Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de
ser, os pais dela precisavam de ir ao shopping
fazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias
palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô,
que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a
tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não
percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a
lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita
gente no shopping à espera de falar
com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando
ela vai lá.) Os pais se calhar ainda
estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias
para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a
entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente
telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir
desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como
acontece sempre que vão os dois ao shopping.
Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem
feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor
passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")
Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro
lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de
a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um
cabritinho distraído ou tresmalhado.
Tem razão
O Jornal de Notícias é que
não acha justa a distinção de que é alvo o Correio da Manhã. E tem razão. Cada vez tem mais razão.
Correio da Manhã
Não há muitas coisas certas na vida, mas é seguro defender que se um
cronista é de direita mais tarde ou mais cedo nos vai remeter para o Correio da Manhã, mesmo que surpreendentemente
não escreva lá. Se queremos conhecer o país, dizem, devemos ler aquele jornal.
Viver no país, passar a semana atulhado no país, ser quotidianamente atropelado
pelo país não chega — é preciso ler o matutino.
A ideia daqueles cronistas é fazer-nos notar como o povo continua
violento e selvagem, não estejamos nós por acaso distraídos. Mas não o fazem
como uma forma de denúncia, de censura do primitivismo popular, de acusação por
as instituições não estarem a melhorar a sociedade. Não insistem nisto para
apelar à mudança do statu quo, como
se poderia imaginar.
Não. Se os cronistas de direita acenam com o Correio da Manhã como sinaleiros de aeroporto é porque precisam de nos
acusar regularmente de não vivermos neste país, de não conhecermos o país. Não
importa que se cometam atrocidades em Portugal — o que é grave é nós ignorarmos
alguma delas, que alguma nos escape. Não importa quantas violações, quanta
violência conjugal, quantos roubos e assassinatos, quantos ossos partidos e
membros decepados — desde que possam culpar-nos por não estarmos atentos. O
grave não é o quotidiano ser horrendo — é nós pensarmos que ele pode ser
diferente e tentarmos viver felizes apesar dele.
Estes cronistas não invocam o Correio
da Manhã para nos lembrarem como o país é bárbaro e devia ser mudado. Fazem-no
porque querem que partilhemos o seu fascínio pelo sangue. E, sejamos justos, esta
vontade de partilhar até revela que há neles alguma coisa de bom.
1. O saca-rolhas
De trás do balcão, o cozinheiro assiste ao programa, divertido, enquanto
deita um olho aos grelhados. Restam dois clientes nas mesas e um deles assiste
ao mesmo programa. Trocam episódicas observações e piadas sobre o que vêem.
Na televisão aparece Manuel Luís Goucha. Riem mais um pouco. O
cozinheiro insinua a dado passo que aquele apresentador também precisava de «um
saca-rolhas», e ri-se da espirituosidade do seu dito. O cliente também ri, mas
depois recompõe-se. Quer dizer, o crime foi uma brutalidade, mas, bem, o
colunista era uma pessoa detestável. O tipo passou-se e vai apanhar uns anos,
claro, aquilo não se faz, mas olhe que o outro era mesmo…
O cliente, habituée da casa,
é uma pessoa assertiva, informada, cheia de opiniões e certezas sobre tudo e
uns trocos. Com frequência atinge um certo grau de empolgamento e utiliza
argumentos veementes, de autoridade. O cozinheiro costuma ficar a ouvi-lo,
pendente da sua sabedoria. Desta vez também tomou um tempo a avaliar-lhe as
palavras. Depois decidiu que aquilo era sanção. Voltou-se de novo para a TV, chocarreiro:
«Gouchita, Gouchita...»
2. Cantado ao vivo
Num outro programa, de cantorias, duas figuras públicas mostram os seus
dotes. Em rodapé a legenda: «Cantado ao vivo.» O que pretendem com aquilo? Que
nos espantemos com o talento da dupla? Ou que desculpemos a sofrível qualidade
do que se ouve? «Ao vivo», neste caso, é a informação que pede palmas
redobradas ou que evoca as limitações da tecnologia? Alguém na régie daquele canal está entusiasmado
com as vedetas e espera que leiamos o ponto de exclamação que se esqueceu de
colocar no final da legenda ou aquilo é apenas o realizador a informar que não
pode fazer nada quanto à desgraça que ouvimos? Talvez seja alguém
suficientemente irónico e confiante na capacidade dos espectadores para decifrarem
a sua pequena boutade. Não é
impossível que haja alguma vida inteligente na TV generalista.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Do râguebi à Casa dos Segredos
Fruto de um desses equívocos que, repetidos displicentemente, se
transformam em mitos, imaginava o râguebi como um desporto de cavalheiros, um
reduto onde a força bruta andava a par das boas maneiras. O râguebi ilustrava mais
do que outro desporto ou ofício a hipótese de a sensibilidade e a robustez
coincidirem num mesmo corpo macho. No campo era preciso aguentar placagens
violentas, mas também observar de bom ânimo as regras. Havia a dureza do embate
físico e a compreensão do regulamento.
Era uma luta primitiva conduzida com as rédeas do sangue-frio. Os jogadores de râguebi,
habituei-me a pensar, eram super-homens, mais pelo autocontrolo emocional do
que pelo poder muscular.
Ilusão minha. Hoje, na mesa ao lado, trataram de fazer ruir o mito. Falavam
de uma equipa universitária de râguebi, mas podiam estar a falar de uma
quadrilha de rufias. Os jogadores ali mencionados eram tipos que, se não
estivessem bêbados, estavam a andar à porrada. Geralmente acumulavam.
Se saíam em viagem, faziam questão de aterrorizar os empregados de estações de
serviço e partir algum mobiliário, como as mais aplicadas claques de futebol.
Não concebiam estar em público sem demonstrar de alguma forma violenta o seu
poder, como machos alfa de um grupo de símios. De alguns dos espécimes descritos
pareceu-me difícil assegurar se tinham sido recrutados numa universidade ou num
asilo de doidos furiosos. Não ouvia suficientemente bem a conversa para ter a
certeza.
De tudo isto os comensais, três machos e uma fêmea, riam, divertidos,
sem espanto, conhecedores e apreciadores da fauna. Ninguém naquela mesa deve
ter crescido na mesma ingenuidade que eu.
Havia, contudo, alguma inexactidão nos relatos, porque quando um deles
mencionava certos jogadores célebres havia quem dissesse que a esse a idade
tirara o ímpeto, enquanto outros diziam que, pelo contrário, estava mais combativo
do que nunca. E retorquiam que o façanhoso antes referido pela outra parte é
que estava já numa pré-reforma de chá e rotary
club.
Talvez porque tivesse havido algum exagero nas façanhas descritas e percebessem
que com os celerados do râguebi o sangue na mesa diminuiria (a não ser que eles
próprios o fizessem derramar insistindo nas divergências), os comensais
passaram logo que puderam para o estudante universitário comum, esse vândalo
sem prática desportiva obrigatória cuja selvageria era mais consensualmente
reconhecida e admirada.
Ouvi-lhes que, a propósito da prática frequente de atirar copos de
vinho tinto à alvura do tecto, houve um restaurante cansado de manchas rubras que passou a servir apenas
vinho branco em jantares universitários. E isso levantou na mesa a difícil questão
de saber se a culpa da excitação púbere é da permissividade dos estalajadeiros se
da zurrapa que dão a beber aos discentes. Outro assunto em debate era se os
proprietários de restaurantes teriam meios de, por si sós, impedir os grupos
universitários de sair sem pagar quando isso lhes apetecia ou se teriam sempre
de recorrer à polícia. Apresentavam exemplos, referiam casos de sucesso, de
jantares por cobrar.
Não era preciso olhar-lhes os rostos para perceber que os meus co-comensais
não tinham abandonado a universidade assim há tantos anos: havia naquela mesa
semi-domesticada certas saudades da selva.
Mas os feitos académicos já não me interessavam. Deixei de ligar à
conversa, matutando na possibilidade de a equipa de râguebi daquela mesa não
ser representativa do râguebi em geral — não desistimos facilmente das nossas
ilusões, da nossa candidez.
Voltei a reparar neles quando ouvi que de novo litigavam em matérias candentes.
Sexo em público? Todos tinham testemunhado, claro. No Brasil, dizia um. Naquela
ilha espanhola (como se chama?, Palma de Maiorca), gabava-se outro. Na Madeira,
subiu a parada a moça, dentro de água. Isso era vulgar, desvalorizou um
terceiro, admiração seria na areia. Está bem, insistiu ela, mas viam-se mesmo
os movimentos.
Isto, percebi depois, vinha a propósito da Gabriela e da importância de perceber se na telenovela original «elas»
andavam assim tão descascadas e, presumo, se se viam mesmo os movimentos. A mãe
de um assegurava que sim; a mãe de outro que não. A do terceiro dizia que era
possível, porque lá no Brasil as coisas sempre tinham sido assim mais…
Como na Casa do Segredos,
aliás. Tinham visto aquela parola? Não, a outra, a que se gabava de ser formada
e dar aulas e mais não sei o quê e num concurso tinha falhado ao apontar no
mapa Vila Real. Quer dizer, como pode alguém não saber onde fica Vila Real, admirou-se
o geógrafo que um dia tinha visto sexo na ilha de «Palma de» Maiorca.
Os parolos sempre acham que a suprema ignorância é alguém não saber
onde fica a nossa terra.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
O Cavalo de Turim: abertura e encerramento
Se O Cavalo de Turim não fosse uma obra de arte por várias outras razões, sê-lo-ia suficientemente pelos quatro minutos e vinte e dois segundos do vídeo acima, a cena de abertura. Durante esse tempo, tudo o que nos é mostrado é a evolução no terreno de um cavalo que puxa uma carroça com um homem sentado nela.
É certo que se ouve a peça musical de Mihâly Vig, e esta poderia ser desfrutada de olhos fechados durante todos os quatro minutos. Mas quando a ouvimos olhando convictamente o ecrã fruímo-la melhor, temos uma experiência mais forte, somos conduzidos a um outro nível de sensações. Imagem e som funcionam como uma peça única, uma instalação. Se fosse curador de um centro de arte contemporânea, gostaria de obter licença para projectar numa sala, em loop, estes poderosos 4’22’’, e duas ou três vezes por dia eu seria um dos visitantes da sala, como uma personagem de Don Delillo ou um gestor onanista candidato às listas de desemprego deste Governo.
O cinema pode ser uma coisa para fruir contemplando, como quadros em museus ou orquestras em palcos. O Cavalo de Turim é uma obra dessas, que durante duas horas e meia nos pede que contemplemos. A maioria das pessoas ignora o apelo. Se não ignorasse, se adquirisse um bilhete, talvez irrompesse um tumulto na sala ao fim de vinte minutos, pateadas, assobios, indignações, exigências de reembolso. Béla Tarr não fez o filme para valer os seis euros que custa um bilhete de cinema num multiplex. O filme incomodaria as pipocas, os comentários jocosos, as trocas de sms. Seria aborrecido.
Para O Cavalo de Turim não há mais de umas poucas de dezenas de espectadores que se submetem ao ritual colectivo do silêncio e da contemplação. Exibi-lo não é uma actividade lucrativa, do ponto de vista monetário. Contudo, exibi-lo é um trabalho que alguém tem de fazer, se queremos comunidades decentes, que respeitam os interesses das suas minorias silenciosas e contemplativas. Da sua reserva de inteligência e bom gosto, talvez nos seja permitido dizê-lo.
A democracia não é uma questão de escolha, é a questão anterior da possibilidade e liberdade de escolha. Que o mercado não assegura. Talvez o Governo tivesse o dever de pensar nisto antes de fechar a RTP2 e preparar o terreno para outros males de lesa-intelecto. Se quisesse ser respeitado.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A televisão a cores…
Já fui um gajo de fé. Em rapaz acreditava no progresso. A televisão lá em
casa era a preto e branco, mas eu tinha a certeza de que mais tarde ou mais
cedo ela ia começar a dar a cores. Em certos filmes da minha preferência, os
céus iam azulando, adivinhavam-se já pontinhos de verde nas árvores, pinceladas
de vermelho nas poças de sangue. Era o aparelho a esforçar-se. Púnhamos-lhe a
mão e ele estava quente, com a febre de se colorir. Mesmo a desoladora areia
que em tantas noites de Inverno ocupava o ecrã em horário nobre amarelecia de
semana para semana, a caminho de ser um Saara tremeluzente.
…e O Cavalo de Turim
Ontem, enquanto via o filme O Cavalo de Turim, evoquei aquela
fé antiga. Era o meu espírito num contraponto entre a juvenil alegria da crença
na cor e a não menos prazerosa melancolia da escala de cinzas. Naquela fase, o
filme ainda hesitava entre o vazio do branco e a opressão do negro (não havia
outras escolhas). Depois toda a evocação cessou, a resistência era inútil,
desajustada: o filme rendeu-se definitivamente a um negrume formal e metafórico. E eu com ele.
Banda sonora
...para o post anterior e para o que se seguirá dentro de duas horas:
(Belíssima
peça musical de Mihâly Vig para e omnipresente em O Cavalo de Turim.)
1. Correr à noite
Gosto de correr com a noite instalada. Bem, gosto de correr sempre, mas
de uma forma particular quando, no Inverno, as trevas já desceram sobre a
cidade. Uma parte do percurso que faço, no vale estreito do rio, não tem
iluminação pública, e em noites sem nuvens e sem Lua é uma insensatez correr ali,
no breu profundo. Insensatez que cometo repetidamente, sem hesitações, com uma alegria
intransmissível. Por (raras) vezes encontro outras pessoas (quase vou de encontro a outras pessoas), e nessas
ocasiões pigarreamos um aviso mútuo no derradeiro instante ou rimos uns para os
outros da iminência de chocarmos, cúmplices anónimos, sombras sem rosto, felizes
debaixo dos nossos capuzes ou dentro dos nossos gorros e da nossa insânia.
Nas noites nubladas, em particular naquelas de nuvens baixas, quase
névoa, o percurso fica razoavelmente alumiado, efeito do reflexo da iluminação
da cidade nas nuvens. E a noite é então ali um mundo levemente estranho, com uma luzência
avermelhada, como um dia de eclipse solar, uma insónia no Árctico ou em Marte,
assim surreal e acolhedor.
De todas as noites, a mais fascinante para a corrida nocturna é a de
Consoada, na hora em que as pessoas se estão a instalar para a ceia e deixam as
ruas desertas excepto nos largos onde ardem madeiros. Na Consoada, não se imagina
que andemos na rua, que desçamos ao parque. A margem do rio é o último sítio onde
somos esperados. Correr ali nessa hora é o mais próximo que se pode estar da solidão
adâmica ou do isolamento pós-apocalíptico. Quem quereria isso, não é? Quem quereria
experimentar uma ausência primitiva ou pós-civilizacional de seres humanos?
Na noite de Consoada, a vontade de correr lado a lado com o rio (e só com
ele) digladia-se em mim com os sentimentos filiais e fraternais que a quadra me
exige. E perde quase sempre — tenho isso a favor da minha humanidade.
2. Correr na quarta dimensão
Sítios acolhedores para correr não são apenas o Éden e o the day after, esses lugares de
ausência. Mantendo isto num registo de sci-fi,
a quarta dimensão também se revela
assaz recomendável. Ambos os mundos oferecem possibilidades excitantes. Calcorrear
a solidão ou cruzar a urbe paralelo como um fantasma — capaz de ver, ouvir e
cheirar mas invisível, silencioso e inodoro, um ectoplasma de Reebok, sweatshirt e curiosidade impertinente —,
eis as duas faces da minha moeda. Na primeira, sou apenas eu e o mundo
não-humano: o ímpeto ruidoso e instigador do rio nas represas e nos rápidos e o
seu balsâmico murmúrio nas zonas de abrandamento, o canto livre de rouxinóis ou
melros insones, salamandras em vagares de lesma, com sorte a minha garça-real a
patinhar num baixio, como há três noites. Na outra face da moeda é todo o
mundo — e eu ausente dele, interceptando-o apenas com o olhar e com o vício de efabular,
coexistindo sem conviver.
sábado, 15 de dezembro de 2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
Such a lovely day (jogging no parque)
Quilómetro 2
O miúdo
gostava do pai e da mãe. Eles não gostavam um do outro. Quando finalmente deram
o passo certo, o miúdo ficou triste como se diz da noite. Nos dias de custódia
do pai, ele informava-o de tudo ao contrário, ao falar de casa. No regresso,
fazia o mesmo ao apresentar o relatório do dia à mãe. Imaginava-se capaz de,
mentindo quanto ao que diziam os pais um do outro pelas costas, voltar a
uni-los. Depois pensou melhor. Quando eram uma família, o pai nunca o levava a
passear no parque, nunca jogava à bola com ele nem lhe comprava gelado. Não o
levava ao cinema nem se ria das piadas e das tropelias. Talvez aquele divórcio não
tivesse sido má ideia. Ao contrário do que diziam na escola, agora é
que ele tinha pai, mesmo que só de quinze em quinze dias.
Quilómetro 4
Duas miúdas ainda
com cara de anjos e roupas de marca macaqueiam sem inocência o andar e as
expressões de membros de um gangue. Detêm-se num cruzamento. Hesitam quanto ao
caminho a seguir. Uma delas sugere a esquerda, tem menos gente e mais árvores.
Vão de certeza fumar às escondidas.
Quilómetro 6
São um casal,
pouco mais do que adolescentes, fotografam-se e fotografam o parque inteiro.
Fazem poses. Escolhem ângulos. Demoram-se. Parecem sensíveis à beleza outonal.
Quilómetro 8
Um homem pára
o carro. Dir-se-ia saído de uma máquina de envernizar e de engomar. Os sapatos
pretos brilham, têm reflexos prateados, de tão novos. As calças, com um vinco
como um fio-de-prumo, e o blusão anguloso, de corte impecável, parecem adereços
de uma produção de moda. O bigode foi acabado de aparar, milimetricamente. O
cabelo, branco como farinha, ainda molhado do duche ou embebido em gel, tem
desenhados os riscos do pente, paralelos e direitos como carris na estepe
russa. O carro é um BMW e, apesar da propensão do dono para os alinhamentos
perfeitos, foi estacionado numa diagonal negligente, ignorando as marcas no
pavimento, ocupando dois lugares. À patrão, diz o povo.
Quilómetro 9
Lá estão de
novo as miúdas clandestinas, casacos pendurados na cerca de madeira, os braços
nus em Dezembro para reforçar o desafio façanhoso com que nos olham. Batem os
maços de tabaco na mão como vêem fazer aos mais velhos, forçando a saída de
mais um cigarro. Mal podiam esperar para o fazer. Mas, olhemos melhor: não é um
maço de tabaco. É o telemóvel. Talvez tenham vindo só passar a tarde no parque,
raios.
Quilómetro 10
O casal de fotógrafos
está agora à saída da última ponte pedonal a sul. Ele de joelho no chão, ágil,
ela a sorrir para ele, tímida e encantadoramente, nas suas calças sexy e inesperado casaco comprido. São
amorosos e sensuais. Mas depois ele fala, com voz grossa, grosseira, sotaque de
guna, «Tá quéta, caralho! Foda-se, tá quéta!», e o (meu) idílio acaba-se, não importa
como lhe responde ela.
Quilómetro 12
Último
cruzamento. O percurso transforma-se numa rampa em paralelos. Na esquina, duas
figuras, versões femininas de Dom Quixote e Sancho Pança. Cada uma delas tem a sua própria preocupação. A da frente, alta, magra, calções curtos
sobre meias pretas, pernas torneadas, camisola de gola alta realçando estrategicamente
o peito, diz que o problema são os saltos, que se enfiam nas juntas da calçada.
A outra, baixita e redondita, sapatos rasos, tentando acompanhar, diz que o
problema é a subida. E eu, esbaforido, concordo com ela.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Voz
Por vezes lamento ter-me cruzado com os dois volumezinhos mágicos de Uma Campanha Alegre. O país não
precisava de mais um queirosiano.
Tenho mentido quando digo que não houve nenhum livro que mudou a minha
vida. Aqueles mudaram. Não porque tenha decidido imitar o estilo do autor, mas
porque me era impossível evitar fazê-lo. Desde novo imito (ou tento) o que quer
que me tenha encantado na hora anterior. Se havia mundial de futebol, no fim das
transmissões não queria mais do que jogar à bola; quando o hóquei tinha a importância
de passar na RTP1 (o único canal português que apanhávamos lá em casa em certa
altura), os meus velhos sapatos ganhavam rodas e tudo servia de stick. Havia hipismo nas Romanas? No dia
seguinte estava a saltar briosamente obstáculos, às costas de mim mesmo.
Festival da Canção? Subia ao palco, Vítor Espadinha esforçado. Super-Homem?
Saltava do terraço. Coboiadas? Filmes de guerra? Ficção-científica? Aceitava
qualquer papel, versatilidade era o meu nome. Quando dei com as Farpas era inevitável que elas
contaminassem tudo o que escrevi a seguir. A questão é que as coisas que imitava
antes não tinham o génio do Eça de Queirós e, consequentemente, o impacto duradouro de um
trauma de infância.
A prosa queirosiana é uma armadilha (enreda-se sobre si mesma), uma maldição. Usa as palavras como
quem usa o lápis do caricaturista e usa
as palavras, no sentido em que se aproveita delas para os seus lúdicos e pouco
sérios intentos. O escritor queirosiano tem aliás a seriedade de uma anedota
num funeral. E a conveniência de um inimigo do defunto. Quando se senta a
escrever, até pode ter boas intenções, vontade de elogiar isto ou aquilo, mas
acaba sempre a distorcer, a exagerar, a procurar os vícios e os defeitos, a
procurar o pior — e formas imaginativas de o afirmar.
Malogradamente, o exercício é prazenteiro. Vicia. Voltamos sempre a ele
como ao pó. É preciso esforço (ou neura) para escrever alguma coisa noutra
perspectiva, noutro tom.
Quando passei a tentar a ficção, insisti em livrar-me da influência do mafarrico
do monóculo. O meu Aranda (opus II),
por exemplo, cometeu a proeza de se inspirar num livro de Martins Amis (esse
queirosiano inglês) sem lhe imitar a
prosa, o melhor do autor. O que demonstra como podemos ficar estúpidos quando
queremos ser órfãos.
Talvez tenha entretanto encontrado a minha voz. (Ou mais do que uma — sabem
como é, esquizofrenia, transtorno bipolar, essas coisas). Parece que os
escritores são pessoas que passam o tempo à procura duma voz, como certos
religiosos literais ou certos hóspedes de manicómio, e eu não me esquivo à
presunção. O que de resto, com o narcisismo, me parece bastante típico de um
queirosiano.
***
P.S. Queriam post mais auto-evidente? Pretendia falar de coisas boas, espectáculos que vi, livros que li,
músicas que ouvi, sítios que visitei — matérias de que o país precisa —, mas acabei previsivelmente na caricatura.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Cretinos ideológicos
O fim do Câmara Clara é um exemplo de como a crise tem as costas largas. É
a prova de que estes tipos que nos governam são, entre outras coisas, gente
tosca ou cretinos ideológicos. Quer dizer, era aquele programa uma das
«gorduras do Estado»?
Seremos um país pobre por erros nossos e fado, fatalidade. Mas seremos um
país espiritualmente pobre porque somos governados por pobres
de espírito, apoiados por outro género de cretinos (de carreira ou opção) que
não tiram o cu do sofá para ver um espectáculo e quando nele instalados não
lêem um livro*.
*Alguns lêem-nos, mas como se sabe a literatura não evitou os nazis, como
evitaria estes pequenos preconceituosos?
«Pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova»?
O
«pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova», ontem aqui mencionado, seria um
escrito desnecessário ou redundante, dei-me hoje conta ao voltar a passar os
olhos pelo artigo que o crítico da Ler
escreveu sobre David Foster Wallace. Desnecessário porque quando Rogério
Casanova escreve sobre Infinit Jest já
parece uma personagem da própria obra a fazê-lo, pelo espantoso conhecimento que
revela do livro, pela idiossincrasia da sua prosa e mesmo pelo carácter de
coisa abstracta do crítico. Casanova poderia também, facilmente, ser um avatar
de DFW, lêmo-lo com o mesmo fascínio e a mesma estranheza. Ou talvez um misto
de programa informático e implante neurológico do escritor, deixado por este
para se activar após a publicação (americana) do livro. As crónicas de Rogério
Casanova e as suas críticas literárias, não há como pensar de outro modo, são decerto
apêndices d’A Piada Infinita. (E
esta caricatura, embora pareça, não é pejorativa).
Mas
o tal «pequeno ensaio» seria também redundante porque Casanova já tem uma breve
caricatura n’Os Idiotas, livrinho
que, se pedirem mesmo muito, talvez uma editora tenha a bondade e a sageza de
publicar no ano de eleições autárquicas que se aproxima.
Periférica
Uma amiga recente anda a ler a Periférica e diz que, «carago, é como estar apaixonada por um namorado morto!». Gosto desta abordagem, pela boa-disposição e pela franqueza médico-legista.
O post «Expectativas»,
surpreendentemente popular, trouxe evocações da revista que um dia fizemos,
quando éramos jovens e tesos. É agradável recordar aqueles tempos, mas pouco
útil sentirmo-nos órfãos deles. Por definição, os órfãos não recuperam a progénie.
Que sentimento então?
A Periférica deveria ser uma
coisa para nos lembrarmos daqui a quarenta anos, em jantares de velhos
combatentes ou no lar, em robe e babete, se o alzheimer o permitisse.
Entretanto, deveríamos ser deixados em paz a escrever os nossos livros, a
plantar as nossas árvores, a fazer os nossos filhos, a casarmo-nos e a divorciarmo-nos,
a fingirmos que temos uma carreira útil. A Periférica
deveria ser o projecto que nos orgulharíamos de ter oportunamente morto e que
nos arrependeríamos tarde demais de não ter desenterrado, quando confrontados com o fracasso
das nossas vidas individuais. A hipótese necrófila não deveria ser posta uma década
apenas depois de o bicho ter visto a luz do dia, meia dúzia de anos após o
óbito. Quer dizer, desenterrar-lhe o cadáver agora pode trazer surpresas
desagradáveis, como haver ainda carne agarrada aos ossos, um corpo incorrupto
que certos fanáticos quereriam de imediato pôr numa vitrina e adorar
religiosamente, organizar peregrinações, criar uma seita.
De resto, uma Periférica é
coisa que se faz aos vinte ou trinta, e da última vez que olhei havia gente
dessa idade no país. Por favor, rapaziada, não nos façam passar pelo ridículo de
vedetas dos eighties a voltar aos
palcos. Não somos génios como o Morrisey. Somos o Cliff Richard, temos
vinhas para plantar no Algarve e exemplares da primeira edição para assinar. Não
estamos velhos, bem sei, mas temos pneus e colesterol. Uma dor aqui e outra
ali. Prenúncios. Ou preguiça, pronto.
Não, não estamos de novo a ficar jovens — mas estamos de novo a ficar
tesos, sem cheta, e isso é perigoso. Era agora que uma rapaziada qualquer nos
pedia para usar o nome da rosa, a cedência do título, o direito à criatividade
sob a égide periférica. Era agora que o país se surpreendia com outros pretensiosos zés quaisquer
que se punham a fazer uma nova Periférica
a partir duma moita na Beira Alta ou duma fraga em Melgaço. Agora. Antes que
fiquemos mais pelintras e isso nos dê ideias estúpidas. Antes que nos despeçam
e fiquemos sem nada mais útil para fazer. Antes que imaginemos que o nosso projecto para os
anos cinzentos que aí vêm é tirar a capa e as calças de lycra do armário, é encenarmos a noite dos mortos-vivos, é fazermos
o número 15 da Periférica — em vez de
algo com sangue fresco, algo que inclua bombas e atentados, por exemplo.
Talvez haja um projecto para quarentões lisos e desempregados, mas não
tem de ser o de zombies quebra-corações, não tem de ser uma ridícula reunion band. Ou tem?
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Expectativas
Faz mais de 10 meses que, por razões financeiras, deixei o luxo de comprar
a Ler. Hoje não resisti, tive uma
recaída, interrompi o processo de recuperação da frugalidade. Confio que os avalistas
da minha transformação num homem parcimonioso aceitem que a tentação era
demasiado grande, mesmo para um cristão-novo como eu: entrevistas a Philip Roth
e Vítor Silva Tavares, Rogério Casanova sobre David Foster Wallace…
Infelizmente a aquisição da revista implicou a queda noutro vício em remição:
leitura em espaço público com copo de vinho à frente. Não são os malefícios mais
previsíveis da exposição e do álcool que temo, mas a frustração que posteriormente
me toma. Enquanto leio a revista em ambiente de fumo e copos, encho-me de um
espírito de tertúlia, mesmo que à mesa não haja mais ninguém. Registo
mentalmente tantos comentários e considerações sobre os textos que leio,
acometem-me tantas ideias que temo precisar de fundar hoje mesmo uma outra
revista só para recolher toda a prosa que me ocorre. Talvez comece mais um
romance ou livro de contos. Um longo post
cúmplice sobre o «what if?» que Roth
diz ter levado à escrita de todos os seus livros. Quem sabe um pequeno ensaio caricatural
sobre o Casanova.
Mas nesta idade já não há embriaguez que dure. Caminho os duzentos metros
até casa, ligo o computador, calço as pantufas e aqueço o chá e… fico cinco
horas acordado para escrever aquela coisita sobre os albaneses que nenhum de vocês queria ler.
Já fiz quarenta há quatro, mas apetece citar o Pedro Mexia na sua crónica
de sábado, comemorativa da entrada no clube da ternura: «Aos 40 anos, vivo com “expectativas
diminuídas”, diminutas, em diminuição.»
Felizmente, ao contrário dele, as minhas expectativas tendem a voltar
quotidianamente, mesmo que para esbarrarem uma e outra vez na dura realidade.
Os albaneses
Vítor Silva Tavares, entrevistado para a Ler e falando dos seus ódios de estimação, refere a dado passo a
figura dos albaneses, esses inimigos que temos de instituir para balizar
as nossas palavras e as nossas acções, para que nós mesmos tenhamos mais
sentido. (A ideia virá do livro A Tia
Júlia e o Escrevedor, de Vargas Llosa, que não li.)
Um albanês não tem
necessariamente de ser alguém que nos provoca antipatia pessoal, mas é em todo
o caso um indivíduo que voluntária ou involuntariamente representa algo que
detestamos e nos puxa pela língua.
No debate público nacional, os albaneses
não são forçosamente pessoas concretas. A designação original pretende aliás
remeter para um protótipo, uma categoria, uma abstracção. Um determinado
indivíduo pode ser um albanês pela
sua intrínseca capacidade de representar a espécie odiada, mas albaneses podem ser (e são-no demasiadas
vezes) apenas uns fantasminhas modelares que dão jeito para o tipo de discurso
que queremos proferir, para o tipo de ideias que queremos defender.
Convém estar alerta para os perigos que o abuso de albaneses acarreta. É preciso perceber que a albanização do debate cria uma realidade artificial. Quando de um lado
e doutro das questões os contendores apenas argumentam contra os seus albaneses, na verdade não argumentam
contra ninguém — ou deixam de fora do debate as pessoas moderadas, sensatas, capazes de
verem os prós e os contras das coisas, de verem os erros alheios e reconhecerem
os próprios.
Os jornais e os blogues estão cheios de gente que, infelizmente sem
talento queirosiano, se dedica a ridicularizar o adversário ou a estigmatizá-lo,
pondo em prática uma ancestral e desleal forma de desvalorizar argumentos. Ora, quando isso
não cumpre a função de nos entreter com qualidade literária, limita-se a dar
corpo à expressão «diálogo de surdos».
Na magna questão da crise é assim que acontece: há uma catrafiada de
gente a discutir com as suas caricaturas, a esmurrar os seus imaginários sacos
de boxe, e a deixar desolados e sem interlocutor os cidadãos moderados que
sobram. E são os moderados que podem salvar o país.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Alentejo
Durante a maior parte da minha vida, fui de paisagens montanhosas.
Talvez ser transmontano tivesse nisso um papel (mesmo que o meu “patriotismo”
sempre tivesse sido débil). Achava a planície monótona, sem segredos, com todas
as possibilidades demasiado à vista, sem espaço para a imaginação, para
fantasiar sobre o que se oculta por trás de um monte ou na sombra de um vale
profundo.
Hoje o Alentejo Interior é o meu paraíso na terra. A luz, a
profundidade de campo, a linha do horizonte, toda aquela cúpula celeste, a
fauna, a arquitectura, o interior das casas, os terraços, o meu alpendre de
Verão, o vinho, o Vovó Joaquina — está lá tudo o que preciso para ter dias
felizes.
Nestes tempos sem soluções económicas nem ofertas de emprego, façam do
Alentejo a Florida da Europa e de mim um anafado alemão na reforma. Aceito que
o façam compulsivamente.
Pensar pela própria cabeça
Muitos anos atrás, à entrada de uma discoteca, um de nós invocou uma
qualquer passagem do Guerra e Paz
para sustentar uma opinião ou ilustrar uma ideia. Um tipo que hoje é juiz
censurou-lhe a bengala: «Deixa lá o Tolstoi em paz. Não consegues pensar pela
tua cabeça?»
Não tenho a certeza de que a observação do futuro magistrado tenha sido
uma legítima defesa da independência de espírito. Talvez ele apenas quisesse
proibir as referências literárias com receio de não ter nenhuma para aduzir (não
era garantido que as suas leituras fossem muito além do Código Penal). Mas por
alguma razão este episódio sobreviveu na minha memória. Recordo-me dele com frequência.
Nos dias que correm, mais do que nunca.
O debate político é hoje dominado por gente que não frequentava aquela
discoteca (embora seja da geração que o fazia) e portanto não ouviu o sábio
conselho. O que é pena. Impressiona a quantidade de tipos, sobretudo de direita
(a esquerda é mais instintiva, menos escolar), que tem uma bibliografia no
lugar do cérebro, um cânone de pensamento político que consulta como a Bíblia e
a que obedece como ao Corão. A Ciência Política é, para estes espécimes, como
um manual de etiqueta ou um guia para uma vida saudável. Habituados a mergulhar
nos calhamaços e a tentar decorar as ideias dos outros, esqueceram-se de construir
as suas, e agora, perante qualquer dilema no quotidiano, não pensam no que
fazer, mas no que fariam as suas fontes bibliográficas.
A ideia romântica de que a direita e a esquerda tinham acabado, de que
a dicotomia não fazia sentido, não havia explicações ou soluções só de um lado,
durou pouco tempo. As novas gerações políticas activas são acerrimamente de
esquerda ou de direita. Muniram-se para a vida como alguém que vai às compras e
traz todos os produtos da mesma gama, compra todas as peças da colecção, o
pacote completo.
Este comportamento é meticuloso em certos exemplares de direita.
Refira-se um assunto, apresente-se um problema e eles logo se perguntam interiormente
o que diz o cânone sobre aquilo. Só depois comentam ou agem, como um capítulo
animado de uma das suas obras de referência. Fazem-no sem mencionar as fontes,
é certo, mas percebe-se que a ironia, o cinismo ou a fleuma são em segunda mão,
já vistos, prototípicos.
Finanças? Indústria? Agricultura? Artes? Já alguém pensou por eles, e
escreveu artigos ou livros sobre o tema. Sexo? Os seus autores também fornicavam,
sai um volume de capa dura.
Por vezes fico com a ideia de que a direita actual não tem militantes
entre as novas gerações, mas segundas e terceiras edições encadernadas a tecido
riscado e todas contentes por não estarem na prateleira.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Mulheres a fumar
Vejo-as com alguma frequência ao domingo, duas tipas sentadas no lancil
baixo do passeio a fumarem. É uma rua com uma certa constância de tráfego, e do
outro lado há edifícios com arcadas e um ou outro café. Daquele lado, um
passeio mais estreito, árvores e uma ravina para um nível mais baixo da cidade.
Porque escolhem sentar-se ali, num lugar de estacionamento vago, mesmo
numa noite fria como a de ontem? Que fascínio pelo lugar improvável, segurando
os cigarros com sorrisos mútuos, sorvendo o fumo com evidente prazer? Não são
adolescentes que necessitem de sair de casa para esconder o vício recente ou
que sintam a ânsia de o exibir ao trânsito, em desafio. Embora haja algo de
desafio nelas, uma certa cumplicidade que nos deixa ostensivamente de fora
enquanto estacionamos o carro.
Vestem roupas do género das que se podem encontrar na Sport Zone, na
secção de ar livre (montanha, trekking,
essas coisas). Talvez tenham acabado de chegar de uma caminhada e fumem um cigarro
revigorador antes de subirem para jantar. Talvez uma delas esteja de partida
para uma semana de trabalho fora e o cigarro seja a forma de se despedirem. Ou
terá chegado e aquilo é o reencontro? Riem por terem os maridos em cima, na
cozinha, a prepararem o jantar? Ou são elas um casal e esta é apenas uma das
muitas formas que têm de estarem bem uma com a outra?
Não lhes vou perguntar — mas não porque o pudor se imponha. É que não
preciso de respostas. Preciso de cenas daquelas, portas abertas à indagação e
ao devaneio. À intrusão. É esse o meu vício.
Salários e responsabilidades
Lembro-me que, anos atrás, fiquei contente quando descobri que certos pedreiros
ganhavam o dobro de mim. Não era exactamente o meu gene comunista a
manifestar-se, era a ideia de que se algo corresse menos bem, se tivesse de
sacrificar-me e ir trabalhar ao ar livre na intempérie, no inferno do Verão ou no
gelo do Inverno, pelo menos teria o consolo de saber que poderia ganhar bom dinheiro,
se trabalhasse mesmo muito.
Parecia-me uma correcta organização do mundo, o capitalismo a funcionar
da forma certa. Maior produtividade, maior vencimento. Boa remuneração para
trabalhos difíceis, mas necessários, que a generalidade dos homens de bom grado
recusaria.
Mas cedo descobri que aqueles casos eram excepções no tempo e no espaço.
O capitalismo, pelo menos na versão portuguesa, não premiava o esforço, não
tinha incentivos para as profissões duras. A pessoa tinha sorte ou azar, era
tudo. Ter uma profissão dura não era uma opção com um bom salário em vista, era
uma desgraça, algo em que se caía por falta de alternativas. As tabelas
salariais das profissões e das empresas não estavam feitas a pensar na
dificuldade do serviço. Na verdade, quanto mais sorte se tinha maior era o
vencimento. Quanto mais limpa e menos custosa fosse a função, mais bem paga ela
era. Supostamente porque a função mais limpa e mais confortável era também a
que tinha mais responsabilidade.
Só que responsabilidade não é um conceito lusitano. A palavra existe no
nosso dicionário, mas com outra semântica.
Para muita gente, conquistar uma posição mais alta na hierarquia de uma
empresa ou instituição é obter um privilégio, ascender a uma espécie de estado
de nobreza medieval. A sociedade portuguesa está cheia de viscondes e duques,
gente cujo vencimento superior ao dos seus subordinados não se destina a pagar
a responsabilidade, a liderança que devem assumir com dedicação. Um salário
alto é um dote, um tributo, algo que cai na conta ao fim do mês como a renda
devida ao sangue fidalgo. Um direito natural que não precisa de mais justificação
do que titulo outorgado ou herdado. Ser chefe de secção ou director de serviços
não significa que se tenha de chefiar ou dirigir coisa alguma. Significa apenas
que se tem uma comenda, que se conquistou o direito a receber mais do que o
comum dos mortais e a trabalhar menos do que eles.
Este tipo de viscondes tem aversão a ser incomodado com as questões do
serviço. É um ultraje que os subordinados lhes peçam uma orientação ou uma
decisão. Suas altezas não podem ser aborrecidas com matéria tão vil. Se
ascenderam ao estado ducal não foi para sujarem as mãos ou matarem a cabeça. «Eu
não posso ser incomodado com estas coisas», ouve-se-lhes com frequência, em tom
enojado ou escandalizado, sendo «estas coisas» o serviço por que são
responsáveis. O seu trabalho quotidiano, que lhes toma geralmente um décimo do
dia, segue uma vetusta tradição lusa: tratar do despacho. E o despacho,
como o próprio nome indica, consiste em despachar para os funcionários menores toda
a documentação e assunto que careça de resolução, sem mais nenhuma directriz do
que um seco «resolva» e a respectiva assinatura e carimbo. Caso o funcionário pretenda
manifestar dúvidas ou solicitar instruções deve preparar-se para lidar com a impaciência
ou a ira do superior — e para não obter nada do que necessite. Se tiver a
veleidade de insistir, talvez perceba de uma vez por todas o que significa
liderar ou dirigir, o que significa a responsabilidade:
«O amigo trate de resolver o assunto como bem entender e sem demoras», é a
resposta que obtém. «E fique sabendo que se isto der para o torto não vou ser eu
a cair». E o chefe tem razão, porque em Portugal aos chefes não se lhes exige
mais do que o pleno usufruto dos seus privilégios. Jamais ocorre em nenhuma
instância da hierarquia a peregrina ideia de pedir responsabilidades aos…
responsáveis. Mesmo as inspecções ou os tribunais, nas raras vezes em que são
chamados a pronunciar-se, desconhecem o conceito de responsabilização, a não ser que ele se possa aplicar a um qualquer
lacaio sem perigo para a nobreza.
Portugal não chegou aqui vindo do nada.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Porque reza?
É alto e tem um porte altivo, quase militar. A mão esquerda agarra o
pulso direito, à altura da genitália. Veste como um bancário ou director de
serviços em dia de folga, blusão de pele sobre pullover, camisa e gravata. Rosto barbeado e bom corte de cabelo. Está
parado em frente ao pequeno santuário à margem da estrada, num rectângulo de
relva. Poderia estar a fazer horas, à espera de alguém para almoçar, um cliente
ou um colega. Poderia ser um turista a apreciar a etnografia ou a religiosidade
locais, curioso, divertido ou encantado com o pitoresco. O seu é um ar de quem estacionou
ali perto um mercedes ou um jipe, tem uma vivenda e um T2 no Algarve com uma
nesga de mar, filhos na universidade e alguns cartões de crédito. Mas a pose
estática, prolongada, o olhar fixo nos olhos da santa, como nos de um
interlocutor de carne e osso, sugere que reza.
Será adequado perguntarmo-nos que espécie de tragédia interior se
oculta por trás da figura elegante e serena? Que doenças ou que azares? Que
consequências da crise? Quantos meses para a bancarrota? Ou acabámos de invadir
a privacidade de alguém que tranquilamente veio agradecer a dádiva da vida (e talvez
mais uma ou outra benesse)?
A santa, arrumada numa jaula de vidro como um bonsai, de estatura e expressão
humildes, como os seus habituais fregueses, parece intimidada por aquela
presença. Ou intrigada, como nós, com a mesma incapacidade para sondagens telepáticas
(apesar da fama), com a mesma pergunta bailando-lhe nos olhos: porque rezam os
ricos?
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Observando a vida selvagem
Numa tarde de um Junho qualquer, houve uma raposa que passou a três
metros de mim com vagares de estômago cheio e confiança no futuro. Não se
desviou, não se deteve, não eriçou o pêlo ou as orelhas. Limitou-se a seguir em
frente, pachorrenta, talvez a caminho de uma merecida sesta. Eu estava um pouco
acima do trilho dela, sentado numa rocha, a ler um livro qualquer. O vento era-me
favorável, talvez. A brisa não lhe levou ao focinho o meu cheiro e eu não me
mexi, excepto pela lenta e cuidadosa, robótica, rotação do pescoço. Mas era
difícil não me ver. Saiu do mato e atravessou mais de uma dezena de metros em campo
aberto na minha direcção até me ultrapassar pela ilharga. Só teria de levantar
um pouco os olhos.
Noutra ocasião (creio que já escrevi isto) foi um lagarto — daqueles
grandes, em tons de verde-claro, um pouco mais asquerosos e belos (sabem como
é) do que as vulgares lagartixas — que veio postar-se em cima da minha bota.
Desta vez estava à beira-rio, numa praia fluvial, sentado nuns degraus de
granito que desciam para uma rocha dentro de água, e o livro era certamente
outro. O bicho fez-se anunciar com um restolho nas ervas e isso colocou-me,
como sói, em modo de stand by. A
seguir pôs a cabecita de fora e, alternando os passos com momentos de espera
estática e vigilante, a testar-me com incontida curiosidade, pôs as patas da
frente em cima da bota. Agradeci não estar de sandálias ou de chinelos. Ou
descalço… brrrr. Quando achei que era curiosidade excessiva ele espreitar-me o
interior da perna das calças, estremeci um pouco, a manifestar discordância.
Fugiu, mas dali a uns minutos voltou, e repetimos a brincadeira, os pés dele (ou
as mãos) em cima dos meus.
Tenho destes vícios, gosto de ler nos habitats dos outros e espreitar-lhes a vida. Não tenho um talento particular
e fabuloso para “congelar”, fingir que sou uma rocha ou um arbusto. Sou só paciente e curioso e consigo estar quieto pelo tempo necessário. Talvez também
tenha um ar afável, não é impossível. Ou inofensivo, pensando melhor.
No domingo passado era um casal. Eu lia, o casal estava na sua vidinha,
sem notar o intruso. (Quer dizer, eu tinha chegado antes.) A certa altura ela
veio na minha direcção, mas sem a curiosidade do lagarto. Apenas não me tinha
visto, como a raposa. Vestia, aliás, um igualmente admirável casaco de peles e
tinha o mesmo ar matreiro por debaixo dele. Nas minhas imediações havia moitas e
eles tinham estado a lanchar fast food,
precisavam de se livrar de embalagens, guardanapos, restos. Ela viu-me quando
lhe era impossível deter o gesto. Olhamo-nos nos olhos enquanto o lixo deles
descrevia um arco e ia aterrar na ribanceira abaixo de nós. Não havia censura
no meu olhar, só reconhecimento da espécie, aquele ar afectivo e talvez um pouco paternalista de biólogo observando in
situ os seus espécimes, a vida selvagem. Ela deve tê-lo percebido, porque se
endireitou, empinou o nariz, alisou as roupas, como que assegurando-se que trazia
posto o disfarce de civilização que lhe escondia a natureza, e foi-se embora a comentar
com os seus botões dourados: «Intelectuais do caralho.» Creio que não se referia ao livro
que eu tinha nas mãos.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Bertrand
Uma das características da newsletter
da Bertrand é raramente anunciar livros. O que é curioso, porque é despachada
por uma livraria.
Tive há pouco uma conversa com o meu fornecedor de e-mail e perguntei-lhe por que carga d’água não filtra ele as mensagens
da Bertrand como faz por exemplo às que anunciam soluções para encolher a
barriga ou esticar o pénis. Disse-me que o facto de o lixo da Bertrand ser
exibido encadernado e com lombada confunde a firewall ou lá o que é. Desconfiei. Pareceu-me demasiado humana,
aquela firewall, demasiado idêntica ao
cliente-tipo da Bertrand tal como o entendem os seus responsáveis. Algo vai mal
no mundo quando já nem bichinhos tão briosos e altivos como as firewalls se dão ao respeito.
***
Entrar numa livraria Bertrand (na daqui, pelo menos) começa a ser
assustadoramente igual a receber uma newsletter
Bertrand. Nos últimos anos os livros foram recuando nos expositores para dar
lugar a uma tralha dirigida a adolescentes ou mesas de cabeleireiro, como se o
espaço tivesse sido alugado a Hollywood ou à Isabel Queirós do Vale. Não tenho
nada contra adolescentes e mesas de cabeleireiro — nada que os tribunais
aceitem, infelizmente —, mas o mundo era um lugar menos estranho quando as
livrarias apenas lhes destinavam secções próximas dos livros para pintar.
Depois de entrar na Bertrand, um tipo faz slalom entre mesas e prateleiras e lá consegue encontrar aqui e ali
um livrito. Nada que impressione. Quando tinha vinte e tal anos, achava que uma
livraria era um local onde gastaria o resto da mocidade e toda uma longa
reforma, se ficasse lá dentro a ler os livros. Hoje, enquanto vou eliminando
todos os volumes que já li (e não leio muito), noto horrorizado que a minha
vida vai ser curta, se a medir em obras para
ler disponíveis na Bertrand.
Franchise
A seguir aos morcegos, parece que a nova moda «literária» são os calhamaços
eróticos duma tal E. L. James. O José Rodrigues dos Santos deve estar radiante.
Depois de ter apanhado a onda do Dan Brown, o escriba tuga não se sentiu à vontade
com a saga Twilight e ele próprio estava a ficar farto dos seus livros. Agora
com este novo fenómeno de vendas pode finalmente iniciar outra fase na sua
carreira, para mais num género em que já demonstrou estar à vontade e ter muito
para dar ao mundo.
Devo confessar que eu próprio fiquei um pouco entusiasmado com o rumo
que levam as modas. A minha vez está a chegar. Já só tenho de esperar pelo
próximo passo no mundo editorial — a evolução do soft para o hard — para
entrar também no carrossel dos best-sellers.
Pornografia será o meu franchise.
Do livro das revelações
1. A IGREJA NEGA-LHES A EXISTÊNCIA, MAS A CIÊNCIA PROVA-A
— GROTZINGER VERSUS RATZINGER
No dia em que o Papa diz que o burro e a vaca não existiram, sabe-se que o robot Curiosity, que possui um laboratório capaz de identificar compostos orgânicos, «terá detectado algo interessante numa amostra do solo» de Marte. Fontes não identificadas falam em bosta asinina e bovina.
No dia em que o Papa diz que o burro e a vaca não existiram, sabe-se que o robot Curiosity, que possui um laboratório capaz de identificar compostos orgânicos, «terá detectado algo interessante numa amostra do solo» de Marte. Fontes não identificadas falam em bosta asinina e bovina.
Confira
aqui.
2. CEDRO-DO-LÍBANO
Em próxima obra, o
Papa revelará que não havia um pinheiro no local do nascimento de Jesus mas sim
um cedro-do-líbano. De posse dessa informação, a ministra Assunção Cristas já
reuniu de emergência o seu gabinete das florestas (não foi fácil, não havia salas
disponíveis, os 678 gabinetes do seu ministério têm de tirar senha para reunir)
para dar nova orientação ao sector: a prioridade nacional já não será o
Eucalyptus, mas sim o Cedrus Libani, com a graça de Deus.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Esperar o fim no Solar Bragançano
Um destes dias o inimigo chega às portas do burgo — já se ouve o
ribombar da artilharia, ao longe, quando o vento está favorável; de noite
vêem-se os clarões —, e nesse dia tenciono estar calmamente a jantar no Solar
Bragançano. Não conheço muitos sítios onde seja tão agradável esperar o momento
da rendição, com uma playlist que
inclui Brahms e Mozart, bebendo vinho por um copo onde cabe uma garrafa de
0,75l e nos sugere que afogarmo-nos ali pode ser uma alternativa.
Quer dizer, um tipo deve morrer como viveu, não é?, acima das suas
posses.
Há outros sítios elegantes e luxuosos, mas nenhum nos faz sentir em
casa como aquele, e a ideia é pensarmos em nós como o senhor no seu castelo. O
Solar Bragançano podia ser a casa que herdámos de uma bisavó nascida no dia em
que o Eça publicou Os Maias. A casa para
onde depois nos mudámos e vivemos uma vida improdutiva e devassa, estourando a
parte pecuniária da herança e contraindo dívidas impagáveis. Alguns de nós não têm outra
maneira de se sentirem estroinas e decadentes senão fingindo habitar ancestrais
solares em vez de apartamentos alugados e escassamente mobilados na Moviflor, com o
mapa-mundo pendurado no lugar do Rembrandt.
Quando o inimigo estiver às portas mudo-me para lá, portanto,
encomendando uma das várias iguarias não assim tão caras, mas demasiado caras
para mim, aceitando ser servido pelos proprietários — um casal suave,
encanecido e discreto — como se fossem os meus mordomos com salários em atraso, espraiando os olhos pela
decoração genuinamente antiga e fingindo pensar como vai ser duro perder tudo
aquilo, mastigando por uma vez sem pressas mas não porque o gastroenterologista
o aconselhou, variando de vinho com cada prato, experimentando uma
segunda sobremesa, bebericando a aguardente mais velha da casa, aspirando o
odor secular das madeiras abauladas com o último oxigénio...
***
Há tempos fiz parte disto como treino. Jantei no Solar Bragançano
gastando o que tinha sobrado do salário do mês. No dia seguinte jantei conservas com cebola — mas não me arrependi, que diabo!
sábado, 17 de novembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Os meus bêbados
A minha sala é um posto de observação para a noite. Horários favoráveis
e esta vocação para a teimosia (mais do que para a literatura) deixam-me de
vigília enquanto o resto do prédio dorme. Uma vizinhança de bares providencia frequente
fauna que observar. Por vezes apetece-me abrir a janela e informar a rapaziada
ébria que não precisa de gritar nem de tocar às campainhas, já estou acordado.
Mas talvez não seja a pensar em mim que eles fazem os seus números de
«rebeldes» patetas.
De quando em quando, a noite regista mais do que grupos ululantes a
circular entre bares, desafiando-se com cânticos hooligans ou remetendo bocas hardcore
para o campo feminino. Há ocasionais e variadas zaragatas (com tiros, uma vez;
mas nunca vi ninguém a ser perseguido com um machado, como numa existência anterior
apreciei de uma outra janela). Há a sempre fascinante e lenta progressão de bêbados
solitários ou em pares que (mal) se amparam e que têm sempre uma cantiga ou uma
queixa contra o mundo, não só contra a forma como ele insiste em inclinar-se e
rodopiar. Há os acidentes de trânsito, geralmente de um só veículo, conduzido por
outro género de bêbado, um que prefere enfaixar-se nos carros estacionados do
que ziguezaguear pedonalmente nos passeios como bola de flippers, ressaltando em postes e paredes.
Uma noite de Natal houve um automóvel que quis ser uma bola de flippers:
desceu a rua ricocheteando nas viaturas estacionadas de um e outro lado da
estrada. A faixa de rodagem, de sentido único, não é larga, mas sobra mais de
uma mão travessa de cada lado. Quer dizer, se um tipo tiver a pontaria
minimamente afinada chega incólume ao ponto onde a rua se alarga e bifurca
(alguns ficam indecisos até ao último momento e vão em frente, pelo canteiro
adentro ou até à traseira do infeliz que ali tenha estacionado). Mas o álcool e
a pontaria são opostos e naquela noite de Natal o tipo veio batendo aleatoriamente
do início ao fim da rua, deixando destroços como se conduzisse um Panzer em vez
do Mercedes do pai. Levantei-me da cadeira ao segundo impacto e, quando o carro
se deteve sem uma roda e sem o pára-brisas debaixo da minha varanda, depois de uma
boa meia dúzia de ressaltos, já eu estava a postos para observar os danos
finais (e marcar o 112). Durante alguns segundos, não aconteceu nada, ninguém
saiu do carro. A noite ficou silenciosa como costumam ser as noites de Natal. O
tempo congelou, como as poças da chuva congelam noutras noites. Depois saíram duas
pessoas de trás dos airbags insuflados
e mais três das portas traseiras. Não houve menos silêncio por elas terem saído:
afastaram-se uns metros e ficaram a olhar o carro com pasmo idêntico ao meu.
Passaram talvez uns três minutos quando finalmente a cena teve seguimento. O
condutor, pouco mais do que adolescente, iniciou uma pouco surpreendente e estupefacta
choradeira, encostado a um muro; as moças abraçaram-se, talvez agradecendo a «sorte»;
os outros dois colegas masculinos, sacudindo as ideias, ponderaram enviar o
condutor para casa, talvez não fosse sensato ele esperar a polícia e o alcoolímetro.
Abandonei a cena quando começaram a chegar outros voyeurs e me lembrei que o meu
carro estava estacionado naquela rua*.
Hoje houve lá fora um barulho que evocou aquele e me fez sentar ao
computador a escrever esta história em vez de ir descansar mais cedo os ossos. E
só a escrevi porque a realidade desta vez não fora interessante: era apenas um
tipo cuja piela o convidara a deslocar-se pelas ruas arrastando uma chapa que
ressaltava nos lancis e nos paralelos. Às
três e meia da manhã, era talvez a memória genética de um caçador-recolector a
arrastar a sua presa ou a programação igualmente genética de um «macho viril» a
arrastar pelos cabelos a sua fêmea. Ou era apenas eu que precisava de uma
história e não de mais um bêbado sem interesse.
* Sobreviveu
* Sobreviveu
IV Reich?
A imagem acima, com que tropecei no Facebook, é de um texto de Vasco
Pulido Valente. Prosa de Outubro de 1989, no Independente.
Lembro-me deste artigo (ou de outros no mesmo sentido). O historiador conhecia
a matéria e os seus cenários parecem assustadoramente certos, se entendermos a
actualidade naquele sentido meio «bélico». Mas é curioso recordar que na altura
VPV designava isto como «o problema alemão», quando hoje lhe parece conceder
uma certa legitimidade, justeza. Como se o domínio da Alemanha, mais do que
inevitável (pela sua pujança económica e pelos erros dos outros países) fosse
uma questão de justiça, deixasse de ser um «problema» para ser a recompensa
certa e até «moral» pelo seu mérito. Restando-nos, aos outros países, assumir a
condição de vermes submissos.
Mas talvez não haja motivos para tanto fatalismo. A Alemanha certamente
não se revê no retrato pulidiano de 1989, e talvez no final do dia, fruto de
outro «problema» chamado «globalização», precise tanto da UE como a UE dela. Bolas,
alguém tem de ser optimista — para pessimista (ou «realista», diria ele) basta
o Vasco. De resto, não consta que as suas piores previsões tenham acertado. Por
enquanto, pelo menos.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Manifestações
Para alguns comentadores, as greves e as manifestações são apenas folclore
e uma maçada. Desvalorizam-nas, negam-lhes pertinência e genuinidade. Recusam
aceitar que elas representem comunidade alguma. Defendem que nelas só participam
grupos ociosos e/ou radicais, grunhos engajados com o PCP e o BE. Gente à
procura de sarilhos e indiferente aos transtornos e aos prejuízos que causam.
Os mais extremistas dos comentadores, se pudessem, claro, proibiam as
manifestações.
Muitos destes críticos já estavam no activo em 2003, quando por toda a
Europa as pessoas se manifestavam contra a guerra no Iraque. Então como agora, vituperavam
ou despejavam sarcasmo nas manifestações e nos manifestantes. O argumentário usado
não diferia muito do de hoje. Soletrava da mesma cartilha.
Como a História o comprovou, os manifestantes estavam então certos e os
comentadores redondamente enganados. Muitos deles não passavam de rapazes iludidos com um ideário, prontos para acreditar em qualquer patranha envernizada da
forma certa. As equipas de Bush e Blair confiaram nisso, conheciam o género.
A partir de uma mentira aceite com uma candidez e um voluntarismo
surpreendentes, a guerra fez-se, e o prejuízo para o mundo foi tremendo, as
ondas de choque ainda hoje se sentem. No entanto, esta rapaziada crítica de
manifestações nunca deu o braço a torcer. O problema foi a mentira dos outros,
não a sua credulidade pateta. Não ruborizaram quando caiu a máscara. Não sentem
remorsos agora.
Contudo, o embaraço de 2003 devia inibir um pouco a seita, fazê-la
pensar duas vezes sempre que dispara contra as manifestações. É bem verdade que
existem manifestantes profissionais e gente à procura de sarilhos. Não se pode
negar que muitos dos que engrossam as filas não têm nenhuma ideia do que estão
a defender ou a atacar, muito menos têm qualquer contributo fundamentado para o
debate. Mas, porra, quem são estes comentadores cadastrados para, por assim
dizer, atirar a primeira pedra da calçada?
Não digo que as receitas da troika
incluam mentiras conscientes sobre algo equivalente a armas de destruição
massiva. (Também não digo o contrário.) Não digo que todos os manifestantes
sejam de uma lisura inatacável. Mas não se deve ignorar que, ao contrário da «maioria
silenciosa» supostamente prejudicada na sua inocência com as greves e as
manifestações, muitos dos manifestantes, os mais assíduos, são pessoas que não votaram nos governos PS e PSD — o
que talvez os alivie um pouco da culpa de termos vivido os últimos tempos acima
das nossas posses. E, voltando a 2003, é bom lembrar que a intuição que leva um
número crescente de pessoas a manifestar-se nem sempre deve ser menosprezada.
Nunca se sabe se não está certa.
domingo, 11 de novembro de 2012
Assobiar para o lado
Sei alguma coisa de ressacas, mas continuo maravilhado com a do Blasfémias. Quer dizer, já lá vão quatro dias: nadinha a dizer sobre as eleições nos EUA? Quanto tempo vão ficar em negação?
sábado, 10 de novembro de 2012
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
A crise e a cultura: manigâncias
O ilusionista Luís de Matos, citado num artigo do JN, vê um lado
positivo na crise que (também) afecta o sector cultural: «algumas companhias,
cuja razão de existir sempre foi o facto de que certo dia conseguiram passar a
ser subsidiadas, vão acabar.»
Aparentemente, este regozijo com o fim de companhias não tem
origem num sentimento de injustiça ou inveja, porque no mesmo artigo o
ilusionista revela que «só neste ano já fez 40 espectáculos à bilheteira» e,
sublinha, «todos com lucro». Luís de Matos não tem portanto razões para cobiçar
o famigerado «subsídio». Donde poderíamos concluir que quem se congratula com a
extinção de companhias é o cidadão contribuinte que há nele.
Mas não. O seu é um desabafo de agente cultural. Ouçam-no: «A
forma como se financia a cultura em Portugal é profundamente desmotivadora para
quem trabalha e altamente proteccionista para os chamados subsídio-dependentes».
(Luís de Matos trabalha; certas companhias, não, deduz-se.)
Lido com atenção, o discurso do ilusionista revela-se, afinal, apenas
mais um lamento pela falta de apoios. Como português genuíno que é, o mágico não
se incomodaria com uma ajudinha do Estado. Incomoda-se, sim, com a existência
de «companhias que são subsidiadas há mais de duas décadas e, invariavelmente,
os seus espectáculos têm 20 ou 30 espectadores». (Não revelou ao jornal se a
contagem de cabeças nas plateias, ao longos dos anos, incluiu, generosamente, a
do próprio ilusionista.)
Este género de manifestos ocorre com alguma frequência, artistas
ou produtores que fazem coexistir no mesmo parágrafo a vaidadezinha pelo sucesso
comercial e o lamento pela falta de apoio do Estado. Não notam a incoerência, são
verdadeiros artistas portugueses.
Um pouco mais à frente, reforçando a sua perspectiva da crise
enquanto bondoso «processo de selecção natural» e a confiança na sua própria fórmula,
Luís de Matos diz que «quem faz bem, nada deve temer». Só não explicou o que
entende por «fazer bem». Devem as companhias optar pela prestidigitação em vez
do teatro ou da dança? Ou acredita o mágico que obteria idêntico sucesso comercial
se encenasse Beckett ou mesmo o «imperecível» Shakespeare? Talvez o segredo de
ter público para a dança não esteja em levar à cena «O Quebra-Nozes» no Natal,
mas em ter o Luís de Matos a interpretar Merce Cunningham ou Pina Bausch. O
Estado deveria era despejar dinheiro em produções destas, êxitos garantidos de
bilheteira. Quem não pagaria para ver?
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Goddamn!
Curioso. Tirando a Helena Matos a assobiar para o lado (embora razoavelmente certa no assunto abordado), o blogue Blasfémias esteve hoje silencioso. Ressaca eleitoral?
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Povo, povão, povaréu
Há doze anos, no defunto Eito Fora:
Quem me conhece sabe que tenho em grande estima o nosso Eça de Queirós. Não é que me agrade ser chato, mas, como alguém disse, o cérebro tem razões que o coração desconhece. Ao ex-cônsul em Cuba admiro-lhe sobretudo a ironia. Este ano foi o aniversário da sua morte e a moda de dizer-se que «o Eça é sempre actual» ganhou novo ímpeto. Por ironia (agora do destino), sinto-me completamente démodé. É que há coisas que nem ao janota do monóculo lembrava.Num editorial do Districto de Évora, de há mais de cem anos, Eça fazia uma compungente apologia do povo. Confesso que li o texto imerso em lágrimas. Deixei-me abater pela saudade e corroer pelos remorsos. Eu, que me tinha por cínico, fiquei uma lástima, condoído da minha condição de membro da plebe. Mas, passado o pranto, dei-me conta do anacronismo da prosa. Em vão procurei naquele rol das virtudes do bom povo alguma analogia com os dias de hoje. Vejamos:Reza o editorial que «há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão». Com tal mote, predispus-me a olhar o meu semelhante com profundidade, procurando descobrir-lhe no rosto boçal a alma virtuosa. A exemplo do mestre, entalei sob o sobrolho esquerdo uma lupa de laboratório. Deambulei por ruas e praças em busca do vulgo. Observei-o no catre onde se recosta, na tasca onde bebe, no confessionário onde genuflecte, no prostíbulo onde se confirma, vi-lhe a manga do casaco, catei-lhe os piolhos, mas nada me revelou. Vi nas secretarias, nos gabinetes, nos cabeleireiros, nos jipes, subi montes, desci vales, revirei as pedras da calçada, espreitei atrás de árvores, mergulhei nas sarjetas, remexi as lixeiras — absolutamente nada. Fiz jogging em hipermercados, estive in nos restaurantes da moda, assisti a desfiles, fui a festas loucas, li a Nova Gente — rien, nothing.Desesperado, fiz maratonas na TV e na Internet vendo o Big Brother (uma casa portuguesa, diziam): em nenhum momento os anjos cantaram hossanas como naquele velho texto do periódico eborense.Em boa verdade, não encontrei o povo de que falava o José Maria. Corri o espectro social de uma ponta à outra: revoltou-se-me o estômago, ganhei uma úlcera, uma neurose, tornei-me suicida — sem resultados.Onde está aquela «raça de homens com instintos sagrados e luminosos»? Onde param as «divinas bondades do coração»? Que é feito da «inteligência serena e lúcida»? Que é do «amor pelo trabalho» e da «adoração pelo bem»?Aquele povo definhou. Está extinto. Tem sete palmos de terra por cima. Eclipsou-se.O povo actual, o nosso povo, o povo das estatísticas de iliteracia, do share de audiências, dos hipermercados, dos telemóveis, conservou os defeitos do bom povo queirosiano — mas perdeu todas as virtudes. Salvo meia dúzia de idosos que vão enfeitando os umbrais das portas das aldeias históricas de Portugal, o povo dos dias de hoje é (só) abjecto. Lava-se, corta e limpa as unhas, vai à escola, opina, vota, compra o "Expresso" — mas repugna. Trapaceiro, calaceiro, invejoso, cobiçoso, imbecil, inepto, boçal, cavalgadura, asno — eis uma sucessão de termos queirosianos quase elogiosos para o povo actual.
2. Tempos houve em que o mundo estava dividido em vários estratos. Mesmo sob risco de me acusarem de feudal, enumero-os: povo, burguesia, clero e nobreza. Havia uma divisão muito clara dos defeitos — cada classe tinha os seus. Hoje, a mistura desconcerta. A classe média é um albergue espanhol pior que o velho PSD e o actual PS: cabe lá tudo. Quer a gente insultar alguém e não sabe, em rigor, que epítetos lhe atribuir. Tudo se confunde num despropósito que haveria de indignar os nossos antepassados. E as restantes classes — baixa e alta — apenas se distinguem pela quantidade (ou ausência) de notas no banco. O resto, maneiras, educação, conhecimento, nivelou-se. Por baixo. Tal como os grandes partidos de esquerda e direita convergem, nestes dias pragmáticos, num grande centrão, as velhas classes diluíram-se numa só, que acumula os defeitos de todas: o povão.As classes unem-se pela falta dela. De classe. O assalariado reserva a noite para ver as novidades do "Big Brother" — o patrão grava-as em vídeo. A sopeira perde horas a ver a Maria — a patroa lê a Caras. O prestador de serviços filosofa exclusivamente sobre os programas de futebol que vê — o profissional liberal vai aos programas expor a metafísica da bola. O cidadão comum tem caprichos imbecis — o governante não olha a meios para agradar ao povão (de que, de resto, faz parte).Quando alguém fala do povo deve, além de se persignar, ter em conta que fala da quase totalidade da população portuguesa. O advento da democracia trouxe muitas coisas, mas acima de tudo obrigou as classes a submeterem-se à ditadura do povo. Do mais reles povo.Aqueles que defendiam a ditadura do proletariado e hoje estão tristes e desiludidos, não o deveriam estar. O proletariado não venceu a luta de classes — fez mais, assimilou as outras classes. Só que no processo perdeu as virtudes. Quem está hoje nos diversos órgãos de poder é o mais vil, o mais boçal povo. O povo não se pode queixar da má governação porque é ele quem governa. Não temos líderes políticos — temos representantes do povo. Os detentores de cargos públicos estão lá para satisfazer os piores caprichos do povo. (E fazem-no com suma perfeição e requinte!)O povo do tempo do Eça era boçal, ignorante, crédulo, rústico, bruto — mas tinha virtudes. Hoje é boçal, ignorante, crédulo, suburbano, bruto — e tem telemóvel.
3. Eu queria, sinceramente, fazer apologia de grandes sentimentos, nobres virtudes, sãs qualidades; queria seguir o exemplo do Eça e emocionar-me com o povo — mas dou comigo rondando a necrofilia. Quando leio sobre "o saber ancestral e sereno do povo", vejo um padre dando a extrema unção; quando alguém fala no "povo bom e honesto", aguardo que o coveiro recolha a pá; quando ouço que "o povo não é parvo", sei que é dia de visita ao cemitério; quando me lembram que "o povo é quem mais ordena", eis a minha vez de descer à cova — resigno-me e espero pela autópsia que me hão-de fazer.Para já, vou arranjar um lugar no umbral de uma porta ao lado de alguém que não tenha a infelicidade de saber que «o povo unido jamais será vencido»...
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