Imaginemos agora por um momento que os quatro de Dublin não tinham as
poupançazitas em offshores e se viam obrigados pela crise a
fazer de novo boa música: talvez eu pudesse voltar a conspirar com eles para
derrubar o governo. Nada era impossível para um proletário simplório durante os
três minutos de uma música e os trinta e três centilitros de uma Super Bock.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Também tu?
Houve
um tempo em que a revolução me parecia acessível. Eram os anos oitenta e a
professora de inglês dava-se ao trabalho de arranjar um leitor de cassetes para
passar A sort of homecoming dos U2 e falar da poesia. Mais
tarde nesse dia ou no fim-de-semana seguinte o DJ (era o tempo em que haviamesmo DJs
nas discotecas) propunha Sunday, Bloody Sunday e não era
improvável que a rádio passasse entretanto Pride (In the name of love) ou New
Years Day, The Electric Co., Running to stand still.
Tudo isto nas versões ao vivo, claro, a electricidade era realmente importante
e despertava o epiléptico que há em mim. Depois disso a professora de inglês
entrou num imerecido esquecimento, o Bono deixou de ser um rufia de Temple Bar
e eu digo burguesamente que sim, li Dubliners — sem recordar
uma única história.
Mantra
O ministro espanhol da economia diz que os depósitos dos espanhóis «são sagrados». Vítor Gaspar afirma que uma taxa sobre os depósitos «está totalmente fora de questão». Não somos a Grécia. Não somos o Chipre. Até à derrota final.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Banha-da-cobra
Se um amigo nos diz que há oportunidades na adversidade, está a tentar animar-nos. Mesmo que nos minta (e, estatisticamente, mente-nos), sabemos que a mentira é piedosa, bem-intencionada. Agradecemos-lhe e, havendo forças, assobiamos de bom grado com ele Always look at the bright side of life.
Se um tipo como Passos Coelho não se cansa de nos repetir esse mantra de cada vez que nos dá más notícias, não devemos cair na confusão de o tomar por amigo. Há outra espécie de pessoas que se esforça por revelar o lado bom das coisas, mesmo quando elas o não têm. Sobretudo quando elas o não têm. São os charlatães.
Nunca compre um carro em segunda mão a Passos Coelho — descobrirá que não tem motor, embora o chassis seja alemão.
Adágio popular
A direita não suporta a classe média, a insolente ambição da classe
média. Por isso a direita é geralmente tão amiga do povo — do povo tal como ele
se vê em estampas antigas a sépia. Se um destes partidos de direita se propõe
ajudá-lo, tome cautelas. Caso não esteja num casting para séries televisivas do género “Conta-me como foi”, o
mais certo é que o queiram tornar figurante do reality show com o mesmo nome.
Tempestade sem bonança
O Professor Zandinga, magoado com as comparações, acha que Vítor Gaspar
não passa de um simples meteorologista, e sugere que o recambiemos para o
respectivo Instituto. A Nação discorda. Gaspar nas vezes de Anthímio de
Azevedo, mais do que falhar as previsões, haveria de trazer sempre mau tempo.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Distopia, mas pouco
Entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012 escrevi alguns episódios de A Vida de K., uma crónica do futuro
próximo. Lembro-me de um ou outro leitor censurar o pessimismo ou o exagero das
narrativas. Tolos. Ignoram que a realidade costuma ultrapassar a literatura. Quando
se derem conta e eu retomar a série, perceberão que não estarei já a escrever
ficção, mas a fazer a crónica dos dias presentes.
domingo, 17 de março de 2013
O bug das finanças
Se, como
parece, a política do governo assenta numas páginas de Excel, teremos de
concluir, tendo em conta a forma como as suas contas falham, que não temos um
ministro nas finanças — temos um dos famosos bugs da Microsoft.
Desapontamento
O ministro das finanças está desapontado. E o caso não é para
menos: que desfaçatez intolerável este comportamento das coisas reais face à irrepreensível
acomodação das células de Excel!
Perante os sentimentos exacerbados dos portugueses (frustração,
depressão, angústia, inquietação, raiva, desespero) o nosso ministro das
finanças não sente mais do que um desapontamento. Já sabíamos que era suspeita
aquela maneira de falar (e de pensar), mas agora temos a certeza de que Gaspar
é, ele próprio, um simples conjunto de zeros e uns, um aglomerado de bytes que
fazem um belo holograma de testa enrugada.
terça-feira, 12 de março de 2013
Janela indiscreta
Tenho uma tendência para humanizar coisas e bichos. Até pessoas, por
vezes.
Hoje pousou-me uma pomba no peitoril da janela e, como eu tinha acabado
de sair do duche, suspeitei que o fez intencionalmente. Imaginei-a, lubrica, a
espreitar-me enquanto me vestia. Ao dar com ela, encolhi a barriga e tentei
mexer-me pouco — mas ela resistiu, não se mandou contra o vidro na ânsia de
entrar. Também não se mandou abaixo do parapeito, o que me confortou o ego,
antes um pouco melindrado com a sua resistência.
De seguida estiquei-me cuidadosamente para apanhar o cinto e ela abriu
as asas e lançou-se atabalhoadamente nos céus. Ainda considerei aquilo muito
humano, mas de uma humanidade diferente: de criança antiga, traumatizada com
sovas paternas pré-revolução. Ou de jovem mulher que não lê As 50 Sombras de Gray e desdenha por
isso os prazeres sado-masoch.
Devia ter considerado não usar cinto hoje.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Primeiros parágrafos
Roubando a rubrica de José Mário Silva: primeiros parágrafos. Neste caso,
da minha opus IV.
(Talvez seja melhor
dizer, preparando já um alibi para mais do que certas mudanças de opinião ou
para assegurar a indulgência do juiz, primeiros parágrafos na forma tentada. Na verdade, é a descrição mais justa, já que falhei este trabalhinho encomendado a mim próprio.)
«Lembram-se do esqueleto que há uns seis meses alvoroçou a cidade? Era
eu. Sei que é difícil de acreditar, até porque o esqueleto usava barba. Mas era
eu. Hoje estou muito melhor, comi qualquer coisa entretanto e barbeei-me,
voltei a usar roupa. Mas as fotos que viram nos jornais eram minhas. As tíbias,
os fémures, os rádios, as falanges, todo o chocalhante conjunto era meu. Até o
chapéu era meu. Sim, reconheço, podia ser de um cigano. Porém, era meu.
Tomaram-me por um junkie, mas isso era uma acusação sem cabimento. Naquela
altura eu já tinha deixado de me injectar, as agulhas partiam-se-me nos ossos.
Bebia, de facto, mas não muito. Um pouco menos do que o Rasputine. Eu sei que ele era ligeiramente maior do que eu e isso faz diferença. Ok, umas três vezes maior do que eu. Sou um tipo baixo.
Um baixote. Um minorca. E magro (agora já nem tanto). E louro. Se fosse moreno,
teria sido mais difícil ser baixo. Era demasiado azar para se continuar vivo.
Um gajo louro tem outro lustro. E depois há os olhos azuis. As mulheres quando
olhavam para mim não viam um gajo baixo, estavam demasiado ocupadas a
derreterem-se com o lourinho de olhos azuis. Quando finalmente se dispunham a
medir-me a altura, faziam-no aos palmos e era raro passarem dos tomates. De
resto, eu tinha ali uma surpresa para elas, uma a que se agarravam de mãos e
dentes. Um tipo pode ser baixo e ter um pau comprido. As leis da física não o
impedem. Fizeram-se testes. Eu fiz testes, na adolescência. No
início, quando percebi que tinha uma coisa telescópica entre as pernas que em
certas alturas não parava de crescer, assustei-me. Achei que aquilo me podia
desequilibrar. Nunca a deixava crescer sem me encostar com uma mão a uma
parede. Não é incomum que os putos o façam, embora nem todos limpem a parede
depois. Mas fui ganhando confiança, como os funâmbulos se adaptam à vara que os
equilibra no arame. Se pensam em termos gráficos, talvez estejam com dúvidas
sobre a funcionalidade do sistema, mas a representação não esclarece tudo. Há
os glúteos, que se desenvolvem com o crescimento. Imaginem isto: as mamalhudas
não passam o tempo a cair de queixos, pois não? Bem, algumas passam, é verdade.
O que quero dizer é que o nosso sistema muscular se adapta à carga com que tem
de lidar. Não era um daqueles tipos com bíceps hiperdesenvolvidos porque não
precisava assim muito dos braços. Isto pode deixar confuso um alferes, quando
se vai para a tropa e se fracassa nas flexões na barra, mas não as mulheres.
Pelo menos há vinte anos não. Entretanto tive de me adaptar, frequentar ginásios,
arranjar-lhes uns bíceps que pudessem apalpar. O centro gravitacional de um
corpo não muda com as épocas e os gostos, mas por vezes tem de se arranjar uns
pontos de apoio para as mãos.»
O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice
«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta
João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças,
ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de
Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto
do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo
tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler
punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto
ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe
média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar
desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu
no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para
sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha
condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente
em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem
todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao
cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha
aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro
não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada
à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria,
se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças
irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se
se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum)
justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos
de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam
existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária
(a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão
reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma
maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas
empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes
superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em
qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que
vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta
sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se
trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens
couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse
conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a
Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem
sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia geral ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.
domingo, 10 de março de 2013
Lugares-comuns da nacionalidade
À entrada do supermercado, um junkie
que por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental,
substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá
partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas
ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que
tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas
palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de
bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos,
masculinos: os croissants como jóia possível
para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos
da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou
misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente
e futura.
Ganhar asas
Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio
Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele,
achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que
não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a
moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me
garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava
os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma
rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio
da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez
matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar
no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já aqui falei. Entre
ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco
atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não
havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos
mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas
ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis
e do Continente, talvez a Adília faça.)
Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela
distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope
cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita
criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem
sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem
tanto nas pernas.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Delfina (3)
[Uma personagem feminina no Dia
Internacional da Mulher – 3.ª parte]
«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas.
Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair
por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos
copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia
da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e
touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela
cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a
senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma
balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a
ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado
momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca
tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no
seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas
da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem
enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas
descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão
em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas
voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as
maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles
circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e
o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas
pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca
doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir
que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde
particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira
demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom
acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de
serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a
intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função
de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das
necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se
encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo
debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira.
Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no
peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se
involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou
vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua
tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida
tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o
primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências,
por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas
quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam
em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa
só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas
não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se
transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma
alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma
transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e
depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a,
entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse
na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um
anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os
braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»
in Hotel
do Norte
Delfina (2)
[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]
«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao
mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de
consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um
patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela
família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com
características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais
em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os
dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o
sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem
desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era
uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem
censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o
comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar
a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o
perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas
sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se
apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos
afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham
deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam
o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a
um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a
corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento,
como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho
hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma
artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas,
previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e
envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a
razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem
pretas.»
in Hotel do Norte
Delfina (1)
[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]
«Todas as roupas de Delfina eram
de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa
curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das
peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume
se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles
que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o
embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali
perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em
cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se
avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por
trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não
havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um
bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano
claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito
longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos
exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa
clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas
nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o
Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só
copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os
canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que
faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de
um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol
matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros,
convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se
retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em
terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se
ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o
peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só
seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que
cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do
destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos
trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o
passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem
dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o
passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e
dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha
que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas
feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não
havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a
África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava
a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores
incertas.»
in Hotel do Norte
Tomando nota
Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como
diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los
por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes
fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por
exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta,
porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o
desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que
o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde
toma nota dos negócios da marijuana e do resto.
Os corredores e os melancólicos
Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso
de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto
mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os
que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque
não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro
exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um
ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo
isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os
seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as
memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram.
Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma
longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali
gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre
que posso acumulo em mim os dois.
quinta-feira, 7 de março de 2013
A capital do México
À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários
debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas
histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após
os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos
de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele,
gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa
sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova,
pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não
com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e
latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos.
Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao
pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito
alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para
ela a capital do México é
— Cabu… Cabu…
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu… Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu… Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa
concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis,
comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro.
Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e,
mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete,
lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se
mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa,
afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia
feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador.
Entre o terem-se abastecido no dealer
dela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo
apenas existe como décor da sua deambulação.
Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo
romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou
a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada
há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo. Não é impossível que ela termine, como noutras
noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a
insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode
haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio.
Um rendez-vous entre junkies não tem
de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra
uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela
noite.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Terceira Lei de Newton
Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma
multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes
e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela
massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal,
e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de
partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e
outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua
primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante,
treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais
resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão
menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se
nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem
antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência
natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista,
que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao
desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de
atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos
destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do
município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o
derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada
para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela
entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto
de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não
avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois
alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de
profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou
caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos,
vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque,
contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o
desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros
(pelo menos entre as primeiras). É a
única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr.
Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço
de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na
praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos,
curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não
muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu
escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas
batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe
palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente
orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com
o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação
de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua
felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a
meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da
terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.
P.S. Terceira parte de uma
narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar
“Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.
A origem do mito
As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da
Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho
envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói
ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta
branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação
estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se
há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de
novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola,
se para fundar um novo culto religioso.
domingo, 3 de março de 2013
A semântica do capitalismo (2)
«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente
abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Público
apenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser
involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir
acertadamente a semântica do capitalismo?
A semântica do capitalismo
A crer na sintaxe do Público,
se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das "remunerações abusivas" dos "patrões" de grandes empresas». Limitação?
Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à
terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em
vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações
suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para
ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.
Amor de mãe
Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal;
perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um
pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão.
Tinha optado por aquele look e apenas
se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos
adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que
olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a
flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório.
Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a
sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a
caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são
capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias
de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de
campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu
rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio
e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma
engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada
passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se
se devia sentir orgulho no engenho do filho.
sexta-feira, 1 de março de 2013
A angústia de medir pilinhas
Depois de muito adiar, li recentemente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. É um excelente romance,
merecedor dos elogios que recebeu.
Por variadas razões, não tenho sido leitor habitual dos novos autores
portugueses. O orçamento é escasso e na hora de seleccionar as aquisições
raramente me parecem urgentes estas novidades tugas. Os livros pretos de
Gonçalo M. Tavares, em tempos, os de Rui Cardoso Martins e um ou outro mais têm
sido, se bem me lembro, excepções. Suponho também que andar em quezília com a literatura
me tem levado a manter a minha geração à distância. Ou talvez seja a eterna condição
de aprendiz que determina atenção particular aos mestres. Um pouco disto tudo,
certamente.
Com O Retorno havia, no
entanto, mais do que com qualquer outro, a angústia do cotejamento. Um ano
antes de o livro sair eu tinha terminado o meu próprio romance sobre retornados.
Não exactamente uma crónica literária sobre aquele período conturbado de 1975. Hotel do Norte, o meu livro, é, algo
diferentemente, uma ficção que se apropria de memórias. Se dele resulta também
um retrato de época é uma inevitabilidade, não tanto um objectivo.
Em todo o caso, O Retorno
preocupava-me. Temia o confronto. Permanecer-se um autor inédito tem as suas
vantagens: a ilusão é permitida, está-se ao abrigo da crítica profissional. A
nossa carreira depende apenas do nosso juízo e do afecto dos amigos. Está
garantida, portanto. O problema é se nos pomos a medir talentos, como
adolescentes inseguros da sua virilidade. Pode dar-se o caso de concluirmos,
com horror, sermos menos dotados do que o rapaz do lado. Saber que a Dulce
Maria Cardoso era uma rapariga não me deixava descansado. Pelo contrário: a
minha opinião sobre as raparigas, na literatura como em outros campos, só
agudizava a angústia. Manter a obra à distância era uma precaução, profilaxia
contra o baixo astral.
Entretanto li o livro, como disse, e a par do entusiasmo que ele me
suscitou senti também um certo alívio. Não porque o achasse menos bom do que a
crítica dizia (no futebol é que se alegram com as derrotas alheias), mas porque
o meu escrito não saía completamente humilhado da comparação. Saía até
autorizado a levantar uma orelhita. Fiquei a achar — com inédita pretensão —
que na cabeça de um leitor O Retorno
e o Hotel do Norte não competem,
conversam. Não se anulam, estimulam-se. Senti por um bocadinho que não fui
autor de um desastre sem lugar nas prateleiras. Mas felizmente estão aí os
editores para me devolver à Terra.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Trash lovers
De vezes em quando, o Jumbo põe DVDs de filmes em promoção e desperta o
adolescente que há em mim. E o consumidor. (E o idiota.) Aparentemente, filmes
a um euro são boas aquisições, mas tendo em conta que a maioria deles não vale
um chavo, um euro é na realidade um preço exorbitante. Claro que o puto estúpido
que eu consigo ser não se importa nada com isso. Um contentor a transbordar de
DVDs é uma visão irresistível. Atiro-me a ele como Ali Babá ao tesouro dos
quarenta ladrões (o que, como metáfora, nem é assim tão desajustado, se considerarmos
a verdadeira natureza do capitalismo e a quantidade de vezes que já murmurei Abre-te Sésamo em frente às portas
automáticas do estabelecimento).
Partilho com Vasco Pulido Valente um vício ou um defeito (apenas um dos
muitos que ele tem, ok?): tenho demasiadas vezes uma necessidade inelutável de
consumir policiais como narcótico, para distracção da vidinha medíocre. O
cronista do Público lê policiais eu vejo policias, se os apanho. E filmes de
ETs.
Sempre que o Jumbo faz as suas feiras de um euro, eu encho uma cesta de
DVDs. Depois passeio-os pela loja com a alegria de um adolescente ou de um titular
de cartão de crédito da década passada, e de seguida, mais responsavelmente do
que estes, devolvo a maior parte dos filmes à proveniência (faço uma triagem
mental enquanto me abasteço de mercearia). Saio de lá, ainda assim, com meia
dúzia deles, geralmente mais seis do que aconselhariam o bom-gosto e o
bom-senso.
Nem sempre reconheço para mim próprio o quanto isto é patético. Por
vezes trago um Hitchcock ou um galardoado de Cannes para ludibriar a
consciência. A comparação com outros prospectores de lixo também me serve de alibi.
Ao contrário de alguns tipos que mergulham no contentor como porcos numa
manjedoura, numa ânsia de encontrar pérolas que faz transbordar o recipiente,
eu vou fazendo a selecção com pinças e torcidelas de nariz, e chego a arrumar o
que os outros desarrumam, como se o lixo em montinhos fosse menos asqueroso.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Segunda Lei de Newton
Ainda pensa nele com frequência, e alimenta com denodo
aquela ideia tola de que um dia se vão encontrar à entrada da ponte. Volta lá
todos os sábados, à mesma hora, com a desculpa do trekking. No início
imaginava-o a ir até ali nem que fosse uma vez por curiosidade, como se também
ele ocupasse os seus pensamentos com ideias daquelas. A literatura dedica-se
frequentemente a testar realidades alternativas, a averiguar como seriam as
coisas se diferentes opções fossem tomadas, diferentes forças tivessem agido, a
conceber novos destinos e desfechos para eventos conhecidos do público ou do
autor. Pode dizer-se muitas vezes que um romance é uma variação sobre um tema e
que, sendo as variações infinitas, os temas o não são. No caso dela, isto é uma
verdade insofismável: o seu único tema é o encontro malogrado.
Acontece que ela não é uma escritora, apenas uma
pessoa um pouco perdida, pelo que o exercício ficcional reiterado não lhe traz
elogios da crítica, mas a censura branda do psicanalista. Imaginá-lo uma alma
gémea, alguém que não resiste um dia a vir até ali interrogar-se sobre que rumo
teria tomado a sua vida se tivesse comparecido ao encontro, faz parte da
patologia dela e é uma nova motivação para a saída de sábado à tarde. Que se
junta à já de si suficiente tendência para remoer frustrações com método.
Hoje, porém, está prestes a descobrir que as coisas
podem mudar. Parou como sempre na entrada da ponte, para consultar o telemóvel
e perscrutar o horizonte num gesto ritual, evocativo, fingindo uma pausa para beber água e
retomar o fôlego. Sempre pensou que se o encontrasse a meio de uma das suas
caminhadas a visão dele seria suficiente para a deter. Mas, porque ela está de
momento parada e ele vem com o braço pelo ombro de uma qualquer, o princípio fundamental
da dinâmica será demonstrado de forma diferente: quando ela os vê, sente um
desejo súbito de experimentar o jogging e sai a correr na direcção da
força que emana do casal, mas em sentido contrário à localização deles.
Se a força gravitacional dos corpos pode ser uma
boa imagem para descrever o amor, a segunda Lei de Newton pode talvez usar-se com
igual propriedade para assinalar a evolução desportiva de uma rapariga magoada.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Primeira Lei de Newton
O ritmo dos seus passos abranda com a subida, mas não é subida que a
faz abrandar. À entrada da ponte pára, como se estivesse indecisa quanto ao
caminho a escolher. Mas não está. Olha em volta, mas não há sinal da silhueta
dele no horizonte. Consulta o telemóvel, e não tem nenhuma mensagem. Não está
segura de querer ter uma mensagem. Podia ser uma do género «Estou atrasado, não
demoro», mas também podia ser pior. Um evasivo «Não posso» ou um assertórico «Não
vou, foi um engano.» Afinal, as coisas não haviam ficado assim tão claras.
Tinham combinado às duas no parque, mas quanta convicção há num «sim»? Ela não
lhe mandou nenhum sms a pedir-lhe que confirmasse, temia dar-lhe uma
oportunidade de agora responder «não». É mais fácil responder do que tomar a
iniciativa. Por vezes também é mais fácil aparecer a um encontro do que
dizer-se que não se quer ir a esse encontro. A inércia dos corpos e da vida. Ela
deposita nesse princípio da dinâmica as suas últimas esperanças, se tudo o
resto falhar. Tem esperança que ele apareça nem que seja para não se dar ao
trabalho de faltar.
Consulta de novo o horizonte e o ecrã do telemóvel, mas não há sinal
dele, nenhuma das suas manifestações possíveis tem lugar. Apenas a passagem do
tempo, assinalada com quatro dígitos que há muito deixaram de ser 14:00.
Então começa a descer o caminho pelo outro lado e os seus passos vão
acelerando. Como uma bola que, depois de quase se deter ao chegar ao cume,
ganhasse de novo velocidade na descida, a gravidade vencendo o atrito. Em poucos
minutos adopta um passo furioso, como o daquelas outras raparigas que vão ao parque
para caminhar, gastar calorias em marchas vigorosas, de fato de treino justo,
garrafa de água na mão e um tagarelar ofegante. Ao fim de um quarto de hora de
caminhada, descobrindo centenas de metros depois prazeres insuspeitados no
esforço físico e remoendo o despeito amoroso, consegue-se imaginar a fazer
aquilo para o resto dos seus dias: tornar-se viciada em caminhadas e presa a um
encontro que não ocorreu. Não é preciso muito: umas sapatilhas com bom piso e
um espírito romântico obsessivo, também ele obediente, na sua persistência, à primeira
Lei de Newton.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Grândolas de manhã à noite
À direita e à esquerda é agora moda haver quem se incomode com o uso da
Grândola como forma de calar políticos. A democracia, o direito de expressão e
mais não sei o quê... Vão tomar no cu outra vez! O grande atropelo à democracia,
à decência e à dignidade é a manutenção de Relvas no Governo. Enquanto ele lá
continuar, enquanto for ministro deste país um tipo que representa os nossos
piores defeitos em vez de nos representar, a vida pública portuguesa devia hoje
ser feita de grândolas de manhã à noite. Devíamos levantar-nos às cinco da
manhã para cantar a Grândola durante as abluções; voltar a ela antes do almoço ou
do moscatel; entoá-la nas vésperas com o chá ou a imperial; atacá-la em coro depois
do jantar ou do brandy; voltar a ela à hora de regressar a casa, ébrios ou
purificados pela missa do galo. Um país que tem Relvas como ministro precisa de
ser varrido a grândolas, precisa de um tsunami de grândolas. A palavra-passe
para aceder à cidadania portuguesa nestes dias devia ser «grândola». Grândola devia
ser a única palavra da língua
portuguesa. A qualquer pergunta que nos fizessem nós devíamos responder grândola. O nosso quotidiano devia ser
grandolizado. Devíamos amar-nos ao som de Grândola,
Vila Morena. Dizer grândola como quem diz amo-te. Dizer Grândola como quem
diz vai-te foder. Dizer grândola como quem diz tá tudo, vai-se andando, nunca
pior, as coisas que costumamos dizer quando não estamos contentes nem tristes.
Todos aqueles que não são Relvas ou cúmplices de Relvas neste país deviam enfiar
uma polifónica Grândola pelo cu acima do Governo, dos seus acólitos e dos
sujeitos do PS que se incomodam com a Vila Morena. E, não dando resultado, a
própria azinheira, com todos os nós e toda a rugosidade da sua venerável casca sem idade, deveria ser enfiada pelo cu acima daquela gente.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Guarda-fatos
«Havia um guarda-fatos lá em casa que era
como o baú de um mágico. No seu metro e setenta de largura de madeira sólida,
continha roupa de várias gerações e modas, entre camisas, gravatas, calças,
coletes, casacos, jaquetas, sobretudos, gabardinas e algumas peças femininas
avulsas. Os cabides tinham de ser robustos, como a vareta que os sustentava,
porque sobrepunham-se em cada um múltiplas camadas de vestuário, como estratos
geológicos. O grande gavetão que ficava por baixo das portas espelhadas alojava
um ou outro adereço, cintos, suspensórios, botões de punho, mas também
correspondência em maços atados por cordéis, fotografias, recortes de jornais,
uma variedade de cachimbos — e sobretudo mistérios. Por cima do armário
amontoavam-se caixas de sapatos e de chapéus que um friso trabalhado na parte
anterior e nas laterais escondia na penumbra do quarto.
Recorri àquele móvel em diferentes fases
da minha vida. Inicialmente, usava-o para me esconder de tias beijoqueiras ou
de visitas que não desejava. Na infância, aquilo não era um armário, era uma
sala, a gruta do Aladino, com um cheiro que me acompanharia o resto da vida.
Podia mover-me lá dentro sem sentir uma ponta de claustrofobia, não estava mais
limitado nem menos curioso do que o Robinson Crusoé. Mais tarde visitava-o pelo
Carnaval, como quem se dirige a uma loja de fantasias. Era possível encontrar ali
peças excêntricas, datadas, risíveis, largueironas, de cortes ou cores
extravagantes, que eu combinava da forma mais absurda que me ocorresse.
Visitava-o também sempre que me apetecia sonhar com épocas passadas ou
geografias longínquas, quando me bastava escolher um dos muitos cachimbos para
que novas histórias tivessem lugar naquele quarto. No final da adolescência
morava no guarda-fatos o meu estilista, era ali que eu me fornecia de
indumentária para me imaginar na vanguarda da moda e das atitudes.
Numa das vezes que usei o armário para
compor a figura escolhi uma gabardina. Pareceu-me, por alguma fotografia que vi
na imprensa ou imagem breve na televisão, que o defunto vocalista dos Joy
Division usava gabardinas escuras. Achei lógico. Tinha lido coisas sobre a
banda, conseguira uma cassete, identificava-me com aquele ambiente depressivo e
ao mesmo tempo frenético. Era Verão, mas tinha chovido e a noite ficara um
pouco mais fresca. Razões suficientes, pensei, para procurar no guarda-fatos
uma gabardina. Estava farto das minhas roupas sem dignidade nem estilo, os
trajes gastos e únicos e sem carácter de um filho da baixa classe média
provinciana. Cobri-me com aquela peça, provavelmente militar, e saí para rua
com a auto-estima nos píncaros, ar fatal, passo gingão, cigarro no canto da
boca — a suar demasiado. Atrevi-me a cruzar a praça e a entrar no Luxor, o
melhor café da vila, com uma decoração vagamente colonial. Encostei-me ao
balcão e pedi cerveja.
Contava voltar-me para apreciar o ambiente
como um Humphrey Bogart discreto, mas o que me esperava eram olhares de
escárnio, comentários, risadas, dedos apontados. Eu era o centro das atenções,
mas não porque me distinguisse pela elegância, causasse sensação e inveja.
Em cinco minutos tinha desmoronado o edifício
que diligentemente construíra meia hora antes. Queria colher os frutos da
ousadia, da diferença, mas apenas sentia vergonha. Era só um miúdo ridículo,
demasiado vestido para a estação, que descolorava o cabelo nas fontes com água
oxigenada.
Bebi o fino de um gole e saí de imediato,
cabeça baixa, mais deprimido do que antes, com vontade de ler outra vez sobre o
suicídio do meu ídolo.»
Pedro in Aranda
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Boas decisões
Em vez de me pôr a escrever as ninharias do costume, passei a noite a
ler, com proveito e prazer, este blogue: http://ancorasenefelibatas.wordpress.com.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Beatas e expressões
Descem a rua com os seus trajes austeros, quase um uniforme, os seus missais seguros com as duas mãos ao nível do ventre e envoltos em rendas, os seus rostos duros, ferozes, até, desenhados a moral e censura. Têm expressões de instrumentos de Deus, prontas para Lhe limparem a casa (e a do padre, Seu representante) ou exercerem a Sua fúria vingadora, mais para isto do que para aquilo. Olhamo-las e imaginamos que o amor a Deus e a obediência à Verdade são a causa de terem rostos que não enganam, que transparecem a condição de cães de guarda da moral.
E no entanto erramos frequentemente no jogo de adivinhar se uma fotografia no JN é de vítima ou carrasco. Não raro os mortos têm cara de vilões e os assassinos expressão sofredora.
Freak show
Saio à rua e vejo um pequeno desfile que num relance me parece um freak show. Um grupo bizarro de rapazes e homens batendo em tambores, liderado por um sujeito a cavalo e seguido em procissão por meia dúzia de junkies de membros magros e rosto desfigurado. O do cavalo manobra no ar um bastão quase invisível de fino e felizmente inútil (o ritmo já é incerto que chegue assim, sem ninguém obedecer à sua marcação errónea). Cavalga como certas figuras antigas de aldeia, costas arqueadas, queixo recolhido no peito, dormitando ou mal equilibrando a bebedeira. Os que o seguem, com as suas idades, estaturas e bombos sem aprumo nem ordem, imitam demasiado bem uma tropa fandanga que tivesse por uniforme os andrajos desenterrados num saque de aldeia miserável. Atrás do cortejo, os heroinómanos das redondezas, embasbacados e marchando como zombies sem destino.
Depois esfrego os olhos e noto que é apenas um desfile de Carnaval, um que não precisou de investir muito nos disfarces para alcançar aquele efeito. É uma ronda dos arredores que desceu à cidade percutindo bombos e causando pasmo aos junkies do bairro e a mim. Ou só a mim: os junkies nem assistem ao triste cortejo, apenas coincidiram na rua no momento do desfile, a caminho dos seus habituais compromissos inadiáveis.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Nem tudo é repetível
Lá em casa levávamos broncas se numa visita curta a um compartimento ou
na passagem por um corredor acendíamos lâmpadas fluorescentes em vez de
incandescentes. Estávamos avisados e informados: as lâmpadas incandescentes
consumiam mais quando acesas em permanência; as fluorescentes, mais baratas em
utilizações prolongadas, custavam caro a acender. Se apenas estávamos de
passagem ou íamos entrar e sair, não havia nenhuma boa desculpa para acender
lâmpadas fluorescentes. Esse erro agastava sobremaneira o nosso pai,
provocando-lhe em certas alturas uma irascibilidade que só viemos a percebemos de
todo quando soubemos o que era viver com um ordenado que demasiadas vezes não
chegava ao fim do mês.
Hoje, num reflexo daqueles tempos, desloco-me pela casa apagando a luz
dos compartimentos atrás de mim, mesmo que tencione voltar, enquanto acendo a
dos que me ficam no caminho. Por vezes fico às escuras alguns metros, se os
interruptores não estão próximos e acho supérfluo iluminar uns poucos passos.
Não me perturba este jogo. Como não me perturba ir a pé para o trabalho. O
ambiente ganha com isso. Eu gasto menos com isso. Perturba-me que venha a
precisar de uma mercearia que venda fiado e não a encontre. Não encontre mercearias
de espécie nenhuma. Nem tudo do passado é repetível. No portugalzinho provinciano
e comunitário de Salazar era possível levar uma grande lista de compras e
dinheiro nenhum na carteira. Os franchises
de hoje, mesmo quando apresentam rostos mais simpáticos por detrás da
registadora, não têm a mesma confiança na palavra dada. Além de que, suspeito,
a companhia da electricidade é hoje mais despida de escrúpulos na hora de
definir tarifários.
A humanidade por detrás do culto
Depois do post “Mulher a rezar” revisitei, agora com atenção, os nichos
religiosos ao fundo da rampa do Calvário de que já falei algumas vezes. Passo
ali todos os dias, de carro ou a pé, mas não tinha percebido que o Cristo coroado
e flagelado não carrega a cruz (está agarrado a uma coluna) e que do outro lado
é a casa de um Santo António com o Menino ao colo, e não de uma Virgem Maria (embora
a de Fátima também esteja presente, num altar subalterno aos pés do franciscano).
Espreitei e vi como ardiam velas em latinhas que parecem de
refrigerantes, com gravuras no exterior, vi plantas em vasos que dão aos nichos
um certo ambiente de estufa, vi as vassouras que diariamente varrem os pequenos
compartimentos, as bisnagas com que se borrifam as plantas e a cerâmica ou o
barro pintado das figuras, vi na sua mundana caixa de supermercado o rolo de
papel de alumínio de onde saem os fundos que protegem os tabuleiros das velas,
vi a prosaica caixa dos fósforos que acendem as velas, vi o saco preto reciclável
onde se acumulam as latinhas já usadas — vi, enfim, os bastidores de oratórios
ou santuários demasiado pequenos para terem resguardados da vista os produtos e
os objectos que revelam a humanidade por detrás do culto.
Decerto não veria nada disso se tivesse ido ali apenas para rezar.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Eventualmente ou o princípio da incerteza
Obedecendo a um particular entendimento das coisas ou a uma estranha
obsessão, os responsáveis pelas legendas no cinema geralmente traduzem do
inglês um indubitável eventually por
um incerto eventualmente. Por exemplo:
as águas de um rio que em inglês vão inelutavelmente dar ao mar, por difícil e
longo que seja o caminho, em português não têm garantido esse destino salgado,
só eventualmente encontram a foz.
Hoje, num filme que me passou pelo ecrã, a expressão «in the end
everybody dies» foi traduzida como «eventualmente todos morrem». Fiquei
baralhado. O tradutor teve bizarras dificuldades com a expressão original,
procurou uma correspondente em inglês e só então traduziu a ideia (com o erro
habitual)? Terá imaginado uma primeira tradução do género «todos acabam por
morrer», feito de seguida a retroversão para, sei lá, «everyone eventually
dies» e só então se sentiu capaz de balbuciar alguma coisa em português? Ou é
na verdade o grémio das legendas partidário do princípio da incerteza até no
que se refere à morte?
Os habitantes do parque: notas para um inventário
O parque não é habitado por gnomos ou outros seres mitológicos, pelo
menos que eu saiba. Nem há assim tanta gente que se possa dizer que é do parque. Às horas que o percorro, de
dia, lembro-me de um clérigo de uma religião alternativa, com a sua gabardina dois
números acima, um saco na mão direita e frequentes olhos no céu; um reformado pesadão
de bengala e cão idoso pela trela que tem um pedaço do parque como quintal; um
advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo,
numa caminhada enérgica antes do expediente da tarde; duas ou três senhoras
indistintas e decididas no seu fato-de-treino claro e no seu trekking pós almoço; os habituais
funcionários camarários vestidos de verde-almeida e responsáveis pela relva, na
parte em que o parque é relvado; um senhor com luvas, protectores de orelhas e eventuais
problemas de colesterol ou próstata cumprindo a prescrição médica… Quase todos
os outros são meros transeuntes que atalham pelo parque a caminho de qualquer destino
alhures, geralmente indiferentes ao caudal do rio, à azáfama da passarada ou ao
estádio da floração. Ao final da tarde a fauna aumenta, mas malogradamente
outras ocupações impedem-me de lhe fazer o inventário. E às minhas horas da
noite já quase não sobra ninguém: um ou outro corredor de calças de lycra, uma
ou outra parka com gente anónima dentro.
Há contudo nos últimos tempos um sujeito careca nos seus quarentas que
se posiciona durante a hora de almoço numa escadaria com vista para uma das represas.
Talvez tenha agora descoberto que aquele é um bom sítio para almoçar. Talvez
tenha voltado a fumar e ali, meio camuflado pela vegetação, não o assolem tanto
os remorsos nem a censura de familiares ou colegas. Talvez seja vítima de
desgosto recente e os olhos com que vê a queda da água não sejam indiferentes à
melancólica beleza da corrente. Talvez, enfim, seja apenas um dealer a variar de ponto de distribuição
por gosto ou cálculo e o telemóvel lhe trema nas mãos em resultado de um
mercado em alta e não de um astral em baixa.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
A partir de “Portugal, finis terrae”, de Pedro Rosa Mendes
A Ler tem um novo número nas
bancas, mas aquele que é urgente ir comprar, para quem ainda não o fez, é o de
Janeiro. Por causa de “Portugal, finis
terrae”, esclarecedor ensaio de Pedro Rosa Mendes ali publicado. Nenhum
português deveria considerar-se informado (ou adulto) sem o ter lido. É um
texto escrito em tom vigoroso, porém sóbrio, acerca das origens históricas da
crise que vivemos. Informa, alerta e incomoda, não deixa quase ninguém incólume:
dos partidos da alternância à «Europa» (grafada com aspas, num interessante
paralelismo com o costume de Vasco Pulido Valente), passando pelos EUA. Talvez
poupe um pouco, em minha opinião injustamente, os portugueses enquanto povo.
A grande singularidade do texto de Pedro Rosa Mendes, a par da sua opinião
informada e da coragem com que ele a expressa, é a independência em relação às
instituições e em relação às tendências político-partidárias. Há, à esquerda e
à direita, outras pessoas no país que fazem diagnósticos coincidentes, pelo
menos em boa parte, mas as suas relações afectivas ou de interesses, o seu
comprometimento ou proximidade aos partidos, limitam-lhes a coerência,
tornam-nas inconsequentes, inúteis ou perniciosas. O mundo dos comentadores
políticos é geralmente um território de canto coral ou onde drapejam bandeiras.
É hoje para mim claro que o futuro português não pode ser construído
pelos partidos, estes partidos. Dos municípios ao Governo, o país precisa de um
reset, de se reinventar
politicamente, e isso não se consegue fazer com gente tão implicada, tão
cúmplice, tão presa aos métodos e aos desígnios das facções. Não se consegue
fazer com protagonistas que andam pelo país como mercenários a repartir
despojos ou por militantes que estão na política tão estupidamente como no
futebol.
Não se trata de tirar razão à esquerda ou à direita, de invocar um
hipotético centro virtuoso. Não tem nada que ver com esta posição ingénua,
igualmente maniqueísta, de consensos pantanosos.
Trata-se de dizer abertamente que os partidos portugueses são cancros
na sociedade e que detêm, em doses semelhantes, a culpa da situação que
vivemos. (Da culpa que podemos reivindicar como nacional — nunca deixemos a
«Europa» de fora disto.)
Como diz Rosa Mendes, «não haveria Passos Coelho sem Sócrates». Mas
quem pode verdadeiramente negar que Passos Coelho seria o Sócrates da década
anterior e Sócrates o Passos Coelho destes anos se a História lhes tivesse
concedido vencer eleições em períodos diferentes? Quem pode jurar, sem
hipocrisia ou cegueira, que distingue os Governos por muito mais do que o tempo
e as circunstâncias em que lhes calhou governar?
Há decerto elementos no actual Governo que têm as melhores intenções,
mas que liberdade lhes deixam ou que trabalho farão que não seja arruinado
pelos colegas menos escrupulosos e mais oportunistas? (E mais poderosos.)
Um país não se devia governar, mesmo em tempos de crise, com
sebastianistas, revolucionários, salvadores nomeados pelo Presidente ou pelas
instituições (nacionais e estrangeiras). Mas também é certo que jamais se
governará com a actual classe política.
A democracia ainda não foi destronada do pódio de melhor sistema de
governo, e não me parece provado que a democracia representativa tenha os dias
contados, que mereça ter os dias
contados. Apenas precisa de outros representantes. Precisa de uma faxina.
O problema é que em Portugal é muito difícil formar partidos políticos.
Não porque as leis e a burocracia sejam particularmente inexoráveis, mas porque
um novo partido em Portugal é sempre considerado uma coisa excêntrica, terá
previsivelmente um eleitorado da dimensão daquele que têm os partidos
monotemáticos, de âmbito e programa circunscritos a uma ideia e um punhado de
simpatizantes que se conhecem pessoalmente.
A vileza dos representantes em Portugal é pelo menos igualada pela
estupidez dos representados. O eleitorado português é suficientemente perspicaz
para reconhecer um cretino quando vê um — mas é também suficientemente
estúpido, ou está suficientemente implicado, para votar de novo nele.
Parecemos condenados a concluir como Pedro Rosa Mendes concluiu o
ensaio dele, utópica ou apocalipticamente: «Resta, pois, a rua, morada comum da
raiva.» De facto, as possibilidades anteriores à rua, numa escalada de tomada
de poder, parecem condenadas ao fracasso. Não se imagina que os independentes
bem-intencionados dos anos recentes da política portuguesa possam formar um
novo partido, mais sério e competente; não se imagina que esse partido fosse votado,
caso pudesse formar-se; mas também não se imagina que os partidos actuais possam
gerar anticorpos suficientemente poderosos para debelar a sua infecção interna.
Será um problema de imaginação aquilo que nos aflige? Ou de coragem (de fazer e
votar diferente)?
* Quem não conseguir comprar a Ler de Janeiro, pode encontrar aqui o
ensaio de Pedro Rosa Mendes: http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B05DAEA92-2ABB-42ED-89ED-7F3F0B378A5D%7D
Mulher a rezar
Antes de se virar a esquina e iniciar a rampa do Calvário, há de cada lado
da estrada uma capelinha ou pequeno santuário com portão em barras de ferro. De
um lado está Cristo carregando a Cruz, do outro uma santa, provavelmente uma
das várias manifestações da Virgem. A mulher reza daquele lado. Numa observação
menos atenta, não se diria que reza: posição do corpo a três quartos, como quem
está de passagem e mal se deteve para uma espreitadela curiosa; sapatos e roupa
de sair em passeio; cabelo acabado de lavar no cabeleireiro; a carteira na mão direita,
a de fora, exactamente como quando ela se encosta ao vidro de uma montra a passar
os olhos pelos saldos ou pela nova colecção. Dir-se-ia visitante, turista, mas
a mão esquerda, firmemente agarrada a uma das barras do portão, impregnando-se de
ferrugem, segurando-se ali como náufrago à corda salvífica, confirma que reza.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
A guitarra que falava
Por timidez, desinteresse ou incompetência, sempre fui nalguns assuntos
um tipo um pouco retardado. Quando a isso se somavam as dificuldades
financeiras, eu podia ser bastante neandertal em relação à restante rapaziada.
E misantropo.
Um dia no intervalo das aulas um colega quis partilhar comigo a música
que ouvia no seu novo walkman.
Senti-me honrado, naturalmente, mas também assustado. Sabia que existiam mas nunca
tinha experimentado ouvir música numa coisa daquelas. Qual seria a sensação?
Como se ajustava o aparelho nas orelhas?
Acontece que o colega não queria apenas que eu ouvisse a música, queria
que reparasse como o guitarrista dos Lynyrd Skynyrd fazia falar a guitarra.
Eram muitas experiências novas para tão pouco tempo. Walkman. Guitarras que falam. Lynyrd Skynyrd (quem?). Ajustei os
auriculares e a primeira coisa que disse ou pensei foi que a música parecia vir
de todo o lado, ou estar dentro da nossa cabeça. O colega sorria. Eu ainda não
tinha interiorizado a experiência e, por educação, para não abusar da
generosidade, já me estava a obrigar a tentar decifrar o que queria ele dizer
com uma guitarra que fala. Havia um solo, sim, mas por mais que me esforçasse
não entendia nenhuma palavra — e já sabia algumas coisas de inglês. Para mim não
havia nada de metafórico no que me fora pedido: eu estava mesmo a tentar ouvir
uma guitarra a falar, balbucios que fossem.
Fingindo conhecimento e afectando desinteresse, acabei por dizer que
sim, de facto era uma guitarra eloquente, embora não apreciasse muito a música.
(Podia ter contemporizando mais, sido menos herético, dizendo-lhe apenas
que “não era sensível ao tema”— se fosse
capaz de usar com rapidez a ambiguidade das palavras, de pensar a tempo na
utilidade da sua amplitude semântica para uma boa convivência social.)
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
A monarquia dos jotas
Uma noite destas os meus passos cruzaram-se com os de um grupo de
jotas. Não é o género de experiência que se queira ter com regularidade.
Equivale a sairmos à rua na noite dos mortos-vivos e darmos por eles tarde
demais para mudar de passeio. Sinistro assim.
Como já todos tiveram decerto oportunidade de apreciar, os jotas são
uma espécie de guarda pretoriana dos partidos que ambiciona — e consegue —
obter cargos políticos. Enquanto adolescentes, fazem de claque, de tropa de
choque ou de aias dos chefes partidários. Vão aos comícios, aos jantares e às
cerimónias, com a sua prestabilidade e a sua coqueteria, criar a ilusão de que
os líderes são homens de estado, respeitados e respeitáveis, admirados e
amados, carismáticos e visionários. São a cortina de fumo que se interpõe entre
os políticos e a realidade. Uma pequena corte de pajens obsequiosos que ajuda o
soberano a construir castelos no ar. Os chefes dos partidos não enfrentam a
verdade porque para a verem teriam de avançar à catanada através de uma selva
de jotas. A sua estrada de Damasco é uma picada africana que só se cruza se se
estiver disposto a usar generosamente a espingarda de caça grossa antes de cair
do cavalo. Como os chefes não o estão, não se dá a epifania. Nem caem do
cavalo. Ou se caem é para deixar subir à sela, incólume, um jota da sua
predilecção.
Mais tarde, os jotas recebem os seus postos na máquina do Estado para,
numa primeira fase, continuarem com mais e melhores meios o trabalho de
incensar o chefe e firmar o seu poder absolutista. Na fase seguinte, iniciam o
seu próprio reinado de inépcia, arbitrariedade e terror na parte de território
que lhes tenha sido atribuída durante a repartição dos despojos.
Em Portugal os jotas têm vindo a chegar aos mais altos cargos do poder.
E isso é como ter nos postos de comando nacionais duques e condes (pela pesporrência),
aias (pela intriga palaciana) e pajens (pelo corte de cabelo). Nesta particular
espécie de monarquia, ao povo não resta mais do que o papel de bobo da corte.
Quem imagina que em Portugal o feudalismo acabou quando acabou a Idade
Média não vive cá. O feudalismo não acabou: apenas pôs gravata e, mais
recentemente, gel no cabelo.
O magala e a namorada
Como faziam soldados de incorporações muito anteriores à dele, levou a
namorada ao parque depois de jantar. A noite está fria e convida pouco a sentar
no banco à beira-rio, mas eles não parecem enregelados. Talvez estejam mesmo apaixonados,
camonianamente aquecidos. Ela cruzou as pernas sobre o banco e pousou as mãos
nos joelhos, a ouvi-lo. Ele fala sobre o juramento de bandeiras — e de repente
parece-me que, embora a humanidade seja vasta, é limitado o número de cenas que
ela tem para representar, limitado o número de deixas que tem para dizer.
Um magala do século XXI será uma reencarnação de todos os magalas que o
antecederam? Seguirá cada vida individual um guião comum, transversal aos
tempos? Infinitas são as reencarnações, não as conversas que se podem ter? Que
singularidade exibe cada um de nós perante as décadas, os séculos, ou perante um
observador que nos espreite de Alfa Centauro?
No mundo claustrofóbico que por instantes é o meu enquanto atravesso o parque,
os magalas estão agora autorizados a sair do quartel sem farda nem boina à
banda, mas não a criarem narrativas originais.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Sentenças de um nouveau gauchiste
A crise encostou muita gente à esquerda. Uns porque, como crianças,
procuram as saias de uma mãe menos severa, mesmo que tonta ou de pouca valia.
Outros porque sofreram na pele o receituário que imaginavam apenas ser destinado
a terceiros e agora estão ressentidos, clamam vingança. Outros ainda por
orfandade, porque perderam ilusões quanto à bondade da direita e do sistema que
ela preconiza.
Um destes nouveaux gauchistes
apontou hoje aquilo que para ele é a falta de seriedade ou de competência da
direita. No início da crise determinava-se que havia que despedir 120 mil
funcionários públicos ou baixar salários. Dois anos depois, baixados
drasticamente os salários, insiste-se via FMI que é preciso despedir 120 mil
funcionários públicos. Falhou a matemática ou caiu a máscara?
Eu até acho que o Estado precisa de, a médio prazo, dispensar
funcionários públicos, mas concordo que falta seriedade ou competência a esta
direita.
Entretenimento
Numa revista de televisão, uma apresentadora de concursos e programas afins
anuncia o seu novo projecto na RTP como sendo de «puro entretenimento», porque,
ao que parece, «os portugueses andam a precisar de um pouco de entretenimento».
Não espanta que uma entertainer
defenda tautologicamente o seu ofício e não se dê disso conta. É esta a
natureza da espécie. Traz os seus próprios neurónios entretidos ou despidos de
escrúpulos. Espantoso seria que ela anunciasse que o seu próximo programa seria
para fazer pensar e debater, um desafio, um estímulo ou uma provocação para a massa
cinzenta dos portugueses. Mas de espantos destes estamos livres.
A crer em tais figuras da “cultura” nacional, a crer no discurso
recorrente da intelligentzia
televisiva, há décadas que o país vem precisando dramaticamente de ser
entretido. Ouvi-as toda a minha vida, hertzianamente e nos últimos anos ao vivo,
propalar a necessidade vital que os portugueses têm de entretenimento, o quão
importante é para a saúde psíquica do tuga que o entretenham, que o distraiam, que
o façam rir — de preferência de nada e sem esforço.
Pelo seu lado, os portugueses sempre concordaram com a prescrição, naturalmente.
Concordaram com tanta veemência que no mesmo período de tempo elegeram partidos
igualmente apologistas da doutrina recreativa, uma classe política que secundava
o diagnóstico, subscrevia a receita e metia mãos à obra a entreter o povo e a
poupá-lo a maçadas e pormenores aborrecidos da vida pública.
Ora, depois de ter batido com os cornos no poste da crise, seria talvez
a altura de o português se mostrar um pouco farto de tanto entretenimento vão e
disponível para coisas um pouco mais exigentes.
Enquanto passou o tempo a aceitar ser entretido, o português foi levado
ao endividamento e à bancarrota. De seguida esvaziaram-lhe os bolsos e deixaram-no
perante o desemprego, como realidade ou perspectiva. Mas chegado aqui o que faz
o português? Prescreve-se mais entretenimento.
Tudo o que o português quer é rir, mijar-se a rir. Como povo, parecemos
ter pouca utilidade — mas damos uma boa plateia de circo ou de stand up comedy. O país inteiro podia
ser uma tenda ou um coliseu ressoando palmas, ovações e gargalhadas. O problema
é que não conseguimos perceber que a anedota mais tristemente hilária que se
conta ali no palco somos nós mesmos.
O poder da televisão
Talvez o meu octogenário do post anterior ouça mesmo as cantigas da TV. Talvez as letras pimba lhe sejam agora
toleráveis, as tome como evocações actualizadas dos tempos de magala ou de
outros dias atrevidos. O próprio Herman José, antes para ele o Anticristo
declarado, é hoje aceite em sua casa com bonomia, como mais um dos membros da
família alargada (e sinistra) que a televisão lhe assegura. A ele e aos
restantes idosos do país. O salazarismo ainda seduz muito velho, mas a TV impôs-lhes
alguns costumes, algumas ideias (chamemos-lhe assim) de progresso ou evolução, deixou-os
em certas áreas menos apegados ao espírito do Estado Novo. É este o poder da
televisão.
O que faz pensar. Se a televisão conseguiu reconciliar aquela geração
com os prazeres da juventude, aceitar a exposição dos corpos e da lascívia,
tomar como seu e normal o quotidiano boçal
e doentio das televisões, das suas novelas e talk shows, imagine-se que povo não teríamos hoje se as TVs não
tivessem banido os livros e o teatro e as artes e a inteligência do ecrã.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Dançando em frente à televisão
Não muito depois da
tropa, há cinquenta e tal anos, e mesmo não tendo casado, adoptou para sempre
os costumes e os modos de um certo tipo de homem responsável e convencional do
seu tempo: a circunspecção, o pudor, a respeitabilidade. Todo o resto da sua vida
passou a encarar a folia e o prazer como tolices, desvios da juventude.
Olhava-os e falava deles não exactamente, ou não sempre, com censura, mas com
paternalismo (nos melhores dias) ou com a condescendência que se tem com os
doidos, uma condescendência por vezes contrariada, como contrariada era a sua
aceitação de algumas das liberdades de Abril.
Mas como homem do seu
tempo (ou como homem tout court) tinha também uma vida dupla. A
pública, respeitável e austera, e a privada, onde se concedia, pelo menos ao
nível do pensamento e do desejo, os direitos próprios dos machos, como ele os
entendia. O tipo de pessoa que idealizava e representava em sociedade via
ser-lhe aliviado um pouco o regime austero na intimidade. Ninguém diria, por
exemplo, que adquiria pornografia, e no entanto adquiriu-a até à entrada da
velhice. Ele, o indivíduo severo que tinha sempre uma repreensão pronta para as
poucas-vergonhas na TV e para a brejeirice em certas cançonetas.
Hoje, vendo as actuações
musicais de um programa da TVI, confessou para quem o ouvia que com frequência
se deixa agora dançar sozinho em frente à televisão. Os que o conhecem não o
imaginam a fazer tal, com os seus cem quilos, os seus movimentos lentos,
paquidérmicos, os seus oitenta e muitos anos, os seus óculos e pose de Marcelo
Caetano. «E correm-me lágrimas ao ouvir estas cantigas», reforça para os
incrédulos.
As cantigas da
televisão, com a sua monomania sexual e as suas bailarinas de coxa roliça ao
léu, são do género que ele vilipendiaria na meia-idade. Têm, no entanto, a base
rítmica, os acordes, a simplicidade de espírito e por vezes o fraseado na
concertina de outras melodias populares na sua juventude. É decerto isto que
ele ouve lá na sua televisão de velho solitário — não os sucedâneos de lupanar
raiano que a TVI apresenta.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Com as mãos ambas*
Ia ontem mesmo começar A Piada Infinita, de David Foster Wallace (juro!), mas S. Pedro não me deu uma mão. Quer dizer, pelo menos impediu-me de usar as minhas. Quando se vive em Trás-os-Montes e se lê na cama, sem aquecimento central (ou outro), dificilmente se aceita ficar com as duas mãos de fora dos cobertores em Janeiro. E, vocês sabem, A Piada Infinita precisa que a agarremos com todas as mãos disponíveis. Não estou a ser metafórico, o livro pesa, pode causar luxações nos pulsos. Fica para a Primavera. (Podia ser pior, já houve quem o deixasse para as calendas gregas.)
* Título roubado a uma anedota familiar. A ver se a conto, um destes dias.
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