sexta-feira, 8 de março de 2013

Delfina (3)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 3.ª parte]

«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas. Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira. Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências, por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a, entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»

in Hotel do Norte

Delfina (2)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]

«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento, como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas, previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem pretas.»

in Hotel do Norte


Delfina (1)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]

«Todas as roupas de Delfina eram de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros, convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores incertas.»

in Hotel do Norte

Tomando nota

Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta, porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde toma nota dos negócios da marijuana e do resto.

Os corredores e os melancólicos

Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram. Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre que posso acumulo em mim os dois.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A capital do México

À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele, gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova, pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos. Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para ela a capital do México é
— Cabu… Cabu…
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu… Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu… Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis, comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro. Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e, mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete, lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa, afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador. Entre o terem-se abastecido no dealer dela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo apenas existe como décor da sua deambulação. Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo.  Não é impossível que ela termine, como noutras noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio. Um rendez-vous entre junkies não tem de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela noite. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Terceira Lei de Newton

Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal, e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante, treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista, que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos, vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque, contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros (pelo menos entre as primeiras). É a única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr. Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos, curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.


P.S. Terceira parte de uma narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar “Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.

A origem do mito

As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola, se para fundar um novo culto religioso.

domingo, 3 de março de 2013

A semântica do capitalismo (2)

«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Público apenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir acertadamente a semântica do capitalismo?

A semântica do capitalismo

A crer na sintaxe do Público, se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das "remunerações abusivas" dos "patrões" de grandes empresas». Limitação? Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.

Amor de mãe

Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal; perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão. Tinha optado por aquele look e apenas se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório. Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se se devia sentir orgulho no engenho do filho.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A angústia de medir pilinhas

Depois de muito adiar, li recentemente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. É um excelente romance, merecedor dos elogios que recebeu.
Por variadas razões, não tenho sido leitor habitual dos novos autores portugueses. O orçamento é escasso e na hora de seleccionar as aquisições raramente me parecem urgentes estas novidades tugas. Os livros pretos de Gonçalo M. Tavares, em tempos, os de Rui Cardoso Martins e um ou outro mais têm sido, se bem me lembro, excepções. Suponho também que andar em quezília com a literatura me tem levado a manter a minha geração à distância. Ou talvez seja a eterna condição de aprendiz que determina atenção particular aos mestres. Um pouco disto tudo, certamente.
Com O Retorno havia, no entanto, mais do que com qualquer outro, a angústia do cotejamento. Um ano antes de o livro sair eu tinha terminado o meu próprio romance sobre retornados. Não exactamente uma crónica literária sobre aquele período conturbado de 1975. Hotel do Norte, o meu livro, é, algo diferentemente, uma ficção que se apropria de memórias. Se dele resulta também um retrato de época é uma inevitabilidade, não tanto um objectivo.
Em todo o caso, O Retorno preocupava-me. Temia o confronto. Permanecer-se um autor inédito tem as suas vantagens: a ilusão é permitida, está-se ao abrigo da crítica profissional. A nossa carreira depende apenas do nosso juízo e do afecto dos amigos. Está garantida, portanto. O problema é se nos pomos a medir talentos, como adolescentes inseguros da sua virilidade. Pode dar-se o caso de concluirmos, com horror, sermos menos dotados do que o rapaz do lado. Saber que a Dulce Maria Cardoso era uma rapariga não me deixava descansado. Pelo contrário: a minha opinião sobre as raparigas, na literatura como em outros campos, só agudizava a angústia. Manter a obra à distância era uma precaução, profilaxia contra o baixo astral.
Entretanto li o livro, como disse, e a par do entusiasmo que ele me suscitou senti também um certo alívio. Não porque o achasse menos bom do que a crítica dizia (no futebol é que se alegram com as derrotas alheias), mas porque o meu escrito não saía completamente humilhado da comparação. Saía até autorizado a levantar uma orelhita. Fiquei a achar — com inédita pretensão — que na cabeça de um leitor O Retorno e o Hotel do Norte não competem, conversam. Não se anulam, estimulam-se. Senti por um bocadinho que não fui autor de um desastre sem lugar nas prateleiras. Mas felizmente estão aí os editores para me devolver à Terra.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A ler

1 e 2.

Trash lovers

De vezes em quando, o Jumbo põe DVDs de filmes em promoção e desperta o adolescente que há em mim. E o consumidor. (E o idiota.) Aparentemente, filmes a um euro são boas aquisições, mas tendo em conta que a maioria deles não vale um chavo, um euro é na realidade um preço exorbitante. Claro que o puto estúpido que eu consigo ser não se importa nada com isso. Um contentor a transbordar de DVDs é uma visão irresistível. Atiro-me a ele como Ali Babá ao tesouro dos quarenta ladrões (o que, como metáfora, nem é assim tão desajustado, se considerarmos a verdadeira natureza do capitalismo e a quantidade de vezes que já murmurei Abre-te Sésamo em frente às portas automáticas do estabelecimento).
Partilho com Vasco Pulido Valente um vício ou um defeito (apenas um dos muitos que ele tem, ok?): tenho demasiadas vezes uma necessidade inelutável de consumir policiais como narcótico, para distracção da vidinha medíocre. O cronista do Público lê policiais eu vejo policias, se os apanho. E filmes de ETs.
Sempre que o Jumbo faz as suas feiras de um euro, eu encho uma cesta de DVDs. Depois passeio-os pela loja com a alegria de um adolescente ou de um titular de cartão de crédito da década passada, e de seguida, mais responsavelmente do que estes, devolvo a maior parte dos filmes à proveniência (faço uma triagem mental enquanto me abasteço de mercearia). Saio de lá, ainda assim, com meia dúzia deles, geralmente mais seis do que aconselhariam o bom-gosto e o bom-senso.
Nem sempre reconheço para mim próprio o quanto isto é patético. Por vezes trago um Hitchcock ou um galardoado de Cannes para ludibriar a consciência. A comparação com outros prospectores de lixo também me serve de alibi. Ao contrário de alguns tipos que mergulham no contentor como porcos numa manjedoura, numa ânsia de encontrar pérolas que faz transbordar o recipiente, eu vou fazendo a selecção com pinças e torcidelas de nariz, e chego a arrumar o que os outros desarrumam, como se o lixo em montinhos fosse menos asqueroso.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Segunda Lei de Newton

Ainda pensa nele com frequência, e alimenta com denodo aquela ideia tola de que um dia se vão encontrar à entrada da ponte. Volta lá todos os sábados, à mesma hora, com a desculpa do trekking. No início imaginava-o a ir até ali nem que fosse uma vez por curiosidade, como se também ele ocupasse os seus pensamentos com ideias daquelas. A literatura dedica-se frequentemente a testar realidades alternativas, a averiguar como seriam as coisas se diferentes opções fossem tomadas, diferentes forças tivessem agido, a conceber novos destinos e desfechos para eventos conhecidos do público ou do autor. Pode dizer-se muitas vezes que um romance é uma variação sobre um tema e que, sendo as variações infinitas, os temas o não são. No caso dela, isto é uma verdade insofismável: o seu único tema é o encontro malogrado.
Acontece que ela não é uma escritora, apenas uma pessoa um pouco perdida, pelo que o exercício ficcional reiterado não lhe traz elogios da crítica, mas a censura branda do psicanalista. Imaginá-lo uma alma gémea, alguém que não resiste um dia a vir até ali interrogar-se sobre que rumo teria tomado a sua vida se tivesse comparecido ao encontro, faz parte da patologia dela e é uma nova motivação para a saída de sábado à tarde. Que se junta à já de si suficiente tendência para remoer frustrações com método.  
Hoje, porém, está prestes a descobrir que as coisas podem mudar. Parou como sempre na entrada da ponte, para consultar o telemóvel e perscrutar o horizonte num gesto ritual, evocativo, fingindo uma pausa para beber água e retomar o fôlego. Sempre pensou que se o encontrasse a meio de uma das suas caminhadas a visão dele seria suficiente para a deter. Mas, porque ela está de momento parada e ele vem com o braço pelo ombro de uma qualquer, o princípio fundamental da dinâmica será demonstrado de forma diferente: quando ela os vê, sente um desejo súbito de experimentar o jogging e sai a correr na direcção da força que emana do casal, mas em sentido contrário à localização deles.
Se a força gravitacional dos corpos pode ser uma boa imagem para descrever o amor, a segunda Lei de Newton pode talvez usar-se com igual propriedade para assinalar a evolução desportiva de uma rapariga magoada.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Primeira Lei de Newton

O ritmo dos seus passos abranda com a subida, mas não é subida que a faz abrandar. À entrada da ponte pára, como se estivesse indecisa quanto ao caminho a escolher. Mas não está. Olha em volta, mas não há sinal da silhueta dele no horizonte. Consulta o telemóvel, e não tem nenhuma mensagem. Não está segura de querer ter uma mensagem. Podia ser uma do género «Estou atrasado, não demoro», mas também podia ser pior. Um evasivo «Não posso» ou um assertórico «Não vou, foi um engano.» Afinal, as coisas não haviam ficado assim tão claras. Tinham combinado às duas no parque, mas quanta convicção há num «sim»? Ela não lhe mandou nenhum sms a pedir-lhe que confirmasse, temia dar-lhe uma oportunidade de agora responder «não». É mais fácil responder do que tomar a iniciativa. Por vezes também é mais fácil aparecer a um encontro do que dizer-se que não se quer ir a esse encontro. A inércia dos corpos e da vida. Ela deposita nesse princípio da dinâmica as suas últimas esperanças, se tudo o resto falhar. Tem esperança que ele apareça nem que seja para não se dar ao trabalho de faltar.
Consulta de novo o horizonte e o ecrã do telemóvel, mas não há sinal dele, nenhuma das suas manifestações possíveis tem lugar. Apenas a passagem do tempo, assinalada com quatro dígitos que há muito deixaram de ser 14:00.
Então começa a descer o caminho pelo outro lado e os seus passos vão acelerando. Como uma bola que, depois de quase se deter ao chegar ao cume, ganhasse de novo velocidade na descida, a gravidade vencendo o atrito. Em poucos minutos adopta um passo furioso, como o daquelas outras raparigas que vão ao parque para caminhar, gastar calorias em marchas vigorosas, de fato de treino justo, garrafa de água na mão e um tagarelar ofegante. Ao fim de um quarto de hora de caminhada, descobrindo centenas de metros depois prazeres insuspeitados no esforço físico e remoendo o despeito amoroso, consegue-se imaginar a fazer aquilo para o resto dos seus dias: tornar-se viciada em caminhadas e presa a um encontro que não ocorreu. Não é preciso muito: umas sapatilhas com bom piso e um espírito romântico obsessivo, também ele obediente, na sua persistência, à primeira Lei de Newton.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Grândolas de manhã à noite

À direita e à esquerda é agora moda haver quem se incomode com o uso da Grândola como forma de calar políticos. A democracia, o direito de expressão e mais não sei o quê... Vão tomar no cu outra vez! O grande atropelo à democracia, à decência e à dignidade é a manutenção de Relvas no Governo. Enquanto ele lá continuar, enquanto for ministro deste país um tipo que representa os nossos piores defeitos em vez de nos representar, a vida pública portuguesa devia hoje ser feita de grândolas de manhã à noite. Devíamos levantar-nos às cinco da manhã para cantar a Grândola durante as abluções; voltar a ela antes do almoço ou do moscatel; entoá-la nas vésperas com o chá ou a imperial; atacá-la em coro depois do jantar ou do brandy; voltar a ela à hora de regressar a casa, ébrios ou purificados pela missa do galo. Um país que tem Relvas como ministro precisa de ser varrido a grândolas, precisa de um tsunami de grândolas. A palavra-passe para aceder à cidadania portuguesa nestes dias devia ser «grândola». Grândola devia ser a única palavra da língua portuguesa. A qualquer pergunta que nos fizessem nós devíamos responder grândola. O nosso quotidiano devia ser grandolizado. Devíamos amar-nos ao som de Grândola, Vila Morena. Dizer grândola como quem diz amo-te. Dizer Grândola como quem diz vai-te foder. Dizer grândola como quem diz tá tudo, vai-se andando, nunca pior, as coisas que costumamos dizer quando não estamos contentes nem tristes. Todos aqueles que não são Relvas ou cúmplices de Relvas neste país deviam enfiar uma polifónica Grândola pelo cu acima do Governo, dos seus acólitos e dos sujeitos do PS que se incomodam com a Vila Morena. E, não dando resultado, a própria azinheira, com todos os nós e toda a rugosidade da sua venerável casca sem idade, deveria ser enfiada pelo cu acima daquela gente.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Guarda-fatos

«Havia um guarda-fatos lá em casa que era como o baú de um mágico. No seu metro e setenta de largura de madeira sólida, continha roupa de várias gerações e modas, entre camisas, gravatas, calças, coletes, casacos, jaquetas, sobretudos, gabardinas e algumas peças femininas avulsas. Os cabides tinham de ser robustos, como a vareta que os sustentava, porque sobrepunham-se em cada um múltiplas camadas de vestuário, como estratos geológicos. O grande gavetão que ficava por baixo das portas espelhadas alojava um ou outro adereço, cintos, suspensórios, botões de punho, mas também correspondência em maços atados por cordéis, fotografias, recortes de jornais, uma variedade de cachimbos — e sobretudo mistérios. Por cima do armário amontoavam-se caixas de sapatos e de chapéus que um friso trabalhado na parte anterior e nas laterais escondia na penumbra do quarto.
Recorri àquele móvel em diferentes fases da minha vida. Inicialmente, usava-o para me esconder de tias beijoqueiras ou de visitas que não desejava. Na infância, aquilo não era um armário, era uma sala, a gruta do Aladino, com um cheiro que me acompanharia o resto da vida. Podia mover-me lá dentro sem sentir uma ponta de claustrofobia, não estava mais limitado nem menos curioso do que o Robinson Crusoé. Mais tarde visitava-o pelo Carnaval, como quem se dirige a uma loja de fantasias. Era possível encontrar ali peças excêntricas, datadas, risíveis, largueironas, de cortes ou cores extravagantes, que eu combinava da forma mais absurda que me ocorresse. Visitava-o também sempre que me apetecia sonhar com épocas passadas ou geografias longínquas, quando me bastava escolher um dos muitos cachimbos para que novas histórias tivessem lugar naquele quarto. No final da adolescência morava no guarda-fatos o meu estilista, era ali que eu me fornecia de indumentária para me imaginar na vanguarda da moda e das atitudes.
Numa das vezes que usei o armário para compor a figura escolhi uma gabardina. Pareceu-me, por alguma fotografia que vi na imprensa ou imagem breve na televisão, que o defunto vocalista dos Joy Division usava gabardinas escuras. Achei lógico. Tinha lido coisas sobre a banda, conseguira uma cassete, identificava-me com aquele ambiente depressivo e ao mesmo tempo frenético. Era Verão, mas tinha chovido e a noite ficara um pouco mais fresca. Razões suficientes, pensei, para procurar no guarda-fatos uma gabardina. Estava farto das minhas roupas sem dignidade nem estilo, os trajes gastos e únicos e sem carácter de um filho da baixa classe média provinciana. Cobri-me com aquela peça, provavelmente militar, e saí para rua com a auto-estima nos píncaros, ar fatal, passo gingão, cigarro no canto da boca — a suar demasiado. Atrevi-me a cruzar a praça e a entrar no Luxor, o melhor café da vila, com uma decoração vagamente colonial. Encostei-me ao balcão e pedi cerveja.
Contava voltar-me para apreciar o ambiente como um Humphrey Bogart discreto, mas o que me esperava eram olhares de escárnio, comentários, risadas, dedos apontados. Eu era o centro das atenções, mas não porque me distinguisse pela elegância, causasse sensação e inveja.
Em cinco minutos tinha desmoronado o edifício que diligentemente construíra meia hora antes. Queria colher os frutos da ousadia, da diferença, mas apenas sentia vergonha. Era só um miúdo ridículo, demasiado vestido para a estação, que descolorava o cabelo nas fontes com água oxigenada.
Bebi o fino de um gole e saí de imediato, cabeça baixa, mais deprimido do que antes, com vontade de ler outra vez sobre o suicídio do meu ídolo.»

Pedro in Aranda

sábado, 16 de fevereiro de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Beatas e expressões

Descem a rua com os seus trajes austeros, quase um uniforme, os seus missais seguros com as duas mãos ao nível do ventre e envoltos em rendas, os seus rostos duros, ferozes, até, desenhados a moral e censura. Têm expressões de instrumentos de Deus, prontas para Lhe limparem a casa (e a do padre, Seu representante) ou exercerem a Sua fúria vingadora, mais para isto do que para aquilo. Olhamo-las e imaginamos que o amor a Deus e a obediência à Verdade são a causa de terem rostos que não enganam, que transparecem a condição de cães de guarda da moral.
E no entanto erramos frequentemente no jogo de adivinhar se uma fotografia no JN é de vítima ou carrasco. Não raro os mortos têm cara de vilões e os assassinos expressão sofredora.

Freak show

Saio à rua e vejo um pequeno desfile que num relance me parece um freak show. Um grupo bizarro de rapazes e homens batendo em tambores, liderado por um sujeito a cavalo e seguido em procissão por meia dúzia de junkies de membros magros e rosto desfigurado. O do cavalo manobra no ar um bastão quase invisível de fino e felizmente inútil (o ritmo já é incerto que chegue assim, sem ninguém obedecer à sua marcação errónea). Cavalga como certas figuras antigas de aldeia, costas arqueadas, queixo recolhido no peito, dormitando ou mal equilibrando a bebedeira. Os que o seguem, com as suas idades, estaturas e bombos sem aprumo nem ordem, imitam demasiado bem uma tropa fandanga que tivesse por uniforme os andrajos desenterrados num saque de aldeia miserável. Atrás do cortejo, os heroinómanos das redondezas, embasbacados e marchando como zombies sem destino.
Depois esfrego os olhos e noto que é apenas um desfile de Carnaval, um que não precisou de investir muito nos disfarces para alcançar aquele efeito. É uma ronda dos arredores que desceu à cidade percutindo bombos e causando pasmo aos junkies do bairro e a mim. Ou só a mim: os junkies nem assistem ao triste cortejo, apenas coincidiram na rua no momento do desfile, a caminho dos seus habituais compromissos inadiáveis.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Nem tudo é repetível

Lá em casa levávamos broncas se numa visita curta a um compartimento ou na passagem por um corredor acendíamos lâmpadas fluorescentes em vez de incandescentes. Estávamos avisados e informados: as lâmpadas incandescentes consumiam mais quando acesas em permanência; as fluorescentes, mais baratas em utilizações prolongadas, custavam caro a acender. Se apenas estávamos de passagem ou íamos entrar e sair, não havia nenhuma boa desculpa para acender lâmpadas fluorescentes. Esse erro agastava sobremaneira o nosso pai, provocando-lhe em certas alturas uma irascibilidade que só viemos a percebemos de todo quando soubemos o que era viver com um ordenado que demasiadas vezes não chegava ao fim do mês.
Hoje, num reflexo daqueles tempos, desloco-me pela casa apagando a luz dos compartimentos atrás de mim, mesmo que tencione voltar, enquanto acendo a dos que me ficam no caminho. Por vezes fico às escuras alguns metros, se os interruptores não estão próximos e acho supérfluo iluminar uns poucos passos. Não me perturba este jogo. Como não me perturba ir a pé para o trabalho. O ambiente ganha com isso. Eu gasto menos com isso. Perturba-me que venha a precisar de uma mercearia que venda fiado e não a encontre. Não encontre mercearias de espécie nenhuma. Nem tudo do passado é repetível. No portugalzinho provinciano e comunitário de Salazar era possível levar uma grande lista de compras e dinheiro nenhum na carteira. Os franchises de hoje, mesmo quando apresentam rostos mais simpáticos por detrás da registadora, não têm a mesma confiança na palavra dada. Além de que, suspeito, a companhia da electricidade é hoje mais despida de escrúpulos na hora de definir tarifários.

A humanidade por detrás do culto

Depois do post Mulher a rezar” revisitei, agora com atenção, os nichos religiosos ao fundo da rampa do Calvário de que já falei algumas vezes. Passo ali todos os dias, de carro ou a pé, mas não tinha percebido que o Cristo coroado e flagelado não carrega a cruz (está agarrado a uma coluna) e que do outro lado é a casa de um Santo António com o Menino ao colo, e não de uma Virgem Maria (embora a de Fátima também esteja presente, num altar subalterno aos pés do franciscano).
Espreitei e vi como ardiam velas em latinhas que parecem de refrigerantes, com gravuras no exterior, vi plantas em vasos que dão aos nichos um certo ambiente de estufa, vi as vassouras que diariamente varrem os pequenos compartimentos, as bisnagas com que se borrifam as plantas e a cerâmica ou o barro pintado das figuras, vi na sua mundana caixa de supermercado o rolo de papel de alumínio de onde saem os fundos que protegem os tabuleiros das velas, vi a prosaica caixa dos fósforos que acendem as velas, vi o saco preto reciclável onde se acumulam as latinhas já usadas — vi, enfim, os bastidores de oratórios ou santuários demasiado pequenos para terem resguardados da vista os produtos e os objectos que revelam a humanidade por detrás do culto.
Decerto não veria nada disso se tivesse ido ali apenas para rezar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eventualmente ou o princípio da incerteza

Obedecendo a um particular entendimento das coisas ou a uma estranha obsessão, os responsáveis pelas legendas no cinema geralmente traduzem do inglês um indubitável eventually por um incerto eventualmente. Por exemplo: as águas de um rio que em inglês vão inelutavelmente dar ao mar, por difícil e longo que seja o caminho, em português não têm garantido esse destino salgado, só eventualmente encontram a foz.
Hoje, num filme que me passou pelo ecrã, a expressão «in the end everybody dies» foi traduzida como «eventualmente todos morrem». Fiquei baralhado. O tradutor teve bizarras dificuldades com a expressão original, procurou uma correspondente em inglês e só então traduziu a ideia (com o erro habitual)? Terá imaginado uma primeira tradução do género «todos acabam por morrer», feito de seguida a retroversão para, sei lá, «everyone eventually dies» e só então se sentiu capaz de balbuciar alguma coisa em português? Ou é na verdade o grémio das legendas partidário do princípio da incerteza até no que se refere à morte?

Os habitantes do parque: notas para um inventário

O parque não é habitado por gnomos ou outros seres mitológicos, pelo menos que eu saiba. Nem há assim tanta gente que se possa dizer que é do parque. Às horas que o percorro, de dia, lembro-me de um clérigo de uma religião alternativa, com a sua gabardina dois números acima, um saco na mão direita e frequentes olhos no céu; um reformado pesadão de bengala e cão idoso pela trela que tem um pedaço do parque como quintal; um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo, numa caminhada enérgica antes do expediente da tarde; duas ou três senhoras indistintas e decididas no seu fato-de-treino claro e no seu trekking pós almoço; os habituais funcionários camarários vestidos de verde-almeida e responsáveis pela relva, na parte em que o parque é relvado; um senhor com luvas, protectores de orelhas e eventuais problemas de colesterol ou próstata cumprindo a prescrição médica… Quase todos os outros são meros transeuntes que atalham pelo parque a caminho de qualquer destino alhures, geralmente indiferentes ao caudal do rio, à azáfama da passarada ou ao estádio da floração. Ao final da tarde a fauna aumenta, mas malogradamente outras ocupações impedem-me de lhe fazer o inventário. E às minhas horas da noite já quase não sobra ninguém: um ou outro corredor de calças de lycra, uma ou outra parka com gente anónima dentro.
Há contudo nos últimos tempos um sujeito careca nos seus quarentas que se posiciona durante a hora de almoço numa escadaria com vista para uma das represas. Talvez tenha agora descoberto que aquele é um bom sítio para almoçar. Talvez tenha voltado a fumar e ali, meio camuflado pela vegetação, não o assolem tanto os remorsos nem a censura de familiares ou colegas. Talvez seja vítima de desgosto recente e os olhos com que vê a queda da água não sejam indiferentes à melancólica beleza da corrente. Talvez, enfim, seja apenas um dealer a variar de ponto de distribuição por gosto ou cálculo e o telemóvel lhe trema nas mãos em resultado de um mercado em alta e não de um astral em baixa.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A partir de “Portugal, finis terrae”, de Pedro Rosa Mendes

A Ler tem um novo número nas bancas, mas aquele que é urgente ir comprar, para quem ainda não o fez, é o de Janeiro. Por causa de “Portugal, finis terrae”, esclarecedor ensaio de Pedro Rosa Mendes ali publicado. Nenhum português deveria considerar-se informado (ou adulto) sem o ter lido. É um texto escrito em tom vigoroso, porém sóbrio, acerca das origens históricas da crise que vivemos. Informa, alerta e incomoda, não deixa quase ninguém incólume: dos partidos da alternância à «Europa» (grafada com aspas, num interessante paralelismo com o costume de Vasco Pulido Valente), passando pelos EUA. Talvez poupe um pouco, em minha opinião injustamente, os portugueses enquanto povo.
A grande singularidade do texto de Pedro Rosa Mendes, a par da sua opinião informada e da coragem com que ele a expressa, é a independência em relação às instituições e em relação às tendências político-partidárias. Há, à esquerda e à direita, outras pessoas no país que fazem diagnósticos coincidentes, pelo menos em boa parte, mas as suas relações afectivas ou de interesses, o seu comprometimento ou proximidade aos partidos, limitam-lhes a coerência, tornam-nas inconsequentes, inúteis ou perniciosas. O mundo dos comentadores políticos é geralmente um território de canto coral ou onde drapejam bandeiras.  
É hoje para mim claro que o futuro português não pode ser construído pelos partidos, estes partidos. Dos municípios ao Governo, o país precisa de um reset, de se reinventar politicamente, e isso não se consegue fazer com gente tão implicada, tão cúmplice, tão presa aos métodos e aos desígnios das facções. Não se consegue fazer com protagonistas que andam pelo país como mercenários a repartir despojos ou por militantes que estão na política tão estupidamente como no futebol.
Não se trata de tirar razão à esquerda ou à direita, de invocar um hipotético centro virtuoso. Não tem nada que ver com esta posição ingénua, igualmente maniqueísta, de consensos pantanosos.
Trata-se de dizer abertamente que os partidos portugueses são cancros na sociedade e que detêm, em doses semelhantes, a culpa da situação que vivemos. (Da culpa que podemos reivindicar como nacional — nunca deixemos a «Europa» de fora disto.)
Como diz Rosa Mendes, «não haveria Passos Coelho sem Sócrates». Mas quem pode verdadeiramente negar que Passos Coelho seria o Sócrates da década anterior e Sócrates o Passos Coelho destes anos se a História lhes tivesse concedido vencer eleições em períodos diferentes? Quem pode jurar, sem hipocrisia ou cegueira, que distingue os Governos por muito mais do que o tempo e as circunstâncias em que lhes calhou governar?
Há decerto elementos no actual Governo que têm as melhores intenções, mas que liberdade lhes deixam ou que trabalho farão que não seja arruinado pelos colegas menos escrupulosos e mais oportunistas? (E mais poderosos.)
Um país não se devia governar, mesmo em tempos de crise, com sebastianistas, revolucionários, salvadores nomeados pelo Presidente ou pelas instituições (nacionais e estrangeiras). Mas também é certo que jamais se governará com a actual classe política.
A democracia ainda não foi destronada do pódio de melhor sistema de governo, e não me parece provado que a democracia representativa tenha os dias contados, que mereça ter os dias contados. Apenas precisa de outros representantes. Precisa de uma faxina.
O problema é que em Portugal é muito difícil formar partidos políticos. Não porque as leis e a burocracia sejam particularmente inexoráveis, mas porque um novo partido em Portugal é sempre considerado uma coisa excêntrica, terá previsivelmente um eleitorado da dimensão daquele que têm os partidos monotemáticos, de âmbito e programa circunscritos a uma ideia e um punhado de simpatizantes que se conhecem pessoalmente.
A vileza dos representantes em Portugal é pelo menos igualada pela estupidez dos representados. O eleitorado português é suficientemente perspicaz para reconhecer um cretino quando vê um — mas é também suficientemente estúpido, ou está suficientemente implicado, para votar de novo nele.
Parecemos condenados a concluir como Pedro Rosa Mendes concluiu o ensaio dele, utópica ou apocalipticamente: «Resta, pois, a rua, morada comum da raiva.» De facto, as possibilidades anteriores à rua, numa escalada de tomada de poder, parecem condenadas ao fracasso. Não se imagina que os independentes bem-intencionados dos anos recentes da política portuguesa possam formar um novo partido, mais sério e competente; não se imagina que esse partido fosse votado, caso pudesse formar-se; mas também não se imagina que os partidos actuais possam gerar anticorpos suficientemente poderosos para debelar a sua infecção interna. Será um problema de imaginação aquilo que nos aflige? Ou de coragem (de fazer e votar diferente)?

  
* Quem não conseguir comprar a Ler de Janeiro, pode encontrar aqui o ensaio de Pedro Rosa Mendes: http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B05DAEA92-2ABB-42ED-89ED-7F3F0B378A5D%7D

Mulher a rezar

Antes de se virar a esquina e iniciar a rampa do Calvário, há de cada lado da estrada uma capelinha ou pequeno santuário com portão em barras de ferro. De um lado está Cristo carregando a Cruz, do outro uma santa, provavelmente uma das várias manifestações da Virgem. A mulher reza daquele lado. Numa observação menos atenta, não se diria que reza: posição do corpo a três quartos, como quem está de passagem e mal se deteve para uma espreitadela curiosa; sapatos e roupa de sair em passeio; cabelo acabado de lavar no cabeleireiro; a carteira na mão direita, a de fora, exactamente como quando ela se encosta ao vidro de uma montra a passar os olhos pelos saldos ou pela nova colecção. Dir-se-ia visitante, turista, mas a mão esquerda, firmemente agarrada a uma das barras do portão, impregnando-se de ferrugem, segurando-se ali como náufrago à corda salvífica, confirma que reza.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A guitarra que falava

Por timidez, desinteresse ou incompetência, sempre fui nalguns assuntos um tipo um pouco retardado. Quando a isso se somavam as dificuldades financeiras, eu podia ser bastante neandertal em relação à restante rapaziada. E misantropo.
Um dia no intervalo das aulas um colega quis partilhar comigo a música que ouvia no seu novo walkman. Senti-me honrado, naturalmente, mas também assustado. Sabia que existiam mas nunca tinha experimentado ouvir música numa coisa daquelas. Qual seria a sensação? Como se ajustava o aparelho nas orelhas?
Acontece que o colega não queria apenas que eu ouvisse a música, queria que reparasse como o guitarrista dos Lynyrd Skynyrd fazia falar a guitarra. Eram muitas experiências novas para tão pouco tempo. Walkman. Guitarras que falam. Lynyrd Skynyrd (quem?). Ajustei os auriculares e a primeira coisa que disse ou pensei foi que a música parecia vir de todo o lado, ou estar dentro da nossa cabeça. O colega sorria. Eu ainda não tinha interiorizado a experiência e, por educação, para não abusar da generosidade, já me estava a obrigar a tentar decifrar o que queria ele dizer com uma guitarra que fala. Havia um solo, sim, mas por mais que me esforçasse não entendia nenhuma palavra — e já sabia algumas coisas de inglês. Para mim não havia nada de metafórico no que me fora pedido: eu estava mesmo a tentar ouvir uma guitarra a falar, balbucios que fossem.
Fingindo conhecimento e afectando desinteresse, acabei por dizer que sim, de facto era uma guitarra eloquente, embora não apreciasse muito a música.

(Podia ter contemporizando mais, sido menos herético, dizendo-lhe apenas que “não era sensível ao tema”— se fosse capaz de usar com rapidez a ambiguidade das palavras, de pensar a tempo na utilidade da sua amplitude semântica para uma boa convivência social.)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A monarquia dos jotas

Uma noite destas os meus passos cruzaram-se com os de um grupo de jotas. Não é o género de experiência que se queira ter com regularidade. Equivale a sairmos à rua na noite dos mortos-vivos e darmos por eles tarde demais para mudar de passeio. Sinistro assim.

Como já todos tiveram decerto oportunidade de apreciar, os jotas são uma espécie de guarda pretoriana dos partidos que ambiciona — e consegue — obter cargos políticos. Enquanto adolescentes, fazem de claque, de tropa de choque ou de aias dos chefes partidários. Vão aos comícios, aos jantares e às cerimónias, com a sua prestabilidade e a sua coqueteria, criar a ilusão de que os líderes são homens de estado, respeitados e respeitáveis, admirados e amados, carismáticos e visionários. São a cortina de fumo que se interpõe entre os políticos e a realidade. Uma pequena corte de pajens obsequiosos que ajuda o soberano a construir castelos no ar. Os chefes dos partidos não enfrentam a verdade porque para a verem teriam de avançar à catanada através de uma selva de jotas. A sua estrada de Damasco é uma picada africana que só se cruza se se estiver disposto a usar generosamente a espingarda de caça grossa antes de cair do cavalo. Como os chefes não o estão, não se dá a epifania. Nem caem do cavalo. Ou se caem é para deixar subir à sela, incólume, um jota da sua predilecção.
Mais tarde, os jotas recebem os seus postos na máquina do Estado para, numa primeira fase, continuarem com mais e melhores meios o trabalho de incensar o chefe e firmar o seu poder absolutista. Na fase seguinte, iniciam o seu próprio reinado de inépcia, arbitrariedade e terror na parte de território que lhes tenha sido atribuída durante a repartição dos despojos.

Em Portugal os jotas têm vindo a chegar aos mais altos cargos do poder. E isso é como ter nos postos de comando nacionais duques e condes (pela pesporrência), aias (pela intriga palaciana) e pajens (pelo corte de cabelo). Nesta particular espécie de monarquia, ao povo não resta mais do que o papel de bobo da corte.

Quem imagina que em Portugal o feudalismo acabou quando acabou a Idade Média não vive cá. O feudalismo não acabou: apenas pôs gravata e, mais recentemente, gel no cabelo.

O magala e a namorada

Como faziam soldados de incorporações muito anteriores à dele, levou a namorada ao parque depois de jantar. A noite está fria e convida pouco a sentar no banco à beira-rio, mas eles não parecem enregelados. Talvez estejam mesmo apaixonados, camonianamente aquecidos. Ela cruzou as pernas sobre o banco e pousou as mãos nos joelhos, a ouvi-lo. Ele fala sobre o juramento de bandeiras — e de repente parece-me que, embora a humanidade seja vasta, é limitado o número de cenas que ela tem para representar, limitado o número de deixas que tem para dizer.
Um magala do século XXI será uma reencarnação de todos os magalas que o antecederam? Seguirá cada vida individual um guião comum, transversal aos tempos? Infinitas são as reencarnações, não as conversas que se podem ter? Que singularidade exibe cada um de nós perante as décadas, os séculos, ou perante um observador que nos espreite de Alfa Centauro?
No mundo claustrofóbico que por instantes é o meu enquanto atravesso o parque, os magalas estão agora autorizados a sair do quartel sem farda nem boina à banda, mas não a criarem narrativas originais.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sentenças de um nouveau gauchiste

A crise encostou muita gente à esquerda. Uns porque, como crianças, procuram as saias de uma mãe menos severa, mesmo que tonta ou de pouca valia. Outros porque sofreram na pele o receituário que imaginavam apenas ser destinado a terceiros e agora estão ressentidos, clamam vingança. Outros ainda por orfandade, porque perderam ilusões quanto à bondade da direita e do sistema que ela preconiza.
Um destes nouveaux gauchistes apontou hoje aquilo que para ele é a falta de seriedade ou de competência da direita. No início da crise determinava-se que havia que despedir 120 mil funcionários públicos ou baixar salários. Dois anos depois, baixados drasticamente os salários, insiste-se via FMI que é preciso despedir 120 mil funcionários públicos. Falhou a matemática ou caiu a máscara?
Eu até acho que o Estado precisa de, a médio prazo, dispensar funcionários públicos, mas concordo que falta seriedade ou competência a esta direita.

Entretenimento

Numa revista de televisão, uma apresentadora de concursos e programas afins anuncia o seu novo projecto na RTP como sendo de «puro entretenimento», porque, ao que parece, «os portugueses andam a precisar de um pouco de entretenimento».
Não espanta que uma entertainer defenda tautologicamente o seu ofício e não se dê disso conta. É esta a natureza da espécie. Traz os seus próprios neurónios entretidos ou despidos de escrúpulos. Espantoso seria que ela anunciasse que o seu próximo programa seria para fazer pensar e debater, um desafio, um estímulo ou uma provocação para a massa cinzenta dos portugueses. Mas de espantos destes estamos livres.
A crer em tais figuras da “cultura” nacional, a crer no discurso recorrente da intelligentzia televisiva, há décadas que o país vem precisando dramaticamente de ser entretido. Ouvi-as toda a minha vida, hertzianamente e nos últimos anos ao vivo, propalar a necessidade vital que os portugueses têm de entretenimento, o quão importante é para a saúde psíquica do tuga que o entretenham, que o distraiam, que o façam rir — de preferência de nada e sem esforço.
Pelo seu lado, os portugueses sempre concordaram com a prescrição, naturalmente. Concordaram com tanta veemência que no mesmo período de tempo elegeram partidos igualmente apologistas da doutrina recreativa, uma classe política que secundava o diagnóstico, subscrevia a receita e metia mãos à obra a entreter o povo e a poupá-lo a maçadas e pormenores aborrecidos da vida pública.

Ora, depois de ter batido com os cornos no poste da crise, seria talvez a altura de o português se mostrar um pouco farto de tanto entretenimento vão e disponível para coisas um pouco mais exigentes.
Enquanto passou o tempo a aceitar ser entretido, o português foi levado ao endividamento e à bancarrota. De seguida esvaziaram-lhe os bolsos e deixaram-no perante o desemprego, como realidade ou perspectiva. Mas chegado aqui o que faz o português? Prescreve-se mais entretenimento.
Tudo o que o português quer é rir, mijar-se a rir. Como povo, parecemos ter pouca utilidade — mas damos uma boa plateia de circo ou de stand up comedy. O país inteiro podia ser uma tenda ou um coliseu ressoando palmas, ovações e gargalhadas. O problema é que não conseguimos perceber que a anedota mais tristemente hilária que se conta ali no palco somos nós mesmos.

O poder da televisão

Talvez o meu octogenário do post anterior ouça mesmo as cantigas da TV. Talvez as letras pimba lhe sejam agora toleráveis, as tome como evocações actualizadas dos tempos de magala ou de outros dias atrevidos. O próprio Herman José, antes para ele o Anticristo declarado, é hoje aceite em sua casa com bonomia, como mais um dos membros da família alargada (e sinistra) que a televisão lhe assegura. A ele e aos restantes idosos do país. O salazarismo ainda seduz muito velho, mas a TV impôs-lhes alguns costumes, algumas ideias (chamemos-lhe assim) de progresso ou evolução, deixou-os em certas áreas menos apegados ao espírito do Estado Novo. É este o poder da televisão.

O que faz pensar. Se a televisão conseguiu reconciliar aquela geração com os prazeres da juventude, aceitar a exposição dos corpos e da lascívia, tomar como seu e normal o quotidiano boçal e doentio das televisões, das suas novelas e talk shows, imagine-se que povo não teríamos hoje se as TVs não tivessem banido os livros e o teatro e as artes e a inteligência do ecrã. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Dançando em frente à televisão

Não muito depois da tropa, há cinquenta e tal anos, e mesmo não tendo casado, adoptou para sempre os costumes e os modos de um certo tipo de homem responsável e convencional do seu tempo: a circunspecção, o pudor, a respeitabilidade. Todo o resto da sua vida passou a encarar a folia e o prazer como tolices, desvios da juventude. Olhava-os e falava deles não exactamente, ou não sempre, com censura, mas com paternalismo (nos melhores dias) ou com a condescendência que se tem com os doidos, uma condescendência por vezes contrariada, como contrariada era a sua aceitação de algumas das liberdades de Abril.
Mas como homem do seu tempo (ou como homem tout court) tinha também uma vida dupla. A pública, respeitável e austera, e a privada, onde se concedia, pelo menos ao nível do pensamento e do desejo, os direitos próprios dos machos, como ele os entendia. O tipo de pessoa que idealizava e representava em sociedade via ser-lhe aliviado um pouco o regime austero na intimidade. Ninguém diria, por exemplo, que adquiria pornografia, e no entanto adquiriu-a até à entrada da velhice. Ele, o indivíduo severo que tinha sempre uma repreensão pronta para as poucas-vergonhas na TV e para a brejeirice em certas cançonetas.

Hoje, vendo as actuações musicais de um programa da TVI, confessou para quem o ouvia que com frequência se deixa agora dançar sozinho em frente à televisão. Os que o conhecem não o imaginam a fazer tal, com os seus cem quilos, os seus movimentos lentos, paquidérmicos, os seus oitenta e muitos anos, os seus óculos e pose de Marcelo Caetano. «E correm-me lágrimas ao ouvir estas cantigas», reforça para os incrédulos.
As cantigas da televisão, com a sua monomania sexual e as suas bailarinas de coxa roliça ao léu, são do género que ele vilipendiaria na meia-idade. Têm, no entanto, a base rítmica, os acordes, a simplicidade de espírito e por vezes o fraseado na concertina de outras melodias populares na sua juventude. É decerto isto que ele ouve lá na sua televisão de velho solitário — não os sucedâneos de lupanar raiano que a TVI apresenta.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Com as mãos ambas*



Ia ontem mesmo começar A Piada Infinita, de David Foster Wallace (juro!), mas S. Pedro não me deu uma mão. Quer dizer, pelo menos impediu-me de usar as minhas. Quando se vive em Trás-os-Montes e se lê na cama, sem aquecimento central (ou outro), dificilmente se aceita ficar com as duas mãos de fora dos cobertores em Janeiro. E, vocês sabem, A Piada Infinita precisa que a agarremos com todas as mãos disponíveis. Não estou a ser metafórico, o livro pesa, pode causar luxações nos pulsos. Fica para a Primavera. (Podia ser pior, já houve quem o deixasse para as calendas gregas.)

* Título roubado a uma anedota familiar. A ver se a conto, um destes dias.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Livros de auto-ajuda

A notícia de um livreiro minucioso a mudar os livros de (ou sobre) Lance Armstrong para as prateleiras da “ficção” fez-me lembrar que as obras mais recentes de Ian McEwan e Paul Auster poderiam ser arrumadas na secção de “auto-ajuda”. Seriam, aliás, ali mais úteis do que a maioria das obras que por lá se encontra. (Bem, mais úteis para candidatos a escritores, não para candidatos ao psicanalista ou ao jet set nacional.)

McEwan resolveu incluir, sem grande disfarce, um curso de escrita criativa em Mel. Lá se foi o negócio dos Booktaylors, de Rui Zink ou de João Tordo: os neófitos das letras só têm de seguir Serena, a protagonista, enquanto ela vai decifrando o método e o processo do seu amante escritor. Poupam umas coroas e não têm de aturar o ego do formador. Pelo menos não ao vivo.
O aprendiz tem dúvidas, esbarrou na página em branco, carece de personagens secundárias ou mesmo de protagonistas? Aprenda com o Tom Haley. A Serena explica como se faz (ainda que a pobre não saiba quão longe pode um escritor ir na apropriação da realidade para o texto ficcional.)

O Diário de Inverno de Paul Auster tem a ambição — menor, mas igualmente útil — de humanizar o escritor. Revelando, por exemplo, que também ele tira prazer de se peidar. Se isto não ajuda qualquer um a ganhar confiança para escrever o seu próprio livro, não sei o que há-de ajudar.

E isto, que parece admirável, é trágico. Que os escritores se ponham a abrir o jogo e a descer do pedestal. Nos dias que correm, já qualquer Zé (eu incluído) acha que pode escrever um livro; deixando-as suspeitar de que o podem fazer e explicando-se-lhes como o podem fazer, manadas inteiras de bisontes hão-de atirar-se ao Word.
A minha esperança é que a concorrência seja tão estúpida como parece e continue a achar que para escrever um livro não precisa de ler nenhum. De resto, as tiragens em Portugal dão-me algum conforto. Entre sobras, ofertas e calços de mesas vai o grosso de uma edição. Talvez três portugueses comprem e leiam os seus exemplares.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Extravagância

No sábado passado fiz uma extravagância: comprei o Expresso. Comprar o Expresso é sempre uma extravagância, que evito, mas fazê-lo apenas com o propósito de ler a recensão de Os Enamoramentos* escrita por Pedro Mexia é uma daquelas loucuras que condenam um agregado ou um país à miséria.

*Javier Marías

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

«EDITORIAL: A montanha pariu um rato, talvez»


[Do blogue Iniciação ao Tédio]

«Andámos meses para marcar um jantar e nunca o conseguimos. Quer dizer, temo-nos encontrado aqui e ali, alguns de nós até assiduamente. Três trabalham juntos. Mas marcar um jantar em que todos pudessem ou quisessem estar foi uma impossibilidade. Jantámos quatro dos seis arregimentados. Não foi mau. Quase 70%. Houve quórum. Maioria qualificada. Quase mudámos a Constituição.
Meses antes, numa conversa de bêbados, dois de nós desataram a chorar ao balcão que era uma tristeza que não se tivesse feito mais nada depois «daquilo». Havia uma crise e falências e encerramentos e um recuo como nunca víramos. Agora é que «a coisa» fazia sentido. «A coisa» ou um sucedâneo que não envergonhasse. De resto, era notável como nos últimos tempos se vinha invocando o nome da «coisa», velhos seguidores nostálgicos que se davam a conhecer e gente nova que a descobria com espanto. Naquela noite, os dois despediram-se com abraços apertados, ranho no nariz e promessas firmes de pensar em alguma… coisa. (Não havia muita imaginação disponível nem para substantivos.) Depois foi cada um para sua casa, tentando não cambalear demasiado, e nas semanas seguintes espalharam a Boa Nova.
Houve então conversas ocasionais, alargadas e entrecruzadas (e muito espaçadas), onde os argumentos contra eram sempre mais fortes e sensatos. Mas nem assim a ideia se desvaneceu, como mandava a inteligência. Quando um desistia, outro insistia, num dilatado processo de contrabalanço que poderia muito bem ser representando por aquela cena famosa da ginástica sueca no Pátio das Cantigas com Vasco Santana e Ribeirinho. Cómico e ridículo dessa maneira.
Uma das últimas tentativas de esconjuro foi escrita como uma súplica no blogue Os Canhões de Navarone— e teve o efeito contrário. Aumentou a pressão para jantar.
O repasto teve então lugar e o mais relevante da noite foi ter-se descoberto que alguém agora conduzia um Qashqai. À mesa, além do proprietário do SUV, havia um recém-licenciado em Línguas-Literaturas-&-Mais-Qualquer-Coisa, um engenheiro com delírios de designer gráfico e um antigo baixista de arraiais populares. Fez-se um jogo que consistia em escolher os cinco nomes menos maus de uma lista de trigésimas escolhas. A aposta era elevada. Foi então que a montanha pariu um rato. Tanta evocação, tanta assertividade e tanto vinho para isto a que o leitor agora chegou: à sobremesa estava decidido que em sucessão da coisa Periférica, como sói acontecer com as vedetas rock, se faria um reunion blog e algum alarido à volta dele. Um tédio, portanto. (O nome pode não ser brilhante mas é eloquente.)
Iniciação ao tédio é então um blogue que, não correndo mal, reunirá as composições individuais dos antigos membros dos Duran... da Periférica espalhadas pelo Facebook, pelos blogues Divina Comédia,Grafismo Sem Rede e Os Canhões de Navarone, ou pelo espaço aéreo nacional. Correndo bem, Iniciação ao Tédio fará isso e porá no activo os mais adormecidos dos bandmates. No mínimo, o leitor poupará alguns cliques se quiser seguir regularmente os blogues mencionados. (Um contributo nosso para a prevenção de tendinites no indicador, esse flagelo moderno.) No máximo, assistirá ao prelúdio de algo que lançará sombras sobre a Granta que o Carlos Vaz Marques prepara sem contar connosco. Não nos falta ambição, como se vê, apenas noção do ridículo e força para sair do sofá. De onde, de resto, se vê distintamente a cidade e os portuguesitos a correr de um lado para o outro na sua azáfama, como ilustra a imagem do cabeçalho. Será particularmente para eles e sobre eles este blogue vermelhusco. Desfruta, nobre povo.
P.S. Convém frisar que, como o nome indica, se trata apenas de uma iniciação ao tédio. Para tédio mais desenvolvido, há que procurar outras moradas.»

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

«Iniciação ao Tédio, um blogue pós-periférico»


«Dos mesmos realizadores de Periférica e dos mesmos produtores de A Noite dos Mortos-Vivos, chega às salas nacionais um… blogue. Mas não é um blogue qualquer, é um blogue… colectivo.
Iniciação ao Tédio é um blogue pós-periférico e pré-apocalíptico que surge para acabar com a reputação da revista editada em Vilarelho entre 2002 e 2006. Não era essa a intenção, mas não vamos conseguir evitá-lo. Carlos Chaves, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Paulo Araújo e Rui Ângelo Araújo, com a aquiescência de Vítor Lamas, bem gostariam, mas não vão poder senão atender por baixo as expectativas dos que pediam um retorno da melhor revista de Vilarelho e províncias autónomas. (De resto, obedecendo à norma hollywoodiana de que as sequelas hão-de ser piores do que o original.)
Há sete anos Portugal perdeu a Periférica, agora ganhou Iniciação ao Tédio. É dos manuais: cada tempo tem o que merece, não o que precisa.
Convém frisar, contudo, que se trata apenas de uma iniciação ao tédio. Para tédio mais desenvolvido, há que procurar outras moradas.

O blogue tem este endereço: www.iniciacaotedio.blogspot.pt/
E está aqui no Facebook: www.facebook.com/IniciacaoTedio

Divulgai a Boa Nova e descerá sobre vós uma sobretaxa do IRS.»

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Blogues do ano

A minha cara-metade, que só me quer fazer feliz (e consegue), candidatou o Canhões a blogue do ano no concurso do Aventar, nas categorias “Humor e Sátira” e “Livros e Literatura”. Eu, que sou tantas vezes acusado de macambúzio e deprimente, daria grandes gargalhadas se vencesse no «Humor». (Na sátira não me espantaria, sou fiel a transcrever a vida no país.)

1. Somos Portugal

Na TV, um tipo que ao que parece se distinguiu numa dupla chamada «Quim Roscas e Zeca Estacionâncio», apresenta um programa onde se sucedem cançonetistas epilépticos em ruidoso playback, assistidos por bailarinas de boîte com mamilos eriçados pelo frio Barrosão (é em Boticas). Um logótipo num dos cantos do ecrã diz que a coisa se chama «Somos Portugal».
Num primeiro momento, rebelo-me contra aquele abuso. Imagino uma certa petulância na proclamação. Depois caio em mim. Claro que aquela gente é Portugal. Eles e o povo que assiste, regalado. Os que ficamos de fora não chegamos nem para fazer uma tribo, quanto mais um país. De resto, temos sentimentos tão pouco nacionalistas que não nos devemos indignar se um destes dias nos tentarem exilar.

2. A TV do Quim Roscas

A certa altura, desfilam meia dúzia de quadrigas e uma centúria romana na TV do Quim Roscas — não me perguntem a que propósito, diria que o Carnaval ainda vem longe. Um programa com um título tão assertivo, aparentemente tão mobilizador, merecia uma Legião de garbosos guerreiros, mas o que ali se vê faz lembrar o punhado de legionários que, nas histórias do Astérix, aguarda tremendo a chegada dos gauleses. Fardas desalinhadas, capacetes à banda, uma timidez e um fascínio risonhos de indígenas perante as câmaras. São Portugal.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Otorrinolaringologia

Conheceu-a na primeira consulta no otorrinolaringologista. Ele ia pelo nariz, problema crónico, ela por uma otite ligeira. Encetaram na sala de espera o seu namoro, embora só muitos meses depois, confrontando memórias e estados de alma, tenham conseguido estabelecer com algum rigor a data.
Era uma rapariga alegre e não dava grande atenção ao guarda-roupa e ao aspecto do cabelo. Tinha um défice de auto-estima ou não a sensibilizava a questão (ele nunca percebeu bem). Achara a simplicidade ou a falta de empenho no visual de certo modo amorosas, embora não fosse um entusiasta do género descuidado. Depois de começarem a andar juntos é que ela foi introduzindo pequenas mudanças nos seus hábitos, preocupações estéticas. Um dia um casaco, no outro uns brincos, uns saltos altos, no seguinte um vistoso eyeliner, umas madeixas. Idas regulares ao cabeleireiro eram a última novidade. Ele tinha apreciado o ímpeto de mudança, sentia-se lisonjeado com o esforço dela, embora nem sempre concordasse com as opções. Poucas vezes, na verdade.
Nos últimos tempos sentia um mal-estar quando estavam juntos. Era um sentimento difuso, intangível, algo que pairava no ar mas simultaneamente físico. Preocupava-o não conseguir identificar as razões.
Quando ao fim de uns meses a lista de espera no hospital lhe permitiu a septoplastia que fora considerada urgente, correu ao encontro dela com uma alegria especial. Uma fase da sua vida tinha sido suplantada com sucesso e afinal nem tinha custado muito, embora ainda usasse com incómodo os tampões nasais.
Livrou-se finalmente deles uns dias depois e pôde de novo cheirar a vida e o mundo, agora com uma acuidade de que já não se lembrava. Vestiu-se com algum cuidado para o jantar dessa noite.
Mal se sentou à mesa — aliás, ainda antes de se sentar à mesa com ela —, percebeu qual era a razão do seu mal-estar. A namoradinha, naquele seu processo de auto-confiança ou vaidade, começara também a usar perfume, com a sua simpatia, mas só agora, com as vias desobstruídas, ele podia perceber como era atroz o gosto dela. E não era apenas uma questão de a fragrância ser horrorosa, escolha de fã do Tony Carreira. Era a quantidade daquilo. A namorada, ao que parecia, tomava banho de imersão em perfume contrafeito. Devia investir uma fortuna por mês nos ciganos ou lá em quem lhe vendia os frascos.
Aguentou uns minutos à mesa, indeciso entre falar-lhe dos benefícios de uma septoplastia mesmo para as pessoas comuns ou ser mais directo quanto à questão. Optou por pagar discretamente a conta, mesmo que não tivesse ainda provado a sapateira, e informá-la falsamente contristado que tinha conhecido outra mulher. 

La belle tristesse

Estou bastante feliz por o Caetano estar triste e me contaminar com a sua tristeza.

Abateram as mimosas II

Em pequenos, fazíamos cavalos das mimosas, ramos compridos que montávamos garbosamente com as folhas e as flores a varrer o chão e o tronco seguro nas mãos por duas tiras da casca fibrosa e húmida a fazer de rédeas. Já na altura se as acusava de serem uma praga e eu, fascinado, ficava à espera de as ver invadir toda a quinta onde elas existiam.
Não aconteceu tal coisa. A quinta foi loteada e não creio que tenha sobrado uma mimosa entre as vivendas.
Mas é verdade que ainda não passaram cinquenta anos e que aquele solo pode estar pejadinho de sementes. (Eu a esfregar as mãos.)