domingo, 22 de julho de 2012

Morrisey

— Havia uma música dos Smiths onde se repetia hang the DJ, hang the DJ e era a minha última noite e eu entrei na pista da discoteca possuída pelas fúrias a berrar aquele refrão. Gostava da música, pelo que, afinal, era uma injustiça fazer coro de um slogan assim, mas suponho que retoricamente não me importava que se matasse alguém, fosse quem fosse. Não estava era preparada para descobrir que ele era o DJ naquela noite. Eu para ali aos berros a reclamar a morte do DJ, simultaneamente eufórica pela bebida e pela música e infeliz de amores, e o DJ era ele. Os nossos olhares cruzaram-se quando eu rodopiava, e o que vi a seguir a tomar consciência de que era ele foi o meu reflexo num dos espelhos da discoteca. Eu de boca aberta, desgrenhada, braços no ar, escanzelada, sem jeito para aquilo, apenas histérica e demasiado bebida — a pedir que se enforcasse o DJ.*

* Rita, in Aranda

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Surpresa geral

Certeiro, este post do Delito de Opinião: «A normalidade».


Álbum fotográfico

O povo diz que o futuro a Deus pertence e isto tanto pode ser uma manifestação de impotência como de renúncia. Mas e o passado? A quem pertence o passado?
Olhando para algumas fotografias de infância, hesito. Reconheço o décor, o guarda-roupa, os restantes personagens, mas tropeço no protagonista. Quem é aquele indivíduo? De quem são aqueles cabelos? Aqueles olhos generosos? O sorriso inocente? Não faço ideia. As minhas memórias, as que sobreviveram, encaixam vagamente nas cenas retratadas, mas não evito um forte sentimento de desconfiança quando observo a criança que supostamente era eu trinta e tal ou quarenta anos atrás. Se não houvesse outras testemunhas, não me custaria falar em usurpação: um rapazola de belos caracóis a fazer-se passar por este pobre artilheiro.
Avanço entretanto na cronologia do álbum e na adolescência não fico mais descansado. Fico, aliás, mais incomodado. Que cortes de cabelo são aqueles que me atribuem? Que trajes ridículos dizem as fotos que vesti?
Aqui o personagem não me é tão estranho, cruzei-me com ele várias vezes, crescentemente, nos espelhos da casa de banho e do guarda-fatos. Numa ou noutra montra. A partir de certo dia, nos espelhos atrás de balcões em cafés. Quem sabe se na bola de espelhos de alguma discoteca dos anos oitenta, naqueles momentos em que o êxtase nos põe a olhar parvamente o tecto.
Em todo o caso, reconhecer o gajo não é aceitar de ânimo-leve que ele e nós somos um. Estamos a falar de alguém que vimos ao espelho há trinta anos. Quer dizer, há trinta anos havia certamente muita gente a frequentar os mesmos espelhos, quem pode garantir qual dos semblantes reflectidos éramos nós?
Pode acontecer que eu seja um caso particular, que mais ninguém se intrigue assim com um álbum fotográfico. As pessoas tendem a aceitar como boas as memórias que os outros têm da sua própria infância e adolescência. Partem do princípio de que não há no mundo, no seu mundo, maldade suficiente para que alguém minta sobre um período tão inocente. Eu próprio tenho partido desse princípio. Por isso me sinto agora como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, embora ainda não tenha esclarecido a que décadas corresponde cada uma das facetas.
Mas vamos que nos tenham mentido. Vamos que no que toca ao passado tudo não passe de um embuste, uma conspiração. Talvez devêssemos pensar humildemente duas vezes antes de nos gabarmos de feitos da infância: se calhar não éramos nós. De igual modo, talvez possamos deixar de sofrer com as maldades que supostamente fizemos décadas atrás: mesmo que não tenham prescrito, decerto foram cometidas por outra pessoa. Quem tenha dúvidas, que compare o nosso DNA com o DNA das fotos a preto e branco ou com cores deslavadas que alegadamente nos incriminam. Estou seguro de que não coincidem nos pixéis ou nas percentagens CMYK. 
O nosso passado é uma narrativa dos mais velhos. Não temos nada a ver com isso.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Ciberdúvidas

O anúncio da Secretaria de Estado da Cultura garantindo apoio ao Ciberdúvidas é uma boa notícia (outra coisa não se esperaria de Francisco José Viegas). Mas é também uma demonstração de como o “mercado” não assegura sequer os serviços mínimos na área da cultura. José Mário Costa, responsável pelo portal, tentou «contactar vários possíveis mecenas, desde entidades públicas a privadas, mas todas as respostas foram negativas». O “mercado” está-se naturalmente borrifando para a cultura portuguesa. Neste caso, o Estado não. Ainda bem.

Pândegos



A editora, começando por se rir do estereótipo propagado pelo humorista, reflecte a seguir sobre ele. Concluindo que os programas sobre literatura e artes talvez precisem de ser mais animados para convocarem mais espectadores.
Creio que se esqueceu de João Baião. João Baião inventou a TV em movimento (ou aos pinchos, ou lá o que era) — mas parece que isso não serviu de muito as artes ou a literatura.

Talvez, talvez o público se afaste dos programas culturais por causa de formatos aborrecidos ou de apresentadores sem carisma. Aceitemos por momentos esta versão optimista. Imaginemos que doravante a televisão pública apenas contratava gente com o perfil, digamos, de um Herman José, de um John Stewart, ou, sei lá, de um Jay Leno. Íamos todos divertir-nos muito, oh, se íamos.

Isto é um pouco como ver o actor José Pedro Gomes (aliás, par de Bruno Nogueira) orgulhar-se por os seus espectáculos desempenharem um papel fundamental na consolidação do público do teatro. O que é verdade — se considerarmos que todo o teatro é comédia ligeira e todo o espectador um pobre diabo à espera de que o façam rir. Sem esforço.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A subtil gradação da vileza

Portugal ganharia se nos blogues e nos jornais escrevessem comentadores menos engajados, um pouco menos simpatizantes de grémios e bíblias. O jeito que nos dava ter ironistas a sério, daqueles que observam o mundo como dandies de monóculo e copinho de brandy na mão ou deuses sentados em nuvens e indiferentes aos resultados das batalhas humanas. Os ironistas são geralmente cruéis, porque não se condoem das nossas irrelevantes tristezas nem se excitam com as nossas alegrias fátuas. É esta a sua agudeza e a sua utilidade. Têm sempre presente a big picture; para eles, como para os deuses, não passamos de efémeros grãos de areia. Eles mesmos não passam de grãos de areia e sabem-no, por isso o seu lúcido desapego de colectividades, de conveniências e pequenos acontecimentos. (Por isso, também, o omnipresente copinho na mão: lucidez em demasia constrange.)


O caso Relvas é só mais um dos que revelam como entre nós a acutilância e a ironia são substituídas pela indignação emproada e pela hipocrisia congénita. Os comentadores tugas entretêm-se agora, freudianamente, a comparar o nariz-de-pinóquio socrático com a, para o que aqui interessa, não menos helénica penca relviana*. Como se fosse esse o ponto. Como se aos cidadãos não inscritos em partidos interessasse a ponta de um corno a subtil gradação da vileza dos protagonistas.


Para uma nação insalubre como a nossa, o afastamento do Sr. Relvas é uma necessidade sanitária que não precisa de ser cotejada com comportamentos análogos de outros bacharéis**. Impõe-se por si. Mas se os comentadores querem atrasar a História com calibragens, entretenham-se a calcular, para cada caso (Sócrates, Relvas e os mais que virão), a energia que se deve empregar nos respectivos pontapés-no-cu. Desde que os apliquem em tempo útil e independentemente dos importantes resultados a que cheguem.


* Este post e este, do blogue Blasfémias, ilustram o texto acima. O segundo é paradigmático.
** O dicionário do Word explica porque se aplica bem este termo às vidas académicas em análise.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Um bocejo e um breve espevitar de orelhas

As notícias que revelam a saga familiar de dois gémeos separados à nascença — os meninos Relvas e Sócrates — foram recebidas com um longo bocejo. A previsibilidade do mundo não sói entusiasmar.

aquelas que anunciam a perda de mandato do menino Macário fizeram levantar uma ou outra orelhita. Ainda assim, nenhuma excitação que deva preocupar os cardiologistas: são notícias efémeras, que com o tempo do seu lado a Justiça se encarregará de tornar desactualizadas, desmentidas.

Ainda nada de novo na pátria da mesmice.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Justiça

A Justiça portuguesa mostrou ter algum respeito por si própria ao condenar o socialista Ricardo Rodrigues. Isto é especialmente importante quando sabemos que os partidos políticos não se dão ao respeito nem nos respeitam. Recorde-se que o mesmo sujeito que furtou dois gravadores a jornalistas integra, entre outros organismos igualmente sérios, a Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação…
Claro que ele interporá recurso e nalguma instância a Justiça encontrará forma de o ilibar, como é costume. Para alegria dos seus correligionários. E dos seus adversários, desconfio.

Perdemos, e foi bom

Uma coisa é a emoção de torcer até ao fim pela selecção, outra é querer mesmo que ela ganhe. Para uma quantidade demasiado ruidosa e abastecida de combustível de pessoas, uma vitória é uma licença para tomar o espaço público e impedir por longas horas qualquer movimento ou forma de vida ou de expressão para lá do ritual futebolístico.
Nesse sentido, o jogo de hoje, com prolongamento e penalties, permitiu o melhor de dois mundos: emoção redobrada e expandida — e um resto de noite aberto a outras possibilidades.
O campeonato perfeito seria aquele em que Portugal estivesse presente em todas as fases, da qualificação à final, e não ganhasse nenhuma delas. Sou pela emoção do jogo, não pela da vitória.

sábado, 23 de junho de 2012

Parabéns

António Pinto Ribeiro faz hoje no Ípsilon o seu balanço de um ano de Secretaria de Estado da Cultura. Voltarei ao texto mais tarde. Por agora fico-me por algumas observações avulsas.
APR lembra duas iniciativas fantásticas do SEC: a «criação de uma rede de património do judaísmo» e a programação de uma «tournée de Verão a ser realizada por uma orquestra». A primeira proposta tem o seu interesse, sejamos magnânimos, mas faz-nos perguntar, por exemplo, que iniciativas teria Viegas se fosse um apaixonado pela cultura muçulmana, um pouco mais visível no património.
A segunda seria só ridícula se não fosse sintomática (a primeira também o é, aliás): de facto, o que fazia falta em Portugal era uma estrutura do Estado central que se dedicasse à programação. Deve ser a este paternalismo que Viegas chama liberalismo. À moda antiga, pois claro.

Depois da famosa entrevista de FJV ao I em Maio de 2011, é bom fazer notar que em Portugal as apresentações de dança, teatro e música (excepto pop/rock) diminuíram drasticamente (há salas que simplesmente já não programam teatro), mas, hélas!, um ano de SEC depois a música pimba e manifestações conexas não retrocederam. Pelo contrário: procuram ocupar o vazio da restante programação.
Se quisermos ser simplórios, podemos atribuir à falta de dinheiro ou à desistência de algumas câmaras municipais o recuo na programação de qualidade, mas também não custa perguntar à SEC por onde tem andado.
Uma resposta possível é esta: ocupada a telefonar ao maestro Vitorino d’Almeida a propor-lhe o projecto do «Festival Grande Orquestra de Verão» que, pasme-se, vai levar concertos promenade a várias cidades do país, cousa nunca vista nem sonhada.

O país pode portanto dormir descansado: desaparecem o teatro, a dança e a música menos óbvia, mas uma vez no ano vai ter o senhor maestro e uma orquestra expressamente providenciados pela SEC. Uma barrigada.

A propósito: António Pinto Ribeiro também refere «a dimensão kitsh da aplicação obrigatória da menção ‘Governo de Portugal’ em todo material de comunicação de todas as acções que tenham um mínimo de apoio do Estado». Esqueceu-se de referir que na cultura a menção inclui ainda «Secretário de Estado da Cultura». Secretário, não Secretaria…

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Literatura “transmontana”

Visito com menos regularidade do que devia a Casa de Cacela, mas regresso dali sempre com um gosto bom nos lábios de ter lido em voz baixa os poemas de José Carlos Barros. (Havia um vizinho que lia assim, num sussurro permanente, os livros do Mandrake ou lá o que eram, e talvez não me devesse ter rido dele: também eu descobri que certas frases ou estrofes precisam de ser ouvidas, mesmo que num murmúrio, para serem desfrutadas. Ou entendidas.)
Há qualquer coisa que me encanta nos poemas de JCB e pergunto-me quanto disso é a sua revisitação de Trás-os-Montes, uma revisitação de quem não vive em Trás-os-Montes. Tive idêntico sentimento quando li Ernestina, de J. Rentes de Carvalho. Na altura escrevi que às vezes a literatura pode passar por uma região sem se atolar nela. Esta afirmação tinha implícito um desdém pela literatura transmontana, que na minha presumida opinião vivia atascada na lama patrícia, mesmo nos escassos momentos em que parecia querer sobressair.

É tristemente redutor que uma obra literária seja abordada pelo barro que utiliza, mas por vezes pergunto-me, com injustiça, se não é isso que alguns leitores e comentadores fazem, mais fascinados pelo exotismo regional ou epocal do que pelos méritos da prosa. Não raro leio José Carlos Barros com um fascínio não sei se inverso se análogo: o fascínio de quem nunca tendo vivido fora de Trás-os-Montes identifica a região que ele evoca como se sempre a tivesse visto pelas mesmas lentes focadas a partir do Algarve.

Rui Catalão, crítico do Público, tem revelado o seu particular fascínio transmontano. Creio que ainda nenhum outro crítico falou dos livros de Manuel António Araújo, escritor de Chaves, mas pode ter sido distracção minha. Catalão não parece ter chegado aos dois livros que recenseou daquele autor pela sua proveniência regional, e o exotismo que o atrai talvez não seja geográfico, mas o do próprio universo literário dos textos. Contudo, há algo de profundamente transmontano em mim quando me descubro a ler as recensões com a complacência que os caseiros dedicavam aos senhoritos de visita às propriedades nas berças.

Trás-os-Montes é o título do livro vencedor do Prémio Agustina Bessa-Luís. Tiago Patrício, o seu autor, é madeirense de nascimento mas viveu aqui até aos 19 anos. Revelou ter resistido até ao fim a escolher aquele título porque «não queria denunciar o sítio do romance», mas o júri tomou em consideração «as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes».

Durante um ano ou dois convivi nas páginas do Semanário Transmontano com Manuel António Araújo, mas ainda não li os seus livros. O que temerei? A enésima repetição da «dureza» da vida em Trás-os-Montes que tanto fascina as novas gerações literatas urbanas? Ou descobrir finalmente que um conterrâneo não precisa de ir viver fora para escrever bons livros? No primeiro caso, é talvez preconceito da minha parte. No segundo, é preconceito e inveja.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Pelos céus comunitários*

O casal de namorados que viu de manhã fê-lo lembrar-se de si próprio. O artista quando jovem. Passou por eles ao contornar um relvado (detestava a merda dos cães — não tanto quanto os bichos em si, claro — e não queria correr o risco). Primeiro notou o olhar vago da rapariga. Ela fixava um ponto qualquer no correr de edifícios do outro lado da rua. O namorado assediava-a. Queria um beijo, um toque, roçar-lhe o seio, o entrepernas. Queria fodê-la, em suma. Quim Zé voltou para trás e foi posicionar-se num sítio onde poderia apreciar a cena. Conhecia-a. Vivera-a muitas vezes. A rapariga resistia fracamente às investidas. O olhar fixo era sonhador. Queria estar naquela situação — mas com outro tipo. Não a repugnava ser beijada, apalpada, fodida, mas ficava melancólica pela tremenda má-sorte. Aceitara o namoro porque uma gaja tinha de namorar, não era? Mas agora só queria acabar com aquilo. Cumprir o seu papel, distanciada, resistindo tanto quanto possível, e rezar para que da próxima vez as coisas se passassem com outro, com um de meia dúzia que ela era capaz de enumerar.
Quim Zé também sabia o que o rapaz pensava. Não era muito diferente, de resto, do que pensava a rapariga de olhar perdido. Os rapazes não sabiam fazer aqueles olhares (excepto alguns, profissionais de outro calibre) mas também não era o seu papel. O seu papel era investir, forçar caminho, sem demasiada ternura mas sem violência. E geralmente pensavam o mesmo que elas, partilhavam a mesma sensação de infortúnio: era outra tipa que gostavam de ter ali à mão. A diferença é que os rapazes conseguiam mesmo entusiasmar-se com o que tinham: afinal, havia mamas, carne.
Depois do almoço a cena foi mais insólita, mas não menos previsível (se o seguiam no raciocínio). Da varanda de um edifício baixo de habitação estavam a ser arrojadas roupas e objectos pessoais. Uma ou outra peça de mobília. Em cima, possuída por fúria bíblica e forças sobrenaturais, actuava uma mulher. No passeio, encolhido contra um poste, envergonhado, humilhado, vencido, pouco menos do que morto — um homem, marido da senhora. Era a cena típica que estava reservada a todos os casais, só que esta viera para a rua. O homem, como Quim Zé bem sabia, estava a assistir a um filme, como se diz que as vítimas de acidentes assistem antes da inconsciência. Toda a puta da sua vida em ecrã panorâmico, a 3D. Os erros, as estupidezes, os momentos em que podia ter evitado chegar a este ponto, as encruzilhadas onde poderia ter escolhido outra direcção. Mais um imbecil que acreditara no amor e que agora via as suas cuecas e as suas peúgas espalhadas pela rua, depois de um voo gracioso pelos céus comunitários.

*in Aranda

sábado, 16 de junho de 2012

Cemitérios*

Quim Zé (…) a dada altura queixou-se da frivolidade dos assuntos.
— Falemos de coisas grandes, profundas, não do comezinho.
Beto ia protestar, mas desistiu, talvez por não se sentir com forças. Preferiu reabastecer-se de whisky enquanto perguntava:
— E quais são as coisas grandes?
Não era retórica, o cérebro de Beto já precisava de alguma ajuda.
— O amor, a morte, a guerra, temas destes — informou-o Quim Zé.
— Ah… Ok, podes começar — disse Beto recompondo-se com esforço na cadeira, o que o fez parecer irónico.
Quim Zé olhou através da janela para a noite escura durante um hiato considerável Depois decidiu-se:
— O que pensas dos cemitérios?
— ?
— Bem, tanto faz o que pensas. Não há muito para pensar, não é? Pacientes centrais de reciclagem, se quisermos ser espirituosos. Depósitos de ossos com entrada interdita a cães… Na verdade, são uma quantidade infindável de talhões cobertos com mármores e granitos em feroz competição pela honra de serem o monumento mais kitsch da cristandade. (Se ao menos o conseguissem…) Há tempos fui visitar um. Não um qualquer: aquele onde estão os meus antepassados. Não ia ali desde pequeno e foi um choque ver o que a família fez daquilo. Não sou uma pessoa simples, não me interessam a modéstia e a humildade, a singeleza. Não sou dos que apreciam aqueles cemitérios bucólicos ingleses ou irlandeses, pradozinhos sem mais do que lápides ou cruzes e erva. Mas não contava que se pudesse profanar a memória desta forma. Ia a contar com a nossa velha cruz de pedra, coberta de musgo, com os seus relevos medievais de cordas entrançadas, e a laje venerável que sempre cobriu as campas paralelas, com um clássico epitáfio lavrado em latim, encaixado numa moldura elegante em alto-relevo. Era assim o nosso jazigo, tanto quanto o lembrava; nada que pudéssemos evocar com ênfase em ocasiões sociais, se o assunto era a estética, mas ainda assim um túmulo com uma nobreza antiga, respeitável, antes de mais por vir da bruma dos tempos. Se havia que intervir naquilo, eu deveria ter sido consultado. Quase vomitei por cima dos meus avós quando vi a que ponto desceu o gosto da família. Como se eu tivesse nascido no seio de uma parentela de emigrantes ou empreiteiros. No novo jazigo, agora com ar de templo, não faltavam coluninhas dóricas e capiteis, pórticos, o barroco e o gótico de mãos dadas, mas tudo grosseiro, sem fineza (embora em materiais polidos), sem verdadeira cultura arquitectónica ou iconográfica, como se o trabalho tivesse sido entregue a um aprendiz sem talento nem estudos, incapaz de desenhar uma linha recta, mas igualmente inábil com as volutas e ignorante quanto à estética. Um escândalo em forma de túmulo de família. Não um escândalo — se fosse um escândalo sentir-me-ia redimido, gosto de escândalos —: um aborto. Uma monstruosidade onde supostamente eu estava destinado a descansar para sempre. Nem morto! Tornei-me ali mesmo partidário da cremação. Venha o fogo purificador que me impeça de me tornar numa espécie de ex-voto para peregrinações novo-ricas.
— Mas não era disto que queria falar — continuou Quim Zé. — Quando decidi visitar aquele local ia em busca de algo que imaginava poder obter de um cemitério: um momento de paz, serenidade, fé, resignação. (Sim, estava transformado num idiota naqueles dias.) Depois de recuperar do choque estético, foquei a minha atenção nos retratos de família, sabes, aquelas fotografias em tons de sépia que se metem em molduras ovais. Havia uns poucos daqueles, contudo eu olhava-os como se olhasse para desconhecidos. Lembrava-me de um ou outro pendurado lá por casa, mas diziam-me tanto como o retrato do Dom Manuel ou do Dom Carlos, que também por lá andavam. Nem sequer me reconhecia naqueles traços físicos, não mais do que nos retratos dos túmulos ao lado. Aliás, tanto quanto poderia asseverar, a existirem ali laços familiares visíveis, eles uniam era os defuntos uns aos outros. Os mesmos rostos — duros, ossudos, angulosos, de maxilares fortes e sobrancelhas cerradas — espalhavam-se para um lado e outro daquela ala.
— Na minha família não se falava muito do passado — confidenciou Quim Zé —, não mais do que para evocar a antiguidade dos genes, e para tal bastava um par de frases pomposas. Por isso eu perguntava-me ao ver as fotos no túmulo que mulher era aquela cujo rosto enrugado se encerrava anacronicamente dentro de um penteado redondo dos anos cinquenta? E o homem na moldura ao seu lado? O que distinguia aquele bigode farto de tantos outros que povoavam o cemitério? Não havia respostas para mim. Tinha ido porque me sentia um elefante com ordens para depositar o marfim no cemitério da espécie, mas os defuntos da família não me reconfortavam, não me sentia inclinado a tombar ali — e não era apenas por aquela ser uma última morada horrenda. Na verdade, e este é o pormenor mais inesperado da visita, não senti nem por um minuto a presença da morte naquele vasto campo de bijutaria. A terra, se eu tivesse sido capaz de a ver debaixo de toda a feia ornamentação, não me requisitava. Não me sentia na iminência de descer à cova. E era estranho, porque eu andava a ver a morte por todo o lado, a senti-la chegar.

*in Aranda

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Música*

— Eu sou do género de sair à noite com a música aos berros no carro, ainda sou — disse Mário. — Meto um CD e abro os vidros. É a minha forma de estar deprimido, não te rias. Não quero saber o que pensam os outros. Escolho o que de mais foleiro houver na minha discoteca. Não tenho nada assim de muito foleiro, mas sempre se arranja alguma coisa. Bem, não te vou enganar, há coisas bastante foleiras na minha discoteca. Mesmo hardcore, na verdade. Um tipo previne-se, não é? Se sabes que tens essa panca não ficas à espera que os discos te apareçam no carro. Compra-los. E olha que é preciso alguma atenção ao mercado do lixo. Comprar esterco exige um certo método, quando a tua formação é outra. Tens de te libertar de tudo o que aprendeste e tentar pensar como um imbecil, um falhado, um bimbo, ou seja lá como for que se designam os que genuinamente compram aquelas coisas.
— Antigamente era mais simples, estava tudo nas feiras, nos ciganos, e só ali. Passar por lá a ver aquelas capas e a ouvir aquelas canções era um prazer e uma grande galhofa. Ah, que castiço o povo, que típico. Que divertido misturarmo-nos e sermos condescendentes. Comprava-se uma cassete ou duas, para ajudar os vendedores e para as pormos de surpresa no leitor numa qualquer festa das nossas. Mijávamo-nos a rir com aquilo; trazer o vulgo para casa era divertido.
— Claro que de repente a foleirice não é só um divertimento inofensivo, é mainstream — Mário fez um parêntese. — Houve um tipo da televisão que também achou divertidíssimo levar aquilo para o seu show, queria rir-se e gozar à brava mesmo nas trombas dos pacóvios que iam lá interpretar as suas cantiguitas de tasca, embaixadores esforçados da província. O gajo ria-se e eles começaram a rir-se nas suas costas (talvez também na cara) e passaram a sofisticar-se e a teorizar sobre a sua arte, genuína e tal, verdadeiramente popular, e de repente aquilo saiu do esgoto, do submundo, da clandestinidade, e era o que estava a dar. O tipo da televisão, ou porque aquilo fez revelar-se a sua verdadeira face, ou porque viu a audiência mudar, deixou-se de Monty Phyton e mais não sei o quê e pintou o cabelo e abraçou incondicionalmente o povo. Isto é, em resumo, a história da TV nos últimos vinte anos. Deprimente, não é?
— Mas o que estava a dizer é que gosto de pôr a música aos berros no carro. Irrompo pela baixa com o que de mais brejeiro encontrar no porta-luvas e as pessoas admiram-se por aquele som sair deste carro, conduzido por um tipo bem-parecido, endinheirado, como eu. Ou não se admiram com isso, admiram-se por a matrícula não corresponder ao esperado; uma matrícula nacional, pode lá ser. Ou já nem se admiram de todo, eu é que alimento esta ilusão de originalidade. Creio que a única altura em que a minha atitude causa mesmo surpresa é quando chego atrasado e de volume no máximo aos concertos de música clássica da família. O velho bobo a regressar à corte, agregada em volta de Mozart como numa missa contra as invasões bárbaras.
— Mas não era de dramas existenciais que te queria falar. Ouvir música aos berros não é só a uma forma de épater le bourgeois (expressão irónica na minha boca, não? Gosto dela). É um estímulo de que necessito amiúde. Claro que também ouço coisas decentes. Tenho a minha própria banda sonora. E para esta viagem tinha de ser realmente criterioso. Não estamos apenas a ir de um sítio a outro. Estamos a recuar no tempo, estamos a passar de uma época para outra. É isso o que realmente me excita nesta ideia. Voltar a Aranda… Voltar a Aranda é como viajar no tempo.
— Bem, trouxe os cedês adequados. Começámos por Nouvelle Vague não por acaso.

*in Aranda

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Verão*

— Por vezes — disse Mário — penso que o Verão, aquela altura do ano em que vamos definitivamente ser felizes, é um mito, uma projecção dos nossos desejos mais íntimos. Ou talvez uma evocação. Sim, definitivamente uma evocação. Vejamos: o Verão existiu, um dia houve Verão. Não é como Deus ou os santos, nos quais temos de acreditar sem evidências nem testemunhos, cegamente. Não é uma questão de fé — mas está imbuído da mesma intangibilidade. Temos as nossas memórias dele, sem dúvida que temos. A felicidade estava ali, por todo o lado, inundando tudo naqueles fins-de-tarde intermináveis, como uma cornucópia generosa que não parasse de jorrar luz e prazer e boas coisas a todo o momento, um regador gigante manuseado pela mão de Deus, aspergindo com uma nuvem de vapor inebriante, muito fina e suave e fresca, os nossos dias incontáveis e incontados.
— Mas o Verão — continuou Mário — não tem existência senão no passado, por isso o seu carácter mitológico. Ano após ano alimentamos a esperança de que agora é que vai ser, vamos repetir tudo a que temos direito, o ócio, as sestas depois de almoço, os planos para as diferentes partes do dia que se não se cumprirem não importa pois há tantos dias à escolha, as manhãs sem fim, os almoços longos, com sobremesa, as tardes a perder de vista, os jantares com guitarras e cantorias eufóricas, as noites também habitáveis, usufruíveis (a uma da manhã à distância da Namíbia, se não mais longe ainda, de qualquer modo sempre para lá do Bojador).
— Depois eles acabaram com o Verão. A humanidade prestes a cumprir-se (as máquinas farão as coisas chatas, dizia-se em 1900 — em 1900!) e eles a acabar com o Verão. A tecnologia de ponta, a riqueza, o voto universal, a igualdade, o amor livre, o homem na Lua, tantas evoluções — e eles a acabar com o Verão.
— Em 1967 eu ainda não sabia que eles estavam a acabar com o Verão. Quer dizer, eu estava a nascer, não é?, não podia reparar logo nisso, tinha as minhas próprias prioridades. Durante os primeiros anos e os seguintes, tudo o que fiz foi aproveitar o Verão, carpe aestivum. Não de uma forma táctica, oportunista, reflectida, filosófica, ideológica. Não. Nada disso. No sentido menos consciente da expressão. Apenas mergulhando plenamente nele, de trombas, de barriga, de costas, lançando-me para ele como pudesse e a todo o momento. O Verão estava ali à mão de semear, era gratuito, para todos, cada um que fizesse dele o que quisesse. Não havia um minuto a perder (embora houvesse imensos minutos para perder), tudo o que tínhamos a fazer era dar uma corridinha rápida, um saltinho para o ar na beira e, zás, cair nele de cabeça, formosamente, atleticamente, imensamente, para sempre.
— Sim, para sempre. Aqueles que mergulharam no Verão naqueles anos sabem do que falo. São, como eu, os despojados do Verão. O cume da raça humana, a quem subitamente tiraram o tapete de debaixo dos pés. O tapete não, a prancha, o trampolim. Íamos nós para mais um salto, joelhos ligeiramente flectidos para o impulso que nos lançaria nos céus como um Ícaro sem percalços e de repente também nós temos um percalço. O maior deles todos. Não há prancha. Não há trampolim. Não há Verão. De todo. Há apenas a queda. A longa e interminável queda. O lado simétrico do Verão. Algo que nos puxava para baixo onde antes nos sentíamos enlevados. Para baixo, sempre para baixo, Alice caindo pelo buraco mas sem nunca chegar ao País das Maravilhas. Nem a lado nenhum. Nem sequer ao Inferno, que poderia ser um sucedâneo do Verão, com o seu próprio calorzinho. Não. Nada. Apenas a queda. A Queda e o Tempo. Tempo para ponderar a perda. Para gravar mais profundamente na nossa pele o que estávamos a perder. Não como o Verão gravava na pele a sua infinita bondade, com uma cor, um tom, o bronze, nalguns casos o ébano puro — sem escaldões nem melanomas.
— Depois de alguma vez se ter entrado no Verão, como eu entrei, como nós entrámos, a vida torna-se muito difícil. Há a Queda, claro — aguardamos a todo o momento ficarmos esborrachados, como um poio a cair do cu de uma vaca lacónica —, há a queda, mas houve o Verão. Estamos para aqui a cair, sempre a cair, mas temos uma memória, algures no nosso cérebro temos registos de que houve um Verão. Um não, dez ou vinte, a eterna repetição, a terna repetição da melhor coisa que o mundo teve. Haverá castigo maior do que esse? Conhecer o Paraíso e perdê-lo? Saber como as coisas podem ser e depois sermos informados de que nunca mais as coisas serão assim? Que daqui para a frente o que nos resta é lembrar, lembrar e chorar a perda até à neurose? Freud, Freud, onde andas? Era isto que tu querias, não era, meu sacana? A humanidade a remoer as suas neuroses e a comprar os excitantes, os calmantes, os soníferos que gajos como eu prescrevem aos outros e a si mesmos. Que bela ideia de negócio, a tua, ó sócio.
— Quer dizer, se ao menos as férias não fossem apenas um mês, se pudéssemos ir três meses para França, para o Loire, alugar um castelo com piscina até nos aborrecermos… Deliro, bem sei. Fico sempre assim quando chega o Verão — concluiu Mário.

*in Aranda

quarta-feira, 13 de junho de 2012

The siege

Havia aqui uma esplanada que era um oásis no bairro de baiucas noctívagas onde vivo. Bom serviço, boa carta, bom gosto, boa música em níveis discretos, sem televisão nem luzes estentóricas. Isso acabou, talvez porque a concessão tenha chegado ao seu termo (o bar é camarário), ou porque era um espaço intolerável no mundo de hoje. Alguém na câmara ou na cidade certamente ansiava por revogar a licença de empresa tão elegante e há aqui sempre mais um empresário disposto a replicar o conceito chunga das restantes tascas das redondezas. Os moradores? Permanecem indiferentes, viciados na receita de soporíferos que têm de tomar todas as noites para continuarem a habitar o seu próprio bairro.
O cerco continua.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A propósito de bola (ou talvez não)

Tinha ficado bloqueado naquela canção como um disco riscado e ela gostava de o levar a passear pela rua enquanto ele a cantava baixinho e lhe apertava a mão. Will you still need me, will you still feed me. Tinham mais de sessenta e quatro (a esperança de vida aumentara desde os Beatles), mas, sim, ela continuava a precisar dele e a alimentá-lo, agora de uma forma literal, a colherinhas de sopa.
Havia um recolher obrigatório — os tempos hoje em dia eram deste jaez — mas ela estava cansada de estar em casa, queria sentir a brisa do fim da tarde, passear de mão dada pela marginal. De modo que mandou às malvas os avisos e fez o que lhe apetecia fazer.
As claques não tardariam a encher as ruas, evidentemente. Era dia de derby, e as autoridades faziam questão de reservar o espaço público para os hunos em dias destes. Faziam-no em nome da segurança e do bem-estar social. E, de facto, ela tinha de concordar que de um certo ponto de vista era mais razoável para o cidadão comum (caso ainda existisse) ficar em casa, sequestrado pelo seu próprio governo.
Mas não naquele dia. Tinham passado cinquenta anos desde o casamento precipitado no final dos anos sessenta, quando ele confundiu o desejo dela com paixão e ela, que pensara iniciar então uma vida de amor livre e flores no cabelo, se embeveceu com a ingenuidade do futuro marido e acedeu a dizer sim, mesmo que na altura não achasse que aquilo a comprometia de forma alguma. Cinquenta anos em que nem por um dia a banda sonora oficial daquela união improvável (will you still need me, will you still feed me) deixou de se ouvir. Cinquenta anos era mais do que tinham o primeiro-ministro, o ministro das finanças e o ministro-adjunto, a tríade que o país escolhera, talvez num desfile de manequins (o que era feito dos anciãos, por Deus?).
Talvez já não houvesse muitos velhos para além de eles os dois. Aqueles que se lembrava de ter visto contavam-se pelos dedos das mãos. Mas na verdade não reparava muito no que havia à sua volta. Quando saía só lhe interessava ir sentar-se num banco a ver a foz e a acariciar a mão do marido, que o Alzheimer felizmente cingira à faixa certa do álbum, mesmo que ela não apreciasse particularmente o arranjo meio pateta que o McCartney providenciara para a musiquinha.
Ao chegar ao fim da avenida o tempo começou a mudar e ela arrependeu-se de não ter trazido os abrigos que tinha sempre pendurados no vestíbulo — mas não se arrependeu de ter saído. Talvez chovesse (havia relâmpagos a cruzar o céu), mas o que era mais romântico do que um passeio à chuva? Haveriam de sobreviver à constipação, se ela os acometesse, e a maré viva era um espectáculo que ambos apreciavam.
Sim, estava verdadeiramente excitada com a decisão de ter saído apesar de tudo e todos pretenderem o contrário. Ainda havia alguém no país que fazia o que lhe apetecia e não o que era determinado. E Deus, no caso de existir tal singularidade lá em cima, bem poderia convocar as tempestades que quisesse. Se ela achava que lhe calhava bem um passeio até à foz, vinha até à foz. Feliz por ter o marido de sempre a cantarolar-lhe na sua vozinha querida a melhor declaração de amor.
Depois de se terem sentado a ver a espuma das ondas, a primeira claque passou nas costas deles, bastante desmotivada, quebrando apenas uma ou outra vitrina e incendiando escassos contentores de lixo. Meia hora mais tarde, escoltada pela polícia, veio a insolente claque adversária, com disciplina militar e sarcasmo palaciano, entoando um conhecido cântico guerreiro.
João, o marido, voltou-se para trás, com um sorriso e um dedo hesitante de maestro no ar. Demorou algum tempo a apanhar a melodia, mas depois atacou-a a plenos pulmões — e ela soube pela primeira vez em cinquenta anos o que era a traição.