sábado, 22 de dezembro de 2012
Civilização perdida
É claro que quando li Os Maias era um adolescente retardado e pensei que fosse um livro sobre uma civilização perdida...
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Os Maias e o fim do Mundo
Não percebo esta coisa sobre Os Maias e o fim do mundo. Li o livro todo
e não me lembro de nada sobre o assunto. (Já foi há muito tempo, é verdade.) Quem
disse que era hoje? O João da Ega?
Passeio dilatório (da série "Jogging no Parque")
Ela está a passear no parque com o avô, mas a sua cabeça está noutro
lado. Caminha sem convicção, absorta. Atrasa-se, o avô tem de vez em quando de
a empurrar e repor no caminho com a bengala, carinhosamente, como se faz a um
cabritinho distraído ou tresmalhado.
Não é muito comum virem passear os dois para o parque, mas hoje teve de
ser, os pais dela precisavam de ir ao shopping
fazer uma coisa e não queriam que ela fosse. Puseram-se a falar com meias
palavras, como se ela não estivesse ali, a combinarem o passeio dela com o avô,
que dia tão lindo para irem ver o rio... Como se ela fosse estúpida. Como se a
tomassem por parva. Como se esta não fosse a quadra que é. Como se ela não
percebesse que o objectivo deles era irem sozinhos ao shopping para se encontrarem com o Pai Natal e lhe apresentarem a
lista das suas prendas. O avô escusa de ter pressa, ela bem sabe que há muita
gente no shopping à espera de falar
com o Pai Natal. (Não percebe por que o Pai Natal nunca está no shopping quando
ela vai lá.) Os pais se calhar ainda
estão na fila. E depois é uma seca ter de esperar por terça-feira. Tantos dias
para fazer a entrega. O Pai Natal é como a Worten, que demorou quase uma semana a
entregar o computador novo. Ao menos a Pizza Hut entrega na hora, se a gente
telefonar. Os pais talvez pudessem ter telefonado ao Pai Natal. Escusavam de ir
desesperar para a fila e regressar a casa chateados e irritadiços, como
acontece sempre que vão os dois ao shopping.
Tinham vindo passear no parque com ela e o avô. Não que alguma vez o tivessem
feito, mas isto até é giro. Avô, viste como a ponte abanou quando aquele senhor
passou a correr? Que divertido. Vamos abaná-la outra vez? Vamos? Vamos?
Tem razão
O Jornal de Notícias é que
não acha justa a distinção de que é alvo o Correio da Manhã. E tem razão. Cada vez tem mais razão.
Correio da Manhã
Não há muitas coisas certas na vida, mas é seguro defender que se um
cronista é de direita mais tarde ou mais cedo nos vai remeter para o Correio da Manhã, mesmo que surpreendentemente
não escreva lá. Se queremos conhecer o país, dizem, devemos ler aquele jornal.
Viver no país, passar a semana atulhado no país, ser quotidianamente atropelado
pelo país não chega — é preciso ler o matutino.
A ideia daqueles cronistas é fazer-nos notar como o povo continua
violento e selvagem, não estejamos nós por acaso distraídos. Mas não o fazem
como uma forma de denúncia, de censura do primitivismo popular, de acusação por
as instituições não estarem a melhorar a sociedade. Não insistem nisto para
apelar à mudança do statu quo, como
se poderia imaginar.
Não. Se os cronistas de direita acenam com o Correio da Manhã como sinaleiros de aeroporto é porque precisam de nos
acusar regularmente de não vivermos neste país, de não conhecermos o país. Não
importa que se cometam atrocidades em Portugal — o que é grave é nós ignorarmos
alguma delas, que alguma nos escape. Não importa quantas violações, quanta
violência conjugal, quantos roubos e assassinatos, quantos ossos partidos e
membros decepados — desde que possam culpar-nos por não estarmos atentos. O
grave não é o quotidiano ser horrendo — é nós pensarmos que ele pode ser
diferente e tentarmos viver felizes apesar dele.
Estes cronistas não invocam o Correio
da Manhã para nos lembrarem como o país é bárbaro e devia ser mudado. Fazem-no
porque querem que partilhemos o seu fascínio pelo sangue. E, sejamos justos, esta
vontade de partilhar até revela que há neles alguma coisa de bom.
1. O saca-rolhas
De trás do balcão, o cozinheiro assiste ao programa, divertido, enquanto
deita um olho aos grelhados. Restam dois clientes nas mesas e um deles assiste
ao mesmo programa. Trocam episódicas observações e piadas sobre o que vêem.
Na televisão aparece Manuel Luís Goucha. Riem mais um pouco. O
cozinheiro insinua a dado passo que aquele apresentador também precisava de «um
saca-rolhas», e ri-se da espirituosidade do seu dito. O cliente também ri, mas
depois recompõe-se. Quer dizer, o crime foi uma brutalidade, mas, bem, o
colunista era uma pessoa detestável. O tipo passou-se e vai apanhar uns anos,
claro, aquilo não se faz, mas olhe que o outro era mesmo…
O cliente, habituée da casa,
é uma pessoa assertiva, informada, cheia de opiniões e certezas sobre tudo e
uns trocos. Com frequência atinge um certo grau de empolgamento e utiliza
argumentos veementes, de autoridade. O cozinheiro costuma ficar a ouvi-lo,
pendente da sua sabedoria. Desta vez também tomou um tempo a avaliar-lhe as
palavras. Depois decidiu que aquilo era sanção. Voltou-se de novo para a TV, chocarreiro:
«Gouchita, Gouchita...»
2. Cantado ao vivo
Num outro programa, de cantorias, duas figuras públicas mostram os seus
dotes. Em rodapé a legenda: «Cantado ao vivo.» O que pretendem com aquilo? Que
nos espantemos com o talento da dupla? Ou que desculpemos a sofrível qualidade
do que se ouve? «Ao vivo», neste caso, é a informação que pede palmas
redobradas ou que evoca as limitações da tecnologia? Alguém na régie daquele canal está entusiasmado
com as vedetas e espera que leiamos o ponto de exclamação que se esqueceu de
colocar no final da legenda ou aquilo é apenas o realizador a informar que não
pode fazer nada quanto à desgraça que ouvimos? Talvez seja alguém
suficientemente irónico e confiante na capacidade dos espectadores para decifrarem
a sua pequena boutade. Não é
impossível que haja alguma vida inteligente na TV generalista.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Do râguebi à Casa dos Segredos
Fruto de um desses equívocos que, repetidos displicentemente, se
transformam em mitos, imaginava o râguebi como um desporto de cavalheiros, um
reduto onde a força bruta andava a par das boas maneiras. O râguebi ilustrava mais
do que outro desporto ou ofício a hipótese de a sensibilidade e a robustez
coincidirem num mesmo corpo macho. No campo era preciso aguentar placagens
violentas, mas também observar de bom ânimo as regras. Havia a dureza do embate
físico e a compreensão do regulamento.
Era uma luta primitiva conduzida com as rédeas do sangue-frio. Os jogadores de râguebi,
habituei-me a pensar, eram super-homens, mais pelo autocontrolo emocional do
que pelo poder muscular.
Ilusão minha. Hoje, na mesa ao lado, trataram de fazer ruir o mito. Falavam
de uma equipa universitária de râguebi, mas podiam estar a falar de uma
quadrilha de rufias. Os jogadores ali mencionados eram tipos que, se não
estivessem bêbados, estavam a andar à porrada. Geralmente acumulavam.
Se saíam em viagem, faziam questão de aterrorizar os empregados de estações de
serviço e partir algum mobiliário, como as mais aplicadas claques de futebol.
Não concebiam estar em público sem demonstrar de alguma forma violenta o seu
poder, como machos alfa de um grupo de símios. De alguns dos espécimes descritos
pareceu-me difícil assegurar se tinham sido recrutados numa universidade ou num
asilo de doidos furiosos. Não ouvia suficientemente bem a conversa para ter a
certeza.
De tudo isto os comensais, três machos e uma fêmea, riam, divertidos,
sem espanto, conhecedores e apreciadores da fauna. Ninguém naquela mesa deve
ter crescido na mesma ingenuidade que eu.
Havia, contudo, alguma inexactidão nos relatos, porque quando um deles
mencionava certos jogadores célebres havia quem dissesse que a esse a idade
tirara o ímpeto, enquanto outros diziam que, pelo contrário, estava mais combativo
do que nunca. E retorquiam que o façanhoso antes referido pela outra parte é
que estava já numa pré-reforma de chá e rotary
club.
Talvez porque tivesse havido algum exagero nas façanhas descritas e percebessem
que com os celerados do râguebi o sangue na mesa diminuiria (a não ser que eles
próprios o fizessem derramar insistindo nas divergências), os comensais
passaram logo que puderam para o estudante universitário comum, esse vândalo
sem prática desportiva obrigatória cuja selvageria era mais consensualmente
reconhecida e admirada.
Ouvi-lhes que, a propósito da prática frequente de atirar copos de
vinho tinto à alvura do tecto, houve um restaurante cansado de manchas rubras que passou a servir apenas
vinho branco em jantares universitários. E isso levantou na mesa a difícil questão
de saber se a culpa da excitação púbere é da permissividade dos estalajadeiros se
da zurrapa que dão a beber aos discentes. Outro assunto em debate era se os
proprietários de restaurantes teriam meios de, por si sós, impedir os grupos
universitários de sair sem pagar quando isso lhes apetecia ou se teriam sempre
de recorrer à polícia. Apresentavam exemplos, referiam casos de sucesso, de
jantares por cobrar.
Não era preciso olhar-lhes os rostos para perceber que os meus co-comensais
não tinham abandonado a universidade assim há tantos anos: havia naquela mesa
semi-domesticada certas saudades da selva.
Mas os feitos académicos já não me interessavam. Deixei de ligar à
conversa, matutando na possibilidade de a equipa de râguebi daquela mesa não
ser representativa do râguebi em geral — não desistimos facilmente das nossas
ilusões, da nossa candidez.
Voltei a reparar neles quando ouvi que de novo litigavam em matérias candentes.
Sexo em público? Todos tinham testemunhado, claro. No Brasil, dizia um. Naquela
ilha espanhola (como se chama?, Palma de Maiorca), gabava-se outro. Na Madeira,
subiu a parada a moça, dentro de água. Isso era vulgar, desvalorizou um
terceiro, admiração seria na areia. Está bem, insistiu ela, mas viam-se mesmo
os movimentos.
Isto, percebi depois, vinha a propósito da Gabriela e da importância de perceber se na telenovela original «elas»
andavam assim tão descascadas e, presumo, se se viam mesmo os movimentos. A mãe
de um assegurava que sim; a mãe de outro que não. A do terceiro dizia que era
possível, porque lá no Brasil as coisas sempre tinham sido assim mais…
Como na Casa do Segredos,
aliás. Tinham visto aquela parola? Não, a outra, a que se gabava de ser formada
e dar aulas e mais não sei o quê e num concurso tinha falhado ao apontar no
mapa Vila Real. Quer dizer, como pode alguém não saber onde fica Vila Real, admirou-se
o geógrafo que um dia tinha visto sexo na ilha de «Palma de» Maiorca.
Os parolos sempre acham que a suprema ignorância é alguém não saber
onde fica a nossa terra.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
O Cavalo de Turim: abertura e encerramento
Se O Cavalo de Turim não fosse uma obra de arte por várias outras razões, sê-lo-ia suficientemente pelos quatro minutos e vinte e dois segundos do vídeo acima, a cena de abertura. Durante esse tempo, tudo o que nos é mostrado é a evolução no terreno de um cavalo que puxa uma carroça com um homem sentado nela.
É certo que se ouve a peça musical de Mihâly Vig, e esta poderia ser desfrutada de olhos fechados durante todos os quatro minutos. Mas quando a ouvimos olhando convictamente o ecrã fruímo-la melhor, temos uma experiência mais forte, somos conduzidos a um outro nível de sensações. Imagem e som funcionam como uma peça única, uma instalação. Se fosse curador de um centro de arte contemporânea, gostaria de obter licença para projectar numa sala, em loop, estes poderosos 4’22’’, e duas ou três vezes por dia eu seria um dos visitantes da sala, como uma personagem de Don Delillo ou um gestor onanista candidato às listas de desemprego deste Governo.
O cinema pode ser uma coisa para fruir contemplando, como quadros em museus ou orquestras em palcos. O Cavalo de Turim é uma obra dessas, que durante duas horas e meia nos pede que contemplemos. A maioria das pessoas ignora o apelo. Se não ignorasse, se adquirisse um bilhete, talvez irrompesse um tumulto na sala ao fim de vinte minutos, pateadas, assobios, indignações, exigências de reembolso. Béla Tarr não fez o filme para valer os seis euros que custa um bilhete de cinema num multiplex. O filme incomodaria as pipocas, os comentários jocosos, as trocas de sms. Seria aborrecido.
Para O Cavalo de Turim não há mais de umas poucas de dezenas de espectadores que se submetem ao ritual colectivo do silêncio e da contemplação. Exibi-lo não é uma actividade lucrativa, do ponto de vista monetário. Contudo, exibi-lo é um trabalho que alguém tem de fazer, se queremos comunidades decentes, que respeitam os interesses das suas minorias silenciosas e contemplativas. Da sua reserva de inteligência e bom gosto, talvez nos seja permitido dizê-lo.
A democracia não é uma questão de escolha, é a questão anterior da possibilidade e liberdade de escolha. Que o mercado não assegura. Talvez o Governo tivesse o dever de pensar nisto antes de fechar a RTP2 e preparar o terreno para outros males de lesa-intelecto. Se quisesse ser respeitado.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A televisão a cores…
Já fui um gajo de fé. Em rapaz acreditava no progresso. A televisão lá em
casa era a preto e branco, mas eu tinha a certeza de que mais tarde ou mais
cedo ela ia começar a dar a cores. Em certos filmes da minha preferência, os
céus iam azulando, adivinhavam-se já pontinhos de verde nas árvores, pinceladas
de vermelho nas poças de sangue. Era o aparelho a esforçar-se. Púnhamos-lhe a
mão e ele estava quente, com a febre de se colorir. Mesmo a desoladora areia
que em tantas noites de Inverno ocupava o ecrã em horário nobre amarelecia de
semana para semana, a caminho de ser um Saara tremeluzente.
…e O Cavalo de Turim
Ontem, enquanto via o filme O Cavalo de Turim, evoquei aquela
fé antiga. Era o meu espírito num contraponto entre a juvenil alegria da crença
na cor e a não menos prazerosa melancolia da escala de cinzas. Naquela fase, o
filme ainda hesitava entre o vazio do branco e a opressão do negro (não havia
outras escolhas). Depois toda a evocação cessou, a resistência era inútil,
desajustada: o filme rendeu-se definitivamente a um negrume formal e metafórico. E eu com ele.
Banda sonora
...para o post anterior e para o que se seguirá dentro de duas horas:
(Belíssima
peça musical de Mihâly Vig para e omnipresente em O Cavalo de Turim.)
1. Correr à noite
Gosto de correr com a noite instalada. Bem, gosto de correr sempre, mas
de uma forma particular quando, no Inverno, as trevas já desceram sobre a
cidade. Uma parte do percurso que faço, no vale estreito do rio, não tem
iluminação pública, e em noites sem nuvens e sem Lua é uma insensatez correr ali,
no breu profundo. Insensatez que cometo repetidamente, sem hesitações, com uma alegria
intransmissível. Por (raras) vezes encontro outras pessoas (quase vou de encontro a outras pessoas), e nessas
ocasiões pigarreamos um aviso mútuo no derradeiro instante ou rimos uns para os
outros da iminência de chocarmos, cúmplices anónimos, sombras sem rosto, felizes
debaixo dos nossos capuzes ou dentro dos nossos gorros e da nossa insânia.
Nas noites nubladas, em particular naquelas de nuvens baixas, quase
névoa, o percurso fica razoavelmente alumiado, efeito do reflexo da iluminação
da cidade nas nuvens. E a noite é então ali um mundo levemente estranho, com uma luzência
avermelhada, como um dia de eclipse solar, uma insónia no Árctico ou em Marte,
assim surreal e acolhedor.
De todas as noites, a mais fascinante para a corrida nocturna é a de
Consoada, na hora em que as pessoas se estão a instalar para a ceia e deixam as
ruas desertas excepto nos largos onde ardem madeiros. Na Consoada, não se imagina
que andemos na rua, que desçamos ao parque. A margem do rio é o último sítio onde
somos esperados. Correr ali nessa hora é o mais próximo que se pode estar da solidão
adâmica ou do isolamento pós-apocalíptico. Quem quereria isso, não é? Quem quereria
experimentar uma ausência primitiva ou pós-civilizacional de seres humanos?
Na noite de Consoada, a vontade de correr lado a lado com o rio (e só com
ele) digladia-se em mim com os sentimentos filiais e fraternais que a quadra me
exige. E perde quase sempre — tenho isso a favor da minha humanidade.
2. Correr na quarta dimensão
Sítios acolhedores para correr não são apenas o Éden e o the day after, esses lugares de
ausência. Mantendo isto num registo de sci-fi,
a quarta dimensão também se revela
assaz recomendável. Ambos os mundos oferecem possibilidades excitantes. Calcorrear
a solidão ou cruzar a urbe paralelo como um fantasma — capaz de ver, ouvir e
cheirar mas invisível, silencioso e inodoro, um ectoplasma de Reebok, sweatshirt e curiosidade impertinente —,
eis as duas faces da minha moeda. Na primeira, sou apenas eu e o mundo
não-humano: o ímpeto ruidoso e instigador do rio nas represas e nos rápidos e o
seu balsâmico murmúrio nas zonas de abrandamento, o canto livre de rouxinóis ou
melros insones, salamandras em vagares de lesma, com sorte a minha garça-real a
patinhar num baixio, como há três noites. Na outra face da moeda é todo o
mundo — e eu ausente dele, interceptando-o apenas com o olhar e com o vício de efabular,
coexistindo sem conviver.
sábado, 15 de dezembro de 2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
Such a lovely day (jogging no parque)
Quilómetro 2
O miúdo
gostava do pai e da mãe. Eles não gostavam um do outro. Quando finalmente deram
o passo certo, o miúdo ficou triste como se diz da noite. Nos dias de custódia
do pai, ele informava-o de tudo ao contrário, ao falar de casa. No regresso,
fazia o mesmo ao apresentar o relatório do dia à mãe. Imaginava-se capaz de,
mentindo quanto ao que diziam os pais um do outro pelas costas, voltar a
uni-los. Depois pensou melhor. Quando eram uma família, o pai nunca o levava a
passear no parque, nunca jogava à bola com ele nem lhe comprava gelado. Não o
levava ao cinema nem se ria das piadas e das tropelias. Talvez aquele divórcio não
tivesse sido má ideia. Ao contrário do que diziam na escola, agora é
que ele tinha pai, mesmo que só de quinze em quinze dias.
Quilómetro 4
Duas miúdas ainda
com cara de anjos e roupas de marca macaqueiam sem inocência o andar e as
expressões de membros de um gangue. Detêm-se num cruzamento. Hesitam quanto ao
caminho a seguir. Uma delas sugere a esquerda, tem menos gente e mais árvores.
Vão de certeza fumar às escondidas.
Quilómetro 6
São um casal,
pouco mais do que adolescentes, fotografam-se e fotografam o parque inteiro.
Fazem poses. Escolhem ângulos. Demoram-se. Parecem sensíveis à beleza outonal.
Quilómetro 8
Um homem pára
o carro. Dir-se-ia saído de uma máquina de envernizar e de engomar. Os sapatos
pretos brilham, têm reflexos prateados, de tão novos. As calças, com um vinco
como um fio-de-prumo, e o blusão anguloso, de corte impecável, parecem adereços
de uma produção de moda. O bigode foi acabado de aparar, milimetricamente. O
cabelo, branco como farinha, ainda molhado do duche ou embebido em gel, tem
desenhados os riscos do pente, paralelos e direitos como carris na estepe
russa. O carro é um BMW e, apesar da propensão do dono para os alinhamentos
perfeitos, foi estacionado numa diagonal negligente, ignorando as marcas no
pavimento, ocupando dois lugares. À patrão, diz o povo.
Quilómetro 9
Lá estão de
novo as miúdas clandestinas, casacos pendurados na cerca de madeira, os braços
nus em Dezembro para reforçar o desafio façanhoso com que nos olham. Batem os
maços de tabaco na mão como vêem fazer aos mais velhos, forçando a saída de
mais um cigarro. Mal podiam esperar para o fazer. Mas, olhemos melhor: não é um
maço de tabaco. É o telemóvel. Talvez tenham vindo só passar a tarde no parque,
raios.
Quilómetro 10
O casal de fotógrafos
está agora à saída da última ponte pedonal a sul. Ele de joelho no chão, ágil,
ela a sorrir para ele, tímida e encantadoramente, nas suas calças sexy e inesperado casaco comprido. São
amorosos e sensuais. Mas depois ele fala, com voz grossa, grosseira, sotaque de
guna, «Tá quéta, caralho! Foda-se, tá quéta!», e o (meu) idílio acaba-se, não importa
como lhe responde ela.
Quilómetro 12
Último
cruzamento. O percurso transforma-se numa rampa em paralelos. Na esquina, duas
figuras, versões femininas de Dom Quixote e Sancho Pança. Cada uma delas tem a sua própria preocupação. A da frente, alta, magra, calções curtos
sobre meias pretas, pernas torneadas, camisola de gola alta realçando estrategicamente
o peito, diz que o problema são os saltos, que se enfiam nas juntas da calçada.
A outra, baixita e redondita, sapatos rasos, tentando acompanhar, diz que o
problema é a subida. E eu, esbaforido, concordo com ela.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Voz
Por vezes lamento ter-me cruzado com os dois volumezinhos mágicos de Uma Campanha Alegre. O país não
precisava de mais um queirosiano.
Tenho mentido quando digo que não houve nenhum livro que mudou a minha
vida. Aqueles mudaram. Não porque tenha decidido imitar o estilo do autor, mas
porque me era impossível evitar fazê-lo. Desde novo imito (ou tento) o que quer
que me tenha encantado na hora anterior. Se havia mundial de futebol, no fim das
transmissões não queria mais do que jogar à bola; quando o hóquei tinha a importância
de passar na RTP1 (o único canal português que apanhávamos lá em casa em certa
altura), os meus velhos sapatos ganhavam rodas e tudo servia de stick. Havia hipismo nas Romanas? No dia
seguinte estava a saltar briosamente obstáculos, às costas de mim mesmo.
Festival da Canção? Subia ao palco, Vítor Espadinha esforçado. Super-Homem?
Saltava do terraço. Coboiadas? Filmes de guerra? Ficção-científica? Aceitava
qualquer papel, versatilidade era o meu nome. Quando dei com as Farpas era inevitável que elas
contaminassem tudo o que escrevi a seguir. A questão é que as coisas que imitava
antes não tinham o génio do Eça de Queirós e, consequentemente, o impacto duradouro de um
trauma de infância.
A prosa queirosiana é uma armadilha (enreda-se sobre si mesma), uma maldição. Usa as palavras como
quem usa o lápis do caricaturista e usa
as palavras, no sentido em que se aproveita delas para os seus lúdicos e pouco
sérios intentos. O escritor queirosiano tem aliás a seriedade de uma anedota
num funeral. E a conveniência de um inimigo do defunto. Quando se senta a
escrever, até pode ter boas intenções, vontade de elogiar isto ou aquilo, mas
acaba sempre a distorcer, a exagerar, a procurar os vícios e os defeitos, a
procurar o pior — e formas imaginativas de o afirmar.
Malogradamente, o exercício é prazenteiro. Vicia. Voltamos sempre a ele
como ao pó. É preciso esforço (ou neura) para escrever alguma coisa noutra
perspectiva, noutro tom.
Quando passei a tentar a ficção, insisti em livrar-me da influência do mafarrico
do monóculo. O meu Aranda (opus II),
por exemplo, cometeu a proeza de se inspirar num livro de Martins Amis (esse
queirosiano inglês) sem lhe imitar a
prosa, o melhor do autor. O que demonstra como podemos ficar estúpidos quando
queremos ser órfãos.
Talvez tenha entretanto encontrado a minha voz. (Ou mais do que uma — sabem
como é, esquizofrenia, transtorno bipolar, essas coisas). Parece que os
escritores são pessoas que passam o tempo à procura duma voz, como certos
religiosos literais ou certos hóspedes de manicómio, e eu não me esquivo à
presunção. O que de resto, com o narcisismo, me parece bastante típico de um
queirosiano.
***
P.S. Queriam post mais auto-evidente? Pretendia falar de coisas boas, espectáculos que vi, livros que li,
músicas que ouvi, sítios que visitei — matérias de que o país precisa —, mas acabei previsivelmente na caricatura.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Cretinos ideológicos
O fim do Câmara Clara é um exemplo de como a crise tem as costas largas. É
a prova de que estes tipos que nos governam são, entre outras coisas, gente
tosca ou cretinos ideológicos. Quer dizer, era aquele programa uma das
«gorduras do Estado»?
Seremos um país pobre por erros nossos e fado, fatalidade. Mas seremos um
país espiritualmente pobre porque somos governados por pobres
de espírito, apoiados por outro género de cretinos (de carreira ou opção) que
não tiram o cu do sofá para ver um espectáculo e quando nele instalados não
lêem um livro*.
*Alguns lêem-nos, mas como se sabe a literatura não evitou os nazis, como
evitaria estes pequenos preconceituosos?
«Pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova»?
O
«pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova», ontem aqui mencionado, seria um
escrito desnecessário ou redundante, dei-me hoje conta ao voltar a passar os
olhos pelo artigo que o crítico da Ler
escreveu sobre David Foster Wallace. Desnecessário porque quando Rogério
Casanova escreve sobre Infinit Jest já
parece uma personagem da própria obra a fazê-lo, pelo espantoso conhecimento que
revela do livro, pela idiossincrasia da sua prosa e mesmo pelo carácter de
coisa abstracta do crítico. Casanova poderia também, facilmente, ser um avatar
de DFW, lêmo-lo com o mesmo fascínio e a mesma estranheza. Ou talvez um misto
de programa informático e implante neurológico do escritor, deixado por este
para se activar após a publicação (americana) do livro. As crónicas de Rogério
Casanova e as suas críticas literárias, não há como pensar de outro modo, são decerto
apêndices d’A Piada Infinita. (E
esta caricatura, embora pareça, não é pejorativa).
Mas
o tal «pequeno ensaio» seria também redundante porque Casanova já tem uma breve
caricatura n’Os Idiotas, livrinho
que, se pedirem mesmo muito, talvez uma editora tenha a bondade e a sageza de
publicar no ano de eleições autárquicas que se aproxima.
Periférica
Uma amiga recente anda a ler a Periférica e diz que, «carago, é como estar apaixonada por um namorado morto!». Gosto desta abordagem, pela boa-disposição e pela franqueza médico-legista.
O post «Expectativas»,
surpreendentemente popular, trouxe evocações da revista que um dia fizemos,
quando éramos jovens e tesos. É agradável recordar aqueles tempos, mas pouco
útil sentirmo-nos órfãos deles. Por definição, os órfãos não recuperam a progénie.
Que sentimento então?
A Periférica deveria ser uma
coisa para nos lembrarmos daqui a quarenta anos, em jantares de velhos
combatentes ou no lar, em robe e babete, se o alzheimer o permitisse.
Entretanto, deveríamos ser deixados em paz a escrever os nossos livros, a
plantar as nossas árvores, a fazer os nossos filhos, a casarmo-nos e a divorciarmo-nos,
a fingirmos que temos uma carreira útil. A Periférica
deveria ser o projecto que nos orgulharíamos de ter oportunamente morto e que
nos arrependeríamos tarde demais de não ter desenterrado, quando confrontados com o fracasso
das nossas vidas individuais. A hipótese necrófila não deveria ser posta uma década
apenas depois de o bicho ter visto a luz do dia, meia dúzia de anos após o
óbito. Quer dizer, desenterrar-lhe o cadáver agora pode trazer surpresas
desagradáveis, como haver ainda carne agarrada aos ossos, um corpo incorrupto
que certos fanáticos quereriam de imediato pôr numa vitrina e adorar
religiosamente, organizar peregrinações, criar uma seita.
De resto, uma Periférica é
coisa que se faz aos vinte ou trinta, e da última vez que olhei havia gente
dessa idade no país. Por favor, rapaziada, não nos façam passar pelo ridículo de
vedetas dos eighties a voltar aos
palcos. Não somos génios como o Morrisey. Somos o Cliff Richard, temos
vinhas para plantar no Algarve e exemplares da primeira edição para assinar. Não
estamos velhos, bem sei, mas temos pneus e colesterol. Uma dor aqui e outra
ali. Prenúncios. Ou preguiça, pronto.
Não, não estamos de novo a ficar jovens — mas estamos de novo a ficar
tesos, sem cheta, e isso é perigoso. Era agora que uma rapaziada qualquer nos
pedia para usar o nome da rosa, a cedência do título, o direito à criatividade
sob a égide periférica. Era agora que o país se surpreendia com outros pretensiosos zés quaisquer
que se punham a fazer uma nova Periférica
a partir duma moita na Beira Alta ou duma fraga em Melgaço. Agora. Antes que
fiquemos mais pelintras e isso nos dê ideias estúpidas. Antes que nos despeçam
e fiquemos sem nada mais útil para fazer. Antes que imaginemos que o nosso projecto para os
anos cinzentos que aí vêm é tirar a capa e as calças de lycra do armário, é encenarmos a noite dos mortos-vivos, é fazermos
o número 15 da Periférica — em vez de
algo com sangue fresco, algo que inclua bombas e atentados, por exemplo.
Talvez haja um projecto para quarentões lisos e desempregados, mas não
tem de ser o de zombies quebra-corações, não tem de ser uma ridícula reunion band. Ou tem?
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Expectativas
Faz mais de 10 meses que, por razões financeiras, deixei o luxo de comprar
a Ler. Hoje não resisti, tive uma
recaída, interrompi o processo de recuperação da frugalidade. Confio que os avalistas
da minha transformação num homem parcimonioso aceitem que a tentação era
demasiado grande, mesmo para um cristão-novo como eu: entrevistas a Philip Roth
e Vítor Silva Tavares, Rogério Casanova sobre David Foster Wallace…
Infelizmente a aquisição da revista implicou a queda noutro vício em remição:
leitura em espaço público com copo de vinho à frente. Não são os malefícios mais
previsíveis da exposição e do álcool que temo, mas a frustração que posteriormente
me toma. Enquanto leio a revista em ambiente de fumo e copos, encho-me de um
espírito de tertúlia, mesmo que à mesa não haja mais ninguém. Registo
mentalmente tantos comentários e considerações sobre os textos que leio,
acometem-me tantas ideias que temo precisar de fundar hoje mesmo uma outra
revista só para recolher toda a prosa que me ocorre. Talvez comece mais um
romance ou livro de contos. Um longo post
cúmplice sobre o «what if?» que Roth
diz ter levado à escrita de todos os seus livros. Quem sabe um pequeno ensaio caricatural
sobre o Casanova.
Mas nesta idade já não há embriaguez que dure. Caminho os duzentos metros
até casa, ligo o computador, calço as pantufas e aqueço o chá e… fico cinco
horas acordado para escrever aquela coisita sobre os albaneses que nenhum de vocês queria ler.
Já fiz quarenta há quatro, mas apetece citar o Pedro Mexia na sua crónica
de sábado, comemorativa da entrada no clube da ternura: «Aos 40 anos, vivo com “expectativas
diminuídas”, diminutas, em diminuição.»
Felizmente, ao contrário dele, as minhas expectativas tendem a voltar
quotidianamente, mesmo que para esbarrarem uma e outra vez na dura realidade.
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