Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela
distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope
cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita
criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem
sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem
tanto nas pernas.
domingo, 10 de março de 2013
Ganhar asas
Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio
Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele,
achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que
não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a
moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me
garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava
os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma
rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio
da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez
matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar
no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já aqui falei. Entre
ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco
atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não
havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos
mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas
ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis
e do Continente, talvez a Adília faça.)
sexta-feira, 8 de março de 2013
Delfina (3)
[Uma personagem feminina no Dia
Internacional da Mulher – 3.ª parte]
«As instalações sanitárias do Hotel do Norte tinham sido modernas.
Agora eram apenas vagamente funcionais, com os canos a soluçar e a água a sair
por vezes com um grau de ferrugem muito superior ao que ficava no fundo dos
copos que se enchiam na Nascente N.º 1. Delfina tinha bebido ali um copo no dia
da chegada, por amabilidade de uma das funcionárias, uniformizada com bata e
touca brancas, imaculadas, que procedia à limpeza de fim de estação. Grata pela
cortesia, Delfina não suspeitou logo que estava num zoológico invertido. Era a
senhora de branco (sentada a um nível inferior ao dos visitantes, uma
balaustrada a separá-las) quem parecia numa jaula, mas era Delfina que estava a
ser intensivamente observada, era ela a atracção dentro do buvete Arte Nova transformado
momentaneamente em pavilhão de zoo, a água como amendoins.
As duas mulheres encontravam-se em situações idênticas. Delfina nunca
tinha visto uma campânula de vidro daquelas, cilíndrica, alta, com a água no
seu interior a ser renovada permanentemente por jorros vindos das profundezas
da rocha, gorgolejando o gás natural que a tornava famosa, as bolhas a surgirem
enormes, em ímpetos, e depois desvanecendo-se em miudinhas borbulhas
descendentes, lentas. Pelo seu lado, a senhora da touca nunca tinha visto senão
em fotos uma pele assim, chocolate escuro moldado ao corpo e às formas
voluptuosas de uma mulher jovem e fibrosa. Uma observava a tecnologia e as
maravilhas da Metrópole termal e romântica. Outra imaginava-se num daqueles
circos que exibem extravagâncias da natureza.
No fundo do copo que agradecera e bebera (primeiro a estranhar o gás e
o sabor a ferro e depois com sofreguidão) tinham ficado algumas lâminas
pequeninas de ferrugem. Agora o jacto do chuveiro deixava na banheira branca
doses sucessivas do mesmo material. Tencionava tomar um duche, tanto por sentir
que precisava disso como para encontrar algum prazer a meio de uma tarde
particularmente aborrecida. Livre da saia e da blusa coloridas, que despira
demasiado cedo, sentou-se na borda a aguardar que a água perdesse o tom
acastanhado.
A casa de banho, espaçosa, com a porta a dar para o corredor, era de
serventia comum. Havia gente a bater com frequência, o que perturbava a
intimidade e não permitia que a divisão assumisse em pleno a sua outra função
de local de recolhimento. Num momento ou noutro do seu decurso, o alívio das
necessidades e as abluções acabavam por ser partilhadas com alguém que se
encostava à face exterior da porta à espera de vez.
A água por fim veio limpa e Delfina entrou na banheira, metendo o corpo
debaixo do jorro do chuveiro. Estava fria, como poucas vezes a sentira.
Apeteceu-lhe o choque térmico e cerrou os dentes, retesou os músculos, mas no
peito sentiu que o coração a ameaçava com um colapso. Os pulmões contraíram-se
involuntariamente; respirava em soluços profundos e dolorosos. Esfregou
vigorosamente os ombros e a barriga e, segundos depois, tinha aumentado a sua
tolerância à baixa temperatura.
Eram demasiadas semanas confinada a um mesmo espaço, sem que a vida
tomasse um curso, fosse ele qual fosse. Vir para a Europa parecera-lhe desde o
primeiro momento uma coisa assustadora, mas estava ansiosa por experiências,
por contactar o mundo exterior. Não que mantivesse brilhantes expectativas
quanto a isso, até agora tudo lhe parecera feio e os brancos não se mostravam
em muitos casos melhores do que em África. Por vezes eram piores: juntavam numa
só manifestação a repulsa e uma curiosidade boçal; insinuavam o desprezo, mas
não conseguiam desviar o olhar pasmado e intrusivo. Desejava tornar-se
transparente, invisível, ser transportada para outro lugar.
Debaixo do jacto irregular do chuveiro, fechou os olhos, tomada por uma
alienação agradável, apesar da água fria. Deixou-se sonhar. Entrou na redoma
transparente que vira na fonte. Sentiu as borbulhas a contornarem os pés e
depois a propagarem-se pelo corpo todo, fazendo-lhe cócegas, massajando-a,
entorpecendo-a. Gostava daquela sensação. Rodava na banheira como se o fizesse
na campânula. Era um anjo num daqueles globos de neve de enfeitar móveis. Um
anjo negro. Ouviu vozes e risos no corredor e tapou-se instintivamente com os
braços. Também era um espécime raro exposto à devassa do público.»
in Hotel
do Norte
Delfina (2)
[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher – 2.ª parte]
«Delfina e a mãe estavam a ficar desiludidas com o padrasto, mas ao
mesmo tempo hesitavam em censurá-lo abertamente. Não por receio de
consequências, a relação deles não envolvia violências, nem o padrasto era um
patriarca despótico. Não era, aliás, um patriarca, não havia disso naquela
família. Delfina crescera a ver os dois elementos do casal como iguais; com
características particulares e incumbências raramente permutáveis, mas iguais
em importância e influência. Iguais nos defeitos, até. Por exemplo: fumavam os
dois incansavelmente charutos.
Mas agora sentia-se mais próxima da mãe do que do padrasto. Não era o
sangue, era talvez o facto de apenas elas serem estrangeiras e estarem
desamparadas nesse sentimento.
Reduzir o problema da família a uma questão de mudança geográfica era
uma tentativa de indulgência em relação ao padrasto, a forma de evitarem
censurá-lo directamente. Sentiam-se estrangeiras, assustadas, sim, mas havia o
comportamento dilatório dele, os seus medos e a forma como se estava a entregar
a eles, afastando-se da mulher e da enteada.
Precisavam dele. Não gostariam de o alienar ainda mais deixando-o
perceber como se sentiam temerosas e desamparadas. Deixando-o perceber que elas
sabiam o que se passava na cabeça dele, a forma como os velhos preconceitos se
apoderavam da sua vontade — como memórias que voltavam — e se sobrepunham aos
afectos.
Era desta soma de medos e ocultações, e da consciência que todos tinham
deles, que se compunha o mal-estar. Nos silêncios e nos olhares todos percebiam
o que ia na cabeça de cada um. Ele agarrava-se à doença como quem se agarra a
um ramo na margem para não ir com a corrente — ignorando que podia vencer a
corrente simplesmente nadando. Elas zombavam e minimizavam o seu sofrimento,
como se tudo o que desejassem fosse que ele se queixasse menos. Ele era o velho
hipocondríaco, elas as que não tinham paciência nem piedade. Era desta forma
artificial que se aborreciam e magoavam, para não terem conversas francas,
previsivelmente mais fracturantes; para o padrasto não ter de dizer (e
envergonhar-se disso) e elas não terem de ouvir (e sofrer a punhalada) que a
razão por que ele adiava a partida para o Seixo era o facto de elas serem
pretas.»
in Hotel do Norte
Delfina (1)
[Uma personagem feminina no Dia Internacional da Mulher]
«Todas as roupas de Delfina eram
de tecidos finos que se moldavam ao corpo: uma saia comprida e justa, uma blusa
curta sem mangas e um lenço na cabeça que lhe caía pelos ombros. Nenhuma das
peças possuía qualquer relevo, nenhum ornamento ou bolso ou laço, nenhum volume
se destacava que não pertencesse ao corpo da mulher. Um retratista, daqueles
que costumavam frequentar o Parque no Verão, teria podido desenhá-la nua sem o
embaraço de ela se despir.
Ia para o miradouro que havia ali
perto — um promontório de construção romântica, com uma rampa e degraus em
cubos de granito e gradeamento em betão a imitar troncos de árvores — donde se
avistava a parte inferior do Parque e a aldeia para lá dele, com a serra por
trás. Era um horizonte pequenino, mas ela supunha que num país pequeno não
havia horizontes mais vastos. De qualquer modo, gostava sempre de ir ali um
bocado qualquer do dia encher de vistas os olhos cansados do quotidiano
claustrofóbico no Hotel do Norte.
Ainda não se aventuravam muito
longe do local de acolhimento, inibição que ela imaginava semelhante à dos
exploradores num safari, cautelosos no período após se montarem as tendas numa
clareira. Não havia animais selvagens nas redondezas, isso Delfina sabia, mas
nem todos os medos ou constrangimentos tinham origem em feras.
O local, como de resto todo o
Parque, era de vegetação densa. As árvores rodeavam o miradouro e faziam uma só
copa que o cobria; heras vigorosas cresciam e enredavam-se nos gradeamentos; os
canteiros em volta estavam atapetados de plantas que ela desconhecia, mas que
faziam um manto compacto e fofo, delimitado por murinhos baixos. No espaço de
um mês, ou menos, tudo estaria mais despido, mas isso ela ainda ignorava. O sol
matinal, que os ramos não obstruíam, atingia-a na face e descia pelos ombros,
convidando-a a espreguiçar-se.
Era neste acto que ela se
retraía, olhando em volta, de novo ciente da sua condição de estrangeira em
terra estranha. Sentia-se rodeada de atilhos, espiada, alvo de olhares que se
ocultavam como hienas à espera. Com um arrepio, cruzando os braços sobre o
peito, regressava em passo rápido ao Hotel.
Delfina não tinha um quarto só
seu. Partilhava com a mãe e o padrasto um compartimento e o mal-estar que
cindia a família. O Hotel do Norte era para eles apenas um apeadeiro antes do
destino final, pelo menos a acreditar no padrasto, que há vinte e seis anos
trocara o Seixo — um lugar não muito longe dali, a norte — por África. Com o
passar das semanas, as duas mulheres da família julgavam perceber que a coragem
dele recuava. Tinha carinho por elas, disso não restavam dúvidas, mas faltava o
passo seguinte, mostrá-las aos irmãos e cunhados que não saíram da aldeia e
dizer-lhes, com normalidade, que aquela era mulher dele e aqueloutra a filha
que tinha o gosto de considerar como sua.
Ela e a mãe mantinham as malas
feitas à espera da ordem de partida. Acreditavam, queriam acreditar, que não
havia nada de mal com elas, que neste país as coisas poderiam ser iguais a
África, com a vantagem de não haver nenhuma guerra à vista. O padrasto afagava
a face de uma e de outra e deixava-se cair na cama, queixando-se de dores
incertas.»
in Hotel do Norte
Tomando nota
Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como
diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los
por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes
fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por
exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta,
porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o
desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que
o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde
toma nota dos negócios da marijuana e do resto.
Os corredores e os melancólicos
Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso
de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto
mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os
que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque
não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro
exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um
ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo
isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os
seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as
memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram.
Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma
longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali
gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre
que posso acumulo em mim os dois.
quinta-feira, 7 de março de 2013
A capital do México
À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários
debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas
histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após
os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos
de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele,
gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa
sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova,
pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não
com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e
latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos.
Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao
pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito
alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para
ela a capital do México é
— Cabu… Cabu…
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu… Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu… Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa
concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis,
comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro.
Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e,
mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete,
lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se
mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa,
afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia
feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador.
Entre o terem-se abastecido no dealer
dela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo
apenas existe como décor da sua deambulação.
Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo
romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou
a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada
há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo. Não é impossível que ela termine, como noutras
noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a
insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode
haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio.
Um rendez-vous entre junkies não tem
de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra
uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela
noite.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Terceira Lei de Newton
Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma
multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes
e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela
massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal,
e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de
partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e
outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua
primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante,
treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais
resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão
menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se
nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem
antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência
natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista,
que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao
desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de
atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos
destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do
município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o
derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada
para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela
entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto
de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não
avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois
alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de
profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou
caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos,
vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque,
contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o
desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros
(pelo menos entre as primeiras). É a
única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr.
Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço
de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na
praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos,
curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não
muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu
escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas
batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe
palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente
orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com
o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação
de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua
felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a
meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da
terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.
P.S. Terceira parte de uma
narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar
“Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.
A origem do mito
As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da
Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho
envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói
ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta
branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação
estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se
há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de
novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola,
se para fundar um novo culto religioso.
domingo, 3 de março de 2013
A semântica do capitalismo (2)
«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente
abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Público
apenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser
involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir
acertadamente a semântica do capitalismo?
A semântica do capitalismo
A crer na sintaxe do Público,
se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das "remunerações abusivas" dos "patrões" de grandes empresas». Limitação?
Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à
terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em
vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações
suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para
ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.
Amor de mãe
Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal;
perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um
pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão.
Tinha optado por aquele look e apenas
se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos
adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que
olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a
flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório.
Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a
sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a
caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são
capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias
de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de
campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu
rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio
e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma
engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada
passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se
se devia sentir orgulho no engenho do filho.
sexta-feira, 1 de março de 2013
A angústia de medir pilinhas
Depois de muito adiar, li recentemente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. É um excelente romance,
merecedor dos elogios que recebeu.
Por variadas razões, não tenho sido leitor habitual dos novos autores
portugueses. O orçamento é escasso e na hora de seleccionar as aquisições
raramente me parecem urgentes estas novidades tugas. Os livros pretos de
Gonçalo M. Tavares, em tempos, os de Rui Cardoso Martins e um ou outro mais têm
sido, se bem me lembro, excepções. Suponho também que andar em quezília com a literatura
me tem levado a manter a minha geração à distância. Ou talvez seja a eterna condição
de aprendiz que determina atenção particular aos mestres. Um pouco disto tudo,
certamente.
Com O Retorno havia, no
entanto, mais do que com qualquer outro, a angústia do cotejamento. Um ano
antes de o livro sair eu tinha terminado o meu próprio romance sobre retornados.
Não exactamente uma crónica literária sobre aquele período conturbado de 1975. Hotel do Norte, o meu livro, é, algo
diferentemente, uma ficção que se apropria de memórias. Se dele resulta também
um retrato de época é uma inevitabilidade, não tanto um objectivo.
Em todo o caso, O Retorno
preocupava-me. Temia o confronto. Permanecer-se um autor inédito tem as suas
vantagens: a ilusão é permitida, está-se ao abrigo da crítica profissional. A
nossa carreira depende apenas do nosso juízo e do afecto dos amigos. Está
garantida, portanto. O problema é se nos pomos a medir talentos, como
adolescentes inseguros da sua virilidade. Pode dar-se o caso de concluirmos,
com horror, sermos menos dotados do que o rapaz do lado. Saber que a Dulce
Maria Cardoso era uma rapariga não me deixava descansado. Pelo contrário: a
minha opinião sobre as raparigas, na literatura como em outros campos, só
agudizava a angústia. Manter a obra à distância era uma precaução, profilaxia
contra o baixo astral.
Entretanto li o livro, como disse, e a par do entusiasmo que ele me
suscitou senti também um certo alívio. Não porque o achasse menos bom do que a
crítica dizia (no futebol é que se alegram com as derrotas alheias), mas porque
o meu escrito não saía completamente humilhado da comparação. Saía até
autorizado a levantar uma orelhita. Fiquei a achar — com inédita pretensão —
que na cabeça de um leitor O Retorno
e o Hotel do Norte não competem,
conversam. Não se anulam, estimulam-se. Senti por um bocadinho que não fui
autor de um desastre sem lugar nas prateleiras. Mas felizmente estão aí os
editores para me devolver à Terra.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Trash lovers
De vezes em quando, o Jumbo põe DVDs de filmes em promoção e desperta o
adolescente que há em mim. E o consumidor. (E o idiota.) Aparentemente, filmes
a um euro são boas aquisições, mas tendo em conta que a maioria deles não vale
um chavo, um euro é na realidade um preço exorbitante. Claro que o puto estúpido
que eu consigo ser não se importa nada com isso. Um contentor a transbordar de
DVDs é uma visão irresistível. Atiro-me a ele como Ali Babá ao tesouro dos
quarenta ladrões (o que, como metáfora, nem é assim tão desajustado, se considerarmos
a verdadeira natureza do capitalismo e a quantidade de vezes que já murmurei Abre-te Sésamo em frente às portas
automáticas do estabelecimento).
Partilho com Vasco Pulido Valente um vício ou um defeito (apenas um dos
muitos que ele tem, ok?): tenho demasiadas vezes uma necessidade inelutável de
consumir policiais como narcótico, para distracção da vidinha medíocre. O
cronista do Público lê policiais eu vejo policias, se os apanho. E filmes de
ETs.
Sempre que o Jumbo faz as suas feiras de um euro, eu encho uma cesta de
DVDs. Depois passeio-os pela loja com a alegria de um adolescente ou de um titular
de cartão de crédito da década passada, e de seguida, mais responsavelmente do
que estes, devolvo a maior parte dos filmes à proveniência (faço uma triagem
mental enquanto me abasteço de mercearia). Saio de lá, ainda assim, com meia
dúzia deles, geralmente mais seis do que aconselhariam o bom-gosto e o
bom-senso.
Nem sempre reconheço para mim próprio o quanto isto é patético. Por
vezes trago um Hitchcock ou um galardoado de Cannes para ludibriar a
consciência. A comparação com outros prospectores de lixo também me serve de alibi.
Ao contrário de alguns tipos que mergulham no contentor como porcos numa
manjedoura, numa ânsia de encontrar pérolas que faz transbordar o recipiente,
eu vou fazendo a selecção com pinças e torcidelas de nariz, e chego a arrumar o
que os outros desarrumam, como se o lixo em montinhos fosse menos asqueroso.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Segunda Lei de Newton
Ainda pensa nele com frequência, e alimenta com denodo
aquela ideia tola de que um dia se vão encontrar à entrada da ponte. Volta lá
todos os sábados, à mesma hora, com a desculpa do trekking. No início
imaginava-o a ir até ali nem que fosse uma vez por curiosidade, como se também
ele ocupasse os seus pensamentos com ideias daquelas. A literatura dedica-se
frequentemente a testar realidades alternativas, a averiguar como seriam as
coisas se diferentes opções fossem tomadas, diferentes forças tivessem agido, a
conceber novos destinos e desfechos para eventos conhecidos do público ou do
autor. Pode dizer-se muitas vezes que um romance é uma variação sobre um tema e
que, sendo as variações infinitas, os temas o não são. No caso dela, isto é uma
verdade insofismável: o seu único tema é o encontro malogrado.
Acontece que ela não é uma escritora, apenas uma
pessoa um pouco perdida, pelo que o exercício ficcional reiterado não lhe traz
elogios da crítica, mas a censura branda do psicanalista. Imaginá-lo uma alma
gémea, alguém que não resiste um dia a vir até ali interrogar-se sobre que rumo
teria tomado a sua vida se tivesse comparecido ao encontro, faz parte da
patologia dela e é uma nova motivação para a saída de sábado à tarde. Que se
junta à já de si suficiente tendência para remoer frustrações com método.
Hoje, porém, está prestes a descobrir que as coisas
podem mudar. Parou como sempre na entrada da ponte, para consultar o telemóvel
e perscrutar o horizonte num gesto ritual, evocativo, fingindo uma pausa para beber água e
retomar o fôlego. Sempre pensou que se o encontrasse a meio de uma das suas
caminhadas a visão dele seria suficiente para a deter. Mas, porque ela está de
momento parada e ele vem com o braço pelo ombro de uma qualquer, o princípio fundamental
da dinâmica será demonstrado de forma diferente: quando ela os vê, sente um
desejo súbito de experimentar o jogging e sai a correr na direcção da
força que emana do casal, mas em sentido contrário à localização deles.
Se a força gravitacional dos corpos pode ser uma
boa imagem para descrever o amor, a segunda Lei de Newton pode talvez usar-se com
igual propriedade para assinalar a evolução desportiva de uma rapariga magoada.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Primeira Lei de Newton
O ritmo dos seus passos abranda com a subida, mas não é subida que a
faz abrandar. À entrada da ponte pára, como se estivesse indecisa quanto ao
caminho a escolher. Mas não está. Olha em volta, mas não há sinal da silhueta
dele no horizonte. Consulta o telemóvel, e não tem nenhuma mensagem. Não está
segura de querer ter uma mensagem. Podia ser uma do género «Estou atrasado, não
demoro», mas também podia ser pior. Um evasivo «Não posso» ou um assertórico «Não
vou, foi um engano.» Afinal, as coisas não haviam ficado assim tão claras.
Tinham combinado às duas no parque, mas quanta convicção há num «sim»? Ela não
lhe mandou nenhum sms a pedir-lhe que confirmasse, temia dar-lhe uma
oportunidade de agora responder «não». É mais fácil responder do que tomar a
iniciativa. Por vezes também é mais fácil aparecer a um encontro do que
dizer-se que não se quer ir a esse encontro. A inércia dos corpos e da vida. Ela
deposita nesse princípio da dinâmica as suas últimas esperanças, se tudo o
resto falhar. Tem esperança que ele apareça nem que seja para não se dar ao
trabalho de faltar.
Consulta de novo o horizonte e o ecrã do telemóvel, mas não há sinal
dele, nenhuma das suas manifestações possíveis tem lugar. Apenas a passagem do
tempo, assinalada com quatro dígitos que há muito deixaram de ser 14:00.
Então começa a descer o caminho pelo outro lado e os seus passos vão
acelerando. Como uma bola que, depois de quase se deter ao chegar ao cume,
ganhasse de novo velocidade na descida, a gravidade vencendo o atrito. Em poucos
minutos adopta um passo furioso, como o daquelas outras raparigas que vão ao parque
para caminhar, gastar calorias em marchas vigorosas, de fato de treino justo,
garrafa de água na mão e um tagarelar ofegante. Ao fim de um quarto de hora de
caminhada, descobrindo centenas de metros depois prazeres insuspeitados no
esforço físico e remoendo o despeito amoroso, consegue-se imaginar a fazer
aquilo para o resto dos seus dias: tornar-se viciada em caminhadas e presa a um
encontro que não ocorreu. Não é preciso muito: umas sapatilhas com bom piso e
um espírito romântico obsessivo, também ele obediente, na sua persistência, à primeira
Lei de Newton.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Grândolas de manhã à noite
À direita e à esquerda é agora moda haver quem se incomode com o uso da
Grândola como forma de calar políticos. A democracia, o direito de expressão e
mais não sei o quê... Vão tomar no cu outra vez! O grande atropelo à democracia,
à decência e à dignidade é a manutenção de Relvas no Governo. Enquanto ele lá
continuar, enquanto for ministro deste país um tipo que representa os nossos
piores defeitos em vez de nos representar, a vida pública portuguesa devia hoje
ser feita de grândolas de manhã à noite. Devíamos levantar-nos às cinco da
manhã para cantar a Grândola durante as abluções; voltar a ela antes do almoço ou
do moscatel; entoá-la nas vésperas com o chá ou a imperial; atacá-la em coro depois
do jantar ou do brandy; voltar a ela à hora de regressar a casa, ébrios ou
purificados pela missa do galo. Um país que tem Relvas como ministro precisa de
ser varrido a grândolas, precisa de um tsunami de grândolas. A palavra-passe
para aceder à cidadania portuguesa nestes dias devia ser «grândola». Grândola devia
ser a única palavra da língua
portuguesa. A qualquer pergunta que nos fizessem nós devíamos responder grândola. O nosso quotidiano devia ser
grandolizado. Devíamos amar-nos ao som de Grândola,
Vila Morena. Dizer grândola como quem diz amo-te. Dizer Grândola como quem
diz vai-te foder. Dizer grândola como quem diz tá tudo, vai-se andando, nunca
pior, as coisas que costumamos dizer quando não estamos contentes nem tristes.
Todos aqueles que não são Relvas ou cúmplices de Relvas neste país deviam enfiar
uma polifónica Grândola pelo cu acima do Governo, dos seus acólitos e dos
sujeitos do PS que se incomodam com a Vila Morena. E, não dando resultado, a
própria azinheira, com todos os nós e toda a rugosidade da sua venerável casca sem idade, deveria ser enfiada pelo cu acima daquela gente.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Guarda-fatos
«Havia um guarda-fatos lá em casa que era
como o baú de um mágico. No seu metro e setenta de largura de madeira sólida,
continha roupa de várias gerações e modas, entre camisas, gravatas, calças,
coletes, casacos, jaquetas, sobretudos, gabardinas e algumas peças femininas
avulsas. Os cabides tinham de ser robustos, como a vareta que os sustentava,
porque sobrepunham-se em cada um múltiplas camadas de vestuário, como estratos
geológicos. O grande gavetão que ficava por baixo das portas espelhadas alojava
um ou outro adereço, cintos, suspensórios, botões de punho, mas também
correspondência em maços atados por cordéis, fotografias, recortes de jornais,
uma variedade de cachimbos — e sobretudo mistérios. Por cima do armário
amontoavam-se caixas de sapatos e de chapéus que um friso trabalhado na parte
anterior e nas laterais escondia na penumbra do quarto.
Recorri àquele móvel em diferentes fases
da minha vida. Inicialmente, usava-o para me esconder de tias beijoqueiras ou
de visitas que não desejava. Na infância, aquilo não era um armário, era uma
sala, a gruta do Aladino, com um cheiro que me acompanharia o resto da vida.
Podia mover-me lá dentro sem sentir uma ponta de claustrofobia, não estava mais
limitado nem menos curioso do que o Robinson Crusoé. Mais tarde visitava-o pelo
Carnaval, como quem se dirige a uma loja de fantasias. Era possível encontrar ali
peças excêntricas, datadas, risíveis, largueironas, de cortes ou cores
extravagantes, que eu combinava da forma mais absurda que me ocorresse.
Visitava-o também sempre que me apetecia sonhar com épocas passadas ou
geografias longínquas, quando me bastava escolher um dos muitos cachimbos para
que novas histórias tivessem lugar naquele quarto. No final da adolescência
morava no guarda-fatos o meu estilista, era ali que eu me fornecia de
indumentária para me imaginar na vanguarda da moda e das atitudes.
Numa das vezes que usei o armário para
compor a figura escolhi uma gabardina. Pareceu-me, por alguma fotografia que vi
na imprensa ou imagem breve na televisão, que o defunto vocalista dos Joy
Division usava gabardinas escuras. Achei lógico. Tinha lido coisas sobre a
banda, conseguira uma cassete, identificava-me com aquele ambiente depressivo e
ao mesmo tempo frenético. Era Verão, mas tinha chovido e a noite ficara um
pouco mais fresca. Razões suficientes, pensei, para procurar no guarda-fatos
uma gabardina. Estava farto das minhas roupas sem dignidade nem estilo, os
trajes gastos e únicos e sem carácter de um filho da baixa classe média
provinciana. Cobri-me com aquela peça, provavelmente militar, e saí para rua
com a auto-estima nos píncaros, ar fatal, passo gingão, cigarro no canto da
boca — a suar demasiado. Atrevi-me a cruzar a praça e a entrar no Luxor, o
melhor café da vila, com uma decoração vagamente colonial. Encostei-me ao
balcão e pedi cerveja.
Contava voltar-me para apreciar o ambiente
como um Humphrey Bogart discreto, mas o que me esperava eram olhares de
escárnio, comentários, risadas, dedos apontados. Eu era o centro das atenções,
mas não porque me distinguisse pela elegância, causasse sensação e inveja.
Em cinco minutos tinha desmoronado o edifício
que diligentemente construíra meia hora antes. Queria colher os frutos da
ousadia, da diferença, mas apenas sentia vergonha. Era só um miúdo ridículo,
demasiado vestido para a estação, que descolorava o cabelo nas fontes com água
oxigenada.
Bebi o fino de um gole e saí de imediato,
cabeça baixa, mais deprimido do que antes, com vontade de ler outra vez sobre o
suicídio do meu ídolo.»
Pedro in Aranda
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Boas decisões
Em vez de me pôr a escrever as ninharias do costume, passei a noite a
ler, com proveito e prazer, este blogue: http://ancorasenefelibatas.wordpress.com.
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