quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A partir de “Portugal, finis terrae”, de Pedro Rosa Mendes

A Ler tem um novo número nas bancas, mas aquele que é urgente ir comprar, para quem ainda não o fez, é o de Janeiro. Por causa de “Portugal, finis terrae”, esclarecedor ensaio de Pedro Rosa Mendes ali publicado. Nenhum português deveria considerar-se informado (ou adulto) sem o ter lido. É um texto escrito em tom vigoroso, porém sóbrio, acerca das origens históricas da crise que vivemos. Informa, alerta e incomoda, não deixa quase ninguém incólume: dos partidos da alternância à «Europa» (grafada com aspas, num interessante paralelismo com o costume de Vasco Pulido Valente), passando pelos EUA. Talvez poupe um pouco, em minha opinião injustamente, os portugueses enquanto povo.
A grande singularidade do texto de Pedro Rosa Mendes, a par da sua opinião informada e da coragem com que ele a expressa, é a independência em relação às instituições e em relação às tendências político-partidárias. Há, à esquerda e à direita, outras pessoas no país que fazem diagnósticos coincidentes, pelo menos em boa parte, mas as suas relações afectivas ou de interesses, o seu comprometimento ou proximidade aos partidos, limitam-lhes a coerência, tornam-nas inconsequentes, inúteis ou perniciosas. O mundo dos comentadores políticos é geralmente um território de canto coral ou onde drapejam bandeiras.  
É hoje para mim claro que o futuro português não pode ser construído pelos partidos, estes partidos. Dos municípios ao Governo, o país precisa de um reset, de se reinventar politicamente, e isso não se consegue fazer com gente tão implicada, tão cúmplice, tão presa aos métodos e aos desígnios das facções. Não se consegue fazer com protagonistas que andam pelo país como mercenários a repartir despojos ou por militantes que estão na política tão estupidamente como no futebol.
Não se trata de tirar razão à esquerda ou à direita, de invocar um hipotético centro virtuoso. Não tem nada que ver com esta posição ingénua, igualmente maniqueísta, de consensos pantanosos.
Trata-se de dizer abertamente que os partidos portugueses são cancros na sociedade e que detêm, em doses semelhantes, a culpa da situação que vivemos. (Da culpa que podemos reivindicar como nacional — nunca deixemos a «Europa» de fora disto.)
Como diz Rosa Mendes, «não haveria Passos Coelho sem Sócrates». Mas quem pode verdadeiramente negar que Passos Coelho seria o Sócrates da década anterior e Sócrates o Passos Coelho destes anos se a História lhes tivesse concedido vencer eleições em períodos diferentes? Quem pode jurar, sem hipocrisia ou cegueira, que distingue os Governos por muito mais do que o tempo e as circunstâncias em que lhes calhou governar?
Há decerto elementos no actual Governo que têm as melhores intenções, mas que liberdade lhes deixam ou que trabalho farão que não seja arruinado pelos colegas menos escrupulosos e mais oportunistas? (E mais poderosos.)
Um país não se devia governar, mesmo em tempos de crise, com sebastianistas, revolucionários, salvadores nomeados pelo Presidente ou pelas instituições (nacionais e estrangeiras). Mas também é certo que jamais se governará com a actual classe política.
A democracia ainda não foi destronada do pódio de melhor sistema de governo, e não me parece provado que a democracia representativa tenha os dias contados, que mereça ter os dias contados. Apenas precisa de outros representantes. Precisa de uma faxina.
O problema é que em Portugal é muito difícil formar partidos políticos. Não porque as leis e a burocracia sejam particularmente inexoráveis, mas porque um novo partido em Portugal é sempre considerado uma coisa excêntrica, terá previsivelmente um eleitorado da dimensão daquele que têm os partidos monotemáticos, de âmbito e programa circunscritos a uma ideia e um punhado de simpatizantes que se conhecem pessoalmente.
A vileza dos representantes em Portugal é pelo menos igualada pela estupidez dos representados. O eleitorado português é suficientemente perspicaz para reconhecer um cretino quando vê um — mas é também suficientemente estúpido, ou está suficientemente implicado, para votar de novo nele.
Parecemos condenados a concluir como Pedro Rosa Mendes concluiu o ensaio dele, utópica ou apocalipticamente: «Resta, pois, a rua, morada comum da raiva.» De facto, as possibilidades anteriores à rua, numa escalada de tomada de poder, parecem condenadas ao fracasso. Não se imagina que os independentes bem-intencionados dos anos recentes da política portuguesa possam formar um novo partido, mais sério e competente; não se imagina que esse partido fosse votado, caso pudesse formar-se; mas também não se imagina que os partidos actuais possam gerar anticorpos suficientemente poderosos para debelar a sua infecção interna. Será um problema de imaginação aquilo que nos aflige? Ou de coragem (de fazer e votar diferente)?

  
* Quem não conseguir comprar a Ler de Janeiro, pode encontrar aqui o ensaio de Pedro Rosa Mendes: http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B05DAEA92-2ABB-42ED-89ED-7F3F0B378A5D%7D

Mulher a rezar

Antes de se virar a esquina e iniciar a rampa do Calvário, há de cada lado da estrada uma capelinha ou pequeno santuário com portão em barras de ferro. De um lado está Cristo carregando a Cruz, do outro uma santa, provavelmente uma das várias manifestações da Virgem. A mulher reza daquele lado. Numa observação menos atenta, não se diria que reza: posição do corpo a três quartos, como quem está de passagem e mal se deteve para uma espreitadela curiosa; sapatos e roupa de sair em passeio; cabelo acabado de lavar no cabeleireiro; a carteira na mão direita, a de fora, exactamente como quando ela se encosta ao vidro de uma montra a passar os olhos pelos saldos ou pela nova colecção. Dir-se-ia visitante, turista, mas a mão esquerda, firmemente agarrada a uma das barras do portão, impregnando-se de ferrugem, segurando-se ali como náufrago à corda salvífica, confirma que reza.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A guitarra que falava

Por timidez, desinteresse ou incompetência, sempre fui nalguns assuntos um tipo um pouco retardado. Quando a isso se somavam as dificuldades financeiras, eu podia ser bastante neandertal em relação à restante rapaziada. E misantropo.
Um dia no intervalo das aulas um colega quis partilhar comigo a música que ouvia no seu novo walkman. Senti-me honrado, naturalmente, mas também assustado. Sabia que existiam mas nunca tinha experimentado ouvir música numa coisa daquelas. Qual seria a sensação? Como se ajustava o aparelho nas orelhas?
Acontece que o colega não queria apenas que eu ouvisse a música, queria que reparasse como o guitarrista dos Lynyrd Skynyrd fazia falar a guitarra. Eram muitas experiências novas para tão pouco tempo. Walkman. Guitarras que falam. Lynyrd Skynyrd (quem?). Ajustei os auriculares e a primeira coisa que disse ou pensei foi que a música parecia vir de todo o lado, ou estar dentro da nossa cabeça. O colega sorria. Eu ainda não tinha interiorizado a experiência e, por educação, para não abusar da generosidade, já me estava a obrigar a tentar decifrar o que queria ele dizer com uma guitarra que fala. Havia um solo, sim, mas por mais que me esforçasse não entendia nenhuma palavra — e já sabia algumas coisas de inglês. Para mim não havia nada de metafórico no que me fora pedido: eu estava mesmo a tentar ouvir uma guitarra a falar, balbucios que fossem.
Fingindo conhecimento e afectando desinteresse, acabei por dizer que sim, de facto era uma guitarra eloquente, embora não apreciasse muito a música.

(Podia ter contemporizando mais, sido menos herético, dizendo-lhe apenas que “não era sensível ao tema”— se fosse capaz de usar com rapidez a ambiguidade das palavras, de pensar a tempo na utilidade da sua amplitude semântica para uma boa convivência social.)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A monarquia dos jotas

Uma noite destas os meus passos cruzaram-se com os de um grupo de jotas. Não é o género de experiência que se queira ter com regularidade. Equivale a sairmos à rua na noite dos mortos-vivos e darmos por eles tarde demais para mudar de passeio. Sinistro assim.

Como já todos tiveram decerto oportunidade de apreciar, os jotas são uma espécie de guarda pretoriana dos partidos que ambiciona — e consegue — obter cargos políticos. Enquanto adolescentes, fazem de claque, de tropa de choque ou de aias dos chefes partidários. Vão aos comícios, aos jantares e às cerimónias, com a sua prestabilidade e a sua coqueteria, criar a ilusão de que os líderes são homens de estado, respeitados e respeitáveis, admirados e amados, carismáticos e visionários. São a cortina de fumo que se interpõe entre os políticos e a realidade. Uma pequena corte de pajens obsequiosos que ajuda o soberano a construir castelos no ar. Os chefes dos partidos não enfrentam a verdade porque para a verem teriam de avançar à catanada através de uma selva de jotas. A sua estrada de Damasco é uma picada africana que só se cruza se se estiver disposto a usar generosamente a espingarda de caça grossa antes de cair do cavalo. Como os chefes não o estão, não se dá a epifania. Nem caem do cavalo. Ou se caem é para deixar subir à sela, incólume, um jota da sua predilecção.
Mais tarde, os jotas recebem os seus postos na máquina do Estado para, numa primeira fase, continuarem com mais e melhores meios o trabalho de incensar o chefe e firmar o seu poder absolutista. Na fase seguinte, iniciam o seu próprio reinado de inépcia, arbitrariedade e terror na parte de território que lhes tenha sido atribuída durante a repartição dos despojos.

Em Portugal os jotas têm vindo a chegar aos mais altos cargos do poder. E isso é como ter nos postos de comando nacionais duques e condes (pela pesporrência), aias (pela intriga palaciana) e pajens (pelo corte de cabelo). Nesta particular espécie de monarquia, ao povo não resta mais do que o papel de bobo da corte.

Quem imagina que em Portugal o feudalismo acabou quando acabou a Idade Média não vive cá. O feudalismo não acabou: apenas pôs gravata e, mais recentemente, gel no cabelo.

O magala e a namorada

Como faziam soldados de incorporações muito anteriores à dele, levou a namorada ao parque depois de jantar. A noite está fria e convida pouco a sentar no banco à beira-rio, mas eles não parecem enregelados. Talvez estejam mesmo apaixonados, camonianamente aquecidos. Ela cruzou as pernas sobre o banco e pousou as mãos nos joelhos, a ouvi-lo. Ele fala sobre o juramento de bandeiras — e de repente parece-me que, embora a humanidade seja vasta, é limitado o número de cenas que ela tem para representar, limitado o número de deixas que tem para dizer.
Um magala do século XXI será uma reencarnação de todos os magalas que o antecederam? Seguirá cada vida individual um guião comum, transversal aos tempos? Infinitas são as reencarnações, não as conversas que se podem ter? Que singularidade exibe cada um de nós perante as décadas, os séculos, ou perante um observador que nos espreite de Alfa Centauro?
No mundo claustrofóbico que por instantes é o meu enquanto atravesso o parque, os magalas estão agora autorizados a sair do quartel sem farda nem boina à banda, mas não a criarem narrativas originais.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sentenças de um nouveau gauchiste

A crise encostou muita gente à esquerda. Uns porque, como crianças, procuram as saias de uma mãe menos severa, mesmo que tonta ou de pouca valia. Outros porque sofreram na pele o receituário que imaginavam apenas ser destinado a terceiros e agora estão ressentidos, clamam vingança. Outros ainda por orfandade, porque perderam ilusões quanto à bondade da direita e do sistema que ela preconiza.
Um destes nouveaux gauchistes apontou hoje aquilo que para ele é a falta de seriedade ou de competência da direita. No início da crise determinava-se que havia que despedir 120 mil funcionários públicos ou baixar salários. Dois anos depois, baixados drasticamente os salários, insiste-se via FMI que é preciso despedir 120 mil funcionários públicos. Falhou a matemática ou caiu a máscara?
Eu até acho que o Estado precisa de, a médio prazo, dispensar funcionários públicos, mas concordo que falta seriedade ou competência a esta direita.

Entretenimento

Numa revista de televisão, uma apresentadora de concursos e programas afins anuncia o seu novo projecto na RTP como sendo de «puro entretenimento», porque, ao que parece, «os portugueses andam a precisar de um pouco de entretenimento».
Não espanta que uma entertainer defenda tautologicamente o seu ofício e não se dê disso conta. É esta a natureza da espécie. Traz os seus próprios neurónios entretidos ou despidos de escrúpulos. Espantoso seria que ela anunciasse que o seu próximo programa seria para fazer pensar e debater, um desafio, um estímulo ou uma provocação para a massa cinzenta dos portugueses. Mas de espantos destes estamos livres.
A crer em tais figuras da “cultura” nacional, a crer no discurso recorrente da intelligentzia televisiva, há décadas que o país vem precisando dramaticamente de ser entretido. Ouvi-as toda a minha vida, hertzianamente e nos últimos anos ao vivo, propalar a necessidade vital que os portugueses têm de entretenimento, o quão importante é para a saúde psíquica do tuga que o entretenham, que o distraiam, que o façam rir — de preferência de nada e sem esforço.
Pelo seu lado, os portugueses sempre concordaram com a prescrição, naturalmente. Concordaram com tanta veemência que no mesmo período de tempo elegeram partidos igualmente apologistas da doutrina recreativa, uma classe política que secundava o diagnóstico, subscrevia a receita e metia mãos à obra a entreter o povo e a poupá-lo a maçadas e pormenores aborrecidos da vida pública.

Ora, depois de ter batido com os cornos no poste da crise, seria talvez a altura de o português se mostrar um pouco farto de tanto entretenimento vão e disponível para coisas um pouco mais exigentes.
Enquanto passou o tempo a aceitar ser entretido, o português foi levado ao endividamento e à bancarrota. De seguida esvaziaram-lhe os bolsos e deixaram-no perante o desemprego, como realidade ou perspectiva. Mas chegado aqui o que faz o português? Prescreve-se mais entretenimento.
Tudo o que o português quer é rir, mijar-se a rir. Como povo, parecemos ter pouca utilidade — mas damos uma boa plateia de circo ou de stand up comedy. O país inteiro podia ser uma tenda ou um coliseu ressoando palmas, ovações e gargalhadas. O problema é que não conseguimos perceber que a anedota mais tristemente hilária que se conta ali no palco somos nós mesmos.

O poder da televisão

Talvez o meu octogenário do post anterior ouça mesmo as cantigas da TV. Talvez as letras pimba lhe sejam agora toleráveis, as tome como evocações actualizadas dos tempos de magala ou de outros dias atrevidos. O próprio Herman José, antes para ele o Anticristo declarado, é hoje aceite em sua casa com bonomia, como mais um dos membros da família alargada (e sinistra) que a televisão lhe assegura. A ele e aos restantes idosos do país. O salazarismo ainda seduz muito velho, mas a TV impôs-lhes alguns costumes, algumas ideias (chamemos-lhe assim) de progresso ou evolução, deixou-os em certas áreas menos apegados ao espírito do Estado Novo. É este o poder da televisão.

O que faz pensar. Se a televisão conseguiu reconciliar aquela geração com os prazeres da juventude, aceitar a exposição dos corpos e da lascívia, tomar como seu e normal o quotidiano boçal e doentio das televisões, das suas novelas e talk shows, imagine-se que povo não teríamos hoje se as TVs não tivessem banido os livros e o teatro e as artes e a inteligência do ecrã. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Dançando em frente à televisão

Não muito depois da tropa, há cinquenta e tal anos, e mesmo não tendo casado, adoptou para sempre os costumes e os modos de um certo tipo de homem responsável e convencional do seu tempo: a circunspecção, o pudor, a respeitabilidade. Todo o resto da sua vida passou a encarar a folia e o prazer como tolices, desvios da juventude. Olhava-os e falava deles não exactamente, ou não sempre, com censura, mas com paternalismo (nos melhores dias) ou com a condescendência que se tem com os doidos, uma condescendência por vezes contrariada, como contrariada era a sua aceitação de algumas das liberdades de Abril.
Mas como homem do seu tempo (ou como homem tout court) tinha também uma vida dupla. A pública, respeitável e austera, e a privada, onde se concedia, pelo menos ao nível do pensamento e do desejo, os direitos próprios dos machos, como ele os entendia. O tipo de pessoa que idealizava e representava em sociedade via ser-lhe aliviado um pouco o regime austero na intimidade. Ninguém diria, por exemplo, que adquiria pornografia, e no entanto adquiriu-a até à entrada da velhice. Ele, o indivíduo severo que tinha sempre uma repreensão pronta para as poucas-vergonhas na TV e para a brejeirice em certas cançonetas.

Hoje, vendo as actuações musicais de um programa da TVI, confessou para quem o ouvia que com frequência se deixa agora dançar sozinho em frente à televisão. Os que o conhecem não o imaginam a fazer tal, com os seus cem quilos, os seus movimentos lentos, paquidérmicos, os seus oitenta e muitos anos, os seus óculos e pose de Marcelo Caetano. «E correm-me lágrimas ao ouvir estas cantigas», reforça para os incrédulos.
As cantigas da televisão, com a sua monomania sexual e as suas bailarinas de coxa roliça ao léu, são do género que ele vilipendiaria na meia-idade. Têm, no entanto, a base rítmica, os acordes, a simplicidade de espírito e por vezes o fraseado na concertina de outras melodias populares na sua juventude. É decerto isto que ele ouve lá na sua televisão de velho solitário — não os sucedâneos de lupanar raiano que a TVI apresenta.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Com as mãos ambas*



Ia ontem mesmo começar A Piada Infinita, de David Foster Wallace (juro!), mas S. Pedro não me deu uma mão. Quer dizer, pelo menos impediu-me de usar as minhas. Quando se vive em Trás-os-Montes e se lê na cama, sem aquecimento central (ou outro), dificilmente se aceita ficar com as duas mãos de fora dos cobertores em Janeiro. E, vocês sabem, A Piada Infinita precisa que a agarremos com todas as mãos disponíveis. Não estou a ser metafórico, o livro pesa, pode causar luxações nos pulsos. Fica para a Primavera. (Podia ser pior, já houve quem o deixasse para as calendas gregas.)

* Título roubado a uma anedota familiar. A ver se a conto, um destes dias.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Livros de auto-ajuda

A notícia de um livreiro minucioso a mudar os livros de (ou sobre) Lance Armstrong para as prateleiras da “ficção” fez-me lembrar que as obras mais recentes de Ian McEwan e Paul Auster poderiam ser arrumadas na secção de “auto-ajuda”. Seriam, aliás, ali mais úteis do que a maioria das obras que por lá se encontra. (Bem, mais úteis para candidatos a escritores, não para candidatos ao psicanalista ou ao jet set nacional.)

McEwan resolveu incluir, sem grande disfarce, um curso de escrita criativa em Mel. Lá se foi o negócio dos Booktaylors, de Rui Zink ou de João Tordo: os neófitos das letras só têm de seguir Serena, a protagonista, enquanto ela vai decifrando o método e o processo do seu amante escritor. Poupam umas coroas e não têm de aturar o ego do formador. Pelo menos não ao vivo.
O aprendiz tem dúvidas, esbarrou na página em branco, carece de personagens secundárias ou mesmo de protagonistas? Aprenda com o Tom Haley. A Serena explica como se faz (ainda que a pobre não saiba quão longe pode um escritor ir na apropriação da realidade para o texto ficcional.)

O Diário de Inverno de Paul Auster tem a ambição — menor, mas igualmente útil — de humanizar o escritor. Revelando, por exemplo, que também ele tira prazer de se peidar. Se isto não ajuda qualquer um a ganhar confiança para escrever o seu próprio livro, não sei o que há-de ajudar.

E isto, que parece admirável, é trágico. Que os escritores se ponham a abrir o jogo e a descer do pedestal. Nos dias que correm, já qualquer Zé (eu incluído) acha que pode escrever um livro; deixando-as suspeitar de que o podem fazer e explicando-se-lhes como o podem fazer, manadas inteiras de bisontes hão-de atirar-se ao Word.
A minha esperança é que a concorrência seja tão estúpida como parece e continue a achar que para escrever um livro não precisa de ler nenhum. De resto, as tiragens em Portugal dão-me algum conforto. Entre sobras, ofertas e calços de mesas vai o grosso de uma edição. Talvez três portugueses comprem e leiam os seus exemplares.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Extravagância

No sábado passado fiz uma extravagância: comprei o Expresso. Comprar o Expresso é sempre uma extravagância, que evito, mas fazê-lo apenas com o propósito de ler a recensão de Os Enamoramentos* escrita por Pedro Mexia é uma daquelas loucuras que condenam um agregado ou um país à miséria.

*Javier Marías

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

«EDITORIAL: A montanha pariu um rato, talvez»


[Do blogue Iniciação ao Tédio]

«Andámos meses para marcar um jantar e nunca o conseguimos. Quer dizer, temo-nos encontrado aqui e ali, alguns de nós até assiduamente. Três trabalham juntos. Mas marcar um jantar em que todos pudessem ou quisessem estar foi uma impossibilidade. Jantámos quatro dos seis arregimentados. Não foi mau. Quase 70%. Houve quórum. Maioria qualificada. Quase mudámos a Constituição.
Meses antes, numa conversa de bêbados, dois de nós desataram a chorar ao balcão que era uma tristeza que não se tivesse feito mais nada depois «daquilo». Havia uma crise e falências e encerramentos e um recuo como nunca víramos. Agora é que «a coisa» fazia sentido. «A coisa» ou um sucedâneo que não envergonhasse. De resto, era notável como nos últimos tempos se vinha invocando o nome da «coisa», velhos seguidores nostálgicos que se davam a conhecer e gente nova que a descobria com espanto. Naquela noite, os dois despediram-se com abraços apertados, ranho no nariz e promessas firmes de pensar em alguma… coisa. (Não havia muita imaginação disponível nem para substantivos.) Depois foi cada um para sua casa, tentando não cambalear demasiado, e nas semanas seguintes espalharam a Boa Nova.
Houve então conversas ocasionais, alargadas e entrecruzadas (e muito espaçadas), onde os argumentos contra eram sempre mais fortes e sensatos. Mas nem assim a ideia se desvaneceu, como mandava a inteligência. Quando um desistia, outro insistia, num dilatado processo de contrabalanço que poderia muito bem ser representando por aquela cena famosa da ginástica sueca no Pátio das Cantigas com Vasco Santana e Ribeirinho. Cómico e ridículo dessa maneira.
Uma das últimas tentativas de esconjuro foi escrita como uma súplica no blogue Os Canhões de Navarone— e teve o efeito contrário. Aumentou a pressão para jantar.
O repasto teve então lugar e o mais relevante da noite foi ter-se descoberto que alguém agora conduzia um Qashqai. À mesa, além do proprietário do SUV, havia um recém-licenciado em Línguas-Literaturas-&-Mais-Qualquer-Coisa, um engenheiro com delírios de designer gráfico e um antigo baixista de arraiais populares. Fez-se um jogo que consistia em escolher os cinco nomes menos maus de uma lista de trigésimas escolhas. A aposta era elevada. Foi então que a montanha pariu um rato. Tanta evocação, tanta assertividade e tanto vinho para isto a que o leitor agora chegou: à sobremesa estava decidido que em sucessão da coisa Periférica, como sói acontecer com as vedetas rock, se faria um reunion blog e algum alarido à volta dele. Um tédio, portanto. (O nome pode não ser brilhante mas é eloquente.)
Iniciação ao tédio é então um blogue que, não correndo mal, reunirá as composições individuais dos antigos membros dos Duran... da Periférica espalhadas pelo Facebook, pelos blogues Divina Comédia,Grafismo Sem Rede e Os Canhões de Navarone, ou pelo espaço aéreo nacional. Correndo bem, Iniciação ao Tédio fará isso e porá no activo os mais adormecidos dos bandmates. No mínimo, o leitor poupará alguns cliques se quiser seguir regularmente os blogues mencionados. (Um contributo nosso para a prevenção de tendinites no indicador, esse flagelo moderno.) No máximo, assistirá ao prelúdio de algo que lançará sombras sobre a Granta que o Carlos Vaz Marques prepara sem contar connosco. Não nos falta ambição, como se vê, apenas noção do ridículo e força para sair do sofá. De onde, de resto, se vê distintamente a cidade e os portuguesitos a correr de um lado para o outro na sua azáfama, como ilustra a imagem do cabeçalho. Será particularmente para eles e sobre eles este blogue vermelhusco. Desfruta, nobre povo.
P.S. Convém frisar que, como o nome indica, se trata apenas de uma iniciação ao tédio. Para tédio mais desenvolvido, há que procurar outras moradas.»

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

«Iniciação ao Tédio, um blogue pós-periférico»


«Dos mesmos realizadores de Periférica e dos mesmos produtores de A Noite dos Mortos-Vivos, chega às salas nacionais um… blogue. Mas não é um blogue qualquer, é um blogue… colectivo.
Iniciação ao Tédio é um blogue pós-periférico e pré-apocalíptico que surge para acabar com a reputação da revista editada em Vilarelho entre 2002 e 2006. Não era essa a intenção, mas não vamos conseguir evitá-lo. Carlos Chaves, Fernando Gouveia, José Ferreira Borges, Paulo Araújo e Rui Ângelo Araújo, com a aquiescência de Vítor Lamas, bem gostariam, mas não vão poder senão atender por baixo as expectativas dos que pediam um retorno da melhor revista de Vilarelho e províncias autónomas. (De resto, obedecendo à norma hollywoodiana de que as sequelas hão-de ser piores do que o original.)
Há sete anos Portugal perdeu a Periférica, agora ganhou Iniciação ao Tédio. É dos manuais: cada tempo tem o que merece, não o que precisa.
Convém frisar, contudo, que se trata apenas de uma iniciação ao tédio. Para tédio mais desenvolvido, há que procurar outras moradas.

O blogue tem este endereço: www.iniciacaotedio.blogspot.pt/
E está aqui no Facebook: www.facebook.com/IniciacaoTedio

Divulgai a Boa Nova e descerá sobre vós uma sobretaxa do IRS.»

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Blogues do ano

A minha cara-metade, que só me quer fazer feliz (e consegue), candidatou o Canhões a blogue do ano no concurso do Aventar, nas categorias “Humor e Sátira” e “Livros e Literatura”. Eu, que sou tantas vezes acusado de macambúzio e deprimente, daria grandes gargalhadas se vencesse no «Humor». (Na sátira não me espantaria, sou fiel a transcrever a vida no país.)

1. Somos Portugal

Na TV, um tipo que ao que parece se distinguiu numa dupla chamada «Quim Roscas e Zeca Estacionâncio», apresenta um programa onde se sucedem cançonetistas epilépticos em ruidoso playback, assistidos por bailarinas de boîte com mamilos eriçados pelo frio Barrosão (é em Boticas). Um logótipo num dos cantos do ecrã diz que a coisa se chama «Somos Portugal».
Num primeiro momento, rebelo-me contra aquele abuso. Imagino uma certa petulância na proclamação. Depois caio em mim. Claro que aquela gente é Portugal. Eles e o povo que assiste, regalado. Os que ficamos de fora não chegamos nem para fazer uma tribo, quanto mais um país. De resto, temos sentimentos tão pouco nacionalistas que não nos devemos indignar se um destes dias nos tentarem exilar.

2. A TV do Quim Roscas

A certa altura, desfilam meia dúzia de quadrigas e uma centúria romana na TV do Quim Roscas — não me perguntem a que propósito, diria que o Carnaval ainda vem longe. Um programa com um título tão assertivo, aparentemente tão mobilizador, merecia uma Legião de garbosos guerreiros, mas o que ali se vê faz lembrar o punhado de legionários que, nas histórias do Astérix, aguarda tremendo a chegada dos gauleses. Fardas desalinhadas, capacetes à banda, uma timidez e um fascínio risonhos de indígenas perante as câmaras. São Portugal.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Otorrinolaringologia

Conheceu-a na primeira consulta no otorrinolaringologista. Ele ia pelo nariz, problema crónico, ela por uma otite ligeira. Encetaram na sala de espera o seu namoro, embora só muitos meses depois, confrontando memórias e estados de alma, tenham conseguido estabelecer com algum rigor a data.
Era uma rapariga alegre e não dava grande atenção ao guarda-roupa e ao aspecto do cabelo. Tinha um défice de auto-estima ou não a sensibilizava a questão (ele nunca percebeu bem). Achara a simplicidade ou a falta de empenho no visual de certo modo amorosas, embora não fosse um entusiasta do género descuidado. Depois de começarem a andar juntos é que ela foi introduzindo pequenas mudanças nos seus hábitos, preocupações estéticas. Um dia um casaco, no outro uns brincos, uns saltos altos, no seguinte um vistoso eyeliner, umas madeixas. Idas regulares ao cabeleireiro eram a última novidade. Ele tinha apreciado o ímpeto de mudança, sentia-se lisonjeado com o esforço dela, embora nem sempre concordasse com as opções. Poucas vezes, na verdade.
Nos últimos tempos sentia um mal-estar quando estavam juntos. Era um sentimento difuso, intangível, algo que pairava no ar mas simultaneamente físico. Preocupava-o não conseguir identificar as razões.
Quando ao fim de uns meses a lista de espera no hospital lhe permitiu a septoplastia que fora considerada urgente, correu ao encontro dela com uma alegria especial. Uma fase da sua vida tinha sido suplantada com sucesso e afinal nem tinha custado muito, embora ainda usasse com incómodo os tampões nasais.
Livrou-se finalmente deles uns dias depois e pôde de novo cheirar a vida e o mundo, agora com uma acuidade de que já não se lembrava. Vestiu-se com algum cuidado para o jantar dessa noite.
Mal se sentou à mesa — aliás, ainda antes de se sentar à mesa com ela —, percebeu qual era a razão do seu mal-estar. A namoradinha, naquele seu processo de auto-confiança ou vaidade, começara também a usar perfume, com a sua simpatia, mas só agora, com as vias desobstruídas, ele podia perceber como era atroz o gosto dela. E não era apenas uma questão de a fragrância ser horrorosa, escolha de fã do Tony Carreira. Era a quantidade daquilo. A namorada, ao que parecia, tomava banho de imersão em perfume contrafeito. Devia investir uma fortuna por mês nos ciganos ou lá em quem lhe vendia os frascos.
Aguentou uns minutos à mesa, indeciso entre falar-lhe dos benefícios de uma septoplastia mesmo para as pessoas comuns ou ser mais directo quanto à questão. Optou por pagar discretamente a conta, mesmo que não tivesse ainda provado a sapateira, e informá-la falsamente contristado que tinha conhecido outra mulher. 

La belle tristesse

Estou bastante feliz por o Caetano estar triste e me contaminar com a sua tristeza.

Abateram as mimosas II

Em pequenos, fazíamos cavalos das mimosas, ramos compridos que montávamos garbosamente com as folhas e as flores a varrer o chão e o tronco seguro nas mãos por duas tiras da casca fibrosa e húmida a fazer de rédeas. Já na altura se as acusava de serem uma praga e eu, fascinado, ficava à espera de as ver invadir toda a quinta onde elas existiam.
Não aconteceu tal coisa. A quinta foi loteada e não creio que tenha sobrado uma mimosa entre as vivendas.
Mas é verdade que ainda não passaram cinquenta anos e que aquele solo pode estar pejadinho de sementes. (Eu a esfregar as mãos.)