sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Observando a vida selvagem

Numa tarde de um Junho qualquer, houve uma raposa que passou a três metros de mim com vagares de estômago cheio e confiança no futuro. Não se desviou, não se deteve, não eriçou o pêlo ou as orelhas. Limitou-se a seguir em frente, pachorrenta, talvez a caminho de uma merecida sesta. Eu estava um pouco acima do trilho dela, sentado numa rocha, a ler um livro qualquer. O vento era-me favorável, talvez. A brisa não lhe levou ao focinho o meu cheiro e eu não me mexi, excepto pela lenta e cuidadosa, robótica, rotação do pescoço. Mas era difícil não me ver. Saiu do mato e atravessou mais de uma dezena de metros em campo aberto na minha direcção até me ultrapassar pela ilharga. Só teria de levantar um pouco os olhos.
Noutra ocasião (creio que já escrevi isto) foi um lagarto — daqueles grandes, em tons de verde-claro, um pouco mais asquerosos e belos (sabem como é) do que as vulgares lagartixas — que veio postar-se em cima da minha bota. Desta vez estava à beira-rio, numa praia fluvial, sentado nuns degraus de granito que desciam para uma rocha dentro de água, e o livro era certamente outro. O bicho fez-se anunciar com um restolho nas ervas e isso colocou-me, como sói, em modo de stand by. A seguir pôs a cabecita de fora e, alternando os passos com momentos de espera estática e vigilante, a testar-me com incontida curiosidade, pôs as patas da frente em cima da bota. Agradeci não estar de sandálias ou de chinelos. Ou descalço… brrrr. Quando achei que era curiosidade excessiva ele espreitar-me o interior da perna das calças, estremeci um pouco, a manifestar discordância. Fugiu, mas dali a uns minutos voltou, e repetimos a brincadeira, os pés dele (ou as mãos) em cima dos meus.
Tenho destes vícios, gosto de ler nos habitats dos outros e espreitar-lhes a vida. Não tenho um talento particular e fabuloso para “congelar”, fingir que sou uma rocha ou um arbusto. Sou só paciente e curioso e consigo estar quieto pelo tempo necessário. Talvez também tenha um ar afável, não é impossível. Ou inofensivo, pensando melhor.
No domingo passado era um casal. Eu lia, o casal estava na sua vidinha, sem notar o intruso. (Quer dizer, eu tinha chegado antes.) A certa altura ela veio na minha direcção, mas sem a curiosidade do lagarto. Apenas não me tinha visto, como a raposa. Vestia, aliás, um igualmente admirável casaco de peles e tinha o mesmo ar matreiro por debaixo dele. Nas minhas imediações havia moitas e eles tinham estado a lanchar fast food, precisavam de se livrar de embalagens, guardanapos, restos. Ela viu-me quando lhe era impossível deter o gesto. Olhamo-nos nos olhos enquanto o lixo deles descrevia um arco e ia aterrar na ribanceira abaixo de nós. Não havia censura no meu olhar, só reconhecimento da espécie, aquele ar afectivo e talvez um pouco paternalista de biólogo observando in situ os seus espécimes, a vida selvagem. Ela deve tê-lo percebido, porque se endireitou, empinou o nariz, alisou as roupas, como que assegurando-se que trazia posto o disfarce de civilização que lhe escondia a natureza, e foi-se embora a comentar com os seus botões dourados: «Intelectuais do caralho.» Creio que não se referia ao livro que eu tinha nas mãos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Bertrand

Uma das características da newsletter da Bertrand é raramente anunciar livros. O que é curioso, porque é despachada por uma livraria.
Tive há pouco uma conversa com o meu fornecedor de e-mail e perguntei-lhe por que carga d’água não filtra ele as mensagens da Bertrand como faz por exemplo às que anunciam soluções para encolher a barriga ou esticar o pénis. Disse-me que o facto de o lixo da Bertrand ser exibido encadernado e com lombada confunde a firewall ou lá o que é. Desconfiei. Pareceu-me demasiado humana, aquela firewall, demasiado idêntica ao cliente-tipo da Bertrand tal como o entendem os seus responsáveis. Algo vai mal no mundo quando já nem bichinhos tão briosos e altivos como as firewalls se dão ao respeito.

***

Entrar numa livraria Bertrand (na daqui, pelo menos) começa a ser assustadoramente igual a receber uma newsletter Bertrand. Nos últimos anos os livros foram recuando nos expositores para dar lugar a uma tralha dirigida a adolescentes ou mesas de cabeleireiro, como se o espaço tivesse sido alugado a Hollywood ou à Isabel Queirós do Vale. Não tenho nada contra adolescentes e mesas de cabeleireiro — nada que os tribunais aceitem, infelizmente —, mas o mundo era um lugar menos estranho quando as livrarias apenas lhes destinavam secções próximas dos livros para pintar.
Depois de entrar na Bertrand, um tipo faz slalom entre mesas e prateleiras e lá consegue encontrar aqui e ali um livrito. Nada que impressione. Quando tinha vinte e tal anos, achava que uma livraria era um local onde gastaria o resto da mocidade e toda uma longa reforma, se ficasse lá dentro a ler os livros. Hoje, enquanto vou eliminando todos os volumes que já li (e não leio muito), noto horrorizado que a minha vida vai ser curta, se a medir em obras para ler disponíveis na Bertrand.

Franchise

A seguir aos morcegos, parece que a nova moda «literária» são os calhamaços eróticos duma tal E. L. James. O José Rodrigues dos Santos deve estar radiante. Depois de ter apanhado a onda do Dan Brown, o escriba tuga não se sentiu à vontade com a saga Twilight e ele próprio estava a ficar farto dos seus livros. Agora com este novo fenómeno de vendas pode finalmente iniciar outra fase na sua carreira, para mais num género em que já demonstrou estar à vontade e ter muito para dar ao mundo.

Devo confessar que eu próprio fiquei um pouco entusiasmado com o rumo que levam as modas. A minha vez está a chegar. Já só tenho de esperar pelo próximo passo no mundo editorial — a evolução do soft para o hard — para entrar também no carrossel dos best-sellers. Pornografia será o meu franchise

Do livro das revelações

1. A IGREJA NEGA-LHES A EXISTÊNCIA, MAS A CIÊNCIA PROVA-A — GROTZINGER VERSUS RATZINGER

No dia em que o Papa diz que o burro e a vaca não existiram, sabe-se que o robot Curiosity, que possui um laboratório capaz de identificar compostos orgânicos, «terá detectado algo interessante numa amostra do solo» de Marte. Fontes não identificadas falam em bosta asinina e bovina.

Confira aqui.

2. CEDRO-DO-LÍBANO

Em próxima obra, o Papa revelará que não havia um pinheiro no local do nascimento de Jesus mas sim um cedro-do-líbano. De posse dessa informação, a ministra Assunção Cristas já reuniu de emergência o seu gabinete das florestas (não foi fácil, não havia salas disponíveis, os 678 gabinetes do seu ministério têm de tirar senha para reunir) para dar nova orientação ao sector: a prioridade nacional já não será o Eucalyptus, mas sim o Cedrus Libani, com a graça de Deus.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A contagem do Tempo

O Tempo Contado iniciou uma contagem decrescente. Já só falta uma semana. Ainda falta uma semana.

Esperar o fim no Solar Bragançano


Um destes dias o inimigo chega às portas do burgo — já se ouve o ribombar da artilharia, ao longe, quando o vento está favorável; de noite vêem-se os clarões —, e nesse dia tenciono estar calmamente a jantar no Solar Bragançano. Não conheço muitos sítios onde seja tão agradável esperar o momento da rendição, com uma playlist que inclui Brahms e Mozart, bebendo vinho por um copo onde cabe uma garrafa de 0,75l e nos sugere que afogarmo-nos ali pode ser uma alternativa.
Quer dizer, um tipo deve morrer como viveu, não é?, acima das suas posses.
Há outros sítios elegantes e luxuosos, mas nenhum nos faz sentir em casa como aquele, e a ideia é pensarmos em nós como o senhor no seu castelo. O Solar Bragançano podia ser a casa que herdámos de uma bisavó nascida no dia em que o Eça publicou Os Maias. A casa para onde depois nos mudámos e vivemos uma vida improdutiva e devassa, estourando a parte pecuniária da herança e contraindo dívidas impagáveis. Alguns de nós não têm outra maneira de se sentirem estroinas e decadentes senão fingindo habitar ancestrais solares em vez de apartamentos alugados e escassamente mobilados na Moviflor, com o mapa-mundo pendurado no lugar do Rembrandt.
Quando o inimigo estiver às portas mudo-me para lá, portanto, encomendando uma das várias iguarias não assim tão caras, mas demasiado caras para mim, aceitando ser servido pelos proprietários — um casal suave, encanecido e discreto — como se fossem os meus mordomos com salários em atraso, espraiando os olhos pela decoração genuinamente antiga e fingindo pensar como vai ser duro perder tudo aquilo, mastigando por uma vez sem pressas mas não porque o gastroenterologista o aconselhou, variando de vinho com cada prato, experimentando uma segunda sobremesa, bebericando a aguardente mais velha da casa, aspirando o odor secular das madeiras abauladas com o último oxigénio...

***
Há tempos fiz parte disto como treino. Jantei no Solar Bragançano gastando o que tinha sobrado do salário do mês. No dia seguinte jantei conservas com cebola — mas não me arrependi, que diabo!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Os meus bêbados

A minha sala é um posto de observação para a noite. Horários favoráveis e esta vocação para a teimosia (mais do que para a literatura) deixam-me de vigília enquanto o resto do prédio dorme. Uma vizinhança de bares providencia frequente fauna que observar. Por vezes apetece-me abrir a janela e informar a rapaziada ébria que não precisa de gritar nem de tocar às campainhas, já estou acordado. Mas talvez não seja a pensar em mim que eles fazem os seus números de «rebeldes» patetas.
De quando em quando, a noite regista mais do que grupos ululantes a circular entre bares, desafiando-se com cânticos hooligans ou remetendo bocas hardcore para o campo feminino. Há ocasionais e variadas zaragatas (com tiros, uma vez; mas nunca vi ninguém a ser perseguido com um machado, como numa existência anterior apreciei de uma outra janela). Há a sempre fascinante e lenta progressão de bêbados solitários ou em pares que (mal) se amparam e que têm sempre uma cantiga ou uma queixa contra o mundo, não só contra a forma como ele insiste em inclinar-se e rodopiar. Há os acidentes de trânsito, geralmente de um só veículo, conduzido por outro género de bêbado, um que prefere enfaixar-se nos carros estacionados do que ziguezaguear pedonalmente nos passeios como bola de flippers, ressaltando em postes e paredes.
Uma noite de Natal houve um automóvel que quis ser uma bola de flippers: desceu a rua ricocheteando nas viaturas estacionadas de um e outro lado da estrada. A faixa de rodagem, de sentido único, não é larga, mas sobra mais de uma mão travessa de cada lado. Quer dizer, se um tipo tiver a pontaria minimamente afinada chega incólume ao ponto onde a rua se alarga e bifurca (alguns ficam indecisos até ao último momento e vão em frente, pelo canteiro adentro ou até à traseira do infeliz que ali tenha estacionado). Mas o álcool e a pontaria são opostos e naquela noite de Natal o tipo veio batendo aleatoriamente do início ao fim da rua, deixando destroços como se conduzisse um Panzer em vez do Mercedes do pai. Levantei-me da cadeira ao segundo impacto e, quando o carro se deteve sem uma roda e sem o pára-brisas debaixo da minha varanda, depois de uma boa meia dúzia de ressaltos, já eu estava a postos para observar os danos finais (e marcar o 112). Durante alguns segundos, não aconteceu nada, ninguém saiu do carro. A noite ficou silenciosa como costumam ser as noites de Natal. O tempo congelou, como as poças da chuva congelam noutras noites. Depois saíram duas pessoas de trás dos airbags insuflados e mais três das portas traseiras. Não houve menos silêncio por elas terem saído: afastaram-se uns metros e ficaram a olhar o carro com pasmo idêntico ao meu. Passaram talvez uns três minutos quando finalmente a cena teve seguimento. O condutor, pouco mais do que adolescente, iniciou uma pouco surpreendente e estupefacta choradeira, encostado a um muro; as moças abraçaram-se, talvez agradecendo a «sorte»; os outros dois colegas masculinos, sacudindo as ideias, ponderaram enviar o condutor para casa, talvez não fosse sensato ele esperar a polícia e o alcoolímetro. Abandonei a cena quando começaram a chegar outros voyeurs e me lembrei que o meu carro estava estacionado naquela rua*.

Hoje houve lá fora um barulho que evocou aquele e me fez sentar ao computador a escrever esta história em vez de ir descansar mais cedo os ossos. E só a escrevi porque a realidade desta vez não fora interessante: era apenas um tipo cuja piela o convidara a deslocar-se pelas ruas arrastando uma chapa que ressaltava nos lancis e nos paralelos.  Às três e meia da manhã, era talvez a memória genética de um caçador-recolector a arrastar a sua presa ou a programação igualmente genética de um «macho viril» a arrastar pelos cabelos a sua fêmea. Ou era apenas eu que precisava de uma história e não de mais um bêbado sem interesse.

* Sobreviveu

IV Reich?


A imagem acima, com que tropecei no Facebook, é de um texto de Vasco Pulido Valente. Prosa de Outubro de 1989, no Independente.
Lembro-me deste artigo (ou de outros no mesmo sentido). O historiador conhecia a matéria e os seus cenários parecem assustadoramente certos, se entendermos a actualidade naquele sentido meio «bélico». Mas é curioso recordar que na altura VPV designava isto como «o problema alemão», quando hoje lhe parece conceder uma certa legitimidade, justeza. Como se o domínio da Alemanha, mais do que inevitável (pela sua pujança económica e pelos erros dos outros países) fosse uma questão de justiça, deixasse de ser um «problema» para ser a recompensa certa e até «moral» pelo seu mérito. Restando-nos, aos outros países, assumir a condição de vermes submissos.
Mas talvez não haja motivos para tanto fatalismo. A Alemanha certamente não se revê no retrato pulidiano de 1989, e talvez no final do dia, fruto de outro «problema» chamado «globalização», precise tanto da UE como a UE dela. Bolas, alguém tem de ser optimista — para pessimista (ou «realista», diria ele) basta o Vasco. De resto, não consta que as suas piores previsões tenham acertado. Por enquanto, pelo menos.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Manifestações

Para alguns comentadores, as greves e as manifestações são apenas folclore e uma maçada. Desvalorizam-nas, negam-lhes pertinência e genuinidade. Recusam aceitar que elas representem comunidade alguma. Defendem que nelas só participam grupos ociosos e/ou radicais, grunhos engajados com o PCP e o BE. Gente à procura de sarilhos e indiferente aos transtornos e aos prejuízos que causam. Os mais extremistas dos comentadores, se pudessem, claro, proibiam as manifestações.

Muitos destes críticos já estavam no activo em 2003, quando por toda a Europa as pessoas se manifestavam contra a guerra no Iraque. Então como agora, vituperavam ou despejavam sarcasmo nas manifestações e nos manifestantes. O argumentário usado não diferia muito do de hoje. Soletrava da mesma cartilha.

Como a História o comprovou, os manifestantes estavam então certos e os comentadores redondamente enganados. Muitos deles não passavam de rapazes iludidos com um ideário, prontos para acreditar em qualquer patranha envernizada da forma certa. As equipas de Bush e Blair confiaram nisso, conheciam o género.
A partir de uma mentira aceite com uma candidez e um voluntarismo surpreendentes, a guerra fez-se, e o prejuízo para o mundo foi tremendo, as ondas de choque ainda hoje se sentem. No entanto, esta rapaziada crítica de manifestações nunca deu o braço a torcer. O problema foi a mentira dos outros, não a sua credulidade pateta. Não ruborizaram quando caiu a máscara. Não sentem remorsos agora.

Contudo, o embaraço de 2003 devia inibir um pouco a seita, fazê-la pensar duas vezes sempre que dispara contra as manifestações. É bem verdade que existem manifestantes profissionais e gente à procura de sarilhos. Não se pode negar que muitos dos que engrossam as filas não têm nenhuma ideia do que estão a defender ou a atacar, muito menos têm qualquer contributo fundamentado para o debate. Mas, porra, quem são estes comentadores cadastrados para, por assim dizer, atirar a primeira pedra da calçada?

Não digo que as receitas da troika incluam mentiras conscientes sobre algo equivalente a armas de destruição massiva. (Também não digo o contrário.) Não digo que todos os manifestantes sejam de uma lisura inatacável. Mas não se deve ignorar que, ao contrário da «maioria silenciosa» supostamente prejudicada na sua inocência com as greves e as manifestações, muitos dos manifestantes, os mais assíduos, são pessoas que não votaram nos governos PS e PSD — o que talvez os alivie um pouco da culpa de termos vivido os últimos tempos acima das nossas posses. E, voltando a 2003, é bom lembrar que a intuição que leva um número crescente de pessoas a manifestar-se nem sempre deve ser menosprezada. Nunca se sabe se não está certa. 

domingo, 11 de novembro de 2012

Assobiar para o lado

Sei alguma coisa de ressacas, mas continuo maravilhado com a do Blasfémias. Quer dizer, já lá vão quatro dias: nadinha a dizer sobre as eleições nos EUA? Quanto tempo vão ficar em negação?

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A crise e a cultura: manigâncias

O ilusionista Luís de Matos, citado num artigo do JN, vê um lado positivo na crise que (também) afecta o sector cultural: «algumas companhias, cuja razão de existir sempre foi o facto de que certo dia conseguiram passar a ser subsidiadas, vão acabar.»
Aparentemente, este regozijo com o fim de companhias não tem origem num sentimento de injustiça ou inveja, porque no mesmo artigo o ilusionista revela que «só neste ano já fez 40 espectáculos à bilheteira» e, sublinha, «todos com lucro». Luís de Matos não tem portanto razões para cobiçar o famigerado «subsídio». Donde poderíamos concluir que quem se congratula com a extinção de companhias é o cidadão contribuinte que há nele.
Mas não. O seu é um desabafo de agente cultural. Ouçam-no: «A forma como se financia a cultura em Portugal é profundamente desmotivadora para quem trabalha e altamente proteccionista para os chamados subsídio-dependentes». (Luís de Matos trabalha; certas companhias, não, deduz-se.)
Lido com atenção, o discurso do ilusionista revela-se, afinal, apenas mais um lamento pela falta de apoios. Como português genuíno que é, o mágico não se incomodaria com uma ajudinha do Estado. Incomoda-se, sim, com a existência de «companhias que são subsidiadas há mais de duas décadas e, invariavelmente, os seus espectáculos têm 20 ou 30 espectadores». (Não revelou ao jornal se a contagem de cabeças nas plateias, ao longos dos anos, incluiu, generosamente, a do próprio ilusionista.)

Este género de manifestos ocorre com alguma frequência, artistas ou produtores que fazem coexistir no mesmo parágrafo a vaidadezinha pelo sucesso comercial e o lamento pela falta de apoio do Estado. Não notam a incoerência, são verdadeiros artistas portugueses.

Um pouco mais à frente, reforçando a sua perspectiva da crise enquanto bondoso «processo de selecção natural» e a confiança na sua própria fórmula, Luís de Matos diz que «quem faz bem, nada deve temer». Só não explicou o que entende por «fazer bem». Devem as companhias optar pela prestidigitação em vez do teatro ou da dança? Ou acredita o mágico que obteria idêntico sucesso comercial se encenasse Beckett ou mesmo o «imperecível» Shakespeare? Talvez o segredo de ter público para a dança não esteja em levar à cena «O Quebra-Nozes» no Natal, mas em ter o Luís de Matos a interpretar Merce Cunningham ou Pina Bausch. O Estado deveria era despejar dinheiro em produções destas, êxitos garantidos de bilheteira. Quem não pagaria para ver?

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Goddamn!

Curioso. Tirando a Helena Matos a assobiar para o lado (embora razoavelmente certa no assunto abordado), o blogue Blasfémias esteve hoje silencioso. Ressaca eleitoral?

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Povo, povão, povaréu


Há doze anos, no defunto Eito Fora:
Quem me conhece sabe que tenho em grande estima o nosso Eça de Queirós. Não é que me agrade ser chato, mas, como alguém disse, o cérebro tem razões que o coração desconhece. Ao ex-cônsul em Cuba admiro-lhe sobretudo a ironia. Este ano foi o aniversário da sua morte e a moda de dizer-se que «o Eça é sempre actual» ganhou novo ímpeto. Por ironia (agora do destino), sinto-me completamente démodé. É que há coisas que nem ao janota do monóculo lembrava.Num editorial do Districto de Évora, de há mais de cem anos, Eça fazia uma compungente apologia do povo. Confesso que li o texto imerso em lágrimas. Deixei-me abater pela saudade e corroer pelos remorsos. Eu, que me tinha por cínico, fiquei uma lástima, condoído da minha condição de membro da plebe. Mas, passado o pranto, dei-me conta do anacronismo da prosa. Em vão procurei naquele rol das virtudes do bom povo alguma analogia com os dias de hoje. Vejamos:Reza o editorial que «há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão». Com tal mote, predispus-me a olhar o meu semelhante com profundidade, procurando descobrir-lhe no rosto boçal a alma virtuosa. A exemplo do mestre, entalei sob o sobrolho esquerdo uma lupa de laboratório. Deambulei por ruas e praças em busca do vulgo. Observei-o no catre onde se recosta, na tasca onde bebe, no confessionário onde genuflecte, no prostíbulo onde se confirma, vi-lhe a manga do casaco, catei-lhe os piolhos, mas nada me revelou. Vi nas secretarias, nos gabinetes, nos cabeleireiros, nos jipes, subi montes, desci vales, revirei as pedras da calçada, espreitei atrás de árvores, mergulhei nas sarjetas, remexi as lixeiras — absolutamente nada. Fiz jogging em hipermercados, estive in nos restaurantes da moda, assisti a desfiles, fui a festas loucas, li a Nova Gente — riennothing.Desesperado, fiz maratonas na TV e na Internet vendo o Big Brother (uma casa portuguesa, diziam): em nenhum momento os anjos cantaram hossanas como naquele velho texto do periódico eborense.Em boa verdade, não encontrei o povo de que falava o José Maria. Corri o espectro social de uma ponta à outra: revoltou-se-me o estômago, ganhei uma úlcera, uma neurose, tornei-me suicida — sem resultados.Onde está aquela «raça de homens com instintos sagrados e luminosos»? Onde param as «divinas bondades do coração»? Que é feito da «inteligência serena e lúcida»? Que é do «amor pelo trabalho» e da «adoração pelo bem»?Aquele povo definhou. Está extinto. Tem sete palmos de terra por cima. Eclipsou-se.O povo actual, o nosso povo, o povo das estatísticas de iliteracia, do share de audiências, dos hipermercados, dos telemóveis, conservou os defeitos do bom povo queirosiano — mas perdeu todas as virtudes. Salvo meia dúzia de idosos que vão enfeitando os umbrais das portas das aldeias históricas de Portugal, o povo dos dias de hoje é (só) abjecto. Lava-se, corta e limpa as unhas, vai à escola, opina, vota, compra o "Expresso" — mas repugna. Trapaceiro, calaceiro, invejoso, cobiçoso, imbecil, inepto, boçal, cavalgadura, asno — eis uma sucessão de termos queirosianos quase elogiosos para o povo actual.

2. Tempos houve em que o mundo estava dividido em vários estratos. Mesmo sob risco de me acusarem de feudal, enumero-os: povo, burguesia, clero e nobreza. Havia uma divisão muito clara dos defeitos — cada classe tinha os seus. Hoje, a mistura desconcerta. A classe média é um albergue espanhol pior que o velho PSD e o actual PS: cabe lá tudo. Quer a gente insultar alguém e não sabe, em rigor, que epítetos lhe atribuir. Tudo se confunde num despropósito que haveria de indignar os nossos antepassados. E as restantes classes — baixa e alta — apenas se distinguem pela quantidade (ou ausência) de notas no banco. O resto, maneiras, educação, conhecimento, nivelou-se. Por baixo. Tal como os grandes partidos de esquerda e direita convergem, nestes dias pragmáticos, num grande centrão, as velhas classes diluíram-se numa só, que acumula os defeitos de todas: o povão.As classes unem-se pela falta dela. De classe. O assalariado reserva a noite para ver as novidades do "Big Brother" — o patrão grava-as em vídeo. A sopeira perde horas a ver a Maria — a patroa lê a Caras. O prestador de serviços filosofa exclusivamente sobre os programas de futebol que vê — o profissional liberal vai aos programas expor a metafísica da bola. O cidadão comum tem caprichos imbecis — o governante não olha a meios para agradar ao povão (de que, de resto, faz parte).Quando alguém fala do povo deve, além de se persignar, ter em conta que fala da quase totalidade da população portuguesa. O advento da democracia trouxe muitas coisas, mas acima de tudo obrigou as classes a submeterem-se à ditadura do povo. Do mais reles povo.Aqueles que defendiam a ditadura do proletariado e hoje estão tristes e desiludidos, não o deveriam estar. O proletariado não venceu a luta de classes — fez mais, assimilou as outras classes. Só que no processo perdeu as virtudes. Quem está hoje nos diversos órgãos de poder é o mais vil, o mais boçal povo. O povo não se pode queixar da má governação porque é ele quem governa. Não temos líderes políticos — temos representantes do povo. Os detentores de cargos públicos estão lá para satisfazer os piores caprichos do povo. (E fazem-no com suma perfeição e requinte!)O povo do tempo do Eça era boçal, ignorante, crédulo, rústico, bruto — mas tinha virtudes. Hoje é boçal, ignorante, crédulo, suburbano, bruto — e tem telemóvel.

3. Eu queria, sinceramente, fazer apologia de grandes sentimentos, nobres virtudes, sãs qualidades; queria seguir o exemplo do Eça e emocionar-me com o povo — mas dou comigo rondando a necrofilia. Quando leio sobre "o saber ancestral e sereno do povo", vejo um padre dando a extrema unção; quando alguém fala no "povo bom e honesto", aguardo que o coveiro recolha a pá; quando ouço que "o povo não é parvo", sei que é dia de visita ao cemitério; quando me lembram que "o povo é quem mais ordena", eis a minha vez de descer à cova — resigno-me e espero pela autópsia que me hão-de fazer.Para já, vou arranjar um lugar no umbral de uma porta ao lado de alguém que não tenha a infelicidade de saber que «o povo unido jamais será vencido»... 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sketch book

Partir-se a rir
Duas senhoras de idade, balanceando bastões ou bengalas, sapatos de desporto, calças de fato de treino. A mais nova fala e a outra ouve, retorque de vez em quando, faz perguntas. A dada altura, a senhora mais velha fica para trás, bengala fincada no chão, mão no peito. Decorrem segundos de incerteza. O que significa aquele silêncio, aquela pausa? Apoplexia? A iminência de um ataque cardíaco devido ao esforço da caminhada? O mundo fica suspenso. Então a mais nova vira-se para trás e afinal está sorridente. A outra explode por fim numa gargalhada que a estremece da cabeça aos pés, a desequilibra. Tinha sido dita uma pilhéria entre elas e o corpo da mais velha já não se entrega a um riso desbragado e franco sem uma preparação, o apoio da bengala. Retomou a passada apenas quando as ondas de choque cómicas desceram a níveis menos sísmicos.

Pai e filho
O pai leva o filho pequeno, quase bebé, ao colo. Param em frente ao bar eternamente por concessionar e espreitam pelo vidro. Lá dentro, ausência de mobiliário e garrafas dispersas pelo chão. O puto aponta e diz: «Coca-cola». O pai ri-se, mostra-se orgulhoso do feito. Talvez ache que é bom para o miúdo aprender cedo a reconhecer os produtos e as marcas que balizam a sociedade. Parece seguro afirmar que aquele miúdo já tem um clube, o pai decerto ensinou-o a papaguear o nome do seu. É isto que um pai faz.

Tendência Nabokov
A (pouca) idade, o corte de cabelo, o andar, as sapatilhas, a t-shirt, sobretudo os calções curtos e a frase: «E ele olha para mim e, tipo, calou-se, e eu fiquei assim, tipo a olhar para o lado». Não há dúvidas: lolitas de marca, um género em voga. Roupas e atitude de catálogo fashion, léxico de MTV. Talvez no mundo da moda para massas alguém tenha sido suficientemente irónico para apelidar o estilo de «tendência Nabokov».

Garça-real



Há três anos, num início de Outono chuvoso, descobri ao accionar o limpa-pára-brisas uma ave inusitada do outro lado do Corgo. Tinha estacionado de frente para o rio e dormitava sobre o livro. Ver o bicho pousado no pinheiro devolveu-me a alegria que o tempo cinzento e a chuva tinham roubado e ocupou-me o resto da tarde. Primeiro, a tentar identificar o alien penado e pesado. De seguida, esperando que se mexesse ou, ainda melhor, voasse, com uma trajectória favorável. Depois, a torcer para que, voando, regressasse ao poleiro original, para se deixar mirar de novo intensamente. Naquela altura ignorava que se tratava de uma garça-real e que estes bichos são capazes de ficar horas imóveis, ou quase. A verdade é que caiu a noite e mais não pude observar do que aquele perfil de cabeça recolhida entre os ombros.
Percebo pouco de pássaros, mas compenso com o muito que gosto deles. (Talvez um dia me torne observador de aves certificado, como o Jonathan Franzen; capa da Time é que não será tão fácil, mas nunca se sabe.) E por gostar deles dedico-lhes mais do que uma vista de olhos. Foi assim que pus de lado a suspeita mais fácil mas também menos entusiasmante de que se tratava de uma cegonha. Estas não abundam por aqui, mas os avistamentos são ainda assim suficientemente comuns para refrearem o entusiasmo. Contudo aquela “cegonha” distinguia-se das outras, até um amador como eu o notava. Penas cinzentas no dorso, aquela forma de recolher o pescoço... Fui consultar o guia de aves e este concordava comigo em como não era uma cegonha.
No dia seguinte, já em modo de jogging, voltei a espreitar o pinheiro curvado onde a bicha pousara e ali estava ela, como se não se tivesse movido de um dia para o outro. Vi-a então com frequência durante semanas, sempre sozinha, pousada no mesmo pinheiro derreado, raramente em voo, até que, instalado o Inverno, desapareceu, talvez em busca de clima mais favorável e de companhia do sexo oposto.
Para minha curiosidade e alegria, no ano seguinte ali estava de novo. Quer dizer, nada garantia que fosse a mesma ave, mas como pensar o contrário ao vê-la quotidianamente no mesmo pinheiro, com a mesma pose vigilante e solitária? Coincidência? O local tem um atractivo genérico para a espécie? Talvez.
A garça-real não é uma ave rara em Portugal, ocorre um pouco por todo o lado e com abundância no litoral e no Alentejo. Mas nesta parte de Trás-os-Montes não é assim tão frequente. Eu nunca tinha visto nenhuma e outras pessoas confirmam a raridade.
Ontem regressou, pelo terceiro ano consecutivo. Permito-me imaginar que é o mesmo animal e que, desobedecendo à máxima, todos os anos volta a um local onde foi feliz, porque amado. E talvez a sua presença seja também uma retribuição. Sinto-a assim, quando nos observamos mutuamente, cada um do seu lado do rio, dois bichos de temperamento solitário.

sábado, 29 de setembro de 2012

«Relvas alerta para perigo da falta de confiança nos políticos europeus»


Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão

O Secretário de Estado da Cultura tem sido acusado de insensibilidade perante as artes. Há um ano no Governo e, tirando umas pilhérias sobre o dinheiro, diz-se, não cunhou nada que se veja. Ora, isto é injusto, esta percepção do SEC como emissor de moeda. Ele não está lá para isso. O SEC não é um patrono, um mecenas. Essas eram atribuições de príncipes e papas, e, como se sabe, o Estado além de laico é republicano. À maneira yankee, nestes dias.
Não se julgue, contudo, que ao SEC a arte passa ao lado. Não. No último ano ele tem-se preocupado bastante com a área. Sobretudo depois das cinco da tarde, depois de ter largado o serviço e as mangas de alpaca. Quem o acusa de não ter obra devia ler a edição de 31 de Agosto do oficioso Correio da Manhã. Há obra. Ela chama-se O Coleccionador de Erva e foi prometida ao editor José Alberto Valente até 15 de Setembro, para ser apresentada ao público em Novembro.
Talvez não fosse bem isto que os amantes das artes esperavam, mas cada um faz o que pode. E Deus sabe como tem sido difícil o ano para o SEC. Ponham-se no lugar dele. Um novo emprego, cheio de responsabilidades, numa época terrível para o sector, um emprego que, agora mais do que nunca, exigiu empenho, entrega, imaginação, criatividade, liderança, visão. Um homem comum nestas circunstâncias chega a casa derreado, não consegue pensar noutra coisa. Talvez beba um whisky ou dois, mas de certeza que sonha à mesma com as mil e uma diligências que tem de fazer no dia seguinte para salvar o barco, de certeza que ocupa a inescapável insónia a cismar nos dramas que testemunhou ou nos projectos que tem em mãos. Um homem comum nestas circunstâncias não conseguiria escrever uma linha depois do emprego, se lograsse ter um «depois do emprego».
Mas o SEC não é um homem comum. O SEC é, antes de mais, um Escritor. E não se pede a um Escritor que interrompa a prosápia só porque mudou de emprego, só porque lhe confiaram mais responsabilidades, só porque tem uma pasta melindrosa nas mãos. Um Escritor escreve, é tudo o que ele faz.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.


***

O novo livro do Secretário de Estado da Cultura será muito popular. E sê-lo-á por um golpe de génio. O volume estava para se chamar apenas O Coleccionador, mas um dos spin doctors do Governo previu o escândalo, a inoportunidade da edição, e sugeriu que se acrescentasse erva à obra. A ideia era apaziguar a esquerdalhada das artes dando-lhe algo com que se identificar. O problema vai ser convencê-la a enrolar as páginas antes de as queimar.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Chefe mas pouco: notas sobre a segurança do PM


Não fiz uma análise intensiva das imagens televisivas que mostram o chefe da segurança do Primeiro-Ministro a passar-se. Mas identifiquei um padrão: o dos cães de estimação a reagirem em defesa do dono. Ali estava um exemplar impulsivo, com a perspicácia e a subtileza de um doberman jovem, apenas crescido de corpo. Imaginem o que aquele segurança não fará quando os cidadãos passarem do insulto ao bufardo.
   
Também foi um pouco canina a corroboração dos agentes fardados no exterior. O estudante detido para identificação podia ter-se manifestado contra o PM, concederam — mas não com insultos, repetiu um dos agentes. Estará o Governo a preparar-se para criminalizar o insulto? É possível. E talvez a blasfémia. Ideologia para isso não lhe falta. A ser assim, cos diabos, cheira-me que a polícia vai ter muito trabalho nos próximos tempos. Nem os santos se livrarão de tanto praguejar.

Já vi aquele chefe de segurança à ilharga do PM algumas vezes e, se não era exactamente um low profile, também não denunciava ter o sangue assim tão quente. Isso mostra que a) o estudante é particularmente dotado na arte de insultar, b) disse alguma verdade incómoda, ou c) o Governo anda com o dedo leve no gatilho. Nervosos, meus senhores?

Alguém devia explicar ao chefe da segurança do Sr. Primeiro-Ministro que a sua função não é ladrar aos manifestantes. A sua função é deixar-se crivar de balas em vez do dono. Não vê filmes?

De resto, se queria que o país não lhe conhecesse a cara conseguiu exactamente o oposto. Saltar para cima de um insultador e de uma câmara daquela forma é tão néscio como concorrer ao Big Brother com a esperança de não ser filmado.  

Se queria proteger o Primeiro-Ministro tapava-lhe as orelhas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Pequenos posts perfeitos

«Setecentos
Voltaire dizia que para ter sucesso não bastava ser estúpido, era também preciso ter boas maneiras. Como o mundo mudou.»

Pedro Mexia, no Lei Seca

Testemunho de Rosa*

«A mota fez-se ouvir subindo com dificuldade o caminho que conduzia à nossa casa. Eu estava no balouço, como em tantas tardes, só que naquele dia era de manhã. Eurico tinha dito que vinha almoçar e eu preparei um almoço bom, uma coisa de que ele gostava. Mas preparei-o muito cedo e depois fiquei sem saber o que fazer. Ou nada do que tinha para fazer era mais importante do que o almoço e por isso não me apetecia meter outros trabalhos pelo meio. Deixei o bico do fogão no mínimo e vim cá para fora, para o sol. Era um dia lindo de Agosto e havia fumo no Parque. Uma coluna de fumo escuro a sair das copas das árvores que era mesmo assustadora, como se houvesse ali um vulcão ou coisa assim. O Parque era, para mim, que o via de cima, um prado. Se eu quisesse, podia imaginar que não havia nenhum tronco de árvore por baixo, que as copas não estavam suspensas e niveladas uns metros acima do solo, que o chão era logo ali encostado às folhas como nos prados. Por vezes conseguia ver-me a correr colina abaixo e a deixar-me rebolar por cima daquelas folhas, como em pequena fazia nos terrenos para onde ia guardar o gado. Havia certos prazeres que a gente perdia quando crescia e eu pensava se não tínhamos razão em não querer crescer. Mas depois crescíamos e era ridículo se nos puséssemos a rebolar nos prados. Claro que não havia prado nenhum ali e as copas das árvores estavam muito altas, nalguns sítios a mais de trinta metros, que no Parque plantaram-se espécies da América e da Austrália ou lá o que foi. Mas eu estava no balouço quando a mota chegou. A minha cara estava a ficar morena porque eu cantava virada para o Sol, com os olhos fechados e o queixo levantado, e a pele queimava mesmo, se eu lhe pusesse a mão. Às vezes adormecia assim, não no balouço, que tinha medo de cair, mas quando me encostava num banco, e o Eurico dizia-me que vermelha estás, rapariga, mas gostava e eu gostava que ele gostasse, dizia-lhe põe aqui a mão e ele punha e eu gostava mesmo muito. E o pescoço também ficava bronzeado e o peito se eu abrisse dois botões da blusa, ali ninguém nos via e podíamos abrir botões, ou podia eu, não havia mais ninguém a não ser eu e o Eurico e ele abria a camisa toda e até a tirava, ficava em tronco nu e era bonito de ver, eu gostava muito. Eu tinha aberto dois botões e estava mesmo com muito calor e vermelha e só queria que ele chegasse para lhe dizer põe aqui a mão, não, aqui, e rir-me por o fazer pôr-me a mão nos peitos. Depois ele chegou e trazia um embrulho nos braços e eu fiquei radiante, era tão bom quando ele se lembrava de trazer um presente. Mas Eurico vinha com ar cansado e sério e eu abotoei a blusa e endireitei-me no balouço enquanto ele se aproximava como os pastores nos presépios, com a cabeça baixa e a estender-me os braços com o embrulho. Era uma coisa pequenina e não era um embrulho, mas um cobertor pequeno enrolado à volta daquilo deixando apenas uma abertura pequenina para respirar. No início ainda pensei que fosse algum animal para fazermos criação ou assim, mas não havia feira naquele dia, onde raio teria ele ido arranjar tal coisa. Claro que nas aldeias às vezes lhe davam uma galinha ou um coelho para comermos e eu gostava que ele fosse assim popular em todo o lado mesmo que não fosse de se rir muito, mas se hoje vinha almoçar a casa era porque não tinha ido para as aldeias e portanto não podia ser isso. Também era absurdo que ele trouxesse um animal de criação embrulhado num cobertor, onde já se viu, e não era um ar de alegria gulosa o que ele trazia, nem sequer era alegria, se eu consegui compreender bem o ar que ele trazia. Simplesmente foi-se chegando a mim a olhar-me com olhos que pediam perdão ou só olhos de súplica que não pediam perdão mas pediam ajuda. E eu cada vez mais inquieta e assustada, a sentir a felicidade descer-me pelo corpo, que se arrepiava ainda que estivesse o calor do meio-dia, a fazer também olhinhos de súplica, mas uma súplica diferente, uma que se condoía do ar desesperado dele e que lhe dizia diz qualquer coisa, homem, que trazes aí que te deixa assim como se te estivessem a matar os pais. E Eurico abriu a boca como um peixe num aquário e não disse nada porque as palavras não lhe saíam embora estivessem mesmo ali na ponta da língua onde a gente quase as conseguia ver. O que ele fez foi estender-me a criança e dizer sei que não é a mesma coisa, Rosa, e a criança começou a chorar nesse momento e antes de eu poder dizer alguma coisa tive de a segurar contra o peito e dizer pronto, pronto, enquanto a embalava da esquerda para a direita como via fazer às outras mulheres.»

* in Hotel do Norte

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Determinismo a la carte

«Que parte não perceberam: não há dinheiro!» Esta é uma forma estúpida de expressar as coisas, dotada do carisma e do potencial mobilizador de um preguiça pendurado pelas unhas, mas é possível que esteja certa. As reivindicações sectoriais, no seu egoísmo cego, conseguem aqui e ali um alívio para as suas particulares dores (quanto mais acima estiverem na hierarquia do capitalismo mais o conseguem), mas não resolverão nada de geral e fundamental. Provavelmente a crise é de tal forma que não nos vai restar alternativa ao empobrecimento e ao desemprego, ao desemprego desamparado. A distopia deixou de ser um género literário ou cinematográfico para ser o degrau seguinte da evolução. Talvez regressem a fome, a guerra, as deambulações fantasmais de massas esfaimadas. O fluxo urbano será no futuro constituído por hordas cambaleantes de novos caçadores-recolectores, antecedidas de breves incursões iradas de gangues apocalípticos à procura do último supermercado, da última mercearia, da última lata de conservas. Antes disso, um bife, quando aparecer, há-de novamente ter de chegar para uma família, e a semana de trabalho, para os que o tiverem, deixará de ser inglesa para ser neo-helénica (seis dias, não é?) e depois asiática (full time). Regressaremos às hortas, à pesca à linha, à economia baseada na troca de artigos, e um dia a população na Terra começara finalmente, naturalmente, a regredir.
Talvez os crentes na austeridade estejam certos e não mais possa haver classe média, assistência social, solidariedade de estado. Talvez seja até justo irmos ao encontro do nosso lugar no Terceiro Mundo, o destino a cobrar-nos a arrogância e o egoísmo de séculos, a cobrar-nos a imprevidência de cigarras patetas e eleitores imbecis. Sim, talvez não haja alternativa ao castigo.
Mas em que momento começarão o Governo e os poderes na Europa a testar outras vias? Em que momento concederão que por este caminho o desemprego não vai diminuir nunca? Quando estarão dispostos a aceitar que, com o empobrecimento geral da sociedade, era natural, expectável, que houvesse um empobrecimento proporcional dos ricos?
Que constatação determinista, fria, escolheram os líderes europeus: que tem de haver pobres ou que tem de haver ricos? Dito de outra maneira: para a gente que nos governa, a pobreza generalizada é inevitável ou é a riqueza de uns poucos que é em qualquer circunstância inegociável? 

Ócio: a última fronteira da humanidade

Num tempo em que os economistas parecem gurus lunáticos, com a fiabilidade de um Zandinga, e quando a economia avançou tanto na capacidade de distribuir bem-estar quanto a ciência na capacidade de prever sismos, talvez não fossem de deitar fora certas considerações que circulam na net, como as atribuídas a Agostinho da Silva no que toca à, mais tarde ou mais cedo, fatal incapacidade de o capitalismo assegurar emprego generalizado e de isso não ser por si um mal (ócio: a última fronteira da humanidade). Para cenários futurísticos, não viria mal em considerar-se desde já um que pensasse na partilha do trabalho, em horários individualmente reduzidos, sustentada por uma melhor redistribuição da riqueza produzida. Não é bem comunismo. Talvez bom senso?

O pateta elegante

Já me aconteceu antes, regressar de um curto período sem internet nem jornais e levar com a realidade nas ventas. Não há nenhuma surpresa, não é isso. O anúncio de Passos Coelho era previsível (como tudo nele), mas esperar as más notícias não nos alivia do mal que elas, quando ditas, oficializam e na hora começamos a sentir.
Leio agora os jornais e os blogues e deparo aqui e ali com perfis do Primeiro-Ministro, todos excessivos, todos errados. Estive poucas vezes perto dele, mas em algumas estive suficientemente perto para notar como Passos Coelho me faz lembrar o irmão de um amigo de há vinte anos: os mesmos olhos claros, os mesmos somíticos lábios finos, as mesmas sobrancelhas em calimérico vê invertido (já imortalizadas numa versão de célebre quadro piegas a pedir intervenção especializada de Celina Giménez), o mesmo cabelo ternamente alourado, à betinho, de minuciosa risca ao lado e com um corte que lhe deixa coberto o arco (ou ogiva spockiana?) superior das orelhitas, o mesmo queixo proeminente, quase, quase à Kirk Douglas, a mesma fotogenia de boneco de cera hollywoodesco — e o mesmo vazio sideral entre as orelhas.
Como o irmão do meu amigo, Passos Coelho tem presença e vaidade, faz-se notar e fala com voz segura, autorizada, mesmo quando diz alarvidades. Os imprudentes e os deslumbrados rendiam-se ao halo do irmão do meu amigo — na verdade um caixeiro-viajante ao serviço de uma multinacional do perfume ou da aspirina. Vanglória ou placebos eram o seu negócio e ganhava bom dinheiro com isso, o elegante pateta alegre.
No Governo, está de um lado o insustentável Relvas, com as suas negociatas e representando certos interesses com rabo de fora; do outro, estão os dogmáticos Gaspar e Santos Pereira, espécie de ultrazelosos marxistas do capital prontos para irem ao fundo com a sua cartilha, que é, nos dias que correm, tão útil como a carta de ligeiros para os submarinos de Portas; e no meio está Passos Coelho, vendendo com os seus melhores colgate, gravata e argumentário de literatura inclusa o que lhe impingem os outros três — sem olhar às contra-indicações. Tal como o irmão do meu amigo, Passos Coelho é um bom ventríloquo dos seus incumbentes — mas infelizmente a sua prosódia de papagaio só é boa para ele e para os seus patrões, não para o país que num dia de humor delirante o elegeu.

domingo, 26 de agosto de 2012

Aritmética para totós

Custavam menos ao país os 40 milhões da RTP2 do que vão custar os 140 milhões da concessão da RTP1. Não só em euros.

sábado, 25 de agosto de 2012

Caminhada de sábado à tarde

São um casal, vêm equipados com sapatilhas, calções e t-shirts coloridas, a dela laranja, a dele amarelo de colete reflector. Algo correu mal ao estacionar. Vêem-se a discutir apontando o carro, ora aproximando-se dele, ora afastando-se alternadamente com ar de quem já ouviu tudo e se vai embora, o outro que se foda. Mas voltam atrás e repetem argumentos. À distância percebe-se nos gestos o mal-estar, adivinham-se as expressões de ultraje e raiva. Partem por fim juntos, com passada desportiva sincronizada, lado-a-lado para mais uma caminhada saudável no parque. São um casal, é isto que fazem: desentenderem-se e aturarem-se. Desentenderem-se e aturarem-se até ao dia em que não se aturam mais ou se tornam indiferentes um ao outro.

Mas eis que ela volta atrás, cento e cinquenta metros depois. Traz a chave na mão, mete-se no carro e estaciona-o como deve ser, alinhado com as riscas brancas no pavimento. Isto ela conseguiu corrigir, o carro mal estacionado. Retoma a caminhada com o ar decidido de quem fez a coisa certa e devolve-lhe a chave ao passar por ele. Ele também está a corrigir qualquer coisa — a meia na perna, os cordões da sapatilha — mas ela não espera, prossegue o seu caminho.
Saíram fora do campo de visão e não se vê o desfecho, mas talvez ele a apanhe, agora que tem o equipamento ajustado, corrigido.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

RTP, extorsão e papalvos

Fecha-se a RTP2 (porque é cara e tem fraca audiência) e os contribuintes continuarão a pagar 140 milhões para um privado (provavelmente angolano) fazer o “serviço público” definido pelo Governo PSD/CDS. Como “privatização”, é brilhante. Privatização do dinheiro público.
Os portugueses julgavam que tinham elegido um governo, mas na verdade elegeram o Xerife de Nottingham.

A RTP1 não fazia serviço público. Quando muito, fazia servicinhos aos governos, e nem todos de cariz sexual. Ou fazia o serviço em público (era impossível não dar pelo cheiro). Se não se é coprófago, é-se de opinião que um canal como a RTP1 devia ser fechado, implodido, incinerado — ou, se quiserem, vendido (podia dar para adubos, sabe-se lá). Mas quando um licenciado express coadjuva um espectador do La Feria no Governo aparecem melhores ideias. Como esta de pagar a um privado para fazer o lindo serviço que a RTP1 fazia.
Ok, não será bem o mesmo serviço. Os neurónios extra que aqueles dois contrataram para juntar ao par que possuem matutaram e concluíram que terá de haver um novo caderno de encargos definido pelo actual Governo. Sim, porque cada um gosta de fazer a sua própria merda. De resto, ninguém tem dúvidas que se algum Governo houve em Portugal capaz de definir um serviço público de televisão ele foi eleito em Junho do ano passado. Serviço público e este Governo são como unha e carne: a unha deles, a nossa carne.

Portanto este hibrido pegajoso de PSD e CDS espremerá a cabecinha para criar um novo conceito de serviço público. Não precisava de se dar ao trabalho: já sabemos que o resultado será um novo preconceito de serviço público. Um preconceito cultural, ideológico e económico. Um serviço público adaptável à sacrossanta lei da oferta e da procura. Exactamente aquilo que o país nunca teve e estava a precisar.

Alguns dirão que a venda da RTP serviria melhor os interesses nacionais. Haveria um razoável encaixe financeiro e, ao fim e ao cabo, a merda que iria para o ar seria a mesma. Quer dizer, nesta concessão, o operador privado terá de se preocupar com receitas (não muito, é certo) e terá de competir pela sua quota de audiências medíocres (isso estará no caderno de encargos). Porquê hão-de então os contribuintes continuar a pagar por um serviço que outros operadores privados já garantem? E porque hão-de os contribuintes pagá-lo a uma empresa privada?

Porque em certas circunstâncias ser papalvo é bom. Ser papalvo sob a gestão de um executivo PSD é bom. Foi isso que o esbirro António Borges veio dizer aos portugueses em nome do cobarde do Xerife de Nottingham.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prédios

1.
Vi-o de cabeça levantada — medindo o colosso com ar entendido, o indicador percorrendo os pisos com minúcia de sapador — e por momentos pensei que estudava a distribuição de cargas adequada para implodir um dos prédios “Coutinho” cá do burgo. Mas não. Era só um turista divertido, contando quantos pisos o mamarracho tinha acima das vivendas em redor, recolhendo amostras para uma antropologia lusitana, tirando fotos para o seu álbum de aberrações de Portugal.
  
2. 
O anúncio lista os atractivos do apartamento à venda num andar estratosférico do Porto. Das muitas virtudes mencionadas, só uma é verdadeiramente irresistível: o andar tem vista para «a relva do Estádio do Dragão». Não era dito qual dos tufos da relva do Estádio do Dragão — o anúncio carecia de detalhe.
Mas era um anúncio inteligente, dirigido a um vasto especto de compradores. Entre os candidatos a morar em tão celestial nuvem estão inúmeros portistas detentores de binóculos e, desconfio, alguns benfiquistas com licença de porte de carabina com mira telescópica.
  
3. 
Os edifícios residenciais por vezes adoptam nomes que lhes garantem distinção, ou, em fase de venda, lhes prometem compradores. Não vi até à data nenhum título capaz de despertar mais o instinto consumista num sem-abrigo do que “Varandas da A4”. A A4 é, adivinharam, uma auto-estrada — e alguém concebe melhor forma de passar os dias domésticos do que à varanda a ver o tráfego Porto-Amarante? Eu não.

Cristo faz parapente: a foto


Era a esta aparição que se referia este post ("Cristo faz parapente").

P.S. Bonita, não é? A foto é de Paulo Araújo.

Ontem

1. Tecnologia Gutenberg
Às cinco e meia da tarde, na piscina, julguei por momentos que o meu cérebro fora sequestrado pela silly season. Tinha pago mais de cinco euros para ficar sentado numa cadeira de lona a sofrer as sevícias de uma selecção musical idiota, com o volume regulado para surdos profundos. Depois, ufa!, lembrei-me que podia abrir o livro ou ir nadar. Experimentei nadar e deu resultado: debaixo de água quase não se ouve a música. No entanto, esta solução revelou-se ineficaz a longo prazo — há limites para o tempo que aguentamos sem respirar (se não estivermos assim tão desesperados com a música). Agradeci sem sinceridade ao nadador-salvador por me ter trazido à tona (eu estava assim tão desesperado) e, de volta à cadeira, abri o livro. Iniciou-se de imediato o processo de teletransporte dali para fora. Devia ter optado desde logo pela tecnologia Gutenberg.

2. Efectivamente, escuto as conversas
Na esplanada do restaurante ouvia-se à noite música de altifalantes. O largo da terra era ali ao lado e este era o fim-de-semana da festa. (O meu cérebro tinha sido sequestrado pela silly season, caso contrário o que fazia ali eu?) De qualquer modo, o conjunto ainda não tinha começado a tocar, pelo que as lesões nos tímpanos eram para já reversíveis. Se eu saísse antes das 23h00 as coisas não iam de certeza piorar.
Mas pioraram. Pode haver coisas piores do que altifalantes roufenhos a debitar hits pimba. Como por exemplo sentar-se na mesa ao lado da nossa um par de machos lusitanos ébrios de 4x4 e de uma meia dúzia de cervejas bebidas no fim de uma tarde a rolar no monte.
Ao lado da sua irrequietude envolta em t-shirts com logótipo e do seu vozear de gorila na tundra (talvez a imagem certa seja chimpanzés com voz de hienas), as músicas do grupo Chave D’Ouro que se ouviam antes pareciam suites de Bach para violoncelo.
Não havia uma piscina por perto para onde me pudesse atirar (com a base de cimento do guarda-sol amarrada ao pescoço) e em vez de um livro tinha trazido o Expresso. (Céus, o Expresso!) Estava portanto dependente da velocidade da cozinha e da velocidade das minhas mandíbulas. O chef não colaborou (as mandíbulas sim, quando finalmente lhes foi dada a oportunidade), pelo que tive de suportar a minha meia hora de calvário ouvindo as conversas da mesa ao lado. Nada a que não esteja habituado. Quer porque apenas posso frequentar restaurantes populares (troika obligé), onde as conversas são geralmente mantidas aos berros de licitadores num leilão de porcos, quer porque tenho o vício estúpido de recolher matéria para livros que ninguém quer editar, provavelmente ninguém quer ler, e eu decerto não sei escrever.

domingo, 19 de agosto de 2012

A acordeonista

A excursão desce do autocarro para lanchar. Saem do porão os comes e bebes, as arcas e os copos descartáveis, os garrafões e os banquinhos articulados. Para o fim do repasto, quando os ânimos estão aquecidos e as gargantas anseiam pela desgarrada, sai o acordeão. É uma adolescente que o carrega e é ela que o tocará. Com um olhar distante: o rosto voltado para o rio, para a estrada, para as crianças nos balouços, para as copas das árvores, raramente encarando as teclas que prime ou os cantadores que se desafiam e os foliões que os rodeiam. Dos dedos saltitantes saem-lhe melodias tradicionais, populares, faceiras, por vezes com letras apimentadas. Mas a sua expressão não se altera, não transparece a alegria das peças que a acordeonista executa nem ruboresce com as palavras brejeiras que os outros cantam. A sua expressão permanece neutra. Talvez entediada. Talvez desolada. Talvez desesperada. Amaldiçoando a vocação, o talento. Amaldiçoando-se por o ter deixado manifestar-se e pelos dias de aprendizagem e treino. Se fosse duma família aristocrata do século XIX, talvez a tivessem forçado às aulas de piano — e os seus recitais nos serões que a família ofereceria seriam igualmente mecânicos, contrariados, ao serviço de interesses e gostos que não seriam os seus, não seriam os de mademoiselle Bovary.

sábado, 18 de agosto de 2012

Dinamite

O meu amigo é especialista em perfuração com explosivos. Recentemente contrataram-no para uma intervenção no metro de Roma, mas não há qualquer relação entre isso e as notícias de que o Coliseu está a ficar inclinado.
Uma amiga do meu amigo tinha toupeiras no jardim e queixava-se disso. Ele resolveu intervir. Minou o terreno, com cargas cirurgicamente distribuídas e ligadas entre si, posicionou-se, e, accionando o detonador à distância, rebentou com o jardim. Foi uma limpeza, diz. E bonito: o jardim elevou-se uns trinta centímetros, com um fragor surdo, e regressou ao chão. Revolto como se tivesse andado por ali um engaço furioso. Não havia mais toupeiras. Nem jardim. Agora era só passar um ancinho e semear nova relva, disse ele, com aquele sorriso de menino, de menino traquinas. Um sorriso de Calvin. Perguntei-lhe como se chamava a amiga, mas não, não era a Susie.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Cristo faz parapente

No meu percurso de jogging aparece a certa altura um Cristo crucificado. Não, não é um milagre. Cristo não me escolheria para aparições dessas, não sou uma testemunha credível: demasiada propensão para crer no fantástico. Trata-se de uma escultura religiosa postada em frente a uma capela. À distância, parece uma espécie de cruz ortodoxa, com um segundo travessão acima da cabeça de Cristo. Mas este travessão é maior e não menor, e vinte passadas depois confirmamos que é na realidade uma cobertura em chapa, para que o Filho de Deus não molhe a coroa de espinhos.
Entre estes dois momentos, ou entre estas duas distâncias, há uma outra ilusão. A dez passadas, sem óculos, a cobertura — com as suas duas águas mas sem vértice na cumeeira, curva como um tecto de hangar, ligada por duas tiras ao madeiro onde Cristo tem os braços — surge insuflada como um pára-quedas. É como se o Nazareno praticasse parapente.
Não sei se é assim que Ele desce dos Céus nos dias de aparições, suponho que não. Seria como “caminhar” nas águas sobre uma prancha de surf, excitante porém fraudulento. Todavia, um Cristo “radical”, que também fizesse a Sua ascensão escalando com as mãos e pés-de-gato, como todos os alpinistas, ao invés de o fazer flutuando com propulsão telepática, seria certamente mais humano — e não mais um dos mutantes dos X-Men.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Piropos

Um documentário sobre piropos, informa o JN, criou polémica na Bélgica. Ainda bem. Há coisas que têm de se discutir.
Não será preciso procurar atrás de giestas, debaixo de calhaus ou nas caixas de comentários da Internet machistas defendendo o carácter inofensivo, divertido, até elogioso dos piropos. Gente distinta e bem formada falará de excesso de zelo, de radicalismo feminista, de frigidez. Tipos (homens) que, pela sua experiência pessoal, do seu ponto de vista, acham que nada de mal há com os piropos. Tipos que, claro, não estão habituados a pôr-se no lugar das mulheres.

Há mulheres que circulam na rua de headphones ligados e olhos no chão para não terem de enfrentar a verve masculina. Há mulheres que deixam de ir a uma piscina ou a uma praia ou a um café sozinhas por não suportarem o voyeurismo e os permanentes e intrusivos gracejos masculinos. Há mulheres que condicionam o seu vestuário para não darem azo a olhares esgalgados e galanteios babosos, cuspidos a distâncias por vezes abusivamente curtas, e não raro com mãos a acompanhar.

A sinfonia dos piropos é uma música que as mulheres não pediram e, creio, a maioria dispensa. Além disso, as mulheres pressentem, sabem, sofrem na pele que nem todos os homens conhecem o que separa um piropo da inconveniência, da impertinência, do incómodo, do assédio. De algo pior. Só por isso, o piropo é indefensável.
Não precisamos de muito esforço de imaginação para percebermos como as mulheres têm a vida condicionada em relação aos homens, mesmo no civilizado e liberal mundo ocidental. Pensem os homens um minuto nas coisas que as mulheres não fazem como eles e talvez tenham uma ideia de como a defesa do piropo é uma causa frívola, egoísta. Machista.

De resto, muitos homens experimentam (e não gostam) situações análogas, quando a sua barriga proeminente, a sua careca precoce, o seu nariz aquilino, as suas grandes orelhas, a sua reduzida estatura, a sua estupidez ou seja o que for que tenham de característico são alvo de permanentes comentários e gracinhas. Ou quando o seu desempenho no trânsito causa desagrado aos outros. Os homens experimentam estas situações e não gostam, sentem a humilhação, o incómodo, a intrusão e enfurecem-se, reagem, não raro com violência. Ou ficam impotentes, a chorar de raiva, se a situação não lhes é favorável — como geralmente não o é à mulher que ouve o piropo.
É só lembrarem-se disso da próxima vez que forem num carro e resolverem buzinar as pernas da mulher que passa na berma, ou estiverem pendurados num andaime e acharem que têm de comentar o decote que lhes passa por baixo, ou sentados na esplanada se sentirem autorizados a assobiar a saia com que o vento se mete, ou ao circular no passeio em manada entenderem guinchar como os excita o traseiro da que vai à frente ou as mamas da que se aproxima em sentido contrário.

Biologicamente, nem sempre é possível ao homem ficar impávido perante a mulher. Há as hormonas e a sua influência no ritmo cardíaco. Há talvez intumescimento. Mas é disso que trata a civilização: de dominar impulsos. Não matamos ou sequer insultamos todos os que achamos que o merecem, pois não? Deixemos então as mulheres em paz na sua vida ainda que achemos que as suas formas merecem todos os elogios. Talvez elas até nos apreciem mais por isso.

A educação é uma das formas de civilizar o selvagem que há em nós. Mas por vezes, para sermos melhores pessoas, do que precisamos é de nos livrarmos da educação que tivemos. Alijar o português mediterrânico, bigodudo e façanhudo que há em nós é uma obrigação. E mesmo assim é insuficiente, como mostra o documentário realizado na setentrional Bélgica.

domingo, 5 de agosto de 2012


Diário de férias (12)

E pronto, acabou-se a comissão de serviço. Acabaram-se as crónicas do Alentejo Interior. Foi uma dura missão, difícil: a árdua horizontalidade e o frio vasilhame de branco. A longa perscrutação da planície, percorrida com lentidão e cautelas de sapador, ou apenas cartografada com imobilidade (mas não insónia) de sniper — à sombra de um impiedoso alpendre. Missão que o sentido do dever impele a continuar, por muitos e penosos meses, mas que infelizmente a fraqueza humana força a interromper, cobardemente, numa cedência hedonista a esse vício do instinto que é o trabalho. Ah, a vil condição do homem!

***

Os longos dias meridionais foram curtos para as meditações da planície. Havia assuntos a explorar que a sesta adiou, obliterou. Como a promissora e literária coincidência de se chamar Demeter (Ceres) uma das personagens de A Informação*. Ou a suspeitada especialidade de uma superconcorrida marisqueira na costa alentejana: enrolar os clientes, como o mar enrola na areia (a reincidência vivida ou testemunhada de lapsos — a conta insistindo em cobrar vinhos diferentes ou itens não consumidos — parece sugerir uma infeliz tendência). Ou a descrição do paraíso no oásis alentejano, passe a redundância: Herdade dos Grous, essa amostra do que a vida devia ser — sol, água e vinho servidos pela arquitectura e pela natureza ancestrais, comedidamente auxiliadas por judiciosa mão humana. Ou a presença espectral, indagante (e, sim, risível, de incompleta transgressão adolescente) no festival Sudoeste durante o concerto de Eddie Vedder — do lado de fora do recinto, espreitando sobre a vedação. Ou o Magret de Pato no Vovó Matilde: esse exemplo de como podem a imaginação e a ousadia ser bem-sucedidas e quase luxuosas, esse recente ex-libris de Beja com as suas cadeiras e mesas e pratos e talheres desirmanados, de antiquário humilde ou sótão avoengo empoeirado e carpintaria rude, irmão mais novo da Galeria do Desassossego, com ela pondo a cidade alentejana no mapa do desejo, ela que também está nesse mapa por mão dos Virgem Suta, que tem o mesmo Jorge Benvinda como cara-metade. Ou a morte e a vida do Teatro, representada ontem num palco ao ar livre da planície: a morte para o grande público (risinhos, tiradas imbecis, impaciência, desatenção, tentativa de reconhecer a celebridade dos actores, ruído, o omnipresente rugir e resfolegar da turba numa proximidade distante, segura, temerosa ou sobranceira, de expectativas defraudadas por incumprimento da imbecil bitola imposta pela TV e pelos comediantes de sucesso, acarinhados pelos media e pelo poder) e a vida, a vida que lhe dão algumas companhias e actores, só eles, abandonados pelos mecenas, o poder, o público — e talvez a História, ou o progresso que a escreve.

* Martin Amis, Quetzal

sábado, 4 de agosto de 2012

Diário de férias (11)



Aos que consideram monótono ou delirante este diário de férias faço saber que os meus dias têm sido muito preenchidos, mas nem tudo pode aqui ser registado. Os devaneios que vão lendo não substituem na verdade a intensa acção das férias — são-lhe correlativos, ocorrem em simultâneo. Ontem, por exemplo, enquanto pensava na circularidade da vida, neste regresso a territórios anteriormente visitados, estava bastante ocupado com a prática da natação sincronizada. Como prova a foto*.

*Não se iludam com o tamanho da piscina. Já ouviram falar em Gulliver? C'est moi.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Diário de férias (10)


Há vinte anos fiz a minha primeira aproximação ao Algarve. Não em férias. Era militar à força em Elvas e a 25 de Julho o nosso regimento mandou algumas companhias para um campo de batalha a sul, nas proximidades de Castro Verde. Não em combate, felizmente os mouros tinham-se retirado alguns séculos antes, decerto por cautelosa antecipação à ferocidade indolente da primeira incorporação de 1990. Íamos celebrar a Batalha de Ourique, de 1139, peleja que D. Afonso Henriques terá ali travado contra os Mouros. Parece que a venceu, ou pelo menos logrou sobreviver-lhe para ser aclamado rei, o que do ponto de vista dele pôde sem dúvida ser considerado uma vitória.
A cerimónia decorria sob um tórrido sol baixo-alentejano no outeiro a que chamaram de S. Pedro das Cabeças (numa referência macabra ao piquenique patriota de Henriques no século XII) e houve uma sucessão de militares — praças, sargentos e oficias — a desabarem democrática, silenciosa e geometricamente. Em dominó. Não ainda pelas hostilidades — mas por insolação ou fraqueza (na tropa por vezes saltava-se o pequeno-almoço, na ânsia mal contida de chegar a horas à bem-amada parada matinal).
Depois das cornetadas e vozes de comando da praxe, depois de algumas piruetas coreográficas que o exército aprecia, imediatamente antes das dissertações generalícias, começou então a contenda. Se se tratasse de uma recriação da famosa batalha, não teriam havido o mesmo empenho e verosimilhança. Se apenas tivesse havido discursos patrióticos e evocações poéticas, odes triunfais — opção habitual do Estado-Maior —, não só não teria havido empenho nenhum como teriam certamente caído muitos mais militares no teatro de operações — mortos de tédio. O que salvou o dia foi a incursão de um enxame de abelhas, uma célula terrorista criada em colmeias na encosta do morro e naquele dia activada por descendentes de mouros — que os há por ali, movendo-se na sombra de chaparros e oliveiras. Era, estou seguro, uma operação integrada num mais amplo e maquiavélico plano de vingança islâmica, com ligações precoces e perfumadas, melífluas, à Al Qaeda.
Felizmente o espírito lusitano e o exemplo afonsino dominavam a manhã e, antes de ter de abandonar as fileiras, a tropa, ignorando o alinhamento da parada duramente conseguido, ignorando a bonita sequência de atenção-firme-sentido-ombro-arma que tanto excita algumas esposas de oficias, a tropa, dizia, sacou de boinas e quicos — e ofereceu uma resistência abespinhada. As ordens eram de firmeza e rigor geométrico, aprumo, mas ninguém pode censurar a soldadesca por preferir um combate menos coreografado, menos napoleónico e estúpido na sua harmonia de movimentos. Quer dizer, falamos de abelhas: não se combatem abelhas com brio militar. Ou sincronia de gestos (isso é natação olímpica). As abelhas combatem-se esbracejando e praguejando, brandindo bonés e barretes como espadas, golpeando o ar como se de cabeças de maometanos se tratasse, sacando das calças as fraldas da camisa em resposta a infiltrações (não queremos uma quinta coluna nas nossas costas)… As baionetas seriam usadas mais tarde, com um dente de alho, sobre os golpes agudos e derradeiros do inimigo suicida — se a lâmina estivesse suficientemente fria para a mezinha tradicional.

Há vinte anos, dizia eu, visitei pela primeira vez os outrora designados Campos de Ourique, onde hoje se situa o meu acampamento de Verão — a um escasso e na altura insuspeitado quilómetro do outeiro de S. Pedro das Cabeças, cuja ermida, mandada erigir pelo eclipsado D. Sebastião, comunica visualmente com a simpática Senhora de Aracelis e mais umas cinco irmãs, reza a lenda.
Há vinte anos não cheguei ao Algarve, com pesar adolescente (as praias que tentava ver com os meu contristados olhos milicianos do cimo de S. Pedro das Cabeças mantiveram-se à distância por mais algum tempo). Hoje constato que estou um feliz quilómetro mais longe do Algarve do que naquele desolado dia 25 de Julho dos inícios de 90 — e dá-me um prazer perverso informar disso o rapazola convencional que fui.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Senhora de Aracelis


A capelinha a que se refere o post anterior.

Diário de férias (9)

A poucos quilómetros do meu alpendre, a nordeste, existe um morro com vistas esplendorosas para os campos brancos e uma bonita capelinha no cimo. É a Senhora de Aracelis (ou Ara-Celes, Ara-Cellis, Ara-Celis, consoante o sítio onde lemos o nome).
À primeira vista, parece uma santa pouco canónica, com tal designação. Na verdade, é um nome de cristalina transparência. Ara Coeli é o latim para Altar do Céu, e poucas coisas estão aqui, na planície, mais próximas do Éter do que o morro. Mas, se tivermos em conta que aquele é um local tradicionalmente venerado pelos agricultores dos concelhos em redor, talvez possamos pensar num altar menos genérico, suspeitar de um dedicado particularmente a Ceres, a deusa romana da agricultora, da fertilidade, dos cereais (aliás baptizados a partir dela). Provavelmente vem de longe a prática do Alentejo como celeiro. De um tempo em que os deuses eram pagãos e a Igreja Católica ainda não os tinha recriado no seu panteão de santos — um exercício de resto com semelhanças ao que os romanos tinham feito com os deuses gregos. (E egípcios: Ceres, aliás Deméter, aliás Isis…)
Como aprendi com um amigo, a conversão ao Deus único não foi um exercício pacífico, implicou concessões por parte da Igreja. As populações resistiam a abandonar os seus deuses ancestrais (certamente pelos excelentes serviços que estes haviam prestado) e a única maneira de as estatísticas serem favoráveis aos recenseadores católicos era deixar que o povo continuasse os seus cultos no seio da Santa Madre Igreja. A intenção dos estrategas católicos com a falácia dos santos era a mesma que o Governo de Passos Coelho tinha quando despromoveu o Ministério da Cultura: «Vamos só mudar o nome», diziam, «a função mantém-se». Mas o sofisma não correu tão bem à Igreja como está a correr ao Governo: os cultos sobreviveram.

É agradável pensar nesta palavra, Aracelis. Enquanto noutros altares os deuses pagãos viram o seu nome substituído ou corrompido até soar cristão, aqui, talvez prenunciando a resistência alentejana à Igreja, a designação do local de culto manteve-se teimosamente próxima das origens. Pena é que a Ceres se tenha entretanto tornado tão pouco útil para as searas alentejanas quanto a Senhora da Graça ou o senhor S. Pedro das Cabeças, moradores em morros vizinhos.

***

A ida à Senhora de Aracelis envolve um ritual. Depois da via principal, na maior parte do percurso de nove quilómetros a estrada é tão estreita que só passa um automóvel de cada vez (o que aliás é comum no acesso a várias aldeias). Perspicazes, os construtores da via planearam baías a intervalos regulares, ora de um lado, ora do outro, de modo a que um dos condutores possa encostar para que se cruzem dois veículos. Sempre que isso acontece, aquele que viu a passagem franqueada, se for educado, levanta a mão e agradece. Acredito que esta inspiração foi um último contributo da deusa moribunda para a harmonia entre vizinhos. Pelo menos a mim fez-me sentir sociável, ali, dentro do Chevrolet a acenar.