quarta-feira, 20 de junho de 2012

Literatura “transmontana”

Visito com menos regularidade do que devia a Casa de Cacela, mas regresso dali sempre com um gosto bom nos lábios de ter lido em voz baixa os poemas de José Carlos Barros. (Havia um vizinho que lia assim, num sussurro permanente, os livros do Mandrake ou lá o que eram, e talvez não me devesse ter rido dele: também eu descobri que certas frases ou estrofes precisam de ser ouvidas, mesmo que num murmúrio, para serem desfrutadas. Ou entendidas.)
Há qualquer coisa que me encanta nos poemas de JCB e pergunto-me quanto disso é a sua revisitação de Trás-os-Montes, uma revisitação de quem não vive em Trás-os-Montes. Tive idêntico sentimento quando li Ernestina, de J. Rentes de Carvalho. Na altura escrevi que às vezes a literatura pode passar por uma região sem se atolar nela. Esta afirmação tinha implícito um desdém pela literatura transmontana, que na minha presumida opinião vivia atascada na lama patrícia, mesmo nos escassos momentos em que parecia querer sobressair.

É tristemente redutor que uma obra literária seja abordada pelo barro que utiliza, mas por vezes pergunto-me, com injustiça, se não é isso que alguns leitores e comentadores fazem, mais fascinados pelo exotismo regional ou epocal do que pelos méritos da prosa. Não raro leio José Carlos Barros com um fascínio não sei se inverso se análogo: o fascínio de quem nunca tendo vivido fora de Trás-os-Montes identifica a região que ele evoca como se sempre a tivesse visto pelas mesmas lentes focadas a partir do Algarve.

Rui Catalão, crítico do Público, tem revelado o seu particular fascínio transmontano. Creio que ainda nenhum outro crítico falou dos livros de Manuel António Araújo, escritor de Chaves, mas pode ter sido distracção minha. Catalão não parece ter chegado aos dois livros que recenseou daquele autor pela sua proveniência regional, e o exotismo que o atrai talvez não seja geográfico, mas o do próprio universo literário dos textos. Contudo, há algo de profundamente transmontano em mim quando me descubro a ler as recensões com a complacência que os caseiros dedicavam aos senhoritos de visita às propriedades nas berças.

Trás-os-Montes é o título do livro vencedor do Prémio Agustina Bessa-Luís. Tiago Patrício, o seu autor, é madeirense de nascimento mas viveu aqui até aos 19 anos. Revelou ter resistido até ao fim a escolher aquele título porque «não queria denunciar o sítio do romance», mas o júri tomou em consideração «as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes».

Durante um ano ou dois convivi nas páginas do Semanário Transmontano com Manuel António Araújo, mas ainda não li os seus livros. O que temerei? A enésima repetição da «dureza» da vida em Trás-os-Montes que tanto fascina as novas gerações literatas urbanas? Ou descobrir finalmente que um conterrâneo não precisa de ir viver fora para escrever bons livros? No primeiro caso, é talvez preconceito da minha parte. No segundo, é preconceito e inveja.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Pelos céus comunitários*

O casal de namorados que viu de manhã fê-lo lembrar-se de si próprio. O artista quando jovem. Passou por eles ao contornar um relvado (detestava a merda dos cães — não tanto quanto os bichos em si, claro — e não queria correr o risco). Primeiro notou o olhar vago da rapariga. Ela fixava um ponto qualquer no correr de edifícios do outro lado da rua. O namorado assediava-a. Queria um beijo, um toque, roçar-lhe o seio, o entrepernas. Queria fodê-la, em suma. Quim Zé voltou para trás e foi posicionar-se num sítio onde poderia apreciar a cena. Conhecia-a. Vivera-a muitas vezes. A rapariga resistia fracamente às investidas. O olhar fixo era sonhador. Queria estar naquela situação — mas com outro tipo. Não a repugnava ser beijada, apalpada, fodida, mas ficava melancólica pela tremenda má-sorte. Aceitara o namoro porque uma gaja tinha de namorar, não era? Mas agora só queria acabar com aquilo. Cumprir o seu papel, distanciada, resistindo tanto quanto possível, e rezar para que da próxima vez as coisas se passassem com outro, com um de meia dúzia que ela era capaz de enumerar.
Quim Zé também sabia o que o rapaz pensava. Não era muito diferente, de resto, do que pensava a rapariga de olhar perdido. Os rapazes não sabiam fazer aqueles olhares (excepto alguns, profissionais de outro calibre) mas também não era o seu papel. O seu papel era investir, forçar caminho, sem demasiada ternura mas sem violência. E geralmente pensavam o mesmo que elas, partilhavam a mesma sensação de infortúnio: era outra tipa que gostavam de ter ali à mão. A diferença é que os rapazes conseguiam mesmo entusiasmar-se com o que tinham: afinal, havia mamas, carne.
Depois do almoço a cena foi mais insólita, mas não menos previsível (se o seguiam no raciocínio). Da varanda de um edifício baixo de habitação estavam a ser arrojadas roupas e objectos pessoais. Uma ou outra peça de mobília. Em cima, possuída por fúria bíblica e forças sobrenaturais, actuava uma mulher. No passeio, encolhido contra um poste, envergonhado, humilhado, vencido, pouco menos do que morto — um homem, marido da senhora. Era a cena típica que estava reservada a todos os casais, só que esta viera para a rua. O homem, como Quim Zé bem sabia, estava a assistir a um filme, como se diz que as vítimas de acidentes assistem antes da inconsciência. Toda a puta da sua vida em ecrã panorâmico, a 3D. Os erros, as estupidezes, os momentos em que podia ter evitado chegar a este ponto, as encruzilhadas onde poderia ter escolhido outra direcção. Mais um imbecil que acreditara no amor e que agora via as suas cuecas e as suas peúgas espalhadas pela rua, depois de um voo gracioso pelos céus comunitários.

*in Aranda

sábado, 16 de junho de 2012

Cemitérios*

Quim Zé (…) a dada altura queixou-se da frivolidade dos assuntos.
— Falemos de coisas grandes, profundas, não do comezinho.
Beto ia protestar, mas desistiu, talvez por não se sentir com forças. Preferiu reabastecer-se de whisky enquanto perguntava:
— E quais são as coisas grandes?
Não era retórica, o cérebro de Beto já precisava de alguma ajuda.
— O amor, a morte, a guerra, temas destes — informou-o Quim Zé.
— Ah… Ok, podes começar — disse Beto recompondo-se com esforço na cadeira, o que o fez parecer irónico.
Quim Zé olhou através da janela para a noite escura durante um hiato considerável Depois decidiu-se:
— O que pensas dos cemitérios?
— ?
— Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra, coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas, e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se o assunto era a estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas e ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas.
— Mas não era disto que queria falar — continuou Quim Zé. — Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.
— Na minha família não se falava muito do passado — confidenciou Quim Zé —, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.

*in Aranda

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Música*

— Eu sou do género de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. — Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias. Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha discoteca. Mesmo hardcore, na verdade. Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa. Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas. Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte, genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado, como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as invasões bárbaras.
— Mas não era de dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma forma de épater le bourgeois (expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês adequados. Começámos por Nouvelle Vague não por acaso.

*in Aranda

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Verão*

— Por vezes — disse Mário — penso que o Verão, aquela altura do ano em que vamos definitivamente ser felizes, é um mito, uma projecção dos nossos desejos mais íntimos. Ou talvez uma evocação. Sim, definitivamente uma evocação. Vejamos: o Verão existiu, um dia houve Verão. Não é como Deus ou os santos, nos quais temos de acreditar sem evidências nem testemunhos, cegamente. Não é uma questão de fé — mas está imbuído da mesma intangibilidade. Temos as nossas memórias dele, sem dúvida que temos. A felicidade estava ali, por todo o lado, inundando tudo naqueles fins-de-tarde intermináveis, como uma cornucópia generosa que não parasse de jorrar luz e prazer e boas coisas a todo o momento, um regador gigante manuseado pela mão de Deus, aspergindo com uma nuvem de vapor inebriante, muito fina e suave e fresca, os nossos dias incontáveis e incontados.
— Mas o Verão — continuou Mário — não tem existência senão no passado, por isso o seu carácter mitológico. Ano após ano alimentamos a esperança de que agora é que vai ser, vamos repetir tudo a que temos direito, o ócio, as sestas depois de almoço, os planos para as diferentes partes do dia que se não se cumprirem não importa pois há tantos dias à escolha, as manhãs sem fim, os almoços longos, com sobremesa, as tardes a perder de vista, os jantares com guitarras e cantorias eufóricas, as noites também habitáveis, usufruíveis (a uma da manhã à distância da Namíbia, se não mais longe ainda, de qualquer modo sempre para lá do Bojador).
— Depois eles acabaram com o Verão. A humanidade prestes a cumprir-se (as máquinas farão as coisas chatas, dizia-se em 1900 — em 1900!) e eles a acabar com o Verão. A tecnologia de ponta, a riqueza, o voto universal, a igualdade, o amor livre, o homem na Lua, tantas evoluções — e eles a acabar com o Verão.
— Em 1967 eu ainda não sabia que eles estavam a acabar com o Verão. Quer dizer, eu estava a nascer, não é?, não podia reparar logo nisso, tinha as minhas próprias prioridades. Durante os primeiros anos e os seguintes, tudo o que fiz foi aproveitar o Verão, carpe aestivum. Não de uma forma táctica, oportunista, reflectida, filosófica, ideológica. Não. Nada disso. No sentido menos consciente da expressão. Apenas mergulhando plenamente nele, de trombas, de barriga, de costas, lançando-me para ele como pudesse e a todo o momento. O Verão estava ali à mão de semear, era gratuito, para todos, cada um que fizesse dele o que quisesse. Não havia um minuto a perder (embora houvesse imensos minutos para perder), tudo o que tínhamos a fazer era dar uma corridinha rápida, um saltinho para o ar na beira e, zás, cair nele de cabeça, formosamente, atleticamente, imensamente, para sempre.
— Sim, para sempre. Aqueles que mergulharam no Verão naqueles anos sabem do que falo. São, como eu, os despojados do Verão. O cume da raça humana, a quem subitamente tiraram o tapete de debaixo dos pés. O tapete não, a prancha, o trampolim. Íamos nós para mais um salto, joelhos ligeiramente flectidos para o impulso que nos lançaria nos céus como um Ícaro sem percalços e de repente também nós temos um percalço. O maior deles todos. Não há prancha. Não há trampolim. Não há Verão. De todo. Há apenas a queda. A longa e interminável queda. O lado simétrico do Verão. Algo que nos puxava para baixo onde antes nos sentíamos enlevados. Para baixo, sempre para baixo, Alice caindo pelo buraco mas sem nunca chegar ao País das Maravilhas. Nem a lado nenhum. Nem sequer ao Inferno, que poderia ser um sucedâneo do Verão, com o seu próprio calorzinho. Não. Nada. Apenas a queda. A Queda e o Tempo. Tempo para ponderar a perda. Para gravar mais profundamente na nossa pele o que estávamos a perder. Não como o Verão gravava na pele a sua infinita bondade, com uma cor, um tom, o bronze, nalguns casos o ébano puro — sem escaldões nem melanomas.
— Depois de alguma vez se ter entrado no Verão, como eu entrei, como nós entrámos, a vida torna-se muito difícil. Há a Queda, claro — aguardamos a todo o momento ficarmos esborrachados, como um poio a cair do cu de uma vaca lacónica —, há a queda, mas houve o Verão. Estamos para aqui a cair, sempre a cair, mas temos uma memória, algures no nosso cérebro temos registos de que houve um Verão. Um não, dez ou vinte, a eterna repetição, a terna repetição da melhor coisa que o mundo teve. Haverá castigo maior do que esse? Conhecer o Paraíso e perdê-lo? Saber como as coisas podem ser e depois sermos informados de que nunca mais as coisas serão assim? Que daqui para a frente o que nos resta é lembrar, lembrar e chorar a perda até à neurose? Freud, Freud, onde andas? Era isto que tu querias, não era, meu sacana? A humanidade a remoer as suas neuroses e a comprar os excitantes, os calmantes, os soníferos que gajos como eu prescrevem aos outros e a si mesmos. Que bela ideia de negócio, a tua, ó sócio.
— Quer dizer, se ao menos as férias não fossem apenas um mês, se pudéssemos ir três meses para França, para o Loire, alugar um castelo com piscina até nos aborrecermos… Deliro, bem sei. Fico sempre assim quando chega o Verão — concluiu Mário.

*in Aranda

quarta-feira, 13 de junho de 2012

The siege

Havia aqui uma esplanada que era um oásis no bairro de baiucas noctívagas onde vivo. Bom serviço, boa carta, bom gosto, boa música em níveis discretos, sem televisão nem luzes estentóricas. Isso acabou, talvez porque a concessão tenha chegado ao seu termo (o bar é camarário), ou porque era um espaço intolerável no mundo de hoje. Alguém na câmara ou na cidade certamente ansiava por revogar a licença de empresa tão elegante e há aqui sempre mais um empresário disposto a replicar o conceito chunga das restantes tascas das redondezas. Os moradores? Permanecem indiferentes, viciados na receita de soporíferos que têm de tomar todas as noites para continuarem a habitar o seu próprio bairro.
O cerco continua.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A propósito de bola (ou talvez não)

Tinha ficado bloqueado naquela canção como um disco riscado e ela gostava de o levar a passear pela rua enquanto ele a cantava baixinho e lhe apertava a mão. Will you still need me, will you still feed me. Tinham mais de sessenta e quatro (a esperança de vida aumentara desde os Beatles), mas, sim, ela continuava a precisar dele e a alimentá-lo, agora de uma forma literal, a colherinhas de sopa.
Havia um recolher obrigatório — os tempos hoje em dia eram deste jaez — mas ela estava cansada de estar em casa, queria sentir a brisa do fim da tarde, passear de mão dada pela marginal. De modo que mandou às malvas os avisos e fez o que lhe apetecia fazer.
As claques não tardariam a encher as ruas, evidentemente. Era dia de derby, e as autoridades faziam questão de reservar o espaço público para os hunos em dias destes. Faziam-no em nome da segurança e do bem-estar social. E, de facto, ela tinha de concordar que de um certo ponto de vista era mais razoável para o cidadão comum (caso ainda existisse) ficar em casa, sequestrado pelo seu próprio governo.
Mas não naquele dia. Tinham passado cinquenta anos desde o casamento precipitado no final dos anos sessenta, quando ele confundiu o desejo dela com paixão e ela, que pensara iniciar então uma vida de amor livre e flores no cabelo, se embeveceu com a ingenuidade do futuro marido e acedeu a dizer sim, mesmo que na altura não achasse que aquilo a comprometia de forma alguma. Cinquenta anos em que nem por um dia a banda sonora oficial daquela união improvável (will you still need me, will you still feed me) deixou de se ouvir. Cinquenta anos era mais do que tinham o primeiro-ministro, o ministro das finanças e o ministro-adjunto, a tríade que o país escolhera, talvez num desfile de manequins (o que era feito dos anciãos, por Deus?).
Talvez já não houvesse muitos velhos para além de eles os dois. Aqueles que se lembrava de ter visto contavam-se pelos dedos das mãos. Mas na verdade não reparava muito no que havia à sua volta. Quando saía só lhe interessava ir sentar-se num banco a ver a foz e a acariciar a mão do marido, que o Alzheimer felizmente cingira à faixa certa do álbum, mesmo que ela não apreciasse particularmente o arranjo meio pateta que o McCartney providenciara para a musiquinha.
Ao chegar ao fim da avenida o tempo começou a mudar e ela arrependeu-se de não ter trazido os abrigos que tinha sempre pendurados no vestíbulo — mas não se arrependeu de ter saído. Talvez chovesse (havia relâmpagos a cruzar o céu), mas o que era mais romântico do que um passeio à chuva? Haveriam de sobreviver à constipação, se ela os acometesse, e a maré viva era um espectáculo que ambos apreciavam.
Sim, estava verdadeiramente excitada com a decisão de ter saído apesar de tudo e todos pretenderem o contrário. Ainda havia alguém no país que fazia o que lhe apetecia e não o que era determinado. E Deus, no caso de existir tal singularidade lá em cima, bem poderia convocar as tempestades que quisesse. Se ela achava que lhe calhava bem um passeio até à foz, vinha até à foz. Feliz por ter o marido de sempre a cantarolar-lhe na sua vozinha querida a melhor declaração de amor.
Depois de se terem sentado a ver a espuma das ondas, a primeira claque passou nas costas deles, bastante desmotivada, quebrando apenas uma ou outra vitrina e incendiando escassos contentores de lixo. Meia hora mais tarde, escoltada pela polícia, veio a insolente claque adversária, com disciplina militar e sarcasmo palaciano, entoando um conhecido cântico guerreiro.
João, o marido, voltou-se para trás, com um sorriso e um dedo hesitante de maestro no ar. Demorou algum tempo a apanhar a melodia, mas depois atacou-a a plenos pulmões — e ela soube pela primeira vez em cinquenta anos o que era a traição.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

R.I.P.

Isto é o país de que precisamos:

Isto é o país que temos:

O tipo de pensamento e postura expressos no primeiro artigo são geralmente rejeitados (quando não invectivados) pela populaça indígena. Paus de bandeira do género do que se exprime na segunda notícia têm os partidos e a política na mão. É assim há anos, é assim do continente às ilhas, da freguesia remota ao parlamento da nação. O país tem-se encarregado de afastar da vida pública quem ouse pensar pela sua cabeça e dá todo o poder a um bando de medíocres obedientes. Paz à sua alma.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A oficialização do óbvio

No que toca ao caso Relvas, podíamos achar que o óbvio se tornara ululante mesmo para o mais distraído ou comprometido português, mas ainda carecia de oficialização. Com algum atraso devido aos seus imensos afazeres, o guru da direita, o sempre frontal, precursor e clarividente Vasco Pulido, lá pôs o carimbo na coisa — nos fundos de um artiguito que é, por assim dizer, um exemplo de prosa directa, clara e sobretudo corajosa: «não deve existir um lugar marcado para a irresponsabilidade no Conselho de Ministros»*.

É certo que não menciona o nome do ministro Relvas e evita a palavra demissão, mas isso porque os grandes educadores do povo têm horror aos «bas-fonds da política». A populaça que traduza o artigo e aplique se quiser a eufemística sabedoria ao seu vil quotidiano.

De qualquer modo, a direita pode agora ser menos contumaz que já não é vergonha nenhuma — tem o exemplo do santinho padroeiro.

*In «Mais desgraças», artigo no Público de 27/5/2012

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Fauna

Nem faziam falta os mais recentes desenvolvimentos do caso Relvas/secretas/media. Relvas mentiu aos portugueses (via comunicação social) dizendo que não se lembrava de ter recebido qualquer mensagem do senhor das secretas. Pouco mais tarde soube-se, ele próprio o disse, que recebera sms e e-mails com uma frequência espantosa.
Num país decente — num em que os militantes partidários, os simpatizantes e os comentadores não se dividissem como claques de clubes de futebol, com o mesmo tipo minguado de inteligência, racionalidade ou escrúpulos — o ministro estava já demitido ou demitia-se.
Mas Portugal não é assim. O caso do ministro agrava-se e continua tudo na mesma como a lesma. Uma viagem pelos jornais e pelos blogues lusos mostra como a única ética que existe é mesmo a futebolística: defender «os nossos» — contra todas as evidências, se necessário. Era assim no tempo de Sócrates, é assim agora. Havia as amibas socialistas; agora as do CDS e as do PSD somam esforços para ultrapassar os feitos viscosos da subespécie anterior.
Esta gente não merece respeito — e no entanto tem a maioria dos votos e das audiências. Eis o epitáfio nacional.
Não tenho idade para isso, mas vendo como rasteja esta canalhada artrópode sinto-me contemporâneo das trilobites. Velho desse modo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Rastas

Ao auditório conservador português (que não tem gente só de direita) causa urticária aquilo que certa malta faz ao cabelo. As rastas são-lhe intoleráveis. Como se uma cabeleira domada pelo pente fosse garantia de melhores ideias e modos.
Os que ornamentam a cabeça com rastas são muitas vezes ingénuos no que toca a ideias políticas, mas são outras tantas vezes generosos e empenhados. Não são mais violentos do que a generalidade da população.
O auditório conservador está sempre atento à presença de rastas nas manifs e nas contestações públicas, mas o auditório conservador é fraco em sociologia. Se procura má cidadania e violência devia olhar para as noites da juventude comum nas cidades. Os motins que aí vêm talvez comecem quando os pais da nossa juventude comum deixarem de poder pagar, não as propinas, mas os prazeres conexos de uma vida universitária. Em Londres o que se procurava eram gadgets e roupa de marca, não a revolução política. Os gangues de adolescentes do Porto aliviam turistas dos seus telemóveis e blusões, não pregam uma doutrina. Creio que o auditório conservador devia temer a fúria que resultará do consumismo frustrado antes de temer a estética e as reivindicações rastas.

Daqui houve nome Portugal

A exemplo de tantos outros edifícios abandonados no país, talvez a Escola da Fontinha, no Porto, nem precisasse de ser ocupada por uma associação recreativa e folclórica, um clube de amigos do automóvel, ou um qualquer grémio jantante de pessoas de bem para ser generosamente cedida em protocolo por uma década ou duas. Bastava ter sido pedida com vénias e salamaleques e outras homenagens ao imenso ego do xô presidente da Câmara. O requerimento, mesmo que para aquelas nobres actividades, não podia era ser apresentado por gente com rastas, piercings ou tatuagens, que as boas famílias em Portugal não apreciam.

Presidida por quem é, a Câmara do Porto não perdeu naturalmente um minuto a avaliar o eventual mérito da ocupação da Escola e jamais equacionaria a possibilidade de lhe dar ela própria enquadramento e apoio. O preconceito tem demasiada força.
Rui Rio é um presidente de câmara a governar para uma cidade que existe sobretudo na sua cabeça. Não está ao serviço de todos, divide os cidadãos de acordo com os seus (dele) preconceitos, beneficiando uns e desprezando os outros. É autoritário, e nas restantes vezes é ressabiado, vingativo. Durante o seu reinado, a Invicta só não desceu mais ao nível de uma qualquer cidade de província porque houve iniciativa privada que por exemplo atraiu turismo (mochileiro, é certo), uma onda que ele oportunisticamente tentou surfar. Onda essa que lhe serve, e infelizmente a demasiada outra gente, para achar que a vida no Porto está boa. Não está assim tanto. Como segunda cidade de um país europeu, o Porto deixa muito a desejar. Os paroquianos é que são pouco exigentes.
Rui Rio continuará até ao fim a colher os frutos de bravatas que passaram por discurso iluminado e lhe deram fama de homem rigoroso e tenaz. Não foi muito disto e em tantos momentos foi-o em favor de causas que só empobreceram a cidade, a tornaram mais provinciana. Mas o auditório conservador português, ele próprio de tendência paroquial, está sempre a suspirar por um «déspota esclarecido» — e o mau-feitio do Presidente da Câmara nortenha passa muitas vezes por isso. Talvez venha a governar o país.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O cantinho do hooligan (I)

Tenho um amigo que me oferece vídeos e livros de Medina Carreira e desconfia que um vizinho ciclista é beneficiário do RSI, já que não faz outra coisa senão pedalar todos os dias.
O meu amigo não esclarece, mas deve ser a isto que se chama indícios de enriquecimento ilícito.
Nos dias que correm, ter um topo de gama e muitos zeros no salário dá menos nas vistas. Há, aliás, uma quantidade interminável de idiotas úteis nos blogues e nos jornais (e no Governo) pronta a sustentar o álibi dos que cometem vencimentos e rendimentos milionários.
Também sou dos que acham que há demasiada gente a ganhar sem merecer. Apenas discordo que estejam todos na base da pirâmide. E, como tantos bloggers liberais, também me sinto um ironista, mas a prazo: vai ser divertido ver o povo estourar. Com a cabeça dos ricos.

O cantinho do hooligan (II)

Sou desde há muito admirador de Francisco José Viegas. Não me custa o termo. Dos livros e sobretudo das revistas e da editora que dirigiu. Mas, pôrra, se ele não queria ser ministro, podia ter deixado ir alguém no lugar dele. Escusava de ter pedido um downgrade como quem pede ostras. (Parece contraditório, mas o serviço era à la carte.)
A vantagem de termos um escritor em vez de um contabilista na SEC foi aprendermos a soletrar correctamente «não-há-di-nhei-ro» — com sílabas, em vez algarismos.
Fora isso, que diferença teria feito se um qualquer corta-relvas tivesse assumido o cargo?
Antes das eleições, FJV queixava-se ao “I” do financiamento municipal à música pimba. Pois tenho boas notícias para ele: a curto prazo, o financiamento da cultura pimba será todo o investimento que as câmaras farão na cultura. Não porque sejam particularmente inclinadas para isso (são-no), mas porque cessou nesta legislatura qualquer estímulo que pudesse haver em sentido contrário. E quando falo em estímulo não me refiro ao dinheiro do Estado (que, de resto, não existia nas legislaturas anteriores). Estou a pensar num discurso favorável à cultura em vez de um que a estigmatiza e torna (mais) impopular. Estou a pensar no QREN, numa ínfima parcela dele.
Bem sei que a audiência de FJV é uma meia dúzia de blogues conservadores e francamente relutantes no que toca a tirar o cu do sofá, mas há um país para lá deles. Ok, um país que na sua maioria fica satisfeito com uma ocupação pimba dos equipamentos municipais. Mas, pôrra outra vez, se a ideia era desistir do interior talvez pudessem ter evitado um gajo do Pocinho, não?  

Estrangeiro próximo ou vá para fora cá dentro

Claro que podemos ser optimistas e imaginativos. A DG Artes anunciou recentemente um programa de apoio à internacionalização das artes. Talvez aqui no interior possamos contar com a solidariedade da SEC numa candidatura para acolhimento de projectos artísticos ao abrigo daquele programa.

terça-feira, 27 de março de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

O tempo e a prosa

Leio alguém dizer que aprecia uma determinada escrita sem malabarismos nem instintos barrocos e lembro-me que isso é um sentimento comum a muita gente, incluindo críticos e editores. Talvez por isso a D. Quixote tenha desistido de Javier Marías a um terço de O Teu Rosto Amanhã e ainda nenhuma outra editora tenha retomado o fio à meada, ou saltado para Los Enamoramientos. Não que Marías tenha exactamente uma escrita barroca ou uma carreira no circo, mas as suas frases longas, a procura em directo da palavra certa, por tentativas, ou a busca da melhor definição por soma de ideias, acumular de proposições ou conjecturas, o diálogo tenso entre opostos, a exploração de condicionais ou possibilidades, o arsenal que usa não para conseguir dizer tudo e roubar espaço à sugestão mas para concluir que o inefável e a dúvida permanecem, permanecem a insatisfação e a incerteza — mesmo que os dissequemos com minúcia forense à mesa de autópsias —, as suas frases longas, dizia, e a sua escrita elegante mas complexa, são talvez um estorvo no mercado português.

O tempo não está para longas dissertações a propósito de um biscoito, prefere videntes mais assertivos e breves. Talvez este tempo creia que a vida é simples, definível em três frases curtas; que alguns substantivos e um par de verbos explicam as pessoas, todas as pessoas, e as acções, todas as acções; que os dicionários devem fazer fitness até se tornarem léxicos escanzelados de passarela, sem carne nem substância nem multiplicidade. Talvez não vivamos todos no mesmo tempo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Serviço cívico obrigatório

Imagine que é proprietário de um edifício no Porto e que um street artist dotado lhe decora aquela fachada que você ia ter de mandar pintar mais dia, menos dia. O seu entusiasmo com a obra e o alívio financeiro doravante vão durar-lhe pouco. A Câmara tem uma proposta de higiene pública que, entre outras medidas, pretende mobilizar os proprietários para um movimento cívico sem precedentes. Quando digo mobilizar não estou a falar de apelos, incentivos, sensibilizações. A coisa tem as suas reminiscências militares, é um recrutamento compulsivo, é serviço cívico obrigatório. Se a sua fachada é grafitada, logo terá um fiscal à perna a exigir-lhe uma de duas coisas: que apresente uma queixa-crime contra o vândalo ou o artista (quando identificados) ou proceda de imediato à remoção do graffito. A terceira via é pagar uma multa de 400 a mil euros.
Com Rui Rio não se brinca, ou as pessoas exercem voluntariamente, digamos assim, os seus deveres cívicos ou pagam multa. Não é chantagem — é pedagogia. Não é coerção — é um convite irrecusável ao uso do livre-arbítrio. No sentido certo.
De resto, atendendo ao historial do Presidente da Câmara, é de supor que não adianta você desculpar-se com a qualidade da obra, mesmo que se trate de um Rembrandt de aerossol: arrisca-se a que o fiscal, emulando o chefe, saque logo da pistola à simples menção da palavra arte.

Barragens coloridas

Depois de projectar filmes com avezinhas e paisagens nos paredões das barragens como prova de que o seu coração é verde, a EDP resolveu agora arregimentar arquitectos e artistas de renome para branquear colorir ou conceber as suas obras.
Não devemos ser insensíveis a toda a arte pública e não custa ver sensatez na ideia de pôr arquitectos qualificados a procurarem soluções inteligentes que minimizem o impacto daquele tipo de obras. Contudo, no que se refere à EDP é também previdente deixar-se sempre um pé para trás. Como resistir à tentação de ver nisto uma manobra de diversão? O amarelo da barragem da Bemposta tem o potencial de gerar uma discussão mais fácil e apaixonada (e inócua) do que uma que incida sobre a razoabilidade do plano nacional de barragens. Ou sobre o tarifário da empresa.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Botões-de-punho

A Sábado traz na capa um padre com uma elegância irrepreensível. Parece que se trata do líder do Opus Dei. Não li a reportagem que a capa ilustra, mas presumo que não é sobre fé, altruísmo ou bondade, não é sobre preceitos cristãos ou nobres sentimentos humanos. É talvez sobre dinheiro e poder. Os botões de punho na camisa do senhor padre alimentam a suspeita.
Talvez, talvez a reportagem padeça da síndroma de Brown, não custa imaginar. No entanto, há questões. O que fazem aqueles botões-de-punho na camisa do senhor padre? Foram lá postos pela revista?
Certos monárquicos, alguns industriais e muitos yuppies adoram botões-de-punho. Padres que se querem mostrar iguais aos outros homens vestem calças de ganga, bebem minis ou jogam à bola. Botões-de-punho não igualizam — distinguem. Distinguem geralmente quem está do lado do dinheiro.

Das virtudes da austeridade, digamos assim

A Ler faz 25 anos e eu deixei de a comprar com regularidade. Não porque me tenha zangado com ela ou a ache supérflua. Também comecei por vezes a mudar de corredor para não passar em frente à Bertrand local. Estou a portar-me bem e a viver de acordo com as minhas posses.

Debate

É certo que ainda tenho Pedro Lomba como um tipo de direita sensato e que, quando o lia há uns anos, apreciava boa parte do que escrevia António Barreto, mas na conjuntura actual pergunto-me o que será um debate com Pedro Lomba e José Manuel Fernandes, moderado por António Barreto.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

As coisas que Francisco Assis evoca

Há uns vinte anos havia eleições e o nosso baterista arranjou um gig, como se diria hoje, para tocarmos num comício que tinha como orador convidado Francisco Assis, então presidente da Câmara de Amarante. Éramos na altura suficientemente generosos para não estranharmos que alguém da nossa idade fosse presidente de câmara. E gostasse de o ser. Não recordo se nos pagavam (espero que sim) e recordo menos ainda o que tocámos, certamente as coisas inadequadas do costume. Andávamos a evitar uma carreira-padrão: não éramos punks, não nos excitava o hard rock ou o heavy metal, os Ramones, os Deep Purple ou os Rolling Stones. Não para emular. Não queríamos aliás imitar nada; a ânsia da originalidade foi talvez o que nos condenou. Ou isso ou uma das mil coisas que fizemos mal. Como subir ao palco do Rock-Rendez-Vous (versão pechisbeque da RTP2) com o percussionista usando o fato de casamento, camisa de folhos, laço blue velvet e tudo. (Eu era o do fato de três peças verde-claro, camisa creme de belo riscado vermelho, gravata rosa, a desafiar com o baixo Epiphone uma turba de teenagers contratados no bas-fond lisboeta, com um tipo da produção a tentar segredar-me sobre o ombro irrequieto, a meio do concerto, câmaras a gravar, que não devia excitar as feras, podia correr mal, os putos gostavam era dos Xutos, não estavam preparados para uma linha trad/folk/urbano/pop/rock/glam/foleira como a que nós acabáramos de inventar. Uma felicidade não existir Youtube.)
Tocar coisas inadequadas não era uma obsessão, um capricho, mas acontecia-nos. Num bar minhoto chamado O Comboio, onde as pessoas se sentavam em reservados, como nas lanchonetes americanas ou no Alfa Pendular, teimámos durante uns quarenta e cinco minutos em apresentar as nossas versões de standards jazz e folk americanos, para tédio geral. Pouco antes do intervalo, demos finalmente alegria à terra quando ao guitarrista lhe ocorreu dedilhar o nome do bar numa alusão pimba (apita o comboio, estão de certeza a ouvir a cena). Era uma ironia, uma piada, mas os clientes adormecidos levaram a coisa a sério: levantaram-se e dançaram, como mortos obedecendo a, digamos, Emanuel (não o Messias). Perante aquilo, o resto da banda teve de acompanhar uma extended version do tema. A segunda parte, se recordo bem (e espero que sim, que o passado se vergue aos interesses da minha memória), preenchemo-la com improvisos minimais repetitivos de Roadhouse Blues — foi a nossa vingança.
No comício, não posso jurar que tenhamos tocado depois de Assis falar, mas o longo discurso da figura empatou-nos de qualquer maneira, ficámos pendentes do seu término, ou para finalmente passarmos vergonha em palco quando já nos tinha passado a bebedeira ou para desmontarmos a aparelhagem. E como ele falou. Não as horas ininterruptas de Castro, mas ainda assim mais do que era humanamente suportável. Desconfio que a maioria dos que assistiram ao comício correu no domingo seguinte a votar no adversário do candidato que ele defendia.
Não é que não acerte — não há muito para discordar no seu artigo de hoje no Público, era este o meu ponto —, mas um tipo arrepia-se só de lhe ouvir o timbre. Para o ler é preciso tapar-lhe a cara e o nome com o polegar. Viram alguém a segurar o jornal assim? Era eu.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Álcool a mais

São três, duas delas de mini-saia, todas de tacões. Madrugada. Cambaleiam um pouco e gritam muito: estão eufóricas, é assim que se exprime o sentimento, tanto quanto sabem. Por vezes ensaiam coros, mas, porque lhes falta o talento ou sobra o álcool, não chegam a dar-lhes corpo, não chegam sequer a decidir-se por hinos desportivos ou canções da moda. Enquanto atravessam a estrada, partem nos paralelos os seus copos ou as suas garrafas de cerveja, como vêem fazer aos rapazes noutras noites. Congratulam-se ruidosamente pelo feito, como se tivessem superado uma prova, acertado num alvo difícil, embora aquilo não lhes tivesse exigido qualquer perícia ou cálculo. Não precisam de méritos ou motivos para celebrar, celebram, é tudo. Do outro lado da estrada há carros parados. Uma delas faz um desvio e, puxando a saia, experimenta levantar a perna, acertar com o tacão num farolim. A gravidade e o chão irrequieto não ajudam. Desiste à terceira tentativa, antes de cair. Contorna então o veículo e, ameaçadora, ataca o espelho lateral com mão bamba. A menos cambaleante das três espreita por cima do ombro e diz «chega» e repete a voz de comando, mas não arrisca desacertar o passo. A primeira insiste, tenta um novo golpe, mas sai-lhe outro safanão frouxo, dos que se dão com piedade a um gato arisco ou a um bebé caprichoso. Talvez receie magoar-se ou a capacidade para golpes firmes já não se lhe equipare à vontade de os aplicar. Urra agora de frustração e depois levanta o queixo, com desdém. Que se foda. Considera-se à mesma vitoriosa, aprendeu que o pode fazer mesmo que não vença nada. Junta-se por fim às outras duas num novo cambalear rua abaixo. O espelho sobrevive.

Se confrontado de manhã com a ameaça a que esteve sujeita a sua propriedade, o dono do automóvel por certo hesitaria entre verberar a bebedeira das raparigas e agradecer a bebedeira das raparigas. Afinal: ia tendo prejuízo devido a álcool a mais ou álcool a mais fora a sua sorte? 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A arte portuguesa a gostar de si própria


Elisa Rodrigues - "Dumb" (com Júlio Resende).


Certa opinião publicada gosta de escarnecer das artes e da vida cultural portuguesas. Aparentemente, não temos produção nem talentos nem circuitos que justifiquem um orgulho nacional e muito menos o investimento de um centavo. Tais juízes têm na mente, é fácil presumir, Shakespeare, Mozart, Rembrandt e talvez Jonh Ford, poucos mais. Como se o estrangeiro fervilhasse de talentos históricos automáticos. Ou como se fora das circunscrições da Broadway, de West End e de Hollywood nada valesse realmente a pena. A arte, para estes árbitros do gosto, não é uma coisa viva, mas um estrato geológico que se apreciaria melhor num museu natural do que em auditórios, teatros, galerias, clubes, bares e antros afins. Por isso, não saem de casa, não se afastam das suas bibliotecas e dos seus CDs e DVDs (ou VHS), a não ser para uma ritual (ou turística) ida aos clássicos a Londres ou a Nova Iorque. Ironicamente, assemelham-se às massas na sua proverbial falta de curiosidade, com a pequena diferença de que as massas têm as televisões e as revistas sociais e a escola a atrofiar-lhes a atenção e o gosto e estas elites induzem a si próprias o ensimesmamento — reivindicando o alto patrocínio da História, como quem atesta a nobreza da família pelos fantasmas que lhe assombram o castelo.
E no entanto bastaria alguma atenção e uma pequena dose de generosidade, de abertura de espírito, para descobrir inúmeras possibilidades de prazer estético no país.
Os opinion makers em apreço estão para a pátria como certas populações para as suas cidades: é o mesmo provincianismo que constrói os dois géneros de passividade e ignorância. E se na província muitas vezes as pessoas partem duma vitimização genética, reflexa para denunciarem que habitam o deserto, o resultado final é que ambos os extractos sociais terminam exibindo com a arrogância dos néscios o seu desprezo pelo que existe e eles ignoram e juram não existir.
Recordo como numa das cidades mais bonitas e turísticas do interior do país, que frequentei, alguns autóctones diziam que aquela era uma terra onde não se passava nada, não havia sequer cinema. Havia (ainda há). Mas eles ignoravam, não procuravam, não estavam atentos, não tinham curiosidade. Havia cinema — e concertos e teatro (com menos frequência ou interesse) —; não havia era multiplex, ou shopping, ou pipocas, essas manifestações de uma outra contemporaneidade. Havia um auditório bem simpático e confortável (com programação comercial e alternativa) que infelizmente era por vezes um pouco prejudicado pela vozearia boçal na rua dos universitários que, não o frequentando, juravam pela sua inexistência, um ou outro fingindo até lamentá-la.
Em muitos lugares da província poucos reconhecem ou participam numa vida cultural interessante, quando ela existe, porque se habituaram a imaginar que isso apenas é possível numa grande cidade — construído e alimentado pelos outros. Como alguns escribas imaginam que uma vida cultural decente só é possível nas grandes capitais europeias — ou em certas épocas históricas do passado. Trata-se de um processo de auto-exclusão, de “boicote”, até, assente em ideias limitadas do que é ou pode ser uma vivência cultural. Trata-se de um processo de absentismo que não favorece o crescimento da oferta e, tantas vezes, promove o seu definhamento.
Quem viaje pela internet (e até há pouco tempo pelo país) munido do seu próprio mapa e de ânimo descobridor, disposto a fruir de experiências e não de preconceitos, pode ter belas surpresas e bons momentos. Portugal tem talentos nas artes suficientes para, se postos a circular, assegurarem um quotidiano interessante à maioria das cidades do país, pelo menos às capitais de distrito. Nos mais diferentes géneros musicais, na dança, no teatro, com as suas múltiplas expressões, nas artes plásticas. Quem, dos muitos que opinam, conhece de facto esta realidade ou está realmente disposto a conhecê-la (ou a reconhecê-la)?
As políticas culturais em Portugal são determinadas por um povo deixado na ignorância e na apatia — e pela idiossincrasia dos influentes. Não estando pessoalmente interessada nos assuntos ou sendo a eles avessa, esta espécie permite-se ainda assim emitir pareceres e estigmas sobre eles. É com este historial e neste ambiente que se espera agora em Portugal que o povo pague bilhete para as artes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Guerra de trincheiras

A dilatória viagem que teimo em fazer por umas duas dezenas de blogues, com diferentes enfoques políticos, é uma rotina demasiadas vezes desoladora. Não é fácil encontrar na blogosfera espíritos independentes, e isso faz-me interrogar se é porque eles quase não existem ou porque a amostra que escolho não é representativa.
Nos dias tristes que vivemos, a opinião está dividida entre os que apoiam e os que são contra. Não esta ou aquela matéria em particular, mas todo o pacote. De repente, não há espaço para concordar ou discordar em parte, concordar com isto e discordar daquilo, achar bem isto, mas também aquilo. A síntese não tem lugar. A opinião deixou de ser antecedida de um menu de onde cada um escolhia os pratos da sua refeição: vem já servida da cozinha e os comensais ou a mastigam vorazmente ou atiram a bandeja à cara do cozinheiro. Não há meio-termo e por vezes nem boas maneiras à mesa. Muitos bloggers, mesmo que apetrechados de argumentos, parecem-se com os tipos que escrevem nas suas caixas de comentários: radicais, indefectíveis, sem paciência para o adversário. A bengalada verbal ocorre amiúde, não no melhor espírito oitocentista romanticamente defendido por João Pereira Coutinho, mas no mais contemporâneo estilo claque de futebol. É, aliás, a camisola o que parece sustentar a opinião que se escreve e não a inteligência, a argúcia, a ponderação.
É assim pouco provável um debate que possa encontrar caminhos diferentes para os anos que nos esperam. Os que são pelo Governo acreditam no milagre da austeridade e não estão dispostos a discutir sequer os pormenores da sua implementação, a coisa é para ir à bruta, sem contemplações, não há nuances, particularidades, equilíbrios ou compromissos que se possam considerar. O tom colérico, moralista ou desdenhoso que adoptam presume uma pureza que despudoradamente se outorgaram. A ironia que por vezes praticam é apenas uma arma de arremesso, não uma ferramenta de auto-avaliação. Levam a sério uma licença para punir e expurgar que os próprios emitiram, com uma autoridade que não se dão ao trabalho de questionar.
Do outro lado, há uma horda reaccionária que está pronta a refutar todas as medidas, a recusar todos os cortes, todas as alterações, todas as reformas, crendo num outro milagre, o da multiplicação dos pães e dos peixes. Uma horda que, na sua inflexível e irresponsável oposição, facilmente emparelha com os interesses das corporações, não se dando conta que a soma de todas os interesses corporativos é o desastre. Aqui o tom é o da guerrilha, da piromania.
Se os primeiros são insensíveis ao sofrimento e às dificuldades individuais, os segundos desvalorizam os malefícios colectivos da revindicação desmesurada, sem critério. O que os primeiros defendem não é sempre estranho à mecânica dos autoritarismos — os segundos brincam levianamente com a anarquia.
Os factos noticiosos são hoje abordados (ou ignorados) de forma a servirem os interesses do juízo preconcebido. Cada facção destaca ou desvaloriza os aspectos que podem servir ou prejudicar a causa. De repente já não é a notícia o que importa mas as partes dela que beneficiam (ou contrariam) o argumento, que nos beatificam ou denigrem o adversário. Não há, aliás, factos: há interpretações e a interpretação das interpretações, a exegese e a crítica da exegese.
Claro que a margem de manobra de Portugal é mínima, mas confrange que o nosso contributo para a resolução da crise tenha o nível argumentativo de um adepto do Benfica, que as balizas do debate sirvam apenas para contabilizar golos das facções e não para perscrutar com seriedade e consequência o futuro. Talvez o capitalismo esteja a precisar de ser repensado — estamos num desses momentos da História — mas em Portugal o que é relevante é a semântica desprezível ou heróica de Passos Coelho e a cartilha que cada um escolheu deste ou daquele momento histórico e que quer à força ver aplicada aos tempos que correm.
O debate entrincheirado esquece que a guerra de trincheiras provou a sua perniciosidade há cem anos. Pretenderá comemorar-lhe o centenário?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Optimismo

Perdemos. Se o governo falha — e, sobretudo, se o governo sai vitorioso.

Resolução

Calar. Assistir. Deixá-los escrever o seu próprio epitáfio. Depois fazer copy/paste para um obituário então fácil de redigir.

Resignação

Esperar. Deixá-los falhar a prova de que têm razão. Depois falharmos nós em sermos o último a rir: não se ri quando entretanto acabam com as razões para isso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Criatividade

Uma das coisas em que a esquerda está prodigamente errada é na crença de que a criatividade teve distribuição abundante e uniforme pelo mundo. Não é um exclusivo seu, mas diria que se empenha particularmente no equívoco. Sob a sua égide, as crianças deixam de ser estimuladas a descobrir uma eventual vocação artística para serem encorajadas a acreditar terem uma vocação. As más consequências disto são várias, e não passam todas pela tortura a que os nossos sentidos são diariamente submetidos.

Com uma infinidade de “talentos” pululando por aí, torna-se difícil definir (e comunicar) o que há de especial num talento, por que devemos admirá-lo, que proveito há (para nós e para a comunidade) em nos submetermos ao dom dos outros. A criatividade tornou-se um assunto relativizável, do âmbito da democracia e do gosto ou opinião maioritários. A qualidade do que se produz é, pois, afectada por este ambiente.

Nas escolas, os miúdos quase deixaram de ser instigados a descobrir a beleza que outros produziram ou produzem. A palavra de ordem é fazer de cada aluno um artista e colocá-lo, literalmente, no palco que supostamente lhe pertence, com cumplicidade e gáudio das famílias. O défice de público em Portugal, com causas anteriores talvez na falta de instrução e na baixa condição económica da comunidade, continuou o seu caminho por aqui. Só a ignorância ou a fé cega podem convencer alguém de que, de tanto frequentarem o palco, as crianças vão gostar de estar na plateia.

Compreendo que para a esquerda (bem, para alguma esquerda) seja difícil aceitar a autoridade, defender a atitude passiva, mas é imperativo ultrapassar o trauma, porque a arte o exige. Não há arte onde todos cantam e ninguém ouve. Não há arte onde todos escrevem e ninguém lê. O que o mundo contemporâneo precisa urgentemente é que se formem leitores e espectadores exigentes, não multidões de “criativos” medíocres e inúteis. As escolas têm de começar a ensinar que os gostos se discutem, ainda que não se imponham; têm de começar a ensinar a ouvir, a ler e a compreender, a ver, a decifrar, a reter informação e a criticar com base no cruzamento de dados e experiências.

É pateticamente comum em Portugal haver “pintores” que não frequentam museus, galerias ou livros de arte; “escritores” que não leram nem tencionam ler; “músicos” que não assistem a concertos a não ser os da moda (por razões sociais e não artísticas); “actores” (e “encenadores”) que não vão ao teatro. A lista continua, mas pode-se resumir: Portugal é um autodidacta fechado à História e ao mundo — ninguém pode esperar dele grandes feitos.

A necessidade de formar público para as artes não tem, por isso, que ver com o interesse dos artistas, mas com o interesse da sociedade e de cada pessoa em particular. Um público instruído, curioso, crítico, participativo e exigente eleva o nível da criatividade nacional, com óbvio proveito para si próprio — e com possibilidades de osmose em relação a outras áreas, como a política e a economia. Na ausência de riquezas como petróleo ou diamantes, ou de uma providencial (e improvável) indústria, um país não pode esperar desenvolver-se com massas impreparadas e estupidamente convencidas de talentos que não têm.

A Secretaria de Estado da Cultura e o Ministério da Educação, se querem fazer alguma coisa, podem começar por desfazer este equívoco.

A política é talvez mais para palhaçadas

«…não se pode fazer política com coisas tão sérias».
Miguel Relvas

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mais blogues

Adicionei um novo blogue à lista, um dos bons. O Acordo Fotográfico mostra-nos pessoas a ler, mas não se fica por aí: fala delas e dos respectivos livros, da circunstância da fotografia. Poderia ser uma compilação de raridades, de resistentes em tempo de guerra, e já era bom. Mas a autora diz que não, diz que «há cada vez mais gente a ler», e nós sentimos uma súbita esperança.

E porque este blogue me lembrou a série «Leituras em lugares públicos», do Alexandre Andrade, recuperei também o umblogsobrekleist, injustamente esquecido quando o Canhões regressou à vida.

Foi um dia bom, este.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Carnaval

O ócio é uma aspiração antiga e legítima da humanidade. Certas etapas do progresso tecnológico foram aliás propagandeadas como sendo libertadoras do homem. O capitalismo, até há pouco tempo o pior sistema com excepção de todos os outros, foi progressivamente piorando a sua capacidade de lidar com esta aspiração, vindo até a estranhar e a recusar o conceito.

Parece mais ou menos evidente, para quem tenha uma ideia positiva para o destino da humanidade, que o ócio não deveria ser tratado com desprezo, como infelizmente é por algumas pessoas — quando tratam, claro, do ócio dos outros.

O ócio pode, evidentemente, ser reduzido (ou, no limite, suspenso) quando as circunstâncias a isso obrigam. Mas não deve desaparecer do horizonte filosófico e político, e muito menos ser ilegitimado, diabolizado, censurado como um capricho ou um vício desprezível da humanidade.

Isto dito, é bom recordar que a folga no Carnaval é uma tolerância, não um feriado instituído. Esta é uma altura em que o bom senso nos diz que a tolerância deve ser levantada. O recurso intensivo à indulgência não devia dar uma nova semântica as palavras, instituir pela tradição o que não está instituído pela legislação. De momento, precisamos de trabalhar — para estarmos no futuro de novo em condições de reclamar e aumentar o nosso direito ao ócio, por mais que isso venha a desagradar aos donos da economia.

Velhas tradições

Passos Coelho disse que manter a folga no Carnaval era ficar «agarrado a velhas tradições». Esperemos que em relação a outros assuntos que exigem igualmente desvalorizar «velhas tradições» ele mantenha este espírito progressista.

Das virtudes do jogging

O prédio foi hoje visitado por missionários, não sei de quê fé. Sei apenas que não eram da religião capitalista: as imagens que espreitavam nos folhetos, que vi enfiados debaixo da porta de cada apartamento enquanto subia as escadas, não eram publicidade a bens de consumo ou a superficialidades imprescindíveis: eram cruzes.
Tinha-os avistado na rua; deve ter havido um encontro, eram algumas dezenas e eram inconfundíveis. Com as suas pastas, os seus trajes formais, gravata, gabardina, vestidos sóbrios e, nalguns casos, chapéus, pareciam-se com vendedores de tupperwares numa convenção dos anos 50 americanos, o mesmo sorriso, o mesmo sentido de grupo e de missão. No entanto, como estamos em Portugal, anos 10 do século XXI, e como já não é Natal, aqueles atavios e aquele ar beatífico só podiam significar gente recrutada pelo divino.
Subi as escadas com certa ligeireza, duas a duas, como se me empurrassem para cima, com dedos de veludo, os anjos do Senhor. O meu espírito estava enlevado, eu sorria, a vaga de frio tinha passado e o fim de tarde parecia de Primavera. Estava com o astral que Paulo ganhou quando, na estrada de Damasco, viu, não as tropas de Bashar al-Assad, mas a luz que o cegou. Cheguei à entrada de casa e notei com um sorriso reforçado que o meu era o único apartamento sem literatura evangélica.

Além da virtude, há que louvar aos missionários a perspicácia. Não por terem poupado um folheto ao perceberem ser esta a casa de um iconoclasta — mas por se terem dado conta que o inquilino saíra para fazer jogging. É que um homem ganha o seu estado de graça e a sua leveza espiritual (pelo menos esta) quando corre doze quilómetros — dispensa nessa altura outras bênçãos.

Estatística dos proselitismos

Não se leia no post acima desdém em relação às Testemunhas de Jeová ou aos Mórmons. Pelo menos não mais do que em relação aos católicos ortodoxos e a outras espécies proselitistas. Se puder julgar pela minha experiência, aqueles enviados de Deus são geralmente mais afáveis e não mais insistentes do que os vendedores de seguros, de produtos bancários e de pacotes de chamadas para telemóveis. E são mais inofensivos: a eles não os podemos acusar de qualquer responsabilidade na crise.
É certo que, como o Mestre Karamba, nem sempre respeitam o dístico publicidade não solicitada aqui não, obrigado, mas são bem menos insistentes do que os postilhões das superfícies comerciais, dos stands automóveis e até do que a propaganda municipal. A tradicional alergia às suas visitas é, portanto, preconceituosa, contra a liberdade religiosa — e sobretudo ignorante das estatísticas. 

Uma canção contra o tédio

Uma banda punk cá do burgo cantava há anos uma letra que reescrevia o poema de Augusto Gil, mas cujo humor precisa de ser actualizado. Rezava mais ou menos assim: Batem leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Oh c…... São Testemunhas de Jeová!
A visita mais temida nos lares portugueses é agora a do inspector das finanças ou do administrador de insolvência, mas se a questão é o tédio, talvez a letra devesse esquecer os pobres missionários e adaptar-se aos novos moralistas, os que andam por aí na blogosfera e na imprensa, ataviados com o seu luteranismo luso, a tentar convencer-nos de que na última década habitámos Sodoma e Gomorra. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Domingo desportivo III

A ideia era por aqui o video, mas o que me interessava mostrou-se sucessivamente resistente ao meu saber tecnológico e a paciência esgotou-se. Fica aqui o link.

Vocação para ler

Quando tudo nos falha na vida, resta-nos sempre o talento dos outros. Se escrevesse um livro de auto-ajuda, seria esta a lição que eu transmitiria. Um lição inexacta, contudo.
Desde cedo alimentei indecisas ambições artísticas. E também cedo aprendi a definir-me, antes de mais, como alguém que assiste ao que os outros criam. Isto não foi o prémio de consolação que atribuí aos meus escassos talentos, mas a consciência de que me vinha mais prazer do acto de ler, ver ou ouvir do que de “criar”. Mesmo agora, quando a escrita me recruta quotidianamente, me comprazo em saber que um livro me aguarda com paciência na mesa-de-cabeceira. Não porque tema falhar e precisar de conforto nas palavras dos outros, mas porque estou ciente da minha vocação para ler. O talento dos outros não é, afinal, uma panaceia para o mal d’être, mas o território onde as nossas próprias aptidões se exercem e exercitam. Assistir é viver.

Vasco Graça Moura e a arte contemporânea

Vasco Graça Moura, conhecido opositor dos subsídios à arte “contemporânea”, escreveu para o S. Carlos o libreto da ópera Banksters, inspirado na peça Jacob e o Anjo, de José Régio. A ópera (de Nuno Côrte-Real, encenada por João Botelho) foi levada ao palco presumo que com dinheiro público, mas acredito que VGM, fiel aos seus princípios, não tenha cobrado um tostão pelo libreto.

Aparentemente, se um texto for escrito para o género “ópera” não é considerado criação contemporânea, mesmo que a ópera seja encenada à “moderna”, com música de um autor ligeiramente mais novo do que Rossini, digamos assim. Talvez a ousadia criativa do nosso tempo seja admitida se se submeter aos géneros clássicos*. Afinal, o que importa não é a qualidade da obra, mas a gaveta onde se pode arrumar. Não importa se Nuno Côrte-Real é inferior a Mozart — importa que escreveu uma ópera. Não importa se Vasco Graça Moura é inferior a Martin McDonagh ou a Jacinto Lucas Pires — importa que escreveu um libreto. Um libreto cujas personagens, aliás, se chamavam Angelino Rigoletto, Santiago Malpago e Mimi Kitsch.

*Desconfio que não, desconfio que ainda teria de passar pelo crivo do gosto de VGM.

Adenda

Se a Secretaria de Estado da Cultura, citada nesta notícia do I, estiver certa (e espero que esteja), o meu post anterior perde uma parte da sua razão. Salvam-se contudo as considerações sobre o métier opinativo em Portugal. Era assim antes, é assim agora.

A instituição sou eu

As pessoas concordam com a resistência de Vasco Graça Moura ao acordo ortográfico e por isso aclamam-no. À direita, transformam-no mesmo em herói. Estão dispostas a passar por cima da irregularidade da sua decisão no CCB.

É assim que se constrói opinião em Portugal. As acções estão certas ou erradas de acordo com a ideia que as inspira e aquilo que pensamos dela. Os fins justificam os meios, se forem os nossos fins. Não há espaço para leis, normas, procedimentos, ética, deontologia, razoabilidade, divergência, prudência, nada. A nossa opinião (e dos nossos compadres) é a baliza final, ela determina o valor das coisas, certifica a sua conformidade. As leis, as normas, a ética apenas têm valor se precisarmos que elas integrem o nosso arsenal argumentativo, quando a opinião parece não nos ser suficiente. Mas se for o adversário a invocá-las, de pronto as desvalorizamos. Agir à margem delas é legítimo para os nossos correligionários — e é inadmissível para os nossos oponentes.

O cidadão comum habitua-se a estes modos tão ligeiramente adoptados por políticos, dirigentes e opinion makers. Como esperar dele respeito pela justiça ou pela política? Nestas condições, surpreenderia que o povo português tivesse um perfil cívico exemplar. Significaria que as pessoas se regiam por valores não partilhados pelas elites do poder e por aqueles que as sustentam nos jornais e nos blogues. Significaria também um contra-senso: um povo capaz de reconhecer e recusar para si a iniquidade mas desinteressado de a derrubar dos círculos influentes.

Temos uma elite opinativa demasiado contaminada pela clubite futebolística. Talvez porque muitos dos seus membros são também frequentes comentadores desportivos. Por alguma razão — inadvertência ou talvez fraqueza de espírito —, esta gente perde referências e julga-se permanentemente no terreno da paixão futebolística, onde, por jovial estupidez, se convencionou poder suspender-se a razão e a inteligência e se erigiu como máxima definição de carácter o amor camisola.

Em entrevista de véspera ao Público, Vasco Graça Moura deu sinais de sensatez ao dizer que a sua opinião pessoal sobre as artes seria subordinada ao superior desígnio da entidade que ia dirigir*. Neste contexto, a sua decisão sobre o acordo ortográfico é contraditória e permite-nos desconfiar com certa legitimidade de como será o seu mandato à frente do CCB também no que respeita à estratégia de programação. Depois desta atitude, só podemos temer que a instituição será ele.

P. S. Para que conste, sou contra o acordo ortográfico, e toda a desobediência civil neste caso me parece muito bem-vinda. Também será para mim bem-vindo todo o esforço que, depois de acatar as regras da democracia, Graça Moura faça junto do seu governo para que este promova a suspensão do acordo.

* Basicamente, foram declarações preventivas. VGM quis evitar que a controvérsia emperrasse desde o início o funcionamento da instituição e o impedisse de brilhar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Acontece

Leio a crónica da última página do jornal de hoje e estranho: o JN mudou de grafismo? Pouco provável. Coço a cabeça: o Manuel António mudou-se para o Público? Não. É o Vasco a ter razão completa. Também lhe acontece.

Depois do futuro, com o passado nos iludimos

Alguns procuram nas memórias da infância e da adolescência — quando elas têm mais de vinte e cinco anos — alívio ou uma forma de relativizar os problemas que aí vêm. Suponho que os afortunados de antes são os optimistas de agora. Também tenho a minha versão de infância feliz, pobrete mas alegrete. Escrevi episódios de uma epopeia dessas na anterior vida do Canhões. A espaços, conto-os de novo, quando reparto pão e vinho (mais pão do que vinho, que a generosidade tem limites) nas agora raras despreocupadas ceias de condiscípulos. Depois dos factos, somos (quase) sempre capazes de assobiar e ver o lado brilhante da vida. Se por vezes relatamos tragédias é apenas para aumentar o contraste dos momentos bons. Como quando saímos da tropa, fanfarrões, as agruras e a humilhação a servirem para dar o tom heróico aos quinze meses de aquartelamento. Nas nossas narrativas, o drama é, por inversão, o palhaço rico que apenas existe para fazer brilhar o palhaço pobre — que, naturalmente, é o mais feliz dos dois.

Acontece o mesmo com a evocação do mundo rural. A singeleza, os bons sentimentos, a solidariedade, o ar puro, a honestidade, a franqueza, os dias a decorrer ao ritmo natural, a confiança, o amanhecer e o pôr-do-sol, o sol a pino e a três quartos, e a chuva purificadora e a neve imaculada e o murmúrio do vento nas searas de trigo ou no veludo das parras em Agosto ou nas coloridas folhas outonais. Nunca a lama e as frieiras e o uivo sinistro e cortante da nortada nas frinchas das paredes e do tecto e os alguidares a apanharem as pingas e os cobertores da cama inteiriçados pela geada (e os percevejos e os ratos) e os pés enfiados em sacos de plástico para impermeabilizar as botas furadas e as camisolas sempre curtas ou rotas ou insuficientes, os casacos largos, feios, constrangedores, igualmente rotos ou sujos, ferrete da condição inferior; nunca a estreiteza de horizontes, a rédea curta da ambição, a renúncia do sonho, o atrofio da vocação. Ou tudo isto, sim, tudo isto quando precisamos de azul para o oiro da retórica.
O mundo rural, se invocado de memória, é o paraíso na terra — apenas um pouco condimentado, para lhe requintar o sabor. Não se percebe como as pessoas, aqui como ao redor do mundo, teimam em abandoná-lo. Mesmo os que assim idílico o recordam, ameaçando poeticamente um regresso às origens que, na verdade, não querem corporizar, a não ser no bom tempo ou num monte alentejano com piscina, num financiado turismo rural com piscina, no velho solar recuperado, melhorado — e dotado de piscina.

Usando um apelo muito em voga, o mundo rural e a maior parte das infâncias precisam de um Correio da Manhã para nos revelar que o passado, como a índole lusitana, é menos bondoso do que gostamos de crer. É apenas lindo na nossa memória facciosa e em admiráveis páginas de literatura. Nas melhores destas, a beleza que experimentamos é intrínseca à obra, não ao que ela ficciona. É por isso que quando queremos mesmo sentir o passado devemos talvez ler relatórios, estatísticas, correspondência e diários de cidadãos comuns, inventários, registos — e não sentarmo-nos melancolicamente a recordar ou a ler romances.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vasco, o retratista

Consta por aí (uma simpática leitora até me escreveu a informar disso) que em três pinceladas Vasco Pulido Valente pintou no Público o retrato certeiro e definitivo do Portugal recente — com o nobre intuito de fazer o enterro do socialismo. Um reverente blogue de direita reuniu as palavras sagradas num post que pode ser lido neste link. (A direita sempre precisou de um papa, e em Portugal a oferta aumentou exponencialmente nos últimos tempos, mas algumas almas fascinadas parecem tê-lo encontrado sobretudo na encantadora figura do decano cronista.)

Despertado na minha caverna pelo correio amável que me enviaram, lá fui eu ler a trilogia pulidiana “Esquerda e direita”, prometendo a mim próprio não voltar a embirrar com o homem. Em vão.
Como retratista, Vasco não usa a paleta toda, pelo que as suas telas resultam um pouco artificiais. Aquilo é real, sabemos penosamente que sim, o autor tem talento para o desenho. Mas, como recusa uma mais plausível prolixidade cromática nos acabamentos, a obra parece velada por uma fina gaze, como se o mestre pusesse um filtro à frente do olho que deita ao modelo. Num relance, chega a parecer uma daquelas gravuras vendidas em lojas de decoração que apostam numa limitada gama de cores: uma serra em escala de azuis, o pôr-do-sol em escala de laranjas, estão a ver o género.

Sem piedade, a trilogia conclui que o socialismo (ou a social-democracia) foi responsável pela crise nacional e europeia — e o Estado Social foi o seu instrumento. Ora, os americanos, mormente a feroz percentagem republicana deles, parecem não concordar. Começam, aliás, por não concordar que exista uma crise europeia. Parece, diz-se na campanha republicana, que a pátria da liberdade (e da recusa do Estado Social) está terrivelmente endividada, tem um défice preocupante, cresce menos do que desejaria, entrará provavelmente em recessão, vê o desemprego aumentar com perigo para a estabilidade social, etc. Os sintomas, dirão eles para proteger o orgulho ianque, são “europeus”, agravados por um presidente “socialista”. Mas nós sabemos o quão socialista Obama tem podido ser, e como a economia americana divergiu profundamente da sua ortodoxia.

O retrato pulidesco tem assim, talvez, de ser retocado — antes que os óleos sequem. (Depois disso, só uma equipa de restauradores do Louvre o poderá fazer, e nós não temos assim tanto tempo para esperar.) Se eu próprio não tivesse abandonado os pincéis e o atrevimento, propunha portanto ao insigne artista que matizasse a sua tela com uma das duas seguintes cores (ou ambas):

1) Talvez não tenha sido a social-democracia a falhar, mas o próprio capitalismo, tal como posto em prática;
2) O despesismo, a corrupção, a incompetência da máquina fiscal, a mitigada redistribuição de rendimentos, a especulação financeira, etc. são em si responsáveis pela crise, independentemente do sistema em que ocorrem.

(Quando se pinta um retrato de uma entidade viva, convinha, de resto, não esquecer 2008. A elipse foi uma figura de estilo inventada por Estaline para a fotografia, não para a pintura.)

Claro que o pulido cronista, quando isso não lhe atrapalha a argumentação para uso no flagelo doméstico, estende o problema ao Ocidente inteiro, sem que então lhe interesse assim tanto distinguir sistemas. Ou seja, para ele a peçonha é, consoante os dias, uma particularidade da Europa (que tem no socialismo e em Portugal os seus mais desprezíveis cultores) ou do Ocidente inteiro (se a prosa tiver uma ambição mais universal e exacta e menos luso-moralista). De uma forma ou doutra (e aqui não se engana nada), a crise é dos países que tiveram preocupações com o bem-estar dos cidadãos. Daí alguma direita (não só ela) andar agora fascinada com a China, esse sábio sistema que aproveita o melhor do capitalismo sem se tornar sentimental. Os sentimentos sempre foram um empecilho quando se trata de criar riqueza. Para alguns.