Isto porque parece mais ou menos evidente que a economia portuguesa não vai criar empregos nos próximos anos, nem com a ajuda extra do novo relatório do FMI. A célebre “competitividade” que o Governo e a troika andam a promover de mãos dadas, se tiver resultados positivos na criação de emprego massivo, é coisa para se ver daqui a uma década, talvez. Entretanto, se não houver nas entrelinhas do memorando também um nobre objectivo demográfico e ecológico (reduzir a mole tuga de 10 para 8 milhões, pela emigração ou pela fome), conviria lembrar a biologia: as pessoas precisam de comer, mesmo os preguiçosos, desqualificados e excedentes portugueses.
Assim, ou esta gente que veste Chanel e faz o Reveillon no Rio aceita que talvez a dívida e o memorando sejam de renegociar, nos seus termos e sobretudo no seu prazo, ou terá de começar a preparar com denodo e cinismo nazi os seus relatórios de baixas. O que não lhe deve ser difícil, aliás.
Que sejam o passado, as circunstâncias e a dura realidade a lançar-nos no desemprego e na fome, não a teimosia, a estratégia ou a ideologia actuais.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Detalhar o futuro
O relatório do FMI diz muita coisa, mas não diz o que fazer com os novos milhares de pessoas que vão ficar sem emprego e, pior, sem subsídio de desemprego. Um pouco de minúcia neste assunto precisava-se: Fuzilamento em massa? Gaseamento seguido de incineração? Detalhe, senhores, detalhe.
Where Are We Now?
David Bowie fez anos e o ponto da situação. Resolveu ser ele a oferecer-nos
um presente. Uma bela canção que é também um resumo de vida: melodia elegante e
ligeiramente épica a evocar o melhor da sua carreira* e uma franca voz
fragilizada notando que sempre é 66 a idade do autor. Mas tratando-se do single
de antecipação de um novo álbum, a canção traz consigo também um pouco de
futuro.
É aqui que estamos, portanto, e, para onde quer que olhemos, por cima
do ombro ou em frente, a vista parece fantástica, desde que iluminada pelo
Camaleão. Cheers!
* Lembra Five Years, por
exemplo.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Mais abaixo na rua e no nevoeiro
Mais abaixo na rua e no nevoeiro um cartaz intrigante numa vitrina informa que «No
jogo da vida, o casamento é o ás de copas» e, sem qualquer relação excepto um
inesperado traje de boda (fato, gravata, camisa branca, nada de anoraques,
sobretudos ou cachecóis numa noite de zero graus) e ar de esposo diligente, um
tipo apanha do passeio com um saco plástico e raro denodo os dejectos do cão
que trouxe a passear.
Se tiver de julgar por este exemplo, talvez o casamento seja mais o ás
de espadas, coisa para bravos imunes ao frio e aos comentários da urbe
provinciana.
Saído do nevoeiro II
Entretanto chega um outro tipo ao balcão, sem mistérios nem sugestões.
Um daqueles que se limitam a pedir mais um fino e a fechar os olhos em frente a
ele, cabeceando sem ambiguidades, saindo depois em ziguezagues e cantarolando
baixinho uma canção pimba de desencontros amorosos ou, premonitoriamente, de tragédias
na auto-estrada.
Saído do nevoeiro
O termómetro ameaça com zero graus. A neblina começa por sitiar a
cidade barrando os flancos poente e nascente e depois sobe dos rios e encobre
as ruas. Ele entra no estabelecimento para fugir do frio nocturno — percebe-se
ao cabo de uns segundos —, mas as suas roupas, as suas barbas e o seu cabelo (negros)
não estão suficientemente desalinhados para que o classifiquemos sem dúvidas como um
sem-abrigo. Ou, como é mais usado por aqui, um «bêbado».
Varre o interior com um olhar que não implora nem acusa e senta-se numa
das duas mesas livres à entrada, debaixo do plasma que transmite o jogo da
noite. De mãos nos bolsos do casaco, fixa o tampo de fórmica e recolhe-se como
um monge que meditasse e aguardasse digna e pacientemente a distribuição do
caldo. Por acção da temperatura agradável da sala o seu corpo amolece, inclina-se,
a cabeça vai descendo de encontro à mesa. Não como se cabeceasse à lareira: é
um movimento lento mas contínuo, sem recuos ou estremeções. Os taxistas e
outros habitués do café vão fazendo
no intervalo das jogadas apostas sobre se chegará a bater ou não com o nariz na
mesa. Não lhes ocorrem outras ideias sobre a personagem que saiu do nevoeiro.
Apenas a chalaça indiscreta, sobranceira, pueril. O empregado que passa dá uma
palmada na mesa para o acordar e avisar que a mesa faz falta.
De súbito, um cliente avança de uma posição discreta no balcão e com
modos suaves pergunta-lhe se quer uma sopa. Ele não reage com indignação
ressentida, fermentada a álcool, nem fica humildemente agradecido. Estremunha
um pouco e depois informa em voz baixa, neutra, que preferia um prato de
batatas fritas. Os taxistas mantêm um olho indeciso no plasma e outro nas
barbas do Rasputine. O cliente anui com naturalidade, batatas fritas é uma
opção nutricional como outra qualquer.
Daquele momento em diante, o homem saído do nevoeiro é também um
cliente, mesmo que a expensas de outrem, e o empregado age em consonância. Abandona
os modos paternalistas e censórios, traz-lhe uma toalha de papel, talheres e
guardanapo. Parece até afectuoso, talvez contagiado pelo gesto do cliente anónimo,
que entretanto retomou sem considerandos o seu lugar na linha que do balcão assiste
ao Estoril-Benfica.
Mais alguém se sentiu contagiado ou achou que faltava naquela mesa
acompanhamento líquido e uma taça de vinho tinto é servida, sem gracejos nem moralismos.
O das barbas come as batatas e bebe o vinho. Não procura colocar o copo a jeito
de um encore, ainda que decerto lhe
não caísse mal. No fim, limpa-se minuciosamente com o guardanapo e, sem
palavras nem emoções aparentes, mendigo de passagem ou incógnito Rei Artur
regressado da Cruzadas, volta com dorida fleuma para o nevoeiro de onde saiu.
Estranhamente, cá dentro ninguém fica a discutir a lata do indigente ou
a identidade do nobre, e não sei se deva atribuir isso ao nevoeiro se a mais um
golo do Benfica.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Diário de fim-de-ano (5)
Autocarros
Na verdade, não posso censurar a senhora do casaco de peles que
protagoniza a entrada anterior deste diário. O meu próprio rabo está longe de
apreciar a ideia de se fazer transportar em autocarro. Desde que há vinte anos,
durante quinze meses, fui cliente demasiado assíduo das rodoviárias nacionais, ganhei
uma profunda aversão a essa forma de viajar, embora lhe reconheça as virtudes
ecológicas. Na altura era um assalariado do Exército, e os vinte e cinco contos
que recebia não davam para passagens de avião (que também não estavam
disponíveis, de qualquer modo).
Quando se é militar, dorme-se em qualquer lado e em qualquer posição, diz
a lenda, mas eu era um militar pouco convicto e o meu sono era demasiado leve e
cheio de pesadelos. As viagens à sexta e ao domingo eram para mim horas de
tortura, incluindo a tortura do sono. Tanto que ficar de serviço ao
fim-de-semana significava um alívio que estupidamente não reconhecia. O
Exército obrigava-me a fazer muitas coisas, mas não a ir a casa nas folgas. E
até me dava de comer se eu decidisse passar o sábado e o domingo no quartel.
Mas eu achava que gastar metade do tempo em viagens horríveis e à espera de
ligações ferroviárias e rodoviárias que demoravam eternidades me faria esquecer
as agruras da vida militar. Não fazia. Fazia-me enjoar e estourar o pré em
cerveja (e bifanas, nas raras vezes que sobrava dinheiro para comida).
De maneira que andei duas décadas a fugir de autocarros. (Não ganhei a
mesma aversão ao comboio, talvez porque só os autocarros me davam aquele vago
mas garantido enjoo, que permanecia horas depois da viagem.) Quando há três ou
quatro anos uma viagem para o Vietname implicava ir na Rede de Expressos até
Madrid, não fiquei triste por o motorista se ter esquecido de nós numa deserta
paragem do Alentejo à meia-noite. Parecia-me até haver uma certa lógica
naquilo. Eu não gostava de autocarros; eles retribuíam a animosidade deixando-me
apeado. Tendo em consequência viajado de carro, com todas as despesas pagas, incluindo
o parque de estacionamento durante quinze dias em Madrid-Barajas, senti-me a
enganar a empresa transportadora. Não era só a estupefacção por uma empresa
nacional assumir de pronto e voluntariamente um erro e decidir em tempo útil
medidas práticas e compensatórias para o cliente apeado; era uma sensação de
culpa, como se eu tivesse planeado aquilo tudo para conseguir fazer com que a
viagem de carro fosse uma inevitabilidade paga pela Rede de Expressos.
De lá para cá, mérito da troika e do Governo, tenho recorrido ao
autocarro mais vezes do que as que desejaria — terminando sempre com o mesmo velho
enjoo. Animo-me contando as páginas que leio em cada viagem e que não leria se
viajasse de carro. Ou pensando na investigação antropológica e literária que
oito ou nove horas em autocarros permitem.
Permitem alguma, reconheço. (Mas não tão confortável quanto viajar o mesmo
número de horas ou o dobro num autocarro no Vietname; ali as viaturas de longo
curso possuem uma espécie de beliches que nos permitem dormir mais ou menos estendidos,
se ultrapassarmos a crise claustrofóbica, e acordar com dores no pescoço ou nas
pernas — em vez de embrulhados do estômago.)
Na penúltima viagem que fiz para atravessar a nossa bem-amada pátria, saiu-me
um tipo que passou a primeira hora a agradecer aos estudantes universitários que
connosco viajavam (e ele não conhecia pessoalmente) o sucesso da sua carreira.
Devia-lhes a eles o crescente número de contratos e a recente notoriedade de que
desfrutava. Vestia um fato comprado nos chineses, com uma gravata fina de
cabedal, e, com os seus trinta anos e figura franzina, usava um bigodinho de
actor porno. Era um cantor pimba — os estudantes sabem onde está o talento.
As restantes sete horas, o do fato passou-as a negociar sexo pelo
telefone. Não me entendam mal: o engate estava consumado, percebeu-se logo na
primeira chamada. O que acontecia era que a rede (dele ou dela) estava fraca e
a ligação estava sempre a cair. Também tinha havido um arrufo qualquer e eles
tinham de passar por todo o processo de acusações, amuos, chantagens, ameaças,
declarações e beijinhos repenicados antes de tratarem do negócio pendente. Como
a chamada caía sempre que as coisas pareciam avançar e eles tinham tempo (o
cantor não ia a lado nenhum antes de chegar a Bragança e ela também parecia
estar com tempo e disposição implicante), de cada vez que o telefone dele
repetia um hit foleiro (talvez o último
sucesso do dono como toque personalizado) as coisas voltavam ao início. Foi
preciso chegarmos a Penacova para que o tipo começasse finalmente a soletrar o
que pretendia dela. E o que pretendia era S. E. X. O. Assim mesmo, soletrado. Ésse, é, xis, ó. Cinco vezes soletrado,
tantas quanto as que a chamada caiu entre Penacova e Castro D’Aire. Ou nos
estava a tomar a todos que o ouvíamos ali no autocarro por parvos incapazes de
decifrar o seu acrónimo ou aquilo era já uma forma de sexo tântrico à
distância. Deve ter tido o seu orgasmo por alturas de Bigorne porque adormeceu
como um anjo e até Vila Real não se olhe ouviu mais um pio. Finalmente. Juro
que alguns de nós tinham estado a pensar fazer uma colecta para o mandar às
putas numa das paragens.
Hoje a viagem começou com um rapaz de óculos e sete anos, um saco
carregado de Angry Birds, um telemóvel com jogos dos mesmos bichos e som de flippers e uma inesgotável tendência
para falar. Mal me sento num autocarro, enfio as trombas no jornal ou no livro
para evitar pendurar numa orelha o letreiro roubado no hotel: do not disturb. Se não trago um desses
comigo, escrevo numa folha A4: «Este passageiro dispensa conversas, obrigado». Por
vezes basta-me mostrar a cara que Deus me deu. Com o puto nenhum dos três
métodos deu resultado. Devia estar a necessitar de mais dioptrias. A minha
sorte foi que a avó, do outro lado da coxia, estava profundamente empenhada no
seu papel educacional e respondia por mim às indagações do puto, antes que eu tivesse
de lhe mostrar uma outra espécie de angry
bird. A nossa conversa resumiu-se assim ao que se segue:
Puto: — Sabes o que eu gostava de ser quando for grande?
Eu: — …
Puto: — Aposto que não sabes.
Eu: — …
Puto: — Vou-te dizer: lambe-botas.
Avó: — Não sejas tolo.
Eu: — Excelente escolha.
O futuro lambe-botas não se coibiu, todavia, de me contar que o Natal
não tinha corrido lá assim muito bem no que se referia a presentes. Tinham
roubado a carteira ao pai em Espanha, com todos os cartões de crédito, e ele
não conseguiu substituí-los em tempo útil. Estive para lhe perguntar, com um
sadismo vingativo, se não tinha já idade para deixar de acreditar no Pai Natal
e em histórias daquelas, mas depois ocorreu-me que o pai do puto tinha sido sensato
ao resistir a contar a verdade sobre o Gaspar. Aos sete anos devemos ser poupados
à merda do Homem-do-Saco, mesmo que sejamos uns chatos do caraças.
O resto daquela etapa da viagem foi pacífico, o puto finalmente
desistiu de mim e azucrinou apenas a avó.
Puto: — Avó, viste o Star Wars?
Avó: — Não, não vi.
Puto: — Não viste A Guerra nas Estrelas?!...
Avó: — Ah, esse vi.
Puto: — E quem conheces da Guerra
na Estrelas?
Avó: — O Mr. Spock.
Puto: — O Mr.
Spock?!...
Avó: — Sim, um senhor com as orelhas muito grandes.
Puto: — Estás xexé?!...
***
Avó: — Quando tiveres uma namorada contas-me?
Puto: — Eu tenho uma
namorada.
Avó: — Ai sim? E como se chama?
Puto: — Frankenzilla.
Avó: — Estás xexé?!...
Antes de Viseu, noite cerrada, o autocarro para subitamente junto a um
café no meio de nenhures. O motorista informa, autoritário: «Dois minutos», e o
passageiro começa de imediato a abrir a braguilha na sua correria para o quarto
de banho. Regressa a apertar o cinto e com ar de duplo alívio. Tinha
conseguido. No prazo.
A meu lado, o passageiro que bebera uma das três cervejas que trazia no
saco, com um gesto contrariado desistiu das restantes. Decerto pensou que se lhe
tocasse a ele pedir uma paragem não prevista dois minutos seriam insuficientes.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Diário de fim-de-ano (4)
São
dois casais à mesa do almoço. Vão rilhando azeitonas e listando destinos de
viagens. Singapura, China, Rússia, Vietname, Brasil, Dinamarca... Existe um
país no mundo? Eles estiveram lá. É uma competição, mas como são amigos e o
almoço é o último do ano, os ânimos estão pacificados. Contentam-se em ser
montras de si mesmos, da sua vaidade, e quase não há discórdia ou contestação
sobre a beleza de um destino ou a qualidade de um hotel defendidas pelo outro
casal. Têm outros processos: sim, concedem que a coisa mencionada é excelente;
mas, se lhes permitem, não podem deixar de assinalar uma outra excelência a
poucos quarteirões dali. Ou na cidade ao lado. E aproveitam para introduzir um
novo país.
Na
Índia, a mulher do casaco de peles conseguiu cruzar toda a nação sem ter de
usar uma casa de banho que não fosse a higienizada de um hotel ou restaurante
incluídos no roteiro, tal o planeamento e a eficácia da agência de viagens.
Louva tanto a empresa e insiste tanto no feito que ficamos com a ideia de que a
agência de viagens lhe teria proporcionado um penico de ouro, se uma
necessidade súbita a acometesse entre Varanasi e Jaipur.
Já
na Finlândia, aliás um país de novos ricos, as coisas não correram tão bem. A
senhora não gosta de viajar de autocarro, fica-lhe a doer horrivelmente o rabo.
Por isso tinha-se mostrado um pouco horrorizada com a viagem de horas que a
amiga disse ter feito entre Helsínquia e S. Petersburgo. Ela também andou de
autocarro na Finlândia, mas num percurso mais pequeno, claro. O que não impediu
que as coisas corressem mal. Houve uma avaria e ela e o marido ficaram duas
horas inteiras à espera que a reparassem. Não enviaram um autocarro novo,
fizeram-nos esperar no local, vejam lá vocês. Definitivamente, a Finlândia foi
uma das piores viagens da sua vida. Paisinho cinzento e detestável.
A conversa decorria numa das nossas próprias cidadezinhas horrorosas de país assistido pela troika, e aqueles quatro eram decerto membros das forças vivas da região, com rendimentos fantásticos e influência política assegurada. Talvez tivessem até integrado alguns dos executivos autárquicos que tão diligentemente plantaram o caos e a fealdade pelas redondezas. Talvez agora estivessem também a empobrecer um pouco e as recordações de viagens fossem sintoma de império em declínio, nostalgia de família arruinada: no restaurante, com vinho e sobremesa, podia-se comer por pouco mais de cinco euros. Era um desses.
A conversa decorria numa das nossas próprias cidadezinhas horrorosas de país assistido pela troika, e aqueles quatro eram decerto membros das forças vivas da região, com rendimentos fantásticos e influência política assegurada. Talvez tivessem até integrado alguns dos executivos autárquicos que tão diligentemente plantaram o caos e a fealdade pelas redondezas. Talvez agora estivessem também a empobrecer um pouco e as recordações de viagens fossem sintoma de império em declínio, nostalgia de família arruinada: no restaurante, com vinho e sobremesa, podia-se comer por pouco mais de cinco euros. Era um desses.
Diário de fim-de-ano (3)
Falando
em horas extra, o mesmo monge-fantasma poderia já agora descer à Rua Infantaria
15 pelas sete da tarde que teria trabalho a fazer. As badaladas de um sino,
quando coincidentes com a hora de fecho seja do que for, têm nos portugueses o
mesmo efeito automático da sineta de Pavlov, e os espécimes em estudo nem
sempre são aqui cães, ou sequer funcionários públicos. A mesma urgência de
partir, a mesma antipatia e a mesma estupidez podem ocorrer em estabelecimentos
privados. O visitante pode ser igualmente instado a despachar-se por um
proprietário particular, e se quiser pagar as suas compras depois da sétima
badalada pode receber como resposta a informação de que o multibanco já está
desligado, sem que lhe seja proposta uma forma alternativa de pagamento. “Já
fechámos, já passa das sete” (sim, já quase não se ouve o eco da última
badalada), e isso justifica a expressão sobranceira, vingativa, vitoriosa da
dona da loja de artesanato. Os turistas entreolham-se, desolados, intrigados, e
deixam a mercadoria sobre o balcão, partindo convictos de que a senhora terá
outras fontes de rendimento. De qualquer modo, como a loja até tem produtos de
interesse e paira uma certa frustração no ar, os turistas partem também
desejando cruzar-se com o monge que, descendo do Convento a chocalhar os ossos,
virá por justiça transformar as noites da lojista num pesadelo.
Diário de fim-de-ano (2)
Já em Tomar conseguimos chegar ao centro histórico e ao Convento de Cristo sem necessidade de tomar grande contacto com a boçalidade urbanística do século XX. Ela existe, acompanha-nos ao longo das estradas, pressentimo-la a sitiar a cidade velha, na outra margem do Nabão, como uma horda de bárbaros às portas da urbe; vemo-la das muralhas do castelo, se por má sorte o nevoeiro levanta um pouco do véu. Mas por enquanto, neste lado do rio, parece existir uma relativamente sã convivência entre os velhos muros e os modernas aspirações plebeias. Ao contrário de outras cidades portuguesas, o centro histórico de Tomar, tanto quanto se pode concluir numa visita curta, está razoavelmente vivo, tem comércio, serviços, gente.
Talvez esse espírito de convivência esteja exemplarmente expresso no centenário Paraíso, um desses históricos cafés centrais de amplo pé-direito e decoração imperial que certas terras deixam ruir e outras transformam em alguma coisa completamente diferente e em geral mais imbecil. O Café Paraíso tem de manhã as senhoras da sociedade a tomar o seu café ou chá, com os cônjuges mergulhados no Expresso ou no Diário de Notícias. Ao final da tarde, chegam para aperitivos e finos — com um livro ou um jornal aberto sobre a mesa, se não houver companhia para o debate — os últimos intelectuais do burgo. À noite, até às duas da manhã, juntam-se os pós-adolescentes noctívagos, uma rapaziada abundante que preenche toda a lotação e a certa altura transborda para a rua, engrossando à porta do Paraíso o botellón local.
Claro que Tomar não escapa incólume à fatalidade de ser portuguesa. Também o seu magnífico Convento precisa de ser assombrado; no caso, por algum monge que não esteja possuído por um espirito de funcionário público. Um que entre uivos e gemidos tenebrosos pudesse explicar ao staff do monumento que se o horário de fecho de um espaço é às cinco e meia não se tenta pôr os turistas na rua toda uma meia hora antes, não se eles já estão nos troços finais do percurso de visita. As diligências pós-fecho são para serem realizadas após o fecho. Se precisarem de renegociar o seu horário com a entidade patronal, façam-no. O turista paga pelo horário dele.
Talvez esse espírito de convivência esteja exemplarmente expresso no centenário Paraíso, um desses históricos cafés centrais de amplo pé-direito e decoração imperial que certas terras deixam ruir e outras transformam em alguma coisa completamente diferente e em geral mais imbecil. O Café Paraíso tem de manhã as senhoras da sociedade a tomar o seu café ou chá, com os cônjuges mergulhados no Expresso ou no Diário de Notícias. Ao final da tarde, chegam para aperitivos e finos — com um livro ou um jornal aberto sobre a mesa, se não houver companhia para o debate — os últimos intelectuais do burgo. À noite, até às duas da manhã, juntam-se os pós-adolescentes noctívagos, uma rapaziada abundante que preenche toda a lotação e a certa altura transborda para a rua, engrossando à porta do Paraíso o botellón local.
Claro que Tomar não escapa incólume à fatalidade de ser portuguesa. Também o seu magnífico Convento precisa de ser assombrado; no caso, por algum monge que não esteja possuído por um espirito de funcionário público. Um que entre uivos e gemidos tenebrosos pudesse explicar ao staff do monumento que se o horário de fecho de um espaço é às cinco e meia não se tenta pôr os turistas na rua toda uma meia hora antes, não se eles já estão nos troços finais do percurso de visita. As diligências pós-fecho são para serem realizadas após o fecho. Se precisarem de renegociar o seu horário com a entidade patronal, façam-no. O turista paga pelo horário dele.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Diário de fim-de-ano (1)
Assombrações
Não sei se D. Afonso, Conde de Ourém, era um desses nobres que juraram manter-se devotos dos costumes e das tradições até à morte ou se tinha ambição maior e tencionava depois do decesso permanecer em espirito a assombrar os vindouros, como é apanágio dos seus primos escoceses. Se teve isto na ideia, falhou: não consta nem no Correio da Manhã que Ourém seja uma terra assombrada. Não por antepassados tão distantes, pelo menos.
Ourém, ou antes, a Vila Nova de Ourém é uma terra feia que deve causar lancinantes dores de alma a um espírito vaidoso como o de D. Afonso. Alguém que em vida construiu um paço tão elegante e distinto como aquele que (ainda) se ergue na colina, com vistas bucólicas sobre a Serra de Aire e envolvência, deve certamente sofrer horrores com aquilo que no século XX fizeram com o vale e com a paisagem que podia admirar da sua moradia.
Um tipo até pode achar ridícula essa coisa de morrer e transformar-se numa alma penada que passa o resto da eternidade em camisa de dormir a arrastar correntes pelas assoalhadas do castelo, mas quando em vida se constroem umas torres catitas como as do Paço de Ourém dificilmente se resiste à tradição de infernizar a posteridade, se a posteridade tratou de conspurcar o território que um dia foi o nosso condado.
Não simpatizo com a monarquia, mas simpatizo com nobres suficientemente snobs e rabugentos para se darem ao trabalho de permanecer uns séculos por perto da coutada a zelar por ela — ou a assombrá-la em havendo boas razões para isso.
Vila Nova de Ourém — que ao deixar cair em 1991 o “Vila Nova” na verdade usurpou o nome da medieval e bonita povoação na colina do castelo — é uma daquelas cidades onde de bom grado deixaria à solta o meu amigo Dinamite com umas dúzias de velas do explosivo homónimo. Mas como a actividade bombista é injustamente proibida em Portugal, deveria a junta de turismo da região mandar construir uma variante rodoviária que levasse os visitantes ao castelo e ao paço sem cruzar a cidade no vale. Toda a sinaléctica deveria ignorar a existência da Vila Nova. Os próprios mapas nacionais, se o país se estimasse, não teriam qualquer referência à Vila Nova de Ourém. Da existência de Vila Nova de Ourém saberiam os seus impotentes ou cúmplices habitantes e mais ninguém. O mundo deveria ser poupado a uma terra que prefere hastear a bandeira do município na assustadora sede nova que recentemente construiu em vez da restaurar a antiga e simpática que lhe fica ao lado. Vila Nova de Ourém não merece o património da colina nem o nome que indevidamente usa. Merece que algum herdeiro de bom gosto e honra invoque numa noite de lua cheia o vaidoso Conde D. Afonso e que este desça do castelo ao vale com fúria demolidora, cuspindo napalm pelas ventas.
E quem diz Ourém diz meio país.
sábado, 29 de dezembro de 2012
O fim da fé
Costumava acreditar no capitalismo e na automatização e informatização
dos sistemas de produção. O capitalismo assegurava o crescimento geral e estimulava
o desenvolvimento da democracia. A automatização libertava o homem para o ócio.
Entretanto perdi a fé.
Não me confundam: a automatização e a informatização são em si
excelentes, mas não me parecesse nada evidente que hoje estejam ao serviço da
humanidade. O capitalismo continua interessado em garantir a máxima produção
com o menor custo, mas já não há ninguém (com poder) interessado em garantir
emprego para os humanos. E, paradoxalmente, a aspiração ao ócio passou a ser uma vergonha, um pecado.
Já não temos como acreditar que os processos e os mecanismos do
capitalismo e da investigação tecnológica garantem a renovação dos empregos. O
crescimento global permanente é uma impossibilidade e a inovação tecnológica não
está a assegurar suficientes novos empregos. O rácio entre chips e humanos é-nos simplesmente desfavorável.
Não havendo epidemias e cataclismos que dizimem suficiente população, o
mínimo bem-estar geral só pode ser assegurado por uma diferente redistribuição
da riqueza. Mas também isso é algo que o capitalismo não parece nada interessado
em providenciar. O capitalismo, tal como praticado nos dias que correm, é uma
bela ideia que nos condena.
À falta de outra inspiração, hoje no supermercado evito as caixas
automáticas; procuro um funcionário de carne e osso, mesmo que isso signifique
estar alguns minutos numa fila.
É uma espécie de luta. Uma luta que perderei, claro: no final, os custos
da mão-de-obra extra serão acrescentados às minhas despesas e não deduzidos aos
dividendos dos accionistas.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Do estado das artes
«(…) durante 30 anos de absoluta liberdade não
apareceram “actividades culturais” de qualidade e consequência: em 2012
continua a não haver teatro, dança, ballet e tudo o resto.» Vasco Pulido
Valente, in Público de 23/12/2012
No mesmo artigo em que reconhece que a cultura sempre viveu
financeiramente mal neste país, Vasco Pulido Valente é capaz de cometer a frase
tremendista acima e de afirmar que os produtores (culturais) «mais do que
merecem» a ausência de público. Público que, aliás, tem um manifesto
«desinteresse ou repugnância» pela «presença ou só o cheiro da Cultura».
Ora, é curioso que o anacoreta Valente, que reconhece a atávica alergia
tuga à cultura e o subfinanciamento da dita, não hesite, como sempre faz, em
culpar os produtores culturais pelo (suposto) fracasso das artes em Portugal.
Se não soubéssemos que a especialidade pulidiana são os raciocínios
mancos servidos com prosa gourmet,
talvez estranhássemos. Ou se não conhecêssemos a necessidade patológica que o arquétipo
do velho rezingão tem de considerar Portugal um esgoto.
Curiosamente, nem estou de acordo com a premissa de que a cultura tem
sido subfinanciada. Ou por outra: nos últimos dez anos houve orçamentos
simpáticos para a cultura, o que acontece é que, como aliás VPV também refere, em
Portugal a cultura é um chapéu de abas muito amplas. Tão amplas que tem sido
possível acolher na sua sombra com uma regularidade e um cachet impressionantes o cançonetista Tony Carreira e uma miríade
de epifenómenos.
Se não há público em Portugal para a cultura é porque aos portugueses
têm sido servidas doses maciças de imbecilização nas TVs, nas rádios e nas
escolas. Quase todo o espaço público português, incluindo a RTP e os artigos do
triste Vasco, está ao serviço da estigmatização das artes. Para os media nacionais, teatro em Portugal são
as comédias do sr. José Pedro Gomes. As comédias de J. P. Gomes (por vezes hilariantes)
já eram quase tudo o que a maioria dos portugueses suportava e quase tudo a que
a maioria dos portugueses assistia, mas a crise veio trazer uma súbita
necessidade de humor ao país. Os nossos concidadãos, néscios e carentes como
crianças órfãs, nunca foram encarados como seres inteligentes e interessados em
alguma coisa diferente da anedota, mas agora a anedota é também caridosa e salvífica.
Ainda ontem na Prova Oral da Antena 3, do sintomático Alvim, se reforçava esta
crença, à sua maneira, natalícia.
Pelo seu lado, as escolas, na senda dos programas televisivos de
talentos anónimos, estão mais apostadas em levar os meninos ao palco do que em
sentá-los na plateia. As escolas, corpos docentes inteiros, como as TVs, seguem
a ideia de que quem é capaz de gorjear uma cançoneta sem cair do palco é um
portento das artes. E estão igualmente disponíveis para incensar o talento
mimético e acéfalo. Na mesma medida em que, com honrosas excepções, estão indisponíveis
para fazer qualquer pedagogia ou ilustração, aliás o seu mester.
(As universidades não contam para a educação nacional; são geralmente inúteis
nesta equação das artes.)
E entretanto, ao contrário do que é apregoado no espaço mediático da
paróquia, as artes lusas recomendam-se vivamente. (Posso sustentá-lo com uma
lista, se alguém o desejar.) Concedo que seja necessário ir aos teatros e aos
museus para saber disso — mas as televisões, as escolas e a opinião pública,
incluindo a última página do Público
ao fim-de-semana, não sabem como se sentar calma, anónima, regular e atentamente
numa plateia. É este, e não outro, o drama das artes em Portugal.
Leitura natalícia: o lado B do Natal
Ontem li este livrinho com seis deliciosos "Contos de Natal que a avó nunca te vai contar". É uma colectânea adequadamente subversiva de quatro autoras e autores catalães e um português. A editora tem o belo nome de O Lado Esquerdo e um logótipo de causar inveja. Já vou tarde para o aconselhar como leitura obrigatória destas festividades, mas 1) Natal é quando um homem quiser e 2) mesmo que não queira, para o ano também há Natal. O livro foi editado em 2010 mas o que são dois anos em dois mil de cristandade? Em Vila Real vende-se na Traga Mundos. Outros povos podem talvez encomendá-lo do Alentejo à mãe Natàlia (a editora) através do site http://oladoesquerdo.org/.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Impostor
Como alguém que há vários plebiscitos vota em branco, não me cabe
defender a honra de quem quer que seja na política, incluindo a esquerda. A
direita tem, aliás, boas razões para rebolar de riso com o caso do impostor da
ONU. Quem espera um D. Sebastião, acaba por ter um, diáfano e inútil como todos
os mitos e mitómanos. E a esquerda teve o seu com o sr. Artur Baptista da
Silva.
Contudo, as gargalhadas da direita deviam acabar no momento em que
estivesse disposta a reconhecer como também ela crê nos seus impostores. No
caso, um bastante mais prejudicial ao país: o sr. Miguel Relvas.
Cedo se percebeu que Relvas era má rês, quando o vimos enredado nas
suas contradições, nas suas ocultações, nas suas mentiras, na sua bazófia de
chico-esperto impune. No entanto, a direita, tão desesperada para acreditar num
governo mais liberal do que o costume (o que até é compreensível), foi sendo
condescendente, relativizando, ignorando, fechando os olhos, contemporizando. O
tipo era um desqualificado, um oportunista, um cretino, à sua maneira um impostor, mas era o impostor dela.
Hoje a direita bem pensante, Helena Matos e Vasco Pulido Valente vagamente
incluídos, bastante depois de todo o português com dois neurónios e sentido de
honestidade, já reconhecem que o sr. Relvas é uma voraz mancha no cadastro e um
tiro no pé do Governo. (Embora nem sempre estendam o raciocínio para denunciar
as más razões por que ele continua lá, as suas ligações perigosas a
Passos.) Mas na verdade, tirando uma ou outra hipócrita indignação, ninguém faz muita coisa para que o homem saia. Sair
Relvas é cair o Governo, como todos sabemos, e isso, um Governo de direita mais liberal, é coisa que a direita não pode perder, mesmo que tenha de
continuar a aguentar, e nós com ela, os seus doutores que não o são, os seus ministros que não o são (não da república, pelo menos), os seus impostores.
A direita poder rir da estupidez da esquerda e dos jornalistas
portugueses, mas infelizmente nós, os do voto em branco ou os da genitália no
boletim, não vamos poder rir da estupidez da direita e do seu Governo de
impostores. Não dá muita vontade de rir quando se está sem cheta no bolso a ver
os negócios e a merda que fazem com o país.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Civilização perdida
É claro que quando li Os Maias era um adolescente retardado e pensei que fosse um livro sobre uma civilização perdida...
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Os Maias e o fim do Mundo
Não percebo esta coisa sobre Os Maias e o fim do mundo. Li o livro todo
e não me lembro de nada sobre o assunto. (Já foi há muito tempo, é verdade.) Quem
disse que era hoje? O João da Ega?
Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")
Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro
lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de
a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um
cabritinho distraído ou tresmalhado.
Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de
ser, os pais dela precisavam de ir ao shopping
fazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias
palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô,
que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a
tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não
percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a
lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita
gente no shopping à espera de falar
com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando
ela vai lá.) Os pais se calhar ainda
estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias
para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a
entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente
telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir
desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como
acontece sempre que vão os dois ao shopping.
Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem
feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor
passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?
Tem razão
O Jornal de Notícias é que
não acha justa a distinção de que é alvo o Correio da Manhã. E tem razão. Cada vez tem mais razão.
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