quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Povo, povão, povaréu


Há doze anos, no defunto Eito Fora:
Quem me conhece sabe que tenho em grande estima o nosso Eça de Queirós. Não é que me agrade ser chato, mas, como alguém disse, o cérebro tem razões que o coração desconhece. Ao ex-cônsul em Cuba admiro-lhe sobretudo a ironia. Este ano foi o aniversário da sua morte e a moda de dizer-se que «o Eça é sempre actual» ganhou novo ímpeto. Por ironia (agora do destino), sinto-me completamente démodé. É que há coisas que nem ao janota do monóculo lembrava.Num editorial do Districto de Évora, de há mais de cem anos, Eça fazia uma compungente apologia do povo. Confesso que li o texto imerso em lágrimas. Deixei-me abater pela saudade e corroer pelos remorsos. Eu, que me tinha por cínico, fiquei uma lástima, condoído da minha condição de membro da plebe. Mas, passado o pranto, dei-me conta do anacronismo da prosa. Em vão procurei naquele rol das virtudes do bom povo alguma analogia com os dias de hoje. Vejamos:Reza o editorial que «há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão». Com tal mote, predispus-me a olhar o meu semelhante com profundidade, procurando descobrir-lhe no rosto boçal a alma virtuosa. A exemplo do mestre, entalei sob o sobrolho esquerdo uma lupa de laboratório. Deambulei por ruas e praças em busca do vulgo. Observei-o no catre onde se recosta, na tasca onde bebe, no confessionário onde genuflecte, no prostíbulo onde se confirma, vi-lhe a manga do casaco, catei-lhe os piolhos, mas nada me revelou. Vi nas secretarias, nos gabinetes, nos cabeleireiros, nos jipes, subi montes, desci vales, revirei as pedras da calçada, espreitei atrás de árvores, mergulhei nas sarjetas, remexi as lixeiras — absolutamente nada. Fiz jogging em hipermercados, estive in nos restaurantes da moda, assisti a desfiles, fui a festas loucas, li a Nova Gente — riennothing.Desesperado, fiz maratonas na TV e na Internet vendo o Big Brother (uma casa portuguesa, diziam): em nenhum momento os anjos cantaram hossanas como naquele velho texto do periódico eborense.Em boa verdade, não encontrei o povo de que falava o José Maria. Corri o espectro social de uma ponta à outra: revoltou-se-me o estômago, ganhei uma úlcera, uma neurose, tornei-me suicida — sem resultados.Onde está aquela «raça de homens com instintos sagrados e luminosos»? Onde param as «divinas bondades do coração»? Que é feito da «inteligência serena e lúcida»? Que é do «amor pelo trabalho» e da «adoração pelo bem»?Aquele povo definhou. Está extinto. Tem sete palmos de terra por cima. Eclipsou-se.O povo actual, o nosso povo, o povo das estatísticas de iliteracia, do share de audiências, dos hipermercados, dos telemóveis, conservou os defeitos do bom povo queirosiano — mas perdeu todas as virtudes. Salvo meia dúzia de idosos que vão enfeitando os umbrais das portas das aldeias históricas de Portugal, o povo dos dias de hoje é (só) abjecto. Lava-se, corta e limpa as unhas, vai à escola, opina, vota, compra o "Expresso" — mas repugna. Trapaceiro, calaceiro, invejoso, cobiçoso, imbecil, inepto, boçal, cavalgadura, asno — eis uma sucessão de termos queirosianos quase elogiosos para o povo actual.

2. Tempos houve em que o mundo estava dividido em vários estratos. Mesmo sob risco de me acusarem de feudal, enumero-os: povo, burguesia, clero e nobreza. Havia uma divisão muito clara dos defeitos — cada classe tinha os seus. Hoje, a mistura desconcerta. A classe média é um albergue espanhol pior que o velho PSD e o actual PS: cabe lá tudo. Quer a gente insultar alguém e não sabe, em rigor, que epítetos lhe atribuir. Tudo se confunde num despropósito que haveria de indignar os nossos antepassados. E as restantes classes — baixa e alta — apenas se distinguem pela quantidade (ou ausência) de notas no banco. O resto, maneiras, educação, conhecimento, nivelou-se. Por baixo. Tal como os grandes partidos de esquerda e direita convergem, nestes dias pragmáticos, num grande centrão, as velhas classes diluíram-se numa só, que acumula os defeitos de todas: o povão.As classes unem-se pela falta dela. De classe. O assalariado reserva a noite para ver as novidades do "Big Brother" — o patrão grava-as em vídeo. A sopeira perde horas a ver a Maria — a patroa lê a Caras. O prestador de serviços filosofa exclusivamente sobre os programas de futebol que vê — o profissional liberal vai aos programas expor a metafísica da bola. O cidadão comum tem caprichos imbecis — o governante não olha a meios para agradar ao povão (de que, de resto, faz parte).Quando alguém fala do povo deve, além de se persignar, ter em conta que fala da quase totalidade da população portuguesa. O advento da democracia trouxe muitas coisas, mas acima de tudo obrigou as classes a submeterem-se à ditadura do povo. Do mais reles povo.Aqueles que defendiam a ditadura do proletariado e hoje estão tristes e desiludidos, não o deveriam estar. O proletariado não venceu a luta de classes — fez mais, assimilou as outras classes. Só que no processo perdeu as virtudes. Quem está hoje nos diversos órgãos de poder é o mais vil, o mais boçal povo. O povo não se pode queixar da má governação porque é ele quem governa. Não temos líderes políticos — temos representantes do povo. Os detentores de cargos públicos estão lá para satisfazer os piores caprichos do povo. (E fazem-no com suma perfeição e requinte!)O povo do tempo do Eça era boçal, ignorante, crédulo, rústico, bruto — mas tinha virtudes. Hoje é boçal, ignorante, crédulo, suburbano, bruto — e tem telemóvel.

3. Eu queria, sinceramente, fazer apologia de grandes sentimentos, nobres virtudes, sãs qualidades; queria seguir o exemplo do Eça e emocionar-me com o povo — mas dou comigo rondando a necrofilia. Quando leio sobre "o saber ancestral e sereno do povo", vejo um padre dando a extrema unção; quando alguém fala no "povo bom e honesto", aguardo que o coveiro recolha a pá; quando ouço que "o povo não é parvo", sei que é dia de visita ao cemitério; quando me lembram que "o povo é quem mais ordena", eis a minha vez de descer à cova — resigno-me e espero pela autópsia que me hão-de fazer.Para já, vou arranjar um lugar no umbral de uma porta ao lado de alguém que não tenha a infelicidade de saber que «o povo unido jamais será vencido»... 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sketch book

Partir-se a rir
Duas senhoras de idade, balanceando bastões ou bengalas, sapatos de desporto, calças de fato de treino. A mais nova fala e a outra ouve, retorque de vez em quando, faz perguntas. A dada altura, a senhora mais velha fica para trás, bengala fincada no chão, mão no peito. Decorrem segundos de incerteza. O que significa aquele silêncio, aquela pausa? Apoplexia? A iminência de um ataque cardíaco devido ao esforço da caminhada? O mundo fica suspenso. Então a mais nova vira-se para trás e afinal está sorridente. A outra explode por fim numa gargalhada que a estremece da cabeça aos pés, a desequilibra. Tinha sido dita uma pilhéria entre elas e o corpo da mais velha já não se entrega a um riso desbragado e franco sem uma preparação, o apoio da bengala. Retomou a passada apenas quando as ondas de choque cómicas desceram a níveis menos sísmicos.

Pai e filho
O pai leva o filho pequeno, quase bebé, ao colo. Param em frente ao bar eternamente por concessionar e espreitam pelo vidro. Lá dentro, ausência de mobiliário e garrafas dispersas pelo chão. O puto aponta e diz: «Coca-cola». O pai ri-se, mostra-se orgulhoso do feito. Talvez ache que é bom para o miúdo aprender cedo a reconhecer os produtos e as marcas que balizam a sociedade. Parece seguro afirmar que aquele miúdo já tem um clube, o pai decerto ensinou-o a papaguear o nome do seu. É isto que um pai faz.

Tendência Nabokov
A (pouca) idade, o corte de cabelo, o andar, as sapatilhas, a t-shirt, sobretudo os calções curtos e a frase: «E ele olha para mim e, tipo, calou-se, e eu fiquei assim, tipo a olhar para o lado». Não há dúvidas: lolitas de marca, um género em voga. Roupas e atitude de catálogo fashion, léxico de MTV. Talvez no mundo da moda para massas alguém tenha sido suficientemente irónico para apelidar o estilo de «tendência Nabokov».

Garça-real



Há três anos, num início de Outono chuvoso, descobri ao accionar o limpa-pára-brisas uma ave inusitada do outro lado do Corgo. Tinha estacionado de frente para o rio e dormitava sobre o livro. Ver o bicho pousado no pinheiro devolveu-me a alegria que o tempo cinzento e a chuva tinham roubado e ocupou-me o resto da tarde. Primeiro, a tentar identificar o alien penado e pesado. De seguida, esperando que se mexesse ou, ainda melhor, voasse, com uma trajectória favorável. Depois, a torcer para que, voando, regressasse ao poleiro original, para se deixar mirar de novo intensamente. Naquela altura ignorava que se tratava de uma garça-real e que estes bichos são capazes de ficar horas imóveis, ou quase. A verdade é que caiu a noite e mais não pude observar do que aquele perfil de cabeça recolhida entre os ombros.
Percebo pouco de pássaros, mas compenso com o muito que gosto deles. (Talvez um dia me torne observador de aves certificado, como o Jonathan Franzen; capa da Time é que não será tão fácil, mas nunca se sabe.) E por gostar deles dedico-lhes mais do que uma vista de olhos. Foi assim que pus de lado a suspeita mais fácil mas também menos entusiasmante de que se tratava de uma cegonha. Estas não abundam por aqui, mas os avistamentos são ainda assim suficientemente comuns para refrearem o entusiasmo. Contudo aquela “cegonha” distinguia-se das outras, até um amador como eu o notava. Penas cinzentas no dorso, aquela forma de recolher o pescoço... Fui consultar o guia de aves e este concordava comigo em como não era uma cegonha.
No dia seguinte, já em modo de jogging, voltei a espreitar o pinheiro curvado onde a bicha pousara e ali estava ela, como se não se tivesse movido de um dia para o outro. Vi-a então com frequência durante semanas, sempre sozinha, pousada no mesmo pinheiro derreado, raramente em voo, até que, instalado o Inverno, desapareceu, talvez em busca de clima mais favorável e de companhia do sexo oposto.
Para minha curiosidade e alegria, no ano seguinte ali estava de novo. Quer dizer, nada garantia que fosse a mesma ave, mas como pensar o contrário ao vê-la quotidianamente no mesmo pinheiro, com a mesma pose vigilante e solitária? Coincidência? O local tem um atractivo genérico para a espécie? Talvez.
A garça-real não é uma ave rara em Portugal, ocorre um pouco por todo o lado e com abundância no litoral e no Alentejo. Mas nesta parte de Trás-os-Montes não é assim tão frequente. Eu nunca tinha visto nenhuma e outras pessoas confirmam a raridade.
Ontem regressou, pelo terceiro ano consecutivo. Permito-me imaginar que é o mesmo animal e que, desobedecendo à máxima, todos os anos volta a um local onde foi feliz, porque amado. E talvez a sua presença seja também uma retribuição. Sinto-a assim, quando nos observamos mutuamente, cada um do seu lado do rio, dois bichos de temperamento solitário.

sábado, 29 de setembro de 2012

«Relvas alerta para perigo da falta de confiança nos políticos europeus»


Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão

O Secretário de Estado da Cultura tem sido acusado de insensibilidade perante as artes. Há um ano no Governo e, tirando umas pilhérias sobre o dinheiro, diz-se, não cunhou nada que se veja. Ora, isto é injusto, esta percepção do SEC como emissor de moeda. Ele não está lá para isso. O SEC não é um patrono, um mecenas. Essas eram atribuições de príncipes e papas, e, como se sabe, o Estado além de laico é republicano. À maneira yankee, nestes dias.
Não se julgue, contudo, que ao SEC a arte passa ao lado. Não. No último ano ele tem-se preocupado bastante com a área. Sobretudo depois das cinco da tarde, depois de ter largado o serviço e as mangas de alpaca. Quem o acusa de não ter obra devia ler a edição de 31 de Agosto do oficioso Correio da Manhã. Há obra. Ela chama-se O Coleccionador de Erva e foi prometida ao editor José Alberto Valente até 15 de Setembro, para ser apresentada ao público em Novembro.
Talvez não fosse bem isto que os amantes das artes esperavam, mas cada um faz o que pode. E Deus sabe como tem sido difícil o ano para o SEC. Ponham-se no lugar dele. Um novo emprego, cheio de responsabilidades, numa época terrível para o sector, um emprego que, agora mais do que nunca, exigiu empenho, entrega, imaginação, criatividade, liderança, visão. Um homem comum nestas circunstâncias chega a casa derreado, não consegue pensar noutra coisa. Talvez beba um whisky ou dois, mas de certeza que sonha à mesma com as mil e uma diligências que tem de fazer no dia seguinte para salvar o barco, de certeza que ocupa a inescapável insónia a cismar nos dramas que testemunhou ou nos projectos que tem em mãos. Um homem comum nestas circunstâncias não conseguiria escrever uma linha depois do emprego, se lograsse ter um «depois do emprego».
Mas o SEC não é um homem comum. O SEC é, antes de mais, um Escritor. E não se pede a um Escritor que interrompa a prosápia só porque mudou de emprego, só porque lhe confiaram mais responsabilidades, só porque tem uma pasta melindrosa nas mãos. Um Escritor escreve, é tudo o que ele faz.
E no entanto também o Escritor também se consome. Quando chega a casa também matuta bastante — na intriga do seu novo romance. Também se debate com dilemas morais — dos seus personagens. Tem remorsos — de ter morto o marido da protagonista ou o seu amante. E tem pudor, grande pudor, comovente pudor: evita chamar ao seu livro Crime No Estádio Em Que As Coisas Estão, por mais que fizesse sentido no conjunto da obra e por mais que ao inspector Jaime Ramos agradasse a ironia da coisa.


***

O novo livro do Secretário de Estado da Cultura será muito popular. E sê-lo-á por um golpe de génio. O volume estava para se chamar apenas O Coleccionador, mas um dos spin doctors do Governo previu o escândalo, a inoportunidade da edição, e sugeriu que se acrescentasse erva à obra. A ideia era apaziguar a esquerdalhada das artes dando-lhe algo com que se identificar. O problema vai ser convencê-la a enrolar as páginas antes de as queimar.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Chefe mas pouco: notas sobre a segurança do PM


Não fiz uma análise intensiva das imagens televisivas que mostram o chefe da segurança do Primeiro-Ministro a passar-se. Mas identifiquei um padrão: o dos cães de estimação a reagirem em defesa do dono. Ali estava um exemplar impulsivo, com a perspicácia e a subtileza de um doberman jovem, apenas crescido de corpo. Imaginem o que aquele segurança não fará quando os cidadãos passarem do insulto ao bufardo.
   
Também foi um pouco canina a corroboração dos agentes fardados no exterior. O estudante detido para identificação podia ter-se manifestado contra o PM, concederam — mas não com insultos, repetiu um dos agentes. Estará o Governo a preparar-se para criminalizar o insulto? É possível. E talvez a blasfémia. Ideologia para isso não lhe falta. A ser assim, cos diabos, cheira-me que a polícia vai ter muito trabalho nos próximos tempos. Nem os santos se livrarão de tanto praguejar.

Já vi aquele chefe de segurança à ilharga do PM algumas vezes e, se não era exactamente um low profile, também não denunciava ter o sangue assim tão quente. Isso mostra que a) o estudante é particularmente dotado na arte de insultar, b) disse alguma verdade incómoda, ou c) o Governo anda com o dedo leve no gatilho. Nervosos, meus senhores?

Alguém devia explicar ao chefe da segurança do Sr. Primeiro-Ministro que a sua função não é ladrar aos manifestantes. A sua função é deixar-se crivar de balas em vez do dono. Não vê filmes?

De resto, se queria que o país não lhe conhecesse a cara conseguiu exactamente o oposto. Saltar para cima de um insultador e de uma câmara daquela forma é tão néscio como concorrer ao Big Brother com a esperança de não ser filmado.  

Se queria proteger o Primeiro-Ministro tapava-lhe as orelhas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Pequenos posts perfeitos

«Setecentos
Voltaire dizia que para ter sucesso não bastava ser estúpido, era também preciso ter boas maneiras. Como o mundo mudou.»

Pedro Mexia, no Lei Seca

Testemunho de Rosa*

«A mota fez-se ouvir subindo com dificuldade o caminho que conduzia à nossa casa. Eu estava no balouço, como em tantas tardes, só que naquele dia era de manhã. Eurico tinha dito que vinha almoçar e eu preparei um almoço bom, uma coisa de que ele gostava. Mas preparei-o muito cedo e depois fiquei sem saber o que fazer. Ou nada do que tinha para fazer era mais importante do que o almoço e por isso não me apetecia meter outros trabalhos pelo meio. Deixei o bico do fogão no mínimo e vim cá para fora, para o sol. Era um dia lindo de Agosto e havia fumo no Parque. Uma coluna de fumo escuro a sair das copas das árvores que era mesmo assustadora, como se houvesse ali um vulcão ou coisa assim. O Parque era, para mim, que o via de cima, um prado. Se eu quisesse, podia imaginar que não havia nenhum tronco de árvore por baixo, que as copas não estavam suspensas e niveladas uns metros acima do solo, que o chão era logo ali encostado às folhas como nos prados. Por vezes conseguia ver-me a correr colina abaixo e a deixar-me rebolar por cima daquelas folhas, como em pequena fazia nos terrenos para onde ia guardar o gado. Havia certos prazeres que a gente perdia quando crescia e eu pensava se não tínhamos razão em não querer crescer. Mas depois crescíamos e era ridículo se nos puséssemos a rebolar nos prados. Claro que não havia prado nenhum ali e as copas das árvores estavam muito altas, nalguns sítios a mais de trinta metros, que no Parque plantaram-se espécies da América e da Austrália ou lá o que foi. Mas eu estava no balouço quando a mota chegou. A minha cara estava a ficar morena porque eu cantava virada para o Sol, com os olhos fechados e o queixo levantado, e a pele queimava mesmo, se eu lhe pusesse a mão. Às vezes adormecia assim, não no balouço, que tinha medo de cair, mas quando me encostava num banco, e o Eurico dizia-me que vermelha estás, rapariga, mas gostava e eu gostava que ele gostasse, dizia-lhe põe aqui a mão e ele punha e eu gostava mesmo muito. E o pescoço também ficava bronzeado e o peito se eu abrisse dois botões da blusa, ali ninguém nos via e podíamos abrir botões, ou podia eu, não havia mais ninguém a não ser eu e o Eurico e ele abria a camisa toda e até a tirava, ficava em tronco nu e era bonito de ver, eu gostava muito. Eu tinha aberto dois botões e estava mesmo com muito calor e vermelha e só queria que ele chegasse para lhe dizer põe aqui a mão, não, aqui, e rir-me por o fazer pôr-me a mão nos peitos. Depois ele chegou e trazia um embrulho nos braços e eu fiquei radiante, era tão bom quando ele se lembrava de trazer um presente. Mas Eurico vinha com ar cansado e sério e eu abotoei a blusa e endireitei-me no balouço enquanto ele se aproximava como os pastores nos presépios, com a cabeça baixa e a estender-me os braços com o embrulho. Era uma coisa pequenina e não era um embrulho, mas um cobertor pequeno enrolado à volta daquilo deixando apenas uma abertura pequenina para respirar. No início ainda pensei que fosse algum animal para fazermos criação ou assim, mas não havia feira naquele dia, onde raio teria ele ido arranjar tal coisa. Claro que nas aldeias às vezes lhe davam uma galinha ou um coelho para comermos e eu gostava que ele fosse assim popular em todo o lado mesmo que não fosse de se rir muito, mas se hoje vinha almoçar a casa era porque não tinha ido para as aldeias e portanto não podia ser isso. Também era absurdo que ele trouxesse um animal de criação embrulhado num cobertor, onde já se viu, e não era um ar de alegria gulosa o que ele trazia, nem sequer era alegria, se eu consegui compreender bem o ar que ele trazia. Simplesmente foi-se chegando a mim a olhar-me com olhos que pediam perdão ou só olhos de súplica que não pediam perdão mas pediam ajuda. E eu cada vez mais inquieta e assustada, a sentir a felicidade descer-me pelo corpo, que se arrepiava ainda que estivesse o calor do meio-dia, a fazer também olhinhos de súplica, mas uma súplica diferente, uma que se condoía do ar desesperado dele e que lhe dizia diz qualquer coisa, homem, que trazes aí que te deixa assim como se te estivessem a matar os pais. E Eurico abriu a boca como um peixe num aquário e não disse nada porque as palavras não lhe saíam embora estivessem mesmo ali na ponta da língua onde a gente quase as conseguia ver. O que ele fez foi estender-me a criança e dizer sei que não é a mesma coisa, Rosa, e a criança começou a chorar nesse momento e antes de eu poder dizer alguma coisa tive de a segurar contra o peito e dizer pronto, pronto, enquanto a embalava da esquerda para a direita como via fazer às outras mulheres.»

* in Hotel do Norte

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Determinismo a la carte

«Que parte não perceberam: não há dinheiro!» Esta é uma forma estúpida de expressar as coisas, dotada do carisma e do potencial mobilizador de um preguiça pendurado pelas unhas, mas é possível que esteja certa. As reivindicações sectoriais, no seu egoísmo cego, conseguem aqui e ali um alívio para as suas particulares dores (quanto mais acima estiverem na hierarquia do capitalismo mais o conseguem), mas não resolverão nada de geral e fundamental. Provavelmente a crise é de tal forma que não nos vai restar alternativa ao empobrecimento e ao desemprego, ao desemprego desamparado. A distopia deixou de ser um género literário ou cinematográfico para ser o degrau seguinte da evolução. Talvez regressem a fome, a guerra, as deambulações fantasmais de massas esfaimadas. O fluxo urbano será no futuro constituído por hordas cambaleantes de novos caçadores-recolectores, antecedidas de breves incursões iradas de gangues apocalípticos à procura do último supermercado, da última mercearia, da última lata de conservas. Antes disso, um bife, quando aparecer, há-de novamente ter de chegar para uma família, e a semana de trabalho, para os que o tiverem, deixará de ser inglesa para ser neo-helénica (seis dias, não é?) e depois asiática (full time). Regressaremos às hortas, à pesca à linha, à economia baseada na troca de artigos, e um dia a população na Terra começara finalmente, naturalmente, a regredir.
Talvez os crentes na austeridade estejam certos e não mais possa haver classe média, assistência social, solidariedade de estado. Talvez seja até justo irmos ao encontro do nosso lugar no Terceiro Mundo, o destino a cobrar-nos a arrogância e o egoísmo de séculos, a cobrar-nos a imprevidência de cigarras patetas e eleitores imbecis. Sim, talvez não haja alternativa ao castigo.
Mas em que momento começarão o Governo e os poderes na Europa a testar outras vias? Em que momento concederão que por este caminho o desemprego não vai diminuir nunca? Quando estarão dispostos a aceitar que, com o empobrecimento geral da sociedade, era natural, expectável, que houvesse um empobrecimento proporcional dos ricos?
Que constatação determinista, fria, escolheram os líderes europeus: que tem de haver pobres ou que tem de haver ricos? Dito de outra maneira: para a gente que nos governa, a pobreza generalizada é inevitável ou é a riqueza de uns poucos que é em qualquer circunstância inegociável? 

Ócio: a última fronteira da humanidade

Num tempo em que os economistas parecem gurus lunáticos, com a fiabilidade de um Zandinga, e quando a economia avançou tanto na capacidade de distribuir bem-estar quanto a ciência na capacidade de prever sismos, talvez não fossem de deitar fora certas considerações que circulam na net, como as atribuídas a Agostinho da Silva no que toca à, mais tarde ou mais cedo, fatal incapacidade de o capitalismo assegurar emprego generalizado e de isso não ser por si um mal (ócio: a última fronteira da humanidade). Para cenários futurísticos, não viria mal em considerar-se desde já um que pensasse na partilha do trabalho, em horários individualmente reduzidos, sustentada por uma melhor redistribuição da riqueza produzida. Não é bem comunismo. Talvez bom senso?

O pateta elegante

Já me aconteceu antes, regressar de um curto período sem internet nem jornais e levar com a realidade nas ventas. Não há nenhuma surpresa, não é isso. O anúncio de Passos Coelho era previsível (como tudo nele), mas esperar as más notícias não nos alivia do mal que elas, quando ditas, oficializam e na hora começamos a sentir.
Leio agora os jornais e os blogues e deparo aqui e ali com perfis do Primeiro-Ministro, todos excessivos, todos errados. Estive poucas vezes perto dele, mas em algumas estive suficientemente perto para notar como Passos Coelho me faz lembrar o irmão de um amigo de há vinte anos: os mesmos olhos claros, os mesmos somíticos lábios finos, as mesmas sobrancelhas em calimérico vê invertido (já imortalizadas numa versão de célebre quadro piegas a pedir intervenção especializada de Celina Giménez), o mesmo cabelo ternamente alourado, à betinho, de minuciosa risca ao lado e com um corte que lhe deixa coberto o arco (ou ogiva spockiana?) superior das orelhitas, o mesmo queixo proeminente, quase, quase à Kirk Douglas, a mesma fotogenia de boneco de cera hollywoodesco — e o mesmo vazio sideral entre as orelhas.
Como o irmão do meu amigo, Passos Coelho tem presença e vaidade, faz-se notar e fala com voz segura, autorizada, mesmo quando diz alarvidades. Os imprudentes e os deslumbrados rendiam-se ao halo do irmão do meu amigo — na verdade um caixeiro-viajante ao serviço de uma multinacional do perfume ou da aspirina. Vanglória ou placebos eram o seu negócio e ganhava bom dinheiro com isso, o elegante pateta alegre.
No Governo, está de um lado o insustentável Relvas, com as suas negociatas e representando certos interesses com rabo de fora; do outro, estão os dogmáticos Gaspar e Santos Pereira, espécie de ultrazelosos marxistas do capital prontos para irem ao fundo com a sua cartilha, que é, nos dias que correm, tão útil como a carta de ligeiros para os submarinos de Portas; e no meio está Passos Coelho, vendendo com os seus melhores colgate, gravata e argumentário de literatura inclusa o que lhe impingem os outros três — sem olhar às contra-indicações. Tal como o irmão do meu amigo, Passos Coelho é um bom ventríloquo dos seus incumbentes — mas infelizmente a sua prosódia de papagaio só é boa para ele e para os seus patrões, não para o país que num dia de humor delirante o elegeu.

domingo, 26 de agosto de 2012

Aritmética para totós

Custavam menos ao país os 40 milhões da RTP2 do que vão custar os 140 milhões da concessão da RTP1. Não só em euros.

sábado, 25 de agosto de 2012

Caminhada de sábado à tarde

São um casal, vêm equipados com sapatilhas, calções e t-shirts coloridas, a dela laranja, a dele amarelo de colete reflector. Algo correu mal ao estacionar. Vêem-se a discutir apontando o carro, ora aproximando-se dele, ora afastando-se alternadamente com ar de quem já ouviu tudo e se vai embora, o outro que se foda. Mas voltam atrás e repetem argumentos. À distância percebe-se nos gestos o mal-estar, adivinham-se as expressões de ultraje e raiva. Partem por fim juntos, com passada desportiva sincronizada, lado-a-lado para mais uma caminhada saudável no parque. São um casal, é isto que fazem: desentenderem-se e aturarem-se. Desentenderem-se e aturarem-se até ao dia em que não se aturam mais ou se tornam indiferentes um ao outro.

Mas eis que ela volta atrás, cento e cinquenta metros depois. Traz a chave na mão, mete-se no carro e estaciona-o como deve ser, alinhado com as riscas brancas no pavimento. Isto ela conseguiu corrigir, o carro mal estacionado. Retoma a caminhada com o ar decidido de quem fez a coisa certa e devolve-lhe a chave ao passar por ele. Ele também está a corrigir qualquer coisa — a meia na perna, os cordões da sapatilha — mas ela não espera, prossegue o seu caminho.
Saíram fora do campo de visão e não se vê o desfecho, mas talvez ele a apanhe, agora que tem o equipamento ajustado, corrigido.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

RTP, extorsão e papalvos

Fecha-se a RTP2 (porque é cara e tem fraca audiência) e os contribuintes continuarão a pagar 140 milhões para um privado (provavelmente angolano) fazer o “serviço público” definido pelo Governo PSD/CDS. Como “privatização”, é brilhante. Privatização do dinheiro público.
Os portugueses julgavam que tinham elegido um governo, mas na verdade elegeram o Xerife de Nottingham.

A RTP1 não fazia serviço público. Quando muito, fazia servicinhos aos governos, e nem todos de cariz sexual. Ou fazia o serviço em público (era impossível não dar pelo cheiro). Se não se é coprófago, é-se de opinião que um canal como a RTP1 devia ser fechado, implodido, incinerado — ou, se quiserem, vendido (podia dar para adubos, sabe-se lá). Mas quando um licenciado express coadjuva um espectador do La Feria no Governo aparecem melhores ideias. Como esta de pagar a um privado para fazer o lindo serviço que a RTP1 fazia.
Ok, não será bem o mesmo serviço. Os neurónios extra que aqueles dois contrataram para juntar ao par que possuem matutaram e concluíram que terá de haver um novo caderno de encargos definido pelo actual Governo. Sim, porque cada um gosta de fazer a sua própria merda. De resto, ninguém tem dúvidas que se algum Governo houve em Portugal capaz de definir um serviço público de televisão ele foi eleito em Junho do ano passado. Serviço público e este Governo são como unha e carne: a unha deles, a nossa carne.

Portanto este hibrido pegajoso de PSD e CDS espremerá a cabecinha para criar um novo conceito de serviço público. Não precisava de se dar ao trabalho: já sabemos que o resultado será um novo preconceito de serviço público. Um preconceito cultural, ideológico e económico. Um serviço público adaptável à sacrossanta lei da oferta e da procura. Exactamente aquilo que o país nunca teve e estava a precisar.

Alguns dirão que a venda da RTP serviria melhor os interesses nacionais. Haveria um razoável encaixe financeiro e, ao fim e ao cabo, a merda que iria para o ar seria a mesma. Quer dizer, nesta concessão, o operador privado terá de se preocupar com receitas (não muito, é certo) e terá de competir pela sua quota de audiências medíocres (isso estará no caderno de encargos). Porquê hão-de então os contribuintes continuar a pagar por um serviço que outros operadores privados já garantem? E porque hão-de os contribuintes pagá-lo a uma empresa privada?

Porque em certas circunstâncias ser papalvo é bom. Ser papalvo sob a gestão de um executivo PSD é bom. Foi isso que o esbirro António Borges veio dizer aos portugueses em nome do cobarde do Xerife de Nottingham.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Prédios

1.
Vi-o de cabeça levantada — medindo o colosso com ar entendido, o indicador percorrendo os pisos com minúcia de sapador — e por momentos pensei que estudava a distribuição de cargas adequada para implodir um dos prédios “Coutinho” cá do burgo. Mas não. Era só um turista divertido, contando quantos pisos o mamarracho tinha acima das vivendas em redor, recolhendo amostras para uma antropologia lusitana, tirando fotos para o seu álbum de aberrações de Portugal.
  
2. 
O anúncio lista os atractivos do apartamento à venda num andar estratosférico do Porto. Das muitas virtudes mencionadas, só uma é verdadeiramente irresistível: o andar tem vista para «a relva do Estádio do Dragão». Não era dito qual dos tufos da relva do Estádio do Dragão — o anúncio carecia de detalhe.
Mas era um anúncio inteligente, dirigido a um vasto especto de compradores. Entre os candidatos a morar em tão celestial nuvem estão inúmeros portistas detentores de binóculos e, desconfio, alguns benfiquistas com licença de porte de carabina com mira telescópica.
  
3. 
Os edifícios residenciais por vezes adoptam nomes que lhes garantem distinção, ou, em fase de venda, lhes prometem compradores. Não vi até à data nenhum título capaz de despertar mais o instinto consumista num sem-abrigo do que “Varandas da A4”. A A4 é, adivinharam, uma auto-estrada — e alguém concebe melhor forma de passar os dias domésticos do que à varanda a ver o tráfego Porto-Amarante? Eu não.

Cristo faz parapente: a foto


Era a esta aparição que se referia este post ("Cristo faz parapente").

P.S. Bonita, não é? A foto é de Paulo Araújo.

Ontem

1. Tecnologia Gutenberg
Às cinco e meia da tarde, na piscina, julguei por momentos que o meu cérebro fora sequestrado pela silly season. Tinha pago mais de cinco euros para ficar sentado numa cadeira de lona a sofrer as sevícias de uma selecção musical idiota, com o volume regulado para surdos profundos. Depois, ufa!, lembrei-me que podia abrir o livro ou ir nadar. Experimentei nadar e deu resultado: debaixo de água quase não se ouve a música. No entanto, esta solução revelou-se ineficaz a longo prazo — há limites para o tempo que aguentamos sem respirar (se não estivermos assim tão desesperados com a música). Agradeci sem sinceridade ao nadador-salvador por me ter trazido à tona (eu estava assim tão desesperado) e, de volta à cadeira, abri o livro. Iniciou-se de imediato o processo de teletransporte dali para fora. Devia ter optado desde logo pela tecnologia Gutenberg.

2. Efectivamente, escuto as conversas
Na esplanada do restaurante ouvia-se à noite música de altifalantes. O largo da terra era ali ao lado e este era o fim-de-semana da festa. (O meu cérebro tinha sido sequestrado pela silly season, caso contrário o que fazia ali eu?) De qualquer modo, o conjunto ainda não tinha começado a tocar, pelo que as lesões nos tímpanos eram para já reversíveis. Se eu saísse antes das 23h00 as coisas não iam de certeza piorar.
Mas pioraram. Pode haver coisas piores do que altifalantes roufenhos a debitar hits pimba. Como por exemplo sentar-se na mesa ao lado da nossa um par de machos lusitanos ébrios de 4x4 e de uma meia dúzia de cervejas bebidas no fim de uma tarde a rolar no monte.
Ao lado da sua irrequietude envolta em t-shirts com logótipo e do seu vozear de gorila na tundra (talvez a imagem certa seja chimpanzés com voz de hienas), as músicas do grupo Chave D’Ouro que se ouviam antes pareciam suites de Bach para violoncelo.
Não havia uma piscina por perto para onde me pudesse atirar (com a base de cimento do guarda-sol amarrada ao pescoço) e em vez de um livro tinha trazido o Expresso. (Céus, o Expresso!) Estava portanto dependente da velocidade da cozinha e da velocidade das minhas mandíbulas. O chef não colaborou (as mandíbulas sim, quando finalmente lhes foi dada a oportunidade), pelo que tive de suportar a minha meia hora de calvário ouvindo as conversas da mesa ao lado. Nada a que não esteja habituado. Quer porque apenas posso frequentar restaurantes populares (troika obligé), onde as conversas são geralmente mantidas aos berros de licitadores num leilão de porcos, quer porque tenho o vício estúpido de recolher matéria para livros que ninguém quer editar, provavelmente ninguém quer ler, e eu decerto não sei escrever.

domingo, 19 de agosto de 2012

A acordeonista

A excursão desce do autocarro para lanchar. Saem do porão os comes e bebes, as arcas e os copos descartáveis, os garrafões e os banquinhos articulados. Para o fim do repasto, quando os ânimos estão aquecidos e as gargantas anseiam pela desgarrada, sai o acordeão. É uma adolescente que o carrega e é ela que o tocará. Com um olhar distante: o rosto voltado para o rio, para a estrada, para as crianças nos balouços, para as copas das árvores, raramente encarando as teclas que prime ou os cantadores que se desafiam e os foliões que os rodeiam. Dos dedos saltitantes saem-lhe melodias tradicionais, populares, faceiras, por vezes com letras apimentadas. Mas a sua expressão não se altera, não transparece a alegria das peças que a acordeonista executa nem ruboresce com as palavras brejeiras que os outros cantam. A sua expressão permanece neutra. Talvez entediada. Talvez desolada. Talvez desesperada. Amaldiçoando a vocação, o talento. Amaldiçoando-se por o ter deixado manifestar-se e pelos dias de aprendizagem e treino. Se fosse duma família aristocrata do século XIX, talvez a tivessem forçado às aulas de piano — e os seus recitais nos serões que a família ofereceria seriam igualmente mecânicos, contrariados, ao serviço de interesses e gostos que não seriam os seus, não seriam os de mademoiselle Bovary.

sábado, 18 de agosto de 2012

Dinamite

O meu amigo é especialista em perfuração com explosivos. Recentemente contrataram-no para uma intervenção no metro de Roma, mas não há qualquer relação entre isso e as notícias de que o Coliseu está a ficar inclinado.
Uma amiga do meu amigo tinha toupeiras no jardim e queixava-se disso. Ele resolveu intervir. Minou o terreno, com cargas cirurgicamente distribuídas e ligadas entre si, posicionou-se, e, accionando o detonador à distância, rebentou com o jardim. Foi uma limpeza, diz. E bonito: o jardim elevou-se uns trinta centímetros, com um fragor surdo, e regressou ao chão. Revolto como se tivesse andado por ali um engaço furioso. Não havia mais toupeiras. Nem jardim. Agora era só passar um ancinho e semear nova relva, disse ele, com aquele sorriso de menino, de menino traquinas. Um sorriso de Calvin. Perguntei-lhe como se chamava a amiga, mas não, não era a Susie.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Cristo faz parapente

No meu percurso de jogging aparece a certa altura um Cristo crucificado. Não, não é um milagre. Cristo não me escolheria para aparições dessas, não sou uma testemunha credível: demasiada propensão para crer no fantástico. Trata-se de uma escultura religiosa postada em frente a uma capela. À distância, parece uma espécie de cruz ortodoxa, com um segundo travessão acima da cabeça de Cristo. Mas este travessão é maior e não menor, e vinte passadas depois confirmamos que é na realidade uma cobertura em chapa, para que o Filho de Deus não molhe a coroa de espinhos.
Entre estes dois momentos, ou entre estas duas distâncias, há uma outra ilusão. A dez passadas, sem óculos, a cobertura — com as suas duas águas mas sem vértice na cumeeira, curva como um tecto de hangar, ligada por duas tiras ao madeiro onde Cristo tem os braços — surge insuflada como um pára-quedas. É como se o Nazareno praticasse parapente.
Não sei se é assim que Ele desce dos Céus nos dias de aparições, suponho que não. Seria como “caminhar” nas águas sobre uma prancha de surf, excitante porém fraudulento. Todavia, um Cristo “radical”, que também fizesse a Sua ascensão escalando com as mãos e pés-de-gato, como todos os alpinistas, ao invés de o fazer flutuando com propulsão telepática, seria certamente mais humano — e não mais um dos mutantes dos X-Men.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Piropos

Um documentário sobre piropos, informa o JN, criou polémica na Bélgica. Ainda bem. Há coisas que têm de se discutir.
Não será preciso procurar atrás de giestas, debaixo de calhaus ou nas caixas de comentários da Internet machistas defendendo o carácter inofensivo, divertido, até elogioso dos piropos. Gente distinta e bem formada falará de excesso de zelo, de radicalismo feminista, de frigidez. Tipos (homens) que, pela sua experiência pessoal, do seu ponto de vista, acham que nada de mal há com os piropos. Tipos que, claro, não estão habituados a pôr-se no lugar das mulheres.

Há mulheres que circulam na rua de headphones ligados e olhos no chão para não terem de enfrentar a verve masculina. Há mulheres que deixam de ir a uma piscina ou a uma praia ou a um café sozinhas por não suportarem o voyeurismo e os permanentes e intrusivos gracejos masculinos. Há mulheres que condicionam o seu vestuário para não darem azo a olhares esgalgados e galanteios babosos, cuspidos a distâncias por vezes abusivamente curtas, e não raro com mãos a acompanhar.

A sinfonia dos piropos é uma música que as mulheres não pediram e, creio, a maioria dispensa. Além disso, as mulheres pressentem, sabem, sofrem na pele que nem todos os homens conhecem o que separa um piropo da inconveniência, da impertinência, do incómodo, do assédio. De algo pior. Só por isso, o piropo é indefensável.
Não precisamos de muito esforço de imaginação para percebermos como as mulheres têm a vida condicionada em relação aos homens, mesmo no civilizado e liberal mundo ocidental. Pensem os homens um minuto nas coisas que as mulheres não fazem como eles e talvez tenham uma ideia de como a defesa do piropo é uma causa frívola, egoísta. Machista.

De resto, muitos homens experimentam (e não gostam) situações análogas, quando a sua barriga proeminente, a sua careca precoce, o seu nariz aquilino, as suas grandes orelhas, a sua reduzida estatura, a sua estupidez ou seja o que for que tenham de característico são alvo de permanentes comentários e gracinhas. Ou quando o seu desempenho no trânsito causa desagrado aos outros. Os homens experimentam estas situações e não gostam, sentem a humilhação, o incómodo, a intrusão e enfurecem-se, reagem, não raro com violência. Ou ficam impotentes, a chorar de raiva, se a situação não lhes é favorável — como geralmente não o é à mulher que ouve o piropo.
É só lembrarem-se disso da próxima vez que forem num carro e resolverem buzinar as pernas da mulher que passa na berma, ou estiverem pendurados num andaime e acharem que têm de comentar o decote que lhes passa por baixo, ou sentados na esplanada se sentirem autorizados a assobiar a saia com que o vento se mete, ou ao circular no passeio em manada entenderem guinchar como os excita o traseiro da que vai à frente ou as mamas da que se aproxima em sentido contrário.

Biologicamente, nem sempre é possível ao homem ficar impávido perante a mulher. Há as hormonas e a sua influência no ritmo cardíaco. Há talvez intumescimento. Mas é disso que trata a civilização: de dominar impulsos. Não matamos ou sequer insultamos todos os que achamos que o merecem, pois não? Deixemos então as mulheres em paz na sua vida ainda que achemos que as suas formas merecem todos os elogios. Talvez elas até nos apreciem mais por isso.

A educação é uma das formas de civilizar o selvagem que há em nós. Mas por vezes, para sermos melhores pessoas, do que precisamos é de nos livrarmos da educação que tivemos. Alijar o português mediterrânico, bigodudo e façanhudo que há em nós é uma obrigação. E mesmo assim é insuficiente, como mostra o documentário realizado na setentrional Bélgica.

domingo, 5 de agosto de 2012


Diário de férias (12)

E pronto, acabou-se a comissão de serviço. Acabaram-se as crónicas do Alentejo Interior. Foi uma dura missão, difícil: a árdua horizontalidade e o frio vasilhame de branco. A longa perscrutação da planície, percorrida com lentidão e cautelas de sapador, ou apenas cartografada com imobilidade (mas não insónia) de sniper — à sombra de um impiedoso alpendre. Missão que o sentido do dever impele a continuar, por muitos e penosos meses, mas que infelizmente a fraqueza humana força a interromper, cobardemente, numa cedência hedonista a esse vício do instinto que é o trabalho. Ah, a vil condição do homem!

***

Os longos dias meridionais foram curtos para as meditações da planície. Havia assuntos a explorar que a sesta adiou, obliterou. Como a promissora e literária coincidência de se chamar Demeter (Ceres) uma das personagens de A Informação*. Ou a suspeitada especialidade de uma superconcorrida marisqueira na costa alentejana: enrolar os clientes, como o mar enrola na areia (a reincidência vivida ou testemunhada de lapsos — a conta insistindo em cobrar vinhos diferentes ou itens não consumidos — parece sugerir uma infeliz tendência). Ou a descrição do paraíso no oásis alentejano, passe a redundância: Herdade dos Grous, essa amostra do que a vida devia ser — sol, água e vinho servidos pela arquitectura e pela natureza ancestrais, comedidamente auxiliadas por judiciosa mão humana. Ou a presença espectral, indagante (e, sim, risível, de incompleta transgressão adolescente) no festival Sudoeste durante o concerto de Eddie Vedder — do lado de fora do recinto, espreitando sobre a vedação. Ou o Magret de Pato no Vovó Matilde: esse exemplo de como podem a imaginação e a ousadia ser bem-sucedidas e quase luxuosas, esse recente ex-libris de Beja com as suas cadeiras e mesas e pratos e talheres desirmanados, de antiquário humilde ou sótão avoengo empoeirado e carpintaria rude, irmão mais novo da Galeria do Desassossego, com ela pondo a cidade alentejana no mapa do desejo, ela que também está nesse mapa por mão dos Virgem Suta, que tem o mesmo Jorge Benvinda como cara-metade. Ou a morte e a vida do Teatro, representada ontem num palco ao ar livre da planície: a morte para o grande público (risinhos, tiradas imbecis, impaciência, desatenção, tentativa de reconhecer a celebridade dos actores, ruído, o omnipresente rugir e resfolegar da turba numa proximidade distante, segura, temerosa ou sobranceira, de expectativas defraudadas por incumprimento da imbecil bitola imposta pela TV e pelos comediantes de sucesso, acarinhados pelos media e pelo poder) e a vida, a vida que lhe dão algumas companhias e actores, só eles, abandonados pelos mecenas, o poder, o público — e talvez a História, ou o progresso que a escreve.

* Martin Amis, Quetzal

sábado, 4 de agosto de 2012

Diário de férias (11)



Aos que consideram monótono ou delirante este diário de férias faço saber que os meus dias têm sido muito preenchidos, mas nem tudo pode aqui ser registado. Os devaneios que vão lendo não substituem na verdade a intensa acção das férias — são-lhe correlativos, ocorrem em simultâneo. Ontem, por exemplo, enquanto pensava na circularidade da vida, neste regresso a territórios anteriormente visitados, estava bastante ocupado com a prática da natação sincronizada. Como prova a foto*.

*Não se iludam com o tamanho da piscina. Já ouviram falar em Gulliver? C'est moi.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Diário de férias (10)


Há vinte anos fiz a minha primeira aproximação ao Algarve. Não em férias. Era militar à força em Elvas e a 25 de Julho o nosso regimento mandou algumas companhias para um campo de batalha a sul, nas proximidades de Castro Verde. Não em combate, felizmente os mouros tinham-se retirado alguns séculos antes, decerto por cautelosa antecipação à ferocidade indolente da primeira incorporação de 1990. Íamos celebrar a Batalha de Ourique, de 1139, peleja que D. Afonso Henriques terá ali travado contra os Mouros. Parece que a venceu, ou pelo menos logrou sobreviver-lhe para ser aclamado rei, o que do ponto de vista dele pôde sem dúvida ser considerado uma vitória.
A cerimónia decorria sob um tórrido sol baixo-alentejano no outeiro a que chamaram de S. Pedro das Cabeças (numa referência macabra ao piquenique patriota de Henriques no século XII) e houve uma sucessão de militares — praças, sargentos e oficias — a desabarem democrática, silenciosa e geometricamente. Em dominó. Não ainda pelas hostilidades — mas por insolação ou fraqueza (na tropa por vezes saltava-se o pequeno-almoço, na ânsia mal contida de chegar a horas à bem-amada parada matinal).
Depois das cornetadas e vozes de comando da praxe, depois de algumas piruetas coreográficas que o exército aprecia, imediatamente antes das dissertações generalícias, começou então a contenda. Se se tratasse de uma recriação da famosa batalha, não teriam havido o mesmo empenho e verosimilhança. Se apenas tivesse havido discursos patrióticos e evocações poéticas, odes triunfais — opção habitual do Estado-Maior —, não só não teria havido empenho nenhum como teriam certamente caído muitos mais militares no teatro de operações — mortos de tédio. O que salvou o dia foi a incursão de um enxame de abelhas, uma célula terrorista criada em colmeias na encosta do morro e naquele dia activada por descendentes de mouros — que os há por ali, movendo-se na sombra de chaparros e oliveiras. Era, estou seguro, uma operação integrada num mais amplo e maquiavélico plano de vingança islâmica, com ligações precoces e perfumadas, melífluas, à Al Qaeda.
Felizmente o espírito lusitano e o exemplo afonsino dominavam a manhã e, antes de ter de abandonar as fileiras, a tropa, ignorando o alinhamento da parada duramente conseguido, ignorando a bonita sequência de atenção-firme-sentido-ombro-arma que tanto excita algumas esposas de oficias, a tropa, dizia, sacou de boinas e quicos — e ofereceu uma resistência abespinhada. As ordens eram de firmeza e rigor geométrico, aprumo, mas ninguém pode censurar a soldadesca por preferir um combate menos coreografado, menos napoleónico e estúpido na sua harmonia de movimentos. Quer dizer, falamos de abelhas: não se combatem abelhas com brio militar. Ou sincronia de gestos (isso é natação olímpica). As abelhas combatem-se esbracejando e praguejando, brandindo bonés e barretes como espadas, golpeando o ar como se de cabeças de maometanos se tratasse, sacando das calças as fraldas da camisa em resposta a infiltrações (não queremos uma quinta coluna nas nossas costas)… As baionetas seriam usadas mais tarde, com um dente de alho, sobre os golpes agudos e derradeiros do inimigo suicida — se a lâmina estivesse suficientemente fria para a mezinha tradicional.

Há vinte anos, dizia eu, visitei pela primeira vez os outrora designados Campos de Ourique, onde hoje se situa o meu acampamento de Verão — a um escasso e na altura insuspeitado quilómetro do outeiro de S. Pedro das Cabeças, cuja ermida, mandada erigir pelo eclipsado D. Sebastião, comunica visualmente com a simpática Senhora de Aracelis e mais umas cinco irmãs, reza a lenda.
Há vinte anos não cheguei ao Algarve, com pesar adolescente (as praias que tentava ver com os meu contristados olhos milicianos do cimo de S. Pedro das Cabeças mantiveram-se à distância por mais algum tempo). Hoje constato que estou um feliz quilómetro mais longe do Algarve do que naquele desolado dia 25 de Julho dos inícios de 90 — e dá-me um prazer perverso informar disso o rapazola convencional que fui.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Senhora de Aracelis


A capelinha a que se refere o post anterior.

Diário de férias (9)

A poucos quilómetros do meu alpendre, a nordeste, existe um morro com vistas esplendorosas para os campos brancos e uma bonita capelinha no cimo. É a Senhora de Aracelis (ou Ara-Celes, Ara-Cellis, Ara-Celis, consoante o sítio onde lemos o nome).
À primeira vista, parece uma santa pouco canónica, com tal designação. Na verdade, é um nome de cristalina transparência. Ara Coeli é o latim para Altar do Céu, e poucas coisas estão aqui, na planície, mais próximas do Éter do que o morro. Mas, se tivermos em conta que aquele é um local tradicionalmente venerado pelos agricultores dos concelhos em redor, talvez possamos pensar num altar menos genérico, suspeitar de um dedicado particularmente a Ceres, a deusa romana da agricultora, da fertilidade, dos cereais (aliás baptizados a partir dela). Provavelmente vem de longe a prática do Alentejo como celeiro. De um tempo em que os deuses eram pagãos e a Igreja Católica ainda não os tinha recriado no seu panteão de santos — um exercício de resto com semelhanças ao que os romanos tinham feito com os deuses gregos. (E egípcios: Ceres, aliás Deméter, aliás Isis…)
Como aprendi com um amigo, a conversão ao Deus único não foi um exercício pacífico, implicou concessões por parte da Igreja. As populações resistiam a abandonar os seus deuses ancestrais (certamente pelos excelentes serviços que estes haviam prestado) e a única maneira de as estatísticas serem favoráveis aos recenseadores católicos era deixar que o povo continuasse os seus cultos no seio da Santa Madre Igreja. A intenção dos estrategas católicos com a falácia dos santos era a mesma que o Governo de Passos Coelho tinha quando despromoveu o Ministério da Cultura: «Vamos só mudar o nome», diziam, «a função mantém-se». Mas o sofisma não correu tão bem à Igreja como está a correr ao Governo: os cultos sobreviveram.

É agradável pensar nesta palavra, Aracelis. Enquanto noutros altares os deuses pagãos viram o seu nome substituído ou corrompido até soar cristão, aqui, talvez prenunciando a resistência alentejana à Igreja, a designação do local de culto manteve-se teimosamente próxima das origens. Pena é que a Ceres se tenha entretanto tornado tão pouco útil para as searas alentejanas quanto a Senhora da Graça ou o senhor S. Pedro das Cabeças, moradores em morros vizinhos.

***

A ida à Senhora de Aracelis envolve um ritual. Depois da via principal, na maior parte do percurso de nove quilómetros a estrada é tão estreita que só passa um automóvel de cada vez (o que aliás é comum no acesso a várias aldeias). Perspicazes, os construtores da via planearam baías a intervalos regulares, ora de um lado, ora do outro, de modo a que um dos condutores possa encostar para que se cruzem dois veículos. Sempre que isso acontece, aquele que viu a passagem franqueada, se for educado, levanta a mão e agradece. Acredito que esta inspiração foi um último contributo da deusa moribunda para a harmonia entre vizinhos. Pelo menos a mim fez-me sentir sociável, ali, dentro do Chevrolet a acenar.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Diário de férias (8)


Ao meu monte de Verão vem cada domingo um soldado da GNR auxiliar as pessoas que tenham hora marcada. Não, não se trata de substituir o cassetete pela senha numerada, trocar a ronda pela banqueta de tabelião. O que se passa é que o militar complementa o pré exercendo de bruxo ao fim-de-semana. E a mim dá-me pena ver todas aquelas pessoas a aguardar vez. Dá-me pena porque, tirando o meu alpendre, não há muitas sombras por aqui. Elas têm de esperar nos carros, encolhendo-os sob os ramos de escassas oliveiras, enquanto lá dentro, no gabinete do místico, é lida a sorte do cidadão que as antecede. Imagino o nervosismo, a dúvida, a angústia, a raiva daqueles que, chegando em últimos, esperam na estrada ganhar vez na próxima oliveira livre. Depois disso tudo é fácil: não importa o futuro se se tem a oportunidade de o aguardar à sombra.

Diário de férias (7)

Aprecio o gregarismo dos outros — na medida em que isso liberta espaço na praia. Na Praia Grande, as pessoas tendem a amontoar-se nas zonas dos dois acessos principais, a largas centenas de metros um do outro, libertando uma grande faixa intermédia para os de nós que não se importam de andar um pouco ou pretendem ficar nus. É bonito ver a humanidade assim dividida: as massas a disputar um lugar ao sol no seu reduzido pedaço de areia e a gente que caminha e/ou se despe a partilhar harmoniosa e folgadamente uma grande quantidade de território.
Visto do mar, de onde as pessoas nos parecem insectos, dir-se-ia que alguém despejou nos extremos da Praia Grande uma boa quantidade de qualquer coisa, qualquer coisa que só a entomologia, um estudo apurado da natureza dos insectos poderá determinar.

***

Quando era novo costumava passar o dia ao sol e em consequência era o “preto” da família. Agora corro poucos riscos de ter um grande bronze. Não me entendam mal: sei um pouco de estar de papo para o ar sem fazer nada (J), mas na praia isso não é possível, a não ser que não nos importemos com escaldões e melanomas. Quando nos importamos, se não passarmos o tempo a ajustar o guarda-sol (ou a ajustar nossa carcaça em função dele), estaremos certamente ocupados (e besuntados) a repor a camada de protector solar. Ora, isso não é a minha ideia de não fazer nada.
É por esta e outras razões que hoje sou um homem das sombras. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

À sombra de uma azinheira

Férias devia ser o estado natural do Homem. Nenhuma sociedade, nenhum partido que não tenha este objectivo último merece o meu respeito. O trabalho é uma digna forma de se chegar às férias, mas apenas isso. A sra. Merkel e os calvinistas do PSD/CDS devem ser instrumentais e depois expulsos. Concordemos com eles, mas só transitoriamente. O grande desígnio nacional deve ser tornarmo-nos brasileiros. No mínimo, mudarmo-nos para o Brasil no Inverno. De resto, a filosofia ocorre em duas circunstâncias: clima grego ou clima teutónico. Alentejo para os sábios, Alemanha para os neuróticos e intrincados sucedâneos. Sejamos genuínos.

Diário de férias (6)

Numa ocasião, pedi que cancelassem o meu pedido e abandonei de seguida um restaurante onde alguém mudou a televisão de canal sem consultar os comensais. Foi um gesto de indignação e protesto genericamente legítimo, mas no meu caso de certo modo exagerado, de uma grandiloquência desnecessária. Eu era cliente diário da casa e, ainda que naquela noite estivesse de olhos na TV, quase sempre lia um jornal ou um livro enquanto comia. Quero dizer, ninguém estava à espera que de entre os clientes fosse eu a importar-me com o canal que o estabelecimento sintonizava.
Tinham passado de um programa informativo para um jogo de futebol — e naquela época eu era suficientemente cândido e voluntarioso para me tentar opor ao fascismo da bola, à ditadura das massas simpatizantes.
Entretanto soçobrei ao pessimismo, ao cinismo, procuro não ser proselitista. O que não facilita a vida, diga-se. Tentarmos ser livres passivamente poupa-nos a discussões inúteis, ao embaraço e à maçada de sermos sempre reivindicativos e queixosos, audivelmente, iradamente — mas reduz-nos as opções. Por vezes, deixa-nos mesmo sem opções na hora de sair, dado o carácter eminentemente ademocrático, ferozmente contra soluções alternativas, da sociedade de massas. Observemos os carneiros ali no campo: para onde vai um vão todos. So much for human superiority.
Contudo, há ainda em mim uma nostalgia bombista. Não que alguma vez o tivesse sido. Infelizmente nunca tive essa coragem e essa eloquência. É uma nostalgia do tempo em que aspirava a uma grande carreira na arte da, digamos, argumentação.
Sexta-feira demo-nos ao trabalho de fazer uns quilómetros para jantar em nenhures, fiados em sugestão de gente amiga. Boa comida em conta. Lá chegados, desilusão: numa província onde a boa arquitectura tradicional sobrevive e em muitos casos domina, sai-nos uma vivenda de dois pisos que tanto ficaria mal em Trás-os-Montes como no Minho. No Alentejo fica péssima. Desilusão: o famoso prato (nada de transcendental) tem de se encomendar com antecedência. Desilusão: já nem sequer há batatas gratinadas. Comemos uma enorme costeleta (não fosse a Senhora da Graça de Padrões junto a terra de mineiros) e estava bastante boa — mas também perto do meu alpendre de Verão há onde se comam boas costeletas.
A nostalgia bombista acometeu-me no momento em que de repente a sintonia da televisão (sim, O Pereira é um desses estabelecimentos que têm televisão) foi mudada para, adivinharam, um jogo de futebol. Na sala de jantar estávamos nós e uma família interessada na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos. No bar, com o comando na mão apontado a outro ecrã, estava o dono da casa.
Mudar para um jogo de futebol é o que se espera de um bom português e o acto, a atenção, o sentido de oportunidade, tudo isso é aplaudido em coro pela pátria — munida de bandeirinhas chinesas e essa vuvuzela a que chamam garganta. Ao sr. Pereira jamais teria corrido estar a ser indelicado, deselegante, desrespeitador da sua clientela. Consigo mesmo imaginá-lo enfastiado, ou talvez até pressuroso, a procurar um jogo de futebol, não para ele, mas para nos servir de extra, como quem cumpre um dever ou vai mais além e mostra generosidade.
Tanta generosidade aqueceu-me o espírito, como o Vesúvio antes de cuspir sobre Pompeia. No entanto, em vez de fazer um favor à arquitectura e simultaneamente vingar todos os que gostam de batatas gratinadas — implodindo O Pereira —, saí ordeiramente, portuguesmente, pagando a conta. O protesto, clamoroso, ficou apenas na recusa de deixar gorjeta — penalizando a única pessoa que esboçou desagrado perante a bruteza de macho luso do patrão, a empregada.
Rememorando agora o jantar na sombra do meu alpendre, quando o momento me parece tão distante quanto em geral me parece a humanidade, a minha complacência foi por instantes substituída pelo remorso. Ah, que saudades de ter sido cândido, voluntarioso — e bombista.

sábado, 28 de julho de 2012

Diário de férias (5)


Nem mesmo na paisagem topograficamente benévola do Alentejo as ondas rádio logram chegar a todo o lado. Com os quilómetros na estrada perde-se por vezes a sintonia da estação que se está a ouvir em prol de um veículo de regionalismo. Sabemos que estamos a ouvir uma rádio local pela música pitoresca ou foleira, pelo sotaque não lisboeta mas mimético dos apresentadores ou pela publicidade, também ela uma irritante imitação de irritantes fórmulas. Geralmente processamos esta informação em dois segundos e, se não nos toma um impulso antropológico, os dedos mexem-se rápido na busca de uma sintonia mais favorável. Nunca garantida, mesmo que captemos claras e intensas todas as frequências da urbe.
Há um vago sentimento de invasão de privacidade quando na rádio local ouvimos certos programas de conversas com os ouvintes. A familiaridade entre locutor e audiência e a particularidade dos assuntos deixam-nos à porta, ligeiramente ruborizados ou soltando gargalhadinhas, travessas ou complacentes.
Na noite de quinta-feira falava o Dr. X — voz suave, tímida, de seminário ou sacristia, com nuances pedagógicas de psicólogo hertziano em turno de noite —, não contraditoriamente rodeado de risadas femininas. Estas eram simultaneamente domésticas e provocadoras, hesitando entre o à-vontade da sala de estar e a cumplicidade do recreio ou a excitação transgressora do território novo. O telefonema era de uma senhora, provavelmente amiga ou conhecida das que estavam no estúdio. Antes de desligar, passou ao marido, que tinha uma pergunta a fazer. Ouviu-se o chamamento e o marido veio de lá de dentro, a voz jovial em crescendo enquanto passava do corredor para a sala ou para a cozinha. Ele queria saber se o auditório já tinha a resposta para a adivinha da semana. Percebeu-se que o fazia semanalmente, telefonar a propor uma adivinha — um colaborador voluntarista, certamente não assalariado, dos media locais. A pergunta tinha sido para todo o auditório («Qual é a primeira coisa que um homem faz ao levantar-se de manhã?»), mas as senhoras em estúdio — talvez de um grémio cantante, etnográfico — tomaram conta dela. E durante o resto do programa, dez, quinze minutos, o locutor, um Júlio Machado Vaz ou Carlos Amaral Dias da planície branca, viu-se afastado do microfone. Lamentavelmente, já que as tentativas de resposta das senhoras — o burburinho, os apartes, a perda de pudor, o refustedo — eram claramente matéria excitante para um qualquer discípulo de Freud.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Diário de férias (4)

O dia correu sob o signo da calvície. De manhã, em A Informação*, o puto perguntou: «Papá? Tu és calvinista? Foste sempre calvinista? Como é que ficaste calvinista?» O pai tentava trabalhar: «Tu queres dizer calvo, Marco. Vai brincar para o meio do trânsito.»
O meu velho de Verão, talvez reagindo a um estímulo semelhante ao de Marco perante um tipo enfronhado num livro, deu uns bons-dias traquinas do seu lado do muro, mostrando pela primeira vez uma careca suada e alvacenta onde pousou depois uma boina em padrão de xadrez. Como o troco não foi famoso pela generosidade, ele saiu a resmungar para outro lado, creio que em busca da sua pobre Maria da Conceição.
O passeio da tarde tinha vaga esperança em abetardas ou grous. Não se flana no Alentejo como no Chiado se se alimenta uma mínima paixão de ornitologista. Vai-se atento às bermas e às ondulações da paisagem, às linhas de electricidade e aos postes telefónicos. Pára-se sempre que uma sombra não parece suficientemente estática. E por vezes acontece. À margem do caminho lá estava uma silhueta que tanto podia ser um calhau de costas para o sol como uma sorte maior. Para minha alegria, os calhaus não costumam dar pequenos sacões com o pescoço, e as galinhas, que os dão, costumam ser bem mais pequenas e estar mais próximas das povoações.
Não era ainda uma abetarda (lá virá o dia), mas era um belo, gordo, raro — e careca — abutre-negro. Mirámo-nos durante um bocado na planície amarelecida e seca, como pistoleiros num duelo ao pôr-do-sol. Ele teria aliás esse ânimo (legitimamente, depois de importunado por um curioso de calção e boné). Eu, se ele me deixasse chegar suficientemente perto, abraçá-lo-ia.
Mas, antes que lhe pudesse afagar a careca, o rapaz levantou voo, pesadamente — e com ele todo um bando de calvinistas que se acoitava atrás do morro. 

* Martin Amis, Quetzal.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Diário de férias (3)

Dos meus dois velhos de Verão, é o homem quem mais resmunga e coage e insulta, o que nas relações humanas não é propriamente uma novidade. Mas, outro lugar-comum, creio que também é ele que mais precisa da relação. Sem a mulher, estaria perdido, teria talvez uma não-existência decorativa em bares e tabernas. A companheira que aparentemente o agasta é na verdade o elemento que lhe permite viver a fantasia que vive. A sua ausência tornaria ainda mais injustificadas e ridículas as suas fúrias e remoques, esvaziá-las-ia ainda mais de sentido e proporção. De que outro modo poderia ele justificar para si próprio as suas tiradas pedagógicas, a pretensa sabedoria de vida, a suposta autoridade quanto às minudências do quotidiano? Como poderia ele indignar-se senão consigo próprio e com a sua necessidade de afirmação? Quem mais perderia um minuto a ouvi-lo e a ouvir as suas bravatas, a virulenta manifestação dos seus complexos freudianos, sem virar costas girando um metafórico indicador na testa ou, digamos, sem responder com um sopapo nos olhos?

A senhora senta as suas carnes pelo quintal olhando com majestosa indiferença o correr dos dias e a errática azáfama do cônjuge. Ela parece integrada na paisagem de corpo e espírito, possuída de ciência e paciência antigas, como uma esfinge auto-justificada. Ele sai de casa tomado de irritação e regressa com novo ânimo implicante. Pelo meio talvez tenha tratado das ovelhas, regado alguma horta, sido útil e feliz, mas sem o saber. Ou sem o reconhecer. Ela recebe-o como a um cachorro particularmente histérico, com as mesmas respostas e insultos formatados aos seus latidos maçadores. Far-lhe-á o jantar — não se deixa morrer à fome a mascote, mesmo que ela seja francamente o oposto de um cão de companhia. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Diário de férias (2)

A permeabilidade de muros que instala o Goucha nas minhas manhãs de Verão é a mesma que me põe a escutar conversas de um casal de velhos. Neste caso, a intromissão é minha, embora não seja minha a culpa — apenas queria terminar o Martin Amis em paz e silêncio.
Durante uma parte do tempo, os velhos não conversam — retorquem com impaciência, admoestam, resmungam. Falam por monossílabos e imprecações, com muitos hãs? pelo meio. Imagino-os prisioneiros um do outro no pátio da penitenciária que eles próprios construíram, esquecidos da razão porque ali se encontram, reclamando vagamente, mecanicamente, contra as paredes, o carcereiro, a pena.
Mas talvez o que me parece uma latência rancorosa mútua não passe de surdez gerôntica e consequente exasperação. O que agasta os velhos pode ser a sua própria insuficiência auditiva e não a presença odiosa do outro. Quem sabe se as suas imprecações, por vezes em solilóquio, não se dirigem apenas ao absurdo da biologia e da natureza? O mundo real não tem de ser tão ressentido, pessimista e deprimente (ainda que cómico) quanto o de Money. Pois não?
Claro que se temos de ler livros assim, não é imprevidente fazê-lo num alpendre alentejano, com o lado brilhante da vida a um passo da cerca, ali, na seara onde passeiam ovelhas.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Diário de férias (1)


Há muito tempo que não ouvia televisão em casa. É uma sensação estranha (e, claro, má) acordar com o eco da voz de Manuel Luís Goucha. Quero dizer, penso que era o Manuel Luís Goucha, na verdade não o vi — o aparelho está na casa do vizinho, provavelmente surdo como uma porta ou apaixonado pelos requebros tonais do apresentador.

domingo, 22 de julho de 2012

Running Up That Hill*

No caminho para casa, existia uma parede grafitada que Rita apreciava. Não era seu hábito reparar nestas coisas. Ou antes: reparava mas não lhe agradavam, não ficava a admirá-las. A cidade não desenvolvera vocações neste campo, se é que as tinha desenvolvido em algum. A maior parte dos graffiti estavam ao nível das criações dos seus filhos na primária: umas desajeitadas reproduções de lugares comuns. Mas aquela parede fora recentemente brindada com um pouco de talento: os gangues tinham requisitado algum artista de fora, ou um errante Miguel Ângelo dos aerossóis, desses que só se imaginam em filmes ou livros, passou e deixou o seu fresco, a marcar território como um cão o faria. Talvez pelas mesmas razões.
Nos últimos tempos ela iniciara uma rotina temerária. Tinha-se divorciado e queria voltar a experimentar a liberdade, queria estar de novo aberta ao que o mundo tivesse para lhe oferecer. Era em princípio um pouco exagerado como projecto de reabilitação sair para correr depois das onze da noite, como se as coisas de que ela sentia falta fossem nocturnas, noctívagas, mas a verdade é que não conseguira encontrar outro horário para o jogging no meio de tudo o que tinha para fazer. Ter ficado sem um marido não lhe concedera tempo, continuavam a existir os filhos, o trabalho e as horas que perdia em transportes públicos. Mas talvez a escolha do horário fosse consciente, uma necessidade de adrenalina que preenchesse o vazio. O divórcio podia ser apresentado como uma conquista, mas era também uma derrota amarga.
Levava, nos headphones, sob o capuz de rapper que a ajudava a isolar-se, uma selecção musical disparatada. Ou não disparatada: nostálgica. Kate Bush. Ela própria ordenara os temas: Babooshka, Wuthering Heights, Running Up That Hill, e, três ou quatro canções depois, o dueto com Peter Gabriel. Não confessaria a ninguém que ouvira isto anos antes, in illo tempore, e muito menos que o fazia agora. Era parte das coisas que ela reservava para si. Ouvir estas músicas fazia-a imaginar que voava em vez de correr. Havia algo de épico naquele som, na voz. Não lhe custava adivinhar a cantora com uma nova imagem de matrona, quilos a mais, rugas, os ossos a começar a encolher — tinha de se lembrar de ir à Internet ver como ela estava —, mas sentia isso como um sopro benevolente, como uma tia que a amparasse e estimulasse e acariciasse. Ou talvez uma irmã mais velha, afinal não as separavam assim tantos anos. E depois, no fim da selecção, havia aquela voz masculina, rouca, aguda, esforçada, que soava como se tivesse uma sílaba para cada vértebra da sua coluna. Peter Gabriel, agora tão gordo e careca, mas na altura tão perfeito e tão carente, com aquela barba por fazer e a agarrar num desespero encenado mas adorável uma Kate Bush que lhe dizia para não desistir. Era como cortar a meta em primeiro lugar, orgástico dessa forma, e ela abria os braços quando a voz dele soava mais aguda; levantava a cabeça, indiferente aos olhares.
A parede grafitada parecia diferente. Estava a vê-la a uma distância considerável, sem óculos, com os olhos húmidos da brisa nocturna, mas parecia diferente e ela não conseguiu perceber logo porquê. Talvez alguém tivesse desenhado por cima — havia disso, sobreposição de tags, ou lá como se chamava o que eles faziam. Um palimpsesto. Era assim a vida, escrever por cima do que foi erodido. Ou nem isso, não esperar pela acção do tempo.
O que tornava o graffito diferente era uma figura humana. Alguém que adoptava as precauções dos predadores, confundindo-se com as manchas verticais da pintura. Ela continuava a correr e a silhueta ia-se tornando um pouco mais nítida. Tinha um braço levantado, como se segurasse um telemóvel na orelha ou talvez um cigarro pensativo ao lado do rosto. Devia recear? Passava da meia-noite, a rua estava deserta e ela era uma mulher sozinha a fazer jogging, exposta aos elementos. O fato-de-treino folgado não disfarçava as suas curvas. No entanto, era de um género diferente o medo que ela sentia. Talvez nem fosse medo; algo que temer, mas não medo.
Subiu no elevador. As escadas, o esforço adicional de as galgar como remate da prescrição de exercícios que fizera a si própria, ficariam para outra noite. De certa forma, gostava da emoção de ser esperada, ou simplesmente espiada, mas não tinha perdido de todo o bom-senso.
Espreitou pela janela da sala enquanto desenroscava a tampa de plástico de uma garrafa de água. A figura tinha desaparecido, restava a parede tal como ela a via nas últimas semanas. Bebeu a água e virou-se para ir à cozinha preparar um copo de leite quente ou algo que confortasse o estômago antes de dormir. No momento em que avançava na penumbra do compartimento, pareceu-lhe esbarrar em alguma coisa. Não havia ali nada com que pudesse chocar, tanto quando o seu conhecimento da cartografia do apartamento lho lembrava e tanto quanto os seus olhos já habituados à escuridão conseguiam adivinhar. E na verdade não sentiu fisicamente um obstáculo — embora se tivesse detido, como se se tivesse materializado ali alguém que, ombro no ombro, medisse forças consigo. Era aquela coisa dos fantasmas, pensou, dos espíritos. Se somos capazes de imaginar uma presença, ela certamente tem como se manifestar. Dedicou uns segundos a ponderar o fenómeno, a conceber uma voz que lhe dizia das sombras: vês como se quiser te faço parar? Depois reflectiu sobre a sua própria fantasia e deixou de ver habitantes nas sombras. Foi-se deitar.


* In Aranda

Morrisey

— Havia uma música dos Smiths onde se repetia hang the DJ, hang the DJ e era a minha última noite e eu entrei na pista da discoteca possuída pelas fúrias a berrar aquele refrão. Gostava da música, pelo que, afinal, era uma injustiça fazer coro de um slogan assim, mas suponho que retoricamente não me importava que se matasse alguém, fosse quem fosse. Não estava era preparada para descobrir que ele era o DJ naquela noite. Eu para ali aos berros a reclamar a morte do DJ, simultaneamente eufórica pela bebida e pela música e infeliz de amores, e o DJ era ele. Os nossos olhares cruzaram-se quando eu rodopiava, e o que vi a seguir a tomar consciência de que era ele foi o meu reflexo num dos espelhos da discoteca. Eu de boca aberta, desgrenhada, braços no ar, escanzelada, sem jeito para aquilo, apenas histérica e demasiado bebida — a pedir que se enforcasse o DJ.*

* Rita, in Aranda

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Surpresa geral

Certeiro, este post do Delito de Opinião: «A normalidade».


Álbum fotográfico

O povo diz que o futuro a Deus pertence e isto tanto pode ser uma manifestação de impotência como de renúncia. Mas e o passado? A quem pertence o passado?
Olhando para algumas fotografias de infância, hesito. Reconheço o décor, o guarda-roupa, os restantes personagens, mas tropeço no protagonista. Quem é aquele indivíduo? De quem são aqueles cabelos? Aqueles olhos generosos? O sorriso inocente? Não faço ideia. As minhas memórias, as que sobreviveram, encaixam vagamente nas cenas retratadas, mas não evito um forte sentimento de desconfiança quando observo a criança que supostamente era eu trinta e tal ou quarenta anos atrás. Se não houvesse outras testemunhas, não me custaria falar em usurpação: um rapazola de belos caracóis a fazer-se passar por este pobre artilheiro.
Avanço entretanto na cronologia do álbum e na adolescência não fico mais descansado. Fico, aliás, mais incomodado. Que cortes de cabelo são aqueles que me atribuem? Que trajes ridículos dizem as fotos que vesti?
Aqui o personagem não me é tão estranho, cruzei-me com ele várias vezes, crescentemente, nos espelhos da casa de banho e do guarda-fatos. Numa ou noutra montra. A partir de certo dia, nos espelhos atrás de balcões em cafés. Quem sabe se na bola de espelhos de alguma discoteca dos anos oitenta, naqueles momentos em que o êxtase nos põe a olhar parvamente o tecto.
Em todo o caso, reconhecer o gajo não é aceitar de ânimo-leve que ele e nós somos um. Estamos a falar de alguém que vimos ao espelho há trinta anos. Quer dizer, há trinta anos havia certamente muita gente a frequentar os mesmos espelhos, quem pode garantir qual dos semblantes reflectidos éramos nós?
Pode acontecer que eu seja um caso particular, que mais ninguém se intrigue assim com um álbum fotográfico. As pessoas tendem a aceitar como boas as memórias que os outros têm da sua própria infância e adolescência. Partem do princípio de que não há no mundo, no seu mundo, maldade suficiente para que alguém minta sobre um período tão inocente. Eu próprio tenho partido desse princípio. Por isso me sinto agora como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, embora ainda não tenha esclarecido a que décadas corresponde cada uma das facetas.
Mas vamos que nos tenham mentido. Vamos que no que toca ao passado tudo não passe de um embuste, uma conspiração. Talvez devêssemos pensar humildemente duas vezes antes de nos gabarmos de feitos da infância: se calhar não éramos nós. De igual modo, talvez possamos deixar de sofrer com as maldades que supostamente fizemos décadas atrás: mesmo que não tenham prescrito, decerto foram cometidas por outra pessoa. Quem tenha dúvidas, que compare o nosso DNA com o DNA das fotos a preto e branco ou com cores deslavadas que alegadamente nos incriminam. Estou seguro de que não coincidem nos pixéis ou nas percentagens CMYK. 
O nosso passado é uma narrativa dos mais velhos. Não temos nada a ver com isso.