quarta-feira, 24 de abril de 2013
3. (Ainda o João Miguel Tavares)
Afinal a saída de Pedro Lomba da última página do Público não devolveu um moderado de direita àquela secção do jornal, oportunidade que referi há dias por ironia descrente ou cinismo. Pelo contrário. Desconfio que a mudança até fará empalidecer Vasco Pulido Valente (colunista que, embora por conveniência a uma velha historiografia in progress, até já aceita haver no aprofundar da crise europeia um dedo ou pelo menos uma alegria alemães; que talvez a Deutschland não seja sempre apenas um território de dignos e inquestionáveis credores).
2. Prestidigitadores
O post anterior não rouba toda a razão a João Miguel Tavares na sua defesa da
austeridade. Não é essa a questão. Contesta é o seu precipitado argumento de
autoridade.
No que toca à austeridade, não adianta muito estar contra ou a favor: ela
impõe-se se o dinheiro escasseia. E ninguém em rigor pode negar pertinência a
Tavares quando afirma que «sim, foi a imprudência em tempos de vacas
gordas […] que nos trouxe até aqui». De resto, outra sua afirmação no mesmo
artigo é também verdadeira, embora no seu facciosismo ele restrinja um defeito
nacional apenas à esquerda: «Boa parte da nossa esquerda ainda acredita que o
verdadeiro líder político é aquele que consegue dobrar a matemática e a
economia com a força da sua vontade.» Infelizmente, esta é uma característica
geral lusitana, entre outras coisas responsável por termos Passos Coelho como
primeiro-ministro — e Vítor Gaspar como ministro das finanças. A promessa do
prestidigitador é o salvo-conduto para ganhar eleições (vide Junho de 2011),
mas é igualmente o que tem sido vendido para sair da crise. A matemática e a
economia não se têm mostrado mais dúcteis perante os passes de Gaspar do que
perante os truques da esquerda antes dele. Isto e o erro de Reinhart &
Rogoff deveriam ser suficientes para um pouco mais de humildade da direita
ultramontana. Antes de nos prescreverem os calhamaços e as sangrias desatadas
deviam talvez ir rever contas e conclusões. É que aqueles de nós que não são da
esquerda esbanjadora nem da direita impiedosa gostariam de cair no abismo
sabendo que tal não aconteceu apenas porque alguém no poder ou nos jornais
achou aceitável o sacrifício e desnecessário rever dogmas.
1. O argumento do tijolo
João Miguel Tavares é um conhecido e enérgico defensor da austeridade. No
seu artigo desta terça-feira no Público
pretendeu arrefecer os ânimos dos que se alegraram por ter sido descoberto um
erro no célebre ficheiro Excel de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff,
frequentemente citado pelos promotores da austeridade. E que argumentação usou
Tavares? Uma de peso. Ou de volume. De número de páginas. É que, diz o
jornalista, ao contrário do que pensa a massa ignara, aquela dupla de economistas
não se tornou famosa pelas «26 páginas de Growth
in a Time of Debt», o artigo que continha o erro, mas sim pelas 512 páginas
de This Time Is Different — Eight
Centuries of Financial Folly, «um tijolo que se distingue precisamente pela
avassaladora quantidade de dados que os autores foram capazes de coligir».
Ora, isto parece mais bullying
do que argumentação. Como se alguém dissesse: «Não levam a sério as minhas
palavras? Experimentem o meu peso», sentando de seguida os seus 120 quilos de hambúrgueres
sobre o adversário para o calar.
A lógica de João Miguel Tavares pretende que o leitor, conhecido o erro
de um artigo, ceda com alegria ao argumento da quantidade de informação em vez
de, preventivamente, precavidamente, alertado pelo exemplo, se perguntar como e que informação foi coligida, e que influência isso teve nas conclusões
alcançadas pelo cartapácio. Como se um erro em 26 páginas, e a interpretação
fragilizada dele resultante, fosse mais improvável em meio milhar delas.
João Miguel Tavares quer enfim que nos verguemos perante a autoridade
do calhamaço. É muito comum nos dogmáticos. Tome-se a Bíblia, por exemplo.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Agora a cultura será efervescente
«Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2» (DN)
Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma
de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao
sonho de uma menina.
Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser
apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a
estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem
imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.
A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos
os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é
aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos
de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A
apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise»,
mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos
que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível,
directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não
acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».
Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no
fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece
um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora
que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa
que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto
púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?
P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a
cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa»
implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo
segundo os padrões de um público “efervescente”.
terça-feira, 16 de abril de 2013
Ghostwriting
Depois de muitos anos a escrever para a gaveta a horas mortas, como o
fantasma do bloco de apartamentos onde vivia, decidiu que chegara a altura de
começar a ganhar algum dinheiro com o seu trabalho. Publicou um anúncio no
jornal. Dizia: «Escritor inédito procura assinatura mediática para livro. Sigilo
garantido.»
Na acepção de ghostwriting que
a sua aversão a escrever os livros dos outros assim inaugurava, não eram as celebridades
que procuravam competentes escritores-fantasma, mas escritores espectrais que
procuravam nomes corpóreos aos olhos de editores e público. Os mercenários da
escrita eram substituídos por mercenários da Parker ou da Montblanc dispostos
a vender o seu autógrafo. Havia nisto um claro benefício para os leitores, afirmou
desassombradamente alguma (rara) crítica.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
BD, literatura, fantasia e sexo
«Suponho que em algum momento da minha vida deveria ter acontecido
uma evolução do meu interesse da BD para a literatura. Não necessariamente uma
evolução que rejeitasse as anteriores etapas; um progresso com alargamento de
horizontes, acumulação de interesses e curiosidades. Estava claro para mim que
a ficção iria ser sempre um suporte de que não me separaria, como se na
infância me tivesse sido diagnosticada uma deficiência num dos membros
inferiores e aquela fosse a bengala adequada para me deslocar. Mas, com o
crescimento, esperar-se-ia que reivindicasse uma bengala maior, proporcional à
altura que entretanto adquirira. Não o fiz, porém, e talvez me devesse
perguntar se a isso se atribui a forma desequilibrada como avancei na vida.
Não me fiquei pelas revistas juvenis, embora nunca as abandonasse;
ganhei também interesse por álbuns de maior erudição e exigência, com um humor
adulto e subtil, desenhos sofisticados, artisticamente relevantes, histórias
mais complexas e personagens mais densas, com narrativas de maior profundidade
dramática. Ganhei interesse, em suma, por muito do que a literatura representa,
mas a leitura de romances foi prática a que me dediquei com pouca frequência e,
quando ocorria pegar num livro, na maior parte das vezes preferia a ficção
científica. Um sintoma, terei de dizer, de que mais do que a ficção me
interessava a fantasia.
A capacidade de sonhar é tida como um dom, aquilo que nos permite
superar as limitações, encontrar alegria onde ela não existe. O sonho compensa
a vida. Pelo que se podia inferir que um livro — um livro de BD, no meu caso —
seria uma extensão do sonho, ou algo que substituía o sonho, se essa nossa
faculdade estivesse atrofiada. Mas talvez sonho
seja também, ou sobretudo, sinónimo de refúgio.
Ler revelar-se-ia, então, menos uma forma de sonhar do que de nos escondermos,
nos pormos a salvo da vida. A leitura não como entretenimento mas como
suspensão do tempo, da existência. Trazer uma revista de BD no bolso de trás
das calças era como, para utilizar imagens adequadas, transportar tecnologia
avançada, um aparelho onde poderia digitar a ordem de teleportação quando
estavam iminentes ocorrências ameaçadoras.
(…)
Era previsível que um espírito
tão prolongadamente ancorado na fantasia como o meu adquirisse vícios e
posteriormente não soubesse muito bem como viver sem a bengala da ficção.
Quando comecei a frequentar prostitutas fi-lo não tanto por incapacidade de
arranjar outro tipo de parceiras sexuais, mas porque apenas elas, algumas
delas, aceitavam, sem questionar, pôr a cabeleira ruiva que eu levava comigo.
Isso aconteceu numa altura em que eu já consumia regularmente drogas (outra
forma de viver em fantasia) e não era evidente para mim se o fazia para consumar
através de terceiras o meu flirt
gorado com Rita ou se porque não encontrava outra maneira de manter uma erecção
por um tempo razoável.»
Pedro, in Aranda
sábado, 13 de abril de 2013
Custos políticos
«Em termos de distribuição dos custos políticos, o Governo não foi muito inteligente», disse há dias o novel ministro Miguel Poiares Maduro. O problema foi o Governo ter optado por reduzir os salários no sector público em vez de ter seguido a via dos despedimentos. É que assim «acabou por alargar o leque dos descontentes».
Não interessa, portanto, se a opção do Governo era mais justa ou não. Nem sequer interessa, afinal, se a opção do Governo era mais justa do que a interpretação do Tribunal Constitucional. E não interessa, claro, a dureza dos custos sociais face à soberana importância dos custos políticos. Interessa é que o Governo foi estúpido. Se tivesse sacrificado sem hesitação algumas dezenas de milhares em vez de ter prejudicado um pouco umas centenas de milhares teria circunscrito o descontentamento. Maquiavel não diria melhor. E agora Maquiavel está no Governo.
Não interessa, portanto, se a opção do Governo era mais justa ou não. Nem sequer interessa, afinal, se a opção do Governo era mais justa do que a interpretação do Tribunal Constitucional. E não interessa, claro, a dureza dos custos sociais face à soberana importância dos custos políticos. Interessa é que o Governo foi estúpido. Se tivesse sacrificado sem hesitação algumas dezenas de milhares em vez de ter prejudicado um pouco umas centenas de milhares teria circunscrito o descontentamento. Maquiavel não diria melhor. E agora Maquiavel está no Governo.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Justiça
Apesar de todos os erros e mistificações do Governo, há um ponto onde,
por justiça, ele tem de ser louvado: a demissão de Relvas. É certo que pecou
por tardia, absurdamente tardia; é certo que outros ministros de outros
governos se demitiram ou foram demitidos por bem menos; é certo que o ministro
não foi demitido, demitiu-se (permitiram-lhe essa última honra); é certo que a pressão
pública foi inaudita; é certo que o ministro da educação é Nuno Crato. Tudo
isto e mais umas coisas é certo, mas um governo avançar com um processo de
averiguação sobre um seu ministro e não adiar ad aeternum ou esconder os resultados, nem recusar assumir as
consequências da averiguação, é novidade que deve ser saudada. Por vezes
neste país o cumprimento de deveres e a coerência de decisões, de pessoas e instituições,
têm de ser saudados, porque raros.
(E pronto, agora podemos voltar a vituperar o mau governo que nos calhou
em sorte nestes dias de chumbo.)
O mecânico
Como antes dele o gerente de uma churrasqueira e o escriturário de uma empresa, o mecânico, com apenas um pouco mais de vernáculo do que os grandes liberais dos blogues, declara que não se pode adiar mais, é preciso despedir funcionários públicos, essa corja. Não uma pequena quantidade para troika ver. Milhares, centenas de milhares. Talvez isso não resolva o problema do país de imediato, concede, mas resolve-o a médio prazo. Não diz se por milagre.
O mecânico não se lembra de que grande parte dos seus clientes são funcionários públicos e que o negócio pode afundar se os seus funcionários públicos deixarem de conduzir carros por muito tempo. Ou para sempre. O mecânico não se lembra de que funcionários públicos são os professores dos seus filhos, os médicos e os enfermeiros que mantêm a sua mãe viva e lhe permitem continuar a receber a reforma dela. São os tipos que lhe apanham à porta o lixo que ele deixa espalhar-se pelo passeio. E são aqueles gajos que conduzem a frota cuja manutenção lhe foi entregue por amigo bem colocado na câmara. O mecânico esquece-se, a bem dizer, de que o bem-estar e a economia do concelho estão por enquanto, para o mal e para o bem, dependentes do funcionalismo público. E, na sua precipitação, o mecânico esquece-se de que a própria esposa é funcionária pública (sem formação, desqualificada, na primeira linha dos despedimentos).
O mecânico não o sabe, não pensou a sério no assunto, mas fala dos funcionários públicos como de uma abstracção. Muito à anos vinte do século passado, fala dos funcionários públicos como de "os outros", como de uma raça expiatória.
Ainda bem que, à escala nacional, o Governo e os seus liberalíssimos e cultíssimos bloggers não são deste aziago jaez.
O mecânico não se lembra de que grande parte dos seus clientes são funcionários públicos e que o negócio pode afundar se os seus funcionários públicos deixarem de conduzir carros por muito tempo. Ou para sempre. O mecânico não se lembra de que funcionários públicos são os professores dos seus filhos, os médicos e os enfermeiros que mantêm a sua mãe viva e lhe permitem continuar a receber a reforma dela. São os tipos que lhe apanham à porta o lixo que ele deixa espalhar-se pelo passeio. E são aqueles gajos que conduzem a frota cuja manutenção lhe foi entregue por amigo bem colocado na câmara. O mecânico esquece-se, a bem dizer, de que o bem-estar e a economia do concelho estão por enquanto, para o mal e para o bem, dependentes do funcionalismo público. E, na sua precipitação, o mecânico esquece-se de que a própria esposa é funcionária pública (sem formação, desqualificada, na primeira linha dos despedimentos).
O mecânico não o sabe, não pensou a sério no assunto, mas fala dos funcionários públicos como de uma abstracção. Muito à anos vinte do século passado, fala dos funcionários públicos como de "os outros", como de uma raça expiatória.
Ainda bem que, à escala nacional, o Governo e os seus liberalíssimos e cultíssimos bloggers não são deste aziago jaez.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
O cartomante Quim Zé
Nos últimos dois dias vi propostas de ajuda de um cartomante coladas
com fita-cola em caixas automáticas e portas de bancos. Num primeiro momento,
pensei que a oferta se dirigia ao próprio sistema financeiro, interpelando-o nos
seus santuários ou pontos onde ele se insinua junto dos mortais. Depois
lembrei-me que cartomantes são espíritos apenas dedicados a previsões, e suspeitei
que a ajuda era afinal proposta a Vítor Gaspar (com o cartomante, pobre
info-excluído, a imaginar que um multibanco é um terminal com ligação directa
ao ministro das finanças). A certa altura soube que o TC chumbara o
orçamento e concluí que aquilo eram já papéis de Gaspar à procura de emprego. Que
o cartomante assinasse Quim Zé não me
espantou: era a ultima tentativa do ministro de se distinguir de um Zé
qualquer.
P.S. Não podemos pôr de parte a possibilidade de o cartomante Quim Zé
estar na verdade a informar os empreendedores necessitados de financiamento de que,
entre os bancos e o euromilhões, mais valia arriscarem no jogo, onde a ajuda de
um cartomante pode ser realmente útil.
O teu rosto será o último
Li esta tarde metade de O teu
rosto será o último, prémio Leya 2011, e senti-me apaziguado. Um
grossista do papel impresso pode ter um prémio que cria um bestseller em vez de premiar um livro que foi escrito para ser um bestseller. O livro de João Ricardo
Pedro, tanto quanto posso julgar, é bom e honesto. Alimenta-se de contos para
ser um romance e, na parte que li, tem pelo menos dois excelentes momentos: O Índio e O barbeiro Alcino.
(Para relativizar e armar um pouco, ia dizer que não conheço os
restantes livros concorrentes e perdedores, mas não é totalmente verdade: escrevi
um deles, mais perdedor do que concorrente.)
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Causa e efeito
Na contracapa: «A colaboração entre os Ministérios da Justiça e da
Saúde permitiu já detectar fraudes (…) que ascendem a 25 milhões de euros.»
Na capa: «Paula Teixeira da Cruz e Paulo Macedo de saída do Governo?»
No interior, pág. 6: «Miguel Relvas contrata comunicador que conheceu
no Youtube» e, pág. 4: gabinete de Miguel Relvas diz que é «falsa» a informação
sobre a sua saída do Governo.
Talvez tenhamos de esperar, pobres de nós, que Relvas faça alguma coisa
bem para se cansar e se demitir ou ser demitido.
Público e notório
1.
Uma apologia: «auto-suficientes no vinho e na cerveja.»
2.
Um epitáfio: «apenas
auto-suficientes no vinho e na cerveja.»
3.
Um jornal cujo problema talvez já não seja apenas a falta de revisores:
«Auto-suficientes no vinho e cerveja, ao contrário dos cereais.*»
4.
Se o Público queria dizer que
os cereais produzem pouco ou bebem mais do que produzem, a frase está certa — e sejamos um pouco solidários com eles, com os cereais: ninguém devia ter
de importar para beber (a não ser por desejo de experimentar beberagens finas
ou exóticas).
5.
Se o Público queria dizer
outra coisa, devia ter escrito: «Auto-suficientes no vinho e na cerveja, ao contrário de nos cereais.»
6.
Talvez o Público quisesse na
verdade dizer que passou de um jornal de referência a um jornal de referência
de Belmiro de Azevedo: baixos salários, baixo QI, muita auto-insuficiência.
* Destaque na última página do Público de hoje.
* Destaque na última página do Público de hoje.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Warpaint
Ouço-as e lembram-me coros adolescentes em grupos religiosos ou de escuteiros, meninas de saia rodada cantando a várias vozes, por vezes num só
tom, a mesma melodia de thriller enquanto
abanam as tranças. Ouço-as e as suas músicas parecem-me imperfeitas, inacabadas,
jam sessions insistentes à procura da
forma final de uma canção, várias canções à luta na mesma música, algumas boas
ideias reunidas a outras estranhezas. Ouço-as e lembro-me das minhas próprias jam sessions adolescentes, a obsessão com
uma frase, uma melodia, um som, uma malha, uma sequência de acordes, um ritmo, obsessão
não raro cruzada com certa embriaguez movida a Super Bock. Ouço-as e vejo-as como
me vi a descobrir um instrumento, deslumbradas com os sons, o minimalismo repetitivo
resultante do domínio incipiente da guitarra e do fascínio da descoberta, da
necessidade de ouvir e reouvir um truque recém-aprendido, um acorde encontrado,
uma harmonia conseguida. Ouço-as e julgo reconhecer amostragens de diferentes
camadas geológicas de uma parte do meu próprio território, punk de setenta, underground depressivo dos eighties, os anos de Seattle, alternativos
90s e seguintes. Ouço-as e por vezes não consigo parar de as ouvir, também eu
preso na espiral obsessiva que se inicia em “Exquisite Corpse” (EP) e continua
por “The Fool” (álbum).
Certa música imperfeita tem uma acção hipnótica sobre mim. Se eu fosse
uma serpente, o indiano que me quisesse encantar teria de ler a história do
rock alternativo e não ser um virtuoso no
seu instrumento.
terça-feira, 2 de abril de 2013
Sinto, com certa alegria, que vamos dar um estoiro com esta austeridade
Tenho um amigo que, há um ano, para minha ilustração e conversão, me abastecia
de vídeos e artigos de Medina Carreira. Chegou a oferecer-me um livro do
ex-ministro, por escárnio (e mania de gastar acima das suas e, no caso, minhas necessidades).
Sempre que nos encontrávamos, entre o glorioso 5 de Junho de 2011 e a evidência-até-para-totós
do descalabro passista, as nossas conversas redundavam em histeria e cólera,
com a parte patética deste género de debates a ser assegurada por mim (tenho um
dom).
Na verdade, o meu amigo e eu concordávamos na grande maioria dos
argumentos. Era aliás ele quem mais pessimista estava em relação às políticas
de Passos Coelho, na medida em que é por natureza pessimista quanto ao futuro
da Europa e do Ocidente. De Medina Carreira, apreciava, mais do que tudo (percebe-se
porquê), o tom tremendista e apocalíptico — les
beaux esprits se rencontrent.
Pelo meu lado, se via pertinência em afrontar o meu amigo e o governo
PSD/CDS não era porque acreditasse sem hesitações em alternativas, ou numa
solução indolor. Era também, reconheço, para me confortar, escolhendo como os
religiosos o diáfano para apaziguar os dias.
Mas fosse como fosse, tinha as minhas ideias. Não acreditava que um
plano de reforma radical funcionasse num prazo tão curto. Como todas as pessoas
sensatas postas perante a verdadeira dimensão do problema (que curiosamente as instituições
financeiras e políticas, com raras e individuais excepções, foram estimulando e
ocultando nos anos anteriores), estava disponível e sabia que eram inevitáveis
sacrifícios, perdas de rendimentos. Mas achava que uma reforma do Estado capaz
de enfrentar eficazmente a dívida e o défice precisaria de uns dez anos e que a
Europa tinha sido mesquinha e estúpida em não criar condições para isso.
Foi pois com um ar trocista e de vanglória que enviei hoje ao meu amigo
a notícia que cita Medina Carreira defendendo que «o tempo de aplicação do memorando deveria ser estendido a seis anos»,
caso contrário vamos «dar um estoiro com esta austeridade». Digo que o meu ar
era de vanglória porque conheço
o meu amigo: não concederá mérito à minha antiga intuição nem acreditará numa
extensão do prazo — vai é rejubilar com a expressão do jurista. «Dar um estoiro»
é também uma expressão sua frequente em relação ao país, e vê-la elevada a
título premonitório é algo que decerto vai excitar a sua morbidez.
E isto leva-me a desconfiar que morbidez é também patologia de Vítor Gaspar.
E isto leva-me a desconfiar que morbidez é também patologia de Vítor Gaspar.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
«Os portugueses não estão preparados para isto»
Na peça “Três dedos abaixo do joelho” os censores de teatro do Estado
Novo foram convidados por Tiago Rodrigues a serem co-autores do texto. Na
verdade, eles são praticamente os únicos autores, o dramaturgo e encenador limitou-se
a copiar e colar inteligentemente frases dos seus relatórios e com isso
construir o guião da peça e os diálogos dos actores. Mais de quarenta anos
depois, testemunhamos como a liberdade criativa era cerceada e,
simultaneamente, como uma elite no poder se achava no direito de interpretar os
interesses dos portugueses, ou, pior, como se achava no direito de decidir o
que os portugueses conseguiam ou não perceber. A inteligência dos nossos pais e
mães, tios e avós, a que se referem vários relatórios, era ofendida com decretos
do género: «os portugueses não estão preparados para isto»; «os portugueses
quando vão ao teatro querem apenas divertir-se»; «os portugueses não querem
estas inquietações, estas perturbações do espírito».
Hoje, quando nos sentamos livremente numa plateia, estaremos a precipitar-nos se sentirmos que isso vinga os nossos antepassados. O facto de ocasionalmente nos permitirmos e nos permitirem entrar numa sala de teatro para sermos inquietados ou perturbados é uma vingança provisória, efémera, sem grande alcance e certamente não garantida.
Hoje, quando nos sentamos livremente numa plateia, estaremos a precipitar-nos se sentirmos que isso vinga os nossos antepassados. O facto de ocasionalmente nos permitirmos e nos permitirem entrar numa sala de teatro para sermos inquietados ou perturbados é uma vingança provisória, efémera, sem grande alcance e certamente não garantida.
O país já não dispõe daquelas figuras de lápis
azul e mangas-de-alpaca laboriosamente encerradas em gabinetes do Secretariado Nacional
de Informação para determinarem ao que o país pode ou não pode assistir. Dispõe
de outras: sentadas nas direcções de programação das televisões (pública e privadas)
e sentadas na vereação de cultura de uma enorme quantidade de câmaras municipais
no país. Não usam o lápis azul porque hoje os amanuenses não escrevem com lápis,
nem têm um regime ou uma moral de estado para defender.
Mas têm a mesma ignorância despótica ou a mesma aversão à diversidade e ao livre arbítrio que tinha o Estado Novo. Cidadãos que pensem e
escolham livremente são um empecilho na luta pelas audiências e uma dificuldade
evitável para uma gestão autárquica que se quer simples como umas férias de Verão.
É verdade que, ao contrário das instituições do Estado Novo, as
televisões e as vereações não visam defender um regime nacional ou uma moral pública quando exercem a sua política de estrangulamento ou afunilamento do gosto — mas
está na sua natureza defender o statu quo,
e, se a moral ganhou em muitos campos uma considerável elasticidade, não foi em geral a
suficiente para suportar interesses divergentes.
Um e outro sistema, o das ondas hertzianas e o do feudo provincial,
precisam de uniformidade para exerceram a sua influência, as televisões para
venderem os seus sabonetes, certo poder autárquico para poder manter-se com os
mesmos fracos protagonistas e a mesma atávica incompetência.
Acresce que atávica é também a relação de muitos portugueses com a
diversidade e com as coisas que inquietam o espírito. Se não houvesse tiranetes
do gosto nas TVs e numa grande quantidade de câmaras, muito povo estaria ele próprio
disposto a sair à rua a gritar que «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas
divertir-se».
Na verdade, fá-lo frequentemente, desdenhando ou considerando uma
veleidade insustentável haver concidadãos que queiram ir ao teatro por outras
razões.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Tropa
Há pouco mais de vinte anos, estacionado em Elvas, fui mandado com um
cabo e dois soldados para o Forte da Graça. O Forte e eu estávamos sob a alçada
do Regimento de Infantaria n.º 8 e havia um destacamento em permanência lá em
cima. As ordens, se bem as recordo, eram proteger o sítio do assédio dos
ciganos, que por compreensíveis razões o achavam perfeito para se instalarem.
Corria o Verão e subir ao Monte da Graça era um bónus de ar fresco que se
agradecia. Os soldados que me acompanhavam conheciam a rotina e, mal chegados,
ao final da tarde, perante a minha mal disfarçada perplexidade, trataram de
escolher os melhores colchões, que arrastaram da casa da guarda para o ar
livre. A noite ia ser quente e suportava-se lindamente no pátio a seguir à
porta de armas. Nenhum deles tinha a menor intenção de fazer uma ronda ao Forte,
e eu, pobre e contrariado miliciano, não me imaginava capaz de alterar as
tradições do quartel aonde fora parar.
De resto, toda a veleidade castrense que pudesse ter tido quando
cheguei a Elvas se esgotara no momento em que, na primeira ronda nocturna enquanto
sargento de dia, me deparei com um algarvio em alvos calções e alva camisola de
alças a dormitar no seu posto, encostado à G3. Eu tinha acabado de chegar de
Mafra, devidamente formatado, e senti um ligeiro escândalo com aquilo. Na
Escola Prática de Infantaria — EPI, mais conhecida como “Entrada Para o
Inferno” ou “O Calhau”, atendendo a toda a quantidade de pedra que ali se
juntou por ordem de D. João V — tínhamos sido ensinados que jamais se pegava
numa arma quando em trajes de ginástica (ou de ballet, na delicada gíria militar), pelo que antes de me interrogar
porque estava uma sentinela vestida daquela maneira pensei em admoestar o
soldado por ter trazido a G3. Na minha hierárquica concepção da etiqueta militar,
a combinação dos adereços parecia-me mais importante do que a adequação do
traje.
O militar, com sonolência de veterano, ofereceu-me uma passa do seu
charro e explicou-me duas coisas, ali no jardim sob o luar e as janelas da
messe de oficias: o calor alentejano não contemporizava com o código de
vestuário do Exército e um pescador como ele não estava propriamente
desesperado para regressar à faina, aguentava bem os meses extra que, como
paga da sua conduta, lhe
quisessem oferecer na paz suave das muralhas de Elvas, assegurada que estivesse
a comida, a cama lavada e, claro, o comércio com Badajoz.
Na tropa aprendia-se com os mais velhos e, se não passei a fazer as
minhas rondas em calção, chinelo e Walter à cinta, foi porque descobri que
aquelas horas de serviço se passavam melhor a dormitar no imponente cadeirão de
alto espaldar e couro, quase um trono, que havia na casa da guarda. Por outro
lado, se não aprendi a apreciar as prorrogações do serviço militar tal como ele
se desenrolava em Elvas foi porque era jovem e estúpido e achava que a vida
tinha muito mais para me oferecer.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Ó mãe, o intelectual é mau!
«Há uns ditos intelectuais que acham que só eles é que sabem o que é bom.»
Esta frase de Tony Carreira (mas podia ser de tantos outros, cançonetistas
e escritores de sucesso), publicada no sempre prestimoso JN, revela
como lá no fundinho a personagem sente mágoa por não ter a admiração dos
intelectuais. Um Pavilhão Atlântico cheio de povo ou uma tiragem à Dan Brown
podem confortar a alma e alimentar a megalomania, mas não compensam o desprezo
dos intelectuais.
É uma conhecida técnica infantil odiar o que não se compreende ou o que
não nos satisfaz os caprichos. A criança que se magoa numa esquina, por natureza
estática, inerme e sem intenções, reage batendo na esquina e declarando que não
gosta da esquina, a esquina é má.
Por vezes, é também um tique de déspota acossado: desejar matar o portador
das más notícias, como se isso afastasse as más notícias, as tornasse falsas.
Deve ainda ter-se em conta que o ódio aos intelectuais é a forma que
alguns best-sellers encontram para moldar a sua arte ou,
mais vulgarmente, para desculpar a sua incapacidade de a tornar melhor.
Ao determinarem que «se inúmeros gostam é bom», estão a autoconvencerem-se
que o que fazem é bom. Atribuem à massa que os ama a condição de árbitro da
beleza, como Nero fazia a Petrónio enquanto este o bajulava (pronto para o
mandar decapitar se fizesse o contrário).
E ao desclassificarem os intelectuais, apondo-lhes aspas ou o prefixo
“pseudo” (que usam como insulto), ao dizerem que se os intelectuais não gostam
é porque não alcançam a simplicidade da beleza, estão a traçar um caminho que
os afasta irremediavelmente da possibilidade de melhorarem o seu próprio
trabalho, impõem-se uma bitola superior que juram não ultrapassar.
É verdade que na maioria dos casos não teriam meios para a ultrapassar — e
o ódio aos intelectuais é então também a mão com que afagam o rosto, a mão que
os conforta na sua impotência. «Ó mãe, o intelectual é mau! Bate no
intelectual!»
Fim da linhagem
«Ele punha-se a dizer que não
havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele
se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero
mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar
para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e
independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um
problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse
assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem
as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em
cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho,
insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua
deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava
matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e
o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa
latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de
um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para
coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado,
onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas
folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão
de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me
ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos
para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas
metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no
filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um
minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da
vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo,
via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido
em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça
sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E
a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a
vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes
torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente
irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de
delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois
arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a
mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas.
Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de
tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para
mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou
uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que
fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim
para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque
não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe
tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha.
Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa
cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das
bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal
que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me
por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida
que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres
que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira
pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua
mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver
e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis
haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos
que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da
fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe
que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me
deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na
realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações
para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um
gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada
de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma
sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto,
que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes,
vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida
por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas
deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um
dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se
perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma
das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava
muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que
havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar,
lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa
cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar
de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer
fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e
quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me
tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria
evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam
ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de
membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de
terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao
sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo
no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse
numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a
certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu
piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento
e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos
de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de
vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não
nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma
benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender
dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me
tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse
regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer
subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa
uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha
docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a
contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não
me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto,
vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase
tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele,
abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte,
recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para
o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me
parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era
passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de
abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar.
Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era
verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou
não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que
fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução,
a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado
no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu
apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me
parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós,
os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem
tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o
último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do
futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com
vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança,
em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de
parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com
a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que
naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por
mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso
é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda,
retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes
que quiseres, com a condição que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele
dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a
atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro
era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na
verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na
minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos
que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me
pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo
não fora uma necessidade de última hora derivada de uma avaria no carro, era
uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo
com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes
de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia
tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua
mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar
no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu
a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer
companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade
dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os
fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se
com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que
ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua
deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o
encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe
emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava
disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se
propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo
estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de
todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo
lograria conceber naquela noite.
Havia ainda, talvez, outras
razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela
e não pensar no assunto.»
Vila Real, Novembro de 2008
sexta-feira, 22 de março de 2013
Passarões
No supermercado onde me aprovisiono de atum, salsichas, sardinhas e
demais enlatados de guerra entram por vezes pássaros que passam a noite a
chilrear em busca da saída. Mas não são eles que depenicam os cachos de uvas
que ali se vendem. Quando decido comprar fruta desta, tento acreditar que os
bagos em falta foram retirados por diligentes funcionários à cata de uvas
apodrecidas (ou, pronto, vá lá, bicadas pelos pássaros). Mas não se é
misantropo por razão nenhuma: acabo sempre a desconfiar que quem depena os
cachos é a restante clientela, que acredita ser Democracia o estender as
patorras e tirar um bago ou dois ao passar e Liberdade o abrir um iogurte para
confirmar se é aquela a escolha acertada. Uma clientela ciosa dos seus
direitos, que responde a quem olha estupefactamente para a embalagem aberta e
devolvida à prateleira vociferando com ar de escândalo: «Que foi? Meta-se na sua vida!»
Suponho que a cadeia de supermercados terá uma verba para cobrir este exercício
de cidadania dos seus clientes. Do mesmo modo que tem uma verba para processar os
tipos de casta inferior que por vezes roubam um euro ou dois de hortaliça.
Subscrever:
Mensagens (Atom)