação sem cabimento. Naquela altura eu já tinha deixado de me injectar, as agulhas partiam-se-me nos ossos. Bebia, de facto, mas não muito. Um pouco menos do que o Rasputine. Eu sei que ele era ligeiramente maior do que eu e isso faz diferença. Ok, umas três vezes maior do que eu. Sou um tipo baixo. Um baixote. Um minorca. E magro (agora já nem tanto). E louro. Se fosse moreno, teria sido mais difícil ser baixo. Era demasiado azar para se continuar vivo. Um gajo louro tem outro lustro. E depois há os olhos azuis. As mulheres quando olhavam para mim não viam um gajo baixo, estavam demasiado ocupadas a derreterem-se com o lourinho de olhos azuis. Quando finalmente se dispunham a medir-me a altura, faziam-no aos palmos e era raro passarem dos tomates. De resto, eu tinha ali uma surpresa para elas, uma a que se agarravam de mãos e dentes. Um tipo pode ser baixo e ter um pau comprido. As leis da física não o impedem. Fizeram-se testes. Eu fiz testes, na adolescência. No início, quando percebi que tinha uma coisa telescópica entre as pernas que em certas alturas não parava de crescer, assustei-me. Achei que aquilo me podia desequilibrar. Nunca a deixava crescer sem me encostar com uma mão a uma parede. Não é incomum que os putos o façam, embora nem todos limpem a parede depois. Mas fui ganhando confiança, como os funâmbulos se adaptam à vara que os equilibra no arame. Se pensam em termos gráficos, talvez estejam com dúvidas sobre a funcionalidade do sistema, mas a representação não esclarece tudo. Há os glúteos, que se desenvolvem com o crescimento. Imaginem isto: as mamalhudas não passam o tempo a cair de queixos, pois não? Bem, algumas passam, é verdade. O que quero dizer é que o nosso sistema muscular se adapta à carga com que tem de lidar. Não era um daqueles tipos com bíceps hiperdesenvolvidos porque não precisava assim muito dos braços. Isto pode deixar confuso um alferes, quando se vai para a tropa e se fracassa nas flexões na barra, mas não as mulheres. Pelo menos há vinte anos não. Entretanto tive de me adaptar, frequentar ginásios, arranjar-lhes uns bíceps que pudessem apalpar. O centro gravitacional de um corpo não muda com as épocas e os gostos, mas por vezes tem de se arranjar uns pontos de apoio para as mãos.»

O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice

«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças, ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria, se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum) justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária (a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia geral ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.

domingo, 10 de março de 2013

Lugares-comuns da nacionalidade

À entrada do supermercado, um junkie que por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental, substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos, masculinos: os croissants como jóia possível para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente e futura.

Ganhar asas

Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele, achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já aqui falei. Entre ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis e do Continente, talvez a Adília faça.)
Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem tanto nas pernas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Delfina (3)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 3.ª parte]

«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas. Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira. Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências, por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a, entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»

in Hotel do Norte

Delfina (2)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]

«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento, como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas, previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem pretas.»

in Hotel do Norte


Delfina (1)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]

«Todas as roupas de Delfina eram de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros, convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores incertas.»

in Hotel do Norte

Tomando nota

Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta, porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde toma nota dos negócios da marijuana e do resto.

Os corredores e os melancólicos

Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram. Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre que posso acumulo em mim os dois.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A capital do México

À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele, gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova, pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos. Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para ela a capital do México é
— Cabu… Cabu…
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu… Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu… Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis, comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro. Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e, mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete, lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa, afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador. Entre o terem-se abastecido no dealer dela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo apenas existe como décor da sua deambulação. Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo.  Não é impossível que ela termine, como noutras noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio. Um rendez-vous entre junkies não tem de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela noite. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Terceira Lei de Newton

Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal, e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante, treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista, que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos, vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque, contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros (pelo menos entre as primeiras). É a única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr. Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos, curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.


P.S. Terceira parte de uma narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar “Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.

A origem do mito

As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola, se para fundar um novo culto religioso.

domingo, 3 de março de 2013

A semântica do capitalismo (2)

«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Público apenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir acertadamente a semântica do capitalismo?

A semântica do capitalismo

A crer na sintaxe do Público, se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das "remunerações abusivas" dos "patrões" de grandes empresas». Limitação? Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.

Amor de mãe

Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal; perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão. Tinha optado por aquele look e apenas se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório. Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se se devia sentir orgulho no engenho do filho.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A angústia de medir pilinhas

Depois de muito adiar, li recentemente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. É um excelente romance, merecedor dos elogios que recebeu.
Por variadas razões, não tenho sido leitor habitual dos novos autores portugueses. O orçamento é escasso e na hora de seleccionar as aquisições raramente me parecem urgentes estas novidades tugas. Os livros pretos de Gonçalo M. Tavares, em tempos, os de Rui Cardoso Martins e um ou outro mais têm sido, se bem me lembro, excepções. Suponho também que andar em quezília com a literatura me tem levado a manter a minha geração à distância. Ou talvez seja a eterna condição de aprendiz que determina atenção particular aos mestres. Um pouco disto tudo, certamente.
Com O Retorno havia, no entanto, mais do que com qualquer outro, a angústia do cotejamento. Um ano antes de o livro sair eu tinha terminado o meu próprio romance sobre retornados. Não exactamente uma crónica literária sobre aquele período conturbado de 1975. Hotel do Norte, o meu livro, é, algo diferentemente, uma ficção que se apropria de memórias. Se dele resulta também um retrato de época é uma inevitabilidade, não tanto um objectivo.
Em todo o caso, O Retorno preocupava-me. Temia o confronto. Permanecer-se um autor inédito tem as suas vantagens: a ilusão é permitida, está-se ao abrigo da crítica profissional. A nossa carreira depende apenas do nosso juízo e do afecto dos amigos. Está garantida, portanto. O problema é se nos pomos a medir talentos, como adolescentes inseguros da sua virilidade. Pode dar-se o caso de concluirmos, com horror, sermos menos dotados do que o rapaz do lado. Saber que a Dulce Maria Cardoso era uma rapariga não me deixava descansado. Pelo contrário: a minha opinião sobre as raparigas, na literatura como em outros campos, só agudizava a angústia. Manter a obra à distância era uma precaução, profilaxia contra o baixo astral.
Entretanto li o livro, como disse, e a par do entusiasmo que ele me suscitou senti também um certo alívio. Não porque o achasse menos bom do que a crítica dizia (no futebol é que se alegram com as derrotas alheias), mas porque o meu escrito não saía completamente humilhado da comparação. Saía até autorizado a levantar uma orelhita. Fiquei a achar — com inédita pretensão — que na cabeça de um leitor O Retorno e o Hotel do Norte não competem, conversam. Não se anulam, estimulam-se. Senti por um bocadinho que não fui autor de um desastre sem lugar nas prateleiras. Mas felizmente estão aí os editores para me devolver à Terra.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A ler

1 e 2.

Trash lovers

De vezes em quando, o Jumbo põe DVDs de filmes em promoção e desperta o adolescente que há em mim. E o consumidor. (E o idiota.) Aparentemente, filmes a um euro são boas aquisições, mas tendo em conta que a maioria deles não vale um chavo, um euro é na realidade um preço exorbitante. Claro que o puto estúpido que eu consigo ser não se importa nada com isso. Um contentor a transbordar de DVDs é uma visão irresistível. Atiro-me a ele como Ali Babá ao tesouro dos quarenta ladrões (o que, como metáfora, nem é assim tão desajustado, se considerarmos a verdadeira natureza do capitalismo e a quantidade de vezes que já murmurei Abre-te Sésamo em frente às portas automáticas do estabelecimento).
Partilho com Vasco Pulido Valente um vício ou um defeito (apenas um dos muitos que ele tem, ok?): tenho demasiadas vezes uma necessidade inelutável de consumir policiais como narcótico, para distracção da vidinha medíocre. O cronista do Público lê policiais eu vejo policias, se os apanho. E filmes de ETs.
Sempre que o Jumbo faz as suas feiras de um euro, eu encho uma cesta de DVDs. Depois passeio-os pela loja com a alegria de um adolescente ou de um titular de cartão de crédito da década passada, e de seguida, mais responsavelmente do que estes, devolvo a maior parte dos filmes à proveniência (faço uma triagem mental enquanto me abasteço de mercearia). Saio de lá, ainda assim, com meia dúzia deles, geralmente mais seis do que aconselhariam o bom-gosto e o bom-senso.
Nem sempre reconheço para mim próprio o quanto isto é patético. Por vezes trago um Hitchcock ou um galardoado de Cannes para ludibriar a consciência. A comparação com outros prospectores de lixo também me serve de alibi. Ao contrário de alguns tipos que mergulham no contentor como porcos numa manjedoura, numa ânsia de encontrar pérolas que faz transbordar o recipiente, eu vou fazendo a selecção com pinças e torcidelas de nariz, e chego a arrumar o que os outros desarrumam, como se o lixo em montinhos fosse menos asqueroso.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Segunda Lei de Newton

Ainda pensa nele com frequência, e alimenta com denodo aquela ideia tola de que um dia se vão encontrar à entrada da ponte. Volta lá todos os sábados, à mesma hora, com a desculpa do trekking. No início imaginava-o a ir até ali nem que fosse uma vez por curiosidade, como se também ele ocupasse os seus pensamentos com ideias daquelas. A literatura dedica-se frequentemente a testar realidades alternativas, a averiguar como seriam as coisas se diferentes opções fossem tomadas, diferentes forças tivessem agido, a conceber novos destinos e desfechos para eventos conhecidos do público ou do autor. Pode dizer-se muitas vezes que um romance é uma variação sobre um tema e que, sendo as variações infinitas, os temas o não são. No caso dela, isto é uma verdade insofismável: o seu único tema é o encontro malogrado.
Acontece que ela não é uma escritora, apenas uma pessoa um pouco perdida, pelo que o exercício ficcional reiterado não lhe traz elogios da crítica, mas a censura branda do psicanalista. Imaginá-lo uma alma gémea, alguém que não resiste um dia a vir até ali interrogar-se sobre que rumo teria tomado a sua vida se tivesse comparecido ao encontro, faz parte da patologia dela e é uma nova motivação para a saída de sábado à tarde. Que se junta à já de si suficiente tendência para remoer frustrações com método.  
Hoje, porém, está prestes a descobrir que as coisas podem mudar. Parou como sempre na entrada da ponte, para consultar o telemóvel e perscrutar o horizonte num gesto ritual, evocativo, fingindo uma pausa para beber água e retomar o fôlego. Sempre pensou que se o encontrasse a meio de uma das suas caminhadas a visão dele seria suficiente para a deter. Mas, porque ela está de momento parada e ele vem com o braço pelo ombro de uma qualquer, o princípio fundamental da dinâmica será demonstrado de forma diferente: quando ela os vê, sente um desejo súbito de experimentar o jogging e sai a correr na direcção da força que emana do casal, mas em sentido contrário à localização deles.
Se a força gravitacional dos corpos pode ser uma boa imagem para descrever o amor, a segunda Lei de Newton pode talvez usar-se com igual propriedade para assinalar a evolução desportiva de uma rapariga magoada.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Primeira Lei de Newton

O ritmo dos seus passos abranda com a subida, mas não é subida que a faz abrandar. À entrada da ponte pára, como se estivesse indecisa quanto ao caminho a escolher. Mas não está. Olha em volta, mas não há sinal da silhueta dele no horizonte. Consulta o telemóvel, e não tem nenhuma mensagem. Não está segura de querer ter uma mensagem. Podia ser uma do género «Estou atrasado, não demoro», mas também podia ser pior. Um evasivo «Não posso» ou um assertórico «Não vou, foi um engano.» Afinal, as coisas não haviam ficado assim tão claras. Tinham combinado às duas no parque, mas quanta convicção há num «sim»? Ela não lhe mandou nenhum sms a pedir-lhe que confirmasse, temia dar-lhe uma oportunidade de agora responder «não». É mais fácil responder do que tomar a iniciativa. Por vezes também é mais fácil aparecer a um encontro do que dizer-se que não se quer ir a esse encontro. A inércia dos corpos e da vida. Ela deposita nesse princípio da dinâmica as suas últimas esperanças, se tudo o resto falhar. Tem esperança que ele apareça nem que seja para não se dar ao trabalho de faltar.
Consulta de novo o horizonte e o ecrã do telemóvel, mas não há sinal dele, nenhuma das suas manifestações possíveis tem lugar. Apenas a passagem do tempo, assinalada com quatro dígitos que há muito deixaram de ser 14:00.
Então começa a descer o caminho pelo outro lado e os seus passos vão acelerando. Como uma bola que, depois de quase se deter ao chegar ao cume, ganhasse de novo velocidade na descida, a gravidade vencendo o atrito. Em poucos minutos adopta um passo furioso, como o daquelas outras raparigas que vão ao parque para caminhar, gastar calorias em marchas vigorosas, de fato de treino justo, garrafa de água na mão e um tagarelar ofegante. Ao fim de um quarto de hora de caminhada, descobrindo centenas de metros depois prazeres insuspeitados no esforço físico e remoendo o despeito amoroso, consegue-se imaginar a fazer aquilo para o resto dos seus dias: tornar-se viciada em caminhadas e presa a um encontro que não ocorreu. Não é preciso muito: umas sapatilhas com bom piso e um espírito romântico obsessivo, também ele obediente, na sua persistência, à primeira Lei de Newton.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Grândolas de manhã à noite

À direita e à esquerda é agora moda haver quem se incomode com o uso da Grândola como forma de calar políticos. A democracia, o direito de expressão e mais não sei o quê... Vão tomar no cu outra vez! O grande atropelo à democracia, à decência e à dignidade é a manutenção de Relvas no Governo. Enquanto ele lá continuar, enquanto for ministro deste país um tipo que representa os nossos piores defeitos em vez de nos representar, a vida pública portuguesa devia hoje ser feita de grândolas de manhã à noite. Devíamos levantar-nos às cinco da manhã para cantar a Grândola durante as abluções; voltar a ela antes do almoço ou do moscatel; entoá-la nas vésperas com o chá ou a imperial; atacá-la em coro depois do jantar ou do brandy; voltar a ela à hora de regressar a casa, ébrios ou purificados pela missa do galo. Um país que tem Relvas como ministro precisa de ser varrido a grândolas, precisa de um tsunami de grândolas. A palavra-passe para aceder à cidadania portuguesa nestes dias devia ser «grândola». Grândola devia ser a única palavra da língua portuguesa. A qualquer pergunta que nos fizessem nós devíamos responder grândola. O nosso quotidiano devia ser grandolizado. Devíamos amar-nos ao som de Grândola, Vila Morena. Dizer grândola como quem diz amo-te. Dizer Grândola como quem diz vai-te foder. Dizer grândola como quem diz tá tudo, vai-se andando, nunca pior, as coisas que costumamos dizer quando não estamos contentes nem tristes. Todos aqueles que não são Relvas ou cúmplices de Relvas neste país deviam enfiar uma polifónica Grândola pelo cu acima do Governo, dos seus acólitos e dos sujeitos do PS que se incomodam com a Vila Morena. E, não dando resultado, a própria azinheira, com todos os nós e toda a rugosidade da sua venerável casca sem idade, deveria ser enfiada pelo cu acima daquela gente.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Guarda-fatos

«Havia um guarda-fatos lá em casa que era como o baú de um mágico. No seu metro e setenta de largura de madeira sólida, continha roupa de várias gerações e modas, entre camisas, gravatas, calças, coletes, casacos, jaquetas, sobretudos, gabardinas e algumas peças femininas avulsas. Os cabides tinham de ser robustos, como a vareta que os sustentava, porque sobrepunham-se em cada um múltiplas camadas de vestuário, como estratos geológicos. O grande gavetão que ficava por baixo das portas espelhadas alojava um ou outro adereço, cintos, suspensórios, botões de punho, mas também correspondência em maços atados por cordéis, fotografias, recortes de jornais, uma variedade de cachimbos — e sobretudo mistérios. Por cima do armário amontoavam-se caixas de sapatos e de chapéus que um friso trabalhado na parte anterior e nas laterais escondia na penumbra do quarto.
Recorri àquele móvel em diferentes fases da minha vida. Inicialmente, usava-o para me esconder de tias beijoqueiras ou de visitas que não desejava. Na infância, aquilo não era um armário, era uma sala, a gruta do Aladino, com um cheiro que me acompanharia o resto da vida. Podia mover-me lá dentro sem sentir uma ponta de claustrofobia, não estava mais limitado nem menos curioso do que o Robinson Crusoé. Mais tarde visitava-o pelo Carnaval, como quem se dirige a uma loja de fantasias. Era possível encontrar ali peças excêntricas, datadas, risíveis, largueironas, de cortes ou cores extravagantes, que eu combinava da forma mais absurda que me ocorresse. Visitava-o também sempre que me apetecia sonhar com épocas passadas ou geografias longínquas, quando me bastava escolher um dos muitos cachimbos para que novas histórias tivessem lugar naquele quarto. No final da adolescência morava no guarda-fatos o meu estilista, era ali que eu me fornecia de indumentária para me imaginar na vanguarda da moda e das atitudes.
Numa das vezes que usei o armário para compor a figura escolhi uma gabardina. Pareceu-me, por alguma fotografia que vi na imprensa ou imagem breve na televisão, que o defunto vocalista dos Joy Division usava gabardinas escuras. Achei lógico. Tinha lido coisas sobre a banda, conseguira uma cassete, identificava-me com aquele ambiente depressivo e ao mesmo tempo frenético. Era Verão, mas tinha chovido e a noite ficara um pouco mais fresca. Razões suficientes, pensei, para procurar no guarda-fatos uma gabardina. Estava farto das minhas roupas sem dignidade nem estilo, os trajes gastos e únicos e sem carácter de um filho da baixa classe média provinciana. Cobri-me com aquela peça, provavelmente militar, e saí para rua com a auto-estima nos píncaros, ar fatal, passo gingão, cigarro no canto da boca — a suar demasiado. Atrevi-me a cruzar a praça e a entrar no Luxor, o melhor café da vila, com uma decoração vagamente colonial. Encostei-me ao balcão e pedi cerveja.
Contava voltar-me para apreciar o ambiente como um Humphrey Bogart discreto, mas o que me esperava eram olhares de escárnio, comentários, risadas, dedos apontados. Eu era o centro das atenções, mas não porque me distinguisse pela elegância, causasse sensação e inveja.
Em cinco minutos tinha desmoronado o edifício que diligentemente construíra meia hora antes. Queria colher os frutos da ousadia, da diferença, mas apenas sentia vergonha. Era só um miúdo ridículo, demasiado vestido para a estação, que descolorava o cabelo nas fontes com água oxigenada.
Bebi o fino de um gole e saí de imediato, cabeça baixa, mais deprimido do que antes, com vontade de ler outra vez sobre o suicídio do meu ídolo.»

Pedro in Aranda

sábado, 16 de fevereiro de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Beatas e expressões

Descem a rua com os seus trajes austeros, quase um uniforme, os seus missais seguros com as duas mãos ao nível do ventre e envoltos em rendas, os seus rostos duros, ferozes, até, desenhados a moral e censura. Têm expressões de instrumentos de Deus, prontas para Lhe limparem a casa (e a do padre, Seu representante) ou exercerem a Sua fúria vingadora, mais para isto do que para aquilo. Olhamo-las e imaginamos que o amor a Deus e a obediência à Verdade são a causa de terem rostos que não enganam, que transparecem a condição de cães de guarda da moral.
E no entanto erramos frequentemente no jogo de adivinhar se uma fotografia no JN é de vítima ou carrasco. Não raro os mortos têm cara de vilões e os assassinos expressão sofredora.

Freak show

Saio à rua e vejo um pequeno desfile que num relance me parece um freak show. Um grupo bizarro de rapazes e homens batendo em tambores, liderado por um sujeito a cavalo e seguido em procissão por meia dúzia de junkies de membros magros e rosto desfigurado. O do cavalo manobra no ar um bastão quase invisível de fino e felizmente inútil (o ritmo já é incerto que chegue assim, sem ninguém obedecer à sua marcação errónea). Cavalga como certas figuras antigas de aldeia, costas arqueadas, queixo recolhido no peito, dormitando ou mal equilibrando a bebedeira. Os que o seguem, com as suas idades, estaturas e bombos sem aprumo nem ordem, imitam demasiado bem uma tropa fandanga que tivesse por uniforme os andrajos desenterrados num saque de aldeia miserável. Atrás do cortejo, os heroinómanos das redondezas, embasbacados e marchando como zombies sem destino.
Depois esfrego os olhos e noto que é apenas um desfile de Carnaval, um que não precisou de investir muito nos disfarces para alcançar aquele efeito. É uma ronda dos arredores que desceu à cidade percutindo bombos e causando pasmo aos junkies do bairro e a mim. Ou só a mim: os junkies nem assistem ao triste cortejo, apenas coincidiram na rua no momento do desfile, a caminho dos seus habituais compromissos inadiáveis.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Nem tudo é repetível

Lá em casa levávamos broncas se numa visita curta a um compartimento ou na passagem por um corredor acendíamos lâmpadas fluorescentes em vez de incandescentes. Estávamos avisados e informados: as lâmpadas incandescentes consumiam mais quando acesas em permanência; as fluorescentes, mais baratas em utilizações prolongadas, custavam caro a acender. Se apenas estávamos de passagem ou íamos entrar e sair, não havia nenhuma boa desculpa para acender lâmpadas fluorescentes. Esse erro agastava sobremaneira o nosso pai, provocando-lhe em certas alturas uma irascibilidade que só viemos a percebemos de todo quando soubemos o que era viver com um ordenado que demasiadas vezes não chegava ao fim do mês.
Hoje, num reflexo daqueles tempos, desloco-me pela casa apagando a luz dos compartimentos atrás de mim, mesmo que tencione voltar, enquanto acendo a dos que me ficam no caminho. Por vezes fico às escuras alguns metros, se os interruptores não estão próximos e acho supérfluo iluminar uns poucos passos. Não me perturba este jogo. Como não me perturba ir a pé para o trabalho. O ambiente ganha com isso. Eu gasto menos com isso. Perturba-me que venha a precisar de uma mercearia que venda fiado e não a encontre. Não encontre mercearias de espécie nenhuma. Nem tudo do passado é repetível. No portugalzinho provinciano e comunitário de Salazar era possível levar uma grande lista de compras e dinheiro nenhum na carteira. Os franchises de hoje, mesmo quando apresentam rostos mais simpáticos por detrás da registadora, não têm a mesma confiança na palavra dada. Além de que, suspeito, a companhia da electricidade é hoje mais despida de escrúpulos na hora de definir tarifários.

A humanidade por detrás do culto

Depois do post Mulher a rezar” revisitei, agora com atenção, os nichos religiosos ao fundo da rampa do Calvário de que já falei algumas vezes. Passo ali todos os dias, de carro ou a pé, mas não tinha percebido que o Cristo coroado e flagelado não carrega a cruz (está agarrado a uma coluna) e que do outro lado é a casa de um Santo António com o Menino ao colo, e não de uma Virgem Maria (embora a de Fátima também esteja presente, num altar subalterno aos pés do franciscano).
Espreitei e vi como ardiam velas em latinhas que parecem de refrigerantes, com gravuras no exterior, vi plantas em vasos que dão aos nichos um certo ambiente de estufa, vi as vassouras que diariamente varrem os pequenos compartimentos, as bisnagas com que se borrifam as plantas e a cerâmica ou o barro pintado das figuras, vi na sua mundana caixa de supermercado o rolo de papel de alumínio de onde saem os fundos que protegem os tabuleiros das velas, vi a prosaica caixa dos fósforos que acendem as velas, vi o saco preto reciclável onde se acumulam as latinhas já usadas — vi, enfim, os bastidores de oratórios ou santuários demasiado pequenos para terem resguardados da vista os produtos e os objectos que revelam a humanidade por detrás do culto.
Decerto não veria nada disso se tivesse ido ali apenas para rezar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eventualmente ou o princípio da incerteza

Obedecendo a um particular entendimento das coisas ou a uma estranha obsessão, os responsáveis pelas legendas no cinema geralmente traduzem do inglês um indubitável eventually por um incerto eventualmente. Por exemplo: as águas de um rio que em inglês vão inelutavelmente dar ao mar, por difícil e longo que seja o caminho, em português não têm garantido esse destino salgado, só eventualmente encontram a foz.
Hoje, num filme que me passou pelo ecrã, a expressão «in the end everybody dies» foi traduzida como «eventualmente todos morrem». Fiquei baralhado. O tradutor teve bizarras dificuldades com a expressão original, procurou uma correspondente em inglês e só então traduziu a ideia (com o erro habitual)? Terá imaginado uma primeira tradução do género «todos acabam por morrer», feito de seguida a retroversão para, sei lá, «everyone eventually dies» e só então se sentiu capaz de balbuciar alguma coisa em português? Ou é na verdade o grémio das legendas partidário do princípio da incerteza até no que se refere à morte?

Os habitantes do parque: notas para um inventário

O parque não é habitado por gnomos ou outros seres mitológicos, pelo menos que eu saiba. Nem há assim tanta gente que se possa dizer que é do parque. Às horas que o percorro, de dia, lembro-me de um clérigo de uma religião alternativa, com a sua gabardina dois números acima, um saco na mão direita e frequentes olhos no céu; um reformado pesadão de bengala e cão idoso pela trela que tem um pedaço do parque como quintal; um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo, numa caminhada enérgica antes do expediente da tarde; duas ou três senhoras indistintas e decididas no seu fato-de-treino claro e no seu trekking pós almoço; os habituais funcionários camarários vestidos de verde-almeida e responsáveis pela relva, na parte em que o parque é relvado; um senhor com luvas, protectores de orelhas e eventuais problemas de colesterol ou próstata cumprindo a prescrição médica… Quase todos os outros são meros transeuntes que atalham pelo parque a caminho de qualquer destino alhures, geralmente indiferentes ao caudal do rio, à azáfama da passarada ou ao estádio da floração. Ao final da tarde a fauna aumenta, mas malogradamente outras ocupações impedem-me de lhe fazer o inventário. E às minhas horas da noite já quase não sobra ninguém: um ou outro corredor de calças de lycra, uma ou outra parka com gente anónima dentro.
Há contudo nos últimos tempos um sujeito careca nos seus quarentas que se posiciona durante a hora de almoço numa escadaria com vista para uma das represas. Talvez tenha agora descoberto que aquele é um bom sítio para almoçar. Talvez tenha voltado a fumar e ali, meio camuflado pela vegetação, não o assolem tanto os remorsos nem a censura de familiares ou colegas. Talvez seja vítima de desgosto recente e os olhos com que vê a queda da água não sejam indiferentes à melancólica beleza da corrente. Talvez, enfim, seja apenas um dealer a variar de ponto de distribuição por gosto ou cálculo e o telemóvel lhe trema nas mãos em resultado de um mercado em alta e não de um astral em baixa.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A partir de “Portugal, finis terrae”, de Pedro Rosa Mendes

A Ler tem um novo número nas bancas, mas aquele que é urgente ir comprar, para quem ainda não o fez, é o de Janeiro. Por causa de “Portugal, finis terrae”, esclarecedor ensaio de Pedro Rosa Mendes ali publicado. Nenhum português deveria considerar-se informado (ou adulto) sem o ter lido. É um texto escrito em tom vigoroso, porém sóbrio, acerca das origens históricas da crise que vivemos. Informa, alerta e incomoda, não deixa quase ninguém incólume: dos partidos da alternância à «Europa» (grafada com aspas, num interessante paralelismo com o costume de Vasco Pulido Valente), passando pelos EUA. Talvez poupe um pouco, em minha opinião injustamente, os portugueses enquanto povo.
A grande singularidade do texto de Pedro Rosa Mendes, a par da sua opinião informada e da coragem com que ele a expressa, é a independência em relação às instituições e em relação às tendências político-partidárias. Há, à esquerda e à direita, outras pessoas no país que fazem diagnósticos coincidentes, pelo menos em boa parte, mas as suas relações afectivas ou de interesses, o seu comprometimento ou proximidade aos partidos, limitam-lhes a coerência, tornam-nas inconsequentes, inúteis ou perniciosas. O mundo dos comentadores políticos é geralmente um território de canto coral ou onde drapejam bandeiras.  
É hoje para mim claro que o futuro português não pode ser construído pelos partidos, estes partidos. Dos municípios ao Governo, o país precisa de um reset, de se reinventar politicamente, e isso não se consegue fazer com gente tão implicada, tão cúmplice, tão presa aos métodos e aos desígnios das facções. Não se consegue fazer com protagonistas que andam pelo país como mercenários a repartir despojos ou por militantes que estão na política tão estupidamente como no futebol.
Não se trata de tirar razão à esquerda ou à direita, de invocar um hipotético centro virtuoso. Não tem nada que ver com esta posição ingénua, igualmente maniqueísta, de consensos pantanosos.
Trata-se de dizer abertamente que os partidos portugueses são cancros na sociedade e que detêm, em doses semelhantes, a culpa da situação que vivemos. (Da culpa que podemos reivindicar como nacional — nunca deixemos a «Europa» de fora disto.)
Como diz Rosa Mendes, «não haveria Passos Coelho sem Sócrates». Mas quem pode verdadeiramente negar que Passos Coelho seria o Sócrates da década anterior e Sócrates o Passos Coelho destes anos se a História lhes tivesse concedido vencer eleições em períodos diferentes? Quem pode jurar, sem hipocrisia ou cegueira, que distingue os Governos por muito mais do que o tempo e as circunstâncias em que lhes calhou governar?
Há decerto elementos no actual Governo que têm as melhores intenções, mas que liberdade lhes deixam ou que trabalho farão que não seja arruinado pelos colegas menos escrupulosos e mais oportunistas? (E mais poderosos.)
Um país não se devia governar, mesmo em tempos de crise, com sebastianistas, revolucionários, salvadores nomeados pelo Presidente ou pelas instituições (nacionais e estrangeiras). Mas também é certo que jamais se governará com a actual classe política.
A democracia ainda não foi destronada do pódio de melhor sistema de governo, e não me parece provado que a democracia representativa tenha os dias contados, que mereça ter os dias contados. Apenas precisa de outros representantes. Precisa de uma faxina.
O problema é que em Portugal é muito difícil formar partidos políticos. Não porque as leis e a burocracia sejam particularmente inexoráveis, mas porque um novo partido em Portugal é sempre considerado uma coisa excêntrica, terá previsivelmente um eleitorado da dimensão daquele que têm os partidos monotemáticos, de âmbito e programa circunscritos a uma ideia e um punhado de simpatizantes que se conhecem pessoalmente.
A vileza dos representantes em Portugal é pelo menos igualada pela estupidez dos representados. O eleitorado português é suficientemente perspicaz para reconhecer um cretino quando vê um — mas é também suficientemente estúpido, ou está suficientemente implicado, para votar de novo nele.
Parecemos condenados a concluir como Pedro Rosa Mendes concluiu o ensaio dele, utópica ou apocalipticamente: «Resta, pois, a rua, morada comum da raiva.» De facto, as possibilidades anteriores à rua, numa escalada de tomada de poder, parecem condenadas ao fracasso. Não se imagina que os independentes bem-intencionados dos anos recentes da política portuguesa possam formar um novo partido, mais sério e competente; não se imagina que esse partido fosse votado, caso pudesse formar-se; mas também não se imagina que os partidos actuais possam gerar anticorpos suficientemente poderosos para debelar a sua infecção interna. Será um problema de imaginação aquilo que nos aflige? Ou de coragem (de fazer e votar diferente)?

  
* Quem não conseguir comprar a Ler de Janeiro, pode encontrar aqui o ensaio de Pedro Rosa Mendes: http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B05DAEA92-2ABB-42ED-89ED-7F3F0B378A5D%7D

Mulher a rezar

Antes de se virar a esquina e iniciar a rampa do Calvário, há de cada lado da estrada uma capelinha ou pequeno santuário com portão em barras de ferro. De um lado está Cristo carregando a Cruz, do outro uma santa, provavelmente uma das várias manifestações da Virgem. A mulher reza daquele lado. Numa observação menos atenta, não se diria que reza: posição do corpo a três quartos, como quem está de passagem e mal se deteve para uma espreitadela curiosa; sapatos e roupa de sair em passeio; cabelo acabado de lavar no cabeleireiro; a carteira na mão direita, a de fora, exactamente como quando ela se encosta ao vidro de uma montra a passar os olhos pelos saldos ou pela nova colecção. Dir-se-ia visitante, turista, mas a mão esquerda, firmemente agarrada a uma das barras do portão, impregnando-se de ferrugem, segurando-se ali como náufrago à corda salvífica, confirma que reza.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A guitarra que falava

Por timidez, desinteresse ou incompetência, sempre fui nalguns assuntos um tipo um pouco retardado. Quando a isso se somavam as dificuldades financeiras, eu podia ser bastante neandertal em relação à restante rapaziada. E misantropo.
Um dia no intervalo das aulas um colega quis partilhar comigo a música que ouvia no seu novo walkman. Senti-me honrado, naturalmente, mas também assustado. Sabia que existiam mas nunca tinha experimentado ouvir música numa coisa daquelas. Qual seria a sensação? Como se ajustava o aparelho nas orelhas?
Acontece que o colega não queria apenas que eu ouvisse a música, queria que reparasse como o guitarrista dos Lynyrd Skynyrd fazia falar a guitarra. Eram muitas experiências novas para tão pouco tempo. Walkman. Guitarras que falam. Lynyrd Skynyrd (quem?). Ajustei os auriculares e a primeira coisa que disse ou pensei foi que a música parecia vir de todo o lado, ou estar dentro da nossa cabeça. O colega sorria. Eu ainda não tinha interiorizado a experiência e, por educação, para não abusar da generosidade, já me estava a obrigar a tentar decifrar o que queria ele dizer com uma guitarra que fala. Havia um solo, sim, mas por mais que me esforçasse não entendia nenhuma palavra — e já sabia algumas coisas de inglês. Para mim não havia nada de metafórico no que me fora pedido: eu estava mesmo a tentar ouvir uma guitarra a falar, balbucios que fossem.
Fingindo conhecimento e afectando desinteresse, acabei por dizer que sim, de facto era uma guitarra eloquente, embora não apreciasse muito a música.

(Podia ter contemporizando mais, sido menos herético, dizendo-lhe apenas que “não era sensível ao tema”— se fosse capaz de usar com rapidez a ambiguidade das palavras, de pensar a tempo na utilidade da sua amplitude semântica para uma boa convivência social.)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A monarquia dos jotas

Uma noite destas os meus passos cruzaram-se com os de um grupo de jotas. Não é o género de experiência que se queira ter com regularidade. Equivale a sairmos à rua na noite dos mortos-vivos e darmos por eles tarde demais para mudar de passeio. Sinistro assim.

Como já todos tiveram decerto oportunidade de apreciar, os jotas são uma espécie de guarda pretoriana dos partidos que ambiciona — e consegue — obter cargos políticos. Enquanto adolescentes, fazem de claque, de tropa de choque ou de aias dos chefes partidários. Vão aos comícios, aos jantares e às cerimónias, com a sua prestabilidade e a sua coqueteria, criar a ilusão de que os líderes são homens de estado, respeitados e respeitáveis, admirados e amados, carismáticos e visionários. São a cortina de fumo que se interpõe entre os políticos e a realidade. Uma pequena corte de pajens obsequiosos que ajuda o soberano a construir castelos no ar. Os chefes dos partidos não enfrentam a verdade porque para a verem teriam de avançar à catanada através de uma selva de jotas. A sua estrada de Damasco é uma picada africana que só se cruza se se estiver disposto a usar generosamente a espingarda de caça grossa antes de cair do cavalo. Como os chefes não o estão, não se dá a epifania. Nem caem do cavalo. Ou se caem é para deixar subir à sela, incólume, um jota da sua predilecção.
Mais tarde, os jotas recebem os seus postos na máquina do Estado para, numa primeira fase, continuarem com mais e melhores meios o trabalho de incensar o chefe e firmar o seu poder absolutista. Na fase seguinte, iniciam o seu próprio reinado de inépcia, arbitrariedade e terror na parte de território que lhes tenha sido atribuída durante a repartição dos despojos.

Em Portugal os jotas têm vindo a chegar aos mais altos cargos do poder. E isso é como ter nos postos de comando nacionais duques e condes (pela pesporrência), aias (pela intriga palaciana) e pajens (pelo corte de cabelo). Nesta particular espécie de monarquia, ao povo não resta mais do que o papel de bobo da corte.

Quem imagina que em Portugal o feudalismo acabou quando acabou a Idade Média não vive cá. O feudalismo não acabou: apenas pôs gravata e, mais recentemente, gel no cabelo.

O magala e a namorada

Como faziam soldados de incorporações muito anteriores à dele, levou a namorada ao parque depois de jantar. A noite está fria e convida pouco a sentar no banco à beira-rio, mas eles não parecem enregelados. Talvez estejam mesmo apaixonados, camonianamente aquecidos. Ela cruzou as pernas sobre o banco e pousou as mãos nos joelhos, a ouvi-lo. Ele fala sobre o juramento de bandeiras — e de repente parece-me que, embora a humanidade seja vasta, é limitado o número de cenas que ela tem para representar, limitado o número de deixas que tem para dizer.
Um magala do século XXI será uma reencarnação de todos os magalas que o antecederam? Seguirá cada vida individual um guião comum, transversal aos tempos? Infinitas são as reencarnações, não as conversas que se podem ter? Que singularidade exibe cada um de nós perante as décadas, os séculos, ou perante um observador que nos espreite de Alfa Centauro?
No mundo claustrofóbico que por instantes é o meu enquanto atravesso o parque, os magalas estão agora autorizados a sair do quartel sem farda nem boina à banda, mas não a criarem narrativas originais.