quarta-feira, 27 de março de 2013

Fim da linhagem

«Ele punha-se a dizer que não havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho, insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado, onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora derivada de uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite.
Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»

Vila Real, Novembro de 2008

sexta-feira, 22 de março de 2013

Passarões

No supermercado onde me aprovisiono de atum, salsichas, sardinhas e demais enlatados de guerra entram por vezes pássaros que passam a noite a chilrear em busca da saída. Mas não são eles que depenicam os cachos de uvas que ali se vendem. Quando decido comprar fruta desta, tento acreditar que os bagos em falta foram retirados por diligentes funcionários à cata de uvas apodrecidas (ou, pronto, vá lá, bicadas pelos pássaros). Mas não se é misantropo por razão nenhuma: acabo sempre a desconfiar que quem depena os cachos é a restante clientela, que acredita ser Democracia o estender as patorras e tirar um bago ou dois ao passar e Liberdade o abrir um iogurte para confirmar se é aquela a escolha acertada. Uma clientela ciosa dos seus direitos, que responde a quem olha estupefactamente para a embalagem aberta e devolvida à prateleira vociferando com ar de escândalo: «Que foi? Meta-se na sua vida!»
Suponho que a cadeia de supermercados terá uma verba para cobrir este exercício de cidadania dos seus clientes. Do mesmo modo que tem uma verba para processar os tipos de casta inferior que por vezes roubam um euro ou dois de hortaliça.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Também tu?

Houve um tempo em que a revolução me parecia acessível. Eram os anos oitenta e a professora de inglês dava-se ao trabalho de arranjar um leitor de cassetes para passar A sort of homecoming dos U2 e falar da poesia. Mais tarde nesse dia ou no fim-de-semana seguinte o DJ (era o tempo em que haviamesmo DJs nas discotecas) propunha Sunday, Bloody Sunday e não era improvável que a rádio passasse entretanto Pride (In the name of love) ou New Years DayThe Electric Co.Running to stand still. Tudo isto nas versões ao vivo, claro, a electricidade era realmente importante e despertava o epiléptico que há em mim. Depois disso a professora de inglês entrou num imerecido esquecimento, o Bono deixou de ser um rufia de Temple Bar e eu digo burguesamente que sim, li Dubliners — sem recordar uma única história.
Imaginemos agora por um momento que os quatro de Dublin não tinham as poupançazitas em offshores e se viam obrigados pela crise a fazer de novo boa música: talvez eu pudesse voltar a conspirar com eles para derrubar o governo. Nada era impossível para um proletário simplório durante os três minutos de uma música e os trinta e três centilitros de uma Super Bock.

Mantra

O ministro espanhol da economia diz que os depósitos dos espanhóis «são sagrados». Vítor Gaspar afirma que uma taxa sobre os depósitos «está totalmente fora de questão». Não somos a Grécia. Não somos o Chipre. Até à derrota final.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Banha-da-cobra

Se um amigo nos diz que há oportunidades na adversidade, está a tentar animar-nos. Mesmo que nos minta (e, estatisticamente, mente-nos), sabemos que a mentira é piedosa, bem-intencionada. Agradecemos-lhe e, havendo forças, assobiamos de bom grado com ele Always look at the bright side of life.
Se um tipo como Passos Coelho não se cansa de nos repetir esse mantra de cada vez que nos dá más notícias, não devemos cair na confusão de o tomar por amigo. Há outra espécie de pessoas que se esforça por revelar o lado bom das coisas, mesmo quando elas o não têm. Sobretudo quando elas o não têm. São os charlatães.

Nunca compre um carro em segunda mão a Passos Coelho — descobrirá que não tem motor, embora o chassis seja alemão.

Adágio popular

A direita não suporta a classe média, a insolente ambição da classe média. Por isso a direita é geralmente tão amiga do povo — do povo tal como ele se vê em estampas antigas a sépia. Se um destes partidos de direita se propõe ajudá-lo, tome cautelas. Caso não esteja num casting para séries televisivas do género “Conta-me como foi”, o mais certo é que o queiram tornar figurante do reality show com o mesmo nome.

Tempestade sem bonança

O Professor Zandinga, magoado com as comparações, acha que Vítor Gaspar não passa de um simples meteorologista, e sugere que o recambiemos para o respectivo Instituto. A Nação discorda. Gaspar nas vezes de Anthímio de Azevedo, mais do que falhar as previsões, haveria de trazer sempre mau tempo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Distopia, mas pouco

Entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2012 escrevi alguns episódios de A Vida de K., uma crónica do futuro próximo. Lembro-me de um ou outro leitor censurar o pessimismo ou o exagero das narrativas. Tolos. Ignoram que a realidade costuma ultrapassar a literatura. Quando se derem conta e eu retomar a série, perceberão que não estarei já a escrever ficção, mas a fazer a crónica dos dias presentes.

[A Vida de K.1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7.]

domingo, 17 de março de 2013

O bug das finanças

Se, como parece, a política do governo assenta numas páginas de Excel, teremos de concluir, tendo em conta a forma como as suas contas falham, que não temos um ministro nas finanças — temos um dos famosos bugs da Microsoft.

Desapontamento

O ministro das finanças está desapontado. E o caso não é para menos: que desfaçatez intolerável este comportamento das coisas reais face à irrepreensível acomodação das células de Excel!

Perante os sentimentos exacerbados dos portugueses (frustração, depressão, angústia, inquietação, raiva, desespero) o nosso ministro das finanças não sente mais do que um desapontamento. Já sabíamos que era suspeita aquela maneira de falar (e de pensar), mas agora temos a certeza de que Gaspar é, ele próprio, um simples conjunto de zeros e uns, um aglomerado de bytes que fazem um belo holograma de testa enrugada.

terça-feira, 12 de março de 2013

Janela indiscreta

Tenho uma tendência para humanizar coisas e bichos. Até pessoas, por vezes.
Hoje pousou-me uma pomba no peitoril da janela e, como eu tinha acabado de sair do duche, suspeitei que o fez intencionalmente. Imaginei-a, lubrica, a espreitar-me enquanto me vestia. Ao dar com ela, encolhi a barriga e tentei mexer-me pouco — mas ela resistiu, não se mandou contra o vidro na ânsia de entrar. Também não se mandou abaixo do parapeito, o que me confortou o ego, antes um pouco melindrado com a sua resistência.
De seguida estiquei-me cuidadosamente para apanhar o cinto e ela abriu as asas e lançou-se atabalhoadamente nos céus. Ainda considerei aquilo muito humano, mas de uma humanidade diferente: de criança antiga, traumatizada com sovas paternas pré-revolução. Ou de jovem mulher que não lê As 50 Sombras de Gray e desdenha por isso os prazeres sado-masoch.
Devia ter considerado não usar cinto hoje.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Primeiros parágrafos

Roubando a rubrica de José Mário Silva: primeiros parágrafos. Neste caso, da minha opus IV.
(Talvez seja melhor dizer, preparando já um alibi para mais do que certas mudanças de opinião ou para assegurar a indulgência do juiz, primeiros parágrafos na forma tentada. Na verdade, é a descrição mais justa, já que falhei este trabalhinho encomendado a mim próprio.)

«Lembram-se do esqueleto que há uns seis meses alvoroçou a cidade? Era eu. Sei que é difícil de acreditar, até porque o esqueleto usava barba. Mas era eu. Hoje estou muito melhor, comi qualquer coisa entretanto e barbeei-me, voltei a usar roupa. Mas as fotos que viram nos jornais eram minhas. As tíbias, os fémures, os rádios, as falanges, todo o chocalhante conjunto era meu. Até o chapéu era meu. Sim, reconheço, podia ser de um cigano. Porém, era meu. Tomaram-me por um junkie, mas isso era uma acusação sem cabimento. Naquela altura eu já tinha deixado de me injectar, as agulhas partiam-se-me nos ossos. Bebia, de facto, mas não muito. Um pouco menos do que o Rasputine. Eu sei que ele era ligeiramente maior do que eu e isso faz diferença. Ok, umas três vezes maior do que eu. Sou um tipo baixo. Um baixote. Um minorca. E magro (agora já nem tanto). E louro. Se fosse moreno, teria sido mais difícil ser baixo. Era demasiado azar para se continuar vivo. Um gajo louro tem outro lustro. E depois há os olhos azuis. As mulheres quando olhavam para mim não viam um gajo baixo, estavam demasiado ocupadas a derreterem-se com o lourinho de olhos azuis. Quando finalmente se dispunham a medir-me a altura, faziam-no aos palmos e era raro passarem dos tomates. De resto, eu tinha ali uma surpresa para elas, uma a que se agarravam de mãos e dentes. Um tipo pode ser baixo e ter um pau comprido. As leis da física não o impedem. Fizeram-se testes. Eu fiz testes, na adolescência. No início, quando percebi que tinha uma coisa telescópica entre as pernas que em certas alturas não parava de crescer, assustei-me. Achei que aquilo me podia desequilibrar. Nunca a deixava crescer sem me encostar com uma mão a uma parede. Não é incomum que os putos o façam, embora nem todos limpem a parede depois. Mas fui ganhando confiança, como os funâmbulos se adaptam à vara que os equilibra no arame. Se pensam em termos gráficos, talvez estejam com dúvidas sobre a funcionalidade do sistema, mas a representação não esclarece tudo. Há os glúteos, que se desenvolvem com o crescimento. Imaginem isto: as mamalhudas não passam o tempo a cair de queixos, pois não? Bem, algumas passam, é verdade. O que quero dizer é que o nosso sistema muscular se adapta à carga com que tem de lidar. Não era um daqueles tipos com bíceps hiperdesenvolvidos porque não precisava assim muito dos braços. Isto pode deixar confuso um alferes, quando se vai para a tropa e se fracassa nas flexões na barra, mas não as mulheres. Pelo menos há vinte anos não. Entretanto tive de me adaptar, frequentar ginásios, arranjar-lhes uns bíceps que pudessem apalpar. O centro gravitacional de um corpo não muda com as épocas e os gostos, mas por vezes tem de se arranjar uns pontos de apoio para as mãos.»

O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice

«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças, ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria, se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum) justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária (a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia geral ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.

domingo, 10 de março de 2013

Lugares-comuns da nacionalidade

À entrada do supermercado, um junkie que por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental, substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos, masculinos: os croissants como jóia possível para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente e futura.

Ganhar asas

Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele, achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já aqui falei. Entre ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis e do Continente, talvez a Adília faça.)
Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem tanto nas pernas.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Delfina (3)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 3.ª parte]

«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas. Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira. Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências, por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a, entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»

in Hotel do Norte

Delfina (2)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]

«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento, como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas, previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem pretas.»

in Hotel do Norte


Delfina (1)

[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]

«Todas as roupas de Delfina eram de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros, convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores incertas.»

in Hotel do Norte

Tomando nota

Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta, porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde toma nota dos negócios da marijuana e do resto.

Os corredores e os melancólicos

Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram. Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre que posso acumulo em mim os dois.