sexta-feira, 8 de março de 2013
Tomando nota
Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como
diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los
por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes
fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por
exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta,
porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o
desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que
o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde
toma nota dos negócios da marijuana e do resto.
Os corredores e os melancólicos
Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso
de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto
mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os
que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque
não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro
exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um
ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo
isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os
seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as
memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram.
Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma
longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali
gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre
que posso acumulo em mim os dois.
quinta-feira, 7 de março de 2013
A capital do México
À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários
debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas
histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após
os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos
de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele,
gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa
sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova,
pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não
com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e
latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos.
Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao
pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito
alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para
ela a capital do México é
— Cabu… Cabu…
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu… Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu… Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa
concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis,
comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro.
Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e,
mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete,
lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se
mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa,
afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia
feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador.
Entre o terem-se abastecido no dealer
dela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo
apenas existe como décor da sua deambulação.
Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo
romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou
a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada
há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo. Não é impossível que ela termine, como noutras
noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a
insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode
haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio.
Um rendez-vous entre junkies não tem
de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra
uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela
noite.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Terceira Lei de Newton
Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma
multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes
e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela
massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal,
e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de
partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e
outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua
primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante,
treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais
resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão
menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se
nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem
antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência
natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista,
que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao
desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de
atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos
destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do
município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o
derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada
para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela
entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto
de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não
avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois
alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de
profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou
caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos,
vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque,
contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o
desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros
(pelo menos entre as primeiras). É a
única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr.
Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço
de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na
praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos,
curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não
muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu
escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas
batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe
palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente
orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com
o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação
de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua
felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a
meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da
terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.
P.S. Terceira parte de uma
narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar
“Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.
A origem do mito
As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da
Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho
envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói
ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta
branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação
estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se
há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de
novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola,
se para fundar um novo culto religioso.
domingo, 3 de março de 2013
A semântica do capitalismo (2)
«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente
abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Público
apenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser
involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir
acertadamente a semântica do capitalismo?
A semântica do capitalismo
A crer na sintaxe do Público,
se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das "remunerações abusivas" dos "patrões" de grandes empresas». Limitação?
Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à
terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em
vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações
suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para
ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.
Amor de mãe
Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal;
perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um
pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão.
Tinha optado por aquele look e apenas
se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos
adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que
olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a
flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório.
Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a
sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a
caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são
capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias
de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de
campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu
rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio
e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma
engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada
passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se
se devia sentir orgulho no engenho do filho.
sexta-feira, 1 de março de 2013
A angústia de medir pilinhas
Depois de muito adiar, li recentemente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. É um excelente romance,
merecedor dos elogios que recebeu.
Por variadas razões, não tenho sido leitor habitual dos novos autores
portugueses. O orçamento é escasso e na hora de seleccionar as aquisições
raramente me parecem urgentes estas novidades tugas. Os livros pretos de
Gonçalo M. Tavares, em tempos, os de Rui Cardoso Martins e um ou outro mais têm
sido, se bem me lembro, excepções. Suponho também que andar em quezília com a literatura
me tem levado a manter a minha geração à distância. Ou talvez seja a eterna condição
de aprendiz que determina atenção particular aos mestres. Um pouco disto tudo,
certamente.
Com O Retorno havia, no
entanto, mais do que com qualquer outro, a angústia do cotejamento. Um ano
antes de o livro sair eu tinha terminado o meu próprio romance sobre retornados.
Não exactamente uma crónica literária sobre aquele período conturbado de 1975. Hotel do Norte, o meu livro, é, algo
diferentemente, uma ficção que se apropria de memórias. Se dele resulta também
um retrato de época é uma inevitabilidade, não tanto um objectivo.
Em todo o caso, O Retorno
preocupava-me. Temia o confronto. Permanecer-se um autor inédito tem as suas
vantagens: a ilusão é permitida, está-se ao abrigo da crítica profissional. A
nossa carreira depende apenas do nosso juízo e do afecto dos amigos. Está
garantida, portanto. O problema é se nos pomos a medir talentos, como
adolescentes inseguros da sua virilidade. Pode dar-se o caso de concluirmos,
com horror, sermos menos dotados do que o rapaz do lado. Saber que a Dulce
Maria Cardoso era uma rapariga não me deixava descansado. Pelo contrário: a
minha opinião sobre as raparigas, na literatura como em outros campos, só
agudizava a angústia. Manter a obra à distância era uma precaução, profilaxia
contra o baixo astral.
Entretanto li o livro, como disse, e a par do entusiasmo que ele me
suscitou senti também um certo alívio. Não porque o achasse menos bom do que a
crítica dizia (no futebol é que se alegram com as derrotas alheias), mas porque
o meu escrito não saía completamente humilhado da comparação. Saía até
autorizado a levantar uma orelhita. Fiquei a achar — com inédita pretensão —
que na cabeça de um leitor O Retorno
e o Hotel do Norte não competem,
conversam. Não se anulam, estimulam-se. Senti por um bocadinho que não fui
autor de um desastre sem lugar nas prateleiras. Mas felizmente estão aí os
editores para me devolver à Terra.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Trash lovers
De vezes em quando, o Jumbo põe DVDs de filmes em promoção e desperta o
adolescente que há em mim. E o consumidor. (E o idiota.) Aparentemente, filmes
a um euro são boas aquisições, mas tendo em conta que a maioria deles não vale
um chavo, um euro é na realidade um preço exorbitante. Claro que o puto estúpido
que eu consigo ser não se importa nada com isso. Um contentor a transbordar de
DVDs é uma visão irresistível. Atiro-me a ele como Ali Babá ao tesouro dos
quarenta ladrões (o que, como metáfora, nem é assim tão desajustado, se considerarmos
a verdadeira natureza do capitalismo e a quantidade de vezes que já murmurei Abre-te Sésamo em frente às portas
automáticas do estabelecimento).
Partilho com Vasco Pulido Valente um vício ou um defeito (apenas um dos
muitos que ele tem, ok?): tenho demasiadas vezes uma necessidade inelutável de
consumir policiais como narcótico, para distracção da vidinha medíocre. O
cronista do Público lê policiais eu vejo policias, se os apanho. E filmes de
ETs.
Sempre que o Jumbo faz as suas feiras de um euro, eu encho uma cesta de
DVDs. Depois passeio-os pela loja com a alegria de um adolescente ou de um titular
de cartão de crédito da década passada, e de seguida, mais responsavelmente do
que estes, devolvo a maior parte dos filmes à proveniência (faço uma triagem
mental enquanto me abasteço de mercearia). Saio de lá, ainda assim, com meia
dúzia deles, geralmente mais seis do que aconselhariam o bom-gosto e o
bom-senso.
Nem sempre reconheço para mim próprio o quanto isto é patético. Por
vezes trago um Hitchcock ou um galardoado de Cannes para ludibriar a
consciência. A comparação com outros prospectores de lixo também me serve de alibi.
Ao contrário de alguns tipos que mergulham no contentor como porcos numa
manjedoura, numa ânsia de encontrar pérolas que faz transbordar o recipiente,
eu vou fazendo a selecção com pinças e torcidelas de nariz, e chego a arrumar o
que os outros desarrumam, como se o lixo em montinhos fosse menos asqueroso.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Segunda Lei de Newton
Ainda pensa nele com frequência, e alimenta com denodo
aquela ideia tola de que um dia se vão encontrar à entrada da ponte. Volta lá
todos os sábados, à mesma hora, com a desculpa do trekking. No início
imaginava-o a ir até ali nem que fosse uma vez por curiosidade, como se também
ele ocupasse os seus pensamentos com ideias daquelas. A literatura dedica-se
frequentemente a testar realidades alternativas, a averiguar como seriam as
coisas se diferentes opções fossem tomadas, diferentes forças tivessem agido, a
conceber novos destinos e desfechos para eventos conhecidos do público ou do
autor. Pode dizer-se muitas vezes que um romance é uma variação sobre um tema e
que, sendo as variações infinitas, os temas o não são. No caso dela, isto é uma
verdade insofismável: o seu único tema é o encontro malogrado.
Acontece que ela não é uma escritora, apenas uma
pessoa um pouco perdida, pelo que o exercício ficcional reiterado não lhe traz
elogios da crítica, mas a censura branda do psicanalista. Imaginá-lo uma alma
gémea, alguém que não resiste um dia a vir até ali interrogar-se sobre que rumo
teria tomado a sua vida se tivesse comparecido ao encontro, faz parte da
patologia dela e é uma nova motivação para a saída de sábado à tarde. Que se
junta à já de si suficiente tendência para remoer frustrações com método.
Hoje, porém, está prestes a descobrir que as coisas
podem mudar. Parou como sempre na entrada da ponte, para consultar o telemóvel
e perscrutar o horizonte num gesto ritual, evocativo, fingindo uma pausa para beber água e
retomar o fôlego. Sempre pensou que se o encontrasse a meio de uma das suas
caminhadas a visão dele seria suficiente para a deter. Mas, porque ela está de
momento parada e ele vem com o braço pelo ombro de uma qualquer, o princípio fundamental
da dinâmica será demonstrado de forma diferente: quando ela os vê, sente um
desejo súbito de experimentar o jogging e sai a correr na direcção da
força que emana do casal, mas em sentido contrário à localização deles.
Se a força gravitacional dos corpos pode ser uma
boa imagem para descrever o amor, a segunda Lei de Newton pode talvez usar-se com
igual propriedade para assinalar a evolução desportiva de uma rapariga magoada.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Primeira Lei de Newton
O ritmo dos seus passos abranda com a subida, mas não é subida que a
faz abrandar. À entrada da ponte pára, como se estivesse indecisa quanto ao
caminho a escolher. Mas não está. Olha em volta, mas não há sinal da silhueta
dele no horizonte. Consulta o telemóvel, e não tem nenhuma mensagem. Não está
segura de querer ter uma mensagem. Podia ser uma do género «Estou atrasado, não
demoro», mas também podia ser pior. Um evasivo «Não posso» ou um assertórico «Não
vou, foi um engano.» Afinal, as coisas não haviam ficado assim tão claras.
Tinham combinado às duas no parque, mas quanta convicção há num «sim»? Ela não
lhe mandou nenhum sms a pedir-lhe que confirmasse, temia dar-lhe uma
oportunidade de agora responder «não». É mais fácil responder do que tomar a
iniciativa. Por vezes também é mais fácil aparecer a um encontro do que
dizer-se que não se quer ir a esse encontro. A inércia dos corpos e da vida. Ela
deposita nesse princípio da dinâmica as suas últimas esperanças, se tudo o
resto falhar. Tem esperança que ele apareça nem que seja para não se dar ao
trabalho de faltar.
Consulta de novo o horizonte e o ecrã do telemóvel, mas não há sinal
dele, nenhuma das suas manifestações possíveis tem lugar. Apenas a passagem do
tempo, assinalada com quatro dígitos que há muito deixaram de ser 14:00.
Então começa a descer o caminho pelo outro lado e os seus passos vão
acelerando. Como uma bola que, depois de quase se deter ao chegar ao cume,
ganhasse de novo velocidade na descida, a gravidade vencendo o atrito. Em poucos
minutos adopta um passo furioso, como o daquelas outras raparigas que vão ao parque
para caminhar, gastar calorias em marchas vigorosas, de fato de treino justo,
garrafa de água na mão e um tagarelar ofegante. Ao fim de um quarto de hora de
caminhada, descobrindo centenas de metros depois prazeres insuspeitados no
esforço físico e remoendo o despeito amoroso, consegue-se imaginar a fazer
aquilo para o resto dos seus dias: tornar-se viciada em caminhadas e presa a um
encontro que não ocorreu. Não é preciso muito: umas sapatilhas com bom piso e
um espírito romântico obsessivo, também ele obediente, na sua persistência, à primeira
Lei de Newton.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Grândolas de manhã à noite
À direita e à esquerda é agora moda haver quem se incomode com o uso da
Grândola como forma de calar políticos. A democracia, o direito de expressão e
mais não sei o quê... Vão tomar no cu outra vez! O grande atropelo à democracia,
à decência e à dignidade é a manutenção de Relvas no Governo. Enquanto ele lá
continuar, enquanto for ministro deste país um tipo que representa os nossos
piores defeitos em vez de nos representar, a vida pública portuguesa devia hoje
ser feita de grândolas de manhã à noite. Devíamos levantar-nos às cinco da
manhã para cantar a Grândola durante as abluções; voltar a ela antes do almoço ou
do moscatel; entoá-la nas vésperas com o chá ou a imperial; atacá-la em coro depois
do jantar ou do brandy; voltar a ela à hora de regressar a casa, ébrios ou
purificados pela missa do galo. Um país que tem Relvas como ministro precisa de
ser varrido a grândolas, precisa de um tsunami de grândolas. A palavra-passe
para aceder à cidadania portuguesa nestes dias devia ser «grândola». Grândola devia
ser a única palavra da língua
portuguesa. A qualquer pergunta que nos fizessem nós devíamos responder grândola. O nosso quotidiano devia ser
grandolizado. Devíamos amar-nos ao som de Grândola,
Vila Morena. Dizer grândola como quem diz amo-te. Dizer Grândola como quem
diz vai-te foder. Dizer grândola como quem diz tá tudo, vai-se andando, nunca
pior, as coisas que costumamos dizer quando não estamos contentes nem tristes.
Todos aqueles que não são Relvas ou cúmplices de Relvas neste país deviam enfiar
uma polifónica Grândola pelo cu acima do Governo, dos seus acólitos e dos
sujeitos do PS que se incomodam com a Vila Morena. E, não dando resultado, a
própria azinheira, com todos os nós e toda a rugosidade da sua venerável casca sem idade, deveria ser enfiada pelo cu acima daquela gente.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Guarda-fatos
«Havia um guarda-fatos lá em casa que era
como o baú de um mágico. No seu metro e setenta de largura de madeira sólida,
continha roupa de várias gerações e modas, entre camisas, gravatas, calças,
coletes, casacos, jaquetas, sobretudos, gabardinas e algumas peças femininas
avulsas. Os cabides tinham de ser robustos, como a vareta que os sustentava,
porque sobrepunham-se em cada um múltiplas camadas de vestuário, como estratos
geológicos. O grande gavetão que ficava por baixo das portas espelhadas alojava
um ou outro adereço, cintos, suspensórios, botões de punho, mas também
correspondência em maços atados por cordéis, fotografias, recortes de jornais,
uma variedade de cachimbos — e sobretudo mistérios. Por cima do armário
amontoavam-se caixas de sapatos e de chapéus que um friso trabalhado na parte
anterior e nas laterais escondia na penumbra do quarto.
Recorri àquele móvel em diferentes fases
da minha vida. Inicialmente, usava-o para me esconder de tias beijoqueiras ou
de visitas que não desejava. Na infância, aquilo não era um armário, era uma
sala, a gruta do Aladino, com um cheiro que me acompanharia o resto da vida.
Podia mover-me lá dentro sem sentir uma ponta de claustrofobia, não estava mais
limitado nem menos curioso do que o Robinson Crusoé. Mais tarde visitava-o pelo
Carnaval, como quem se dirige a uma loja de fantasias. Era possível encontrar ali
peças excêntricas, datadas, risíveis, largueironas, de cortes ou cores
extravagantes, que eu combinava da forma mais absurda que me ocorresse.
Visitava-o também sempre que me apetecia sonhar com épocas passadas ou
geografias longínquas, quando me bastava escolher um dos muitos cachimbos para
que novas histórias tivessem lugar naquele quarto. No final da adolescência
morava no guarda-fatos o meu estilista, era ali que eu me fornecia de
indumentária para me imaginar na vanguarda da moda e das atitudes.
Numa das vezes que usei o armário para
compor a figura escolhi uma gabardina. Pareceu-me, por alguma fotografia que vi
na imprensa ou imagem breve na televisão, que o defunto vocalista dos Joy
Division usava gabardinas escuras. Achei lógico. Tinha lido coisas sobre a
banda, conseguira uma cassete, identificava-me com aquele ambiente depressivo e
ao mesmo tempo frenético. Era Verão, mas tinha chovido e a noite ficara um
pouco mais fresca. Razões suficientes, pensei, para procurar no guarda-fatos
uma gabardina. Estava farto das minhas roupas sem dignidade nem estilo, os
trajes gastos e únicos e sem carácter de um filho da baixa classe média
provinciana. Cobri-me com aquela peça, provavelmente militar, e saí para rua
com a auto-estima nos píncaros, ar fatal, passo gingão, cigarro no canto da
boca — a suar demasiado. Atrevi-me a cruzar a praça e a entrar no Luxor, o
melhor café da vila, com uma decoração vagamente colonial. Encostei-me ao
balcão e pedi cerveja.
Contava voltar-me para apreciar o ambiente
como um Humphrey Bogart discreto, mas o que me esperava eram olhares de
escárnio, comentários, risadas, dedos apontados. Eu era o centro das atenções,
mas não porque me distinguisse pela elegância, causasse sensação e inveja.
Em cinco minutos tinha desmoronado o edifício
que diligentemente construíra meia hora antes. Queria colher os frutos da
ousadia, da diferença, mas apenas sentia vergonha. Era só um miúdo ridículo,
demasiado vestido para a estação, que descolorava o cabelo nas fontes com água
oxigenada.
Bebi o fino de um gole e saí de imediato,
cabeça baixa, mais deprimido do que antes, com vontade de ler outra vez sobre o
suicídio do meu ídolo.»
Pedro in Aranda
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Boas decisões
Em vez de me pôr a escrever as ninharias do costume, passei a noite a
ler, com proveito e prazer, este blogue: http://ancorasenefelibatas.wordpress.com.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Beatas e expressões
Descem a rua com os seus trajes austeros, quase um uniforme, os seus missais seguros com as duas mãos ao nível do ventre e envoltos em rendas, os seus rostos duros, ferozes, até, desenhados a moral e censura. Têm expressões de instrumentos de Deus, prontas para Lhe limparem a casa (e a do padre, Seu representante) ou exercerem a Sua fúria vingadora, mais para isto do que para aquilo. Olhamo-las e imaginamos que o amor a Deus e a obediência à Verdade são a causa de terem rostos que não enganam, que transparecem a condição de cães de guarda da moral.
E no entanto erramos frequentemente no jogo de adivinhar se uma fotografia no JN é de vítima ou carrasco. Não raro os mortos têm cara de vilões e os assassinos expressão sofredora.
Freak show
Saio à rua e vejo um pequeno desfile que num relance me parece um freak show. Um grupo bizarro de rapazes e homens batendo em tambores, liderado por um sujeito a cavalo e seguido em procissão por meia dúzia de junkies de membros magros e rosto desfigurado. O do cavalo manobra no ar um bastão quase invisível de fino e felizmente inútil (o ritmo já é incerto que chegue assim, sem ninguém obedecer à sua marcação errónea). Cavalga como certas figuras antigas de aldeia, costas arqueadas, queixo recolhido no peito, dormitando ou mal equilibrando a bebedeira. Os que o seguem, com as suas idades, estaturas e bombos sem aprumo nem ordem, imitam demasiado bem uma tropa fandanga que tivesse por uniforme os andrajos desenterrados num saque de aldeia miserável. Atrás do cortejo, os heroinómanos das redondezas, embasbacados e marchando como zombies sem destino.
Depois esfrego os olhos e noto que é apenas um desfile de Carnaval, um que não precisou de investir muito nos disfarces para alcançar aquele efeito. É uma ronda dos arredores que desceu à cidade percutindo bombos e causando pasmo aos junkies do bairro e a mim. Ou só a mim: os junkies nem assistem ao triste cortejo, apenas coincidiram na rua no momento do desfile, a caminho dos seus habituais compromissos inadiáveis.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Nem tudo é repetível
Lá em casa levávamos broncas se numa visita curta a um compartimento ou
na passagem por um corredor acendíamos lâmpadas fluorescentes em vez de
incandescentes. Estávamos avisados e informados: as lâmpadas incandescentes
consumiam mais quando acesas em permanência; as fluorescentes, mais baratas em
utilizações prolongadas, custavam caro a acender. Se apenas estávamos de
passagem ou íamos entrar e sair, não havia nenhuma boa desculpa para acender
lâmpadas fluorescentes. Esse erro agastava sobremaneira o nosso pai,
provocando-lhe em certas alturas uma irascibilidade que só viemos a percebemos de
todo quando soubemos o que era viver com um ordenado que demasiadas vezes não
chegava ao fim do mês.
Hoje, num reflexo daqueles tempos, desloco-me pela casa apagando a luz
dos compartimentos atrás de mim, mesmo que tencione voltar, enquanto acendo a
dos que me ficam no caminho. Por vezes fico às escuras alguns metros, se os
interruptores não estão próximos e acho supérfluo iluminar uns poucos passos.
Não me perturba este jogo. Como não me perturba ir a pé para o trabalho. O
ambiente ganha com isso. Eu gasto menos com isso. Perturba-me que venha a
precisar de uma mercearia que venda fiado e não a encontre. Não encontre mercearias
de espécie nenhuma. Nem tudo do passado é repetível. No portugalzinho provinciano
e comunitário de Salazar era possível levar uma grande lista de compras e
dinheiro nenhum na carteira. Os franchises
de hoje, mesmo quando apresentam rostos mais simpáticos por detrás da
registadora, não têm a mesma confiança na palavra dada. Além de que, suspeito,
a companhia da electricidade é hoje mais despida de escrúpulos na hora de
definir tarifários.
A humanidade por detrás do culto
Depois do post “Mulher a rezar” revisitei, agora com atenção, os nichos
religiosos ao fundo da rampa do Calvário de que já falei algumas vezes. Passo
ali todos os dias, de carro ou a pé, mas não tinha percebido que o Cristo coroado
e flagelado não carrega a cruz (está agarrado a uma coluna) e que do outro lado
é a casa de um Santo António com o Menino ao colo, e não de uma Virgem Maria (embora
a de Fátima também esteja presente, num altar subalterno aos pés do franciscano).
Espreitei e vi como ardiam velas em latinhas que parecem de
refrigerantes, com gravuras no exterior, vi plantas em vasos que dão aos nichos
um certo ambiente de estufa, vi as vassouras que diariamente varrem os pequenos
compartimentos, as bisnagas com que se borrifam as plantas e a cerâmica ou o
barro pintado das figuras, vi na sua mundana caixa de supermercado o rolo de
papel de alumínio de onde saem os fundos que protegem os tabuleiros das velas,
vi a prosaica caixa dos fósforos que acendem as velas, vi o saco preto reciclável
onde se acumulam as latinhas já usadas — vi, enfim, os bastidores de oratórios
ou santuários demasiado pequenos para terem resguardados da vista os produtos e
os objectos que revelam a humanidade por detrás do culto.
Decerto não veria nada disso se tivesse ido ali apenas para rezar.
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