É certo que, como o Mestre Karamba, nem sempre respeitam o dístico publicidade não solicitada aqui não,
obrigado, mas são bem menos insistentes do que os postilhões das
superfícies comerciais, dos stands
automóveis e até do que a propaganda municipal. A tradicional alergia às suas
visitas é, portanto, preconceituosa, contra a liberdade religiosa — e sobretudo
ignorante das estatísticas.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Estatística dos proselitismos
Não se leia no post acima desdém
em relação às Testemunhas de Jeová ou aos Mórmons. Pelo menos não mais do que em
relação aos católicos ortodoxos e a outras espécies proselitistas. Se puder
julgar pela minha experiência, aqueles enviados de Deus são geralmente mais afáveis
e não mais insistentes do que os vendedores de seguros, de produtos bancários e
de pacotes de chamadas para telemóveis. E são mais inofensivos: a eles não os
podemos acusar de qualquer responsabilidade na crise.
Uma canção contra o tédio
Uma banda punk cá do burgo cantava há anos uma letra que reescrevia o poema de Augusto Gil, mas cujo humor precisa de ser
actualizado. Rezava mais ou menos assim: Batem
leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Oh c…... São Testemunhas
de Jeová!
A visita mais temida nos lares portugueses é agora a do inspector das finanças ou do administrador
de insolvência, mas se a questão é o tédio, talvez a letra devesse esquecer os
pobres missionários e adaptar-se aos novos moralistas, os que andam por aí na
blogosfera e na imprensa, ataviados com o seu luteranismo luso, a tentar convencer-nos
de que na última década habitámos Sodoma e Gomorra.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Domingo desportivo III
A ideia era por aqui o video, mas o que me interessava mostrou-se sucessivamente resistente ao meu saber tecnológico e a paciência esgotou-se. Fica aqui o link.
Vocação para ler
Quando tudo nos falha na vida, resta-nos sempre o talento dos outros. Se
escrevesse um livro de auto-ajuda, seria esta a lição que eu transmitiria. Um
lição inexacta, contudo.
Desde cedo alimentei indecisas ambições artísticas. E também cedo
aprendi a definir-me, antes de mais, como alguém que assiste ao que os outros
criam. Isto não foi o prémio de consolação que atribuí aos meus escassos
talentos, mas a consciência de que me vinha mais prazer do acto de ler, ver ou
ouvir do que de “criar”. Mesmo agora, quando a escrita me recruta
quotidianamente, me comprazo em saber que um livro me aguarda com paciência na mesa-de-cabeceira.
Não porque tema falhar e precisar de conforto nas palavras dos outros, mas
porque estou ciente da minha vocação para ler. O talento dos outros não é,
afinal, uma panaceia para o mal d’être,
mas o território onde as nossas próprias aptidões se exercem e exercitam. Assistir é viver.
Vasco Graça Moura e a arte contemporânea
Vasco Graça Moura, conhecido opositor dos subsídios à arte “contemporânea”, escreveu para o S. Carlos o libreto da ópera Banksters, inspirado na peça Jacob e o Anjo, de José Régio. A ópera (de Nuno Côrte-Real, encenada por João Botelho) foi levada ao palco presumo que com dinheiro público, mas acredito que VGM, fiel aos seus princípios, não tenha cobrado um tostão pelo libreto.
Aparentemente, se um texto for escrito para o género “ópera” não é considerado criação contemporânea, mesmo que a ópera seja encenada à “moderna”, com música de um autor ligeiramente mais novo do que Rossini, digamos assim. Talvez a ousadia criativa do nosso tempo seja admitida se se submeter aos géneros clássicos*. Afinal, o que importa não é a qualidade da obra, mas a gaveta onde se pode arrumar. Não importa se Nuno Côrte-Real é inferior a Mozart — importa que escreveu uma ópera. Não importa se Vasco Graça Moura é inferior a Martin McDonagh ou a Jacinto Lucas Pires — importa que escreveu um libreto. Um libreto cujas personagens, aliás, se chamavam Angelino Rigoletto, Santiago Malpago e Mimi Kitsch.
*Desconfio que não, desconfio que ainda teria de passar pelo crivo do gosto de VGM.
Aparentemente, se um texto for escrito para o género “ópera” não é considerado criação contemporânea, mesmo que a ópera seja encenada à “moderna”, com música de um autor ligeiramente mais novo do que Rossini, digamos assim. Talvez a ousadia criativa do nosso tempo seja admitida se se submeter aos géneros clássicos*. Afinal, o que importa não é a qualidade da obra, mas a gaveta onde se pode arrumar. Não importa se Nuno Côrte-Real é inferior a Mozart — importa que escreveu uma ópera. Não importa se Vasco Graça Moura é inferior a Martin McDonagh ou a Jacinto Lucas Pires — importa que escreveu um libreto. Um libreto cujas personagens, aliás, se chamavam Angelino Rigoletto, Santiago Malpago e Mimi Kitsch.
*Desconfio que não, desconfio que ainda teria de passar pelo crivo do gosto de VGM.
Adenda
Se a Secretaria de Estado da Cultura, citada nesta notícia do I, estiver certa (e espero que
esteja), o meu post anterior perde uma parte da sua razão. Salvam-se contudo as considerações
sobre o métier opinativo em Portugal. Era assim antes, é assim agora.
A instituição sou eu
As pessoas concordam com a resistência de Vasco Graça Moura ao acordo ortográfico e por isso aclamam-no. À direita, transformam-no mesmo em herói. Estão dispostas a passar por cima da irregularidade da sua decisão no CCB.
É assim que se constrói opinião em Portugal. As acções estão certas ou erradas de acordo com a ideia que as inspira e aquilo que pensamos dela. Os fins justificam os meios, se forem os nossos fins. Não há espaço para leis, normas, procedimentos, ética, deontologia, razoabilidade, divergência, prudência, nada. A nossa opinião (e dos nossos compadres) é a baliza final, ela determina o valor das coisas, certifica a sua conformidade. As leis, as normas, a ética apenas têm valor se precisarmos que elas integrem o nosso arsenal argumentativo, quando a opinião parece não nos ser suficiente. Mas se for o adversário a invocá-las, de pronto as desvalorizamos. Agir à margem delas é legítimo para os nossos correligionários — e é inadmissível para os nossos oponentes.
O cidadão comum habitua-se a estes modos tão ligeiramente adoptados por políticos, dirigentes e opinion makers. Como esperar dele respeito pela justiça ou pela política? Nestas condições, surpreenderia que o povo português tivesse um perfil cívico exemplar. Significaria que as pessoas se regiam por valores não partilhados pelas elites do poder e por aqueles que as sustentam nos jornais e nos blogues. Significaria também um contra-senso: um povo capaz de reconhecer e recusar para si a iniquidade mas desinteressado de a derrubar dos círculos influentes.
Temos uma elite opinativa demasiado contaminada pela clubite futebolística. Talvez porque muitos dos seus membros são também frequentes comentadores desportivos. Por alguma razão — inadvertência ou talvez fraqueza de espírito —, esta gente perde referências e julga-se permanentemente no terreno da paixão futebolística, onde, por jovial estupidez, se convencionou poder suspender-se a razão e a inteligência e se erigiu como máxima definição de carácter o amor camisola.
Em entrevista de véspera ao Público, Vasco Graça Moura deu sinais de sensatez ao dizer que a sua opinião pessoal sobre as artes seria subordinada ao superior desígnio da entidade que ia dirigir*. Neste contexto, a sua decisão sobre o acordo ortográfico é contraditória e permite-nos desconfiar com certa legitimidade de como será o seu mandato à frente do CCB também no que respeita à estratégia de programação. Depois desta atitude, só podemos temer que a instituição será ele.
P. S. Para que conste, sou contra o acordo ortográfico, e toda a desobediência civil neste caso me parece muito bem-vinda. Também será para mim bem-vindo todo o esforço que, depois de acatar as regras da democracia, Graça Moura faça junto do seu governo para que este promova a suspensão do acordo.
* Basicamente, foram declarações preventivas. VGM quis evitar que a controvérsia emperrasse desde o início o funcionamento da instituição e o impedisse de brilhar.
É assim que se constrói opinião em Portugal. As acções estão certas ou erradas de acordo com a ideia que as inspira e aquilo que pensamos dela. Os fins justificam os meios, se forem os nossos fins. Não há espaço para leis, normas, procedimentos, ética, deontologia, razoabilidade, divergência, prudência, nada. A nossa opinião (e dos nossos compadres) é a baliza final, ela determina o valor das coisas, certifica a sua conformidade. As leis, as normas, a ética apenas têm valor se precisarmos que elas integrem o nosso arsenal argumentativo, quando a opinião parece não nos ser suficiente. Mas se for o adversário a invocá-las, de pronto as desvalorizamos. Agir à margem delas é legítimo para os nossos correligionários — e é inadmissível para os nossos oponentes.
O cidadão comum habitua-se a estes modos tão ligeiramente adoptados por políticos, dirigentes e opinion makers. Como esperar dele respeito pela justiça ou pela política? Nestas condições, surpreenderia que o povo português tivesse um perfil cívico exemplar. Significaria que as pessoas se regiam por valores não partilhados pelas elites do poder e por aqueles que as sustentam nos jornais e nos blogues. Significaria também um contra-senso: um povo capaz de reconhecer e recusar para si a iniquidade mas desinteressado de a derrubar dos círculos influentes.
Temos uma elite opinativa demasiado contaminada pela clubite futebolística. Talvez porque muitos dos seus membros são também frequentes comentadores desportivos. Por alguma razão — inadvertência ou talvez fraqueza de espírito —, esta gente perde referências e julga-se permanentemente no terreno da paixão futebolística, onde, por jovial estupidez, se convencionou poder suspender-se a razão e a inteligência e se erigiu como máxima definição de carácter o amor camisola.
Em entrevista de véspera ao Público, Vasco Graça Moura deu sinais de sensatez ao dizer que a sua opinião pessoal sobre as artes seria subordinada ao superior desígnio da entidade que ia dirigir*. Neste contexto, a sua decisão sobre o acordo ortográfico é contraditória e permite-nos desconfiar com certa legitimidade de como será o seu mandato à frente do CCB também no que respeita à estratégia de programação. Depois desta atitude, só podemos temer que a instituição será ele.
P. S. Para que conste, sou contra o acordo ortográfico, e toda a desobediência civil neste caso me parece muito bem-vinda. Também será para mim bem-vindo todo o esforço que, depois de acatar as regras da democracia, Graça Moura faça junto do seu governo para que este promova a suspensão do acordo.
* Basicamente, foram declarações preventivas. VGM quis evitar que a controvérsia emperrasse desde o início o funcionamento da instituição e o impedisse de brilhar.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Acontece
Leio a crónica da última página do jornal de hoje e estranho: o JN mudou de grafismo? Pouco provável. Coço a cabeça: o Manuel António mudou-se para o Público? Não. É o Vasco a ter razão completa. Também lhe acontece.
Depois do futuro, com o passado nos iludimos
Alguns
procuram nas memórias da infância e da adolescência — quando elas têm mais de
vinte e cinco anos — alívio ou uma forma de relativizar os problemas que aí
vêm. Suponho que os afortunados de antes são os optimistas de agora. Também tenho a minha versão de infância feliz,
pobrete mas alegrete. Escrevi episódios de uma epopeia dessas na anterior vida do
Canhões. A espaços, conto-os de novo,
quando reparto pão e vinho (mais pão do que vinho, que a generosidade tem limites) nas agora raras
despreocupadas ceias de condiscípulos. Depois
dos factos, somos (quase) sempre capazes de assobiar e ver o lado brilhante da
vida. Se por vezes relatamos tragédias é apenas para aumentar o contraste dos
momentos bons. Como quando saímos da tropa, fanfarrões, as agruras e a humilhação
a servirem para dar o tom heróico aos quinze meses de aquartelamento.
Nas nossas narrativas, o drama é, por inversão, o palhaço rico que apenas
existe para fazer brilhar o palhaço pobre — que, naturalmente, é o mais feliz
dos dois.
Acontece
o mesmo com a evocação do mundo rural. A singeleza, os bons sentimentos, a
solidariedade, o ar puro, a honestidade, a franqueza, os dias a decorrer ao
ritmo natural, a confiança, o amanhecer e o pôr-do-sol, o sol a pino e a três
quartos, e a chuva purificadora e a neve imaculada e o murmúrio do vento nas searas de trigo ou no veludo das parras em Agosto ou nas coloridas folhas
outonais. Nunca a lama e as frieiras e o uivo sinistro e cortante da nortada
nas frinchas das paredes e do tecto e os alguidares a apanharem as pingas e os
cobertores da cama inteiriçados pela geada (e os percevejos e os ratos) e os
pés enfiados em sacos de plástico para impermeabilizar as botas furadas e as
camisolas sempre curtas ou rotas ou insuficientes, os casacos largos, feios, constrangedores,
igualmente rotos ou sujos, ferrete da condição inferior; nunca a estreiteza de
horizontes, a rédea curta da ambição, a renúncia do sonho, o atrofio da
vocação. Ou tudo isto, sim, tudo isto quando precisamos de azul para o oiro da
retórica.
O
mundo rural, se invocado de memória, é o paraíso na terra — apenas um pouco condimentado,
para lhe requintar o sabor. Não se percebe como as pessoas, aqui como ao
redor do mundo, teimam em abandoná-lo. Mesmo os que assim idílico o recordam, ameaçando
poeticamente um regresso às origens que, na verdade, não querem corporizar, a não ser no bom tempo ou num monte
alentejano com piscina, num financiado turismo rural com piscina, no velho
solar recuperado, melhorado — e dotado de piscina.
Usando
um apelo muito em voga, o mundo rural e a maior parte das infâncias precisam de um Correio da Manhã para nos revelar
que o passado, como a índole lusitana, é menos bondoso do que gostamos de crer.
É apenas lindo na nossa memória facciosa e em admiráveis páginas de literatura.
Nas melhores destas, a beleza que experimentamos é intrínseca à obra, não ao que
ela ficciona. É por isso que quando queremos mesmo sentir o passado devemos talvez ler relatórios, estatísticas,
correspondência e diários de cidadãos comuns, inventários, registos — e não
sentarmo-nos melancolicamente a recordar ou a ler romances.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Vasco, o retratista
Consta por aí (uma simpática leitora até me escreveu a informar disso)
que em três pinceladas Vasco Pulido Valente pintou no Público o retrato certeiro e definitivo do Portugal recente — com o
nobre intuito de fazer o enterro do socialismo. Um reverente blogue de direita
reuniu as palavras sagradas num post que pode ser lido neste link. (A
direita sempre precisou de um papa, e em Portugal a oferta aumentou exponencialmente
nos últimos tempos, mas algumas almas fascinadas parecem tê-lo encontrado sobretudo
na encantadora figura do decano cronista.)
Despertado na minha caverna pelo correio amável que me enviaram, lá fui
eu ler a trilogia pulidiana “Esquerda e direita”, prometendo a mim próprio não
voltar a embirrar com o homem. Em vão.
Como retratista, Vasco não usa a paleta toda, pelo que as suas telas
resultam um pouco artificiais. Aquilo é real, sabemos penosamente que sim, o
autor tem talento para o desenho. Mas, como recusa uma mais plausível prolixidade
cromática nos acabamentos, a obra parece velada por uma fina gaze, como se o
mestre pusesse um filtro à frente do olho que deita ao modelo. Num relance, chega
a parecer uma daquelas gravuras vendidas em lojas de decoração que apostam numa
limitada gama de cores: uma serra em escala de azuis, o pôr-do-sol em escala de
laranjas, estão a ver o género.
Sem
piedade, a trilogia conclui que o
socialismo (ou a social-democracia) foi responsável pela crise nacional e
europeia — e o Estado Social foi o seu instrumento. Ora, os americanos,
mormente a feroz percentagem republicana deles, parecem não concordar. Começam,
aliás, por não concordar que exista uma crise só europeia. Parece, diz-se na campanha republicana, que a pátria
da liberdade (e da recusa do Estado Social) está terrivelmente endividada, tem
um défice preocupante, cresce menos do que desejaria, entrará provavelmente em recessão,
vê o desemprego aumentar com perigo para a estabilidade social, etc. Os
sintomas, dirão eles para proteger o orgulho ianque, são “europeus”, agravados
por um presidente “socialista”. Mas nós sabemos o quão socialista Obama tem podido ser, e como a economia americana divergiu
profundamente da sua ortodoxia.
O
retrato pulidesco tem assim, talvez, de ser retocado — antes que os óleos
sequem. (Depois disso, só uma equipa de restauradores do Louvre o poderá fazer,
e nós não temos assim tanto tempo
para esperar.) Se eu próprio não tivesse abandonado os pincéis e o atrevimento,
propunha portanto ao insigne artista que matizasse a sua tela com uma das duas
seguintes cores (ou ambas):
1) Talvez não tenha sido a social-democracia a falhar,
mas o próprio capitalismo, tal como posto em prática;
2) O despesismo, a corrupção, a incompetência da
máquina fiscal, a mitigada redistribuição de rendimentos, a especulação
financeira, etc. são em si responsáveis pela crise, independentemente do
sistema em que ocorrem.
(Quando se pinta um retrato de uma entidade viva, convinha,
de resto, não esquecer 2008. A elipse
foi uma figura de estilo inventada por Estaline para a fotografia, não para a pintura.)
Claro que o pulido cronista, quando isso não lhe
atrapalha a argumentação para uso no flagelo doméstico, estende o problema ao
Ocidente inteiro, sem que então lhe interesse assim tanto distinguir sistemas.
Ou seja, para ele a peçonha é, consoante os dias, uma particularidade da Europa
(que tem no socialismo e em Portugal os seus mais desprezíveis cultores) ou do
Ocidente inteiro (se a prosa tiver uma ambição mais universal e exacta e menos luso-moralista).
De uma forma ou doutra (e aqui não se engana nada), a crise é dos países que tiveram
preocupações com o bem-estar dos cidadãos. Daí alguma direita (não só ela)
andar agora fascinada com a China, esse sábio sistema que aproveita o melhor do
capitalismo sem se tornar sentimental. Os sentimentos sempre foram um
empecilho quando se trata de criar riqueza. Para alguns.
Outro retratista, melhor retratista
Quem aprecie retratos, deve ir ler o texto
de Antonio Cazorla no El Pais (“La socialdemocracia perdida, otra vez”) e perceber como é possível reconhecer frontalmente
culpa à esquerda e à social-democracia sem concluir muito futebolisticamente que a solução da crise passa
pela sua obliteração.
Perplexidade
Mesmo
para leigos como eu, que apenas lêem uns artigos e uns raros livros, há coisas
que não podem deixar de causar perplexidade. A extensão da crise e a forma como
as medidas aplicadas nos dois lados do Atlântico não a fazem recuar nem um pouco
pareceriam implicar acima de tudo uma revisão (mais ou menos profunda) do
capitalismo ou da sua prática, não esta involução
na continuidade.
Há
quem invoque a História (diferentes momentos da História, na verdade) para
defender diferentes soluções. Mesmo que concordemos que a ortodoxia seguida
pela direita em Portugal e na Europa é a pior escolha (e são cada vez mais os
economistas a dizer que sim, até já doem os ouvidos), não parece ser certo que
soluções mais keynesianas, digamos assim, fossem eficazes. Um número crescente
e heterogéneo de autores fala na irreversibilidade do declínio ocidental — para
lá das questões sobre a culpa. (E no
entanto há entre estes autores quem proponha que ainda era possível evitar “um
mundo de soma zero”, onde os interesses de uns países competem com ou anulam os
interesses de outros.)
A
ascensão dos BRIC não implica necessariamente um bem-estar generalizado para as
suas classes sociais e certamente não significa que a democracia mundial (se
sobreviver) passa a ser defendida (nem mesmo tutelada) por outros quadrantes
geográficos.
Estes
dois cenários, a crise ocidental e a ascensão económica mas não mais democrática
dos países emergentes, parecem pôr em causa o capitalismo, a sua actual eficácia
ou até pertinência. Mas o que vemos? Políticos incapazes de pensar fora do arquétipo.
Comentadores ocupados nos seus jogos florais de demonização do outro. A Inquisição à procura de quem viveu acima das posses ou teve ilusões. Ideólogos
de blogosfera a achar excelente a oportunidade para aplicar finalmente velhas receitas
muito lá de casa.
Em
Portugal não admira que assim seja, a política e a gestão da coisa pública há
muito estão entregues a dinossauros e a jotinhas (querem culpados?), o pensamento independente e crítico não é bem-vindo.
Mas na Europa não haverá quem meta algum senso nas cabecinhas dirigentes?
domingo, 22 de janeiro de 2012
Vasquito
Só li citações (ando a poupar nos jornais), mas parece
que o camarada Vasco, escrevendo sobre cultura, ontem falou de “produção nacional”. Diria que o fez para dar razão ao seu próprio
argumento: em Portugal não falta quem
fale sobre o que não conhece.
Acertou, não duvido, na questão dos vereadores — quanto a
mim, acerta-se sempre quando se fala mal de vereadores.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Sai mais um bagaço
«O Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência muitíssimo bem pagos. O que produziu um escândalo de certa maneira inesperado. (…) À superfície não se vê por isso o motivo por que um acto, por assim dizer normal, de Passos Coelho provocou agora tanta indignação e tanta conversa.»
Vasco Pulido Valente, «Uma velha história»,
Público de 14/1/2012
A “análise” de que extraí o pedaço acima não se distingue, a não ser
pelo acabamento da prosa, daquilo que produziriam habituados comentadores de
tasca, exímios a concluir serem os políticos todos iguais e a defender ser profundamente
estúpido considerar a mudança. Fecha a porta ao debate da mesma forma (embora
com outra conveniência, mas não é esse o ponto que agora me interessa).
Por vezes espanta que as redacções de VPV, com frequência pouco mais do
que fúteis, façam dele o cronista-mor do reino. Mas a explicação é simples: também
a intelectualidade portuguesa não se distingue geralmente do auditório de taberna — excepto
por uma mais aguda sensibilidade à gramática e à retórica. Se estivéssemos no século
XIX, o corte da jaqueta seria igualmente considerado. E aí o escriba teria talvez de
mudar de alfaiate.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Considerações de um músico de metro
Ainda que a biologia não permitisse a K. ter uma consciência estética
desenvolvida ao tempo, os anos 60 e 70 do século XX são muito as suas décadas,
musicalmente falando. Quer dizer, se tiver de declarar alguma coisa aos
costumes, K. é um filho dos eighties,
esquizofrénico como eles. Mas as maiores emoções, as mais lancinantes, reconhece,
vêm-lhe de músicas anteriores. Se K. ouve algumas canções daquelas décadas,
apetece-lhe frequentemente desfazer-se em lágrimas. Outras vezes desata aos
pulos e a esbracejar como imagina que se esbracejava na altura. Há uma
explicação. K. viveu por dentro os anos oitenta e, portanto, o que lhe acontece
por vezes é sentir nostalgia — no máximo. Já os sessenta e setenta foram sempre,
ainda que de forma indirecta, espiritualmente mais intensos, míticos, lendários,
verdadeira religião de que lhe chegavam, como do além, rumores em fitas
magnéticas e raro vinil. Uma religião de que testemunhou, com curiosos olhos
infantis, as últimas manifestações, observando platonicamente, como sombras em
cavernas, o difuso estertor alcoólico de festas num armazém da vizinhança. (Ainda
se dançava Pink Floyd com charme e copo de tinto, cigarro na mão, mas era já
uma despedida.)
Há a questão dos ídolos. K. não pode dizer que tivesse conhecido pessoalmente
algum nos anos 80. Dos anos 80.
Contudo, na sua adolescência ainda contactou com dois ou três dos que tinham alcançado
grandeza na década anterior.
Objectivamente, não é bem assim. Os seus ídolos de vizinhança apenas tinham
tocado a grandeza ao interpretarem, à
guitarra e em cima de palcos apertados e pouco seguros, a musicografia de sessenta
e setenta. No entanto, K. não sentiu neles a fraude que se sente quando se
compra fancaria. Eles eram genuínos, the
real thing. Podiam limitar-se a fazer covers
dos êxitos da sua época, mas soavam como os originais, vestiam e não cortavam o cabelo como os originais,
transpiravam como os originais, drogavam-se como os originais. Não se distinguiam
dos originais excepto por estarem vivos ou fisicamente presentes.
Um tipo da geração de K. não procurava aprender com alguém musicalmente
activo em 80 — competia com essas
pessoas. A quem K. pedia conselhos e aulas de guitarra era aos ídolos de setenta.
Aprender as canções que eles tratavam por tu, como filhos legítimos, era ser-se
iniciado na linguagem dos deuses, de que todas as canções de 80, mesmo as que
K. pudesse escrever, emanavam, eram sucedâneos. K. imagina-se a sentir vaga
camaradagem por algum condiscípulo da sua geração, mas o respeito, a admiração,
o afecto reserva-o todo para aqueles
que usavam calças à boca-de-sino antes de elas serem retro fashion.
K. acredita, em suma, que há na música, ainda que revolucionária e
libertária, uma hierarquia (ou uma cronologia) a respeitar, um código de honra e
de valores onde os mais velhos ocupam
lugares determinantes, como em certas tribos.
Sentando no túnel do metro para mais um dia de trabalho, com um orgulho
melancólico nas suas calças de ganga genuinamente
gastas e rotas, K. reflecte sobre tudo isto na hora de escolher o repertório.
Experimentou alguns temas seus contemporâneos, mas nenhum lhe soa bem à viola
acústica. K. não dispõe de suporte electrónico mas não julga ser esse o
principal óbice à verosimilhança, embora lhe pareça haver um problema de
credibilidade quando se está de chapéu estendido a evocar um imaginário tão
eminentemente burguês e entediado como o de oitenta.
A vida de K. (7)
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Problemas de (co-)habitação
Quando, há
vários anos, K. ficou com a casa só para si, sentiu um peso na consciência:
eram cinco quartos a mais, até para alguém como ele, que precisava de espaço.
Mas na altura não havia assim tanta gente com dificuldades, e a pátria, que
tinha casas de sobra, não parava de as construir, era preciso vendê-las. K.
permitiu-se essa comodidade extravagante e os remorsos não foram um problema
muito grande, já que casas novas mais pequenas tinham rendas maiores (as
pessoas até preferiam comprá-las). Mudar-se significaria quase de certeza
gastar mais dinheiro.
Depois a
habitação tornou-se um problema. Não a habitação: as rendas, houve uma reforma
legislativa, com a qual nem discordava fundamentalmente. Ainda assim, aquilo
que K. pagava em três meses passou a custar-lhe a casa num, o que alterava
substancialmente as regras do seu
jogo. Habitar o palacete, mesmo que
decadente, sem atractividade para a anterior classe média, era agora um luxo
que não podia pagar.
Antes de se
mudar para a rua, K. pôs um anúncio, e durante algum tempo viveu com companhia.
Mas não se habituava. A decisão de subarrendar partes da casa, para além de o
ter ajudado a suportar a prestação mensal por um curto período, estava de
acordo com o seu pensamento político — união de esforços, partilha de
sacrifícios, coisas assim. Porém, uma coisa é encontrar virtudes teóricas em
certos aspectos do comunismo, outra é viver em comunidade. Por mais que o
satisfizesse acolher pessoas que os bancos tinham posto na rua, K. não se
acostumava a comungar o quotidiano. De repente era como viver num hostel, desconhecidos a partilharem a
louça, a cozinha e a sala de televisão, o autoclismo a soar sem que sejamos nós
a puxá-lo, gente que canta no banho ou fala a dormir, tipos que arrotam ou
cortam as unhas enquanto vêm as notícias de mais austeridade — o teatro
impudico e repugnante da intimidade alheia. Ter reservado para si o direito de
ficar na velha suite, com a sua casa
de banho privativa e a sua antecâmara, não protegia K. de uma excessiva
proximidade às vidas dos outros.
Por isso,
até agora K. animava-se a si próprio dizendo com humor que uma das vantagens de
dormir na rua era não ter de suportar gente a ressonar no quarto ao lado.
Infelizmente,
há males piores, descobriu K. com desalento quando um casal de maltrapilhos
particularmente roncante fez a cama de papelão nas imediações da sua.
«Esperemos que sem-abrigo sejam gente a quem falte o ânimo da cópula», rogou
depois K. a Ninguém, lembrando-se de que na sua curta experiência de vida em
comunidade havia coisas mais intrusivas do que pessoas a ressonar.
A vida de K. (6)
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Sono criogénico
A segunda vida d’O Canhões de Navarone
não foi longa — cerca de seis meses, por vezes agradáveis, por vezes sofríveis,
com algumas satisfações e vários tiros na água —, mas agora impõe-se por tempo
indeterminado um novo sono criogénico. Ou nem tanto. Serviços mínimos, ocasionais
posts, talvez, textos sem bússola — um
tipo respira, anda por aí a observar a vida dos outros, não é? Vão passando.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Cientistas dão razão aos críticos da função pública
«Declínio do cérebro afinal começa aos 45 anos. Estudo avaliou três vezes as capacidades cognitivas de mais de sete mil funcionários públicos num período dez anos, concluindo que, afinal, a deterioração não começa aos 60 anos.»
Ao cuidado do Governo: face aos novos dados científicos, propõe-se que
a idade da reforma seja antecipada na mesma proporção.
Cibernices
1. Da evolução do homem
O saber wikipédico substitui o saber enciclopédico.
2. Tábua rasa
Desligar o homem da net é um acto filosófico.
3. Revolução
O motor de combustão está para a revolução nos transportes como o motor
de busca está para a, digamos, revolução cultural.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
A fina linha
A China respondeu a certas inferências do meu post de ontem (e de outros em que falei de televisão). Segundo o Público, o «entretenimento de “mau gosto”
está a desaparecer velozmente da televisão chinesa». Claro que a China não
espera que isso aconteça voluntariamente, por decisão sensata dos directores de
canais, intervenção escrupulosa da entidade reguladora, ou exigência criteriosa
dos telespectadores. A China é um país autoritário, toma medidas. (Como aliás propunha,
não exactamente quanto ao entretenimento, certo grupo de trabalho reunido pelo
governo português.)
Mas também é claro que a China toma por entretenimento de mau gosto
programas que classifica de «golpes estratégicos para ocidentalizar e dividir o
nosso país». E impõe em sua substituição outros que «promovam as virtudes
tradicionais e os valores fundamentais socialistas». Se se tivesse ficado pelo
banimento dos reality shows, sem
considerandos de ordem geopolítica nem sucedâneos proselitistas, os leitores do
Canhões corriam o risco de lerem aqui amanhã um hino ao Império do Meio — e
debandariam de vez, considerando irreversível a demência do artilheiro.
Qualquer intervenção do Estado nas televisões, nos jornais, nas
editoras, nos teatros ou nos cinemas está sempre a um passo curto de ser um
erro. A linha que separa o intervencionismo do paternalismo, do proselitismo ou
da pura manipulação é fina, muito fina. A informação, a cultura, as ideias, a
arte devem ser deixadas em paz, se o objectivo é ter uma sociedade democrática,
livre, emancipada, plural, intelectualmente desenvolvida. No entanto, a
realidade faz-nos suspeitar que deixar as instituições trabalhar livremente não
garante todas as boas conquistas do mundo ocidental, não garante a sua
perduração. Suponho que não precisamos de ser todos pessimistas para concluirmos
que há um afunilamento do espaço público, uma tendência para a uniformização,
uma simplificação que amputa, reduz a diversidade, elimina a exigência e o
escrúpulo. Se tomarmos o exemplo das televisões, somos forçados a concluir que a
liberdade de acção não assegura a qualidade do serviço, mesmo que falemos
apenas de entretenimento. Teríamos de aplicar critérios muito estreitos e pouco
exigentes, deixando de fora imensas manifestações da inteligência e do espírito
humanos e da sua variedade se quiséssemos considerar que sim, que as grelhas
actuais reflectem uma sociedade interessante. E é preciso ter em conta que, apesar
da Internet e do cabo, o espaço público continua a ser em grande parte formatado
pelos canais de televisão em sinal aberto, com todas as consequências que isso
tem no próprio desempenho social e económico do país.
Terá, então, o Estado de intervir, a exemplo da China, erradicando programas
de mau gosto e decretando grelhas correctas,
seja qual for o critério? Não creio. A linha é fina, mas não deve ser cruzada. Diria
que ao Estado compete talvez assegurar que a complexidade do jogo social não se
reduz, que não se eliminam variáveis nem jogadores, que o espaço público é mesmo
público e diverso, ou seja, passível de ser frequentado e influenciado por todos. Ao Estado compete assegurar que não
se constroem guetos à margem da manada hegemónica. Que não se cria um canal 2
para alívio de consciências e álibi do fartar vilanagem nos restantes três
canais, que há no gueto critérios de elevação do intelecto e dignidade do
espírito que não se aplicam ao resto. Como se faz isto? Não perguntem a Hu Jintao.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Bronzeadores em África
Há muitos anos, uma trovoada providencial queimou a televisão lá de
casa e desde então a caixa mágica só me enfeitiça em ocasional restaurante ou
café, se não levar comigo um jornal ou companhia. Hoje, por qualquer distúrbio
na ordem universal ou distracção do estalajadeiro, a coisa sintonizou-se por
momentos na RTP2. Não me dei logo conta de que era a RTP2, mas a publicidade,
os programas anunciados e o documentário que entretanto se iniciou pareciam assunto
de outro planeta, não de um onde reina essa pouco inventiva invenção do demo
que dá pelo nome de televisão generalista. Imaginei um canal do cabo, mas teria
de ser um pouco esquizofrénico, dada a diversidade das propostas. (Imagino os
canais de cabo temáticos, mas posso estar enganado.)
Depois passou uma publicidade institucional e percebi que era de facto
a 2 (ok, também houve um separador que a anunciou). Estava numa mesa distante e
não a vi em pormenor, mas a publicidade era sobre civismo, comportamentos
censuráveis em diferentes circunstâncias, toques de telemóveis inoportunos,
deselegantes, coisas assim. Ignoro se passa também no canal 1, mas desconfio
que não. Seria contra a lógica nacional. O civismo implica sensibilidade,
respeito, aceitação do outro e da diferença. É matéria de minorias, portanto,
conclui a lógica nacional. Logo, passa na 2. Se fosse algo relacionado com estupidez
de massas, sim, teria direito ao canal principal e a horário nobre. Se promovesse
o uso polifónico do telemóvel no cinema, no teatro e na sala de aulas, sim, passaria
frequentemente na RTP1. Mas como fala de valores, como tem uma mensagem que, se
decifrada, pode ofender o povo do prime time
(pelo retrato implícito), o melhor é passar na 2, onde a entendem e aprovam.
Nem que isso equivalha a vender bronzeadores em África. A lógica nacional é
assim, redundante e pusilânime. Capaz de conceber uma campanha de promoção do
civismo, mas receosa de a passar no canal onde ela faria falta. (Ainda a
acusariam de querer educar o povo.)
Talvez eu esteja enganado e a campanha passe nos dois canais. A lógica
nacional por vezes distrai-se.
Javier Marias
«Cinquenta e sete críticos e colaboradores do Babelia, suplemento cultural do El País, escolheram Los enamoramientos (Alfaguara) como o melhor livro publicado em Espanha durante 2011.»
O
Teu Rosto Amanhã (ou deveria dizer Tu Rostro Mañana?), de Javier Marias,
continua a ser o melhor livro que li neste século, obra-prima. A Dom Quixote
publicou o primeiro volume (de três) e depois descontinuou-o. Desta vez não perdi
tempo e fui a Espanha comprar Los
Enamoramientos. Menos impostos para o Estado.
57
Foram cinquenta e sete os críticos e colaboradores do Babelia a fazer o balanço de 2011. No suplemento
do Expresso foram 8.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
O futuro
Quando no fim da adolescência (talvez
mais tarde, pronto) comecei finalmente a acreditar que também eu haveria de morrer,
chorei por antecipação a mágoa de não estar cá para testemunhar tantos progressos
e descobertas científicas que a humanidade haveria de fazer mesmo sem mim. Era
uma sacanice haver evolução para admirar e eu ter terra nos olhos. Viagens
interestelares, teletransporte, semana laboral de dez horas, coisas destas. Achei
fraco prémio de consolação ter-me sido dada a oportunidade de ver passar de
moda aqueles visionários telemóveis pequeninos de abrir a meio preconizados
pela série O Caminho das Estrelas.
O futuro sempre foi o meu lugar,
e não só porque seguia a sábia doutrina do deixa para amanhã o que podes fazer
hoje. Quando li os clássicos, fi-lo porque os encarei como novidades, produtos de uma era adventícia — a minha idade mental
era a de um homo neanderthalensis, se
comparada com a dos defuntos escritores. Mas mal pude convencer-me que essa
etapa da minha formação estava cumprida, que tinha bagagem suficiente para não
parecer completamente estúpido (o que ocorreu prematuramente, ao contrário do
início das leituras), determinei que um livro com mais de três anos era velho.
Isso levou-me a percorrer do fim para o início a obra dos autores vivos que achei
dignos de serem lidos na íntegra (talvez com consequências na minha percepção
cronológica do mundo). Como nesta área fui um patriota entusiasta do esbanjamento, nos
anos Sócrates acumulei livros que não tive tempo de ler e, quando mais tarde
olhei para as datas de edição, percebi o desperdício de ter investido em obras
que já não leria, por terem ultrapassado o meu prazo. Mas, tirando estar a, como se diz, hipotecar o futuro da república,
não era grande a chatice. Dava-me bem com a produção mais recente. Não via
razões para estar pessimista quando ao talento literário das gerações vivas e rejubilava
particularmente, por antecipação, com as pérolas que estavam ainda no prelo ou mesmo no disco rígido
dos escribas. Acreditei durante muito tempo que o melhor estava sempre para
vir. Até sentia alguma excitação com
a ideia de livro digital, nas suas
primeiras e futuristas visões.
Depois o livro digital veio mesmo
e o mundo editorial transformou-se. (Uma coisa não foi causa exclusiva da
outra.) Houve várias mudanças: o apogeu dos franchises,
dos autores mediáticos, das vedetas ocas feitas escritor, a retracção da
crítica e das páginas literárias na imprensa e na vida social, a
mercantilização do livro, a concentração em grupos editoriais grossistas, o
domínio do gosto de uma classe média iletrada, uma idade política favorável à dinâmica de mercado. De repente, o
futuro não é assim tão promissor. Muitos jornalistas e especialistas de literatura passaram a discutir mais os
suportes e a forma em que a escrita pode ser embrulhada do que o que ela tem
para dizer. Os gadjets e as operações
comerciais das empresas concentraram as atenções. A palavra ainda é livro, mas é
um grande chapéu-de-chuva, já não se refere à mesma coisa.
Os escritores continuam a
escrever e a internet até facilita a edição. Há um site, por exemplo (referido pelos Booktailores…), que anuncia «dez
dicas para autores ou escritores independentes» (desconfio que é sintomática a distinção
entre autores e escritores). Mas nas
dez dicas apenas uma vez, e só no título, vem mencionado o interesse de se escrever
um «bom livro». O resto são sugestões sobre marketing,
estudos de mercado, estratégias de venda, questões técnicas, propaganda.
Não perdi o optimismo quanto à
qualidade da literatura — perdi-o quanto ao pormenor de a boa literatura ser
editada. Face à avassaladora mercantilização da vida social e cultural, à forma
como o vazio e o supérfluo substituem o essencial, como as pessoas do meio e os
leitores se deixam levar pela onda ou sucumbem a ela, prevejo que a boa
literatura editada tem os dias
contados ou será marginal, difícil de adquirir, demasiado cara. A boa notícia é
que já não devo estar cá para ver.
Já não sou, portanto, um tipo do
futuro, embora ainda não seja um indefectível do passado. Deve ser isto o
prenúncio da meia-idade.
Adenda
O estudo da Comissão Europeia citado ali em baixo refere-se a
medidas tomadas entre 2009 e 2011. Ou seja, consulado do inefável Sócrates. Contudo,
os embeiçados pelos lindos olhos de Passos Coelho não devem começar já a
esfregar as mãos. Esperem pelo estudo do ano que vem (supondo que se fará um). Ou
alguém acha que neste domínio Passos Coelho está a fazer alguma coisa melhor
que Sócrates? Que está, sequer, a fazer alguma
coisa?
Pensando bem, talvez esteja: a assegurar activa e
convictamente que Portugal não desce
no ranking dos mais desiguais.
Questões de moral no admirável mundo novo
1. As empresas públicas devem ser privatizadas — mas não
faz mal que sejam adquiridas (a preço de ocasião) por empresas estatais chinesas.
2. A Holanda, movida talvez por um ligeiro impulso chauvinista,
quer restringir o cannabis holandês aos holandeses. Não lhe agrada ser um
paraíso de embriaguez para estrangeiros — excepto se a embriaguez for a do
lucro. Deve ser a isso que chamam moral calvinista.
3. Alexandre Soares dos Santos, de resto, concorda com os
juízos morais que se têm feito sobre Portugal e os seus defeitos éticos. Por
isso se mudou para a Holanda — prefere que o dinheiro dos seus impostos sirva
uma sociedade moralmente superior. Mesmo que de qualquer maneira isso não lhe
dê acesso aos coffeeshops dos nativos.
Deve ser isto que Passos Coelho chama de «democratização» da economia
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Dogmas
A triste realidade dos números e um número razoável de economistas
(como este) desmentem a fórmula, no entanto a malta persiste impante na sua onda
thatcheriana, friedmaniesca ou lá o que é. Dogmas são dogmas, não desaparecem
só porque se estampam (e estampam o país) contra o pormenor de uma parede.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Três quadros de Inverno
1. A árvore da vida
Altura da
poda. O homem novo, talvez numa ocupação de férias natalícias, usa uma escada
de metal reluzente e, por vezes, uma tesoura com uma extensão que lhe permite
trabalhar a partir do solo. O idoso sobe para os galhos por uma velha escada de
madeira camba e, em equilíbrio vertiginoso, apara os ramos com a clássica
tesoura preta que também se lhe vê nas mãos em época de vindimas. Há a história
do velho, o rapaz e o burro, mas é inadequada. A partir de certa idade, a poda
é uma questão pessoal. O velho mais depressa treparia a oliveira, como quando
em rapaz ia aos figos, do que usaria a escada nova e a ferramenta fashion do filho ou genro. É este que
precisa dos apetrechos e das luvas do Mestre Maco. As mãos do velho estão
calejadas, e subir a pulso a árvore da vida fará parte do seu quotidiano até ao
último dia na terra. Vive enquanto a pode subir, morrerá de não a poder subir.
2. A vil existência
Pouco depois
das quatro da tarde ocorrerá o pôr-do-sol. Embrulhados nos seus kispos e forros
polares, os caminhantes cumprem apressados a prescrita hora ou hora e meia de
marcha junto ao rio. Os amantes da corrida fazem desfilar calças de licra,
gorros e mp3. Ela usa calções de perna comprida e justa e uma sweatshirt larga. Numa curva, a última
curva antes de a sombra estender por todo o lado o seu manto irrevogável, ela
tem a intuição do fim da luz e detém-se. Abre os braços, levanta o rosto ao
deus-sol e sorri. É bom estar viva, apetece abraçar o astro. Cinco segundos de
carícia e alheamento, e ei-la de novo num trote firme, o sorriso agora
embaraçado, talvez por a vil existência ter regressado nos olhares dos
transeuntes, que tentam encontrar-lhe no rosto sinais de um espírito débil ou
excêntrico.
3. Encruzilhada
Vestidos com
as prendas de Natal — casacos Lanidor e Massimo Dutti, calças Tiffosi ou da
Salsa, peúgas e roupa interior a expensas rituais de tias idosas —, passeiam no
parque o carrinho de bebé. Com uma criança dentro, deduz-se, não se vê. Eles
também não a vêem: ela senta-se num banco a olhar um ponto fixo, talvez do
passado, ele fica de pé a observar o trânsito de famílias e casais. Ambos com
rostos graves, diferentes do cliché de uma tarde bonita no parque. Entre os
dois, o carrinho. Estático porque o terreno é plano — ninguém o segura, jaz por
instantes abandonado, troféu de um jogo de forças em que possivelmente fica com
o prémio quem perde. Talvez numa parte dos seus espíritos apetecesse que o
carrinho começasse a deslizar para fora das suas vidas, pudessem sair dali cada
um por seu trilho do parque, desejando esquecer que um dia estiveram numa
encruzilhada. Mas um deles há-de voltar a empurrar o carrinho, provavelmente a
mãe, mesmo que seja para seguir o seu próprio caminho. Ou as catorze estações
do Calvário.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
As pessoas em concreto
Há
muito tempo que não lia Pacheco Pereira e já não recordo quão frequentemente
ocorria a palavra «imbecis» nos seus escritos, para mais impressos. Mas é bom
lê-la, sobretudo no contexto:
«(…) Há uns imbecis nos blogues que acham que falar dos problemas concretos das pessoas que não são fils a papa, publicitários, gente de glamour, neoliteratos, assessores de várias eminências, yuppies sem mercados, consultores, advogados de sucesso, é neo-realismo. A única coisa que se lhes pode perdoar é não saberem o que a palavra significa, mas tudo o resto não e perdoável nem mesmo com muito "espírito de Natal".»*
Infelizmente, o meu problema com as coisas concretas é inverso. Salvo
excepções, é quando penso em concreto
nas pessoas que me torno entusiasta de Passos Coelho. E de Torquemada.
Alguns estão prontos a insinuar, por isso, que o uso da abstracção faz de
mim um utópico da laia de Rosseau. Mas diferimos, o francês e eu. Ele via bons
selvagens. Eu vejo selvagens — mas não acho isso bom.
Por outro lado, os liberalecos da direita e eu não estamos, de certa forma, em radical
desacordo. Números, índios-de-cu-ao-leu: é indiferente como
encaramos as pessoas — desde que não tenhamos de sociabilizar.
*Público de 24/12
Pacheco
Reencontrar a prosa de Pacheco Pereira (no blogue ou nos jornais) e ver
nela alguma coincidência de pontos de vista reforça a convicção de que não é
preciso ser-se de esquerda para perceber a intrínseca leviandade ou estupidez
de certo discurso tão propalado pela gente de Passos, no Governo, nos jornais
ou nos blogues.
«É particularmente irritante, e socialmente perigoso, que acrescentem à miséria uma lição moral do género "têm o que merecem porque viviam acima das suas posses", todos contentes com a purga moral do país pelo empobrecimento. O empobrecimento pode ser inevitável, mas deixem de lhe atribuir qualquer valor catártico e vender como nova propaganda que, no dia em que estivermos mesmo muito pobres, vai começar a nova aurora económica, a ascensão de uma economia de sucesso, livre do Estado, competitiva e dirigida por uma "nova geração" liberal e desempoeirada.»
Sedução do eleitorado
Proposta de estudo sociológico: averiguar que percentagem (masculina e feminina) da população convertida ao discurso da miséria se deixou seduzir literalmente pelos lindos olhos de
Passos Coelho.
Agência Rangel
Se Paulo Rangel concretizar a sua agência de emigração, tem cliente. Desde
que pague as passagens. (Ou a passagem,
sabemos que é só de ida.) Em Vimioso diz que oferecem mil euros a casais que
aumentem a população. Não ficaria
mal ao Governo (e seria coerente com as suas opções políticas) pagar quantia
semelhante a quem se voluntarie para desemparar a loja. Com mil euros há todo
um mundo de possibilidades e destinos. O amor à Pátria aumenta na exacta proporção de
quanto ela está disposta a pagar para se ver livre de nós.
Mas claro que a Agência Rangel há-de ser mais exactamente uma agência de aventuras, uma coisa que
inclua o risco e o revivalismo. Os clientes farão, digamos, um investimento de risco (mas com risco
mesmo), embarcando numa aventura old
fashioned, como agrada aos conservadores. Rangel talvez tire do museu de
cera um guia que nos acompanhe até à raia, mas a fronteira há-de ser passada a
salto, os rios cruzados a vau e as distâncias percorridas a calcantes. Tudo
brindado a vinho verde, que é do nosso Portugal!
domingo, 25 de dezembro de 2011
Males do couro cabeludo
O rapaz está sentado na cadeira do cabeleireiro. A funcionária, munida
de pente e tesoura de dentes, vai desferindo golpes vigorosos. Com exuberância de
gestos, levanta compridas repas da cabeleira e ataca-as como se disso
dependesse a continuação do mundo. A determinado momento do labor, questiona o
cliente:
— Estou a magoar?
O rapaz, com uma expressão torturada no rosto, ombros encolhidos como se
tivesse deflagrado uma granada, responde o não mais sim de que K. se lembra.
(A espreitar tão discretamente quanto pode pelo vidro da montra, K. conhece
o tormento do rapaz — também foi um dia cliente daquele salão. Houve um tempo
em que K. podia recorrer àquele género de serviços, o luxo de um corte de
cabelo a doze euros. Lembra-se de como a figura dócil, de prima carinhosa, daquela
funcionária escondia uma harpia, que se revelava no momento em que as pessoas
tinham o azar de coincidir no seu turno de trabalho. Também K. quis muitas
vezes dizer não quando dizia o seu sim educado. Até ao dia em que começou a espreitar
pela montra antes de entrar — e a retroceder nos seus passos se estava de
serviço tal instrumento da Inquisição.)
Depois o equilíbrio nas forças em conflito altera-se. Acabado o
desbaste, a cabeleireira entra nas minudências, e aí o rapaz tem uma palavra a
dizer. Há que assegurar determinada proporcionalidade entre a forma como a nuca
é rapada e os lados se penteiam para a frente. Um gesto em falso e é a vez da senhorita
experimentar a violência do rapaz, patente nos olhares que lança ao espelho e
nos monossílabos escandalizados que solta se ela avança por onde não deve.
O penteado de um adolescente é uma problemática que não deve ser abordada
de ânimo leve. Nisto, não difere muito a época actual dos tempos de K., talvez
apenas na banda sonora. K. teve o seu momento Duran Duran numa altura em que os
demais rapazes deixavam crescer cabeleiras à Iron Maiden ou permaneciam nos
seus cortes medianos e clássicos de burgueses anódinos ou sucumbiam à
escalpelização periódica das famílias mais pobres. Também nessa altura o drama
maior de uma vida se relacionava muitas vezes com uma tesoura que progredia em
terreno proibido — na adolescência, o tempo que leva a repor uma madeixa é
exasperante, tem escala cósmica.
Agora K. submete-se sempre que há uma máquina disponível à estética
militar, a clássica, a do pente zero. Há ameaças antigas que regressaram, piolhos,
lêndeas, e quando se anda na rua dispensam-se contratempos extra. Já não estão presentes
mães que nos passem com zelo pelos cabelos, acariciando agudamente o crânio,
pentes de dentes juntíssimos, que nos desenriçam e livram de parasitas e outros
males do couro cabeludo.
A
vida de K. (5)
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Onde está a piada
Exercício interessante: decifrar o tipo de riso que deflagra em cada indivíduo que se confronta com o cartoon anterior. A forma como rimos e as coisas de que nos rimos, o ponto da narrativa onde encontramos a piada — se a encontramos ou consideramos —, também nos definem.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Palcos
K. passou a adolescência a querer pertencer a uma banda rock.
Hoje suspeita que passará a meia-idade a lastimar não ser um velho rocker. Pelo
meio subiu a uns palcos, mas nada que possa ser visto no Youtube e de que
as pessoas possam agora rir-se ou sentir saudades.
A vida de K. (4)
Fim-de-ano-mundo
São dez a jantar, o quadro de pessoal de uma empresa. Natal,
sabem como é. Na televisão há futebol e são elas que anunciam os golos. Também
são elas que falam de traições ao matrimónio. São ainda elas que discutem aspectos
do fim-do-mundo em 2012. Não o que resulta da crise económica. O outro, o da
profecia Maia, o que se pode realmente discutir. Parece que há discórdia quanto
à data específica. Haverá quem afiance ser a 12/12/12, outros colam-no ao
fim-de-ano. Mas estes serão empresários oportunistas, a planearem uma passagem-de-ano
de arromba. Não está cientificamente provado
(enunciaram-no mesmo assim) que o Armagedão coincida com o reveillon, mas não é exagerado dizer que naquela mesa se tratou do
fim-do-mundo como se trataria do fim-de-ano (opções de vestuário incluídas).
E talvez venham a dar no mesmo. Não são as melhores festas
aquelas em que gozamos como se não houvesse dia seguinte? Em 2011 será talvez precoce,
mas em 2012 esse espírito é garantido.
Feia
A certa altura, os homens também falaram, um em particular, o patrão,
não poupando nos decibéis, depois das libações. E o que disse? Eis a transcrição,
textual:
— Não consigo gostar daquela filha da puta. Penso que não passa de uma
cabra de merda. Olho para a cara dela e apetece-me espancá-la.
Os outros machos da mesa estranharam ou quiseram ser irónicos:
— Não há lá nenhuma rapariga que não seja uma querida!
Ele não se comoveu:
— Para mim é mais uma filha da puta que não faz a ponta dum corno.
Olho-lhe para a cara e é isto que penso.
— É feia? — perguntou uma das mulheres, mas não há certeza que estivesse
a ser sarcástica, que se tivesse servido da palavra para denunciar o interlocutor.
Emigrar
O problema não está na emigração, rapazes. Emigrar é,
consoante os casos, uma saída, uma alegria, uma revelação, uma necessidade, um
percalço, uma tragédia. O melhor de uma vida ou o fim de uma vida. Uma
oportunidade ou o fim do mundo. Cada um sabe de si.
Emigrar era, como sempre, um receio ou um desejo, um
pesadelo ou um sonho. Agora é talvez uma premência. Não só porque há uma crise.
Ridículos
O Governo está a fazer, digamos, o que pode? Aceitemos que
sim. Mas não se está a transcender, isso é certo. Como tal, é um manifesto exagero
incensá-lo, lamber-lhe as botas. Vocês parecem os indefectíveis de Sócrates,
rapazes. Tão ridículos quanto eles foram.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Graffiti
Ainda estava longe a ameaça quando K. declarou que
prescindiria do subsídio de férias ou do de Natal, ou de parte do salário, se essa
fosse uma forma eficaz de aliviar problemas, prevenir males maiores. Não porque
tivesse um particular peso na consciência. No que dependeu dele, não houve delírios
despesistas, e pessoalmente K. não contraiu dívidas insensatas (embora não tivesse
poupado). Foi sempre crítico da paixão nacional pelo betão e pelos
investimentos frívolos. Não percebia porque, para o país, os melhores
presidentes de câmara ou primeiros-ministros eram os que deixavam “obra”, no
sentido que os empreiteiros davam ao termo. Atribuía isso a uma etimologia limitada:
o povo não tinha sido familiarizado com a amplitude semântica das palavras e o
erro trazia consequências à praxis dos eleitos, condicionava-lhes o desempenho
(embora K. soubesse que os eleitos, iguais entre iguais, não faziam o que
faziam por se sentirem constrangidos).
Porque não tinha passado de pobre a arrivista, K. abominara
o espírito novo-rico da época, o consumismo exibicionista, o materialismo
dominante. Quando um dia teve de trocar de carro, escolheu o segundo mais
barato do mercado (por uma questão cromática, confessava esse capricho) e desagradou-lhe que não estivessem disponíveis unidades
sem ar condicionado. K. não era
ascético, mas de Inverno chegava-lhe a chauffage
e de Verão gostava de circular de vidros abertos, cabelos ao vento.
O seu desprendimento do dinheiro não era revelação de um
espírito luterano, nem era sintoma de masoquismo. Resultava da consciência de
que havia pessoas em piores condições,
pessoas para quem qualquer corte nos rendimentos seria literalmente (e não
literariamente) um drama. E resultava também da consciência de que algumas
coisas boas no país seriam postas em causa se a crise se abatesse com a máxima
fúria.
Não foi por isso para K. um choque quando o Governo anunciou
aquelas medidas de austeridade. O futuro, o seu
futuro, preocupava-o, claro que sim, mas ele estava psicologicamente confortável
com os sacrifícios. Pelo menos enquanto pensou que eles eram por uma boa causa.
Ou inevitáveis. O desconforto veio quando K. percebeu que se ia atravessar a longa
crise sem que fosse aproveitada a oportunidade para tomar medidas que moderassem
os rendimentos dos mais ricos em favor dos mais desfavorecidos: os relatórios
continuavam a indicar o crescimento descarado do fosso.
Quando caiu na rua, K. teve mais tempo para ver os grafitti, as palavras-de-ordem inscritas
nas paredes. Lamentou que entre os seus talentos não estivesse o do desenho.
Não gostava de pichagens abjectas ou esteticamente irrelevantes, medíocres, não
gostava de borrões idiotas, palavras ocas, mas apreciava quando os autores
sabiam transformar uma parede arruinada numa obra de arte, mesmo que
subversiva, ou quando o humor ou a inspiração dos slogans se sobrepunham ao eventual prejuízo urbano. Ao contrário de
palavras-de-ordem irónicas como «o último a sair apague a luz e feche a porta», não
o costumavam entusiasmar slogans como
«os ricos que paguem a crise». Mas agora, enquanto aquecia as mãos na fogueira improvisada,
perguntava-se se ainda tinha razões para permanecer fiel ao seu pensamento
razoável, se aquele não era o tipo de “demagogia” a que um sem-abrigo como ele estava
moralmente autorizado a recorrer.
A vida de K. (3)
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Naufrágio
Há algo de naufrágio declarado quando o governo e os blogues
que o formataram e lhe abanam as folhas de palmeira nas faces se obstinam tanto
em mandar bugiar emigrar os conterrâneos. O barco está a ir ao fundo, é
notório, tanta água mete. E a culpa há-de ser em grande parte dos que estão
dentro do barco, todos nós. Mas desconfio que o capitão não vai ser o último a
abandoná-lo. Por enquanto, ainda é jovens
e professores primeiro, mas mais para a frente há-de ser o salve-se quem
puder — na esteira, aliás, de um passado exemplar.
Ainda um dia havemos de ser elucidados sobre como é que esta
aposta na emigração de jovens e quadros se coaduna com aquela mágoa tão típica
da direita com a infertilidade do país, o envelhecimento da população. Afinal,
a juventude faz ou não falta para viabilizar economicamente a pátria?
Posso adiantar-me
e esclarecer o paradoxo. A preocupação com a natalidade existia no tempo em que
era preciso defender com estatísticas a falência iminente do Estado Social,
agora que ele está em processo de desmantelamento já não são precisas muletas
dessas.
Não tenho ilusões quanto ao que é possível o governo fazer
nas condições actuais. E há uma boa dose de pragmatismo na exortação à debandada,
claro que sim. Só que não precisamos de um Governo para nos dizer o que fazer
quando a coisa fica preta, não é exactamente para isso que o elegemos. Seria
insensato (é insensato) pedir-lhe que nos assegure o nível de vida anterior,
como pedem as diferentes corporações no seu habitual egoísmo. Sempre foi insensato exigir ao Estado que
garantisse emprego para todos nas profissões escolhidas, saídas automáticas da
universidade para o mercado de trabalho. É estultícia conceber-se um Estado assim.
Mas, por outro lado, o mínimo que pedimos a um governo é que lute pela diminuição
do desemprego e estimule algo de patriotismo, ou melhor, de participação colectiva
no bem comum. As pessoas sentir-se-ão mais confortáveis a pagar impostos e
aumentarão mais facilmente a produtividade se o fizerem em nome de um país que
se entristece com a saída dos nativos, não de um que os menospreza ou dispensa jactando-se
de “frontalidade” e “pragmatismo”.
Não me repugna, porém, que o Governo exorte os conterrâneos a
mudar de área profissional (como aliás também fez, diga-se em abono da verdade).
Mas para que este apelo fosse mais do que mera hipocrisia, seria preciso que a economia
estivesse a ser estimulada para criar emprego. Seria preciso que passássemos da
fase do castigo moral (a “solução” exclusiva e beatífica da austeridade) à do
vamos lá tentar resolver esta merda, nem que fosse com campanhas de
repovoamento do interior, regresso ao sector primário. Está o Governo a fazer
algo mais do que gerir a insolvência? Tem planos neste âmbito? Tenciona mostrar
na União Europeia que assim não vamos lá e que eles também têm culpa no que nos aconteceu, que os juros que pagamos são inibidores? Não, claro que não. Por isso, quando o Governo
indica a porta de saída aos seus cidadãos, não está a ser frontal — está a
confessar a derrota, a anunciar que desistiu. Provavelmente antes mesmo de ter
tentado.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Nem tudo está perdido
«Hello,
I am 15 years old. I would like to apologize for what my generation has done
to music. That is all.»
[Comentário no
Youtube a um vídeo dos Beatles]
Still my guitar gently weeps
Há muito que K. não acompanhava a sua vida à guitarra. Quando se tornou
feliz não soube que utilidade dar à velha Ibañez e encostou-a a um canto, a
acumular pó. Não era de acordes festivos; se tinha de tocar, dedilhados e
gemidos era o que tirava das cordas. A sua vocação perdeu por isso sentido, era
um ofício de tempos cinzentos, desactualizou-se. Nos últimos anos, sempre que
lhe pediam para tocar, K. recusava, preferia desiludir os convidados a dar o
tom errado aos convívios. Se se pusesse a tocar sair-lhe-iam melodias pungentes,
lamentosas, boas para embalar a melancolia. Estava totalmente fora de questão cometer
essa indelicadeza, estragar as festas, deprimir a audiência. Os amigos
recordavam-lhe o talento e sentiam-se vagamente saudosos de o ouvir, mas K.
resistia a avivar-lhes a memória quanto ao carácter específico do seu talento —
era quase tão perigoso referi-lo como exemplifica-lo. K. estava feliz, os
convidados estavam felizes, se havia necessidade de música, o repertório teria
de ser alegre. Entregava a guitarra a um dos outros sem sequer a afinar (mesmo essa
tarefa seria plangente, nas suas mãos) e em poucos minutos a música era como devia
ser.
Por mais de uma vez esteve para se desfazer da guitarra. Que interesse
tinha mantê-la? Não era pessoa de acumular tralha, memorabilia. Desconfiava até
que havia qualquer coisa de mórbido em conservar aquele instrumento de uma vida
anterior, quase como guardar as relíquias de um morto. Censurava-se a inércia,
a falta de coragem, perguntava-se se não devia temer a possibilidade de um
objecto assim trazer má-sorte.
Depois os mercados entraram em pânico ou ficaram de mau humor, uma
destas coisas, e K. deu consigo a pegar na guitarra. Inicialmente apenas a encostou
ao peito, transmitindo os seus batimentos cardíacos à madeira. Chegava a casa,
sentava-se e punha-a sobre as pernas, apoiando o tórax nela. Mais tarde, fez
soar as primeiras notas. Quando deu por si, tinha deixado crescer as unhas da
mão direita, voltaram os harpejos, os dedilhados, as melodias comoventes e lúgubres
que saíam do nada.
K. nunca tinha tocado no metro. Agora que o fazia, perguntava-se se
devia estar contente por ainda ter a guitarra ou se devia amaldiçoar-se por a
ter conservado. Talvez a velha Ibañez se tivesse cansado do silêncio ou do uso
indevido e tivesse exigido de volta a vida poética de antigamente. Talvez tivesse
simplesmente atraído azar — mais do que atraía moedas para o chapéu.
A vida de K. (2)
sábado, 17 de dezembro de 2011
A relíquia
O Público tem na sua última
página dois colunistas e uma relíquia. Infelizmente, não segue a política dos
museus nacionais de fechar a página ao fim-de-semana. Mas devia. Se a ideia é ter
naquele espaço representantes da direita e da esquerda, o Pedro Lomba e o Rui
Tavares cumprem-na com distinção. O tipo que que entra de serviço à sexta desequilibra
o arranjo. Mas não exactamente por favorecer um dos pratos da balança: antes
porque acrescenta uma dimensão bizarra às coisas. No Público, há a realidade, há as interpretações da esquerda e da
direita e há a visão do Vasco. É um pouco como se diz dos ingleses: bem
comportadinhos nos dias úteis e bêbados ao fim-de-semana. É divertido, claro,
ler-se a última página do Público de
sexta a domingo, mas, como a cerveja, não traz proveito à vidinha que nos espera
na segunda. Só que, instituído como está o Vasquito ao fim-de-semana,
prescindir agora o Público da sua
prosa seria como a New Yorker abdicar
do flâneur e da borboleta. (Ou só da
borboleta, pronto.)
Tendo em conta a crise da imprensa, talvez o Público pudesse proletarizar-se um pouco e ir buscar ao JN o Manuel
António Pina. Ganhava-se a classe média e ganhava-se em pontaria, é certo, mas
prejudicava-se a decoração da casa. Os dois são escribas sucintos, mas têm utilidades
diferentes: Manuel António escreve pouco e acerta muito; os textitos do Vasco vão bem com o grafismo e as cortinas da Redacção. No dia em que acabem com ele (salvo seja)
repetir-se-á o avassalador drama ocorrido quando o Público mudou de logótipo: lágrimas e ranho por uma ou duas infindáveis
semanas.
Claro que se o Público dispensasse
o Vasco a ERC poderia intervir. Quer dizer, talvez não a ERC — o Instituto dos
Museus e da Conservação. Ou o Instituto de Arqueologia*. Uma dessas entidades
tão absolutamente caras ao novo poder decerto sairia em defesa da sua relíquia queirosiana.
* Como é evidente, o Governo decidiu fundir o IMC e o IGESPAR apenas
para estragar a piada.
[Nota: texto revisto e com pequenos acrescentos.]
[Nota: texto revisto e com pequenos acrescentos.]
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Planos de vida
K. tem um objectivo de vida: acumular suficientes livros para a
meia-idade (não conta ter velhice, diz que a vida não está para luxos desses).
K. acredita que, nas noites ao relento, os livros dão melhor forragem do que os
jornais, é preciso saber escolhê-los volumosos e de capas maleáveis. Há um
livro que K. procura mais do que todos: A
Guerra do Fogo. É uma demanda com razões afectivas, mas com um sentido
prático, se se podem colocar as coisas assim. Em novo, K. leu grande parte do
livro de J.-H. Rosny numa noite de tempestade à luz da vela e o que recorda são
camadas sobrepostas de prazer: a leitura saborosa, a luz intimista, o calor
aconchegante do fogão a lenha, o frio e a chuva e o vento na rua a lembrarem
como é bom (e suficiente) ter abrigo e lume. Não lhe serve qualquer edição. K.
precisa de uma antiga, com páginas amarelas e o cheiro certo, aquele que possa
só por si evocar a história de uma infância feliz. K. acha que vai precisar
desse género de sortilégios quando as noites forem mesmo frias e não houver luz
para ler, ou ele não esteja com disposição para isso — K. imagina que não há muita
disposição para ler quando se é um sem-abrigo. É esta a vantagem do livro
impresso, pensa ironicamente, se não o podemos ler, continuamos a poder
cheirá-lo e ter assim o nosso lume e a nossa noite aconchegada. (Façam isso com
o kindle e o seu cheiro neo-liberal a máquina de calcular made in China, diz K., um pouco agastado.)
A vida de K. (1)
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Homo Sapiens Sapiens
Aos escritores, aos editores e aos jornais pede-se-lhes que se reinventem.
Aos artistas de palco pede-se-lhes pouco, talvez que se deixem extinguir sem demasiado
ruído. Ao público nada se lhe pede. O público é soberano. Um dia o público vai
determinar que só os urros são literatura ou música ou notícia e aos escritores
ser-lhes-á pedido que grafem onomatopeias, aos músicos que sejam minimais e repetitivos,
aos editores que descubram formas de embalar e vender grunhidos e aos jornalistas
que nada perguntem, apenas segurem no microfone.
Como as artes, os livros e os jornais estão condenados à irrelevância
ou à imbecilidade. Parece não haver público para as produções do intelecto. Não
é certo, por isso, que haja um estádio para a humanidade acima do Homo Sapiens
Sapiens. Mesmo que o mundo continue, a probabilidade é que os deuses nos retirem
a dupla adjectivação, como as agências de rating
retiram AA aos países e às empresas.
*A direita achará tudo isto inevitável e acusará a esquerda e os
keynesianos.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
O espantalho
Fez a sua aparição numa curva da A24, na zona de Viseu. Empoleirou-se na
laje de betão que serve de telhado a um barraco de apoio à agricultura — o
terreno à margem da estrada é produtivo e é cultivado. O espantalho alçou-se ali,
presume-se, para afastar a passarada. No entanto, há dois anos que ele fita é o
trânsito, saúda-o. Na primeira passagem, a sua antropomorfia talvez assustasse o
condutor desprevenido, mas com a repetição da viagem criava-se uma empatia. O
espantalho era simpático, talvez até para os irmãos pássaros, um seguidor de
Francisco de Assis. Provavelmente não era um espantalho, mas um totem místico,
o padroeiro dos motoristas — não se vêem marcas de acidentes naquela curva.
Há meia dúzia de meses, arranjou companhia. Foi agradável vê-lo
partilhar o horizonte com alguém da sua espécie, o mesmo ar négligé, a mesma forma original de
combinar peças de roupa, a mesma barriguita de palha. Talvez o novo indivíduo seja
uma senhora-espantalho, e, nesse caso, podemos imaginá-los por vezes a fazerem
gazeta à função protectora e a olharem o pôr-do-sol nos montes (ou no mar, a
imaginação não tem limites). Alguém deveria subir ali e colocar o braço de um
sobre o ombro de outro.
Na verdade, talvez o tenham feito já, num fim de tarde auspicioso ou numa
noite de lua cheia: na passada quinta-feira foi detectado um terceiro
espantalho no mesmo telhado. A condução atenta não permitiu discernir
pormenores, mas não custa aventar que se trata de descendência; o período de
gestação de um espantalhinho não tem necessariamente de ser de nove meses.
Em pouco tempo, a curva da A24 ganhou uma tríade protectora, como dita
o Livro. Passa-se ali e adquire-se um sorriso instantâneo — o sorriso que nos
tinha sido tirado ao cruzar o pórtico das portagens, instituídas na mesma
quinta-feira.
Viajar no interior do país pode ter ficado mais caro, mas há felizmente
alguém que zela pelo bom humor dos viajantes, se o Governo não tem vocação para
isso.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Sofisma (Requiem)
Os amigos andavam-lhe a dizer que estava a compor melhor do que nunca. Tinha uma página no Myspace e fazia para ali upload das peças que criava ao piano no estúdio caseiro. No entanto, a crise acabara com os concertos, e os discos há muito não se vendiam. Gostava de compor, mas gostava mais que o ouvissem, de preferência em directo, em clubes de jazz. E os clubes de jazz também fechavam as portas, falta de clientela. Estava a compor melhor que nunca, mas estava também mais deprimido do que nunca. Estar deprimido era importante, crucial — a música saía-lhe do sofrimento, da melancolia, do desespero. Mas isso costumava ser suportável, porque a ideia de tocar ao vivo num ambiente de penumbra e fumo (também tinham acabado com o fumo) mantinha-o vivo, a expectativa de umas horas de felicidade relegava os dias de chumbo.
Numa primeira fase, pediram-lhe sem subtilezas que encurtasse as actuações, a maior parte da gente já não ia pela música, as despesas de funcionamento tinham aumentado, era preciso estimular o consumo dos clientes, facilitar o trabalho dos empregados que sobraram. Quer dizer, a música ainda era importante, fazia a diferença, mas três quartos de hora bastavam para cumprir o ritual, não era? Meia hora. Decerto não lhe interessava tocar se não o ouviam, e nos últimos tempos era notório que as pessoas se davam menos conta do que acontecia no palco. Não era também verdade que já nem os melómanos estavam para as quatro horas da ópera? Riam-se. Mais tarde decretaram em cartel regras que proibiam encores (a sua desculpa para prolongar as actuações), mesmo se algumas mesas esquecidas da linha da frente ainda os pediam.
O circuito de clubes, que em tempos fora a espinha dorsal da noite, estava agora reduzido a meia dúzia de apêndices obsoletos, em processo de reorientação, onde pernoitavam os saudosistas e os neuróticos. Bons consumidores, mas com dívidas e em número decrescente ano após ano. Morriam sem que fossem substituídos. Pertenciam a um povo que não se renovava. O circuito era agora um bas-fond sem charme.
De modo que estava a compor melhor que nunca, mas na verdade havia meses que não compunha, salvo uns adágios, uns esboços de tema, talvez promissores, inspirados, mas sem aprofundamento, continuidade. Sentia-se derreado de tristeza e frustração — o que normalmente o fazia correr para o piano —, mas sem um palco no horizonte achava supérfluo o exercício. Morria aos poucos do esforço. Recentemente eram mais as vezes que ficava na audiência a assistir ao afundamento do meio do que aquelas em que se sentava ele mesmo ao piano. Já nem tamborilava na mesa.
Quando na última noite consultou as estatísticas no contador de acessos da sua página, ficou a olhar para o gráfico de uma empresa em bancarrota. Descobriu que em dois meses, os últimos, ninguém sequer visitara o site, as mais recentes composições não tinham sido postas a tocar nem uma vez. A não ser que houvesse avaria no servidor, tinha de concluir que os próprios elogios dos amigos eram só uma tentativa educada, instintiva, de o animar.
Antes de pendurar a corda, ainda teve um pensamento optimista: o divórcio do público libertava-o do seu compromisso com a música — e, sem razões para compor, não tinha afinal necessidade de ficar deprimido.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
O povo, pois, o povo
Envelhecer traz problemas, não só aos ossos e à tripalhada. De repente
damos por nós a transbordar de bons sentimentos, a mancar para a esquerda. Havendo
barricadas, saltamos para o lado do povo. Infelizmente, certos acontecimentos
obrigam-nos a reconhecer o erro. Não há em Portugal um povo que mereça ser
salvo. No dilúvio talvez se enchesse um bote, não mais do que isso. Os nossos
bons sentimentos carecem de um objecto que os justifique. Podemos criticar com
razão a direita por fazer pagar o justo pelo pecador, mas talvez seja também verdade
que as nossas medidas para poupar os justos salvam uma quantidade insuportável
de pecadores.
Isto, contudo, não absolve Passos Coelho — obriga-o a consultar-me caso
a caso.
O terceiro tabuleiro*
«Seria revoltante, sendo Portugal o segundo país mais desigual da
Europa, não ir concertando as coisas de modo a tornar o país mais justo.»
Perante uma evidência que ele próprio enuncia e reconhece, Passos
Coelho promete ser mais rigoroso com… a atribuição do rendimento social de
inserção. A julgar pela sua entrevista ao Público, é assim que ele pretende, digamos, tornar o país mais justo.
Rimos ou
choramos?
* Os três tabuleiros de Passos Coelho: «contas públicas em ordem»; «tornar o país mais competitivo» e, digamos, «tornar o país mais justo». Riam, riam.
* Os três tabuleiros de Passos Coelho: «contas públicas em ordem»; «tornar o país mais competitivo» e, digamos, «tornar o país mais justo». Riam, riam.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Pré-coito
Ela faz as despesas da conversa. Ele solta uns monossílabos,
muito de vez em quando, como o ajudante de maquinista punha carvão na fornalha
da locomotiva quando ela circulava sem pressas em terreno plano — displicente e
sem encher a pá, o grosso do tempo encostado ao cabo. No caso, é o garfo que
fica frequentemente na vertical sobre o prato, ao jeito das crianças em luta
com as couves, embora ele não recoste a cabeça rapada na mão. A aposta fácil é
a de que o tipo, grandalhudo, se aborrece, escolheram a sala sem TV. Para
beber, uma garrafa de tinto. Na frente dele, uma parede cujo branco já viu melhores
dias; na dela, a três mesas de distância, alguém lê o jornal e na mudança de
página espreita os comensais.
Magra, frágil, defende-se erguendo uma barreira de palavras. Ou, não a subestimemos, ataca como pode, com uma salva de artilharia que tenta confundir o inimigo. As molduras na parede são de súbito o motivo da conversa e ele é obrigado por momentos a abandonar a sua pose egípcia para se revelar tridimensional, mas fá-lo ainda em silêncio, aparentemente desinteressado, talvez a recapitular os últimos resultados da champions league.
À passagem para as páginas internacionais, ouve-se a voz dela, um ou dois decibéis acima do discurso ininterrupto de antes. Alta o suficiente para se sobrepor aos últimos trambolhões do euro. «Aborreces-me!», diz ela. O tipo do jornal levanta a cabeça e tenciona chamar o funcionário: alguém mexeu na decoração sem pré-aviso, ou mudaram de canal sem o consultar. Acha que tem uma palavra a dizer no que toca à escolha dos programas — mesmo que afinal não haja televisão. Mas logo esquece isso para se maravilhar com a natureza humana. O cenário que tinha dado por adquirido a três mesas de distância sublevou-se e o que pode observar agora é um gajo careca e tímido que tenta segurar nas mãos e beijar os dedos finos da amada. E uma tipa magra com ar de megera que sonega a osculice do imbecil que aceitou ter por conviva. Ela esbofeteia-o depois repetidas vezes com as pontas dos dedos. Não o quer ferir, não fisicamente. Mas não se importa de o humilhar perante o tipo que se debate ruidosamente com o jornal. E o parceiro fala, por fim, solta umas palavras em voz fina, trémula, uma voz que lhe reduz o corpanzil ao recheio de um peluche: «Môr...»
Por alturas do editorial, que no Público vem nas últimas páginas, como se sabe, o que se vê é a cabeça dela entre as mãos dele, a cabeça dele sobre a cabeça dela, tudo em cima da mesa, rebolando, mas sem semelhanças com o judo ou o sumo — uma ronronice de felinos em pré-coito. A garrafa está vazia.
Magra, frágil, defende-se erguendo uma barreira de palavras. Ou, não a subestimemos, ataca como pode, com uma salva de artilharia que tenta confundir o inimigo. As molduras na parede são de súbito o motivo da conversa e ele é obrigado por momentos a abandonar a sua pose egípcia para se revelar tridimensional, mas fá-lo ainda em silêncio, aparentemente desinteressado, talvez a recapitular os últimos resultados da champions league.
À passagem para as páginas internacionais, ouve-se a voz dela, um ou dois decibéis acima do discurso ininterrupto de antes. Alta o suficiente para se sobrepor aos últimos trambolhões do euro. «Aborreces-me!», diz ela. O tipo do jornal levanta a cabeça e tenciona chamar o funcionário: alguém mexeu na decoração sem pré-aviso, ou mudaram de canal sem o consultar. Acha que tem uma palavra a dizer no que toca à escolha dos programas — mesmo que afinal não haja televisão. Mas logo esquece isso para se maravilhar com a natureza humana. O cenário que tinha dado por adquirido a três mesas de distância sublevou-se e o que pode observar agora é um gajo careca e tímido que tenta segurar nas mãos e beijar os dedos finos da amada. E uma tipa magra com ar de megera que sonega a osculice do imbecil que aceitou ter por conviva. Ela esbofeteia-o depois repetidas vezes com as pontas dos dedos. Não o quer ferir, não fisicamente. Mas não se importa de o humilhar perante o tipo que se debate ruidosamente com o jornal. E o parceiro fala, por fim, solta umas palavras em voz fina, trémula, uma voz que lhe reduz o corpanzil ao recheio de um peluche: «Môr...»
Por alturas do editorial, que no Público vem nas últimas páginas, como se sabe, o que se vê é a cabeça dela entre as mãos dele, a cabeça dele sobre a cabeça dela, tudo em cima da mesa, rebolando, mas sem semelhanças com o judo ou o sumo — uma ronronice de felinos em pré-coito. A garrafa está vazia.
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