A
Ler tem um novo número nas
bancas, mas aquele que é urgente ir comprar, para quem ainda não o fez, é o de
Janeiro. Por causa de “Portugal,
finis
terrae”, esclarecedor ensaio de Pedro Rosa Mendes ali publicado. Nenhum
português deveria considerar-se informado (ou adulto) sem o ter lido. É um
texto escrito em tom vigoroso, porém sóbrio, acerca das origens históricas da
crise que vivemos. Informa, alerta e incomoda, não deixa quase ninguém incólume:
dos partidos da alternância à «Europa» (grafada com aspas, num interessante
paralelismo com o costume de Vasco Pulido Valente), passando pelos EUA. Talvez
poupe um pouco, em minha opinião injustamente, os portugueses enquanto povo.
A grande singularidade do texto de Pedro Rosa Mendes, a par da sua opinião
informada e da coragem com que ele a expressa, é a independência em relação às
instituições e em relação às tendências político-partidárias. Há, à esquerda e
à direita, outras pessoas no país que fazem diagnósticos coincidentes, pelo
menos em boa parte, mas as suas relações afectivas ou de interesses, o seu
comprometimento ou proximidade aos partidos, limitam-lhes a coerência,
tornam-nas inconsequentes, inúteis ou perniciosas. O mundo dos comentadores
políticos é geralmente um território de canto coral ou onde drapejam bandeiras.
É hoje para mim claro que o futuro português não pode ser construído
pelos partidos, estes partidos. Dos municípios ao Governo, o país precisa de um
reset, de se reinventar
politicamente, e isso não se consegue fazer com gente tão implicada, tão
cúmplice, tão presa aos métodos e aos desígnios das facções. Não se consegue
fazer com protagonistas que andam pelo país como mercenários a repartir
despojos ou por militantes que estão na política tão estupidamente como no
futebol.
Não se trata de tirar razão à esquerda ou à direita, de invocar um
hipotético centro virtuoso. Não tem nada que ver com esta posição ingénua,
igualmente maniqueísta, de consensos pantanosos.
Trata-se de dizer abertamente que os partidos portugueses são cancros
na sociedade e que detêm, em doses semelhantes, a culpa da situação que
vivemos. (Da culpa que podemos reivindicar como nacional — nunca deixemos a
«Europa» de fora disto.)
Como diz Rosa Mendes, «não haveria Passos Coelho sem Sócrates». Mas
quem pode verdadeiramente negar que Passos Coelho seria o Sócrates da década
anterior e Sócrates o Passos Coelho destes anos se a História lhes tivesse
concedido vencer eleições em períodos diferentes? Quem pode jurar, sem
hipocrisia ou cegueira, que distingue os Governos por muito mais do que o tempo
e as circunstâncias em que lhes calhou governar?
Há decerto elementos no actual Governo que têm as melhores intenções,
mas que liberdade lhes deixam ou que trabalho farão que não seja arruinado
pelos colegas menos escrupulosos e mais oportunistas? (E mais poderosos.)
Um país não se devia governar, mesmo em tempos de crise, com
sebastianistas, revolucionários, salvadores nomeados pelo Presidente ou pelas
instituições (nacionais e estrangeiras). Mas também é certo que jamais se
governará com a actual classe política.
A democracia ainda não foi destronada do pódio de melhor sistema de
governo, e não me parece provado que a democracia representativa tenha os dias
contados, que mereça ter os dias
contados. Apenas precisa de outros representantes. Precisa de uma faxina.
O problema é que em Portugal é muito difícil formar partidos políticos.
Não porque as leis e a burocracia sejam particularmente inexoráveis, mas porque
um novo partido em Portugal é sempre considerado uma coisa excêntrica, terá
previsivelmente um eleitorado da dimensão daquele que têm os partidos
monotemáticos, de âmbito e programa circunscritos a uma ideia e um punhado de
simpatizantes que se conhecem pessoalmente.
A vileza dos representantes em Portugal é pelo menos igualada pela
estupidez dos representados. O eleitorado português é suficientemente perspicaz
para reconhecer um cretino quando vê um — mas é também suficientemente
estúpido, ou está suficientemente implicado, para votar de novo nele.
Parecemos condenados a concluir como Pedro Rosa Mendes concluiu o
ensaio dele, utópica ou apocalipticamente: «Resta, pois, a rua, morada comum da
raiva.» De facto, as possibilidades anteriores à rua, numa escalada de tomada
de poder, parecem condenadas ao fracasso. Não se imagina que os independentes
bem-intencionados dos anos recentes da política portuguesa possam formar um
novo partido, mais sério e competente; não se imagina que esse partido fosse votado,
caso pudesse formar-se; mas também não se imagina que os partidos actuais possam
gerar anticorpos suficientemente poderosos para debelar a sua infecção interna.
Será um problema de imaginação aquilo que nos aflige? Ou de coragem (de fazer e
votar diferente)?