Não será preciso procurar atrás de giestas, debaixo de calhaus ou nas
caixas de comentários da Internet machistas defendendo o carácter inofensivo, divertido,
até elogioso dos piropos. Gente distinta e bem formada falará de excesso de
zelo, de radicalismo feminista, de frigidez. Tipos (homens) que, pela sua experiência pessoal, do seu ponto de vista, acham que nada de
mal há com os piropos. Tipos que, claro, não estão habituados a pôr-se no lugar
das mulheres.
Há mulheres que circulam na rua de headphones
ligados e olhos no chão para não terem de enfrentar a verve masculina. Há
mulheres que deixam de ir a uma piscina ou a uma praia ou a um café sozinhas
por não suportarem o voyeurismo e os permanentes e intrusivos gracejos
masculinos. Há mulheres que condicionam o seu vestuário para não darem azo a
olhares esgalgados e galanteios babosos, cuspidos a distâncias por vezes
abusivamente curtas, e não raro com mãos a acompanhar.
A sinfonia dos piropos é uma música que as mulheres não pediram e,
creio, a maioria dispensa. Além disso, as mulheres pressentem, sabem, sofrem na
pele que nem todos os homens conhecem o que separa um piropo da inconveniência,
da impertinência, do incómodo, do assédio. De algo pior. Só por isso, o piropo
é indefensável.
Não precisamos de muito esforço de imaginação para percebermos como as
mulheres têm a vida condicionada em relação aos homens, mesmo no civilizado e
liberal mundo ocidental. Pensem os homens um minuto nas coisas que as mulheres
não fazem como eles e talvez tenham uma ideia de como a defesa do piropo é uma
causa frívola, egoísta. Machista.
De resto, muitos homens experimentam (e não gostam) situações análogas,
quando a sua barriga proeminente, a sua careca precoce, o seu nariz aquilino, as
suas grandes orelhas, a sua reduzida estatura, a sua estupidez ou seja o que
for que tenham de característico são alvo de permanentes comentários e
gracinhas. Ou quando o seu desempenho no trânsito causa desagrado aos outros. Os
homens experimentam estas situações e não gostam, sentem a humilhação, o
incómodo, a intrusão e enfurecem-se, reagem, não raro com violência. Ou ficam
impotentes, a chorar de raiva, se a situação não lhes é favorável — como
geralmente não o é à mulher que ouve o piropo.
É só lembrarem-se disso da próxima vez que forem num carro e resolverem
buzinar as pernas da mulher que passa na berma, ou estiverem pendurados num
andaime e acharem que têm de comentar o decote que lhes passa por baixo, ou
sentados na esplanada se sentirem autorizados a assobiar a saia com que o vento
se mete, ou ao circular no passeio em manada entenderem guinchar como os excita
o traseiro da que vai à frente ou as mamas da que se aproxima em sentido
contrário.
Biologicamente, nem sempre é possível ao homem ficar impávido perante a
mulher. Há as hormonas e a sua influência no ritmo cardíaco. Há talvez intumescimento.
Mas é disso que trata a civilização: de dominar impulsos. Não matamos ou sequer
insultamos todos os que achamos que o merecem, pois não? Deixemos então as
mulheres em paz na sua vida ainda que
achemos que as suas formas merecem todos os elogios. Talvez elas até nos apreciem
mais por isso.
A educação é uma das formas de civilizar o selvagem que há em nós. Mas
por vezes, para sermos melhores pessoas, do que precisamos é de nos livrarmos
da educação que tivemos. Alijar o português mediterrânico, bigodudo e façanhudo
que há em nós é uma obrigação. E mesmo assim é insuficiente, como mostra o
documentário realizado na setentrional Bélgica.