domingo, 22 de julho de 2012

Running Up That Hill*

No caminho para casa, existia uma parede grafitada que Rita apreciava. Não era seu hábito reparar nestas coisas. Ou antes: reparava mas não lhe agradavam, não ficava a admirá-las. A cidade não desenvolvera vocações neste campo, se é que as tinha desenvolvido em algum. A maior parte dos graffiti estavam ao nível das criações dos seus filhos na primária: umas desajeitadas reproduções de lugares comuns. Mas aquela parede fora recentemente brindada com um pouco de talento: os gangues tinham requisitado algum artista de fora, ou um errante Miguel Ângelo dos aerossóis, desses que só se imaginam em filmes ou livros, passou e deixou o seu fresco, a marcar território como um cão o faria. Talvez pelas mesmas razões.
Nos últimos tempos ela iniciara uma rotina temerária. Tinha-se divorciado e queria voltar a experimentar a liberdade, queria estar de novo aberta ao que o mundo tivesse para lhe oferecer. Era em princípio um pouco exagerado como projecto de reabilitação sair para correr depois das onze da noite, como se as coisas de que ela sentia falta fossem nocturnas, noctívagas, mas a verdade é que não conseguira encontrar outro horário para o jogging no meio de tudo o que tinha para fazer. Ter ficado sem um marido não lhe concedera tempo, continuavam a existir os filhos, o trabalho e as horas que perdia em transportes públicos. Mas talvez a escolha do horário fosse consciente, uma necessidade de adrenalina que preenchesse o vazio. O divórcio podia ser apresentado como uma conquista, mas era também uma derrota amarga.
Levava, nos headphones, sob o capuz de rapper que a ajudava a isolar-se, uma selecção musical disparatada. Ou não disparatada: nostálgica. Kate Bush. Ela própria ordenara os temas: Babooshka, Wuthering Heights, Running Up That Hill, e, três ou quatro canções depois, o dueto com Peter Gabriel. Não confessaria a ninguém que ouvira isto anos antes, in illo tempore, e muito menos que o fazia agora. Era parte das coisas que ela reservava para si. Ouvir estas músicas fazia-a imaginar que voava em vez de correr. Havia algo de épico naquele som, na voz. Não lhe custava adivinhar a cantora com uma nova imagem de matrona, quilos a mais, rugas, os ossos a começar a encolher — tinha de se lembrar de ir à Internet ver como ela estava —, mas sentia isso como um sopro benevolente, como uma tia que a amparasse e estimulasse e acariciasse. Ou talvez uma irmã mais velha, afinal não as separavam assim tantos anos. E depois, no fim da selecção, havia aquela voz masculina, rouca, aguda, esforçada, que soava como se tivesse uma sílaba para cada vértebra da sua coluna. Peter Gabriel, agora tão gordo e careca, mas na altura tão perfeito e tão carente, com aquela barba por fazer e a agarrar num desespero encenado mas adorável uma Kate Bush que lhe dizia para não desistir. Era como cortar a meta em primeiro lugar, orgástico dessa forma, e ela abria os braços quando a voz dele soava mais aguda; levantava a cabeça, indiferente aos olhares.
A parede grafitada parecia diferente. Estava a vê-la a uma distância considerável, sem óculos, com os olhos húmidos da brisa nocturna, mas parecia diferente e ela não conseguiu perceber logo porquê. Talvez alguém tivesse desenhado por cima — havia disso, sobreposição de tags, ou lá como se chamava o que eles faziam. Um palimpsesto. Era assim a vida, escrever por cima do que foi erodido. Ou nem isso, não esperar pela acção do tempo.
O que tornava o graffito diferente era uma figura humana. Alguém que adoptava as precauções dos predadores, confundindo-se com as manchas verticais da pintura. Ela continuava a correr e a silhueta ia-se tornando um pouco mais nítida. Tinha um braço levantado, como se segurasse um telemóvel na orelha ou talvez um cigarro pensativo ao lado do rosto. Devia recear? Passava da meia-noite, a rua estava deserta e ela era uma mulher sozinha a fazer jogging, exposta aos elementos. O fato-de-treino folgado não disfarçava as suas curvas. No entanto, era de um género diferente o medo que ela sentia. Talvez nem fosse medo; algo que temer, mas não medo.
Subiu no elevador. As escadas, o esforço adicional de as galgar como remate da prescrição de exercícios que fizera a si própria, ficariam para outra noite. De certa forma, gostava da emoção de ser esperada, ou simplesmente espiada, mas não tinha perdido de todo o bom-senso.
Espreitou pela janela da sala enquanto desenroscava a tampa de plástico de uma garrafa de água. A figura tinha desaparecido, restava a parede tal como ela a via nas últimas semanas. Bebeu a água e virou-se para ir à cozinha preparar um copo de leite quente ou algo que confortasse o estômago antes de dormir. No momento em que avançava na penumbra do compartimento, pareceu-lhe esbarrar em alguma coisa. Não havia ali nada com que pudesse chocar, tanto quando o seu conhecimento da cartografia do apartamento lho lembrava e tanto quanto os seus olhos já habituados à escuridão conseguiam adivinhar. E na verdade não sentiu fisicamente um obstáculo — embora se tivesse detido, como se se tivesse materializado ali alguém que, ombro no ombro, medisse forças consigo. Era aquela coisa dos fantasmas, pensou, dos espíritos. Se somos capazes de imaginar uma presença, ela certamente tem como se manifestar. Dedicou uns segundos a ponderar o fenómeno, a conceber uma voz que lhe dizia das sombras: vês como se quiser te faço parar? Depois reflectiu sobre a sua própria fantasia e deixou de ver habitantes nas sombras. Foi-se deitar.


* In Aranda

Morrisey

— Havia uma música dos Smiths onde se repetia hang the DJ, hang the DJ e era a minha última noite e eu entrei na pista da discoteca possuída pelas fúrias a berrar aquele refrão. Gostava da música, pelo que, afinal, era uma injustiça fazer coro de um slogan assim, mas suponho que retoricamente não me importava que se matasse alguém, fosse quem fosse. Não estava era preparada para descobrir que ele era o DJ naquela noite. Eu para ali aos berros a reclamar a morte do DJ, simultaneamente eufórica pela bebida e pela música e infeliz de amores, e o DJ era ele. Os nossos olhares cruzaram-se quando eu rodopiava, e o que vi a seguir a tomar consciência de que era ele foi o meu reflexo num dos espelhos da discoteca. Eu de boca aberta, desgrenhada, braços no ar, escanzelada, sem jeito para aquilo, apenas histérica e demasiado bebida — a pedir que se enforcasse o DJ.*

* Rita, in Aranda

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Surpresa geral

Certeiro, este post do Delito de Opinião: «A normalidade».


Álbum fotográfico

O povo diz que o futuro a Deus pertence e isto tanto pode ser uma manifestação de impotência como de renúncia. Mas e o passado? A quem pertence o passado?
Olhando para algumas fotografias de infância, hesito. Reconheço o décor, o guarda-roupa, os restantes personagens, mas tropeço no protagonista. Quem é aquele indivíduo? De quem são aqueles cabelos? Aqueles olhos generosos? O sorriso inocente? Não faço ideia. As minhas memórias, as que sobreviveram, encaixam vagamente nas cenas retratadas, mas não evito um forte sentimento de desconfiança quando observo a criança que supostamente era eu trinta e tal ou quarenta anos atrás. Se não houvesse outras testemunhas, não me custaria falar em usurpação: um rapazola de belos caracóis a fazer-se passar por este pobre artilheiro.
Avanço entretanto na cronologia do álbum e na adolescência não fico mais descansado. Fico, aliás, mais incomodado. Que cortes de cabelo são aqueles que me atribuem? Que trajes ridículos dizem as fotos que vesti?
Aqui o personagem não me é tão estranho, cruzei-me com ele várias vezes, crescentemente, nos espelhos da casa de banho e do guarda-fatos. Numa ou noutra montra. A partir de certo dia, nos espelhos atrás de balcões em cafés. Quem sabe se na bola de espelhos de alguma discoteca dos anos oitenta, naqueles momentos em que o êxtase nos põe a olhar parvamente o tecto.
Em todo o caso, reconhecer o gajo não é aceitar de ânimo-leve que ele e nós somos um. Estamos a falar de alguém que vimos ao espelho há trinta anos. Quer dizer, há trinta anos havia certamente muita gente a frequentar os mesmos espelhos, quem pode garantir qual dos semblantes reflectidos éramos nós?
Pode acontecer que eu seja um caso particular, que mais ninguém se intrigue assim com um álbum fotográfico. As pessoas tendem a aceitar como boas as memórias que os outros têm da sua própria infância e adolescência. Partem do princípio de que não há no mundo, no seu mundo, maldade suficiente para que alguém minta sobre um período tão inocente. Eu próprio tenho partido desse princípio. Por isso me sinto agora como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, embora ainda não tenha esclarecido a que décadas corresponde cada uma das facetas.
Mas vamos que nos tenham mentido. Vamos que no que toca ao passado tudo não passe de um embuste, uma conspiração. Talvez devêssemos pensar humildemente duas vezes antes de nos gabarmos de feitos da infância: se calhar não éramos nós. De igual modo, talvez possamos deixar de sofrer com as maldades que supostamente fizemos décadas atrás: mesmo que não tenham prescrito, decerto foram cometidas por outra pessoa. Quem tenha dúvidas, que compare o nosso DNA com o DNA das fotos a preto e branco ou com cores deslavadas que alegadamente nos incriminam. Estou seguro de que não coincidem nos pixéis ou nas percentagens CMYK. 
O nosso passado é uma narrativa dos mais velhos. Não temos nada a ver com isso.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ciberdúvidas

O anúncio da Secretaria de Estado da Cultura garantindo apoio ao Ciberdúvidas é uma boa notícia (outra coisa não se esperaria de Francisco José Viegas). Mas é também uma demonstração de como o “mercado” não assegura sequer os serviços mínimos na área da cultura. José Mário Costa, responsável pelo portal, tentou «contactar vários possíveis mecenas, desde entidades públicas a privadas, mas todas as respostas foram negativas». O “mercado” está-se naturalmente borrifando para a cultura portuguesa. Neste caso, o Estado não. Ainda bem.

Pândegos



A editora, começando por se rir do estereótipo propagado pelo humorista, reflecte a seguir sobre ele. Concluindo que os programas sobre literatura e artes talvez precisem de ser mais animados para convocarem mais espectadores.
Creio que se esqueceu de João Baião. João Baião inventou a TV em movimento (ou aos pinchos, ou lá o que era) — mas parece que isso não serviu de muito as artes ou a literatura.

Talvez, talvez o público se afaste dos programas culturais por causa de formatos aborrecidos ou de apresentadores sem carisma. Aceitemos por momentos esta versão optimista. Imaginemos que doravante a televisão pública apenas contratava gente com o perfil, digamos, de um Herman José, de um John Stewart, ou, sei lá, de um Jay Leno. Íamos todos divertir-nos muito, oh, se íamos.

Isto é um pouco como ver o actor José Pedro Gomes (aliás, par de Bruno Nogueira) orgulhar-se por os seus espectáculos desempenharem um papel fundamental na consolidação do público do teatro. O que é verdade — se considerarmos que todo o teatro é comédia ligeira e todo o espectador um pobre diabo à espera de que o façam rir. Sem esforço.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A subtil gradação da vileza

Portugal ganharia se nos blogues e nos jornais escrevessem comentadores menos engajados, um pouco menos simpatizantes de grémios e bíblias. O jeito que nos dava ter ironistas a sério, daqueles que observam o mundo como dandies de monóculo e copinho de brandy na mão ou deuses sentados em nuvens e indiferentes aos resultados das batalhas humanas. Os ironistas são geralmente cruéis, porque não se condoem das nossas irrelevantes tristezas nem se excitam com as nossas alegrias fátuas. É esta a sua agudeza e a sua utilidade. Têm sempre presente a big picture; para eles, como para os deuses, não passamos de efémeros grãos de areia. Eles mesmos não passam de grãos de areia e sabem-no, por isso o seu lúcido desapego de colectividades, de conveniências e pequenos acontecimentos. (Por isso, também, o omnipresente copinho na mão: lucidez em demasia constrange.)


O caso Relvas é só mais um dos que revelam como entre nós a acutilância e a ironia são substituídas pela indignação emproada e pela hipocrisia congénita. Os comentadores tugas entretêm-se agora, freudianamente, a comparar o nariz-de-pinóquio socrático com a, para o que aqui interessa, não menos helénica penca relviana*. Como se fosse esse o ponto. Como se aos cidadãos não inscritos em partidos interessasse a ponta de um corno a subtil gradação da vileza dos protagonistas.


Para uma nação insalubre como a nossa, o afastamento do Sr. Relvas é uma necessidade sanitária que não precisa de ser cotejada com comportamentos análogos de outros bacharéis**. Impõe-se por si. Mas se os comentadores querem atrasar a História com calibragens, entretenham-se a calcular, para cada caso (Sócrates, Relvas e os mais que virão), a energia que se deve empregar nos respectivos pontapés-no-cu. Desde que os apliquem em tempo útil e independentemente dos importantes resultados a que cheguem.


* Este post e este, do blogue Blasfémias, ilustram o texto acima. O segundo é paradigmático.
** O dicionário do Word explica porque se aplica bem este termo às vidas académicas em análise.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um bocejo e um breve espevitar de orelhas

As notícias que revelam a saga familiar de dois gémeos separados à nascença — os meninos Relvas e Sócrates — foram recebidas com um longo bocejo. A previsibilidade do mundo não sói entusiasmar.

aquelas que anunciam a perda de mandato do menino Macário fizeram levantar uma ou outra orelhita. Ainda assim, nenhuma excitação que deva preocupar os cardiologistas: são notícias efémeras, que com o tempo do seu lado a Justiça se encarregará de tornar desactualizadas, desmentidas.

Ainda nada de novo na pátria da mesmice.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Justiça

A Justiça portuguesa mostrou ter algum respeito por si própria ao condenar o socialista Ricardo Rodrigues. Isto é especialmente importante quando sabemos que os partidos políticos não se dão ao respeito nem nos respeitam. Recorde-se que o mesmo sujeito que furtou dois gravadores a jornalistas integra, entre outros organismos igualmente sérios, a Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação…
Claro que ele interporá recurso e nalguma instância a Justiça encontrará forma de o ilibar, como é costume. Para alegria dos seus correligionários. E dos seus adversários, desconfio.

Perdemos, e foi bom

Uma coisa é a emoção de torcer até ao fim pela selecção, outra é querer mesmo que ela ganhe. Para uma quantidade demasiado ruidosa e abastecida de combustível de pessoas, uma vitória é uma licença para tomar o espaço público e impedir por longas horas qualquer movimento ou forma de vida ou de expressão para lá do ritual futebolístico.
Nesse sentido, o jogo de hoje, com prolongamento e penalties, permitiu o melhor de dois mundos: emoção redobrada e expandida — e um resto de noite aberto a outras possibilidades.
O campeonato perfeito seria aquele em que Portugal estivesse presente em todas as fases, da qualificação à final, e não ganhasse nenhuma delas. Sou pela emoção do jogo, não pela da vitória.

sábado, 23 de junho de 2012

Parabéns

António Pinto Ribeiro faz hoje no Ípsilon o seu balanço de um ano de Secretaria de Estado da Cultura. Voltarei ao texto mais tarde. Por agora fico-me por algumas observações avulsas.
APR lembra duas iniciativas fantásticas do SEC: a «criação de uma rede de património do judaísmo» e a programação de uma «tournée de Verão a ser realizada por uma orquestra». A primeira proposta tem o seu interesse, sejamos magnânimos, mas faz-nos perguntar, por exemplo, que iniciativas teria Viegas se fosse um apaixonado pela cultura muçulmana, um pouco mais visível no património.
A segunda seria só ridícula se não fosse sintomática (a primeira também o é, aliás): de facto, o que fazia falta em Portugal era uma estrutura do Estado central que se dedicasse à programação. Deve ser a este paternalismo que Viegas chama liberalismo. À moda antiga, pois claro.

Depois da famosa entrevista de FJV ao I em Maio de 2011, é bom fazer notar que em Portugal as apresentações de dança, teatro e música (excepto pop/rock) diminuíram drasticamente (há salas que simplesmente já não programam teatro), mas, hélas!, um ano de SEC depois a música pimba e manifestações conexas não retrocederam. Pelo contrário: procuram ocupar o vazio da restante programação.
Se quisermos ser simplórios, podemos atribuir à falta de dinheiro ou à desistência de algumas câmaras municipais o recuo na programação de qualidade, mas também não custa perguntar à SEC por onde tem andado.
Uma resposta possível é esta: ocupada a telefonar ao maestro Vitorino d’Almeida a propor-lhe o projecto do «Festival Grande Orquestra de Verão» que, pasme-se, vai levar concertos promenade a várias cidades do país, cousa nunca vista nem sonhada.

O país pode portanto dormir descansado: desaparecem o teatro, a dança e a música menos óbvia, mas uma vez no ano vai ter o senhor maestro e uma orquestra expressamente providenciados pela SEC. Uma barrigada.

A propósito: António Pinto Ribeiro também refere «a dimensão kitsh da aplicação obrigatória da menção ‘Governo de Portugal’ em todo material de comunicação de todas as acções que tenham um mínimo de apoio do Estado». Esqueceu-se de referir que na cultura a menção inclui ainda «Secretário de Estado da Cultura». Secretário, não Secretaria…

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Literatura “transmontana”

Visito com menos regularidade do que devia a Casa de Cacela, mas regresso dali sempre com um gosto bom nos lábios de ter lido em voz baixa os poemas de José Carlos Barros. (Havia um vizinho que lia assim, num sussurro permanente, os livros do Mandrake ou lá o que eram, e talvez não me devesse ter rido dele: também eu descobri que certas frases ou estrofes precisam de ser ouvidas, mesmo que num murmúrio, para serem desfrutadas. Ou entendidas.)
Há qualquer coisa que me encanta nos poemas de JCB e pergunto-me quanto disso é a sua revisitação de Trás-os-Montes, uma revisitação de quem não vive em Trás-os-Montes. Tive idêntico sentimento quando li Ernestina, de J. Rentes de Carvalho. Na altura escrevi que às vezes a literatura pode passar por uma região sem se atolar nela. Esta afirmação tinha implícito um desdém pela literatura transmontana, que na minha presumida opinião vivia atascada na lama patrícia, mesmo nos escassos momentos em que parecia querer sobressair.

É tristemente redutor que uma obra literária seja abordada pelo barro que utiliza, mas por vezes pergunto-me, com injustiça, se não é isso que alguns leitores e comentadores fazem, mais fascinados pelo exotismo regional ou epocal do que pelos méritos da prosa. Não raro leio José Carlos Barros com um fascínio não sei se inverso se análogo: o fascínio de quem nunca tendo vivido fora de Trás-os-Montes identifica a região que ele evoca como se sempre a tivesse visto pelas mesmas lentes focadas a partir do Algarve.

Rui Catalão, crítico do Público, tem revelado o seu particular fascínio transmontano. Creio que ainda nenhum outro crítico falou dos livros de Manuel António Araújo, escritor de Chaves, mas pode ter sido distracção minha. Catalão não parece ter chegado aos dois livros que recenseou daquele autor pela sua proveniência regional, e o exotismo que o atrai talvez não seja geográfico, mas o do próprio universo literário dos textos. Contudo, há algo de profundamente transmontano em mim quando me descubro a ler as recensões com a complacência que os caseiros dedicavam aos senhoritos de visita às propriedades nas berças.

Trás-os-Montes é o título do livro vencedor do Prémio Agustina Bessa-Luís. Tiago Patrício, o seu autor, é madeirense de nascimento mas viveu aqui até aos 19 anos. Revelou ter resistido até ao fim a escolher aquele título porque «não queria denunciar o sítio do romance», mas o júri tomou em consideração «as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes».

Durante um ano ou dois convivi nas páginas do Semanário Transmontano com Manuel António Araújo, mas ainda não li os seus livros. O que temerei? A enésima repetição da «dureza» da vida em Trás-os-Montes que tanto fascina as novas gerações literatas urbanas? Ou descobrir finalmente que um conterrâneo não precisa de ir viver fora para escrever bons livros? No primeiro caso, é talvez preconceito da minha parte. No segundo, é preconceito e inveja.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Pelos céus comunitários*

O casal de namorados que viu de manhã fê-lo lembrar-se de si próprio. O artista quando jovem. Passou por eles ao contornar um relvado (detestava a merda dos cães — não tanto quanto os bichos em si, claro — e não queria correr o risco). Primeiro notou o olhar vago da rapariga. Ela fixava um ponto qualquer no correr de edifícios do outro lado da rua. O namorado assediava-a. Queria um beijo, um toque, roçar-lhe o seio, o entrepernas. Queria fodê-la, em suma. Quim Zé voltou para trás e foi posicionar-se num sítio onde poderia apreciar a cena. Conhecia-a. Vivera-a muitas vezes. A rapariga resistia fracamente às investidas. O olhar fixo era sonhador. Queria estar naquela situação — mas com outro tipo. Não a repugnava ser beijada, apalpada, fodida, mas ficava melancólica pela tremenda má-sorte. Aceitara o namoro porque uma gaja tinha de namorar, não era? Mas agora só queria acabar com aquilo. Cumprir o seu papel, distanciada, resistindo tanto quanto possível, e rezar para que da próxima vez as coisas se passassem com outro, com um de meia dúzia que ela era capaz de enumerar.
Quim Zé também sabia o que o rapaz pensava. Não era muito diferente, de resto, do que pensava a rapariga de olhar perdido. Os rapazes não sabiam fazer aqueles olhares (excepto alguns, profissionais de outro calibre) mas também não era o seu papel. O seu papel era investir, forçar caminho, sem demasiada ternura mas sem violência. E geralmente pensavam o mesmo que elas, partilhavam a mesma sensação de infortúnio: era outra tipa que gostavam de ter ali à mão. A diferença é que os rapazes conseguiam mesmo entusiasmar-se com o que tinham: afinal, havia mamas, carne.
Depois do almoço a cena foi mais insólita, mas não menos previsível (se o seguiam no raciocínio). Da varanda de um edifício baixo de habitação estavam a ser arrojadas roupas e objectos pessoais. Uma ou outra peça de mobília. Em cima, possuída por fúria bíblica e forças sobrenaturais, actuava uma mulher. No passeio, encolhido contra um poste, envergonhado, humilhado, vencido, pouco menos do que morto — um homem, marido da senhora. Era a cena típica que estava reservada a todos os casais, só que esta viera para a rua. O homem, como Quim Zé bem sabia, estava a assistir a um filme, como se diz que as vítimas de acidentes assistem antes da inconsciência. Toda a puta da sua vida em ecrã panorâmico, a 3D. Os erros, as estupidezes, os momentos em que podia ter evitado chegar a este ponto, as encruzilhadas onde poderia ter escolhido outra direcção. Mais um imbecil que acreditara no amor e que agora via as suas cuecas e as suas peúgas espalhadas pela rua, depois de um voo gracioso pelos céus comunitários.

*in Aranda

sábado, 16 de junho de 2012

Cemitérios*

Quim Zé (…) a dada altura queixou-se da frivolidade dos assuntos.
— Falemos de coisas grandes, profundas, não do comezinho.
Beto ia protestar, mas desistiu, talvez por não se sentir com forças. Preferiu reabastecer-se de whisky enquanto perguntava:
— E quais são as coisas grandes?
Não era retórica, o cérebro de Beto já precisava de alguma ajuda.
— O amor, a morte, a guerra, temas destes — informou-o Quim Zé.
— Ah… Ok, podes começar — disse Beto recompondo-se com esforço na cadeira, o que o fez parecer irónico.
Quim Zé olhou através da janela para a noite escura durante um hiato considerável Depois decidiu-se:
— O que pensas dos cemitérios?
— ?
— Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra, coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas, e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se o assunto era a estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas e ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas.
— Mas não era disto que queria falar — continuou Quim Zé. — Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.
— Na minha família não se falava muito do passado — confidenciou Quim Zé —, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.

*in Aranda

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Música*

— Eu sou do género de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. — Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias. Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha discoteca. Mesmo hardcore, na verdade. Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa. Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas. Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte, genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado, como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as invasões bárbaras.
— Mas não era de dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma forma de épater le bourgeois (expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês adequados. Começámos por Nouvelle Vague não por acaso.

*in Aranda

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Verão*

— Por vezes — disse Mário — penso que o Verão, aquela altura do ano em que vamos definitivamente ser felizes, é um mito, uma projecção dos nossos desejos mais íntimos. Ou talvez uma evocação. Sim, definitivamente uma evocação. Vejamos: o Verão existiu, um dia houve Verão. Não é como Deus ou os santos, nos quais temos de acreditar sem evidências nem testemunhos, cegamente. Não é uma questão de fé — mas está imbuído da mesma intangibilidade. Temos as nossas memórias dele, sem dúvida que temos. A felicidade estava ali, por todo o lado, inundando tudo naqueles fins-de-tarde intermináveis, como uma cornucópia generosa que não parasse de jorrar luz e prazer e boas coisas a todo o momento, um regador gigante manuseado pela mão de Deus, aspergindo com uma nuvem de vapor inebriante, muito fina e suave e fresca, os nossos dias incontáveis e incontados.
— Mas o Verão — continuou Mário — não tem existência senão no passado, por isso o seu carácter mitológico. Ano após ano alimentamos a esperança de que agora é que vai ser, vamos repetir tudo a que temos direito, o ócio, as sestas depois de almoço, os planos para as diferentes partes do dia que se não se cumprirem não importa pois há tantos dias à escolha, as manhãs sem fim, os almoços longos, com sobremesa, as tardes a perder de vista, os jantares com guitarras e cantorias eufóricas, as noites também habitáveis, usufruíveis (a uma da manhã à distância da Namíbia, se não mais longe ainda, de qualquer modo sempre para lá do Bojador).
— Depois eles acabaram com o Verão. A humanidade prestes a cumprir-se (as máquinas farão as coisas chatas, dizia-se em 1900 — em 1900!) e eles a acabar com o Verão. A tecnologia de ponta, a riqueza, o voto universal, a igualdade, o amor livre, o homem na Lua, tantas evoluções — e eles a acabar com o Verão.
— Em 1967 eu ainda não sabia que eles estavam a acabar com o Verão. Quer dizer, eu estava a nascer, não é?, não podia reparar logo nisso, tinha as minhas próprias prioridades. Durante os primeiros anos e os seguintes, tudo o que fiz foi aproveitar o Verão, carpe aestivum. Não de uma forma táctica, oportunista, reflectida, filosófica, ideológica. Não. Nada disso. No sentido menos consciente da expressão. Apenas mergulhando plenamente nele, de trombas, de barriga, de costas, lançando-me para ele como pudesse e a todo o momento. O Verão estava ali à mão de semear, era gratuito, para todos, cada um que fizesse dele o que quisesse. Não havia um minuto a perder (embora houvesse imensos minutos para perder), tudo o que tínhamos a fazer era dar uma corridinha rápida, um saltinho para o ar na beira e, zás, cair nele de cabeça, formosamente, atleticamente, imensamente, para sempre.
— Sim, para sempre. Aqueles que mergulharam no Verão naqueles anos sabem do que falo. São, como eu, os despojados do Verão. O cume da raça humana, a quem subitamente tiraram o tapete de debaixo dos pés. O tapete não, a prancha, o trampolim. Íamos nós para mais um salto, joelhos ligeiramente flectidos para o impulso que nos lançaria nos céus como um Ícaro sem percalços e de repente também nós temos um percalço. O maior deles todos. Não há prancha. Não há trampolim. Não há Verão. De todo. Há apenas a queda. A longa e interminável queda. O lado simétrico do Verão. Algo que nos puxava para baixo onde antes nos sentíamos enlevados. Para baixo, sempre para baixo, Alice caindo pelo buraco mas sem nunca chegar ao País das Maravilhas. Nem a lado nenhum. Nem sequer ao Inferno, que poderia ser um sucedâneo do Verão, com o seu próprio calorzinho. Não. Nada. Apenas a queda. A Queda e o Tempo. Tempo para ponderar a perda. Para gravar mais profundamente na nossa pele o que estávamos a perder. Não como o Verão gravava na pele a sua infinita bondade, com uma cor, um tom, o bronze, nalguns casos o ébano puro — sem escaldões nem melanomas.
— Depois de alguma vez se ter entrado no Verão, como eu entrei, como nós entrámos, a vida torna-se muito difícil. Há a Queda, claro — aguardamos a todo o momento ficarmos esborrachados, como um poio a cair do cu de uma vaca lacónica —, há a queda, mas houve o Verão. Estamos para aqui a cair, sempre a cair, mas temos uma memória, algures no nosso cérebro temos registos de que houve um Verão. Um não, dez ou vinte, a eterna repetição, a terna repetição da melhor coisa que o mundo teve. Haverá castigo maior do que esse? Conhecer o Paraíso e perdê-lo? Saber como as coisas podem ser e depois sermos informados de que nunca mais as coisas serão assim? Que daqui para a frente o que nos resta é lembrar, lembrar e chorar a perda até à neurose? Freud, Freud, onde andas? Era isto que tu querias, não era, meu sacana? A humanidade a remoer as suas neuroses e a comprar os excitantes, os calmantes, os soníferos que gajos como eu prescrevem aos outros e a si mesmos. Que bela ideia de negócio, a tua, ó sócio.
— Quer dizer, se ao menos as férias não fossem apenas um mês, se pudéssemos ir três meses para França, para o Loire, alugar um castelo com piscina até nos aborrecermos… Deliro, bem sei. Fico sempre assim quando chega o Verão — concluiu Mário.

*in Aranda

quarta-feira, 13 de junho de 2012

The siege

Havia aqui uma esplanada que era um oásis no bairro de baiucas noctívagas onde vivo. Bom serviço, boa carta, bom gosto, boa música em níveis discretos, sem televisão nem luzes estentóricas. Isso acabou, talvez porque a concessão tenha chegado ao seu termo (o bar é camarário), ou porque era um espaço intolerável no mundo de hoje. Alguém na câmara ou na cidade certamente ansiava por revogar a licença de empresa tão elegante e há aqui sempre mais um empresário disposto a replicar o conceito chunga das restantes tascas das redondezas. Os moradores? Permanecem indiferentes, viciados na receita de soporíferos que têm de tomar todas as noites para continuarem a habitar o seu próprio bairro.
O cerco continua.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A propósito de bola (ou talvez não)

Tinha ficado bloqueado naquela canção como um disco riscado e ela gostava de o levar a passear pela rua enquanto ele a cantava baixinho e lhe apertava a mão. Will you still need me, will you still feed me. Tinham mais de sessenta e quatro (a esperança de vida aumentara desde os Beatles), mas, sim, ela continuava a precisar dele e a alimentá-lo, agora de uma forma literal, a colherinhas de sopa.
Havia um recolher obrigatório — os tempos hoje em dia eram deste jaez — mas ela estava cansada de estar em casa, queria sentir a brisa do fim da tarde, passear de mão dada pela marginal. De modo que mandou às malvas os avisos e fez o que lhe apetecia fazer.
As claques não tardariam a encher as ruas, evidentemente. Era dia de derby, e as autoridades faziam questão de reservar o espaço público para os hunos em dias destes. Faziam-no em nome da segurança e do bem-estar social. E, de facto, ela tinha de concordar que de um certo ponto de vista era mais razoável para o cidadão comum (caso ainda existisse) ficar em casa, sequestrado pelo seu próprio governo.
Mas não naquele dia. Tinham passado cinquenta anos desde o casamento precipitado no final dos anos sessenta, quando ele confundiu o desejo dela com paixão e ela, que pensara iniciar então uma vida de amor livre e flores no cabelo, se embeveceu com a ingenuidade do futuro marido e acedeu a dizer sim, mesmo que na altura não achasse que aquilo a comprometia de forma alguma. Cinquenta anos em que nem por um dia a banda sonora oficial daquela união improvável (will you still need me, will you still feed me) deixou de se ouvir. Cinquenta anos era mais do que tinham o primeiro-ministro, o ministro das finanças e o ministro-adjunto, a tríade que o país escolhera, talvez num desfile de manequins (o que era feito dos anciãos, por Deus?).
Talvez já não houvesse muitos velhos para além de eles os dois. Aqueles que se lembrava de ter visto contavam-se pelos dedos das mãos. Mas na verdade não reparava muito no que havia à sua volta. Quando saía só lhe interessava ir sentar-se num banco a ver a foz e a acariciar a mão do marido, que o Alzheimer felizmente cingira à faixa certa do álbum, mesmo que ela não apreciasse particularmente o arranjo meio pateta que o McCartney providenciara para a musiquinha.
Ao chegar ao fim da avenida o tempo começou a mudar e ela arrependeu-se de não ter trazido os abrigos que tinha sempre pendurados no vestíbulo — mas não se arrependeu de ter saído. Talvez chovesse (havia relâmpagos a cruzar o céu), mas o que era mais romântico do que um passeio à chuva? Haveriam de sobreviver à constipação, se ela os acometesse, e a maré viva era um espectáculo que ambos apreciavam.
Sim, estava verdadeiramente excitada com a decisão de ter saído apesar de tudo e todos pretenderem o contrário. Ainda havia alguém no país que fazia o que lhe apetecia e não o que era determinado. E Deus, no caso de existir tal singularidade lá em cima, bem poderia convocar as tempestades que quisesse. Se ela achava que lhe calhava bem um passeio até à foz, vinha até à foz. Feliz por ter o marido de sempre a cantarolar-lhe na sua vozinha querida a melhor declaração de amor.
Depois de se terem sentado a ver a espuma das ondas, a primeira claque passou nas costas deles, bastante desmotivada, quebrando apenas uma ou outra vitrina e incendiando escassos contentores de lixo. Meia hora mais tarde, escoltada pela polícia, veio a insolente claque adversária, com disciplina militar e sarcasmo palaciano, entoando um conhecido cântico guerreiro.
João, o marido, voltou-se para trás, com um sorriso e um dedo hesitante de maestro no ar. Demorou algum tempo a apanhar a melodia, mas depois atacou-a a plenos pulmões — e ela soube pela primeira vez em cinquenta anos o que era a traição.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

R.I.P.

Isto é o país de que precisamos:

Isto é o país que temos:

O tipo de pensamento e postura expressos no primeiro artigo são geralmente rejeitados (quando não invectivados) pela populaça indígena. Paus de bandeira do género do que se exprime na segunda notícia têm os partidos e a política na mão. É assim há anos, é assim do continente às ilhas, da freguesia remota ao parlamento da nação. O país tem-se encarregado de afastar da vida pública quem ouse pensar pela sua cabeça e dá todo o poder a um bando de medíocres obedientes. Paz à sua alma.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A oficialização do óbvio

No que toca ao caso Relvas, podíamos achar que o óbvio se tornara ululante mesmo para o mais distraído ou comprometido português, mas ainda carecia de oficialização. Com algum atraso devido aos seus imensos afazeres, o guru da direita, o sempre frontal, precursor e clarividente Vasco Pulido, lá pôs o carimbo na coisa — nos fundos de um artiguito que é, por assim dizer, um exemplo de prosa directa, clara e sobretudo corajosa: «não deve existir um lugar marcado para a irresponsabilidade no Conselho de Ministros»*.

É certo que não menciona o nome do ministro Relvas e evita a palavra demissão, mas isso porque os grandes educadores do povo têm horror aos «bas-fonds da política». A populaça que traduza o artigo e aplique se quiser a eufemística sabedoria ao seu vil quotidiano.

De qualquer modo, a direita pode agora ser menos contumaz que já não é vergonha nenhuma — tem o exemplo do santinho padroeiro.

*In «Mais desgraças», artigo no Público de 27/5/2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Fauna

Nem faziam falta os mais recentes desenvolvimentos do caso Relvas/secretas/media. Relvas mentiu aos portugueses (via comunicação social) dizendo que não se lembrava de ter recebido qualquer mensagem do senhor das secretas. Pouco mais tarde soube-se, ele próprio o disse, que recebera sms e e-mails com uma frequência espantosa.
Num país decente — num em que os militantes partidários, os simpatizantes e os comentadores não se dividissem como claques de clubes de futebol, com o mesmo tipo minguado de inteligência, racionalidade ou escrúpulos — o ministro estava já demitido ou demitia-se.
Mas Portugal não é assim. O caso do ministro agrava-se e continua tudo na mesma como a lesma. Uma viagem pelos jornais e pelos blogues lusos mostra como a única ética que existe é mesmo a futebolística: defender «os nossos» — contra todas as evidências, se necessário. Era assim no tempo de Sócrates, é assim agora. Havia as amibas socialistas; agora as do CDS e as do PSD somam esforços para ultrapassar os feitos viscosos da subespécie anterior.
Esta gente não merece respeito — e no entanto tem a maioria dos votos e das audiências. Eis o epitáfio nacional.
Não tenho idade para isso, mas vendo como rasteja esta canalhada artrópode sinto-me contemporâneo das trilobites. Velho desse modo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Rastas

Ao auditório conservador português (que não tem gente só de direita) causa urticária aquilo que certa malta faz ao cabelo. As rastas são-lhe intoleráveis. Como se uma cabeleira domada pelo pente fosse garantia de melhores ideias e modos.
Os que ornamentam a cabeça com rastas são muitas vezes ingénuos no que toca a ideias políticas, mas são outras tantas vezes generosos e empenhados. Não são mais violentos do que a generalidade da população.
O auditório conservador está sempre atento à presença de rastas nas manifs e nas contestações públicas, mas o auditório conservador é fraco em sociologia. Se procura má cidadania e violência devia olhar para as noites da juventude comum nas cidades. Os motins que aí vêm talvez comecem quando os pais da nossa juventude comum deixarem de poder pagar, não as propinas, mas os prazeres conexos de uma vida universitária. Em Londres o que se procurava eram gadgets e roupa de marca, não a revolução política. Os gangues de adolescentes do Porto aliviam turistas dos seus telemóveis e blusões, não pregam uma doutrina. Creio que o auditório conservador devia temer a fúria que resultará do consumismo frustrado antes de temer a estética e as reivindicações rastas.

Daqui houve nome Portugal

A exemplo de tantos outros edifícios abandonados no país, talvez a Escola da Fontinha, no Porto, nem precisasse de ser ocupada por uma associação recreativa e folclórica, um clube de amigos do automóvel, ou um qualquer grémio jantante de pessoas de bem para ser generosamente cedida em protocolo por uma década ou duas. Bastava ter sido pedida com vénias e salamaleques e outras homenagens ao imenso ego do xô presidente da Câmara. O requerimento, mesmo que para aquelas nobres actividades, não podia era ser apresentado por gente com rastas, piercings ou tatuagens, que as boas famílias em Portugal não apreciam.

Presidida por quem é, a Câmara do Porto não perdeu naturalmente um minuto a avaliar o eventual mérito da ocupação da Escola e jamais equacionaria a possibilidade de lhe dar ela própria enquadramento e apoio. O preconceito tem demasiada força.
Rui Rio é um presidente de câmara a governar para uma cidade que existe sobretudo na sua cabeça. Não está ao serviço de todos, divide os cidadãos de acordo com os seus (dele) preconceitos, beneficiando uns e desprezando os outros. É autoritário, e nas restantes vezes é ressabiado, vingativo. Durante o seu reinado, a Invicta só não desceu mais ao nível de uma qualquer cidade de província porque houve iniciativa privada que por exemplo atraiu turismo (mochileiro, é certo), uma onda que ele oportunisticamente tentou surfar. Onda essa que lhe serve, e infelizmente a demasiada outra gente, para achar que a vida no Porto está boa. Não está assim tanto. Como segunda cidade de um país europeu, o Porto deixa muito a desejar. Os paroquianos é que são pouco exigentes.
Rui Rio continuará até ao fim a colher os frutos de bravatas que passaram por discurso iluminado e lhe deram fama de homem rigoroso e tenaz. Não foi muito disto e em tantos momentos foi-o em favor de causas que só empobreceram a cidade, a tornaram mais provinciana. Mas o auditório conservador português, ele próprio de tendência paroquial, está sempre a suspirar por um «déspota esclarecido» — e o mau-feitio do Presidente da Câmara nortenha passa muitas vezes por isso. Talvez venha a governar o país.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O cantinho do hooligan (I)

Tenho um amigo que me oferece vídeos e livros de Medina Carreira e desconfia que um vizinho ciclista é beneficiário do RSI, já que não faz outra coisa senão pedalar todos os dias.
O meu amigo não esclarece, mas deve ser a isto que se chama indícios de enriquecimento ilícito.
Nos dias que correm, ter um topo de gama e muitos zeros no salário dá menos nas vistas. Há, aliás, uma quantidade interminável de idiotas úteis nos blogues e nos jornais (e no Governo) pronta a sustentar o álibi dos que cometem vencimentos e rendimentos milionários.
Também sou dos que acham que há demasiada gente a ganhar sem merecer. Apenas discordo que estejam todos na base da pirâmide. E, como tantos bloggers liberais, também me sinto um ironista, mas a prazo: vai ser divertido ver o povo estourar. Com a cabeça dos ricos.

O cantinho do hooligan (II)

Sou desde há muito admirador de Francisco José Viegas. Não me custa o termo. Dos livros e sobretudo das revistas e da editora que dirigiu. Mas, pôrra, se ele não queria ser ministro, podia ter deixado ir alguém no lugar dele. Escusava de ter pedido um downgrade como quem pede ostras. (Parece contraditório, mas o serviço era à la carte.)
A vantagem de termos um escritor em vez de um contabilista na SEC foi aprendermos a soletrar correctamente «não-há-di-nhei-ro» — com sílabas, em vez algarismos.
Fora isso, que diferença teria feito se um qualquer corta-relvas tivesse assumido o cargo?
Antes das eleições, FJV queixava-se ao “I” do financiamento municipal à música pimba. Pois tenho boas notícias para ele: a curto prazo, o financiamento da cultura pimba será todo o investimento que as câmaras farão na cultura. Não porque sejam particularmente inclinadas para isso (são-no), mas porque cessou nesta legislatura qualquer estímulo que pudesse haver em sentido contrário. E quando falo em estímulo não me refiro ao dinheiro do Estado (que, de resto, não existia nas legislaturas anteriores). Estou a pensar num discurso favorável à cultura em vez de um que a estigmatiza e torna (mais) impopular. Estou a pensar no QREN, numa ínfima parcela dele.
Bem sei que a audiência de FJV é uma meia dúzia de blogues conservadores e francamente relutantes no que toca a tirar o cu do sofá, mas há um país para lá deles. Ok, um país que na sua maioria fica satisfeito com uma ocupação pimba dos equipamentos municipais. Mas, pôrra outra vez, se a ideia era desistir do interior talvez pudessem ter evitado um gajo do Pocinho, não?  

Estrangeiro próximo ou vá para fora cá dentro

Claro que podemos ser optimistas e imaginativos. A DG Artes anunciou recentemente um programa de apoio à internacionalização das artes. Talvez aqui no interior possamos contar com a solidariedade da SEC numa candidatura para acolhimento de projectos artísticos ao abrigo daquele programa.

terça-feira, 27 de março de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

O tempo e a prosa

Leio alguém dizer que aprecia uma determinada escrita sem malabarismos nem instintos barrocos e lembro-me que isso é um sentimento comum a muita gente, incluindo críticos e editores. Talvez por isso a D. Quixote tenha desistido de Javier Marías a um terço de O Teu Rosto Amanhã e ainda nenhuma outra editora tenha retomado o fio à meada, ou saltado para Los Enamoramientos. Não que Marías tenha exactamente uma escrita barroca ou uma carreira no circo, mas as suas frases longas, a procura em directo da palavra certa, por tentativas, ou a busca da melhor definição por soma de ideias, acumular de proposições ou conjecturas, o diálogo tenso entre opostos, a exploração de condicionais ou possibilidades, o arsenal que usa não para conseguir dizer tudo e roubar espaço à sugestão mas para concluir que o inefável e a dúvida permanecem, permanecem a insatisfação e a incerteza — mesmo que os dissequemos com minúcia forense à mesa de autópsias —, as suas frases longas, dizia, e a sua escrita elegante mas complexa, são talvez um estorvo no mercado português.

O tempo não está para longas dissertações a propósito de um biscoito, prefere videntes mais assertivos e breves. Talvez este tempo creia que a vida é simples, definível em três frases curtas; que alguns substantivos e um par de verbos explicam as pessoas, todas as pessoas, e as acções, todas as acções; que os dicionários devem fazer fitness até se tornarem léxicos escanzelados de passarela, sem carne nem substância nem multiplicidade. Talvez não vivamos todos no mesmo tempo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Serviço cívico obrigatório

Imagine que é proprietário de um edifício no Porto e que um street artist dotado lhe decora aquela fachada que você ia ter de mandar pintar mais dia, menos dia. O seu entusiasmo com a obra e o alívio financeiro doravante vão durar-lhe pouco. A Câmara tem uma proposta de higiene pública que, entre outras medidas, pretende mobilizar os proprietários para um movimento cívico sem precedentes. Quando digo mobilizar não estou a falar de apelos, incentivos, sensibilizações. A coisa tem as suas reminiscências militares, é um recrutamento compulsivo, é serviço cívico obrigatório. Se a sua fachada é grafitada, logo terá um fiscal à perna a exigir-lhe uma de duas coisas: que apresente uma queixa-crime contra o vândalo ou o artista (quando identificados) ou proceda de imediato à remoção do graffito. A terceira via é pagar uma multa de 400 a mil euros.
Com Rui Rio não se brinca, ou as pessoas exercem voluntariamente, digamos assim, os seus deveres cívicos ou pagam multa. Não é chantagem — é pedagogia. Não é coerção — é um convite irrecusável ao uso do livre-arbítrio. No sentido certo.
De resto, atendendo ao historial do Presidente da Câmara, é de supor que não adianta você desculpar-se com a qualidade da obra, mesmo que se trate de um Rembrandt de aerossol: arrisca-se a que o fiscal, emulando o chefe, saque logo da pistola à simples menção da palavra arte.

Barragens coloridas

Depois de projectar filmes com avezinhas e paisagens nos paredões das barragens como prova de que o seu coração é verde, a EDP resolveu agora arregimentar arquitectos e artistas de renome para branquear colorir ou conceber as suas obras.
Não devemos ser insensíveis a toda a arte pública e não custa ver sensatez na ideia de pôr arquitectos qualificados a procurarem soluções inteligentes que minimizem o impacto daquele tipo de obras. Contudo, no que se refere à EDP é também previdente deixar-se sempre um pé para trás. Como resistir à tentação de ver nisto uma manobra de diversão? O amarelo da barragem da Bemposta tem o potencial de gerar uma discussão mais fácil e apaixonada (e inócua) do que uma que incida sobre a razoabilidade do plano nacional de barragens. Ou sobre o tarifário da empresa.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Botões-de-punho

A Sábado traz na capa um padre com uma elegância irrepreensível. Parece que se trata do líder do Opus Dei. Não li a reportagem que a capa ilustra, mas presumo que não é sobre fé, altruísmo ou bondade, não é sobre preceitos cristãos ou nobres sentimentos humanos. É talvez sobre dinheiro e poder. Os botões de punho na camisa do senhor padre alimentam a suspeita.
Talvez, talvez a reportagem padeça da síndroma de Brown, não custa imaginar. No entanto, há questões. O que fazem aqueles botões-de-punho na camisa do senhor padre? Foram lá postos pela revista?
Certos monárquicos, alguns industriais e muitos yuppies adoram botões-de-punho. Padres que se querem mostrar iguais aos outros homens vestem calças de ganga, bebem minis ou jogam à bola. Botões-de-punho não igualizam — distinguem. Distinguem geralmente quem está do lado do dinheiro.

Das virtudes da austeridade, digamos assim

A Ler faz 25 anos e eu deixei de a comprar com regularidade. Não porque me tenha zangado com ela ou a ache supérflua. Também comecei por vezes a mudar de corredor para não passar em frente à Bertrand local. Estou a portar-me bem e a viver de acordo com as minhas posses.

Debate

É certo que ainda tenho Pedro Lomba como um tipo de direita sensato e que, quando o lia há uns anos, apreciava boa parte do que escrevia António Barreto, mas na conjuntura actual pergunto-me o que será um debate com Pedro Lomba e José Manuel Fernandes, moderado por António Barreto.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

As coisas que Francisco Assis evoca

Há uns vinte anos havia eleições e o nosso baterista arranjou um gig, como se diria hoje, para tocarmos num comício que tinha como orador convidado Francisco Assis, então presidente da Câmara de Amarante. Éramos na altura suficientemente generosos para não estranharmos que alguém da nossa idade fosse presidente de câmara. E gostasse de o ser. Não recordo se nos pagavam (espero que sim) e recordo menos ainda o que tocámos, certamente as coisas inadequadas do costume. Andávamos a evitar uma carreira-padrão: não éramos punks, não nos excitava o hard rock ou o heavy metal, os Ramones, os Deep Purple ou os Rolling Stones. Não para emular. Não queríamos aliás imitar nada; a ânsia da originalidade foi talvez o que nos condenou. Ou isso ou uma das mil coisas que fizemos mal. Como subir ao palco do Rock-Rendez-Vous (versão pechisbeque da RTP2) com o percussionista usando o fato de casamento, camisa de folhos, laço blue velvet e tudo. (Eu era o do fato de três peças verde-claro, camisa creme de belo riscado vermelho, gravata rosa, a desafiar com o baixo Epiphone uma turba de teenagers contratados no bas-fond lisboeta, com um tipo da produção a tentar segredar-me sobre o ombro irrequieto, a meio do concerto, câmaras a gravar, que não devia excitar as feras, podia correr mal, os putos gostavam era dos Xutos, não estavam preparados para uma linha trad/folk/urbano/pop/rock/glam/foleira como a que nós acabáramos de inventar. Uma felicidade não existir Youtube.)
Tocar coisas inadequadas não era uma obsessão, um capricho, mas acontecia-nos. Num bar minhoto chamado O Comboio, onde as pessoas se sentavam em reservados, como nas lanchonetes americanas ou no Alfa Pendular, teimámos durante uns quarenta e cinco minutos em apresentar as nossas versões de standards jazz e folk americanos, para tédio geral. Pouco antes do intervalo, demos finalmente alegria à terra quando ao guitarrista lhe ocorreu dedilhar o nome do bar numa alusão pimba (apita o comboio, estão de certeza a ouvir a cena). Era uma ironia, uma piada, mas os clientes adormecidos levaram a coisa a sério: levantaram-se e dançaram, como mortos obedecendo a, digamos, Emanuel (não o Messias). Perante aquilo, o resto da banda teve de acompanhar uma extended version do tema. A segunda parte, se recordo bem (e espero que sim, que o passado se vergue aos interesses da minha memória), preenchemo-la com improvisos minimais repetitivos de Roadhouse Blues — foi a nossa vingança.
No comício, não posso jurar que tenhamos tocado depois de Assis falar, mas o longo discurso da figura empatou-nos de qualquer maneira, ficámos pendentes do seu término, ou para finalmente passarmos vergonha em palco quando já nos tinha passado a bebedeira ou para desmontarmos a aparelhagem. E como ele falou. Não as horas ininterruptas de Castro, mas ainda assim mais do que era humanamente suportável. Desconfio que a maioria dos que assistiram ao comício correu no domingo seguinte a votar no adversário do candidato que ele defendia.
Não é que não acerte — não há muito para discordar no seu artigo de hoje no Público, era este o meu ponto —, mas um tipo arrepia-se só de lhe ouvir o timbre. Para o ler é preciso tapar-lhe a cara e o nome com o polegar. Viram alguém a segurar o jornal assim? Era eu.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Álcool a mais

São três, duas delas de mini-saia, todas de tacões. Madrugada. Cambaleiam um pouco e gritam muito: estão eufóricas, é assim que se exprime o sentimento, tanto quanto sabem. Por vezes ensaiam coros, mas, porque lhes falta o talento ou sobra o álcool, não chegam a dar-lhes corpo, não chegam sequer a decidir-se por hinos desportivos ou canções da moda. Enquanto atravessam a estrada, partem nos paralelos os seus copos ou as suas garrafas de cerveja, como vêem fazer aos rapazes noutras noites. Congratulam-se ruidosamente pelo feito, como se tivessem superado uma prova, acertado num alvo difícil, embora aquilo não lhes tivesse exigido qualquer perícia ou cálculo. Não precisam de méritos ou motivos para celebrar, celebram, é tudo. Do outro lado da estrada há carros parados. Uma delas faz um desvio e, puxando a saia, experimenta levantar a perna, acertar com o tacão num farolim. A gravidade e o chão irrequieto não ajudam. Desiste à terceira tentativa, antes de cair. Contorna então o veículo e, ameaçadora, ataca o espelho lateral com mão bamba. A menos cambaleante das três espreita por cima do ombro e diz «chega» e repete a voz de comando, mas não arrisca desacertar o passo. A primeira insiste, tenta um novo golpe, mas sai-lhe outro safanão frouxo, dos que se dão com piedade a um gato arisco ou a um bebé caprichoso. Talvez receie magoar-se ou a capacidade para golpes firmes já não se lhe equipare à vontade de os aplicar. Urra agora de frustração e depois levanta o queixo, com desdém. Que se foda. Considera-se à mesma vitoriosa, aprendeu que o pode fazer mesmo que não vença nada. Junta-se por fim às outras duas num novo cambalear rua abaixo. O espelho sobrevive.

Se confrontado de manhã com a ameaça a que esteve sujeita a sua propriedade, o dono do automóvel por certo hesitaria entre verberar a bebedeira das raparigas e agradecer a bebedeira das raparigas. Afinal: ia tendo prejuízo devido a álcool a mais ou álcool a mais fora a sua sorte? 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A arte portuguesa a gostar de si própria


Elisa Rodrigues - "Dumb" (com Júlio Resende).


Certa opinião publicada gosta de escarnecer das artes e da vida cultural portuguesas. Aparentemente, não temos produção nem talentos nem circuitos que justifiquem um orgulho nacional e muito menos o investimento de um centavo. Tais juízes têm na mente, é fácil presumir, Shakespeare, Mozart, Rembrandt e talvez Jonh Ford, poucos mais. Como se o estrangeiro fervilhasse de talentos históricos automáticos. Ou como se fora das circunscrições da Broadway, de West End e de Hollywood nada valesse realmente a pena. A arte, para estes árbitros do gosto, não é uma coisa viva, mas um estrato geológico que se apreciaria melhor num museu natural do que em auditórios, teatros, galerias, clubes, bares e antros afins. Por isso, não saem de casa, não se afastam das suas bibliotecas e dos seus CDs e DVDs (ou VHS), a não ser para uma ritual (ou turística) ida aos clássicos a Londres ou a Nova Iorque. Ironicamente, assemelham-se às massas na sua proverbial falta de curiosidade, com a pequena diferença de que as massas têm as televisões e as revistas sociais e a escola a atrofiar-lhes a atenção e o gosto e estas elites induzem a si próprias o ensimesmamento — reivindicando o alto patrocínio da História, como quem atesta a nobreza da família pelos fantasmas que lhe assombram o castelo.
E no entanto bastaria alguma atenção e uma pequena dose de generosidade, de abertura de espírito, para descobrir inúmeras possibilidades de prazer estético no país.
Os opinion makers em apreço estão para a pátria como certas populações para as suas cidades: é o mesmo provincianismo que constrói os dois géneros de passividade e ignorância. E se na província muitas vezes as pessoas partem duma vitimização genética, reflexa para denunciarem que habitam o deserto, o resultado final é que ambos os extractos sociais terminam exibindo com a arrogância dos néscios o seu desprezo pelo que existe e eles ignoram e juram não existir.
Recordo como numa das cidades mais bonitas e turísticas do interior do país, que frequentei, alguns autóctones diziam que aquela era uma terra onde não se passava nada, não havia sequer cinema. Havia (ainda há). Mas eles ignoravam, não procuravam, não estavam atentos, não tinham curiosidade. Havia cinema — e concertos e teatro (com menos frequência ou interesse) —; não havia era multiplex, ou shopping, ou pipocas, essas manifestações de uma outra contemporaneidade. Havia um auditório bem simpático e confortável (com programação comercial e alternativa) que infelizmente era por vezes um pouco prejudicado pela vozearia boçal na rua dos universitários que, não o frequentando, juravam pela sua inexistência, um ou outro fingindo até lamentá-la.
Em muitos lugares da província poucos reconhecem ou participam numa vida cultural interessante, quando ela existe, porque se habituaram a imaginar que isso apenas é possível numa grande cidade — construído e alimentado pelos outros. Como alguns escribas imaginam que uma vida cultural decente só é possível nas grandes capitais europeias — ou em certas épocas históricas do passado. Trata-se de um processo de auto-exclusão, de “boicote”, até, assente em ideias limitadas do que é ou pode ser uma vivência cultural. Trata-se de um processo de absentismo que não favorece o crescimento da oferta e, tantas vezes, promove o seu definhamento.
Quem viaje pela internet (e até há pouco tempo pelo país) munido do seu próprio mapa e de ânimo descobridor, disposto a fruir de experiências e não de preconceitos, pode ter belas surpresas e bons momentos. Portugal tem talentos nas artes suficientes para, se postos a circular, assegurarem um quotidiano interessante à maioria das cidades do país, pelo menos às capitais de distrito. Nos mais diferentes géneros musicais, na dança, no teatro, com as suas múltiplas expressões, nas artes plásticas. Quem, dos muitos que opinam, conhece de facto esta realidade ou está realmente disposto a conhecê-la (ou a reconhecê-la)?
As políticas culturais em Portugal são determinadas por um povo deixado na ignorância e na apatia — e pela idiossincrasia dos influentes. Não estando pessoalmente interessada nos assuntos ou sendo a eles avessa, esta espécie permite-se ainda assim emitir pareceres e estigmas sobre eles. É com este historial e neste ambiente que se espera agora em Portugal que o povo pague bilhete para as artes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Guerra de trincheiras

A dilatória viagem que teimo em fazer por umas duas dezenas de blogues, com diferentes enfoques políticos, é uma rotina demasiadas vezes desoladora. Não é fácil encontrar na blogosfera espíritos independentes, e isso faz-me interrogar se é porque eles quase não existem ou porque a amostra que escolho não é representativa.
Nos dias tristes que vivemos, a opinião está dividida entre os que apoiam e os que são contra. Não esta ou aquela matéria em particular, mas todo o pacote. De repente, não há espaço para concordar ou discordar em parte, concordar com isto e discordar daquilo, achar bem isto, mas também aquilo. A síntese não tem lugar. A opinião deixou de ser antecedida de um menu de onde cada um escolhia os pratos da sua refeição: vem já servida da cozinha e os comensais ou a mastigam vorazmente ou atiram a bandeja à cara do cozinheiro. Não há meio-termo e por vezes nem boas maneiras à mesa. Muitos bloggers, mesmo que apetrechados de argumentos, parecem-se com os tipos que escrevem nas suas caixas de comentários: radicais, indefectíveis, sem paciência para o adversário. A bengalada verbal ocorre amiúde, não no melhor espírito oitocentista romanticamente defendido por João Pereira Coutinho, mas no mais contemporâneo estilo claque de futebol. É, aliás, a camisola o que parece sustentar a opinião que se escreve e não a inteligência, a argúcia, a ponderação.
É assim pouco provável um debate que possa encontrar caminhos diferentes para os anos que nos esperam. Os que são pelo Governo acreditam no milagre da austeridade e não estão dispostos a discutir sequer os pormenores da sua implementação, a coisa é para ir à bruta, sem contemplações, não há nuances, particularidades, equilíbrios ou compromissos que se possam considerar. O tom colérico, moralista ou desdenhoso que adoptam presume uma pureza que despudoradamente se outorgaram. A ironia que por vezes praticam é apenas uma arma de arremesso, não uma ferramenta de auto-avaliação. Levam a sério uma licença para punir e expurgar que os próprios emitiram, com uma autoridade que não se dão ao trabalho de questionar.
Do outro lado, há uma horda reaccionária que está pronta a refutar todas as medidas, a recusar todos os cortes, todas as alterações, todas as reformas, crendo num outro milagre, o da multiplicação dos pães e dos peixes. Uma horda que, na sua inflexível e irresponsável oposição, facilmente emparelha com os interesses das corporações, não se dando conta que a soma de todas os interesses corporativos é o desastre. Aqui o tom é o da guerrilha, da piromania.
Se os primeiros são insensíveis ao sofrimento e às dificuldades individuais, os segundos desvalorizam os malefícios colectivos da revindicação desmesurada, sem critério. O que os primeiros defendem não é sempre estranho à mecânica dos autoritarismos — os segundos brincam levianamente com a anarquia.
Os factos noticiosos são hoje abordados (ou ignorados) de forma a servirem os interesses do juízo preconcebido. Cada facção destaca ou desvaloriza os aspectos que podem servir ou prejudicar a causa. De repente já não é a notícia o que importa mas as partes dela que beneficiam (ou contrariam) o argumento, que nos beatificam ou denigrem o adversário. Não há, aliás, factos: há interpretações e a interpretação das interpretações, a exegese e a crítica da exegese.
Claro que a margem de manobra de Portugal é mínima, mas confrange que o nosso contributo para a resolução da crise tenha o nível argumentativo de um adepto do Benfica, que as balizas do debate sirvam apenas para contabilizar golos das facções e não para perscrutar com seriedade e consequência o futuro. Talvez o capitalismo esteja a precisar de ser repensado — estamos num desses momentos da História — mas em Portugal o que é relevante é a semântica desprezível ou heróica de Passos Coelho e a cartilha que cada um escolheu deste ou daquele momento histórico e que quer à força ver aplicada aos tempos que correm.
O debate entrincheirado esquece que a guerra de trincheiras provou a sua perniciosidade há cem anos. Pretenderá comemorar-lhe o centenário?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012