quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Álcool a mais

São três, duas delas de mini-saia, todas de tacões. Madrugada. Cambaleiam um pouco e gritam muito: estão eufóricas, é assim que se exprime o sentimento, tanto quanto sabem. Por vezes ensaiam coros, mas, porque lhes falta o talento ou sobra o álcool, não chegam a dar-lhes corpo, não chegam sequer a decidir-se por hinos desportivos ou canções da moda. Enquanto atravessam a estrada, partem nos paralelos os seus copos ou as suas garrafas de cerveja, como vêem fazer aos rapazes noutras noites. Congratulam-se ruidosamente pelo feito, como se tivessem superado uma prova, acertado num alvo difícil, embora aquilo não lhes tivesse exigido qualquer perícia ou cálculo. Não precisam de méritos ou motivos para celebrar, celebram, é tudo. Do outro lado da estrada há carros parados. Uma delas faz um desvio e, puxando a saia, experimenta levantar a perna, acertar com o tacão num farolim. A gravidade e o chão irrequieto não ajudam. Desiste à terceira tentativa, antes de cair. Contorna então o veículo e, ameaçadora, ataca o espelho lateral com mão bamba. A menos cambaleante das três espreita por cima do ombro e diz «chega» e repete a voz de comando, mas não arrisca desacertar o passo. A primeira insiste, tenta um novo golpe, mas sai-lhe outro safanão frouxo, dos que se dão com piedade a um gato arisco ou a um bebé caprichoso. Talvez receie magoar-se ou a capacidade para golpes firmes já não se lhe equipare à vontade de os aplicar. Urra agora de frustração e depois levanta o queixo, com desdém. Que se foda. Considera-se à mesma vitoriosa, aprendeu que o pode fazer mesmo que não vença nada. Junta-se por fim às outras duas num novo cambalear rua abaixo. O espelho sobrevive.

Se confrontado de manhã com a ameaça a que esteve sujeita a sua propriedade, o dono do automóvel por certo hesitaria entre verberar a bebedeira das raparigas e agradecer a bebedeira das raparigas. Afinal: ia tendo prejuízo devido a álcool a mais ou álcool a mais fora a sua sorte? 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A arte portuguesa a gostar de si própria


Elisa Rodrigues - "Dumb" (com Júlio Resende).


Certa opinião publicada gosta de escarnecer das artes e da vida cultural portuguesas. Aparentemente, não temos produção nem talentos nem circuitos que justifiquem um orgulho nacional e muito menos o investimento de um centavo. Tais juízes têm na mente, é fácil presumir, Shakespeare, Mozart, Rembrandt e talvez Jonh Ford, poucos mais. Como se o estrangeiro fervilhasse de talentos históricos automáticos. Ou como se fora das circunscrições da Broadway, de West End e de Hollywood nada valesse realmente a pena. A arte, para estes árbitros do gosto, não é uma coisa viva, mas um estrato geológico que se apreciaria melhor num museu natural do que em auditórios, teatros, galerias, clubes, bares e antros afins. Por isso, não saem de casa, não se afastam das suas bibliotecas e dos seus CDs e DVDs (ou VHS), a não ser para uma ritual (ou turística) ida aos clássicos a Londres ou a Nova Iorque. Ironicamente, assemelham-se às massas na sua proverbial falta de curiosidade, com a pequena diferença de que as massas têm as televisões e as revistas sociais e a escola a atrofiar-lhes a atenção e o gosto e estas elites induzem a si próprias o ensimesmamento — reivindicando o alto patrocínio da História, como quem atesta a nobreza da família pelos fantasmas que lhe assombram o castelo.
E no entanto bastaria alguma atenção e uma pequena dose de generosidade, de abertura de espírito, para descobrir inúmeras possibilidades de prazer estético no país.
Os opinion makers em apreço estão para a pátria como certas populações para as suas cidades: é o mesmo provincianismo que constrói os dois géneros de passividade e ignorância. E se na província muitas vezes as pessoas partem duma vitimização genética, reflexa para denunciarem que habitam o deserto, o resultado final é que ambos os extractos sociais terminam exibindo com a arrogância dos néscios o seu desprezo pelo que existe e eles ignoram e juram não existir.
Recordo como numa das cidades mais bonitas e turísticas do interior do país, que frequentei, alguns autóctones diziam que aquela era uma terra onde não se passava nada, não havia sequer cinema. Havia (ainda há). Mas eles ignoravam, não procuravam, não estavam atentos, não tinham curiosidade. Havia cinema — e concertos e teatro (com menos frequência ou interesse) —; não havia era multiplex, ou shopping, ou pipocas, essas manifestações de uma outra contemporaneidade. Havia um auditório bem simpático e confortável (com programação comercial e alternativa) que infelizmente era por vezes um pouco prejudicado pela vozearia boçal na rua dos universitários que, não o frequentando, juravam pela sua inexistência, um ou outro fingindo até lamentá-la.
Em muitos lugares da província poucos reconhecem ou participam numa vida cultural interessante, quando ela existe, porque se habituaram a imaginar que isso apenas é possível numa grande cidade — construído e alimentado pelos outros. Como alguns escribas imaginam que uma vida cultural decente só é possível nas grandes capitais europeias — ou em certas épocas históricas do passado. Trata-se de um processo de auto-exclusão, de “boicote”, até, assente em ideias limitadas do que é ou pode ser uma vivência cultural. Trata-se de um processo de absentismo que não favorece o crescimento da oferta e, tantas vezes, promove o seu definhamento.
Quem viaje pela internet (e até há pouco tempo pelo país) munido do seu próprio mapa e de ânimo descobridor, disposto a fruir de experiências e não de preconceitos, pode ter belas surpresas e bons momentos. Portugal tem talentos nas artes suficientes para, se postos a circular, assegurarem um quotidiano interessante à maioria das cidades do país, pelo menos às capitais de distrito. Nos mais diferentes géneros musicais, na dança, no teatro, com as suas múltiplas expressões, nas artes plásticas. Quem, dos muitos que opinam, conhece de facto esta realidade ou está realmente disposto a conhecê-la (ou a reconhecê-la)?
As políticas culturais em Portugal são determinadas por um povo deixado na ignorância e na apatia — e pela idiossincrasia dos influentes. Não estando pessoalmente interessada nos assuntos ou sendo a eles avessa, esta espécie permite-se ainda assim emitir pareceres e estigmas sobre eles. É com este historial e neste ambiente que se espera agora em Portugal que o povo pague bilhete para as artes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Guerra de trincheiras

A dilatória viagem que teimo em fazer por umas duas dezenas de blogues, com diferentes enfoques políticos, é uma rotina demasiadas vezes desoladora. Não é fácil encontrar na blogosfera espíritos independentes, e isso faz-me interrogar se é porque eles quase não existem ou porque a amostra que escolho não é representativa.
Nos dias tristes que vivemos, a opinião está dividida entre os que apoiam e os que são contra. Não esta ou aquela matéria em particular, mas todo o pacote. De repente, não há espaço para concordar ou discordar em parte, concordar com isto e discordar daquilo, achar bem isto, mas também aquilo. A síntese não tem lugar. A opinião deixou de ser antecedida de um menu de onde cada um escolhia os pratos da sua refeição: vem já servida da cozinha e os comensais ou a mastigam vorazmente ou atiram a bandeja à cara do cozinheiro. Não há meio-termo e por vezes nem boas maneiras à mesa. Muitos bloggers, mesmo que apetrechados de argumentos, parecem-se com os tipos que escrevem nas suas caixas de comentários: radicais, indefectíveis, sem paciência para o adversário. A bengalada verbal ocorre amiúde, não no melhor espírito oitocentista romanticamente defendido por João Pereira Coutinho, mas no mais contemporâneo estilo claque de futebol. É, aliás, a camisola o que parece sustentar a opinião que se escreve e não a inteligência, a argúcia, a ponderação.
É assim pouco provável um debate que possa encontrar caminhos diferentes para os anos que nos esperam. Os que são pelo Governo acreditam no milagre da austeridade e não estão dispostos a discutir sequer os pormenores da sua implementação, a coisa é para ir à bruta, sem contemplações, não há nuances, particularidades, equilíbrios ou compromissos que se possam considerar. O tom colérico, moralista ou desdenhoso que adoptam presume uma pureza que despudoradamente se outorgaram. A ironia que por vezes praticam é apenas uma arma de arremesso, não uma ferramenta de auto-avaliação. Levam a sério uma licença para punir e expurgar que os próprios emitiram, com uma autoridade que não se dão ao trabalho de questionar.
Do outro lado, há uma horda reaccionária que está pronta a refutar todas as medidas, a recusar todos os cortes, todas as alterações, todas as reformas, crendo num outro milagre, o da multiplicação dos pães e dos peixes. Uma horda que, na sua inflexível e irresponsável oposição, facilmente emparelha com os interesses das corporações, não se dando conta que a soma de todas os interesses corporativos é o desastre. Aqui o tom é o da guerrilha, da piromania.
Se os primeiros são insensíveis ao sofrimento e às dificuldades individuais, os segundos desvalorizam os malefícios colectivos da revindicação desmesurada, sem critério. O que os primeiros defendem não é sempre estranho à mecânica dos autoritarismos — os segundos brincam levianamente com a anarquia.
Os factos noticiosos são hoje abordados (ou ignorados) de forma a servirem os interesses do juízo preconcebido. Cada facção destaca ou desvaloriza os aspectos que podem servir ou prejudicar a causa. De repente já não é a notícia o que importa mas as partes dela que beneficiam (ou contrariam) o argumento, que nos beatificam ou denigrem o adversário. Não há, aliás, factos: há interpretações e a interpretação das interpretações, a exegese e a crítica da exegese.
Claro que a margem de manobra de Portugal é mínima, mas confrange que o nosso contributo para a resolução da crise tenha o nível argumentativo de um adepto do Benfica, que as balizas do debate sirvam apenas para contabilizar golos das facções e não para perscrutar com seriedade e consequência o futuro. Talvez o capitalismo esteja a precisar de ser repensado — estamos num desses momentos da História — mas em Portugal o que é relevante é a semântica desprezível ou heróica de Passos Coelho e a cartilha que cada um escolheu deste ou daquele momento histórico e que quer à força ver aplicada aos tempos que correm.
O debate entrincheirado esquece que a guerra de trincheiras provou a sua perniciosidade há cem anos. Pretenderá comemorar-lhe o centenário?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Optimismo

Perdemos. Se o governo falha — e, sobretudo, se o governo sai vitorioso.

Resolução

Calar. Assistir. Deixá-los escrever o seu próprio epitáfio. Depois fazer copy/paste para um obituário então fácil de redigir.

Resignação

Esperar. Deixá-los falhar a prova de que têm razão. Depois falharmos nós em sermos o último a rir: não se ri quando entretanto acabam com as razões para isso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Criatividade

Uma das coisas em que a esquerda está prodigamente errada é na crença de que a criatividade teve distribuição abundante e uniforme pelo mundo. Não é um exclusivo seu, mas diria que se empenha particularmente no equívoco. Sob a sua égide, as crianças deixam de ser estimuladas a descobrir uma eventual vocação artística para serem encorajadas a acreditar terem uma vocação. As más consequências disto são várias, e não passam todas pela tortura a que os nossos sentidos são diariamente submetidos.

Com uma infinidade de “talentos” pululando por aí, torna-se difícil definir (e comunicar) o que há de especial num talento, por que devemos admirá-lo, que proveito há (para nós e para a comunidade) em nos submetermos ao dom dos outros. A criatividade tornou-se um assunto relativizável, do âmbito da democracia e do gosto ou opinião maioritários. A qualidade do que se produz é, pois, afectada por este ambiente.

Nas escolas, os miúdos quase deixaram de ser instigados a descobrir a beleza que outros produziram ou produzem. A palavra de ordem é fazer de cada aluno um artista e colocá-lo, literalmente, no palco que supostamente lhe pertence, com cumplicidade e gáudio das famílias. O défice de público em Portugal, com causas anteriores talvez na falta de instrução e na baixa condição económica da comunidade, continuou o seu caminho por aqui. Só a ignorância ou a fé cega podem convencer alguém de que, de tanto frequentarem o palco, as crianças vão gostar de estar na plateia.

Compreendo que para a esquerda (bem, para alguma esquerda) seja difícil aceitar a autoridade, defender a atitude passiva, mas é imperativo ultrapassar o trauma, porque a arte o exige. Não há arte onde todos cantam e ninguém ouve. Não há arte onde todos escrevem e ninguém lê. O que o mundo contemporâneo precisa urgentemente é que se formem leitores e espectadores exigentes, não multidões de “criativos” medíocres e inúteis. As escolas têm de começar a ensinar que os gostos se discutem, ainda que não se imponham; têm de começar a ensinar a ouvir, a ler e a compreender, a ver, a decifrar, a reter informação e a criticar com base no cruzamento de dados e experiências.

É pateticamente comum em Portugal haver “pintores” que não frequentam museus, galerias ou livros de arte; “escritores” que não leram nem tencionam ler; “músicos” que não assistem a concertos a não ser os da moda (por razões sociais e não artísticas); “actores” (e “encenadores”) que não vão ao teatro. A lista continua, mas pode-se resumir: Portugal é um autodidacta fechado à História e ao mundo — ninguém pode esperar dele grandes feitos.

A necessidade de formar público para as artes não tem, por isso, que ver com o interesse dos artistas, mas com o interesse da sociedade e de cada pessoa em particular. Um público instruído, curioso, crítico, participativo e exigente eleva o nível da criatividade nacional, com óbvio proveito para si próprio — e com possibilidades de osmose em relação a outras áreas, como a política e a economia. Na ausência de riquezas como petróleo ou diamantes, ou de uma providencial (e improvável) indústria, um país não pode esperar desenvolver-se com massas impreparadas e estupidamente convencidas de talentos que não têm.

A Secretaria de Estado da Cultura e o Ministério da Educação, se querem fazer alguma coisa, podem começar por desfazer este equívoco.

A política é talvez mais para palhaçadas

«…não se pode fazer política com coisas tão sérias».
Miguel Relvas

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mais blogues

Adicionei um novo blogue à lista, um dos bons. O Acordo Fotográfico mostra-nos pessoas a ler, mas não se fica por aí: fala delas e dos respectivos livros, da circunstância da fotografia. Poderia ser uma compilação de raridades, de resistentes em tempo de guerra, e já era bom. Mas a autora diz que não, diz que «há cada vez mais gente a ler», e nós sentimos uma súbita esperança.

E porque este blogue me lembrou a série «Leituras em lugares públicos», do Alexandre Andrade, recuperei também o umblogsobrekleist, injustamente esquecido quando o Canhões regressou à vida.

Foi um dia bom, este.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Carnaval

O ócio é uma aspiração antiga e legítima da humanidade. Certas etapas do progresso tecnológico foram aliás propagandeadas como sendo libertadoras do homem. O capitalismo, até há pouco tempo o pior sistema com excepção de todos os outros, foi progressivamente piorando a sua capacidade de lidar com esta aspiração, vindo até a estranhar e a recusar o conceito.

Parece mais ou menos evidente, para quem tenha uma ideia positiva para o destino da humanidade, que o ócio não deveria ser tratado com desprezo, como infelizmente é por algumas pessoas — quando tratam, claro, do ócio dos outros.

O ócio pode, evidentemente, ser reduzido (ou, no limite, suspenso) quando as circunstâncias a isso obrigam. Mas não deve desaparecer do horizonte filosófico e político, e muito menos ser ilegitimado, diabolizado, censurado como um capricho ou um vício desprezível da humanidade.

Isto dito, é bom recordar que a folga no Carnaval é uma tolerância, não um feriado instituído. Esta é uma altura em que o bom senso nos diz que a tolerância deve ser levantada. O recurso intensivo à indulgência não devia dar uma nova semântica as palavras, instituir pela tradição o que não está instituído pela legislação. De momento, precisamos de trabalhar — para estarmos no futuro de novo em condições de reclamar e aumentar o nosso direito ao ócio, por mais que isso venha a desagradar aos donos da economia.

Velhas tradições

Passos Coelho disse que manter a folga no Carnaval era ficar «agarrado a velhas tradições». Esperemos que em relação a outros assuntos que exigem igualmente desvalorizar «velhas tradições» ele mantenha este espírito progressista.

Das virtudes do jogging

O prédio foi hoje visitado por missionários, não sei de quê fé. Sei apenas que não eram da religião capitalista: as imagens que espreitavam nos folhetos, que vi enfiados debaixo da porta de cada apartamento enquanto subia as escadas, não eram publicidade a bens de consumo ou a superficialidades imprescindíveis: eram cruzes.
Tinha-os avistado na rua; deve ter havido um encontro, eram algumas dezenas e eram inconfundíveis. Com as suas pastas, os seus trajes formais, gravata, gabardina, vestidos sóbrios e, nalguns casos, chapéus, pareciam-se com vendedores de tupperwares numa convenção dos anos 50 americanos, o mesmo sorriso, o mesmo sentido de grupo e de missão. No entanto, como estamos em Portugal, anos 10 do século XXI, e como já não é Natal, aqueles atavios e aquele ar beatífico só podiam significar gente recrutada pelo divino.
Subi as escadas com certa ligeireza, duas a duas, como se me empurrassem para cima, com dedos de veludo, os anjos do Senhor. O meu espírito estava enlevado, eu sorria, a vaga de frio tinha passado e o fim de tarde parecia de Primavera. Estava com o astral que Paulo ganhou quando, na estrada de Damasco, viu, não as tropas de Bashar al-Assad, mas a luz que o cegou. Cheguei à entrada de casa e notei com um sorriso reforçado que o meu era o único apartamento sem literatura evangélica.

Além da virtude, há que louvar aos missionários a perspicácia. Não por terem poupado um folheto ao perceberem ser esta a casa de um iconoclasta — mas por se terem dado conta que o inquilino saíra para fazer jogging. É que um homem ganha o seu estado de graça e a sua leveza espiritual (pelo menos esta) quando corre doze quilómetros — dispensa nessa altura outras bênçãos.

Estatística dos proselitismos

Não se leia no post acima desdém em relação às Testemunhas de Jeová ou aos Mórmons. Pelo menos não mais do que em relação aos católicos ortodoxos e a outras espécies proselitistas. Se puder julgar pela minha experiência, aqueles enviados de Deus são geralmente mais afáveis e não mais insistentes do que os vendedores de seguros, de produtos bancários e de pacotes de chamadas para telemóveis. E são mais inofensivos: a eles não os podemos acusar de qualquer responsabilidade na crise.
É certo que, como o Mestre Karamba, nem sempre respeitam o dístico publicidade não solicitada aqui não, obrigado, mas são bem menos insistentes do que os postilhões das superfícies comerciais, dos stands automóveis e até do que a propaganda municipal. A tradicional alergia às suas visitas é, portanto, preconceituosa, contra a liberdade religiosa — e sobretudo ignorante das estatísticas. 

Uma canção contra o tédio

Uma banda punk cá do burgo cantava há anos uma letra que reescrevia o poema de Augusto Gil, mas cujo humor precisa de ser actualizado. Rezava mais ou menos assim: Batem leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Oh c…... São Testemunhas de Jeová!
A visita mais temida nos lares portugueses é agora a do inspector das finanças ou do administrador de insolvência, mas se a questão é o tédio, talvez a letra devesse esquecer os pobres missionários e adaptar-se aos novos moralistas, os que andam por aí na blogosfera e na imprensa, ataviados com o seu luteranismo luso, a tentar convencer-nos de que na última década habitámos Sodoma e Gomorra. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Domingo desportivo III

A ideia era por aqui o video, mas o que me interessava mostrou-se sucessivamente resistente ao meu saber tecnológico e a paciência esgotou-se. Fica aqui o link.

Vocação para ler

Quando tudo nos falha na vida, resta-nos sempre o talento dos outros. Se escrevesse um livro de auto-ajuda, seria esta a lição que eu transmitiria. Um lição inexacta, contudo.
Desde cedo alimentei indecisas ambições artísticas. E também cedo aprendi a definir-me, antes de mais, como alguém que assiste ao que os outros criam. Isto não foi o prémio de consolação que atribuí aos meus escassos talentos, mas a consciência de que me vinha mais prazer do acto de ler, ver ou ouvir do que de “criar”. Mesmo agora, quando a escrita me recruta quotidianamente, me comprazo em saber que um livro me aguarda com paciência na mesa-de-cabeceira. Não porque tema falhar e precisar de conforto nas palavras dos outros, mas porque estou ciente da minha vocação para ler. O talento dos outros não é, afinal, uma panaceia para o mal d’être, mas o território onde as nossas próprias aptidões se exercem e exercitam. Assistir é viver.

Vasco Graça Moura e a arte contemporânea

Vasco Graça Moura, conhecido opositor dos subsídios à arte “contemporânea”, escreveu para o S. Carlos o libreto da ópera Banksters, inspirado na peça Jacob e o Anjo, de José Régio. A ópera (de Nuno Côrte-Real, encenada por João Botelho) foi levada ao palco presumo que com dinheiro público, mas acredito que VGM, fiel aos seus princípios, não tenha cobrado um tostão pelo libreto.

Aparentemente, se um texto for escrito para o género “ópera” não é considerado criação contemporânea, mesmo que a ópera seja encenada à “moderna”, com música de um autor ligeiramente mais novo do que Rossini, digamos assim. Talvez a ousadia criativa do nosso tempo seja admitida se se submeter aos géneros clássicos*. Afinal, o que importa não é a qualidade da obra, mas a gaveta onde se pode arrumar. Não importa se Nuno Côrte-Real é inferior a Mozart — importa que escreveu uma ópera. Não importa se Vasco Graça Moura é inferior a Martin McDonagh ou a Jacinto Lucas Pires — importa que escreveu um libreto. Um libreto cujas personagens, aliás, se chamavam Angelino Rigoletto, Santiago Malpago e Mimi Kitsch.

*Desconfio que não, desconfio que ainda teria de passar pelo crivo do gosto de VGM.

Adenda

Se a Secretaria de Estado da Cultura, citada nesta notícia do I, estiver certa (e espero que esteja), o meu post anterior perde uma parte da sua razão. Salvam-se contudo as considerações sobre o métier opinativo em Portugal. Era assim antes, é assim agora.

A instituição sou eu

As pessoas concordam com a resistência de Vasco Graça Moura ao acordo ortográfico e por isso aclamam-no. À direita, transformam-no mesmo em herói. Estão dispostas a passar por cima da irregularidade da sua decisão no CCB.

É assim que se constrói opinião em Portugal. As acções estão certas ou erradas de acordo com a ideia que as inspira e aquilo que pensamos dela. Os fins justificam os meios, se forem os nossos fins. Não há espaço para leis, normas, procedimentos, ética, deontologia, razoabilidade, divergência, prudência, nada. A nossa opinião (e dos nossos compadres) é a baliza final, ela determina o valor das coisas, certifica a sua conformidade. As leis, as normas, a ética apenas têm valor se precisarmos que elas integrem o nosso arsenal argumentativo, quando a opinião parece não nos ser suficiente. Mas se for o adversário a invocá-las, de pronto as desvalorizamos. Agir à margem delas é legítimo para os nossos correligionários — e é inadmissível para os nossos oponentes.

O cidadão comum habitua-se a estes modos tão ligeiramente adoptados por políticos, dirigentes e opinion makers. Como esperar dele respeito pela justiça ou pela política? Nestas condições, surpreenderia que o povo português tivesse um perfil cívico exemplar. Significaria que as pessoas se regiam por valores não partilhados pelas elites do poder e por aqueles que as sustentam nos jornais e nos blogues. Significaria também um contra-senso: um povo capaz de reconhecer e recusar para si a iniquidade mas desinteressado de a derrubar dos círculos influentes.

Temos uma elite opinativa demasiado contaminada pela clubite futebolística. Talvez porque muitos dos seus membros são também frequentes comentadores desportivos. Por alguma razão — inadvertência ou talvez fraqueza de espírito —, esta gente perde referências e julga-se permanentemente no terreno da paixão futebolística, onde, por jovial estupidez, se convencionou poder suspender-se a razão e a inteligência e se erigiu como máxima definição de carácter o amor camisola.

Em entrevista de véspera ao Público, Vasco Graça Moura deu sinais de sensatez ao dizer que a sua opinião pessoal sobre as artes seria subordinada ao superior desígnio da entidade que ia dirigir*. Neste contexto, a sua decisão sobre o acordo ortográfico é contraditória e permite-nos desconfiar com certa legitimidade de como será o seu mandato à frente do CCB também no que respeita à estratégia de programação. Depois desta atitude, só podemos temer que a instituição será ele.

P. S. Para que conste, sou contra o acordo ortográfico, e toda a desobediência civil neste caso me parece muito bem-vinda. Também será para mim bem-vindo todo o esforço que, depois de acatar as regras da democracia, Graça Moura faça junto do seu governo para que este promova a suspensão do acordo.

* Basicamente, foram declarações preventivas. VGM quis evitar que a controvérsia emperrasse desde o início o funcionamento da instituição e o impedisse de brilhar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Acontece

Leio a crónica da última página do jornal de hoje e estranho: o JN mudou de grafismo? Pouco provável. Coço a cabeça: o Manuel António mudou-se para o Público? Não. É o Vasco a ter razão completa. Também lhe acontece.

Depois do futuro, com o passado nos iludimos

Alguns procuram nas memórias da infância e da adolescência — quando elas têm mais de vinte e cinco anos — alívio ou uma forma de relativizar os problemas que aí vêm. Suponho que os afortunados de antes são os optimistas de agora. Também tenho a minha versão de infância feliz, pobrete mas alegrete. Escrevi episódios de uma epopeia dessas na anterior vida do Canhões. A espaços, conto-os de novo, quando reparto pão e vinho (mais pão do que vinho, que a generosidade tem limites) nas agora raras despreocupadas ceias de condiscípulos. Depois dos factos, somos (quase) sempre capazes de assobiar e ver o lado brilhante da vida. Se por vezes relatamos tragédias é apenas para aumentar o contraste dos momentos bons. Como quando saímos da tropa, fanfarrões, as agruras e a humilhação a servirem para dar o tom heróico aos quinze meses de aquartelamento. Nas nossas narrativas, o drama é, por inversão, o palhaço rico que apenas existe para fazer brilhar o palhaço pobre — que, naturalmente, é o mais feliz dos dois.

Acontece o mesmo com a evocação do mundo rural. A singeleza, os bons sentimentos, a solidariedade, o ar puro, a honestidade, a franqueza, os dias a decorrer ao ritmo natural, a confiança, o amanhecer e o pôr-do-sol, o sol a pino e a três quartos, e a chuva purificadora e a neve imaculada e o murmúrio do vento nas searas de trigo ou no veludo das parras em Agosto ou nas coloridas folhas outonais. Nunca a lama e as frieiras e o uivo sinistro e cortante da nortada nas frinchas das paredes e do tecto e os alguidares a apanharem as pingas e os cobertores da cama inteiriçados pela geada (e os percevejos e os ratos) e os pés enfiados em sacos de plástico para impermeabilizar as botas furadas e as camisolas sempre curtas ou rotas ou insuficientes, os casacos largos, feios, constrangedores, igualmente rotos ou sujos, ferrete da condição inferior; nunca a estreiteza de horizontes, a rédea curta da ambição, a renúncia do sonho, o atrofio da vocação. Ou tudo isto, sim, tudo isto quando precisamos de azul para o oiro da retórica.
O mundo rural, se invocado de memória, é o paraíso na terra — apenas um pouco condimentado, para lhe requintar o sabor. Não se percebe como as pessoas, aqui como ao redor do mundo, teimam em abandoná-lo. Mesmo os que assim idílico o recordam, ameaçando poeticamente um regresso às origens que, na verdade, não querem corporizar, a não ser no bom tempo ou num monte alentejano com piscina, num financiado turismo rural com piscina, no velho solar recuperado, melhorado — e dotado de piscina.

Usando um apelo muito em voga, o mundo rural e a maior parte das infâncias precisam de um Correio da Manhã para nos revelar que o passado, como a índole lusitana, é menos bondoso do que gostamos de crer. É apenas lindo na nossa memória facciosa e em admiráveis páginas de literatura. Nas melhores destas, a beleza que experimentamos é intrínseca à obra, não ao que ela ficciona. É por isso que quando queremos mesmo sentir o passado devemos talvez ler relatórios, estatísticas, correspondência e diários de cidadãos comuns, inventários, registos — e não sentarmo-nos melancolicamente a recordar ou a ler romances.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vasco, o retratista

Consta por aí (uma simpática leitora até me escreveu a informar disso) que em três pinceladas Vasco Pulido Valente pintou no Público o retrato certeiro e definitivo do Portugal recente — com o nobre intuito de fazer o enterro do socialismo. Um reverente blogue de direita reuniu as palavras sagradas num post que pode ser lido neste link. (A direita sempre precisou de um papa, e em Portugal a oferta aumentou exponencialmente nos últimos tempos, mas algumas almas fascinadas parecem tê-lo encontrado sobretudo na encantadora figura do decano cronista.)

Despertado na minha caverna pelo correio amável que me enviaram, lá fui eu ler a trilogia pulidiana “Esquerda e direita”, prometendo a mim próprio não voltar a embirrar com o homem. Em vão.
Como retratista, Vasco não usa a paleta toda, pelo que as suas telas resultam um pouco artificiais. Aquilo é real, sabemos penosamente que sim, o autor tem talento para o desenho. Mas, como recusa uma mais plausível prolixidade cromática nos acabamentos, a obra parece velada por uma fina gaze, como se o mestre pusesse um filtro à frente do olho que deita ao modelo. Num relance, chega a parecer uma daquelas gravuras vendidas em lojas de decoração que apostam numa limitada gama de cores: uma serra em escala de azuis, o pôr-do-sol em escala de laranjas, estão a ver o género.

Sem piedade, a trilogia conclui que o socialismo (ou a social-democracia) foi responsável pela crise nacional e europeia — e o Estado Social foi o seu instrumento. Ora, os americanos, mormente a feroz percentagem republicana deles, parecem não concordar. Começam, aliás, por não concordar que exista uma crise europeia. Parece, diz-se na campanha republicana, que a pátria da liberdade (e da recusa do Estado Social) está terrivelmente endividada, tem um défice preocupante, cresce menos do que desejaria, entrará provavelmente em recessão, vê o desemprego aumentar com perigo para a estabilidade social, etc. Os sintomas, dirão eles para proteger o orgulho ianque, são “europeus”, agravados por um presidente “socialista”. Mas nós sabemos o quão socialista Obama tem podido ser, e como a economia americana divergiu profundamente da sua ortodoxia.

O retrato pulidesco tem assim, talvez, de ser retocado — antes que os óleos sequem. (Depois disso, só uma equipa de restauradores do Louvre o poderá fazer, e nós não temos assim tanto tempo para esperar.) Se eu próprio não tivesse abandonado os pincéis e o atrevimento, propunha portanto ao insigne artista que matizasse a sua tela com uma das duas seguintes cores (ou ambas):

1) Talvez não tenha sido a social-democracia a falhar, mas o próprio capitalismo, tal como posto em prática;
2) O despesismo, a corrupção, a incompetência da máquina fiscal, a mitigada redistribuição de rendimentos, a especulação financeira, etc. são em si responsáveis pela crise, independentemente do sistema em que ocorrem.

(Quando se pinta um retrato de uma entidade viva, convinha, de resto, não esquecer 2008. A elipse foi uma figura de estilo inventada por Estaline para a fotografia, não para a pintura.)

Claro que o pulido cronista, quando isso não lhe atrapalha a argumentação para uso no flagelo doméstico, estende o problema ao Ocidente inteiro, sem que então lhe interesse assim tanto distinguir sistemas. Ou seja, para ele a peçonha é, consoante os dias, uma particularidade da Europa (que tem no socialismo e em Portugal os seus mais desprezíveis cultores) ou do Ocidente inteiro (se a prosa tiver uma ambição mais universal e exacta e menos luso-moralista). De uma forma ou doutra (e aqui não se engana nada), a crise é dos países que tiveram preocupações com o bem-estar dos cidadãos. Daí alguma direita (não só ela) andar agora fascinada com a China, esse sábio sistema que aproveita o melhor do capitalismo sem se tornar sentimental. Os sentimentos sempre foram um empecilho quando se trata de criar riqueza. Para alguns. 

Outro retratista, melhor retratista

Quem aprecie retratos, deve ir ler o texto de Antonio Cazorla no El Pais (“La socialdemocracia perdida, otra vez”) e perceber como é possível reconhecer frontalmente culpa à esquerda e à social-democracia sem concluir muito futebolisticamente que a solução da crise passa pela sua obliteração.

Perplexidade

Mesmo para leigos como eu, que apenas lêem uns artigos e uns raros livros, há coisas que não podem deixar de causar perplexidade. A extensão da crise e a forma como as medidas aplicadas nos dois lados do Atlântico não a fazem recuar nem um pouco pareceriam implicar acima de tudo uma revisão (mais ou menos profunda) do capitalismo ou da sua prática, não esta involução na continuidade.
Há quem invoque a História (diferentes momentos da História, na verdade) para defender diferentes soluções. Mesmo que concordemos que a ortodoxia seguida pela direita em Portugal e na Europa é a pior escolha (e são cada vez mais os economistas a dizer que sim, até já doem os ouvidos), não parece ser certo que soluções mais keynesianas, digamos assim, fossem eficazes. Um número crescente e heterogéneo de autores fala na irreversibilidade do declínio ocidental — para lá das questões sobre a culpa. (E no entanto há entre estes autores quem proponha que ainda era possível evitar “um mundo de soma zero”, onde os interesses de uns países competem com ou anulam os interesses de outros.)
A ascensão dos BRIC não implica necessariamente um bem-estar generalizado para as suas classes sociais e certamente não significa que a democracia mundial (se sobreviver) passa a ser defendida (nem mesmo tutelada) por outros quadrantes geográficos.
Estes dois cenários, a crise ocidental e a ascensão económica mas não mais democrática dos países emergentes, parecem pôr em causa o capitalismo, a sua actual eficácia ou até pertinência. Mas o que vemos? Políticos incapazes de pensar fora do arquétipo. Comentadores ocupados nos seus jogos florais de demonização do outro. A Inquisição à procura de quem viveu acima das posses ou teve ilusões. Ideólogos de blogosfera a achar excelente a oportunidade para aplicar finalmente velhas receitas muito lá de casa.
Em Portugal não admira que assim seja, a política e a gestão da coisa pública há muito estão entregues a dinossauros e a jotinhas (querem culpados?), o pensamento independente e crítico não é bem-vindo. Mas na Europa não haverá quem meta algum senso nas cabecinhas dirigentes?

domingo, 22 de janeiro de 2012

Vasquito

Só li citações (ando a poupar nos jornais), mas parece que o camarada Vasco, escrevendo sobre cultura, ontem falou de “produção nacional”. Diria que o fez para dar razão ao seu próprio argumento: em Portugal não falta quem fale sobre o que não conhece.
Acertou, não duvido, na questão dos vereadores — quanto a mim, acerta-se sempre quando se fala mal de vereadores.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Sai mais um bagaço

«O Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência muitíssimo bem pagos. O que produziu um escândalo de certa maneira inesperado. (…) À superfície não se vê por isso o motivo por que um acto, por assim dizer normal, de Passos Coelho provocou agora tanta indignação e tanta conversa.»
Vasco Pulido Valente, «Uma velha história», Público de 14/1/2012

A “análise” de que extraí o pedaço acima não se distingue, a não ser pelo acabamento da prosa, daquilo que produziriam habituados comentadores de tasca, exímios a concluir serem os políticos todos iguais e a defender ser profundamente estúpido considerar a mudança. Fecha a porta ao debate da mesma forma (embora com outra conveniência, mas não é esse o ponto que agora me interessa).
Por vezes espanta que as redacções de VPV, com frequência pouco mais do que fúteis, façam dele o cronista-mor do reino. Mas a explicação é simples: também a intelectualidade portuguesa não se distingue geralmente do auditório de taberna — excepto por uma mais aguda sensibilidade à gramática e à retórica. Se estivéssemos no século XIX, o corte da jaqueta seria igualmente considerado. E aí o escriba teria talvez de mudar de alfaiate.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Considerações de um músico de metro

Ainda que a biologia não permitisse a K. ter uma consciência estética desenvolvida ao tempo, os anos 60 e 70 do século XX são muito as suas décadas, musicalmente falando. Quer dizer, se tiver de declarar alguma coisa aos costumes, K. é um filho dos eighties, esquizofrénico como eles. Mas as maiores emoções, as mais lancinantes, reconhece, vêm-lhe de músicas anteriores. Se K. ouve algumas canções daquelas décadas, apetece-lhe frequentemente desfazer-se em lágrimas. Outras vezes desata aos pulos e a esbracejar como imagina que se esbracejava na altura. Há uma explicação. K. viveu por dentro os anos oitenta e, portanto, o que lhe acontece por vezes é sentir nostalgia — no máximo. Já os sessenta e setenta foram sempre, ainda que de forma indirecta, espiritualmente mais intensos, míticos, lendários, verdadeira religião de que lhe chegavam, como do além, rumores em fitas magnéticas e raro vinil. Uma religião de que testemunhou, com curiosos olhos infantis, as últimas manifestações, observando platonicamente, como sombras em cavernas, o difuso estertor alcoólico de festas num armazém da vizinhança. (Ainda se dançava Pink Floyd com charme e copo de tinto, cigarro na mão, mas era já uma despedida.)
Há a questão dos ídolos. K. não pode dizer que tivesse conhecido pessoalmente algum nos anos 80. Dos anos 80. Contudo, na sua adolescência ainda contactou com dois ou três dos que tinham alcançado grandeza na década anterior.
Objectivamente, não é bem assim. Os seus ídolos de vizinhança apenas tinham tocado a grandeza ao interpretarem, à guitarra e em cima de palcos apertados e pouco seguros, a musicografia de sessenta e setenta. No entanto, K. não sentiu neles a fraude que se sente quando se compra fancaria. Eles eram genuínos, the real thing. Podiam limitar-se a fazer covers dos êxitos da sua época, mas soavam como os originais, vestiam e não cortavam o cabelo como os originais, transpiravam como os originais, drogavam-se como os originais. Não se distinguiam dos originais excepto por estarem vivos ou fisicamente presentes.
Um tipo da geração de K. não procurava aprender com alguém musicalmente activo em 80 — competia com essas pessoas. A quem K. pedia conselhos e aulas de guitarra era aos ídolos de setenta. Aprender as canções que eles tratavam por tu, como filhos legítimos, era ser-se iniciado na linguagem dos deuses, de que todas as canções de 80, mesmo as que K. pudesse escrever, emanavam, eram sucedâneos. K. imagina-se a sentir vaga camaradagem por algum condiscípulo da sua geração, mas o respeito, a admiração, o afecto reserva-o todo para aqueles que usavam calças à boca-de-sino antes de elas serem retro fashion.
K. acredita, em suma, que há na música, ainda que revolucionária e libertária, uma hierarquia (ou uma cronologia) a respeitar, um código de honra e de valores onde os mais velhos ocupam lugares determinantes, como em certas tribos.

Sentando no túnel do metro para mais um dia de trabalho, com um orgulho melancólico nas suas calças de ganga genuinamente gastas e rotas, K. reflecte sobre tudo isto na hora de escolher o repertório. Experimentou alguns temas seus contemporâneos, mas nenhum lhe soa bem à viola acústica. K. não dispõe de suporte electrónico mas não julga ser esse o principal óbice à verosimilhança, embora lhe pareça haver um problema de credibilidade quando se está de chapéu estendido a evocar um imaginário tão eminentemente burguês e entediado como o de oitenta. 

A vida de K. (7)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Problemas de (co-)habitação

Quando, há vários anos, K. ficou com a casa só para si, sentiu um peso na consciência: eram cinco quartos a mais, até para alguém como ele, que precisava de espaço. Mas na altura não havia assim tanta gente com dificuldades, e a pátria, que tinha casas de sobra, não parava de as construir, era preciso vendê-las. K. permitiu-se essa comodidade extravagante e os remorsos não foram um problema muito grande, já que casas novas mais pequenas tinham rendas maiores (as pessoas até preferiam comprá-las). Mudar-se significaria quase de certeza gastar mais dinheiro.
Depois a habitação tornou-se um problema. Não a habitação: as rendas, houve uma reforma legislativa, com a qual nem discordava fundamentalmente. Ainda assim, aquilo que K. pagava em três meses passou a custar-lhe a casa num, o que alterava substancialmente as regras do seu jogo. Habitar o palacete, mesmo que decadente, sem atractividade para a anterior classe média, era agora um luxo que não podia pagar.
Antes de se mudar para a rua, K. pôs um anúncio, e durante algum tempo viveu com companhia. Mas não se habituava. A decisão de subarrendar partes da casa, para além de o ter ajudado a suportar a prestação mensal por um curto período, estava de acordo com o seu pensamento político — união de esforços, partilha de sacrifícios, coisas assim. Porém, uma coisa é encontrar virtudes teóricas em certos aspectos do comunismo, outra é viver em comunidade. Por mais que o satisfizesse acolher pessoas que os bancos tinham posto na rua, K. não se acostumava a comungar o quotidiano. De repente era como viver num hostel, desconhecidos a partilharem a louça, a cozinha e a sala de televisão, o autoclismo a soar sem que sejamos nós a puxá-lo, gente que canta no banho ou fala a dormir, tipos que arrotam ou cortam as unhas enquanto vêm as notícias de mais austeridade — o teatro impudico e repugnante da intimidade alheia. Ter reservado para si o direito de ficar na velha suite, com a sua casa de banho privativa e a sua antecâmara, não protegia K. de uma excessiva proximidade às vidas dos outros.
Por isso, até agora K. animava-se a si próprio dizendo com humor que uma das vantagens de dormir na rua era não ter de suportar gente a ressonar no quarto ao lado.

Infelizmente, há males piores, descobriu K. com desalento quando um casal de maltrapilhos particularmente roncante fez a cama de papelão nas imediações da sua. «Esperemos que sem-abrigo sejam gente a quem falte o ânimo da cópula», rogou depois K. a Ninguém, lembrando-se de que na sua curta experiência de vida em comunidade havia coisas mais intrusivas do que pessoas a ressonar.


A vida de K. (6)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sono criogénico

A segunda vida d’O Canhões de Navarone não foi longa — cerca de seis meses, por vezes agradáveis, por vezes sofríveis, com algumas satisfações e vários tiros na água —, mas agora impõe-se por tempo indeterminado um novo sono criogénico. Ou nem tanto. Serviços mínimos, ocasionais posts, talvez, textos sem bússola — um tipo respira, anda por aí a observar a vida dos outros, não é? Vão passando.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Cientistas dão razão aos críticos da função pública

«Declínio do cérebro afinal começa aos 45 anos. Estudo avaliou três vezes as capacidades cognitivas de mais de sete mil funcionários públicos num período dez anos, concluindo que, afinal, a deterioração não começa aos 60 anos.»
Ao cuidado do Governo: face aos novos dados científicos, propõe-se que a idade da reforma seja antecipada na mesma proporção. 

Cibernices

1. Da evolução do homem
O saber wikipédico substitui o saber enciclopédico.

2. Tábua rasa
Desligar o homem da net é um acto filosófico.

3. Revolução
O motor de combustão está para a revolução nos transportes como o motor de busca está para a, digamos, revolução cultural.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A fina linha

A China respondeu a certas inferências do meu post de ontem (e de outros em que falei de televisão). Segundo o Público, o «entretenimento de “mau gosto” está a desaparecer velozmente da televisão chinesa». Claro que a China não espera que isso aconteça voluntariamente, por decisão sensata dos directores de canais, intervenção escrupulosa da entidade reguladora, ou exigência criteriosa dos telespectadores. A China é um país autoritário, toma medidas. (Como aliás propunha, não exactamente quanto ao entretenimento, certo grupo de trabalho reunido pelo governo português.)
Mas também é claro que a China toma por entretenimento de mau gosto programas que classifica de «golpes estratégicos para ocidentalizar e dividir o nosso país». E impõe em sua substituição outros que «promovam as virtudes tradicionais e os valores fundamentais socialistas». Se se tivesse ficado pelo banimento dos reality shows, sem considerandos de ordem geopolítica nem sucedâneos proselitistas, os leitores do Canhões corriam o risco de lerem aqui amanhã um hino ao Império do Meio — e debandariam de vez, considerando irreversível a demência do artilheiro.

Qualquer intervenção do Estado nas televisões, nos jornais, nas editoras, nos teatros ou nos cinemas está sempre a um passo curto de ser um erro. A linha que separa o intervencionismo do paternalismo, do proselitismo ou da pura manipulação é fina, muito fina. A informação, a cultura, as ideias, a arte devem ser deixadas em paz, se o objectivo é ter uma sociedade democrática, livre, emancipada, plural, intelectualmente desenvolvida. No entanto, a realidade faz-nos suspeitar que deixar as instituições trabalhar livremente não garante todas as boas conquistas do mundo ocidental, não garante a sua perduração. Suponho que não precisamos de ser todos pessimistas para concluirmos que há um afunilamento do espaço público, uma tendência para a uniformização, uma simplificação que amputa, reduz a diversidade, elimina a exigência e o escrúpulo. Se tomarmos o exemplo das televisões, somos forçados a concluir que a liberdade de acção não assegura a qualidade do serviço, mesmo que falemos apenas de entretenimento. Teríamos de aplicar critérios muito estreitos e pouco exigentes, deixando de fora imensas manifestações da inteligência e do espírito humanos e da sua variedade se quiséssemos considerar que sim, que as grelhas actuais reflectem uma sociedade interessante. E é preciso ter em conta que, apesar da Internet e do cabo, o espaço público continua a ser em grande parte formatado pelos canais de televisão em sinal aberto, com todas as consequências que isso tem no próprio desempenho social e económico do país.

Terá, então, o Estado de intervir, a exemplo da China, erradicando programas de mau gosto e decretando grelhas correctas, seja qual for o critério? Não creio. A linha é fina, mas não deve ser cruzada. Diria que ao Estado compete talvez assegurar que a complexidade do jogo social não se reduz, que não se eliminam variáveis nem jogadores, que o espaço público é mesmo público e diverso, ou seja, passível de ser frequentado e influenciado por todos. Ao Estado compete assegurar que não se constroem guetos à margem da manada hegemónica. Que não se cria um canal 2 para alívio de consciências e álibi do fartar vilanagem nos restantes três canais, que há no gueto critérios de elevação do intelecto e dignidade do espírito que não se aplicam ao resto. Como se faz isto? Não perguntem a Hu Jintao.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bronzeadores em África

Há muitos anos, uma trovoada providencial queimou a televisão lá de casa e desde então a caixa mágica só me enfeitiça em ocasional restaurante ou café, se não levar comigo um jornal ou companhia. Hoje, por qualquer distúrbio na ordem universal ou distracção do estalajadeiro, a coisa sintonizou-se por momentos na RTP2. Não me dei logo conta de que era a RTP2, mas a publicidade, os programas anunciados e o documentário que entretanto se iniciou pareciam assunto de outro planeta, não de um onde reina essa pouco inventiva invenção do demo que dá pelo nome de televisão generalista. Imaginei um canal do cabo, mas teria de ser um pouco esquizofrénico, dada a diversidade das propostas. (Imagino os canais de cabo temáticos, mas posso estar enganado.)
Depois passou uma publicidade institucional e percebi que era de facto a 2 (ok, também houve um separador que a anunciou). Estava numa mesa distante e não a vi em pormenor, mas a publicidade era sobre civismo, comportamentos censuráveis em diferentes circunstâncias, toques de telemóveis inoportunos, deselegantes, coisas assim. Ignoro se passa também no canal 1, mas desconfio que não. Seria contra a lógica nacional. O civismo implica sensibilidade, respeito, aceitação do outro e da diferença. É matéria de minorias, portanto, conclui a lógica nacional. Logo, passa na 2. Se fosse algo relacionado com estupidez de massas, sim, teria direito ao canal principal e a horário nobre. Se promovesse o uso polifónico do telemóvel no cinema, no teatro e na sala de aulas, sim, passaria frequentemente na RTP1. Mas como fala de valores, como tem uma mensagem que, se decifrada, pode ofender o povo do prime time (pelo retrato implícito), o melhor é passar na 2, onde a entendem e aprovam. Nem que isso equivalha a vender bronzeadores em África. A lógica nacional é assim, redundante e pusilânime. Capaz de conceber uma campanha de promoção do civismo, mas receosa de a passar no canal onde ela faria falta. (Ainda a acusariam de querer educar o povo.)

Talvez eu esteja enganado e a campanha passe nos dois canais. A lógica nacional por vezes distrai-se. 

Javier Marias

«Cinquenta e sete críticos e colaboradores do Babelia, suplemento cultural do El País, escolheram Los enamoramientos (Alfaguara) como o melhor livro publicado em Espanha durante 2011.»

O Teu Rosto Amanhã (ou deveria dizer Tu Rostro Mañana?), de Javier Marias, continua a ser o melhor livro que li neste século, obra-prima. A Dom Quixote publicou o primeiro volume (de três) e depois descontinuou-o. Desta vez não perdi tempo e fui a Espanha comprar Los Enamoramientos. Menos impostos para o Estado. 

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Foram cinquenta e sete os críticos e colaboradores do Babelia a fazer o balanço de 2011. No suplemento do Expresso foram 8.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O futuro

Quando no fim da adolescência (talvez mais tarde, pronto) comecei finalmente a acreditar que também eu haveria de morrer, chorei por antecipação a mágoa de não estar cá para testemunhar tantos progressos e descobertas científicas que a humanidade haveria de fazer mesmo sem mim. Era uma sacanice haver evolução para admirar e eu ter terra nos olhos. Viagens interestelares, teletransporte, semana laboral de dez horas, coisas destas. Achei fraco prémio de consolação ter-me sido dada a oportunidade de ver passar de moda aqueles visionários telemóveis pequeninos de abrir a meio preconizados pela série O Caminho das Estrelas.
O futuro sempre foi o meu lugar, e não só porque seguia a sábia doutrina do deixa para amanhã o que podes fazer hoje. Quando li os clássicos, fi-lo porque os encarei como novidades, produtos de uma era adventícia — a minha idade mental era a de um homo neanderthalensis, se comparada com a dos defuntos escritores. Mas mal pude convencer-me que essa etapa da minha formação estava cumprida, que tinha bagagem suficiente para não parecer completamente estúpido (o que ocorreu prematuramente, ao contrário do início das leituras), determinei que um livro com mais de três anos era velho. Isso levou-me a percorrer do fim para o início a obra dos autores vivos que achei dignos de serem lidos na íntegra (talvez com consequências na minha percepção cronológica do mundo). Como nesta área fui um patriota entusiasta do esbanjamento, nos anos Sócrates acumulei livros que não tive tempo de ler e, quando mais tarde olhei para as datas de edição, percebi o desperdício de ter investido em obras que já não leria, por terem ultrapassado o meu prazo. Mas, tirando estar a, como se diz, hipotecar o futuro da república, não era grande a chatice. Dava-me bem com a produção mais recente. Não via razões para estar pessimista quando ao talento literário das gerações vivas e rejubilava particularmente, por antecipação, com as pérolas que estavam ainda no prelo ou mesmo no disco rígido dos escribas. Acreditei durante muito tempo que o melhor estava sempre para vir. Até sentia alguma excitação com a ideia de livro digital, nas suas primeiras e futuristas visões.

Depois o livro digital veio mesmo e o mundo editorial transformou-se. (Uma coisa não foi causa exclusiva da outra.) Houve várias mudanças: o apogeu dos franchises, dos autores mediáticos, das vedetas ocas feitas escritor, a retracção da crítica e das páginas literárias na imprensa e na vida social, a mercantilização do livro, a concentração em grupos editoriais grossistas, o domínio do gosto de uma classe média iletrada, uma idade política favorável à dinâmica de mercado. De repente, o futuro não é assim tão promissor. Muitos jornalistas e especialistas de literatura passaram a discutir mais os suportes e a forma em que a escrita pode ser embrulhada do que o que ela tem para dizer. Os gadjets e as operações comerciais das empresas concentraram as atenções. A palavra ainda é livro, mas é um grande chapéu-de-chuva, já não se refere à mesma coisa.

Os escritores continuam a escrever e a internet até facilita a edição. Há um site, por exemplo (referido pelos Booktailores…), que anuncia «dez dicas para autores ou escritores independentes» (desconfio que é sintomática a distinção entre autores e escritores). Mas nas dez dicas apenas uma vez, e só no título, vem mencionado o interesse de se escrever um «bom livro». O resto são sugestões sobre marketing, estudos de mercado, estratégias de venda, questões técnicas, propaganda.

Não perdi o optimismo quanto à qualidade da literatura — perdi-o quanto ao pormenor de a boa literatura ser editada. Face à avassaladora mercantilização da vida social e cultural, à forma como o vazio e o supérfluo substituem o essencial, como as pessoas do meio e os leitores se deixam levar pela onda ou sucumbem a ela, prevejo que a boa literatura editada tem os dias contados ou será marginal, difícil de adquirir, demasiado cara. A boa notícia é que já não devo estar cá para ver.

Já não sou, portanto, um tipo do futuro, embora ainda não seja um indefectível do passado. Deve ser isto o prenúncio da meia-idade.

Adenda

O estudo da Comissão Europeia citado ali em baixo refere-se a medidas tomadas entre 2009 e 2011. Ou seja, consulado do inefável Sócrates. Contudo, os embeiçados pelos lindos olhos de Passos Coelho não devem começar já a esfregar as mãos. Esperem pelo estudo do ano que vem (supondo que se fará um). Ou alguém acha que neste domínio Passos Coelho está a fazer alguma coisa melhor que Sócrates? Que está, sequer, a fazer alguma coisa?
Pensando bem, talvez esteja: a assegurar activa e convictamente que Portugal não desce no ranking dos mais desiguais. 

Questões de moral no admirável mundo novo

1. As empresas públicas devem ser privatizadas — mas não faz mal que sejam adquiridas (a preço de ocasião) por empresas estatais chinesas.

2. A Holanda, movida talvez por um ligeiro impulso chauvinista, quer restringir o cannabis holandês aos holandeses. Não lhe agrada ser um paraíso de embriaguez para estrangeiros — excepto se a embriaguez for a do lucro. Deve ser a isso que chamam moral calvinista.

3. Alexandre Soares dos Santos, de resto, concorda com os juízos morais que se têm feito sobre Portugal e os seus defeitos éticos. Por isso se mudou para a Holanda — prefere que o dinheiro dos seus impostos sirva uma sociedade moralmente superior. Mesmo que de qualquer maneira isso não lhe dê acesso aos coffeeshops dos nativos.

Deve ser isto que Passos Coelho chama de «democratização» da economia

«Entre os seis países da União Europeia mais afectados pela crise, Portugal é o único onde as medidas de austeridade exigiram um esforço financeiro aos pobres superior ao que foi pedido aos ricos, revela um estudo recente publicado pela Comissão Europeia. Na comparação com Grécia, Estónia, Irlanda, Reino Unido e Espanha, Portugal é também o País que regista um dos maiores aumentos de risco de pobreza devido às medidas de consolidação orçamental adoptadas durante a crise, ultrapassando a barreira dos 20% da população em risco.»

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Dogmas

A triste realidade dos números e um número razoável de economistas (como este) desmentem a fórmula, no entanto a malta persiste impante na sua onda thatcheriana, friedmaniesca ou lá o que é. Dogmas são dogmas, não desaparecem só porque se estampam (e estampam o país) contra o pormenor de uma parede.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Três quadros de Inverno

1. A árvore da vida

Altura da poda. O homem novo, talvez numa ocupação de férias natalícias, usa uma escada de metal reluzente e, por vezes, uma tesoura com uma extensão que lhe permite trabalhar a partir do solo. O idoso sobe para os galhos por uma velha escada de madeira camba e, em equilíbrio vertiginoso, apara os ramos com a clássica tesoura preta que também se lhe vê nas mãos em época de vindimas. Há a história do velho, o rapaz e o burro, mas é inadequada. A partir de certa idade, a poda é uma questão pessoal. O velho mais depressa treparia a oliveira, como quando em rapaz ia aos figos, do que usaria a escada nova e a ferramenta fashion do filho ou genro. É este que precisa dos apetrechos e das luvas do Mestre Maco. As mãos do velho estão calejadas, e subir a pulso a árvore da vida fará parte do seu quotidiano até ao último dia na terra. Vive enquanto a pode subir, morrerá de não a poder subir.


2. A vil existência

Pouco depois das quatro da tarde ocorrerá o pôr-do-sol. Embrulhados nos seus kispos e forros polares, os caminhantes cumprem apressados a prescrita hora ou hora e meia de marcha junto ao rio. Os amantes da corrida fazem desfilar calças de licra, gorros e mp3. Ela usa calções de perna comprida e justa e uma sweatshirt larga. Numa curva, a última curva antes de a sombra estender por todo o lado o seu manto irrevogável, ela tem a intuição do fim da luz e detém-se. Abre os braços, levanta o rosto ao deus-sol e sorri. É bom estar viva, apetece abraçar o astro. Cinco segundos de carícia e alheamento, e ei-la de novo num trote firme, o sorriso agora embaraçado, talvez por a vil existência ter regressado nos olhares dos transeuntes, que tentam encontrar-lhe no rosto sinais de um espírito débil ou excêntrico.


3. Encruzilhada

Vestidos com as prendas de Natal — casacos Lanidor e Massimo Dutti, calças Tiffosi ou da Salsa, peúgas e roupa interior a expensas rituais de tias idosas —, passeiam no parque o carrinho de bebé. Com uma criança dentro, deduz-se, não se vê. Eles também não a vêem: ela senta-se num banco a olhar um ponto fixo, talvez do passado, ele fica de pé a observar o trânsito de famílias e casais. Ambos com rostos graves, diferentes do cliché de uma tarde bonita no parque. Entre os dois, o carrinho. Estático porque o terreno é plano — ninguém o segura, jaz por instantes abandonado, troféu de um jogo de forças em que possivelmente fica com o prémio quem perde. Talvez numa parte dos seus espíritos apetecesse que o carrinho começasse a deslizar para fora das suas vidas, pudessem sair dali cada um por seu trilho do parque, desejando esquecer que um dia estiveram numa encruzilhada. Mas um deles há-de voltar a empurrar o carrinho, provavelmente a mãe, mesmo que seja para seguir o seu próprio caminho. Ou as catorze estações do Calvário.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As pessoas em concreto

Há muito tempo que não lia Pacheco Pereira e já não recordo quão frequentemente ocorria a palavra «imbecis» nos seus escritos, para mais impressos. Mas é bom lê-la, sobretudo no contexto: 
«(…) Há uns imbecis nos blogues que acham que falar dos problemas concretos das pessoas que não são fils a papa, publicitários, gente de glamour, neoliteratos, assessores de várias eminências, yuppies sem mercados, consultores, advogados de sucesso, é neo-realismo. A única coisa que se lhes pode perdoar é não saberem o que a palavra significa, mas tudo o resto não e perdoável nem mesmo com muito "espírito de Natal".»*
Infelizmente, o meu problema com as coisas concretas é inverso. Salvo excepções, é quando penso em concreto nas pessoas que me torno entusiasta de Passos Coelho. E de Torquemada.

Alguns estão prontos a insinuar, por isso, que o uso da abstracção faz de mim um utópico da laia de Rosseau. Mas diferimos, o francês e eu. Ele via bons selvagens. Eu vejo selvagens — mas não acho isso bom.

Por outro lado, os liberalecos da direita e eu não estamos, de certa forma, em radical desacordo. Números, índios-de-cu-ao-leu: é indiferente como encaramos as pessoas — desde que não tenhamos de sociabilizar.


*Público de 24/12

Pacheco

Reencontrar a prosa de Pacheco Pereira (no blogue ou nos jornais) e ver nela alguma coincidência de pontos de vista reforça a convicção de que não é preciso ser-se de esquerda para perceber a intrínseca leviandade ou estupidez de certo discurso tão propalado pela gente de Passos, no Governo, nos jornais ou nos blogues.
«É particularmente irritante, e socialmente perigoso, que acrescentem à miséria uma lição moral do género "têm o que merecem porque viviam acima das suas posses", todos contentes com a purga moral do país pelo empobrecimento. O empobrecimento pode ser inevitável, mas deixem de lhe atribuir qualquer valor catártico e vender como nova propaganda que, no dia em que estivermos mesmo muito pobres, vai começar a nova aurora económica, a ascensão de uma economia de sucesso, livre do Estado, competitiva e dirigida por uma "nova geração" liberal e desempoeirada.»

Sedução do eleitorado

Proposta de estudo sociológico: averiguar que percentagem (masculina e feminina) da população convertida ao discurso da miséria se deixou seduzir literalmente pelos lindos olhos de Passos Coelho.

Agência Rangel

Se Paulo Rangel concretizar a sua agência de emigração, tem cliente. Desde que pague as passagens. (Ou a passagem, sabemos que é só de ida.) Em Vimioso diz que oferecem mil euros a casais que aumentem a população. Não ficaria mal ao Governo (e seria coerente com as suas opções políticas) pagar quantia semelhante a quem se voluntarie para desemparar a loja. Com mil euros há todo um mundo de possibilidades e destinos. O amor à Pátria aumenta na exacta proporção de quanto ela está disposta a pagar para se ver livre de nós.

Mas claro que a Agência Rangel há-de ser mais exactamente uma agência de aventuras, uma coisa que inclua o risco e o revivalismo. Os clientes farão, digamos, um investimento de risco (mas com risco mesmo), embarcando numa aventura old fashioned, como agrada aos conservadores. Rangel talvez tire do museu de cera um guia que nos acompanhe até à raia, mas a fronteira há-de ser passada a salto, os rios cruzados a vau e as distâncias percorridas a calcantes. Tudo brindado a vinho verde, que é do nosso Portugal!

domingo, 25 de dezembro de 2011

Males do couro cabeludo

O rapaz está sentado na cadeira do cabeleireiro. A funcionária, munida de pente e tesoura de dentes, vai desferindo golpes vigorosos. Com exuberância de gestos, levanta compridas repas da cabeleira e ataca-as como se disso dependesse a continuação do mundo. A determinado momento do labor, questiona o cliente:
— Estou a magoar?
O rapaz, com uma expressão torturada no rosto, ombros encolhidos como se tivesse deflagrado uma granada, responde o não mais sim de que K. se lembra.

(A espreitar tão discretamente quanto pode pelo vidro da montra, K. conhece o tormento do rapaz — também foi um dia cliente daquele salão. Houve um tempo em que K. podia recorrer àquele género de serviços, o luxo de um corte de cabelo a doze euros. Lembra-se de como a figura dócil, de prima carinhosa, daquela funcionária escondia uma harpia, que se revelava no momento em que as pessoas tinham o azar de coincidir no seu turno de trabalho. Também K. quis muitas vezes dizer não quando dizia o seu sim educado. Até ao dia em que começou a espreitar pela montra antes de entrar — e a retroceder nos seus passos se estava de serviço tal instrumento da Inquisição.)

Depois o equilíbrio nas forças em conflito altera-se. Acabado o desbaste, a cabeleireira entra nas minudências, e aí o rapaz tem uma palavra a dizer. Há que assegurar determinada proporcionalidade entre a forma como a nuca é rapada e os lados se penteiam para a frente. Um gesto em falso e é a vez da senhorita experimentar a violência do rapaz, patente nos olhares que lança ao espelho e nos monossílabos escandalizados que solta se ela avança por onde não deve.

O penteado de um adolescente é uma problemática que não deve ser abordada de ânimo leve. Nisto, não difere muito a época actual dos tempos de K., talvez apenas na banda sonora. K. teve o seu momento Duran Duran numa altura em que os demais rapazes deixavam crescer cabeleiras à Iron Maiden ou permaneciam nos seus cortes medianos e clássicos de burgueses anódinos ou sucumbiam à escalpelização periódica das famílias mais pobres. Também nessa altura o drama maior de uma vida se relacionava muitas vezes com uma tesoura que progredia em terreno proibido — na adolescência, o tempo que leva a repor uma madeixa é exasperante, tem escala cósmica.   

Agora K. submete-se sempre que há uma máquina disponível à estética militar, a clássica, a do pente zero. Há ameaças antigas que regressaram, piolhos, lêndeas, e quando se anda na rua dispensam-se contratempos extra. Já não estão presentes mães que nos passem com zelo pelos cabelos, acariciando agudamente o crânio, pentes de dentes juntíssimos, que nos desenriçam e livram de parasitas e outros males do couro cabeludo.

A vida de K. (5)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Onde está a piada

Exercício interessante: decifrar o tipo de riso que deflagra em cada indivíduo que se confronta com o cartoon anterior. A forma como rimos e as coisas de que nos rimos, o ponto da narrativa onde encontramos a piada — se a encontramos ou consideramos —, também nos definem.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Tirado daqui.

Palcos

K. passou a adolescência a querer pertencer a uma banda rock. Hoje suspeita que passará a meia-idade a lastimar não ser um velho rocker. Pelo meio subiu a uns palcos, mas nada que possa ser visto no Youtube e de que as pessoas possam agora rir-se ou sentir saudades.

A vida de K. (4) 

Fim-de-ano-mundo

São dez a jantar, o quadro de pessoal de uma empresa. Natal, sabem como é. Na televisão há futebol e são elas que anunciam os golos. Também são elas que falam de traições ao matrimónio. São ainda elas que discutem aspectos do fim-do-mundo em 2012. Não o que resulta da crise económica. O outro, o da profecia Maia, o que se pode realmente discutir. Parece que há discórdia quanto à data específica. Haverá quem afiance ser a 12/12/12, outros colam-no ao fim-de-ano. Mas estes serão empresários oportunistas, a planearem uma passagem-de-ano de arromba. Não está cientificamente provado (enunciaram-no mesmo assim) que o Armagedão coincida com o reveillon, mas não é exagerado dizer que naquela mesa se tratou do fim-do-mundo como se trataria do fim-de-ano (opções de vestuário incluídas).
E talvez venham a dar no mesmo. Não são as melhores festas aquelas em que gozamos como se não houvesse dia seguinte? Em 2011 será talvez precoce, mas em 2012 esse espírito é garantido.

Feia

A certa altura, os homens também falaram, um em particular, o patrão, não poupando nos decibéis, depois das libações. E o que disse? Eis a transcrição, textual:
— Não consigo gostar daquela filha da puta. Penso que não passa de uma cabra de merda. Olho para a cara dela e apetece-me espancá-la.
Os outros machos da mesa estranharam ou quiseram ser irónicos:
— Não há lá nenhuma rapariga que não seja uma querida!
Ele não se comoveu:
— Para mim é mais uma filha da puta que não faz a ponta dum corno. Olho-lhe para a cara e é isto que penso.
— É feia? — perguntou uma das mulheres, mas não há certeza que estivesse a ser sarcástica, que se tivesse servido da palavra para denunciar o interlocutor.

Emigrar

O problema não está na emigração, rapazes. Emigrar é, consoante os casos, uma saída, uma alegria, uma revelação, uma necessidade, um percalço, uma tragédia. O melhor de uma vida ou o fim de uma vida. Uma oportunidade ou o fim do mundo. Cada um sabe de si.

Emigrar era, como sempre, um receio ou um desejo, um pesadelo ou um sonho. Agora é talvez uma premência. Não só porque há uma crise. 

Ridículos

O Governo está a fazer, digamos, o que pode? Aceitemos que sim. Mas não se está a transcender, isso é certo. Como tal, é um manifesto exagero incensá-lo, lamber-lhe as botas. Vocês parecem os indefectíveis de Sócrates, rapazes. Tão ridículos quanto eles foram.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Graffiti

Ainda estava longe a ameaça quando K. declarou que prescindiria do subsídio de férias ou do de Natal, ou de parte do salário, se essa fosse uma forma eficaz de aliviar problemas, prevenir males maiores. Não porque tivesse um particular peso na consciência. No que dependeu dele, não houve delírios despesistas, e pessoalmente K. não contraiu dívidas insensatas (embora não tivesse poupado). Foi sempre crítico da paixão nacional pelo betão e pelos investimentos frívolos. Não percebia porque, para o país, os melhores presidentes de câmara ou primeiros-ministros eram os que deixavam “obra”, no sentido que os empreiteiros davam ao termo. Atribuía isso a uma etimologia limitada: o povo não tinha sido familiarizado com a amplitude semântica das palavras e o erro trazia consequências à praxis dos eleitos, condicionava-lhes o desempenho (embora K. soubesse que os eleitos, iguais entre iguais, não faziam o que faziam por se sentirem constrangidos).
Porque não tinha passado de pobre a arrivista, K. abominara o espírito novo-rico da época, o consumismo exibicionista, o materialismo dominante. Quando um dia teve de trocar de carro, escolheu o segundo mais barato do mercado (por uma questão cromática, confessava esse capricho) e desagradou-lhe que não estivessem disponíveis unidades sem ar condicionado. K. não era ascético, mas de Inverno chegava-lhe a chauffage e de Verão gostava de circular de vidros abertos, cabelos ao vento.
O seu desprendimento do dinheiro não era revelação de um espírito luterano, nem era sintoma de masoquismo. Resultava da consciência de que havia pessoas em piores condições, pessoas para quem qualquer corte nos rendimentos seria literalmente (e não literariamente) um drama. E resultava também da consciência de que algumas coisas boas no país seriam postas em causa se a crise se abatesse com a máxima fúria.
Não foi por isso para K. um choque quando o Governo anunciou aquelas medidas de austeridade. O futuro, o seu futuro, preocupava-o, claro que sim, mas ele estava psicologicamente confortável com os sacrifícios. Pelo menos enquanto pensou que eles eram por uma boa causa. Ou inevitáveis. O desconforto veio quando K. percebeu que se ia atravessar a longa crise sem que fosse aproveitada a oportunidade para tomar medidas que moderassem os rendimentos dos mais ricos em favor dos mais desfavorecidos: os relatórios continuavam a indicar o crescimento descarado do fosso.

Quando caiu na rua, K. teve mais tempo para ver os grafitti, as palavras-de-ordem inscritas nas paredes. Lamentou que entre os seus talentos não estivesse o do desenho. Não gostava de pichagens abjectas ou esteticamente irrelevantes, medíocres, não gostava de borrões idiotas, palavras ocas, mas apreciava quando os autores sabiam transformar uma parede arruinada numa obra de arte, mesmo que subversiva, ou quando o humor ou a inspiração dos slogans se sobrepunham ao eventual prejuízo urbano. Ao contrário de palavras-de-ordem irónicas como «o último a sair apague a luz e feche a porta», não o costumavam entusiasmar slogans como «os ricos que paguem a crise». Mas agora, enquanto aquecia as mãos na fogueira improvisada, perguntava-se se ainda tinha razões para permanecer fiel ao seu pensamento razoável, se aquele não era o tipo de “demagogia” a que um sem-abrigo como ele estava moralmente autorizado a recorrer.


A vida de K. (3)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Naufrágio

Há algo de naufrágio declarado quando o governo e os blogues que o formataram e lhe abanam as folhas de palmeira nas faces se obstinam tanto em mandar bugiar emigrar os conterrâneos. O barco está a ir ao fundo, é notório, tanta água mete. E a culpa há-de ser em grande parte dos que estão dentro do barco, todos nós. Mas desconfio que o capitão não vai ser o último a abandoná-lo. Por enquanto, ainda é jovens e professores primeiro, mas mais para a frente há-de ser o salve-se quem puder — na esteira, aliás, de um passado exemplar.
Ainda um dia havemos de ser elucidados sobre como é que esta aposta na emigração de jovens e quadros se coaduna com aquela mágoa tão típica da direita com a infertilidade do país, o envelhecimento da população. Afinal, a juventude faz ou não falta para viabilizar economicamente a pátria?
Posso adiantar-me e esclarecer o paradoxo. A preocupação com a natalidade existia no tempo em que era preciso defender com estatísticas a falência iminente do Estado Social, agora que ele está em processo de desmantelamento já não são precisas muletas dessas.
Não tenho ilusões quanto ao que é possível o governo fazer nas condições actuais. E há uma boa dose de pragmatismo na exortação à debandada, claro que sim. Só que não precisamos de um Governo para nos dizer o que fazer quando a coisa fica preta, não é exactamente para isso que o elegemos. Seria insensato (é insensato) pedir-lhe que nos assegure o nível de vida anterior, como pedem as diferentes corporações no seu habitual egoísmo. Sempre foi insensato exigir ao Estado que garantisse emprego para todos nas profissões escolhidas, saídas automáticas da universidade para o mercado de trabalho. É estultícia conceber-se um Estado assim. Mas, por outro lado, o mínimo que pedimos a um governo é que lute pela diminuição do desemprego e estimule algo de patriotismo, ou melhor, de participação colectiva no bem comum. As pessoas sentir-se-ão mais confortáveis a pagar impostos e aumentarão mais facilmente a produtividade se o fizerem em nome de um país que se entristece com a saída dos nativos, não de um que os menospreza ou dispensa jactando-se de “frontalidade” e “pragmatismo”.
Não me repugna, porém, que o Governo exorte os conterrâneos a mudar de área profissional (como aliás também fez, diga-se em abono da verdade). Mas para que este apelo fosse mais do que mera hipocrisia, seria preciso que a economia estivesse a ser estimulada para criar emprego. Seria preciso que passássemos da fase do castigo moral (a “solução” exclusiva e beatífica da austeridade) à do vamos lá tentar resolver esta merda, nem que fosse com campanhas de repovoamento do interior, regresso ao sector primário. Está o Governo a fazer algo mais do que gerir a insolvência? Tem planos neste âmbito? Tenciona mostrar na União Europeia que assim não vamos lá e que eles também têm culpa no que nos aconteceu, que os juros que pagamos são inibidores? Não, claro que não. Por isso, quando o Governo indica a porta de saída aos seus cidadãos, não está a ser frontal — está a confessar a derrota, a anunciar que desistiu. Provavelmente antes mesmo de ter tentado.